cumprimentar, quasi envergonhados do seu _á vontade_, como n'um casino,
e os que estavam á janella olhando para o rio, d'águas tranquillas,
notando como corria leve um vapor que sahia a barra, empennachado de
fumo, esses deixaram-se ficar onde estavam, baixando ligeiramente a
cabeça, com cerimonia, nenhum d'elles sabendo quem era aquelle senhor.
--Não sei se incommodo v. exas...
--Ora essa! Por forma nenhuma.
--V. ex.ª é...
--O pintor da casa.
E logo poz em cima da mesa, procurando posição conforme a luz, duas
telasinhas de meio metro, ricamente emmolduradas, uma reproduzindo um
trecho de paysagem alemtejana, n'um entardecer d'agosto, e outra
representando uma commissão de sardinhas vindo cumprimentar um goraz,
pelos seus trabalhos maritimos.
--E V. ex.ª traz isto...
--São os meus decretos; trago-os á assignatura.
* * * * *
_O sr_. _D. Carlos tambem hontem não assistiu á tourada no Campo
Pequeno._
(Dos jornaes).
--Está aqui tudo?
--Creio que não falta nada.
Poz a mala em cima d'uma cadeira, para não estar a dobrar-se muitas
vezes, e foi tirando peça por peça. D'ahi a pouco estava inteiramente
transfigurado. As suissas assentavam-lhe na perfeição, e os oculos de
ouro, com vidros sem grau, transformaram-lhe de tal modo a physionomia,
que ninguem, mesmo dos seus familiares, o conheceria sob aquelle
disfarce. As calças é que lhe ficavam um boccadinho justas nas pernas, e
o collete, se fosse um tudo nada mais comprido, dir-se-ia ter sido feito
para elle--por medida e com prova. Pegou na bengala, de castão de prata,
poz na cabeça um Panamá, quebrado na frente, e carregou no botão d'uma
campainha electrica.
--Se não soubesse...
--De primeira ordem, não é verdade?
--Uma transfiguração á Rocambole.
--Obrigado pelo cumprimento; mas como tu é que me escolheste a farpela...
--Limitei-me a cumprir fielmente as indicações recebidas.
--De modo que não haverá perigo...
--Absolutamente impossivel conhecel-o, disfarçado como está.
--Pois olha, já que entrei n'este caminho, quero fazer a coisa completa.
Has de comprar-me um bilhete de sol.
Quando entrou na praça, ainda as cortesias não tinham começado. Arranjou
um logar ao pé da musica, e poz-se a fumar um cigarro ainda por
disfarce. Á hora marcada, com uma pontualidade fóra do costume, a função
principiou. Estava interessado, contente e ancioso, como se pela
primeira vez assistisse a um espectaculo ardentemente desejado.
Surprehendia-se a gritar com toda a força, quando o _sol_ inteiro
gritava e ainda teve o chapéu na mão, para o atirar ao redondel,
enthusiasmadissimo com um _cambio_.
No intervallo, como não sahisse o visinho da direita, pedindo-lhe fogo,
entrou a dar-lhe conversa.
--Vê-se que o amigo é amador.
--Como poucos. Isto é um divertimento real.
--Lá isso real...
--Pois sim... Mas o rei vem aqui muitas vezes?...
--Vinha muitas vezes, é o que você quer dizer...
--E agora já não vem?
--Acho que cortou a coleta.
--Elle, afinal, tudo aborrece.
--Ora ahi está. E foi exactamente por ver que aborrecia, que elle deixou
de apparecer. Sabe o amigo uma coisa? Tenho estado a reparar que você se
parece...
Não acabou a phrase. Já o outro se tinha levantado, a fingir que alguem
o chamava.
D'ahi a pouco, no mesmo quarto em que mudára de farpela, dava-se a um
trabalho de mil demonios para se desembaraçar das calças, muito justas
nas pernas.
--Ninguem desconfiou, é claro?
--É claro que desconfiaram. Um gajo que estava sentado ao pé de mim, se
me não safo tão depressa...
--E disse-lhe alguma inconveniencia?
--Lá bem inconveniencia...
--O melhor, para outra vez...
--O melhor para a outra vez, é não ir lá. Corto definitivamente a coleta.
--E a _quadrilha_?
--Lá isso fica como estava.
E atirando com as suissas para cima da cama, a meia voz com despreso:
--Isto é que é uma cambada!...
* * * * *
_O sr. João Franco acompanhou o Principe Real á festa das creanças,
e pronunciou alli um grande discurso._
(Dos jornaes).
--Muito interessante a festa, não é verdade?
--Sim, foi interessante.
--Muitas creanças, muitas flores, um dia lindo de sol... Aposto que
estava a saltar-te o pé para o meio do rancho, rindo e brincando como
todos, como se fossem todos do mesmo collegio?
--Tu estás doida, avósinha? Comprehendo muito bem os deveres do meu
cargo, e em nenhuma situação me esqueço de quem sou, e do que represento.
--Bravo, meu filho! gosto de te ouvir falar assim, porque isso me prova
que serás um dia o representante illustre dos teus illustres antepassados.
--Assim o espero.
--Assim o creio. E falaste ás creanças?
--Não, avósinha. Ninguem me disse para lhes falar, nem eu sabia o que
havia de dizer-lhes.
--Por certo, não sabias; mas se isso fosse uma razão para não falar,
muita gente estaria calada n'este paiz de palradores. Quem falou então?
--Houve só um discurso...
--Sim, está claro, falou s. ex.ª. E o que disse?
--Para te falar com franqueza, avósinha, eu pouco ouvi do que elle
disse. Mesmo na minha frente estava um garoto vestido de marinheiro,
muito interessante, que passou todo o tempo a fazer cocegas no pescoço
de uma senhora muito gorda, de nariz abatatado, que estava adiante
d'elle, na fila immediata. De cada vez que o rapazinho lhe passava um
canudinho de papel, muito delgado, pela pennugem do cachaço, atraz das
orelhas, a velha fazia umas caretas muito exquisitas, aflicta, com medo
de perder a linha em momento tão solemne. Não imaginas como era
divertida a velhota. Divertida e estupida, porque nunca desconfiou do
garoto, que se encolhia todo para não desatar ás gargalhadas. De modo
que...
--De modo que não ouviste o discurso de s. ex.ª.
--Não ouvi tudo, é certo; mas alguma coisa ouvi. Por exemplo, ouvi-lhe
dizer que n'outros tempos os povos eram dos reis, e que hoje os reis são
dos povos. Que quer dizer isto, avósinha?
--Quer dizer, meu filho, que n'outro tempo, os creados recebiam ordens
dos patrões, e cumpriam-n'as; hoje os patrões recebem ordens dos
creados, e cumprem-n'as.
--Credo! Mas isso é o fim do mundo.
--Pede a Deus que não seja o fim da dynastia.
* * * * *
_O enterro de hontem foi uma extraordinaria affirmação da força do
partido republicano em Lisboa._
(Dos jornaes).
Estava inquieto, n'uma ancia por noticias, quando lhe foram dizer que
estava o jantar na mesa.
Que teria havido!
Por certo o cortejo seria numeroso, mas aprazia-lhe acreditar que a
manifestação, embora significativa, não fosse de molde a tornar ainda
mais evidente o desprestigio do seu nome, já bastante desprestigiado.
Esquecia-se de comer, e não despregava os olhos da porta, esperando
vel-o apparecer a cada momento, portador da boa nova, dando-lhe a
segurança de que era já outra a atmosphera da cidade, onde elle poderia
respirar com desafogo, quando quizesse, farto de correrias fóra de
portas, a monte como os leprosos na antiguidade, e como os criminosos
ainda hoje, quando puderam fugir á justiça.
Que teria havido!
Todos lhe notavam a preoccupação na physionomia transtornada, e todos
sabiam o que lhe dava origem, a verdadeira causa daquelle mal-estar. De
modo que o jantar ia correndo silencioso, quasi funebre, ninguem se
atrevendo a arriscar uma palavra banal, o mais leve dito que pudesse
desafiar o mau humor do pobre tomate recheiado. Fazia dó, mas ao mesmo
tempo mettia medo, como se fosse um obuz carregado de grosserias, que
uma creança maldosa pretendesse descarregar contra um homem delicado.
Parecia aquella ceia da Lucrecia Borgia, em Ferrara, descripta por
Victor Hugo.
De repente, abre-se a porta, e um reposteiro annuncia o homem. Estava-se
nas fructas.
--Então?...
--Muito maior do que seria licito esperar. A cidade inteira, póde
dizer-se, tomou parte na manifestação, grandiosa como nenhuma outra,
d'essas que andam na memoria dos homens.
--De modo que o prestigio d'essa creatura...
--Peço desculpa; o que atravessou a cidade, por entre alas compactas de
povo, seguido de milhares de pessoas, não foi o cadaver d'um homem...
--Foi então?...
--Foi o prestigio d'uma ideia.
Ficou por instantes suspenso, como se lhe fugisse o espirito para uma
região de trevas. Logo voltou a si, como quem acorda d'um mau sonho, e
acabando de descascar uma laranja, voltando-se para o peniculario que
lhe ficava mais perto:
--Olha lá, ó marquez, dize aos teus collegas da cozinha que não deitem
fóra estas cascas.
No outro dia annunciava-se uma crise em todos os jornaes.
* * * * *
_O rei, que hontem devia presidir ao conselho de ministros, partiu
para Biarritz, onde se encontra sua noiva._
(Telegramma de Madrid).
Pois se elle tem vinte annos!..
Queriam então vel-o amarrado ao throno, recebendo conselheiros e
ministros, aturando reposteiros e mordomos, quando a noiva está alli, a
algumas horas apenas da capital, chamando-o com insistencia de quem nada
póde e tudo offerece porque tudo espera receber em troca.
Pois se elle tem vinte annos apenas!...
Talvez que no seu sangue toda a podridão d'uma raça; mas a mocidade é
uma especie de azougue, capaz de fazer erguer um morto, dando-lhe uma
vida ephemera.
Pois se elle é tão novo!...
Queriam então prendel-o alli, n'aquelle deserto de Madrid, aturando
conselheiros e ministros, gente da burocracia e bugigangas heraldicas,
quando ella está a poucas horas da capital, talvez a alongar os olhos na
direcção da Hespanha, na esperança de vel-o surgir na sua frente,
radiante de mocidade.
Pois se elle tem vinte annos apenas!...
E estranham então vel-o partir como um foguete, abandonando as redeas do
governo, doido d'amor como um Quichote real, para ir colher em Biarritz
as promessas d'uma felicidade sem limites prelibando uma ventura sonhada.
Pois se elle é tão novo!...
Depois ella é tão bella!...
* * * * *
_Amanhã, anniversario da rainha Maria Pia, não haverá recepção no
Paço._
(Dos jornaes).
--Venho dizer-te adeus...
--Para onde vaes?
--Para o mar. Na terça feira cá estou, para te dar os parabens.
Imaginavas que ia esquecer-me do teu anniversario?
--É verdade, o meu anniversario... Nem me lembrava.
Emquanto elle accendia um charuto, olhando distrahidamente uma
illustração ingleza, deixava ella pender a cabeça sobre o collo mirrado,
e evocava um tempo muito remoto, tão remoto que lhe parecia agora, na
desolação da sua viuvez, mais phantastico do que real.
O seu anniversario!
O throno era pequeno para a sua magestade, mas, em summa, sempre era um
throno e ella nascera para reinar. Na sua cabelleira loira, como a das
virgens de Raphael, o diadema régio tinha scintillações estranhas e
coruscantes, que ainda assim pareciam pallidas em comparação dos seus
olhares, em que havia toda a ardencia do sol dos tropicos, e toda a
limpidez do crystal da rocha.
Tambem ella reinára!
Outros imperantes se tinham curvado na sua presença, e milhares de
cortezãos tinham solicitado a esmola d'um sorriso ou d'um olhar, que
ella nem sempre lhes concedia, muito altiva, muito sobranceira, no
throno, julgando-se muito perto do Olympo, e fóra do throno vendo-se
muito acima da humanidade vulgar.
O seu anniversario!
Fechava os olhos para tornar mais intensa a evocação, e logo via o
desfile do immenso e luzido cortejo--os diplomatas com os seus
fardamentos ricos, bordados a oiro; os ministros com as suas librés de
luxo, salpicadas de veneras; os bravos militares suffocando impetos
guerreiros, n'uma attitude de respeitosa fidelidade, e o numero infinito
de fidalgos e fidalgas dobrando o joelho no primeiro degrau do throno e
babujando-lhe a mão aristocratica com a saliva do cortezanismo mais
rasteiro e mais falso.
O seu anniversario!
De repente, e como se reatasse uma conversa interrompida pousando o
charuto sobre o cinzeiro de prata, e tomando-lhe entre as mãos a face
apergaminhada, n'uma caricia muito terna:
--Não, fica certa que não me esqueço dos teus annos, e verás como sou
gentil...
--Sim, não te esqueças. E pois que desejas mostrar-te gentil para
commigo, mais uma vez, poupa-me ao desejo e á baixeza de receber os teus
creados de pasta.
E não houve recepção.
* * * * *
_Amanhã tem logar a abertura do congresso republicano no Porto.
Espera-se que o sr. D. Carlos assista hoje á tourada, no Campo
Pequeno._
(Dos jornaes.)
--Está doente?...
--Pelo contrario, nunca me senti com tanta saude como agora. De certo,
se estivesse doente, era natural que fizesse chamar um medico, e não o
presidente...
--Sem duvida; mas chamado tanto á pressa, com a maxima urgencia...
--É que na verdade o caso é urgente. Não adivinhas do que se trata?
--Por mais voltas que dê á imaginação...
--Não vale a pena dar-lhe grandes voltas, porque pode transtornar-se.
Sabes que dia é amanhã?
--É domingo.
--E sabes que ha tourada no Campo Pequeno?
--Como não sou aficionado...
--Não sabias? Pois ficas sabendo agora. Ha tourada, e trabalha o
Fuentes. Quer isto dizer que será uma tarde cheia. Como os typos estão
lá para o norte, a palrar, eu resolvi ir aos touros ámanhã.
--Isso não pode ser! Eu não posso tomar a responsabilidade...
--Tomo-a eu, deixa lá. Em não apparecendo os cabecilhas, a arraia miuda
não abre bico!
--Ahi é que está o engano. Aquella gente não se move por cordelinhos;
pensa pela sua cabeça; tem iniciativa propria, e procede como lhe parece
melhor.
--E tu imaginas que hei de passar n'isto a vida inteira?
--A vida inteira, não; mas por ora tem de ser assim.
--E se eu não quizer que seja assim?
--Se não quizer que seja assim...
--Como será então?
--Então... será peior!
* * * * *
_O teu amor e uma cabana!_
Fôra uma loucura aquelle amor.
Tinham-se encontrado na Figueira, estava ella a banhos, e elle fôra alli
de visita a uns parentes da Bairrada, que não via desde annos. Como se
andassem pelo mundo á procura um do outro, apenas se viram uma manhã, na
Praia, amaram-se doidamente, e foi milagre que não desatassem logo a
tagarelar, tu cá, tu lá, e tomassem banho juntos.
Á noite, no Casino, a indispensavel apresentação, e logo se seguiu um
_pas de quatre_, em que os dois eram eximios. Marchou aquillo tão
depressa, que já eram noivos quando regressaram ao Porto, onde ella
tinha os paes e elle o emprego, um modesto emprego de despachante, que
lhe rendia vinte mil réis por mez.
Todas as noites ia falar-lhe, já recebido como da familia e sempre a
encontrava encostada a uma pequenina mesa quadrada, um livro de versos
na mão esquerda, marcando a pagina com o dedo, e em toda a sua gracil
pessoinha um ar de alheiamento e de sonho, que o fazia estacar á entrada
da sala, n'um extase de devoto.
--Que languidez, Virgem Santa!
Casaram, está bem de ver, e foram padrinhos aquelles parentes da
Bairrada, que elle tinha ido visitar á Figueira, onde ella estava a
banhos. Ninguem a ensinára a trabalhar, e como elle só tinha o seu
ordenado de despachante, uns vinte mil réis por mez, era impossivel
metter creada, de modo que andava tudo desarrumado, a comida era mal
feita, nunca estava prompta a horas, e quando uma rabanada de vento
entrava pela janella, era como redemoinho correndo ao longo d'uma
estrada poeirenta. Mas todas as noites, quando recolhia, farto de cuspir
no café, ia encontral-a, como n'outro tempo, encostada a uma pequenina
mesa quadrada, um livro de versos na mão esquerda, marcando a pagina com
o dedo. E ao vel-a assim descuidada n'um grande ar de alheiamento e de
sonho, toda a sua gracil pessoinha como que envolvida n'uma atmosphera
de languidez quasi morbida, estacava á entrada da sala, como n'outro
tempo, murmurando por entre dentes:
--Que desmazelo, meu Deus!
* * * * *
_Dio del oro, del mundo signor._
Noite de festa.
Tinham-se vendido todos os logares, e ninguem dispensava o seu bilhete
como se fosse um decimo de loteria, com probabilidades conhecidas de
sair n'elle a sorte grande.
--Compra-se uma cadeira!
--Ha quem venda uma geral ou camarote?
Eram vozes clamando no deserto... d'uma multidão compacta, junto ao
_guichet_, todos sabendo que não entrariam, mas ninguem tendo a coragem
de se ir embora.--Quem sabe? Uma familia que se enlutou á ultima hora, e
manda vender o seu camarote; um honrado negociante que precisou de
abalar para o Alemtejo, e manda vender o seu _fauteuil_.
Era noite de festa.
Havia flores por toda a parte; colchas ricas pendiam dos camarotes, em
todas as ordens, de modo que a sala tinha assim, por virtude d'aquella
polychromia bizarra, um aspecto singularmente phantastico, em que se
perdiam os olhos, n'um encanto. Mulheres ricamente vestidas, largamente
decotadas, eram como fructos de carne em papel de seda, e formavam uma
galeria de bustos sem egual, em que tivessem collaborado todos os
esculptores de genio.
Era noite de festa.
Quando se ergueu o panno, sobre as ultimas notas da orchestra, pareceu
que um jogo habil de espelhos transferira ao palco aquellas flôres
magnificas que havia por toda a parte, aquellas colchas ricas que
pendiam dos camarotes, n'uma polychromia bizarra, no meio da qual se
destacavam bustos admiraveis de mulheres, como se fossem outros tantos
peccados irresistiveis, servidos em papel de seda pelo demo tentador.
No segundo acto, quando Ella appareceu, foi como se uma corrente
electrica, mysteriosa e divina, percorresse toda a sala, visto como
todos se levantaram, n'um movimento egual e isochrono, para a mais
amoravel e sincera ovação de que possa haver registo.
Muito fria, muito pallida, as lagrimas gelando-se-lhe a meio das faces
apergaminhadas, um sorriso apagando-se-lhe nos labios resequidos, avança
para agradecer, n'um automatismo quasi de somnambula, e logo recua,
soltando um grito, deixando-se cahir, ao desamparo, n'um _divan_, que
para alli tinham posto.
Estava morta.
No escriptorio, verificando o producto da récita, n'aquella noite
festiva em que havia flores por toda a parte, e, entre colchas d'uma
polychromia bizarra bustos esculturaes de mulheres eram como grandes
fructos de carne servidos em papel de seda, o emprezario commentava:
--Que raio de sorte! Já estavam passados todos os bilhetes para ámanhã!
* * * * *
_Quando o cortejo se dirigia da Egreja para o Palacio uma bomba foi
atirada d'uma janella, fazendo grandes estragos. Os reis nada
soffreram._
(Dos jornaes, em telegramma de Madrid).
Emfim!
Acabavam de ligar-se para sempre, ella radiante de belleza, elle
radiante de felicidade, os dois sonhando mil cousas loucas, n'uma
ebriedade d'amor que os punha fóra do mundo real.
--Querida Eugenia!
--Querido Affonso!
Parecia-lhes pequeno o templo, para conter a sua ventura, e aquella
multidão que os rodeava, fixando-os com muita insistencia, tinha assim
os ares de quem espreita com inveja, e se compraz em ser incommodo. Por
maneira que ao chegarem ao adro, ella radiante de belleza, elle radiante
de mocidade, respiraram com muita força, e teriam caido nos braços um do
outro, ebrios de amor, se um grito de saudação, reboando pelos ares, não
os chamasse á realidade!
Já no trem, por ahi fóra, marchando lentamente, como n'uma procissão, os
ouvidos cerrados a tudo que não fosse o encanto dos seus proprios gestos
intencionaes, elles architectavam mil coisas loucas na sua mente
escandecida, e como que prelibavam o infinito prazer d'uma posse
ardentemente desejada.
N'isto ouve-se uma explosão horrivel, e um grito formidavel de terror
sae de milhares de boccas, n'um unisono perfeito. É um momento de
confusão indescriptivel, e nem se ouvem os gemidos dos que sofrem, nem
se dá pelas convulsões dos que agonisam, porque a attenção dos que não
fugiram concentra-se totalmente n'aquellas duas creanças--ella radiante
de belleza, elle radiante de mocidade, os dois ainda ha pouco sonhando
mil coisas loucas, n'uma ebriedade d'amor, que os punha fóra do mundo real.
Estavam salvos.
A commoção fôra extraordinaria, sendo milagre que um estilhaço de bomba
não tivesse reduzido aquelle idilio esponsalicio a um noivado de
sepulcro--como se não fosse abominavel atirar para o nada uma existencia
que alvorece.
--_Yo te probaré hoy que soy digna de ser tu mujer._
Fôra realmente extraordinaria a commoção, de modo que já no leito, sob a
luz muito baça, muito tenue d'uma lampada ao centro da alcova, tendo
ainda nos ouvidos o estrondo d'uma bomba que rebenta, e como que vendo
alli, no isolamento d'aquelle ninho, creaturas que estremecem nos
paroxismos de uma morte irremediavel, elle que mostrára uma coragem
estoica no meio do perigo, recommendando a todos _calma, mucha calma! No
ha pasado nada_, elle sente-se agora d'uma fraqueza infantil, quasi
covarde, anniquilado como se entrára n'uma lucta com cyclopes. E então
muito calmo, muito resignado, como quem acceita os fados, mordendo-lhe
os beiços que ella estendia n'uma momice cheia de graça:
--_Yo te probaré mañana que soy digno de ser tu marido._
E foi como se na virgindade d'aquelle leito repousassem duas creanças
gemeas.
* * * * *
_O governo resolveu supprimir todas as gratificações por serviços
extraordinarios._
(Dos jornaes).
Iam alli implorar a protecção de S. Ex.ª.
--De que se trata então?
--Somos tres chefes de familia, tres honrados servidores do Estado que
vimos...
--Está bem; mas o que desejam?
--Como V. Ex.ª sabe, acabaram as gratificações, e aquelle de nós tres
que mais ganha não chega a ganhar trinta mil réis mensaes, sujeitos a
descontos.
--Perfeitamente; mas os senhores são empregados...
--Saberá V. Ex.ª que da Alfandega.
--Ora é isso mesmo, da Alfandega. Eu não posso augmentar-lhes o
ordenado, e como a verba das gratificações foi supprimida.
--Se V. Ex.ª dá licença...
--Como a verba das gratificações foi supprimida, e não depende de mim
restaural-a...
--Se V. Ex.ª quizesse ter a bondade de se interessar por nós, mesmo sem
nos augmentarem os ordenados e sem restabelecerem as gratificações...
--A accumulação de serviços equivale a uma gratificação...
--Queira V. Ex.ª desculpar, mas tudo se arranjaria facilmente se o sr.
conselheiro quizesse ter a bondade de nos tomar sob a sua protecção...
--É que não vejo maneira...
--O que nós pedimos é muito pouco, e não é preciso tiral-o ao Estado, ou
a quem quer que seja.
--Em summa, o que é que os senhores desejam?
--Nós desejávamos ser nomeados... gatos da Alfandega.
--Gatos da Alfandega?!!...
--É verdade, sr. conselheiro, gatos da Alfandega. Isso daria uns 9$000
réis por mez, a cada um, o que seria uma ajudasinha para a renda da casa.
--Os senhores vieram aqui para se divertirem commigo?
--Ó sr. conselheiro, pelo amor de Deus! Nós viemos aqui implorar a
valiosissima protecção de V. Ex.ª, juramol-o pela bôa saude das nossas
mulheres e dos nossos filhos...
--Gatos da Alfandega! Mas então os senhores perderam o juizo?
--Não, senhor conselheiro; o que nós perdemos foi a gratificação.
--Ou anda tudo doido, ou eu não sei onde tenho a cabeça. Mas o que vem a
ser isso de gatos de Alfandega?
--Saberá V. Ex.ª que havendo milhões de ratos na Alfandega, sem respeito
nenhum pelas mercadorias que alli se acham depositadas, e havendo todos
os dias reclamações por causa dos prejuizos que estes causam, foi creada
a corporação dos _Gatos da Alfandega_, para a sustentação da qual ha uma
verba de proximamente trinta mil réis por mez.
--Está bem; mas se essa verba é para sustentação dos gatos...
--Desculpe V. Ex.ª; mas se esses empregados cumprem rigorosamente o seu
dever, apanhando os ratos, não precisam que os sustentem, porque
arranjam elles proprios os seus sustentos; e se alli estão só para
receberem o ordenado, deixando os ratos em liberdade, não é justo que se
gaste com elles um dinheirão, ao passo que honrados chefes de familia...
--Pois está bem; vou informar-me do caso e prometto-lhes interessar-me
pelos senhores.
--Muito obrigado, sr. conselheiro, muito agradecido a V. Ex.ª
Tinham dito a verdade os honrados chefes de familia, e porque o
conselheiro não era homem que faltasse á sua promessa, foram os tres
nomeados gatos da Alfandega, como poderiam ser nomeados secretarios do
ministro, ou revisores do caminho de ferro.
Os verdadeiros gatos emigraram, e uma commissão de ratos foi
cumprimentar os tres honrados chefes de familia, quando viram as
nomeações no _Diario do Governo_.
* * * * *
_Deve se ao sr. Casimiro José de Lima, director da casa da moeda, o
monumento a Souza Martins, erecto no Campo de Sant'Anna._
(Dos jornaes).
Eram congressistas.