O sol é como um brazeiro apagado, que ainda conservasse luz

Produced by Pedro Saborano

AO DE LEVE

_Composto e impresso na Imprensa_

_de Manuel Lucas Torres_

_Rua do Diario de Noticias, 93_

BRITO CAMACHO

_Ao de leve_

1913

Livraria Editora

GUIMARÃES & C.ª

68, Rua do Mundo, 70

LISBOA

* * * * *

_O estudante que hontem, no Rocio, foi attingido por uma bala na

cabeça, já falleceu._

(Dos jornaes).

Como não havia de adoral-o, se era seu filho unico!

Para mais, elle era o retrato vivo do pae, com todas as qualidades e

todos os defeitos--se um filho póde ter defeitos para a mãe que o

estremece!

Ficára com elle nos braços, viuva pela maior das fatalidades, quando

ainda não tinham seccado de todo as flores de laranjeira que lhe tinham

posto no cabello no dia do seu casamento, e nas suas faces havia ainda

um pouco do rubor intenso com que as haviam tingido os beijos loucos que

elle lhe dera, já seu marido, ao voltarem da Egreja.

Annos e annos chorára a sua viuvez, e mesmo quando o filho lhe extendia

os bracitos gordos, muito risonho, as suas lagrimas não estancavam. Mas

o sau pranto já não era só de dor; a desgraça ainda lhe escaldava a

garganta com soluços que lhe vinham do coração, mas já lhe nimbava a

alma a promessa d'uma felicidade remota. No filho via o marido--era como

se dentro de um tumulo assistisse ao esplendor d'uma aurora.

Se não havia de adoral-o, a pobre mãe!

Quando elle lhe saiu de casa para continuar os estudos, pareceu-lhe que

ficava viuva pela segunda vez. As suas cartas mitigariam a sua saudade,

e ella havia de lel-as com tamanha devoção, evocal-o com tanto amor, que

a leitura seria afinal uma conversa entre ambos, elle a enxugar-lhe os

olhos com beijos, e ella a lavar-lhe as faces com lagrimas.

Já então elle era quasi um homem, alto e desempenado, uma pennugem leve

prenunciando um bigode negro, que seria talvez farto e provocador como o

do pae. Muito estudioso, e, ao mesmo tempo, muito intelligente, contava

as distincções pelos exames, nunca se rebaixando a esmolar uma

protecção, mantendo sempre perante os mestres uma attitude que, nem por

ser respeitosa, deixava de ser altiva. Ainda n'isso elle era como o pae,

orgulhoso sem presumpção, delicado sem maneirismos, altivo sem arrogancias.

Como não havia de adoral-o!

Surprehendia-se a fazer projectos de vida em commum, quando elle

acabasse os estudos, e fosse, para aqui ou para além, exercer a sua

profissão. Já a deixariam livre os negocios da sua casa, que a retinham

agora separada d'elle, a contar o tempo pelo seu amor, e a achar os

mezes infinitamente mais compridos do que dizem os kalendarios.

Talvez elle um dia casasse; mas nem assim o deixaria, humilde na casa

alheia, fazendo-se util, sendo prestimosa, realizando quantos milagres

fossem precisos para se tornar indispensavel. Pois se elle era a unica

razão da sua vida, como poderia alguem roubar-lh'o sem ao mesmo tempo a

matar?

Recebia as suas cartas em dias certos, e nunca elle deixára de lhe

escrever com a mais rigorosa pontualidade. Ás vezes eram apenas quatro

linhas, meia duzia de palavras que ella humedecia com os olhos, para as

enxugar com os labios.

Como não havia de adoral-o, a pobre mãe, se elle era o seu filho unico,

para mais o retrato vivo do pae, com todas as suas qualidades e

defeitos--defeitos que para ella eram qualidades!

Ora succedeu que n'aquelle dia, estando como de costume á espera do

carteiro, viu que elle passava pela sua porta, sem entrar. Era lá

possivel não ter carta? Provavelmente confundira-a no maço, e só daria

por ella finda a distribuição. Viria então entregar-lh'a.

Passou uma hora, passaram duas horas, passou uma eternidade, e o

carteiro não voltou.

Estaria doente? Ter-lhe-ia acontecido alguma desgraça?

Distrahidamente, quasi sem intenção, pega n'um jornal. O coração deu-lhe

um salto dentro do peito, como se a um leão dentro de uma jaula lhe

enterrassem nas carnes uma choupa em braza.

Houvera tiros, houvera espadeiradas, como n'uma batalha. Do campo tinham

retirado muitos feridos, tendo lá ficado alguns mortos.

Foi lendo, lendo tudo, devorando as columnas do jornal, á procura d'um

nome, na ancia d'um condemnado á pena ultima, que um indulto póde salvar.

Esse nome lá estava. Ferido com uma bala na cabeça, fôra levado ao

hospital, onde os medicos verificaram o obito.

Não chorou, não soluçou, não gemeu, anniquilada por completo.

Quando voltou á consciencia da realidade, ainda tinha nas mãos o jornal.

Serena e tragica, como se debruçada sobre uma sepultura visse lá dentro

o proprio coração; tragica e dolorida como se lhe pezasse n'alma todo o

soffrimento humano; morta para o amor, abrazada em odio:

--Mataram o meu pobre filho! Maldito seja para sempre, na sua

descendencia, o miseravel assassino!

Como não havia de adoral-o, a pobre mãe, se elle era o seu filho unico!

* * * * *

_Se fores um dia ao mar,_

_Que a fortuna te não deixe;_

_Bota a rede e vae-te embora,_

_--Quanto mais burro mais peixe._

Fôra creado de medico, e como a Natureza o dotára com bastante

intelligencia e um notavel espirito de observação, aprendeu mil coisas

com o doutor, a ponto de se julgar apto a fazer o que elle fazia. Depois

chocava-o aquella subalternidade de moço de consultorio, as pessoas que

entravam nem reparando n'elle, e algumas que n'elle reparavam tratando-o

sem cortesia. Farto d'aquelle viver, reconhecendo-se talhado para mais

altos destinos, um dia pediu contas ao patrão, e abalou sem dizer para

onde.

Mezes passados, enchia a cidade a fama de um doutor novo, que fazia

verdadeiros milagres, havendo quem affiançasse que dera vista... a uns

poucos de aleijados, e cegára uma meia duzia de coxos. Por acaso o

doutor topou o milagrante collega na rua, e reconheceu n'elle o seu

velho creado, muito correcto, muito bem posto, tal qual um intrujão com

diploma. Ao outro dia, era um domingo, foi procural-o ao consultorio,

curioso de saber como aquillo era feito. No largo, junto ao adro da

Egreja, havia uma extraordinaria multidão.

--Quantas pessoas calcula o dr. que estejam além?

--Uns milhares.

--E quantas d'essas lhe parece que serão intelligentes?

--Algumas duzias.

--Pois essas formam a sua clientella; o resto pertence-me.

Vinha isto a proposito... a proposito... Ah! sim; a proposito da tiragem

do jornal, que o administrador acha pequena.

* * * * *

_A necessidade de equilibrar o orçamento póde obrigar o governo a

impôr sacrificios aos funccionarios._

(Dos jornaes).

Era manso como um cordeiro, e leal como um velho amigo.

O general montava raras vezes; mas ia todos os dias visitar o seu

_Turco_, limpar-lhe a mangedoira, pentear-lhe a crina, passar-lhe a mão

pelo lombo, n'uma caricia que o animal agradecia, olhando-o com ternura.

Ás vezes, a caminho do tanque, encabritava-se com o impedido, dando

saltos, como se quizesse fugir pelos campos fóra, no goso d'uma

liberdade que não conhecia, mas que adivinhava.

Lá em baixo, na varzea, as eguas pastavam tranquillamente; e os poldros,

virgens de toda a domesticidade, pulavam como cabritos, mettendo a

cabeça entre as mãos, e logo desatando n'uma correria doida, bebendo os

ventos, o pescoço muito extendido, o focinho alto, as narinas muito

abertas, respirando com estrondo. E era então que elle se encabritava

com o impedido, firmando-se nas patas trazeiras, dando grandes sacões

inuteis, porque a arreata era firme, e a mão que a segurava era forte.

Que bom devia ser a liberdade!

Por certo o tratavam bem; mas aborrecia-lhe aquella vida ociosa do

quartel, todos os dias a mesma coisa--comendo e bebendo por toques de

clarim, n'um automatismo de machina, com uma regularidade pendular. Mas

era manso como um cordeiro, leal como um velho amigo,--uma creança faria

d'elle o que quizesse. Ora succedeu que um dia foram dizer ao general

que o seu _Turco_ tinha rebentado o impedido com uma parelha de coices.

Não acreditou, mas entrando na cavallariça, viu o pobre diabo extendido,

soffrendo horrivelmente.

--Tu que fizeste ao cavallo!

--Nada, meu general.

--É mentira. Eu conheço-o muito bem. Que lhe fizeste?

--Saberá V. Ex.ª que elle estava a comer a ração, e vou eu, por

brincadeira, mexi-lhe na barriga.

--Pois ahi está. Não se mexe na barriga de quem come.

Era um grande philosopho, o general.

* * * * *

_Uma sogra nem de barro á porta._

Andava elle pelo Algarve a tratar de negocios, quando o chamaram a

Lisboa, por telegramma, com a maxima urgencia. Não lhe diziam do que se

tratava; mas, como era o medico quem lhe telegraphava, ficou n'um susto

de morte, calculando que ou a mulher ou o filho se encontrasse

gravemente doente. Pouco habituado a ser feliz, imaginou logo o peor.

O primeiro comboio partia d'alli a doze horas e, como ainda pudesse

servir-se do telegrapho, correu a pedir informações. Disseram-lhe que

era a sogra que adoecera no mesmo dia em que elle deixára Lisboa, e que

a doença se aggravava de momento para momento, receando-se um desenlace

fatal. N'um grande ah! de allivio e satisfação, como precisava de

assignar uma escriptura dahi a tres dias, foi-se deixando ficar, pedindo

que o informassem, por via telegraphica e postal, dos progressos da doença.

Receava elle, pouco habituado a ser feliz, que a doença não fosse em

progresso, e por isso queria receber noticias amiudadas, se fosse

possivel a toda a hora. A doente peorava a olhos vistos, e dizia o

medico que a pneumonia degenerava em typho, sendo possivel que houvesse

meningite á mistura. Elle tinha uma enorme confiança no doutor, que já

lhe assistira á morte de toda a familia, e a quem elle conservára o

partido, não para o tratar a elle, á mulher ou ao filho, mas tão sómente

para a sogra. Rematados os seus negocios, metteu-se no primeiro comboio,

com o coração aos baques, como quem aguarda uma sentença. Descia o

medico a escada, quando elle a subia esbodegado, e com bagas de suor

perlando-lhe a vasta fronte.

--... Vi-a morta, meu caro amigo. Lancei mão de todos os soccorros, e

posso dar-lhe a boa nova de que passou todo o perigo. A crise fez-se

hoje mesmo, e agora é só questão de tempo.

Subiu o resto das escadas a cambalear, como um ebrio, e atirando-se para

cima do sophá que havia na sala de entrada, n'um abandono de quem se vê

irremediavelmente ludibriado:

--E eu que tinha tanta confiança n'esta besta do doutor!...

* * * * *

_A policia, ajudada pela guarda municipal, fartou-se de espancar os

cidadãos pacificos, realizando muitas prisões._

(Dos jornaes).

A estrada, larga e poeirenta, passava junto á porta sempre aberta do

jardim, marginada de choupos e eucalyptos.

Toda a gente das aldeias proximas por alli fazia caminho, no giro da

vida ordinaria, homens, mulheres e creanças, alguns descalços, e outros

rotos, a maior parte sem pau nem pedra, gente pacifica como bois de

trabalho, muito pacifica e muito humilde.

Aos domingos, nos dias santos, quando havia festa n'alguma egreja do

sitio, por alli passavam ranchos de moças garridas, em cabello, cantando

e rindo, cada qual pelo braço do seu namorado, parando aqui e além, aos

abraços e beijos, como numa kermesse flamenga.

Pois era n'esses dias que o Pandorga, locatario do jardim, quasi

escondido por detraz de uma parede de buxo, atirava os cães para a

estrada, açulando-os ás canelas de quem passava. _Csi, csi_, e

arregalava o olho, guardado no seu esconderijo, rindo muito, sem fazer

barulho, quando os cães rasgavam as saias das raparigas ou as calças dos

homens, e muito mais quando lhe appareciam de rojo, após a lucta,

levando ainda nos dentes boccados de carne em sangue.

Ora succedeu que um dia havia festa alli perto; como o Pandorga açulasse

os cães--_csi, csi_--contra um bando alegre de camponezes, rapazes e

raparigas que iam passando a cantar, pacificos como bois de trabalho,

ouviu-se um estalo sêcco, como um rebentar de escorva, e o baque d'um

corpo que cae, lá adeante, por detraz da parede de buxo. Soube-se depois

que tinha morrido o Pandorga, e os cães nunca mais assaltaram as gentes

que passavam pela estrada, larga e poeirenta, e de quando em quando

paravam, abraçando-se e beijando-se, como n'uma kermesse de Rubens.

* * * * *

_Hontem, na praça de touros, houve uma ligeira manifestação de

desagrado á Familia Real. O rei não assistia ao espectaculo._

(Dos jornaes).

Falava-se muito das suas valentias, embora ninguem citasse d'elle uma

façanha authentica, com testemunhas de vista. Era volumoso, e d'ahi

concluiam que era forte; era gabarola; muita gente acreditava que elle

tivesse nos musculos tanta força como na lingua. Contava elle que d'uma

vez matára um boi com um sôco, e n'um dia em que passava rente a um

acampamento de ciganos, armados de cacetes e espingardas, como

percebesse que lhe faziam troça, desatou aos pontapés a toda aquella

malta, pregando com o mais atrevido no alto d'uma azinheira que estava

longe d'alli uns poucos de metros.

Os que melhor o conheciam, mofavam das suas farroncas; mas não faltava

quem acreditasse nas proezas de Ferrabraz, intrepido até ao sacrificio

da vida, sem lhe bulir um cabello. Ora succedeu que um dia, vindo com a

familia a caminho do arraial, n'uma aldeia da visinhança, alguem o

preveniu de que se preparava uma emboscada, lá adeante, n'um cotovêlo da

estrada antes de chegar á ribeira. E vae elle então, muito volumoso,

pallido como se todo o sangue lhe refluisse ao coração, os cabellos em

pé, como se visse deante de si a guela escancarada d'um leão com fome,

apalpa-se como quem procura alguma coisa, e batendo no hombro da

companheira:

--Vão lá andando, vão lá andando, que eu não me demoro; esqueceram-me os

charutos.

Não voltou, está bem de ver, e no outro dia, quando lhe contaram o

succedido, ameaçou o céu e a terra, espumando como um javali ferido.

--Se lá estivesse, rachava-os.

E pregou tamanho murro no cinzeiro de barro, que o fez em boccadinhos.

* * * * *

_Hontem o sr. Marquez de Soveral teve com El-Rei uma conferencia de

duas horas._

(Dos jornaes).

--Franqueza, franquezinha, ó coiso, essa historia da intervenção...

--Era pela certa. Hoje a politica é só de interesses, quem governa é a

finança.

--Bem sei, governa a finança; mas olha que isso de intervir sem mais nem

menos em negocios por assim dizer caseiros...

--Peço perdão; mas não se trata d'um negocio caseiro, nem mesmo d'um

negocio exclusivamente nacional.

--Hom'essa! Queres então dizer...

--Quero dizer que em torno d'este negocio se formou uma atmosphera de

interesses internacionaes...

--Olha que não tens publico, e essas lerias, cá para mim...

--Cumpro o dever que me impõe a minha posição, e testemunho assim,

dizendo a verdade inteira, sem restricções, a minha sympathia pessoal...

--Sim, senhor, és um artista. Vocês, os diplomatas, são como os homens

de theatro--mesmo quando estão fóra do palco, representam.

--Julgava-me com direito a maior consideração da parte...

--Tambem eu julgava que me tivesses na conta de menos tolo. Não me

conheces d'hoje nem d'hontem, para saberes que ninguem me faz o ninho

atraz da orelha.

--O que? Pois...

--Qual historia!... Acreditei todas as lerias que me impingiste, com uma

seriedade á altura das tuas prosapias...

--Não o fiz por menos respeito; o uso das formulas...

--É como o uso do cachimbo--faz a bocca torta. Sempre me sahiste um

gajo!...

--Espero que não fique zangado...

--Peior... Essa agora não é de diplomata, é d'alarve.

--Sempre amavel!...

--Sempre justo. Mas falando agora de coisas serias. Tu achas que eu devo...

--Ora essa! Está claro que deve. Da fama ninguem o livra, e as honras

sem proveito...

--E quanto achas tu...

--Em negocio de tanta monta, nunca se pede de mais.

--Pois sim, tudo tem limites. Ahi uns duzentos contitos, mais vintem,

menos vintem... Que te parece?

--Parece-me que, pedindo essa bagatela, dá provas d'uma grande

generosidade.

--Bem se vê que não és tu quem tem de esportular as massas. Pois está

dito; faço a coisa pelos duzentos.

--É como se lhes désse a elles trezentos e vinte, o que não é barro.

--Quero ser generoso...

--Do pão do nosso compadre...

--Pois sim, canta-lhe d'essas; mas se as coisas se complicam e me põem a

viola...

--Qual põem! Chego ás vezes a imaginar que tem medo.

--Tu não me digas isso outra vez, olha que te ponho os queixos á banda.

Eu nunca tive medo. Já d'uma vez, n'uma feira, se ergueu tudo contra

mim, sem saber quem eu era, e não arredei pé, de cacete em punho, sem

ninguem pelo meu lado.

--Bem sei, bem sei; mas se amanhã houvesse qualquer coisa, em menos de

nada estavam alli os cavalinhos de pau, e tudo entraria na ordem.

--E se me puzessem a andar antes d'elles cá chegarem?

--Isso então era o diabo. Uma intervenção tardia, depois do facto

consumado... Mas é absurdo o suppôr...

--Será absurdo, será; mas, pelo sim pelo não, vou dobrar a parada. Os

gajos repontarão?

--Que tem lá que repontem?...

--Está claro. Isto é como dizia o de Braga--ou comem todos, ou ha-de

haver moralidade.

* * * * *

_S. M. a Rainha, acompanhada da sua dama de serviço, andou hontem

distribuindo esmolas no bairro de Alfama, sem se dar a conhecer._

(Dos jornaes).

Não queria que a conhecessem.

Abalava de casa, vestida como toda a gente, sem nada que pudesse chamar

as attenções de quem quer que fosse. Era uma creatura como qualquer

outra, e passava, como qualquer outra, no meio da geral indifferença. Os

que a conheciam cumprimentavam-na--bons dias, minha senhora!--e os que a

não conheciam nem sequer davam por ella. O passo meudinho, muito

apressado, como quem marcha para um certo fito, sem se importar com o

resto. Entrava aqui, entrava além, fazia o bem que podia, e nem esperava

que lhe agradecessem os miseraveis a quem extendia a mão, deixando cahir

uma esmola. Como não se sabia quem fosse, chamavam-lhe a _Caridade_.

Envelheceu muito, como toda a gente que teima em viver e morreu um dia,

encarquilhada e secca, como a maior parte das velhas. Era a _Caridade

Evangelica_.

Tempos depois, nos mesmos bairros pobres entrou de apparecer uma

creatura exotica, dando nas vistas de toda a gente, obrigando a parar

quem passava, para a fixar com attenção. O passo largo, muito lento,

como quem não tem pressa, e que quer por força dar nas vistas. Entrava

aqui, entrava além, como quem passeia um reclame, e gostava que lhe

enchessem as mãos de lagrimas agradecidas os miseraveis a quem dava

esmola. Como não se sabia quem fosse, n'um dia que ella passava, o passo

largo, muito lento, quasi rythmico, dois miseraveis que a viam passar,

como quem passeia um reclame:

--É a Dona Caridade?

--Não; é a Exploração da Miseria.

* * * * *

_O Principe Real faz immensos progressos nos seus estudos, causando

a admiração dos seus professores._

(Dos jornaes).

Era um prodigio, o garoto.

Contava a parteira que elle olhára para traz, quando nasceu piscando um

pouco os olhitos ramellosos, como quem pretende ver melhor. Aos tres

mezes, já tocava com os deditos côr de rosa nos bicos, pouco salientes,

dos peitos da ama, pondo-os em erecção, para mammar melhor. Viam todos

que era um pequeno muito talentoso, e um boccadinho brejeirote. Aos

noves mezes dizia--bolas!--e foi essa a sua primeira palavra. Comia

de tudo, antes de fazer o anno, e larachava com os creados finos,

como se fosse uma pessoa grande. Era um prodigio, o demonio do garoto,

d'uma precocidade verdadeiramente excepcional. Um familiar da casa

perguntava d'uma vez ao medico, a proposito do fedelho--_Naturalmente,

um genio, doutor?_ E o doutor, encolhendo os hombros em ar de

duvida--_Naturalmente um idiota!_

Aos cinco annos já sabia tudo--quantas pernas tem um cão, quantas

orelhas tem um burro, quantos rabos tem um gato. Era prodigioso, e cada

dia que passava como que accrescia de muitos metros aquelle talento

incommensuravel. Aos nove annos era um geometra como Euclides, era um

historiador como Tacito, era um philosopho como Platão, era um pintor

como Raphael, era um poeta como Camões, um romancista como Balzac, um

cabo de guerra como Napoleão, um estadista como o sr. Lapin. A tal ponto

lhe cresceu o genio, que já não havia espaço para o conter, a dentro das

fronteiras nacionaes.

Foi então que se reconheceu a necessidade de o mandar para longe, onde

fossem mais largos os horizontes, que os genios, como os gazes quando os

comprimem além d'um certo grau, são eminentemente explosivos.

E porque era ainda muito novinho, sem experiencia do mundo, apezar do

seu immenso talento, foi a familia com elle, e por lá ficaram

todos--para bem de todos nós.

* * * * *

_«É melhor tratar d'outro oficio. O jornal ha de morrer á falta de

leitores, porque você terá geito para tudo, menos para jornalista.»_

(Carta anonyma).

_Oh! la pauvre bête!..._

Era na verdade, um animal perfeito. De côr acastanhada, a anca alta,

largo dos peitos, uma estrella branca na testa, talvez demasiadamente

sellado, a perna delgada e nervosa, a cauda farta e comprida, era um

burro que fazia parar quem passava, admirando-o, e succedeu a mais de

uma beata, ferida de tamanha belleza e correcção, estacar no caminho das

suas devoções, e não poder reprimir nas arcas santas do peito esta

exclamação blasphema:--_Benza-o Deus, como é bonito!..._

Procopio então passava horas no enlevo do seu burro, afagando-lhe o

focinho e alisando-lhe o pello, não consentindo que sobre elle poisasse

uma mosca, ou lhe manchasse a pelle acastanhada um grãosinho de poeira.

Era uma especie de burrolatria, um culto religioso que lhe enchia a

alma, dando-lhe todas as satisfações espirituaes que resultam para um

crente da adoração do seu fetiche. E porque se lhe afigurasse que o

burro não era, como os outros burros, uma simples cavalgadura, desatou a

alimental-o com o melhor da sua mesa, dando todas as coisas boas e raras

que encontrava na sua despensa ou se confeccionavam na sua cozinha. Mas

nem o burro lhe pegava nos acepipes, nem ao menos se mostrava agradecido

aos seus disvelos e blandicias. Procopio lamentava-se da sua má sorte,

chorava a sua desdita, sempre amigo do seu burro, sempre idolatra do seu

idolo, sempre adorando o seu fetiche. E como quer que um dia,

desabafando n'um peito amigo, se queixasse da ingratidão dos burros, vae

o outro, grande philosopho, com larga experiencia da vida, aconselha-o

assim:

--A culpa é tua, Procopio, e de mais ninguem. O burro não foi feito para

comer á tua mesa, como tu não foste feito para comer á mangedoura.

Queres vel-o gordo, alegre, contente, a lamber-te as mãos reconhecido?

E como Procopio estendesse o pescoço, a beber-lhe as palavras.

--Dá-lhe palha, Procopio amigo...

* * * * *

_S. M. a Rainha visitou hontem o Hospital de S. José._

(Dos jornaes).

Estava perdida...

Começava a soffrer do peito, havia annos, e como precisava de trabalhar

sempre, trabalhar sem descanço, para não vir a fome juntar-se á doença

encurtando-lhe a vida, o mal foi augmentando constantemente, aquelle

terreno sendo proprio para aquella vegetação, e as circumstancias

ajudando como n'um bom anno agricola. Que era uma constipação, tinha

dito o medico do monte-pio, n'uma visita em automovel, a trinta... réis

a consulta. O certo é que as dores augmentavam-lhe, como se tivesse o

peito mettido n'uma prensa; a tosse era funda, como se lhe viesse do

mais intimo dos pulmões; manchas de febre punham-lhe nodoas vermelhas na

cera do rosto emmagrecido, e sentia o sangue subir-lhe á bocca, em

golfadas, que a muito custo reprimia. Despediram-n'a da fabrica, incapaz

de trabalhar, e como recuasse perante a morte, uma noite, a olhar as

aguas do rio, foi á consulta no hospital, e ficou na enfermaria. Estava

tisica.

Ninguem a visitava, porque não tinha ninguem, e como fosse naturalmente

pouco communicativa, passava os dias e as noites a sentir-se morrer aos

boccados, amaldiçoando a sorte que a fizera pobre, e attribuindo á

miseria o descalabro da sua vida. Por maneira que naquelle dia, á hora

do silencio, quando acordou do seu alheiamento, e sentiu perto da sua

cama como um _frou-frou_ de sedas, muito pallida, muito magra, quasi

cadaverica, ergueu-se na cama como se a movesse uma mola, e fixando na

visitante os seus grandes olhos negros, disse-lhe como na vehemencia

d'um delirio:

--Não é verdade, minha senhora, que a sociedade é infame quando a uns dá

o superfluo, sem dar a todos o que é preciso?

* * * * *

_S. M. andou hontem pelos bairros pobres distribuindo esmolas no

mais rigoroso incognito._

(Dos jornaes).

Que frio cortante, meu Deus!

O sol é como um brazeiro apagado, que ainda conservasse luz nas

cinzas--uma luz fria e baça. O vento retalha-nos a cara, e põe nas

pobres arvores sem folhas umas tremuras de velhinho, a esconder sob os

farrapos as carnes enregeladas.

Que frio cortante. Deus do céu!

A miseria é insupportavel no inverno, porque tudo se conjuga para lhe

dar uma agudeza de expiação, um requinte de pena biblica, sem laivos de

misericordia. Não ha fogo no lar, não ha pão no armario, não ha

cobertores no leito, ás vezes nem leito ha.

Que frio cortante. Senhor!

E é então que a Opulencia desce ao antro onde agoniza o miseravel,

pondo-lhe na mão ressequida o quanto baste para illudir a fome.

Mas porque haverá no mundo esta tremenda desegualdade, se lá nos altos

céus existe uma justiça absoluta, e se existe cá em baixo uma vulgar

noção do que seja a equidade?

Que frio cortante, meu Deus!

Dá vontade de morrer, para fugir d'este inferno, e ao mesmo tempo dá

vontade de accender uma grande fogueira, a que se aqueçam todos os

desgraçados.

Se os poderosos soubessem como se soffre no inverno! Ou não tirariam

nada aos pobres, ou lhes restituiriam quanto lhes tiram, n'um desejo

sincero e grande de fazer obra meritoria.

Mas elles nem sonham, meu Deus! como é horrivel a miseria no inverno.

* * * * *

_SS. MM. foram muito acclamadas na estação do Rocio._

(Dos jornaes).

--Peço desculpa a V.ª Ex.ª mas como tenho umas continhas...

--Pois sim; mas eu já lhe disse que antes do fim do mez não posso

pagar-lhe.

--É verdade que disse; mas como V. Ex.ª agora tem dinheiro...

--Qual dinheiro, nem qual carapuça! O sr. imagina que me morreu algum

tio no Brazil, que apanhei a sorte grande, ou que levei alguma banca á

gloria?

--Não senhor; não imagino nada d'isso. Mas como V. Ex.ª foi encarregado

do vivorio, acho que pode muito bem regular já as nossas contas, para eu

me não ver envergonhado com os meus credores.

--O sr. está doido, com certeza! Imagina talvez que se paga aquelle

serviço á larga, pelo menos com certa generosidade, como seria justo que

se fizesse?...

--Como isso é feito, não sei eu; o que eu sei é que ao pé de mim estava

um sujeito todo bem posto, de cartola, que deu apenas dois vivas, e

abalou muito risonho esfregando as mãos, e a dizer para o

companheiro:--_já cá cantam dois mil réis_. E toda a gente dizia por

alli que V. Ex.ª tinha recebido um conto e duzentos mil réis para

dirigir aquella manobra.

--Sim, senhor, para dirigir aquella manobra... e para pagar áquella

gente. Imagina que se dão vivas de graça? Pois engana-se redondamente.

Quem menos ganha, é quem mais grita, e ha menino que recebe as massas e

fica mudo como um peixe.

--Mas V. Ex.ª bem vê que eu já tenho esperado muito, e, se o importuno

agora, é porque me parece a occasião favoravel.

--Desfavoravel, é que ella é. Em primeiro logar, eu ainda não recebi a

téca; depois tenho que pagar á minha gente melhor que das outras vezes,

porque elles estavam falados para não se prestarem á coisa. Isto, meu

amigo, foi chão que deu vinha. N'outro tempo, um diabo que enrouquecia a

dar vivas, contentava-se com dois tostões, doze vintens, e ás vezes com

um simples habito de Christo, ou uma commenda da Conceição. Vão lá agora

acenar-lhes com isso, a vêr quantos lhe pegam!...

--De maneira que...

--De maneira que o amigo terá de esperar mais algum tempo, e como

realmente eu lhe sou grato, não quero que perca o freguez, tanto mais

que o senhor trabalha bem. Lá me tem ámanhã, a escolher a fatiota da

estação.

--Que pagará...

--Quando houver outra manifestação espontanea.

Resmungava o alfaiate, descendo a escada--Que grande pulha!

Dizia o vivographo, fechando a porta--Que grande idiota!

* * * * *

_Hontem a sessão teve de ser interrompida na Camara dos Deputados,

por causa do chinfrim. O sr. José Luciano mostrou-se satisfeito._

(Dos jornaes).

Durante muito tempo, por largos annos, o seu ar recolhido e severo deu a

muita gente a impressão d'um pensador, alheiando-se propositadamente do

mundo para melhor se engolfar nas suas cogitações. E porque nada

resultasse das suas locubrações d'espirito, assentou-se em que aquelle

vasio significava profundeza. Não era talvez um philosopho, mas era um

homem d'Estado. E assim foi trepando a escadaria ingreme da carreira

politica, sempre solemne, sempre severo, sempre recolhido, e sempre ôco.

Não havia duvida possivel--estava alli um prodigioso talento, uma

organização rara d'estadista, a que só faltava ter uma ideia e produzir

um facto. Senão quando, um irreverente que attentou n'aquella

austeridade de manequim, n'aquelle ar funebre de cypreste, n'aquella

fronte larga sem reverbero intellectual, um irreverente apontou-o á

multidão, e gritou-lhe nas bochechas--é fundamentalmente estupido!

Por maneira que outro dia, apoz aquelle chinfrim no parlamento, quando o

presidente do conselho ria, como quem se banha em agua de rosas, e a

camara inteira se põe ao fresco, dominada pelo vago presentimento de que

fizera o jogo do governo, o pobre grande homem, antecipando a amargura

dos seus desastres, encostado á parede, como quem soffre uma vertigem,

deixou cahir dos labios murchos estas palavras desconsoladas--_Parece-me

que fiz asneira!_

E, pela primeira vez na vida, reconhecendo que fizera asneira, o grande

homem se mostrou intelligente.

* * * * *

_A situação do rei é de cada vez mais grave. O unico remedio ainda

possivel é a abdicação._

(Nas entrelinhas dos jornaes).

Era uma conspirata.

Reuniam-se todas as noites fóra de portas, em casa d'um tasqueiro de boa

reputação, homem de lettras gordas, mas de principios severos, incapaz

de faltar á sua palavra, preferindo mil vezes a morte a uma vilania. De

modo que para este não havia segredos, nem para a sua companheira, uma

velhota gordunchuda que teimára em não ter filhos depois de casada,

farta de os ter em solteira. Bem entendido, o tasqueiro não tomava parte

nas discussões; mas quando elle entrava com o peixe frito e a caneca, de

chinellas, com um lenço encarnado a chupar-lhe o suor da cachaceira,

ninguem recolhia a fala ao buxo, porque se sabia que elle era incapaz de

uma traição, ou mesmo d'uma imprudencia.

Elle bem sabia do que se tratava; mas fingia não saber nada,

correspondendo, com extremos de correcção, á penhorante confiança que

tinham n'elle. Tratava-se de substituir um porco por um leitão, o que

tudo vinha a dar n'uma tremenda porcaria. Mas os conspiradores

mostravam-se encarniçados na sua ideia, crendo n'ella como nas pilulas

Pink, ou no xarope da mãe Seigel. A unanimidade não era completa, e como

uma noite resolvessem não sair d'alli sem assentarem em alguma coisa de

definitivo, um d'elles lembrou que se ouvisse a opinião do tasqueiro,

homem de lettras gordas, mas de principios severos, mais intelligente do

que seria preciso para exercer a sua profissão, e discreto como um

tumulo. Por maneira que quando elle entrou, o lenço encarnado a

chupar-lhe o suor do cachaço, a travessa do peixe frito na mão esquerda,

e na direita um formidavel cangirão, espumante de vinho verde, um dos

conspiradores poz-lhe nitidamente a questão, e pediu o seu parecer:

--Eu cá, por mim, não entendo d'essas coisas; mas sempre ouvi dizer que

a racha sae ao madeiro, e meu avô, que andou nas guerras, e soffreu

primeiro por causa de D. Miguel, e soffreu depois por causa de D. Pedro,

costumava dizer á gente, quando se falava dessas coisas--creio que ha

uns reis peores do que outros; que haja melhores, não acredito.

* * * * *

_Diz-se que a questão politica vae ser tratada no Parlamento com

violencia, não se poupando ataques ao Chefe de Estado._

(Dos jornaes).

Se tivesse echo!...

Era positivamente uma obsessão; mas queria por força uma quinta que

tivesse echo, e não se importava pagar esse capricho a peso de dinheiro.

Deixára a Patria muito novo, e no Brasil, á força de trabalho e

economia, a sorte ajudando um pouco, conseguira fazer fortuna. Todas as

noites, ao fechar da loja, consultava o livro de _razão_, e como visse

que os negocios lhe corriam bem, ganhando sempre, tomava o chásinho com

torradas, entretinha-se um pouco com os garotos, e ia metter-se na cama

tranquillo e satisfeito, como um patriarcha biblico. Sonhava então com a

sua aldeia; via-se outra vez no modesto casinhoto em que nascera;

encontrava-se de novo com os rapazes da sua geração, e abalavam todos de

restolhada, a caçar os ninhos ou a roubar amoras, este sem chapéu,

aquelle sem jaqueta, e todos não lhe pesando o pé uma onça, quando o

vinheiro se apercebia do grupo, e fazia estalar a funda ou rebentar uma

escorva, no momento em que estes saltavam o vallado, para colherem uvas.

O que fazia o principal encanto de seus sonhos, era a conversa com o

echo, um echo muito perfeito que havia perto da aldeia, no sitio chamado

das Antas. Já accordado, ainda lhe parecia que tinha realmente ouvido o

echo--_quem está lá!_--e fechava os olhos, n'um esforço enorme de

concentração, parecendo-lhe que talvez assim o ouvisse ainda. E então,

principiava a obsedial-o aquella ideia do echo, que já ouvia mesmo

acordado--_quem está lá!_--victima d'uma allucinação do ouvido. Por

maneira que passados annos, voltando á sua terra, deitou-se a procurar

uma quinta que tivesse _echo_, não se importando pagar o seu capricho a

peso de dinheiro. Soube d'isso o Thomé Cantigas, e logo se poz a

instruir o velho João, um creado que já estava na casa quando elle

nascera, por maneira a funccionar d'echo quando lá fosse o brasileiro,

com quem tinha a quinta ajustada. Ora succedeu então esta coisa

curiosa:--quando o Thomé, em companhia do brasileiro, do escrivão e das

testemunhas, para verificarem o echo, gritou com toda a força dos seus

pulmões--Ó João!--o pobre diabo, escondido por detraz d'uma pedra,

ouvindo aquella voz tão sua conhecida, e sentindo acordar em si quarenta

annos de obediencia e domesticidade, o pobre diabo respondeu n'um tom

humilde--_Meu senhor!_

Imaginem agora que o rei chegava alli abaixo, perto de S. Bento,

espectral como o principe da Dinamarca, quando nas duas camaras, que

funccionam agora como dois bilhares, se joga a carambola politica, a

maior parte dos parceiros esquecendo-se de dar giz no taco, picando as

bolas ao contrario, e todos jogando pela tabella, como se não vissem a

encarnada e fosse prohibido atirar-lhe para cima... Sim, imaginem que o

rei chegava alli, sem ninguem dar por elle, e no mais acceso da

balburdia, no meio encarniçado do jogo, gritava com a sua bella voz de

barytono:--_Que é lá isso ó seus gajos?_

Quantas vozes deixariam de responder como o velho creado João, ouvindo,

lá onde estava, por detraz de uma pedra, ensaiado para o echo, a voz do

sr. Thomé, seu patrão de tantos annos?

* * * * *

_Vaidade das vaidades--tudo é vaidade!_

Viera ao mundo com a mania de que tudo andava torto, e lhe competia

endireitar tudo. Era assim uma especie de messianismo arte nova, que lhe

hypertrophiava a personalidade, tornando-o impertinente. Todas as

injustiças o offendiam, todas as asneiras o irritavam, pondo-lhe os

nervos em tal estado de vibração, que seria facil romperem-se. Mas ao

mesmo tempo essas injustiças que o offendiam, essas asneiras que o

irritavam, eram a propria condição da sua existencia, todo o estimulo da

sua actividade, a sua unica razão de ser. Que um bello dia entrassem as

coisas na bôa ordem, o bem tendo vencido o mal, o amor tendo vencido o

odio, a justiça tendo vencido a iniquidade, o direito tendo vencido a

força, a verdade tendo vencido a mentira, que um bello dia se realizasse

tudo isto, e elle encontrar-se-ia como homem que se desequilibrasse no

espaço, sem ponto de apoio, uma creatura que se visse sem ligações com o

Universo, isolada como n'uma ilha deserta, um ser de geração espontanea,

olhando para traz, e não adivinhando o seu passado, olhando para deante

e reconhecendo-se sem destino. Considerava-se o ser por excellencia, a

suprema vontade, a suprema intelligencia, a mais alta sabedoria, a mais

extremada virtude. Tinha um calcanhar esse gigante, como o heroe da

Iliada; mas o Páris, que pretendesse feril-o, escusava de molhar a setta

em veneno, bastava que a molhasse em lisonja, que é uma droga pouco

toxica e muito corrosiva. Succedeu-lhe um dia adoecer gravemente, e como

lhe perguntassem, _in articulo mortis_, se não receava pela salvação da

sua alma, respondeu, tartamudeando muito--_Receio que me mettam no céo.

Que tortura não será a minha se caio na mansão dos justos._

Por subscripção entre amigos, ergueram-lhe um mausoleu, coisa barata e

modesta, e fizeram-lhe gravar na frontaria, em bronze amarello, estes

dizeres biblicos:--_Vanitas vanitatum_, o que traduzido em portuguez

quer simplesmente dizer:

--_Ora bolas para tanta embofia!..._

* * * * *

_Parece vingar a interpretação que attribue ao sr. ministro das

finanças a qualidade de portuguez._

(Dos jornaes)

--Contente que nem um rato, não é verdade?

--Não sei porquê...

--Não sabe porquê? Pois você chega ao ultimo quartel da vida sem saber

de que terra é, e d'um momento para outro, sem trabalho nem canceiras,

apparece cidadão d'um paiz glorioso, e guindado ás maiores culminancias

sociaes, e ainda pergunta porque deve estar contente?

--Por certo. Não sendo d'uma patria determinada, eu podia tirar muito

proveito de todas, conforme as circumstancias.

--Mas os seus direitos...

--Perdão; os meus direitos são os meus interesses, dada a minha

qualidade de homem de negocios. Ter um certo direito, significa apenas,

no meu entender, a faculdade de realizar um certo lucro, da mesma fórma

que ter uma certa obrigação significa uma perda. A equação da vida

commercial faz-se com estes dois termos--ganhos e perdas.

--Está muito bem; mas parece-me que sob todos os pontos de vista o amigo

ganhou.

--Isso é conforme. A operação, considerada nos seus resultados

immediatos, e não olhando para além do momento actual, é de resultados

vantajosos; mas...

--Mas...

--Mas o futuro a Deus pertence, e esta naturalização definitiva póde

prejudicar-me muito, se ainda tiver necessidade de mudar de

nacionalidade mais uma vez.

* * * * *

_O principe D. Luis Filippe restituiu ao thesouro o dinheiro que lhe

sobejou da viagem._

(Dos jornaes).

Era doida pelo neto; mas, se o tivesse junto de si, n'aquelle momento,

pregava-lhe duas bofetadas.

Era aquillo um proceder de principe?

Não havia memoria, na sua familia, d'alguem ter restituido fosse o que

fosse, muito menos dinheiro.

Raivosa, sentindo-se ferida no seu orgulho de raça, mordia os beiços até

quasi sangrarem, e amarrotava nas mãos o jornal, com muita força, como

se quizesse desfazel-o. Era de entontecer aquella vergonha.

De repente acalmava-se um pouco, como se entrasse n'um banho morno.

Quem sabe?

Talvez aquillo não fosse verdade. Dizem tanta mentira os jornaes!... Ha

gazeteiro que não vacilla perante a mais baixa calumnia, muitas vezes

por interesse, algumas vezes por capricho, não raramente por maldade.

E logo mandou vir todas os jornaes d'aquelle dia, absolutamente todos,

mesmo os que ella nunca lia, por saber que sempre alguma coisa traziam

que lhe fosse desagradavel.

--Todos quantos se publicam em Lisboa, ouviste?

Pois em todos elles vinha a noticia, a vergonhosa noticia d'aquelle neto

infamante, que ficaria luzindo como uma nodoa na pureza alvissima e até

alli immaculada dos seus pergaminhos dynasticos.

Era doida pelo neto; mas se o tivesse junto de si, n'aquelle momento,

era capaz talvez de um arrebatamento criminoso, atirando-o pela janella.

Vestiu-se n'uma pressa, sem olhar para o espelho, surda ás sugestões do

seu coquetismo de carcassa. Iria procural-o, exprobar-lhe a sua baixeza,

que nem mesmo os poucos annos poderiam desculpar.

Um principe, quando se trata de honrar as tradições dos seus maiores, é

sempre de maior edade...

Pisava o primeiro degrau da escada, quando o neto subia quasi aos

saltos, como de costume, a estender-lhe os braços.

--Ias sair, avózinha?

--Ia procurar-te.

--Parece que não estás contente?

--E com razão.

Mal entraram na sala, apanhou um jornal, ao acaso, e, apontando a

noticiazinha da restituição, perguntou-lhe:

--Isto é verdade?

O garoto desatou a rir, a rir desalmadamente, a fazer-lhe cocegas.

--É então mentira?

--Se é mentira!... Na verdade, avózinha, sempre te julguei mais

intelligente. Restituir dinheiro! Sei honrar as tradições da nossa casa,

pelas quaes tenho um verdadeiro culto.

Teve um grande suspiro d'allivio, como se lhe tirassem de cima um peso

de cem arrobas. Apertou muito o neto nos braços e, tendo-o beijado

loucamente, deixou-se cair no sophá, muito quebrada, como ao sair d'uma

lucta.

E com os olhos fechados, a respiração alta, ofegante, murmurava para não

ser ouvida:

--Estupida que eu sou! O pequeno era incapaz de semelhante infamia.

Revejo n'elle toda a nobreza da raça.

E adormeceu.

* * * * *

_Passa hoje o primeiro anniversario deste jornal, dia propicio á

comemoração dos que foram nossos companheiros de lucta, e hoje

luctariam comnosco, se a morte os tivesse poupado._

(«A Lucta»).

Morrer, dormir, sonhar quem sabe!...

A fogueira crepita no meio do bosque sagrado, e o ramalhar das folhas,

cortando o silencio augusto d'uma noite de luar, é como a prece erguida

aos céus por milhares de labios virginaes.

Morrer, dormir!...

Em volta ha uma turba alegre, como se alli fosse realizar-se um ágape

festivo, os esponsaes d'uma nobre castellã com o pagem dos seus sonhos,

reluzente de pedrarias, esplendido de mocidade.

Dormir, sonhar!...

A fogueira crepita erguendo uma chamma cónica de uma regularidade

geometrica, e um fumozinho branco, muito tenue, muito esparso, é como um

boccado de gaze que alli estivesse preso á chamma, tocando-lhe sem se

inflammar.

Morrer, dormir, sonhar, quem sabe!...

E mal o cadaver pousa na fogueira, crepitante e rútila no meio do bosque

sagrado, logo sobre elle se lança aquella virgem loira e meiga, que uns

padres druidas estavam ha pouco dispondo para a viagem de que não se volta.

Quem sabe!

Se n'esses mundos longinquos, para onde dizem que vão as almas, se

conserva lembrança da vida que aqui tivemos, bem sabem vocês, queridos e

inolvidaveis mortos! que é para nós de lagrimas este dia, visto que esta

pagina é hoje um canto do cemiterio!

* * * * *

_A morte perdendo a foice_

_Creu sua força desfeita._

_Disse-lhe um medico insigne:_

_Aqui tens esta receita._

Chamava-se Corvo, e era alfaiate.

Pouco trabalhava pelo officio, quasi sempre pelo campo, a caçar lebres

ou perdizes, lá de longe em longe mettendo-se na jolda, e só então

aventurando-se por aquelles mattos espessos, onde deixava metade da

farpela, em boccados. A sua grande paixão, a sua mania de caçador era

pelos pombos, á negaça. Abalava de casa muito cedo, o pombinho mettido

na aljabra, o farnel mettido nos bolsos, a aguilhada ao hombro, a

espingarda a tiracolo, e uma garrafinha de aguardente sem confecção, que

o frio era de rachar, por aquelles dias molhados de novembro. Chegava ao

_sitio_, circumdava os montados, n'uma extensão enorme, com a sua vista

de lynce, e toca a fazer a choça, não fossem os pombos dar-se pressa de

vir alli, apanhando-o desprevenido. Ás vezes não matava nada; outras

vezes matava quantos se _faziam_; mas sempre se divertia immenso, a

puxar a negaça e a aperrar a caçadeira, não se esquecendo nunca de

_beijar_ a garrafinha da aguardente, que valia pelo melhor dos lumes, no

desabrigo da choça, por aquelles dias gelados de novembro.

Ora succedeu que um dia, ao voltar dos pombos, chegando a casa,

subitamente, o Corvo sentiu-se mal, horrivelmente mal, gritando que lhe

accudissem. N'esse mesmo dia, áquella mesma hora, por assim dizer,

n'aquelle mesmo instante, tinha chegado o medico novo, que ainda ninguem

tinha visto. Correram a chamal-o, n'uma afflicção, que o Corvo sentia-se

morrer e gritava como um perdido. Vae o doutor, muito solicito, observa

o doente, faz uma receita, enche uma seringa e crava-a n'uma nadega do

alfaiate, que não tugiu nem mugiu.

Estava morto o pobre Corvo, velho caçador de pombos, que durante largos

annos, todas as manhãs, em dias gelados de novembro, abalava de casa

para as montanhas, a aguilhada ao hombro e o farnel nos bolsos, sem

nunca se esquecer da garrafinha d'aguardente, que valia por um bom fogo

no desabrigo da choça, encostado a um sobreiro.

O caso fez barulho na aldeia, e como alguem lamentasse a perda de tão

eximio caçador:

--Lá quanto a isso, perorou um mariola d'um barbeiro, não vejo razão

para se lamentar a gente. O nosso doutor parece ser homem de boa

pontaria. Mal disparou a seringa, logo o Corvo enrolou as azas, como se

fosse um pombo que se _fizesse_, e apanhasse a carga em cheio.

* * * * *

_O sr. ministro da fazenda ficou a trabalhar em sua casa._

(Dos jornaes).

A ordem fôra terminante, e não admittia excepções; s. ex.ª não _estava_

para ninguem, absolutamente ninguem.

Andava a estudar um plano geral de reformas, e, como tivesse de ir

passar uns dias na provincia, queria deixar os seus papeis arrumados,

cada coisa no seu logar, como n'um museu ou n'uma bibliotheca.

Fôra sempre uma creatura methodica, e em grande parte o seu talento, que

ainda assim muitos negavam, era feito de trabalho e de methodo. Entrára

na politica com uma bagagem de estudante, apenas preparado para no

parlamento mandar uma representação para a mesa, e requerer que se desse

a materia por discutida, a um signal do _leader_. Mas trabalhava muito,

estudava muito, ambicioso de renome, atormentado pela obscuridade em que

vivia, mal supportando que os outros trepassem, subissem, servindo elle

proprio de degrau a bastantes creaturas mediocres.

Um bello dia, quasi sem elle proprio saber como nem como não,

fizeram-n'o ministro. E logo pensou n'uma larga reforma de serviços,

remediando muitas insufficiencias, preenchendo muitas lacunas, pondo

cobro a muitos escandalos.

Lá quanto a honestidade, reconheciam-n'a os proprios inimigos.

Colligira todos os elementos de que necessitava para a sua obra

reformadora, e resolveu aproveitar aquelle dia para os classificar, em

termos de servir-se d'elles com a maior facilidade e proveito.

Estava inteiramente absorvido n'essa tarefa, quando lhe apareceu junto

da mesa um continuo, muito vermelho, muito atrapalhado, a revirar o

_bonet_ na mão, a querer falar, e não se atrevendo a abrir a bocca.

--Que ha?

--Um senhor que deseja falar a v. ex.ª

--Então eu não lhe disse que não estava para ninguem?

--É verdade, mas elle disse-me que se matava alli mesmo, á porta, se v.

ex.ª não o recebesse.

Mandou entrar immediatamente.

--É você?...

--Sou eu. Sabe que o Chico está irremediavelmente perdido?

--O quê?

--Talvez não dure 48 horas.

--Coitado! E a familia?...

--Ora ahi está. É por causa da familia que eu cá venho.

--Mas que posso eu fazer?

--Uma coisa muito simples--um adeantamento.

--Mas se elle está a morrer!...

--Por isso mesmo. Desconta pelo terço do ordenado emquanto viver.

--E depois de morto?

--Continua a descontar... no outro mundo.

E assim se fez.--Era uma bagatela de dez contos redondos.

* * * * *

_O sr. D. Carlos manda para o Salon dois quadros._

(Dos jornaes).

Era dia de assignatura.

Como de costume, na sala de espera, emquanto não chegava a hora, uns

fumavam estendidos em sophás de molas doces, e outros falavam de coisas

varias,--as occorrencias banaes da vespera, ou os successos provaveis do

dia seguinte. Pelas janellas, abertas de par em par, entrava uma aragem

fresca e quasi perfumada, tanto as flôres do jardim embalsamavam o

aposento n'aquelle dia lindo.

Avistava-se ao longe o rio, d'aguas tranquillas, e lá para além da

barra, empennachado de fumo, um navio cortava as aguas, sem estremeções,

deixando atraz de si, como uma passadeira de rendas, um largo traço de

espuma. N'isto abre-se uma porta ao fundo, e um homem apparece, de

casaca, trazendo debaixo do braço, muito enrolado em papeis, qualquer

coisa que logo se adivinhava ser um quadro com a respectiva moldura.

Ao de Leve · 第 1 / 5 段