--Então, Pitta, você medite, é isto... Esta lama que se cria nos

saguões, homens, gebos, emparedados, poz se com estas noites a crear...

Veio d'alli--e apontou para os lados do Hospital--um effluvio, o mesmo

que faz nascer as arvores, e elles estremeceram abalados.

--A noite tem realmente qualquer coisa que afflige... Oppressão,

mysterio...

--Emoção que foi até ás tocas onde elles criam. Pozeram-se a sonhar e

crearam. Ora escute... Ouve um fremito, o escachoar d'um riachão,

gritos?.... E, como se a gente pozesse o ouvido d'encontro á terra...

--Crearam?

--Crearam. Isto que nós vemos não são elles, são apparições. É o que

elles sonharam. Os sonhos dos desgraçados tomaram corpo. Só nós é que

não podemos sonhar.

--Nós não, nunca mais... Os sonhos dos desgraçados tomaram emfim corpo!

--Tanto sonharam! tanto sonharam!...

--Mas foi a Noite então?....

--A Noite. Uma primavera negra, feita de emoção e de noite. Elles só

deitam flôr á noite e só podem sonhar á noite.

--E você como soube?

--Meditei.

--São afinal, é certo, sonhos. Uns parecem estatuas vivas, outros são

disformes...

--Eu tenho visto. É uma amalgama singular. Creaturas de fogo, outras de

crime. Dil-as-hieis revolvidas, homens e sonhos misturados, um rio que

tudo acarrete...

--O que elles sonhariam para chegar a materializar!

--De cada canto surgem. É inesperado e imprevisto. E dos sitios mais

negros é que elles irrompem em braza. Hontem vi um que parecia uma

flôr---branco, todo branco ou de luar gelado...

--E falam!

--Falam, pregam! Ouve-lhe os gritos?

Era na realidade uma mistura de sonho e vida. O Predio tremido até aos

alicerces, queria elle proprio crear. O rio subterraneo estrupia

coleras, engrossára, rompera para a luz; o esgoto acossado carreava

oiro, como as poças que reflectem um poente. O Gabiru prégava aos

desgraçados. O Pitta mostrando-lhe ao pé os montes, as arvores, a

natureza, desvairara-o. Viam-n'o curvar-se sobre os miseros e falar-lhes

baixo, precipitado, ronco. Deixava-os a scismar d'olhos febris.

As suas palavras ardiam. E subterraneo, incansavel, ferreo, minava. Ia á

procura de odios para as atiçar. Prégava-lhes, apontando o Hospital:

--É alli! alli!...

Falava dos montes e das aguas, mas confundia tudo: aquella manhã de

março esbraseara-o.

--É uma coisa esplendida! É ao mesmo tempo a frescura e o fogo, um

incendio verde que pacifica e estanca toda a sêde. Aguas a rolar e

arvores esgalhadas falando... Sabeis o que são arvores? Ha alli

montanhas de riqueza, thesouros... Deitae abaixo! deitae-o abaixo!...

Todos os desesperados conheciam essa figura que surdia com a noite,

esguio como um enterro.

--Ha montes todos d'oiro erguidos para o céo, ha oiro nas arvores, oiro

nos montes e no tojo... Todas d'oiro são as aguas a rolar. Ha seda viva

e arvores... Ha arvores! E tantas vozes a falar. Tudo fala! tudo fala!

E os pobres, os transidos, os homens encardidos de desgraça,

escutavam-n'o e punham-se a falar sósinhos. As palavras do Gabiru

empoeiravam-n'os d'inquietação e tristeza, e a noite era como um brazido

que alguem remexe. Ouvira-se primeiro o murmurio, a zoada do sonho

affastado; ouvia-se agora rolar como um rio que incha e trasborda.

--Ha oiro! para lá ha oiro!...

E era como se do globo tivesse irrompido uma torrente de sonho. O Predio

parecia abalado. Todo aquelle terriço de creaturas o esbrazeara.

--Tanto sonharam! tanto sonharam!...

Pobres que fariam senão deitar as mãos tabidas a um outro universo que

elles presentiam igneo?

Á força de sonhar materialisaram o sonho.

Eil-os gastos e ardidos. Depois de dar luz, um toro converte-se em

cinza, e no rescaldo todos os toros se confundem. Não conheciam da vida

senão a dôr. Gesticulavam, olhavam absorvidos, perdidos de emoção, como

quem descobre nova terra e deitavam-se a falar uns para os outros sem se

entenderem. Nem sequer se ouviam. Cada um narrava a sua ancia, dizia a

historia pobre ou doirada da sua alma. Pelos sotãos, nas mansardas e nos

saguões, encontrava-se aquella levada scismatica, tolhida de sonhar. De

uns para os outros ia o Gabiru, falando com palavras que os doloriam e

lhes faziam precipitar as illusões represas... É verdade afinal que ha

arvores e fontes todas d'oiro? Porque é que eu nasci para soffrer?

Porque é que existem vidas, como a de certas sementes, que não chegam a

ter força para germinar?

Tocados d'essa primavera negra, de que falára o sabio, juntavam-se para

se queixar e cada um, á força de sonhar, creára uma figura,

desdobrava-se. Dos seres tragicos, rotos, calcados, nascera uma

apparição d'uma belleza estranha; d'outros nevoa, phantasmas. Todos

traziam o seu companheiro--e havia homens acompanhado por arvores, pelo

odio, pelo riso, por monstros...

--Eil-os que deitam flôr! eil-os que deitam flôr!...

E na noite elles botavam realmente flôr, e de tanto falarem nas arvores

e nos montes até as pedras cheiravam a terra arada.

Sonhos tristes, mealhas, almas que nem sequer podiam exhalar illusões,

sonho de sébes, de calháos, de tudo que no planeta se cria de ignorado e

humilimo.

XXIV

A MORTE

Oh eu já não sei bem, pobre de mim, o que é realidade e o que é sonho.

Por vezes me parece que o proprio Hospital se põe a falar pela sua bocca

de pedra. Em noites de luar, quando tudo para lá se envolve em algido

luar, eil-o que enternecido conta sonhos rôtos e tristes, o sonho dos

pobres, dos cegos das estradas, coisas humildes e no entanto vivas, como

os fiosinhos d'agua, que apenas convivem com uma lapa e um farrapo de

musgo, esquecidos no globo, mas que exhalam uma frescura enorme...

* * * * *

Encontraram hontem o Astronomo estendido na latrina. Ultimamente ia-lhe

no craneo um ruido extranho. Constellações de fogo, mundos e coisas

terrenas confundiam-se. O olhar absorto, tremendo de frio dentro do

casaco d'alpaca, olhava o céo n'um extasi. De que tombára? De fome ou

d'um sonho? Consummira-se como um tronco n'um lar.

Deram com elle cahido na taboa molhada d'aquella ignobil latrina de casa

d'hospedes. Nos seus olhos, mesmo mortos, ficou luciluzindo uma poeira

d'espanto. Morrera surprehendendo algum mundo desconhecido ou

descobrindo outro sonho tão vivo, que, de vêl-o, cahira fulminado? Em

torno era o asco: as paredes com dedadas, versos obscenos e legendas

prodigiosas. Havia um desenho allegorico, um _viva a republica_! outro,

_morra a D. Antonia_! contas e um soneto bocagiano pela mão do Pitta--e

entre aquella lama o Astronomo morto era como a claridade das

constellações, que luzem até no fundo das latrinas.

* * * * *

Um rio, dir-se-hia um rio, com coisas tragicas á tona. Só a Arvore

cresce e á medida que ella cria forças a Mouca se consomme. A tosse

desconjuncta-a. Creou-a a desgraça humana, construiu-a do lodo das ruas

e d'abjecção. Mas a dôr vem e purifica: é como o fogo que torna um galho

apodrecido, atirado ao lume, num ramo do oiro mais fulgido. Magra, alta,

luziam-lhe os olhos d'um brilho estranho. Riem-se os soldados, batem-lhe

os ladrões e só ella não ri como outr'ora. Se a fazem soffrer, a Mouca

chora. Um dia ao vêr que batiam em Sofia diz-lhe:

--E se nós nos matassemos?

--Calla-te! calla-te!

--Sabe a menina? Eu não sei que tenho, já não me importo de viver. Perdi

o amor á vida. Olhe para o meu corpo. Já não tenho senão ossos. Porque

será que a gente muda? Diga-me: é p'ra amor do velho que se não quer

matar?

--É, está callada.

--Eu cá sou assim, que quer? Ás vezes, quando não tenho com quem falar,

ponho-me a falar sosinha. Antigamente não me lembravam coisas que me vem

agora á idéa. Esta vida sempre é mais negra, não é?

--É.

--Pois é, eu bem digo e mais não conheci outra. Sempre a gente nasce com

cada sina! Olhe quando eu estiver p'ra morrer, não me deixe ir p'ra o

Hospital.

--Não fales...

--Porquê? Eu bem sei como estou. Dá-se-me bem! A gente tem de morrer,

não é? Então quanto mais depressa melhor...

Uma noite que os ladrões espancaram Sofia, a Mouca poz-se a olhal-a como

um cão ao dono. Por fim disse-lhe:

--Vamos ambas ao rio quer? Eu não me importo de morrer. Mais vale

acabar. E a menina? Que ando eu a fazer n'este mundo? Se a menina tem

medo da agua, eu deito-me primeiro ao rio.

--Não, deixa! não te afflijas!...

--Eu, sim! Bem m'importo!...

* * * * *

De noite muitas vezes tinha afflicções, suffocada. Agarrada a Sofia:

--Ó valha-me!...

No entanto falava de curar-se, quando tornasse o sol. Por ora tudo

estava tranzido.

--Na primavera...

--Sim, na primavera.

--Vês a Arvore, vêl-a? Assim que tiver flor, é mais quentinho...

Mas veiu março e depois abril e que transformação! Quasi que nada

restava da Mouca, escarneo de ladrões e de soldados. Até a voz se lhe

sumira...

* * * * *

Dia soturno, de nevoa, cinzento e humido. Começo da noite. Fóra, na rua,

lama e gritos; dentro as mulheres acendem um candieiro fumarento. Vae

morrer a Mouca. Limpam lhe as prostitutas o suor da agonia e pé ante pé

vem os ladrões e os soldados para ao redor da enxerga vêl-a acabar.

Moldado pelo lençol um corpo resequido e no silencio d'espera ouve-se só

a rala afflicta, o estertor, a ancia de quem quer ainda vida e que a

morte esgana--mais perto! mais perto!...

O Velho, com a bocca enorme some-se no escuro e de lá os seus olhos

brilham; á cabeceira Sofia ageita-lhe as repas curtas e humidas. O lenço

está ensopado de suor d'afflicção.

--Ajudae-a a morrer--diz uma das mulheres.

--Está a passar?

--Shiu! baixinho...

Chegam-se mais os ladrões e os soldados e curvam-se em volta da

enxerga--o Pitta, o Morto, os outros. Nas suas feições crueis, ha

espanto e terror.

--Inda fala?

--Shiu!...

Esperam. E a rala enrouquece, mais aguda, como se a morte fosse

apertando--mais perto! mais perto!... A Mouca abre os olhos enormes na

cara branca e immaterialisada:

--Menina! menina valha-me!...

--Estou ao pé de ti.

--Tenho frio, muito frio...

Juntam-se as caras dos ladrões e dos soldados, todos em roda--e pé ante

pé tambem o Velho se chega para a cama. A Mouca abre os braços e d'um

lado o Morto, do outro Sofia, seguram-lhe nas mãos.

--Aqui está uma manta--diz o Velho baixinho. E apresenta um farrapo de

manta cossada.

--Shiu! já não precisa.

--É melhor deital-a com a enxerga no chão, para acabar de

penar--aconselha a patroa.

A Mouca respira afflicta.

--Tenho frio... nas mãos, na cara...

* * * * *

Devagarinho, arrepanhando o lençol, rodeada de todos que a tinham

maltratado, do todos os que se tinham rido d'ella, devagarinho se fina;

a vida extingue-se-lhe como a ultima gotta d'um fio d'agua que acaba de

correr. Haviam ficado em volta immoveis.

Este acto do espirito se libertar é de tal forma grande, o inicio do

mysterio, que até o Pitta olhava estarrecido. Fóra disse para os

ladrões:

--A morte, rapazes, ensina. Não ha licção mais formidavel. É doloroso e

no emtanto pacifica. Vêr morrer, enche de grandes idéas, filhos!...

XXV

A ARVORE

O Morto tinha um feitio singular. Uma força desconhecida--d'essa

corrente a que estamos sujeitos toda a vida--impellia-o para o mal. A

sua maneira de falar era curiosa, como a de todas as pessoas que vivem

sós e a quem o tempo sobra para reflectir.

--Quem és tu? disse-lhe o Gabiru.

--Sou filho do crime. Que te importa o meu nome? O meu nome ao certo

ninguem o saberá. Não tenho familia.

--Quem te creou?

--Os ladrões.

--Se não tens onde dormir, deita-te lá em cima.

E emquanto o ladrão dormia aos solavancos, acordando d'estacão, para de

novo mergulhar n'um somno profundo, o Gabiru scismava, olhando-o.

Ás vezes o ladrão tornava e o philosopho repartia com elle o seu pão.

Depois dizia-lhe:

--Dorme.

Mas n'essa noite o Morto não quiz dormir. Sentados á beira um do outro

falam durante largo tempo.

--Não sei porquê este tempo afflije--começa o Morto--Não devia haver

este tempo.

--Qual?

--Este, de primavera. Até na cadeia, quando n'uma noite assim o luar

consegue entrar pelos buracos, os ladrões acordam sobresaltados. Tenho

visto assassinos abalados. Havia d'uma vez um velho, que matou uma

creança por nada, para se rir, e que n'uma noite d'estas encostou a

bocca ás grades para respirar com soffreguidão e desatou a cantar. Este

tempo tira a força.

--Escuta. Não ouves nada?

--Nada... Durante o tempo que persisti na cadeia conheci cada um... Os

que matam inda são os que tem melhor coração.

--Tu para que roubas?

--Roubo porque tenho de roubar. É o meu fado. Cada um tem o seu. Tudo o

que a gente faz está escripto no livro do destino. Eu bem sei que inda

hei-de fazer peor quando soar a hora...

--Que hora?

--A minha hora. Todos n'este mundo têem uma hora em que cumprem aquillo

para que foram creados. Cada qual nasce para o que nasce. Ha-os, por

exemplo, que chegada a sua hora matam. Pensa que é para roubar? Matam

uma creança que nunca lhes fez mal.

--De que serve fazer mal?

--Em primeiro logar é fazer mal, e quando a gente nasce para fazer mal,

é sempre bom fazel-o. Tenho horas em que tudo em mim--tudo!--me préga

que faça mal e as minhas mãos procuram logo quem matar. Ás vezes sonho

que mato. É signal que a minha hora ainda não soou.

--E Deus?

--Deus foi que me creou, Deus não se importa. Que tenho eu que fazer

n'este mundo? Só mal. É porque Deus me creou para o mal.

--Resiste.

--Quando a gente é creada para isto, não ha nada que nos impeça.

--Antes viver com um sonho, ignorando tudo.

--Mas viver!... Viver com toda a força! Tu não vives. Morrer sem ter

vivido!... Que sabes tu da fome? E da desgraça? Que sabes tu de ser

perseguido e de fugir? E do minuto em que se mata?.... Que sabes tu de

seres tu? Ha instantes em que se vive uma vida inteira. Para se viver é

preciso cumprir se um fado, com todo o nosso sêr, é preciso a gente

sentir-se só contra todos e no entanto proseguir o seu destino... Andar

inda que esmague. Para onde? É para o mal? Que importa!...

--Mas o mal...

--Que sabes tu do mal?

--Nada.

--O mal sabe... Ter as mãos ensanguentadas e esmigalhar nas mãos!...

Fugir de noite com os pés nas pedras, perseguido, sem poder respirar;

encher depois o peito, com o coração a estalar, escondido n'um canto

negro ou estender-se a gente no chão e sentir na bocca o travor da

terra!... Não respirar e ter a noite por amiga!... A gente poder fazer

chorar! Eu ter entre as mãos uma vida e vel-a finar-se!...

--E eu que tinha pena de ti!...

O Gabiru reflecte. A noite é espantosa. Toda a lua se desfaz em luar e,

no silencio branco, vem-se da trapeira, os montes, o mar e as arvores,

com fórmas de sonho.

--Pobre de ti!--diz por fim o philosopho--Tu és a terra, tu és a terra a

falar... Tu és só terra. Eu não vivi? Tu és como a forja apagada e eu

não, eu não, eu ardo!... Olha! Olha!...

Mostrava-lhe os montes, o rio, os pinheiros transformados ao luar?

--Não, não quero ver. Isto tira a força á gente.

--Olha! olha!

Mostrava-lhe, esguio e parecendo um D. Quichotte banhado de luar, um

sonho que o outro não podia vêr...

* * * * *

Foi esta noite! foi esta noite! Ha dias em que eu sinto como uma

torrente impetuosa que vem do outro lado do Hospital. As pedras

estremecem impellidas. Ha como uma ligação entre a Arvore e o que para

lá existe. Os seus galhos engrossaram quasi a rebentar e hontem á tarde

eu vi que a Arvore já não era a mesma. Foi quando, como agora acontece

sempre desde março, o sol lhe deixou poeira d'oiro nos galhos. Vae-se o

sol embora e ainda--vou jural-o--lhe fica sol nos ramos. Hontem á tarde

parecia transformada, dirieis haver n'ella não sei o quê

d'extraordinario. Tinha o ar d'um heroe ou d'uma mãe. Puz-me a vel-a

tronco por tronco, depois as pernadas e os raminhos e emfim descobri

perdida, quasi sumida, uma flôr tão miuda, tão tenue... Qualquer sôpro

do vento leval-a-hia para sempre.

* * * * *

A noites estremecia despedaçada. Uma nevoa viva, torrente luminosa,

arrastando comsigo no alvorecer, o primeiro halito dos montes e das

aguas acordadas, humedecia as arestas dos muros, o granito da cidade

ainda em bloco, meia sumida na noite. O Pitta sentiu que alguma coisa

d'extraordinario se passava n'essa madrugada d'abril: um jorro de vida

brotára, uma apparição, um sonho realisara-se tornado em materia. A

propria luz dir-se-hia enternecida, estremecendo ao tocar na Arvore.

Envolvia um fluido, um rastro d'emoção. Erguida, enorme, transformára em

flor a dor que as suas raizes tinham bebido. Com um grito o Pitta viu o

Gabiru pendurado n'um ramo.

Namorára sempre, depois do escarneo da Mouca aquella Arvore, scismando

n'um encontro ethereo para depois da cova. A tisica, nos ultimos dias,

quando a morte a tocára, não tirava dos troncos despidos o olhar

absorto.

--Aquella Arvore,--dizia--aquella Arvore...

Não sei se repararam... As creaturas mesmo antes da agonia pertencem

mais a um outro mundo do que á terra. A materia está já toda imbebida de

mysterio, ha mais luz do que noite... As coisas que pertencem ao corpo

emmudecem e põe-se a falar dentro em nós a poeira d'astros de que é

feita a alma.

--A Arvore! a Arvore!...--dizia ella para Sofia--Donde nasce

aquillo--olhe--que a faz tremer? Engrossa e de noite irradia luz...

Lembra-se do anno passado que p'ra alli veio um passarito morar? E da

sua voz? Parecia agua a cahir...

Quando para sempre a levaram o Gabiru mergulhou na dor. Isolou-se mais.

Monologava e os olhos esqueciam-se-lhe nos sitios que ella amára. As

noites tinham já esse encanto que alheia, cheias de gritos, de vida no

escuro, de palores esquecidos...

Altas horas á janella, todo o céo pontilhado d'estrellas, ouviu soluços

na quietude da noite. Cahia um luar enorme e a treva tacita parecia

esperar escutando. Só muito ao longe, no silencio que lhe pareceu

presago, dir-se-hia que uma nascente deixára correr um fio de agua--só

um fio... Ou talvez fosse luar que corresse... Dirieis lagrimas. Poz se

a olhar inquieto. A Arvore mais esguia ao palor do luar, parecia

transformada. Acenavam-lhe os ramos--e que voz era aquella, fina e

meiga, que o chamava?.... Ou seria agua nascendo ou um fio de luar a

correr?

Desceu tres a tres os degráus e eil-o no quintal. Vestira o luar a

Arvore e sob a magia da noite a eclosão fizera-se. Cobriam-na

flores--cheiinha--e todas ellas eram como pequeninas boccas a chamal-o,

com uma voz conhecida.

Ao luar, na luz indecisa da noite, lhe pareceu a Arvore como um branco

phantasma a fugir e a chamal-o. Baixaram-se os seus troncos para o tomar

e ouvindo aquella voz amiga, desfalleceu apertado, morto, levado pelos

ramos...

XXVI

NATAL DOS POBRES

Natal...

Está um dia fosco de neblina incerta e tristeza. Para lá as arvores

despidas não bolem. A vida parou. As nuvens andam a esta hora arrasto

pelas encostas pedregosas dos montes. Não se ouve um grito. Tudo na

natureza se concentra e sonha. Ha no emtanto um grande rio revolto que

nunca cessa de correr...

* * * * *

Longe pelos caminhos, atravez de pinheiraes sumidos e callados, vão

velhinhas tristes, de saia pelos hombros, para consoar n'esta noite com

os filhos. Andam tropegas legoas e legoas. As suas mãos callosas, as

caras enrugadas, onde as lagrimas abriram sulcos, os olhos tristes,

contam o que ellas tem passado na vida, dias sem pão, suor d'afflicções,

desamparos, máus tratos...

Os cavadores deixaram mortos os arados nos campos, que a chuva alaga.

Que tudo repouse. O vinho d'hoje conforta, como as lagrimas choradas

pelas nossas desgraças, o lume d'hoje aquece como o amor de nossas mães.

* * * * *

Nos soutos, sob a chuva que cahe mansa e continua, andam pobres que não

têm lenha, a arrancar uma raiz esquecida, para se aquecerem. Deus os

tenha na sua mão de pae. Partem, chegam, vêm de muito longe, para verem

os seus meninos, matando saudades. Quasi não comem e sustentam filhos,

sustentam netos. Os velhos, que têm atraz de si uma vida de martyrio e

fomes, dizem:

--É hoje o maior dia do anno...

Na lareira arde um canhoto. Cabe o nevão. A cosinha é negra, de telha

vã, é negro o frio, mas as almas sentem-se agasalhadas. Por um buraco

avistam-se as estrellas e uma pedra serve de lar. Ao estalido das

pinhas, abafadas na cinza, repartem um pão que é o suor do seu rosto,

bebem um vinho aquecido em arvores que as suas mãos cortaram.

Sentados ao lume não falam. As brazas vão-se extinguindo como um poente,

ou como uma alma que vae deixar-nos. A Morte passa. No buraco do telhado

a estrella reluz, o nevão cabe com um ruido de flôres desfolhadas, e

cada um scisma em alguma coisa de indeterminado e vago, de longinquo: em

certa hora da vida, na mãe, n'um filho ausente, n'aquella morta que

passou seus dias a sacrificar-se por nós...

--O lume apaga-se...

--Deitae-lhe canhotos.

O lume apaga-se e as sombras da noite, em revoados, vém escutar-nos

attentas.

* * * * *

Os pobres são como os rios. Estancam a sêde da terra, fazem inchar as

raizes e crescer as arvores; acarretam; móem o pão nos moinhos. Eil-a a

vida da terra. Todas as cathedraes se construíram da sua dôr; sem elles

a vida pararia.

Natal dos pobres! natal dos pobres!... Porque é que creaturas

miserrimas, encontram ainda na sua gelida nudez, horas para recordar e

amar? Pobres repartem o seu pão; espesinhados dão-nos das suas lagrimas.

Vinho quente! vinho quente e amargo, que sabe a afflicção. Chegam-se uns

para os outros para se aquecerem. Nas enfermarias, nos sitios onde se

soffre, os miseros e os doentes quedam-se muito tempo a scismar. Os

pobres pensam que existem seres ainda mais pobres, lares desamparadas,

onde nem o lume se accende; cuidam n'uma velhinha, que, a essa mesma

hora, scisma, abandonada e sósinha, ao pé de brazas extinctas, no filho

doente, no filho ausente... Ha cabanas nuas, lares rôtos, almas mais

gelidas que o nevão.

* * * * *

As lagrimas que se choram e se não vêm são as peores: cahem sobre a

alma.

* * * * *

Sofia sóbe as escadas com uma caneca de vinho quente, para repartir com

o Gebo. Na sua physionomia ha um cansaço enorme.

A chorar, misturando-lhe lagrimas, o velho, mais gordo e todo branco,

bebe o azedo vinho quente das prostitutas. Depois abraçados soluçam na

trapeira fria. Fóra não se ouve rumor: as coisas ingeridas escutam.

Põem-se a scismar na mãe que descança na terra encharcada. Tudo tão

triste, dias sem pão, e o amor a prendel-os, a unil-os, mais forte que a

desgraça. Não sentem odio, nem teem forças para gritos. Baixinho o velho

Gebo e a filha choram aquella que a terra primeiro tragou.

--Se o Senhor tambem nos levasse...

E Sofia bebendo do mesmo copo:

--Tenha paciencia, tenha paciencia...

--Se o senhor nos levasse juntos, na mesma hora... Cuido que não tinha

tanto frio.

--Ahi tem pão.

--Sabes? Eu tenho medo de morrer. Se morresse comtigo, minha filha, não

tinha tanto medo.

--A mãe lá nos espera. Na cova acabam-se as precisões e as lagrimas...

--Tudo se acaba na cova. Chegada a nossa hora, acaba-se tambem a

desgraça.

--Aqui tem o vinho.

Natal dos pobres, noite de communhão, noite de lagrimas e saudades! Não

é chuva que cahe sem ruido, são lagrimas. O Gebo abre a janela e põe-se

a falar para a escuridão com palavras que a noite escuta, com palavras

que a noite leva. Sofia o ampára.

* * * * *

Em torno da mesa de pinho ceiam as mulheres. Com os cotovellos fincados

nas taboas, olham o vinho quente e scismam... Ceia de natal! Ceia de

natal!... Até as prostitutas se querem lembrar... Moidas de pancadas,

tem más palavras, gritos, e um sorriso humilde. Fazem-se pequeninas para

que lhes perdoem uma vida infame.

Falam! falam!... Parece que a mesma primavera negra fez dar emoção a

estas creaturas exploradas e servidas. Lembram-se da sua vida, sempre

lagrimas, risos sem piedade... Uma começa:

--Ninguem canta?

E logo outra, como se as palavras lhe sahissem de golphão:

--Eu cá foi por fome que me desfructaram. Ninguem queria saber de mim e

a minha madrasta calcava-me aos pés.

--Eu nem sei como foi...

--E eu então--continua--foi por fome. O pae estava encarangado e a minha

madrasta era tão má, que, por eu me demorar n'um recado, partiu-me um

braço.

--Pois eu foi assim de repente...--diz outra--Ia pela rua fóra. Vinha da

fabrica, começou a chover e uma lama!... Tinha frio e um homem poz-se a

falar-me ao ouvido e a levar-me. Eu nem sei como aquillo foi... E a

falar, a falar, até me doía o coração! E nunca mais o vi. Se o vir acho

que nem o conheço.

--Enganam e nunca mais querem saber.

--A mim minha mãe bem me prégava, mas a gente que ha-de fazer?

--Hontem os soldados pozeram-me o corpo negro,--diz uma.

E mostra a triste carne magoada, os seios murchos e com nodoas. No

hombro os ossos furam-lhe a pelle.

--Quando eu morrer... oh quando eu morrer!...

--Tola!

--Que tem? Tenho alli a roupa apartada.

Os Pobres Precedido de uma Carta-Prefacio de Guerra Junqueiro · 第 9 / 10 段