Hein, que queres tu? Nasce uma creatura para a desgraça. Em pequena anda

rôta, quasi nusinha, e o pão da vida dão-lh'o os ladrões e soldados.

Maltratam-n'a, irmã da terra, raza como a terra. Nada sabe do sonho--e

que culpa tem ella de não sonhar? Violam-n'a, tornam-n'a egual das

pedras, secca como as pedras, mesquinha, e arrancam-lhe todas as

aspirações, cospem-lhe em todos os sonhos. Só soffre. Vêm uns, vêm

outros para a fazerem gritar, e ella um dia põe se a rir e ri-se até da

desgraça.

* * * * *

Julgarieis que na sombra, sob a arvore, o luar constroe e tece, á medida

que o Gabiru vae tecendo. É não sei o quê de incerto que mexe--fio de

luar ou vento que passa e vae transir a sombra mysteriosa. O Gabiru olha

extasiado.

* * * * *

Da terra dilacerada surgem fórmas de prodigio. Quanto mais revolvida a

materia, mais bella é a eclosão do sonho. Da vida da Mouca que começou a

soffrer em pequenina, logo a principio se creou algo de radioso. Ella

ri, a Mouca, escarnecida e calcada, sem ter tido quem a ampare senão

prostitutas e ladrões. Nasceu para gritar--e ri. Mas nada se perde na

vida. Ella que tudo ignora, rolada como as pedras no enxurro, conhecerá

o extraordinario sonho. D'aquella materia espesinhada vae nascendo uma

maravilhosa forma de luar.

* * * * *

O philosopho sorri extasiado para a Sombra. Eil-a! Uma physionomia

pallida, onde os olhos cegos se perdem, tenue, construida de luar ou

construida de sonho. Dirieis que essa figura esguia, sustentada a luar,

de negros cabellos de sombra, desapparece no escuro, torna a surgir nos

fios de luar...

* * * * *

--Fui eu que te criei, és minha!--diz elle absorto, erguendo-se.

Caminhas para mim alheada, não me querendo olhar e não me podendo fugir,

pallida e tremendo. Vens sob o tecido do luar. Oh que palavras te hei-de

dizer, ajoelhado, que singulares monologos feitos de nada e enormes,

arrancados á via lactea, com palavras que nunca aprendi, nem soube

dizer, mas que me brotam da alma como nascentes! Quem me déra ser a

noite, a arvore, o luar, que me enche d'afflicção! Juro-o, as arvores

falam com o luar, as montanhas namoram-se ao luar. Brilham perdidas

tantas estrellas pelo céu, meu amor!... Os sapos, confundidos deante da

gigantea natura, cantam n'esses pios que, ao longe, na solidão, magoam

como ais d'alguem a quem aconteceu desgraça...

Olha: eu sento-me distante de ti, para que não fujas desfeita em luar.

Gostava tanto de sentir a tua mão pousada na minha cabeça, tanto!

Olha!...

* * * * *

Sob a Arvore--realidade ou illusão?--uma figura se constroe de luar, na

sombra opaca uma tremulina toma forma. Juntam-se os fios de luar,

amontoam-se nevoas e alguma coisa treme, prestes a fugir--mas viva!

viva!... Dirieis que é só um sorriso, um olhar muito triste... O Gabirú

corre e tudo se esvae... Só a Sombra resta e um ruido de gotas de luar

tombando sobre folhas.

Elle sorri e diz:

--Eis como se cria uma alma!

* * * * *

Todas as noites, muito tarde, volta para ao pé da Arvore.

--Uma é terra, outra é luar,--murmura. Quanto mais a Mouca soffre, mais

esta se cria. Oh, não me fujas! Vens com a noite, melancholica e pallida

como as mortas arrancadas ao sepulchro. Criei-te de lagrimas. Os teus

cabellos esparsos perdem-se na sombra. Nunca vi na escuridão os teus

olhos, mas sinto a irradiação da tua alma!...

O Gabiru, na noite branca e callada, sente-a approximar-se e olhal-o

muito tempo.

--Minha alma!

Nem um murmurio. Noite a noite era mais o luar. Absorvia tudo. A sua

claridade mysteriosa diluia a terra e as coisas. A Arvore, esmaecida,

toda se desfazia em pó claro. E noite a noite tambem a Sombra opaca se

tornava mais espessa e funda. A certas horas o silencio estremecia, n'um

ai baixinho e triste. Era a creação! A alma da Sombra acordava. Eil-a!

eil-a!...

--Minha vida!

Via-a perfeitamente. O oval do rosto pallido, os negros cabellos

compridos, inteiramente feita de sonho e de lagrimas. Só os olhos se

perdiam em duas sombras, cega talvez de tanto ter chorado--por a outra

rir.

--Não fujas!

Correu um dia para a Sombra. Lua cheia, lua alta. O mundo, todo imbebido

em luar, era como um grande sonho de belleza. Logo a imagem se esvaiu e

na sombra funda, na sombra opaca, restavam apenas manchas vagas e

dispersas, luar desfeito... Apalpou a terra. Havia um ruido ainda--pelo

chão corria um fio de agua ou um fio de choro...

--Meu amor! meu amor!

XX

A MOUCA

Noite de chuva, d'esta chuva miuda que enlameia e entristece como uma

angustia. Na rua Sofia passa com o chale de rastro. Ha um clarão de

tochas á porta. Vae sahir um enterro. Morreu o pequeno do gato pingado.

Trouxe-a para casa uma noite, a essa creança que encontrou cahida na

rua. Um rapaz de dez annos, abandonado e com uma pneumonia... Que lhe

quer o gato pingado fazer, não me dirão?...

* * * * *

Estava a chorar. Deu-lhe para chorar sobre o caixão d'um garoto, que não

lhe é nada. Elle que não tem onde cahir morto, chora o pão que tiraria á

propria bocca para o dar a outro.

* * * * *

Morreu-lhe hontem. É decerto um gato pingado a menos.

Primeiros farrapos da noite a esvoaçar, d'essa noite de primavera negra,

em que todos se põem a contar baixinho os seus sonhos á escuridão.

--Deitam flôr á noite...--diz o Sabio.

A treva entupe os buracos das ruellas. As tochas tem debaixo da chuva

sinistros clarões d'incendio. Vae uma balburdia na rua e o redemoinho da

noite traga o bairro acastellado. Eis o enterro. Vão mulheres perdidas e

a Rata, a tossir, vae o Astronomo, e na frente d'um caixão de passarito,

comboiando a turba, lá marcha o gato pingado, de brandão em punho,

chapeo alto e casaca a esvoaçar... A que irão elles deitar fogo na noite

tragica, de lama e chuva? Mulheres perdidas, ralé, o velho tisico... Na

volta vêm decerto a cahir de bebados.

* * * * *

Todos os dias desapparece alguma das mulheres levada para o Hospital.

Mas cantam, cantam sempre. Sofia sorri resignada. Na vida que lhe resta?

O Gebo a sustentar.

Todas as manhãs sobe á mansarda onde o velho dorme, levando-lhe pão, que

elle mastiga com um nó na garganta. Olha-a com lagrimas e só diz:

--Filha!

A existencia é como um circo. Não ha piedade.

* * * * *

Dizem-me: a que recanto espantoso vae a natureza buscar esta ignea

bondade? A que esconderijo, a que veio occulto? De que força é que se

constroe, de que chimica é que se forma a bondade profunda, inabalavel,

inextinguivel, que sustenta e ampára os pobres?...

As prostitutas que dantes odiavam Sofia, chamam-lhe agora _menina_,

depois que a vem sua egual. Repartem com ella o pão que ganham, e ao

vel-a tombada, chorando, ficam afflictas, pois não sabem consolal-a.

--Mais lhe valia deitar-se a afogar,--diz uma.

--Isto aqui é uma vida de cão.

--Olhae que ter fome!... Sempre a fome é negra,--conclue outra.

* * * * *

Só a Mouca a odeia. Ella que foi sempre a mais maltratada, maltrata

agora. Se podesse, pizal-a-hia aos pés. Ella, de quem todos se riram com

escarneo, cuspida pelos soldados, queria emfim fazer soffrer. Não havia

ser mais degradado, não porque fosse má, mas porque era como todas as

creaturas filhas da terra, que o homem cria para o gozo.

A principio todas faziam soffrer Sofia. Tinham vontade de a rebaixar, de

a verem chorar lagrimas d'afflicção, para a igualarem.

--Cá temos a _menina_!

--Quem no diria? Não falava a ninguem a mosquinha morta! É para

aprender!

--Deixae-a!

--Deixae-a o que? Ella é como as outras.

--Deixae a pobre, que não faz senão chorar. Vocês não tem coração.

--Tambem a gente soffre.

* * * * *

Riam-se, empurravam-n'a para os peores tratos, mas pouco e pouco, deante

d'aquella dôr silenciosa e profunda, callaram-se e pozeram-se a amal-a.

Tratavam-n'a por _menina_. Uma queria penteal-a, outra ajudal-a. Só a

Mouca lhe tinha o mesmo odio.

--Olha lá, ó parida!

--É commigo que fala?

--Faz-te tola! Acaba lá com esses ares de senhora. Já estou farta. Tu

aqui és tanto como eu, sabes?

--Sei--diz Sofia.

--Tu conheces-me? Olha se me conheces, senão ensino-te quem sou.

Acabou-se! embirro com isso. Pareces uma sonsinha... Tu falas?

Sofia olha-a silenciosa.

--Ah, tu não falas? Olhas p'ra mim com cara d'escarneo? Não quero que

olhes p'ra mim, não quero, ouviste? Ai, não falas? Toma!

E deu-lhe uma bofetada.

--E agora? agora? Quizeste, ahi tens. Toma. Tu aqui és uma desgraçada

como eu. Aqui não ha meninas. E agora? agora? pensas que és mais do que

as outras?

--Sou mais desgraçada.

E poz-se a soluçar.

Mas de subito a Mouca clamou:

--Perdão! perdoe-me, menina! Eu era por inveja. Saiba: não a podia ver

por inveja. Fui sempre assim. Não me fique com raiva. Eu dizia cá

commigo: Então os outros tem mãe e eu nunca a tive? Os outros são

infelizes um dia, mas eu fui infeliz desde que nasci. Sou filha da

terra. Crearam me os ladrões, já deve ter ouvido. Tenho sido muito má

p'ra a menina, peço-lhe que me perdoe. Era por inveja. Peço-lhe que se

ria p'ra mim, para me mostrar que não está zangada commigo. É bôa! eu

dizia cá por dentro: Hei-de pôl-a tão raza como eu. Que é ella mais do

que eu? Sabe porque lhe tinha esta _osga_? Por vêr que a menina era

infeliz e bôa p'ra todos. Eu sou assim, sou como um cão. Peço-lhe uma

coisa... Bata-me para eu acreditar que é minha amiga.

XXI

AHI TÉM OS SENHORES A NATUREZA!

N'essa madrugada o Pitta arrastou o Gabiru por um esgoto que do predio

ia desaguar ao outro lado do Hospital e de que só elle sabia a

existencia. As paredes arrombára-as d'onde a onde a raiz torcida da

Arvore.

--Anda! anda! Estas raizes são mais duras que a pedra. Nada lhes

resiste, nem o granito. A Arvore ha-de acabar por nos tragar a todos.

Tinha chovido na vespera e era ainda noite quando sahiram do esgoto.

Abala-os logo uma lufada de ar vivo, d'este ar que é como a agua da

rocha, que appetece sempre beber e que traz comsigo existencias

d'arvores, cheiinho de emoção. Param. Uma brancura, nebulosa na cova

onde se criam mundos, ainda erra esparsa. No céu brilham estrellas e

sente-se sobre as terras lavradias o nevoeiro espesso, que das arvores

tomba em gotas grossas como chuva de verão. Os troncos além são

espectros e outros, mais longe, de todo desapparecem. Ao norte luz uma

estrella enorme. Sobre o monte abre-se um rasgão de claridade... Eis o

sol fraco, escorrendo por entre troncos, misturado de branco e sem

calor, tal qual luar. Nos regos do arado correm rolos de nevoa e a

verdura da herva, na manhãsinha, é immaterial, como se fosse a

respiração da terra. As aves, nas moutas, começam o seu dia cantando.

--Que sentes?--pergunta o Pitta ao Gabiru.

--Espera! espera!--diz o outro entontecido.

--Ouço gritos e só vejo uma brancura e gestos... Mas o que eu ouço! que

sem numero de vozes, de palavras precipitadas!

--Vês arvores?

--Só vejo um clarão. É como um relampago, offusca-me! Mas o que eu ouço!

quantos gritos, que amalgama de gritos! Sei agora que existem arvores

porque ouço o seu ruido e a sua voz...

--Procedamos com methodo. Eis ahi a terra, ahi a tens a teus pés. Ahi

tens um charco.

Tudo já estava cheio de sol.

--Isto negro e isto de oiro? pergunta o Gabiru.

--Sim. Revolve isso negro, inerte e no emtanto vivo. Afunda as mãos. Ahi

nas tuas mãos, n'esse pedaço de lama, tens tudo, particulas d'arvores e

de sonho, realidade e emoção...

--Isto é então...

--Um turbilhão,--affiança gravemente o Pitta.

--Isto é vida?

--É vida. Esse pedaço de terra é humus. Incha com a primavera, fala.

Está morna e escuta, põe-n'a ao ouvido... Ouves?

--Ruido, vozes, gritos d'embryões, um borborinho...

--Ora repara. É sempre a mesma coisa. Maquinações philosophicas... Isto

é um mundo e isto--e aponta um charco--é um mundo. N'esse charco

adeante, ahi, vês?...

--É oiro.

--Não, é agua onde o sol se espelha, apenas agua...

O Gabiru curvado mergulha as mãos afiladas e negras na poça. Tira-as

depois para fóra fascinado. As gottas d'aquella agua turva cahem qual

oiro liquido, trespassadas pelo sol, n'um chuveiro de faiscas.

--Eis estrellas! exclama commovido.

--Perdão, é apenas como te disse, um charco, um desprezivel charco.

Habitua-te primeiro a vêr.

--Quero vêr mais!

--Habitua-te primeiro a vêr...

O sol que tomba a flux corre, afoga, doira, penetra os sêres e as

coisas. No dia humido ouve-se o resurgir da vida: a lama mexe-se, os

troncos engrossam, a agua nasce inchada, n'essa manhã de primavera, em

que tudo se transforma sob a esteira do sol. Tinha chovido na vespera e

até nas mais pequenas coisas, na pegada dos bois onde a chuva

encharcára, irrompe uma vida exuberante, apressada, de sêres que em

minutos de existencia têm uma prodigiosa tarefa a cumprir: amar, crear,

morrer...

--Eis uma arvore--aponta o Pitta.

--Como ella gesticula para nós!

--Pois ahi tens uma arvore.

--Que coisa enorme e bella que é uma arvore! É differente da outra... E

é uma arvore? Uma arvore dá agua, ouço a agua a cahir.

--E o ruido das suas folhas.

--Uma arvore é viva. Fala? É o ser mais bello que eu conheço. É verde,

mexe-se...

--E alli, longe, um monte.

--Aquillo pequeno? Um torrão como este que os meus pés desfazem. Só é

violeta. Maior é uma arvore! maior!... E esta poeira luminosa que nos

envolve, que é? Alma?

--Maquinações philosophicas... Caminha agora, vê... Eu vou-me deitar á

sombra... Podes vêr...

O Pitta tirou as botas e estendeu-se ao pé d'um sobro. Da algibeira

saccou o caderno de notas e poz-se a escrever: _Deve_ á D. Antonia, tres

mezes em atrazo--30:500 rs.; _a Haver_ das explicações da natureza aos

domicilios--25$000... Differença...

O Gabiru vae andando ao acaso. Pica-se nos espinhos, esmaga entre as

mãos flores e rebentos, magoa-se nas pedras. Encontra sebes orvalhadas,

arvores brancas todas flor, abrunheiros em flor, e uma hora fica

absorvido defronte d'um velho muro, encostado ao qual uma macieira

treme, carregadinba de flor. Ha galhos que lhe parecem emoção. Os pés

calcam hervas espesinhadas, que tambem deitam cá fóra o seu sonho;

esquece-se ao pé das fontes vendo-as jorrar e põe-se a respirar fundo,

querendo imbeber-se d'aquelle ar carregado de vida.

De repente cahe um d'estes chuveiros de primavera, precipitados e

rapidos. A chuva que tomba é morna. As plantas bebem-n'a, as flores

abrem-se tontas e escondem gotas nas corollas; vêm-se crescer as

pequeninas folhas verdes como se inchassem e os gommos tingidos de

resina estalam, abrem, com um ruido suffocado--ah!... Tudo fica baço a

principio, a terra molhada é d'um negro gordo; um fremito corre nas

folhas tenras... Depois, como um veo que se rompe, o sol começa de novo

a correr. As fontes deitam oiro, as plantas têm fios d'oiro e no chão ha

toalhas e caminhos d'oiro e sombras.

--Senhor Pitta, eu quero ser isto...

--Isto quê? resmunga o outro concentrado.

--Quero ser isto!...

Mas o Pitta, enfronhado nos calculos resmoneia:

--Maquinações philosophicas. Deixa-me... Eis a differença--22$000

réis... Eis!...

O Gabiru caminha. Depois cahe entre a herva tenra e nascida e deita-se a

vêr os rabiscos do sol e um galho tão em flor, que parece uma teia de

luar esquecido. Primeiro o tronco incha: ha como ponto negro que

estoura, para ser botão e depois flor... Medita. Está um dia morno e

humido. Sahiram das tocas os bichos internados todo o inverno. Vespas

passeiam a sua roupa d'oiro no marmore das flores e toda a terra remexe.

Acredital-a hieis viva.

Em que se põe a pensar? O seu ouvido de enclausurado, affeito ao

silencio, ouve até ao fundo da terra o rumor dos bichos, tanto tempo

empedernidos, que esfuracam para o sol; das sementes que rebentam e

sobem para a luz, o _glu glu_ das raizes gordas e felizes ao mergulharem

no humus.

É um barulho de maré longinqua que cresce, galga, augmenta, trasborda...

Espavorido deita a correr... Por toda a parte as sebes, as hervas

escondidas, os tojos bravios, para quem ninguem repara, crescem. Ha-os

nas pedras; ha-os no ventre resequido dos calháos.

Anda, anda, e dá com aguas grossas, felizes, apressadas; com

quintalorios onde a verdura cresce aos borbotões; pinheiros, depois

silvas, bravios--e até nos sitios mais estereis encontra a mesma vida e

o mesmo amor.

Que força é esta que faz mexer a terra e a abala?

É uma torrente, um rio subterraneo branco e verde, que vem á suppuração?

Um riacho de tintas, brotando á superficie do solo em labaredas verdes,

todas roxas, inteiramente brancas? Ha verdura tão tenue que dil-a-hieis

uma nevoa verde; folhinhas que parecem feitas d'um halito que se pegou

aos troncos.

A sombra das arvores enche-o de refrigerio, envolve-o na atmosphera de

sympathia e frescura que ellas exhalam.

Por fim o Pitta vae encontral-o tolhido, d'olhos estasiados entre flores

esmagadas, Nas mãos flores, aos seus pés flores esmigalhadas.

XXII

PHILOSOPHIA DO GABIRU

Oh descubro agora a torrente esplendida que é a vida! É a emoção. Ella é

o veio limpido onde todas as sedes se estancam. Liga os homens,

prende-os--e o egoismo afasta-os.

Todos os rios, como todas as vidas, vão desaguar ao grande atlantico de

belleza. As creaturas humildes e simples tem uma existencia como um fio

corrente--agua ou lagrimas, mas sempre claro. A colera, a ambição, os

interesses turvam a vida, como a terra revolvida turva a agua.

* * * * *

Amar os outros, soffrer pelos outros, viver para os outros, é tornar a

existencia simples, monotona e grande; é fazel-a parecida com as mantas

grossas, d'uma unica côr neutra, que agasalham os pobres.

* * * * *

O homem que tem emoção e que ama é sempre feliz: as coisas conhecem-n'o,

as arvores são suas amigas. Sente-se enternecido deante do mais

resequido calháo.

O que odeia, o ambicioso e o máu, passaram pela natureza como o homem na

guerra: não viram nem ouviram. As coisas emmudecem para elles. Nada lhe

dizem, porque não sabem ouvir. Tu, que enternecido paraste deante d'um

sitio recolhido e simples, deante das desgraças alheias, tu, pobre, que

tombaste na cóva desprezado, rôto, e a quem a terra recebe como a um

amigo, tu que adormeceste no derradeiro somno quasi consoladoramente,

como morre tudo o que é simples, tu viveste... Communicaste pela piedade

e pela emoção, com a natureza inteira e o teu amor repartiste o pelos

mundos que rolam no infinito, por Deus, pelo homem, pela pedra. Tu

soubeste e presentiste tudo.

* * * * *

O que é grande é sempre simples.

* * * * *

Desperta em ti a emoção para que possas dizer:--Vivi!

* * * * *

Todo o homem que nasce deve ter um quinhão de terra--seu sustento e sua

cóva. O pão de cada dia deve grangeal-o com o suor do seu rosto.

* * * * *

É singular a inconsciencia com que o homem trata as coisas mais

profundas da vida--e a gravidade com que discute as que são apenas

apparencias vans.

* * * * *

A desgraça é sempre boa--porque approxima o homem dos desgraçados.

Tudo na vida se simplifica sendo a gente simples. É como a folha que se

deixa vogar na mansidão de um rio até que o oceano a traga.

* * * * *

Nada na existencia nos prende como os grandes espectaculos da natureza:

o monte, a arvore, o fio de lagrimas que as fragas choram, o homem de

coração e vida simples, pacifica e grande.

Para se ser feliz na vida é preciso ser-se pobre. Sentir-se que o pão

que se come não é tirado a nenhuma bocca, nem o lume que nos aquece

roubado a alguma velhice friorenta.

Ser pobre, lavrar uma terra que nos dá o pão saboroso e negro e o tronco

para o nosso lume!...

* * * * *

Quando se ama, a emoção sahe de nós como d'uma fonte e a gente prende-se

aos outros. Não se sente sósinha: faz parte da Vida, d'uma torrente

d'amor mysteriosa e esplendida. O amor torna-nos irmãos.

* * * * *

O homem não faz senão complicar a vida, que em si é afinal bem simples.

* * * * *

As coisas despresadas são as melhores da vida: a paz, as horas

esquecidas, a agua desnevada que se bebe, os minutos de silencio em que

se sente Deus comnosco.

De que serve accumular odios, ambições, riquezas? Não é isto demais para

uma vida terrena?

* * * * *

Não saber nada senão amar--repartir emoção com os outros!

* * * * *

De rastros! de rastros! Odio, ambição, gritos, tudo isso é nada! Toda a

existencia perdida a sonhar, a viver sósinho, absorto em coisas nullas,

quando a vida é tão grande e tão simples e se reduz--a amar! Pelo amor

conhece-se tudo, até o que os sabios ignoram. Olha para um mysterio com

amor, e elle desvenda-se logo; olha para um calháo com amor, que até

n'elle encontras mil coisas imprevistas; chega-te ao homem, teu irmão,

até ao mais degradado, com amor, que n'elle depararás com Deus. Deus

vive ao pé de ti, comtigo, tocal-o a toda a hora. Que precisas para o

sentir? Amor.

Vive uma vida simples, a vida de que os pobres se approximam, com emoção

e o teu pedaço de pão negro, olhando o prodigioso mysterio, e serás

feliz.

Lavra o teu campo, e, nas horas perdidas, olha, prende-te á abobada do

céo, ao homem, á montanha, á arvore, ao mar--e ouvirás Deus em ti,

sentindo atravessar-te uma frescura mais viva do que a agua das rochas.

Deus está muito perto de ti--e é por isso mesmo que o não vês. A palmos

da seccura passa muitas vezes um veio d'agua escondido. Basta cavar na

crosta da terra, para que o chão gretado e pedregoso se transforme. Que

torrente de emoção não vae atravessando os mundos, os homens, as folhas

seccas e os globos d'oiro do céo!

O homem enredou se de tal forma na ambição, no odio, na guerra, que

perdeu o sentido da vida--tão simples e tão larga--e que deixou de vêr

Deus, sempre presente ao seu lado.

Para o encontrar, precisa de voltar ao amor das coisas simples e

grandes--ao amor dos seus irmãos, da natureza, e de abrir o seu coração

a esse fluido mysterioso.

A vida artificial é que transformou o homem. Da vida artificial é que

nasceu o orgulho, e que nasceram a ambição, os erros, o crime--e até a

piedade. Se todos vivessemos da verdadeira existencia--o homem seria

feliz. Como se pode redimir tudo isto? Prégando o Amor. Só o Amor nos

pode ainda salvar.

Agora vejo! agora vejo! Que montão d'infamias! que montão de crimes! O

homem trabalha desesperado, atraz do oiro, da ambição, da vaidade, do

sonho vão, para quê? Para ser desgraçado. Um trabalho ferreo e

herculeo--para gritar, e encontrar-se ao fim, a dois passos da cova, com

inutilidades, carregado de dores e de opprobrios. Não hesitou em

despedaçar, em calcar, em mentir--em busca do que elle julgava a

felicidade, e que era apenas o erro. Não teve tempo para olhar a

montanha, o mar, o ceo--o espectaculo de Deus não o viu--porque corria

atraz da felicidade. Não perdeu uma hora apanhando sol como um mendigo,

tendo piedade de seus irmãos, dando a mão aos desgraçados, porque vivia

n'uma afflicção, atraz do quê? Da felicidade. Não se sentiu a sós

comsigo, não se encontrou, nem sequer um dia da sua vida perdeu

olhando-se cara a cara, elle e a sua alma, fechado com o seu coração.

Porquê? Porque corria atraz da felicidade. Desprezou tudo, a vida, a

respiração dos montes; riu-se do amor, da emoção--futilidades--porque

feroz, incansavel, negro como um mineiro, elle buscava, sem perder um

minuto--a felicidade! Chegou ao termo da jornada, tendo amontoado oiro e

pão, tirado a outras boccas, tendo feito gritar, blasphemar, contente o

seu orgulho e a sua vaidade mas afinal profundamente desgraçado. Está a

dois passos da cóva. Interroga-se e não comprehende. Então isto é que

era a felicidade? De que me serve tudo isto? O desgraçado não reparou

que a felicidade na vida estava exactamente no que elle tinha

desdenhado!

Ama, ama a teus irmãos e vel-os-has transformados e cheios de belleza:

mesmo nos mais seccos irás encontrar coisas inesperadas; ama a natureza,

os montes, as pedras--e verás que espectaculo sublime; ama que sentirás

a mão de Deus pousar se sobre a tua cabeça.

Torna á vida simples e serás feliz. A tua vida não custará gritos; o teu

pão não será furtado a boccas famintas. Por cada homem que amontoa oiro,

ha cem creaturas morrendo no desespero e na afflicção.

XXIII

A OUTRA PRIMAVERA

Os dias passaram-se e a Arvore era um collosso.

N'essa noite o Sabio encontrou o Pitta desvairado, com o chale-manta ao

vento.

--Pitta você tem um ar estranho.

E o Pitta, transido, murmurou:

--Você deve tel-os visto. Nascem, irrompem da treva...

O outro, cheio de serenidade, affiançou:

--Foi a primavera.

--A primavera isto! O amigo desvaira. Como a primavera? Elles só

apparecem de noite, criam-se nos saguões. Deparo com creaturas que nunca

vi. Uns são lama viva, outros que são?.... Homem, dir-se-hia que todos

os sonhos tomaram corpo.

--Tomaram. Tenho pensado n'isso. Pois foi a primavera. Você tem visto um

charco, lama e agua revolvida? Vem a primavera e aquillo transforma-se.

O mesmo sôpro que faz bater mais alto o coração dos montes, cria

n'aquelle palmo negro a vida--murmurios, gritos, um arrancar de

mysterio. A primavera faz isto; transforma o humus inerte n'uma vida

furiosa. Eu já vi...

--Então...

Os Pobres Precedido de uma Carta-Prefacio de Guerra Junqueiro · 第 8 / 10 段