--A mim quando sahi do asylo enganaram-me, levaram-me. Eu não sabia

nada. Depois comecei a servir. Enganaram-me e punham-me fóra... Depois

não tinha mais para onde ir ...

--Eu cá tive um filho...

Uma que estava callada soluçou no escuro. E como todas se voltassem

poz-se a rir e a ageitar os cabellos.

--Eu tive um filho e puz-me a creal-o. Depois de isso o meu amigo nunca

mais quiz saber. Quando eu o procurava ria-se. Mostrava-lhe o innocente

e elle punha se a rir.--Mulheres não faltam, dizia-me. Vae-te!--E a

gente fica feia. Vae um dia e disse-me:--Se cá tornas chamo a

policia.--Eu chorei até não ter mais lagrimas e acabou-se tudo. São

todos o mesmo. N'outro dia vi-o mas elle fingiu que não me conheceu.

--E o teu filho era bonito?

--Era um anjinho do céo. Tanto chorei que seccou-se-me o leite de

chorar. A gente sempre é mais tola!... Poz-se muito chupadinho e morreu.

--A Maria já deitou um á roda.

--Eu cá se tivesse um filhinho acho que morria por elle. Não tinha

coração para o dar a crear.

--A gente não podemos ter filhos.

--Eu cá era uma innocente. Até me dá riso! Tinha treze annos e foi logo

ao entrar para a fabrica. O mestre foi quem me desfructou. Agarrou-me,

mas eu não sabia e puz-me a chorar.--Calla-te! se dizes, vaes para a

rua!--Abandonou-me, outros vieram... A gente ha-de cumprir o seu fado.

--Eu cá fui um miminho. Meu pae tinha de seu... Depois tudo esqueci,

porque senão a gente morria. Meu pae era muito meu amigo. Era preciso

não ter coração para o enganar. Nem elle podia suppôr mal de mim, nem do

outro que entrava na nossa casa. Meu pae era tambem muito amigo d'elle e

tinha-lhe valido sempre. Ainda me lembro, quando meu pae commigo no

collo me dizia:--Tu és o meu coraçãosinho...--Eu sempre tive um collo!

Olhae: emballava-me como ás creanças.--Falta-te a tua mãe, mas eu sou a

tua mãe, queres?--Era uma dôr do coração enganal-o e nós enganamol-o

ambos. E eu bem sabia que elle era casado, mas mentia-me...

--Porque será que os homens mentem sempre?

--Mentia-me sempre, e eu era innocente. Mentiu-me e mentia a meu pae. O

peor é que um dia fiquei gravida. Começou o meu castigo.--Vou-lhe dizer

tudo.--Diz--disse elle. Matal-o. Se queres diz...--Eu callei-me.--E

agora?--Agora...--Eu já lhe não queria, acho mesmo que nunca lhe quiz

deveras. Foi uma desgraça. Já estava escripto que fosse desgraçada,

acabou-se!... Depois não podia esconder o meu erro. Só meu pae não

reparava... E elle que me imaginava uma inocente!... Esperae...--E

agora? agora?.... perguntei-lhe. Então arranjei com que meu pae me

deixasse ir com elle e a mulher para uma quinta. Se vós visseis!... A

pobre da mulher! Batia-lhe sempre, tratava-a peor que a um

cão.--Calla-te!--e ella callava-se, a pobre.--Fala!--e ella falava.--Ó

estupor tu não te callarás!--Ella tinha os cabellos todos brancos e vae

em um dia perguntei-lhe quantos annos tinha.--Trinta, respondeu-me, e

callou-se. Fiquei passada. O homem deante d'ella dava-me beijos para a

ver chorar. Dizia-lhe:--Vou dormir com ella, ouves, velha?--E dormia

commigo. A senhora não dizia palavra. Chorava e punha em mim uns olhos

tão tristes, que faziam afflicção. Um dia que ficamos sósinhas, ella

disse-me:--A menina ha-de ser uma infeliz--Eu chorei, e ella com a mão

nos meus cabellos, a fazer-me festa:--Coitada! coitada, que sorte a sua

tão negra!... Ainda eu...--Porque o não deixa? perguntei-lhe.--Já me

tinha deitado ao rio se não fossem os meus filhos.

--Elle sempre ha desgraças? Ás vezes mais vale ser mulher da vida.

--Esperae pelo resto... Tive as dôres uma noite no verão, em agosto, e a

pobre da senhora é que me tratou. Elle levou-me logo o filho. Na outra

sala ouvi gritos. Vae e atirei-me pela cama fóra, sem saber o que

fazia.--Onde está o meu filho?--Fui mesmo de rastros e puz-me á porta a

escutar. Elles berravam--Se falas esgano-te!--dizia o malvado á

mulher.--Mata-me! tornava ella.--Tu queres a minha desgraça?

Estorcego-te!--Depois ouvi um grande grito e fiquei como morta.--O nosso

filho? o meu filho?--Nasceu morto.--A mulher a um canto chorava. Chorou

sempre depois.

--Tinha-o matado, o malvado?....

--Tinha. Affogou o na latrina. Depois veio a policia. Esperae... A

creada ouvira os gritos. Sabe-se sempre tudo, o diabo tapa d'um lado e

descobre do outro. Elle fugiu para o Brazil, eu fui presa, e meu pae

deante d'uma ingratidão tão negra--queria crêr?--estalou-lhe o coração.

Depois... depois... A gente quando nasce já tem a sua sina escripta.

--E a ti?.... Não falas?--perguntam a uma sumida no escuro.

--A mim enganaram-me. Foi ha tanto tempo que já me não lembra. Tudo

perdi.

--E a tua familia?

--A gente não tem familia.

* * * * *

Na noite, a um canto do Hospital o velho _banco_ de taboas puidas, dá

lhe tambem para scismar. A ventania parou. D'uma fresta tomba luar. A

treva amontoa-se ao fundo, e, para alem, nos corredores abobadados, arde

um lampeão. Direis que o negrume remexe: pedaços de escuridão

destacam-se, escoam-se sem ruido pelas muralhas humidas e espessas. Mais

para o fundo ha como um abysmo, valla commum de treva empastada. Os

gritos redobram; depois, por momentos, o silencio suffoca, como o d'um

sepulchro.

--Se é luar que cahe d'aquella fresta,--cuida o banco.--Se fosse

luar!...

Pela escada vê se a enfermaria onde os lampiões em fila dão uma

claridade triste, que mostra os corpos moldados em branco, cahidos nos

leitos: parece uma necropole subterranea e immensa.

--Se fosse luar...--Ha que tempos que não sinto o luar. Era como um

ruido branco que me envolvia outrora na floresta. Neva ás vezes luar. E

havia ainda outras vozes... Sempre se sonha, quando certas noites

nascem! Era differente... Havia rumor nas folhas e o vento dizia aos

ramos historias acontecidas n'outros montes. Ha epochas em que o vento

traz noivados, ais de sapos, frangalhos arrancados ás flores... Se

aquella poeira fosse luar... E se o luar se pozesse a correr sobre mim,

aquecendo-me como outr'ora, quando em mim subia não sei o quê de

mysterioso e forte?

Redobram os gemidos, os estertores, os gritos. Os ultimos lampiões

apagam-se um a um, como se alguem lhes soprasse. É a Morte seguindo o

seu caminho. Sombras esvoaçam. E a cova, negra, toma corpo, vive, mais

callada, maior, valla infinita, a que uma luzinha dá alma. E o _banco_

scisma:

--Ha que tempos que não sinto em mim a luz da manhã, que traz comsigo a

vida de tudo o que existe, dos rios, das outras arvores, nem o sol a

crescer em vagas d'oiro, nem a agua verde, melancholica, e tão mansa

entre os choupos que parece ir vogando já morta... Sinto-me transido...

Transido? Isto é como fogo, mas trespassa-me de frio. E não ha nevão,

mas ouço sempre gritos, ais, dores... Oh se fosse luar!... D'estas

enfermarias corre tambem um sonho parecido com luar... Será uma

fonte?.... As fontes! nem te lembres das fontes!... Aqui parece que as

minhas fibras mergulham n'um mar revolvido, que eu ignoro, mas que é

feito de gritos.

Baixo a pedra começa tambem a lembrar-se e áquella hora perdida da noite

toda a alma inconsciente do Hospital estremece. Quer recordar, palpita e

logo esquece... Os sonhos dos doentes, dos pobres, dos tristes,

materialisam-se e são como nuvens: são de fogo, são de luar. Sombras aos

bandos dissolvem-se, para outra vez se crearem.

--Acho que sempre é luar... E quando havia sol? Torrentes corriam pelo

meu tronco, inundavam a minha roupa cascosa e em volta n'uma poeira azul

andava um turbilhão de bichos. Outras arvores fluctuavam na mesma poalha

e as suas folhas ou eram de sol ou todas de prata. Longe--e que encanto

aquella companhia sempre presente e amiga!--o fio do rio chalrava.

Folhas cahiam e iam devagarinho viajar sobre a agua verde. Para

onde?.... Debaixo de mim, até ao mais fundo das minhas raizes quantas

vidas protegi e defendi!... As minhas raizes tocavam na vida!... As

vezes cahia um pé d'agua, mas depois vinham sempre teias de sol, fios de

sol, para me enredar--e o sol traz consigo um cheiro a terra e a renovo

que consola, o halito dos montes e dos pinheiros meus amigos.

Nas temporadas funebres em que a agua cahe a golphões, a gente

concentra-se e fica meio adormecida. Os montes envolvem-se em nuvens, os

bichos na terra tremem de frio sob as raizes e as folhas seccas estalam

e gemem com saudades ao deixarem-nos. Se por instantes se descerra a

nevoa, os montes são mendigos, com um grande manto remendado. Ao fim da

tarde levanta se dos campos um lindo luar azulado que sóbe e se

dispersa. É a nevoa. Baba d'oiro luz na agua e os choupos são sombras.

Ao longe havia um biombo verde de pinheiros, depois montes, e depois

poentes doirados... Porque é que me ponho a pensar e a scismar? Ha tanto

tempo que dormia! As minhas fibras esta noite estremecem. Ha-de ser do

luar... Oh se ainda houvesse luar!

* * * * *

As mulheres callaram-se. Não ha ruido. Ellas proprias sonham. Em torno

da meza, na cosinha saqueada, bebem sem palavra o vinho quente. Algumas

pensam decerto n'um lar e bebem as lagrimas que cahem no vinho e o

gelam.

--A esta hora a minha mãesinha ha-de por força pensar em mim...--começa

uma.

--E tu porque não foste consoar com ella?

--Punham-me fóra! queriam-me lá!... Meu pae, meus irmãos...

--Em minha casa faz-se uma consoada muito grande. Ássam-se pinhas no

lar, e minhas irmãs pequeninas... oh minhas irmãs pequeninas!...

E suffocada desata de repente a chorar. As outras não se riem como de

costume. Só uma, sentindo que iam todas chorar, canta:

Se vires a mulher perdida...

--Raparigas é o fado... De que serve agora chorar? Ninguem foge ao seu

fado.

--Á noite a minha mãe aquecia vinho e dava-m'o na cama. Sempre a gente é

creada para uma vida! Quem adivinha?

--Calla-te!

--Eu era o miminho de todos, eu...

--Só eu nunca tive mãe, de mim ninguem se importa! Acabou-se!

* * * * *

Na escuridão as cinzas que restam n'um lar, fazem tristeza e saudade.

Brilham, esmorecem, vão-se apagar: são vidas que se extinguem, a alma da

treva que em redor suffoca. Assim o Predio ao abandono, sob a enxurrada,

parecia scismar, como um rescaldo coberto de cinzas. Parára tragico

defronte do Hospital, e cansado, tal como um pobre ao fim da vida,

contempla o seu destino.

* * * * *

Natal dos pobres! Natal amargo dos que não têm pão e se ajuntam

friorentos em torno d'um lume que não aquece; natal dos sêres que a

desgraça usou... O vinho enregela, o pão é duro, mas resta ainda este

lume, que jámais se apaga:--Ámanhã! ámanhã!...

* * * * *

Que poesia tão triste não vae cahindo como um chôro sobre aquellas almas

de miserrimos, de gebos, de prostitutas, de desgraçados!

N'uma trapeira o gato pingado quer dizer:--Amo-te!--mas foi sempre tão

nú que não sabe exprimir o que sente.

Na alma d'aquella creatura humilde, despida e escarnecida, que tinha

medo de sonhar e até de chorar, fizera se um clarão. Tal o espanto

enternecido d'uma pedra, a que uma raiz se apega e que a olha deitar

flôr na primeira primavera.--Fui eu, apezar da minha seccura, pensa o

calhao, que a trouxe no meu ventre.

Sem falar, bebem juntos, elle e a Rata o mesmo vinho. Elle diz:

--Ambos somos desgraçados e sósinhos.

O vinho que havia aquecido dá-lh'o com um pedaço de pão. Ella olha-o,

tendo sempre crescido por acaso e piedade, rota e triste. Havia pois

alguem que a amasse?...

--Bebe.

--É tão bom a gente estar junta.

--Não se tem frio.

--Esta noite sabes?... Lembro-me de minha mãe... Porque seria que ella

me engeitou?

Fóra choram. A Rata ergue-se e vê no corredor uma rapariguinha que a mãe

pôz fóra da porta e que chora e pensa:

--E se eu me deitasse afogar?

Dá-lhe do seu pão, reparte do seu vinho e, misera, rota, resequida, diz,

pondo-lhe a mão na cabeça:

--Deus te crie para boa sorte...

Na terra só os pobres sabem ser desgraçados.

* * * * *

Meia noite! meia noite!... Para que tudo se crie, para que o pó se

transforme em vida, que é necessario? Torrentes de chuva, oceanos

d'agua. Eis a vida... Para que do que é materia algo de radioso irrompa,

que é preciso? Um atlantico de lagrimas.

Da materia tem nascido á custa de gritos, de fibras torcidas, o

immorredoiro espirito. Atravez das edades elle se creou, atravez da dôr

veio surgindo. O mundo espiritual é já hoje mais vasto que o mundo

material. A dôr é a primavera da vida. Para se entrar na vida ou para se

entrar na morte ha sempre gritos. A dôr ara o céo cheio de estrellas e

os seres humildes.

Que se cria de tudo isto? que é que se alimenta no infinito? D'estes

pobres espesinhados, revolvidos, nascem as coisas eternas--humus,

amalgama, protoplasma, espirito lacteo, d'onde se constroem os mundos.

Na valla commum os seus corpos, cansados de soffrer, são a vida da

terra: as arvores, o pão, as fórmas, a seiva esplendente. No infinito é

da sua dôr que se sustenta Deus.

Maio de 1899--Janeiro de 1900.

INDICE

Carta-Prefacio

I.--O enxurro

II.--O Gebo

III.--As mulheres

IV.--O Gabiru

V.--Historia do Gebo

VI.--Philosophia do Gabiru

VII.--Primavera

VIII.--Memorias de Luiza

IX.--Philosophia do Gabiru

X.--Historia do Gebo

XI.--Luiza e o morto

XII.--Philosophia do Gabiru

XIII.--Essa rapariguinha

XIV.--O escarneo

XV.--Fala

XVI.--Historia do Gebo

XVII.--O que é a vida

XVIII.--Historia do Gebo

XIX.--O Gabiru treslê

XX.--A mouca

XXI.--Ahi tém os senhores a natureza

XXII.--Philosophia do Gabiru

XXIII.--A outra primavera

XXIV.--A morte

XXV.--A arvore

XXVI.--Natal dos pobres

Notas:

[1] Estes pedaços são arrancados ás reflexões philosophicas do Gabiru, a

que elle chamou _A Arvore_. _A Arvore_ porquê? Porque com ella

germinaram, deitaram grandes ramos, raizes subterraneas e fundas. _A

Arvore_ sustentou-se de desgraça. As suas raizes alimentaram-se d'este

humus--a vida dos pobres, das prostitutas, dos gebos. Damos aqui alguns

pedaços do livro, o necessario apenas para se vêr a transformação do

Gabiru, pelo contacto com os sêres humildes e a dôr, promettendo

publical-o mais tarde com a sua conclusão.

Os Pobres Precedido de uma Carta-Prefacio de Guerra Junqueiro · 第 10 / 10 段