aziaga e que vão de rastros até essa praia, onde o mar desconhecido rola
as suas ondas silenciosas, vêm-no dourado, cheio de claridade, n'uma
madrugada eterna. Apenas cahidos, exangues, sem fibra que não tenha sido
torcida e despedaçada, sem bocca para gritar--elles sabem-no--vão
erguer-se e, transfigurados, embarcar nas naus que os esperam para uma
viagem de maravilhoso sonho. Para os scepticos esse mar é negro,
tumultuario, de horror, como aquelle oceano nunca d'antes navegado, onde
só monstros cresciam.
Para elles a morte era o fim da vida, porque nenhum tinha vivido da
verdadeira existencia. Eil-a a cova, a immobilidade, o Nada.
A differença é simples: ella é termo de miserias, ou o termo do goso.
Ha pobres e tristes que passam a vida a esperal-a, a sonhal-a. Os
humilhados, os offendidos, amam-n'a porque ella eguala, os escravos
porque ella liberta, e até os incompletos, aquelles a quem não é dado
nem sonhar nem amar, porque n'ella deve existir o Sonho e o Amor. Cada
um encontra n'esse pelago o que lhe falta na vida...
--Este fim para que nós caminhamos, com terror e angustia quasi sempre,
é o termo da vida? é o inicio da vida?--perguntava o Pitta.
--As philosophias e as religiões respondem. Cada uma assegura a fala. O
mais certo, porem, é seguir o conselho de Platão: escolher a melhor
opinião e embarcar n'ella como n'uma jangada, para atravessar a
existencia,--dizia o Pythagoras.
Só o Astronomo lhes explicava:
--A morte é a vida,--cadinho onde tudo se refaz e renova. Da morte do
que é materia resultam bellas fórmas, arvores, nuvens, côres; da
transformação do que é espirito alguma cousa de radioso deverá surgir...
Ha muito que eu conheço duas figuras, que atravez das edades, vem
prégando ao homem as suas doutrinas: ri uma, a outra chora.
Em certas horas de tristeza, em certas horas de crepusculo, as palavras
d'uma, como murmuradas, empoeiram de sonho a alma; a outra préga, a
outra fala entre desesperos e ruinas. Vós, meus amigos, conheceil-as--a
figura do Sceptico e a figura do Idealista. Representam os dois grandes
typos da humanidade. Ás vezes confundem-se, misturam-se: cabeças de
idealistas e corações de pedra. Acontece tambem que, quasi sempre, uma
segue a outra, para derrubar ou para construir. Têm assim vindo pelas
philosophias, pelos systemas, ora nas palavras de Platão, ora nas
palavras de Epicuro. Creio bem que, quando o immorredoiro espirito
precisa de falar aos homens, cria uma bocca--Jesus; quando a materia
quer prégar--apparece Falstaff.
Eu tenho-as ouvido dentro da minha propria alma, tenho assistido aos
seus combates dentro do meu coração. Uma affirma, a outra nega. São duas
grandes vozes, que nasceram com o homem.
Uma crê apenas na realidade, no universo tangivel, a outra põe mais
longe os seus olhos--no Sonho. O espectaculo doloroso da miseria humana,
desola-a, mas não a faz descrer:--Lá, lá, tudo se realiza e os proprios
gritos são necessarios á Harmonia.
Uma é feita de sacrificio. Arde. Morre e renasce, aponta a terra como
lôdo, o infinito como fogo; a outra affirma-te que _depois_ só o nada
existe.
E assim é: o nada para que os que crêem no nada, a belleza eterna para
os que para ella vivem. Nem era admissivel que milhares d'espiritos
tivessem soffrido, cheios de abnegação, sem a terem creado, á
immortalidade. Se ella não existia formou-se, desde que os desgraçados e
os simples o quizeram. Do nada nada se cria, e da immortalidade tem
sahido forças e palavras, que espantaram homens e abalaram mundos. Desde
que o primeiro humilhado viveu para ella e n'ella pôz a justiça eterna e
a sua fé--o infinito creou a.
Elles, porém, ouviam com temor estas palavras. Esse problema da morte,
que vem desde os tempos perdidos, como um largo rio, trazendo á tona
idéas, explicações, theorias, apavorava-os. As suas aguas acarretavam
idolos, religiões, mantos purpuras de homens, que se debatiam, a
gesticular, querendo comprehender, vêr. Ao pé d'essa figura negra e
indecifravel, como no sôco d'uma estatua, havia sangue amalgamado com
theorias, brazidos, lama, desesperos, que não conseguiam sequer pôr uma
ruga na sua impenetrabilidade bronzea. Ella enchia o céu, tragica e
muda, e da fila de homens, que lentamente, inexoravelmente, para lá
caminhava, n'uma caravana infinita, se algum erguia os olhos, sceptico,
desesperado ou resignado, sentia-se sempre desvairado de pavor...
--Então a quem morre...--perguntou alguem.
--Acabou-se-lhe o sonho.
--Quem sabe? O sonho consome-os. Ardem.
--Sempre sonhar. E vem a morte e leva-os!... Que vale tudo isto? Ah o
oiro, sim, o oiro filhos, o oiro respeitavel Corsario, o oiro Gabiru!...
--O dinheiro!...--exclamou o Corsario e quedou-se a meditar.
--Podesse eu ir á terra arrancar-lhe as entranhas d'oiro até a fazer
gritar!--exclamou o Pitta.--O oiro é a vida. Tivesse-o eu! Gargalharia
do alto d'uma montanha d'oiro da humanidade e dos sonhos que ella cria.
Botam as arvores flor e as creaturas emoção... Tudo isso seria meu.
Poderia destruir, conquistar, mandar. Eu, Pitta da Conceição, seria
talvez nomeado Imperador do Mundo. Ó filhos lembrae-vos!... O mal a
imperar, o mal a rir do alto d'assombrosas montanhas d'oiro da dor, do
heroismo, da piedade! E o pequename a subir a montanha. Porque notem
bem: tinha o pequename todo, estava-se todo a crear para mim!...
E como o Pythagoras fosse a sahir:
--Espera. Para onde é a ida, philosopho?
--Prégo a revolução. Ando a prégal a...
E curvou-se sobre o ouvido do Pitta, que exclamou sobresaltado:
--Ao pequename! Rica idêa! E philosophica! Um grande elemento. Pois é
atiçar-lhe!...
E sahiram ambos.
* * * * *
Então o Gabiru ficou sósinho com os pobres. Elles não sabiam explicar a
vida: sentiam-n'a e soffriam. De pé explicou-lhes:
--Foi assim... Disseram-me um dia:--Eis aqui um thesouro, cava! E eu
puz-me a cavar. D'um lado e d'outro accumulou-se a terra. As minhas mãos
eram negras, os meus vestidos cheiravam a terra e eu cavava. A mina era
profunda como um poço. O céu esquecera-o, as arvores esquecera-as. Um
dia topei pedras, que me pareciam luzir como oiro puro e embebido a
contemplal-as esqueci-me do tempo, da terra, do mundo... Subito, cá
fóra, ouvi rir. Trepei pela terra acima e achei-me com pedras negras nas
mãos, cheio de terra, feio e cego como os bichos que nunca viram o
sol... E tudo era bello! Tudo o que esquecera, tudo o que desprezara!...
Attonito, com as pedras inuteis na mão, olhei... E assim desperdiçára a
vida á procura d'um thesouro que tinha alli á mão!...
Ninguem lhe respondeu. Só o Corsario, curvando-se-lhe sobre o ouvido:
--Eu sei o que tu tens, eu sei o que tu tens...
--Que é?
--É pena. A vida não se torna a viver. Perdeste-a. Esqueceste-te d'ella
a sonhar... A sonhar!... Trocaste, o sol, o odio, trocaste a realidade
por nuvens.
E, ai! a vida não se torna a viver! A vida para ti foi como a agua que
passa limpida pelas mãos d'uma d'essas estatuas que tu vês nas fontes.
Nunca cessa, egual, fresca, cheia de scintillações, e nunca tambem
estanca a seccura d'essas figuras de pedra... Ai, não se torna a ter na
bocca o sabor a sangue e a mocidade, nem agora as arvores são as mesmas
arvores e o riso o mesmo riso. Queria ter fome e ser moça... Perdeste-a!
perdeste-a!...
--E tu?
--Eu?.... Eu fui nova e todos dariam a vida por mim. Amaram-me, mas o
que elles queriam era o marmore do meu corpo e a minha bocca moça e
viva. As rugas vieram, mirrou-se-me o collo, secco e inutil, e então
arredaram me. E dentro do meu peito ardia ainda o mesmo amor. Como póde
metter-se uma nuvem dentro d'uma pedra resequida? Desci á humilhação, a
procurar o amor que se paga. Isto! isto!... Só então entendi que os
homens nos aproveitam e usam para nos deitarem fóra depois de
servidas... Olha para mim... Envelheci. Ha muito tempo que móro com o
odio. Deante do espelho, ao ver-me mirrada, tornei-me ainda mais secca.
Escarnecida, deitei-me a odiar... Oh fazer gritar os homens que nos
desfructam, para depois se rirem... E sonhei... Eu sou inutil, o meu
odio murchará commigo, sem poder florir. Inutil, velha, cahida, quem
toma ahi a serio o meu odio?.... O que eu tenho sonhado!... O que eu
daria para ter uma filha!... Tivesse eu fome que o pão iria arrancal-o
ás mãos dos pobres; seccos os meus peitos o leite iria roubal-o. Ella
seria o meu odio vivo. E bella, para que me vingasse. Era forçoso que
fosse creada como um lyrio de sonho e que ao mesmo tempo tivesse uma
alma de pedra, peor que a minha, mais má que a minha. Dir-lhe-hia tudo,
ensinar-lhe-hia tudo, tudo o que sei, tudo o que do mundo aprendi.
Explicar-lhe-ia o egoismo, a vaidade e que no fundo de cada sêr só
existe seccura e interesse. As mulheres se são honestas é por vaidade, e
quantas ao pé do tumulo choram uma virgindade inutil!... Ella seria
minha filha! A semente germinaria, cahida n'um coração mais duro que as
pedras. Por dentro d'um corpo lacteo, haveria uma velha mais offendida,
mais rancorosa que eu, a prégar-lhe o odio. Odiar-me-ia a mim propria,
sua mãe--e havia de sustentar se de lagrimas e gritos!...
* * * * *
Sahiu. Só os desgraçados ficaram encostados uns aos outros--e a um canto
os pobres, gastos, com physionomias de santos e olhos murchos de tantas
lagrimas choradas. Não sabiam queixar-se. Alguns puzeram-se entontecidos
a narrar, n'uma voz amarga--a voz da desgraça. Erguiam os braços e de
cansados e sinistros, acredital-os-hieis foragidos do hospital e da
guerra.
Um disse:
--Eu gosto de vêr soffrer! eu quero vêr soffrer!... Como elle anda a
espreitar illusões a vêr se as calca! Onde nascem flores logo as
esmigalha, nada lhe sabe, nem o sol ás levadas. Calca tudo e ri, tudo o
que nasce, mesmo a ponta verde da herva que rompe d'entre as lages.
Um velho gasto e de botas rotas queixa-se. Quer viver e exclama:
--Fui sempre como as toupeiras, como os bichos que, no fundo da terra,
minam e minam e scismam sempre na claridade e nunca chegam a vêr o sol.
--Ha desgraças e dôres que fazem rir,--diz alguem.
Outro ri, ri sempre d'afflicções, de catastrophes. Procura dores para se
rir e doido eil-o a rir e a clamar:
--Calcamos terra, hein, calcamos dor... A terra está farta de soffrer.
Ris-te, hein, ou sou eu que me rio?
--Queremos ter saude e ter risos. Eu nunca me ri, eu nunca me pude
rir,--préga uma bocca na escuridão.
O Gabiru sente-se agarrado pelo _homem do pacho_.
O olhar luz-lhe odiento e a sua voz, atravez do pacho, parece provir
d'um tumulo.
--Leve-nos! mostre-nos o oiro, as arvores, os montes todos d'oiro...
--É impossivel...
--Oh não saber nunca o que é amar, viver como os outros que se pódem
rir--e ser só, ser differente!... Eu vi! eu vi!... O Pitta mostrou-me e
depois, sabes? tive odio. Odio... Não eu não sou amigo do sol nem das
arvores. Tenho a minar-me a alma uma ferida como esta... Os risos com os
outros se riem, os seus risos--e eu sem bocca para rir!... Esta ferida
come-me a vida--e triste vida d'afflicção a minha! Fui sempre doente.
Até em pequeno senti a piedade agazalhar-me. Porque é que Deus faz
nascer creaturas com vida e dá a outras um quinhão de negrura? Tenho
frio e fome de sol, de saude, de forças, e vivo gelado, sempre gelado, e
sem poder olhar nada no mundo sem sentir rancor. Tenho inveja até da
terra onde nascem pedras e cardos, porque ella ao menos não soffre.
Dêem-me o quinhão de risos que me pertence!... Se eu te escancarasse a
minha alma, tu a verias transida, negra, mirrada... Ouvi dizer--é
certo?--que até as arvores noivam... Eu apenas sei que existe a inveja,
a dôr e a enfermaria, onde o proprio sol requentado sabe a hospital. E
nunca ninguem quiz saber de mim, nunca! Quem me dera beijar! ter bocca
para beijar! Dize-me: ha porventura pedras nojentas?
Arrancou o pacho e uma physionomia de tumulo, onde os dentes surdiam
pela carne dilacerada, rompeu dentre os trapos que a cobriam.
--Olha! olha p'ra mim!...
Sahiram--e atraz de todos, não tendo dito palavra, caminharam os pobres,
curvos, descalços, resignados. Havia-os gastos pela dor; havia-os
tirando o pão da bocca, para o repartirem; havia-os com uma vida de
lagrimas. Sahiram uns atraz dos outros, sem queixas nem gritos.
* * * * *
Afinal todos se tinham ido; só na escuridão ficára uma velha prostituta.
Era quasi uma coisa--a podridão. Não sabia falar, nem sabia queixar-se.
Tinha apparecido para dizer o quê? Que accusação tremenda contra a vida?
Chegou-se a ella o Gabiru e poz-se a olhal-a. Depois perguntou-lhe:
--Tu que tens? tu que queres? Vae-te!...
Ella não respondeu, e elle esquecido ficou muito tempo a scismar. O que
era a Vida afinal?... Pouco e pouco um clarão se fazia na sua alma... O
Gabiru absorto sonhou, até que a seu lado uma voz rouca lhe disse:
--Mas então p'ra quê? p'ra que criam a gente. Eu tenho amargado a vida e
nem posso gritar... E tu?
--Eu tambem... Mas olha: eu gosto de soffrer... Escuta: soffrer é afinal
reanimar uma labareda, um fogo que se extingue... Possuir um sonho e
vel-o calcado!...
--Eu cá fui sempre assim, andei sempre assim... Quem se importa? Não me
lembro de ter sido feliz... Não me lembro... Sempre se riram de mim e
toda a vida me bateram.
--Tu sim, pobre de ti... E amaste?
--Lembro-me... muito longe... amei. Mas o que elles se riram! Depois de
servida batiam-me. Eu fui sempre menos que nada. Quem se importa d'uma
_desinfeliz_? Inda se a gente encontra o pão de cada dia... Agora sempre
anda um frio!...
--Tu, sim... Pobre, pobre de ti! Eu fui feliz, fui sempre feliz afinal.
E batiam-te?
--Punham-me o corpo negro... Mas era para se rirem, não fazia mal... E a
ti?
--Puzeram-me a alma negra.
--E tu?
--Eu soffria.
--Pois se a gente tem pão e uma enxerga ainda ao menos é feliz.
Encostados um ao outro, para se aquecerem, scismavam enregelados, quasi
cobertos pelos mesmos trapos. Noite escura, mas no sitio onde elles
encolhidos sonhavam, pareciam arder faúlas, restos d'um lar a apagar-se.
--Ouve, não chores... Tens frio?
--Estou gelada de frio.
--Olha: soffrer não importa, soffrer na vida que importa? Tu imaginas
que o que se soffre se perde? As lagrimas e as dores vão crear, para
depois, alguma coisa d'extraordinario. Do que se espesinha vem sempre a
nascer. E se tu amaste e se riram de ti alguma coisa brotou, que se não
extingue e germina com as tuas lagrimas e os teus gritos. Amaste?
--Amei. Muito longe... Mas tudo perdi! tudo perdi!... Não fales! oh não
fales! não me lembres!...
--Se tu amaste e soffreste nada é perdido. As tuas mãos estão geladas,
mas as minhas ardem.
--Eu já não sinto o frio... Só me sinto de rastros, pequenina e
perdida... Oh doe-me e tenho pena de mim. Tu para que falas? De que
serve a gente lembrar-se? Para chorar? É melhor dormir, dormir sempre...
--Soffre. Nada é perdido. Olha: vae-se creando com as nossas afflicções
e os nossos gritos, uma outra terra!...
--Aonde?
--Uma terra toda alma, cria-se, para depois, quando á ultima dor, aos
ultimos gritos, se esbrazear...
--Conta! conta-me!
--Escuta: quando se traz um sonho... Sabes um sonho?
--Um sonho?!
--Um sonho é como se tivessemos na alma um mundo maior que este. Todo em
fogo... Quando se traz um sonho e se soffre mais elle cresce. Tanto mais
puida é a materia, mais elle arde!... Isto não se perde... Constroe-se
das nossas lagrimas... É um palacio. As pedras de que é feito são os
gritos... Sabes?
--Assim quando eu amei e se riram, maior se tornou o meu amor...
Consummiu-me.
--Assim...
--Um sonho!...
--Tudo se illumina dentro em nós. E a cada humilhação elle se torna
maior. Depois que soffri, é que comecei a vêr o que nunca tinha
presentido. Tudo. Sabes as arvores, as nuvens, as estrellas? Vejo-as
agora transformadas, de fogo. Arde... Nunca é noite. E tanto mais
soffro, mais se ateia o meu sonho.
Ambos se perdiam, unidos, gelados, na escuridão. Por fim só a voz d'elle
corria: ella escutava-o suffocada, unida contra a terra.
XVIII
HISTORIA DO GEBO
Para nada me importa a historia banal que esse homem gasto conta,
abalado pela dor, a suar de afflicção... Morta a mulher, o lar ficou
gelado. Por onde a Morte passa deixa muito tempo um frio de tumulo que
transe os corações. A filha cahira a um canto sem palavra, e o Gebo
poz-se a engordar e a chorar. Se tudo acabasse!... Mas não, era preciso
tornar á mesma vida de desespero, pizar sempre o mesmo chão, atraz de
esmolas para a sustentar. Nos dias, agora amiudados, de fome, já ninguem
o esperava n'uma ancia como outrora:
--E então? então? Arranjaste?....
Sofia, essa pobre rapariga que da vida só conhecia afflicções, não tinha
para o Gebo nem más palavras, nem queixas. Amava-o. Aquelle velho todo
branco, gordo e chorão, era o seu pae. Escondia as lagrimas para não o
affligir.
--Não se consumma! não se consumma!
--Que ha-de ser de ti se eu te falto, filha?
--Sempre havemos de viver. Ha gente mais pobre.
--Acho que não! acho que não!...
Depois da morte da mãe, ella o cuidava como quem cuida um filho. E o
Gebo d'olhos postos em Sofia, embevecido, só sabia dizer, n'uma voz
molhada de lagrimas:
--A minha filha! a minha pobre filha!...
Fazia falta a mulher, que o atirava para a vida, e muitos dias, sem um
exaspero, sem um grito, embrulhado nos farrapos, quieto na enxerga, elle
era como uma bola de gordura, d'onde corria um ruido de choro resignado
e triste. Se sahia chegava se a todos, pedindo pão, com os cabellos em
pé e um ar desorientado, de doido, que fazia rir. Perdera a timidez.
Arrastava-se pelos amigos, que o achavam pittoresco, sempre a carpir
desgraças, afflicto, cambado, exhausto, e cada vez mais pedinchão e mais
gordo. Divertiam-se. Tinham-lhe posto essa alcunha--o _Gebo_, e
perguntavam-lhe coisas obscenas para se rirem:
--Hein, dize lá, ó Gebo, então tu não tens uma filha?
E elle logo com um riso no olhar:
--Tenho, sim, uma filha, a minha filha...
--E que tal, hein, boas pernas, dize, boas pernas?
Humilde, cossado, á espera da esmola, sem forças para protestar,
respondia com um sorriso e lagrimas á mistura:
--Boas pernas... boas pernas...
Vida negra, de cão, a que nem sequer resistir podia. Lá ia levado,
enlameado e de rastros, a chorar. Illusões? já as não tinha, se illusões
não servem senão para se soffrer. Quando viva, a mulher, era quem ainda
arcava com a desgraça. Esbracejava. E juntos aquecia-os no mesmo lar,
com pedaços de sonho, como quem, depois de repartir os ultimos farrapos,
agazalha com a propria alma. Um sonho cahe por terra? Estreia-se outro
sonho. Embrulhados no mesmo cobertor, ella, secca e nervosa,
prégava-lhes que ainda podiam ser felizes, acalentava-os, e, juntos,
todos tres illudidos ficavam n'aquella negrura e desespero, todos tres a
scismar.
Mas agora nem isso... Enregelados não apellavam para a illusão. Elle
chorava e Sofia, alheada e triste, cuidava, ambos sem palavras que
dissessem. Oh seria tão bom morrer, descançar, dormir por uma vez sem
mais acordar!... Mas, aguilhoado e ridiculo, aquelle homem picaro,
apegava-se como um desesperado á vida. Ainda por cima o Gebo era
cobarde: tinha um grande medo á morte.
Assim comiam o pão negro, ajuntando-lhe as lagrimas que choravam. Sob
este solo que calcamos atraz, das nossas ambições, anda um humilde rio
de lagrimas, um rio subterraneo de dor, de gritos, que se alastra e
corre sem ruido...
Já não sahia a pedir todas as madrugadas. Agora cansava, mal podia
andar; embrulhado e tiritando de frio, não se erguia da enxerga. Quereis
crêr que estava mais gordo e mais picaro?
E como elle dormia! com fome, afflicto, tombava n'um somno de sepulchro,
espapaçado, os cabellos todos brancos e a physionomia cansada e
amargurada. Nunca se queixava; apenas repetia a miudo:
--Tenho pena de ter sido honrado...
Porque é que a desgraça se não cansava de o perseguir? Este aguilhão
cravado no peito não lhe deixava um minuto de descanço: a sorte da
filha. Nada lhe custava mais do que deixal-a no mundo ao desamparo.
--Tenho pena de ter sido honrado.
Para que serve ser bom? Os máos que conhecera, estavam ricos e
escarneciam-no, os bons espesinhados. Creaturas a quem o Gebo salvára
acolhiam-no com risos e só fizera ingratos.
O Gebo não entendia a vida.
--Ó Gebo! ó Gebo!--gritavam-lhe.
E elle meio tonto:
--Anh? anh?.... Se eu não tivesse sido honrado...
Ella era uma creaturinha triste, resignada e pallida. Falava pouco.
Scismava. Da vida tudo ignorava, a não ser a historia dos seus: o lar
apagado, a afflicção da mãe, o choro do pae ao voltar para casa sem pão.
A velha dizia ás vezes más palavras ao Gebo, quando lhe perguntava
anciosa:
--Arranjaste?
E elle a bufar, exclamava succumbido:
--Valha-me Deus, mulher!
N'esses dias aziagos ella dizia improperios á vida e ao Gebo, que nem
sequer tinha forças para as sustentar a ambas.
--Olha os outros! olha os outros!
E elle atrapalhado:
--Mas que hei-de eu fazer, mulher?
--Vae roubal-o! vae roubal-o!...
Aquillo terminava por lagrimas e por o velho perguntar, perdido de fome,
todo o dia na negra faina:
--E agora como ha-de ser?
A mãe tinha escondidos alguns vintens tirados á bocca e em torno do pão,
esquecidos, lá se deitavam a falar da sua miseria. Ella dizia que não
havia honra nem Deus--tudo no mundo era questão de dinheiro--oiro! Mas
quantas vezes a velha repartia com os pobres o pão que lhes fazia
falta!... O que a tornava amarga era a lucta exasperada com a má sorte.
De fórma que Sofia nada sabia da vida, e assim fôra crescendo sem
queixas, resignada e pura. A Deus resava todas as noites pela vida do
velho, pela saude d'aquelle sêr offegante e grotesco, que passava horas
e horas a chorar.
--...O pão nosso de cada dia nos dae hoje...
--Filha que ha-de ser de ti!
Engordára, não se podia mexer. Faltavam-lhe de todo as forças. Extendia
a mão na rua como os mendigos. Um dia foi preso, e expulsavam-n'o das
lojas. A idêa da filha abandonada e com fome, allucinava-o:
--Eu já não posso mais! eu já não posso mais!...
* * * * *
Os dias passaram-se desesperados, identicos, ferozes. Todos os dias se
pareciam, como a desgraça se assemelha á desgraça. Até que cahiu por
terra e durante a noite inteira correu na mansarda aquelle ruido de
lagrimas baixinho e monotono; toda a noite infinita o Gebo chorou
prostrado. Quiz tentar, quiz ainda erguer-se, mas a desgraça havia-o
emfim aniquilado: engordára-o, exhaurira-o e pregára-o para sempre a
chorar n'um colxão de trapos.
Então Sofia, que um dia e uma noite o viu chorar sem tregoas, d'olhos
postos n'ella; que outro dia e outra noite, sem gritos nem phrases, o
viu todo branco e com fome, d'olhos aguados, no mesmo choro
d'afflicção--alheada, mais alta, desceu as escadas e entrou em casa das
prostitutas. Todas as tardes descia e tornava altas horas, com pão para
o Gebo, que só lagrimejava prostrado, gordo e ridiculo, como uma bola de
sebo--e de cabellos brancos estacados.
Oh este cantar das mulheres, esta toada em farrapos, é a voz dos
desgraçados, dos pobres, dos que não têm pão, nem felicidade, nem arrimo
na terra!...
XIX
O GABIRU TRESLÊ
Noite de luar. A Arvore mergulha os braços n'um oceano de luar
translucido, biliões de atomos luminosos errando. É um collosso de
verdura e de bondade, uma construcção cheia de frescura e rumores.
Cruzam-se as pernadas solidas, torcidas, esgalhadas, d'onde partem
ramos, folhas que se agitam e vivem uma vida mysteriosa e grande. E o
luar é tanto que faz afflicção. Sente-se a satisfação gigantea da
Arvore, por mergulhar as raizes no seio da terra e por ser forte,
simples e bondosa. Por pouco ouvil-a hieis falar... Escutae-a na noite
callada, branca e cheia de tanto luar que faz afflicção. Por entre os
raminhos tremuleiam fios de luar esquecidos, coados por entre as folhas
sobrepostas. No chão a sombra faz mancha e os fios de luar dão-lhe vida.
Dirieis que alli anda folego vivo. Fóra da Sombra é tanto o luar que só
se vê uma brancura.
O Gabiru scisma. Os olhos abertos, todo elle dolorido, deita-se ainda a
scismar. Vivera sempre tão transido e pobre, tão sosinho--que lhe não
fugisse o seu sonho--e nada lhe ficara entre as mãos. Só escarneo! só
escarneo!...
* * * * *
Bate o luar em cheio n'aquella figura exotica e transforma-a. Não é
ridiculo. Corre-lhe o luar nos olhos, nas mãos estendidas, e cheio de
luar sorri extasiado...
* * * * *