de desgraçados. Um sonhador que se afunda? O mundo está farto de sonho.
Este mesmo céo pesado, esfarrapado e tragico, tem abrigado sempre gritos
e catastrophes. Que me importa o que elle soffre? Cada um por si, cada
um com as suas lagrimas e os seus odios... O homem por vezes tropeça,
cahe; depois lá se arrasta tropego.
Alvorece e, áquella primeira luz, a cidade parece desenterrada. A
casaria resurge, immerge da treva, leprosa, cambada, gasta pelo odio,
pelas ambições, pelos rancores...
Eil-o que se senta na terra, arrazado. Está enlameado, exhausto... Ao
romper da manhã começa de novo a chover e elle chora.
Tanta lagrima! Um dia a desgraça, no outro a desgraça... Aquella sombra
é a minha! aquelle homem sou eu!...
XV
FALA
Falo. De subito a minha vida surgiu-me como um d'esses dias d'inverno,
pardos e monotonos, em que até o resquicio de sonho, que acaso coube em
sorte ás pedras, se concentra adormecido. Seccou-me na bocca o riso que
ia rir, e accudiram-me idéas em que nunca tinha reflectido... Alguem
abala uma arvore até ás suas ultimas raizes. Arranca-a. O grito que a
terra revolvida dá foi o meu grito.
* * * * *
Dêm-me a vida que devem viver os sêres e as coisas, a quem ninguem
ensina a vida: que bebem a largos sorvos a existencia: em quem a vida
corre desordenada e esplendida. Quero emfim isto: sêr: não fingir, mas
sêr, não viver da tua vida, mas da minha propria vida.
* * * * *
O momento em que tu deparas, a sós, com a tua alma, que até ahi não
tinhas encontrado, toca a loucura--mas depois ouves falar dentro em ti
tudo que estava para sempre adormecido...
O que é isto--o escarneo? D'onde vem isto ao mundo? Riem por ventura as
arvores? E os montes e os rios tambem riem? O escarneo torce o coração.
Riram-se de mim! riram-se de mim!
* * * * *
Surraram-me, seccaram-me. O que eu sei é aprendido, vão, construido de
palavras que não são minhas. Nada conheço da vida.
* * * * *
O homem só é feliz quando é elle. Os outros é que o empurram para a
desgraça. O homem precisa de se encontrar.
* * * * *
Entras na vida e modelam-te: mestres, amigos, livros, amassam-te e
modelam-te. Para quê? Para te fazerem feliz--dizem. Deixem-me ser
desgraçado á minha vontade!...
* * * * *
Qualquer arvore incha, cresce e por tal fórma se liga á terra, pelas
suas raizes, que a esfuranca como nem o ferro do arado a lavra. Só na
minha vida não ha raizes. Amigos não os tenho nem os quero, e tudo me
parece pardo e inutil.
Ainda a natureza me prende: fico horas a ver um charco e nunca me
commovi como deante da arvore mais humilde.
* * * * *
A desgraça que eu tenho encontrado não é a desgraça, nem isto é a
felicidade: quero tragar a vida amarga, mysteriosa, profunda, toda a
vida; quero o meu quinhão tal como o têm os miserrimos bichos, os montes
ignorados e os pobres...
Ou vou morrer sem ter vivido.
* * * * *
Só em pequeno é que eu senti correr em mim a vida. Guardo ainda o cheiro
á essencia dos pinheiros mansos, que eu vi ha muitos annos, o cheiro a
bravio que o matto orvalhado tinha de manhã, e que me fazia scismar na
vida feliz dos lobos e dos bichos, que respiram o ar livre e são; que
dormem sem cuidados nas tocas ou nas sombras fôfas; que matam sem
remorsos.
O nosso quintal! No alto ha um muro branco, uma cancella, uma mouta de
pinheiros sempre verdes e em dialogo com o mar. Antes d'entrar,
voltae-vos... Que immensa serenidade sahe d'esta paizagem!... Mar azul e
céo azul confundem-se: tudo é poeira azul. A luz palpita. Um risco
d'areal: ao largo talvez um barco e longe montes sem habitações,
cobertos de pinheiros, esburacados de sombras, solitarios, fazendo
pensar n'uma vida selvagem, livre, n'um paiz sem leis.
Eis o quintal: uma horta com arvores. A principio lembra um labyrintho,
uma labareda verde. As couves são do tamanho d'arvores e a agua
sussurra, mina por toda a parte, em carreirinhos, imbebe á farta a terra
negra e gorda. Bordam os canteiros renques d'alfazema, cravos, roseiras
de flor singela, e ao fundo ha uma figueira grande, de folhas espalmadas
e carnudas que dá uma sombra subterranea. Todo o quintal esfurancado
pela agua resôa como um cortiço. Scintillações, rumores por toda a
parte, por toda a parte a solidão.
Alli as arvores eram minhas amigas, as coisas conheciam-me e eu vivia
d'uma vida convencida, forte, bravia...
Vieram depois as palavras, os mestres, os amigos, e eu nunca mais achei
sabor á vida, até que acordei agora com este grito: Nunca vivi!...
* * * * *
Ponho-me a pensar: quantas vezes a felicidade e a desgraça não são
verdadeiras, nem sentidas? Mascaras, só mascaras que afivelamos em
determinadas occasiões, porque os auctores, os amigos, todo o trama
complicado em que nos enredam, nos ensina:--Em tal situação tu serás
feliz...
E nós realmente, por habito confessamos:--Sou feliz...
Mas examina-te... No fundo qualquer coisa de amargo remexe...
* * * * *
Fugi. Isolei-me. Não quiz amigos, quiz isto: ser só.
Para que me chamam o _Gabiru_? Mettido no ultimo andar do Predio,
ponho-me a escutar tudo que dentro em mim fala. Esqueci a realidade,
para conhecer a realidade. Deitei fóra o que aprendêra, combati commigo
mesmo...
* * * * *
Agora vejo a desgraça! agora encontro a desgraça!...
XVI
HISTORIA DO GEBO
Assim a miseria foi crescendo nas mansardas destelhados do Predio, para
onde a sorte os atirára n'esse inverno. Muitos dias lhes faltava o pão e
o frio era tanto que não sahiam da enxerga. Viviam mais pobres que os
pobres e não pediam esmola. Elle sahia logo de manhã escovado, limpo,
com a roupa no fio e as botas rotas sem sola. Cheia de tristeza dizia
lhe ainda a mulher:
--Homem, vê se te dão um emprego...
--Anh? Eu vejo! eu vejo!... Não te afflijas, mulher.
Um emprego! quem dá ahi pão ao Gebo, amachucado e ridiculo, envelhecido
e tropego, e que já mal sabe escrever, de cego e tonto? Aguilhoado,
todos os dias se levantava para a humilhação e para a correria atraz
d'uns miseros cobres. Era quasi esmola que elle pedia, a chorar--de
cabellos brancos estacados.
Um dia andára, rondára, a tresuar d'afflicção. Todos o repelliam. Era em
certa terça feira aziaga d'esse inverno enregelado e torvo. Nem andar
podia de amargura e cansaço, e via chegar a noite, horas de voltar para
o casebre, onde a mulher decerto o esperava anciosa:
--Então? então?.... Arranjaste?
Oh se o Senhor lhe valesse! se o Senhor que tudo vê lhe acudisse na sua
miseria profunda! Nada. Todas as portas fechadas, todas as almas
fechadas a sete chaves. Então, a chorar, aquelle velho ridiculo e gordo,
estendeu a mão a um desconhecido que passava, dizendo palavras
desconnexas. Tinham fome em casa... E pediu a um a outro, encolhido,
escondido, bebendo as lagrimas, para que lh'as não vissem, n'uma
afflicção de rachar pedras. Na mansarda as duas esperavam esse triste e
amargurado pão, e elle nem dava pelas ruas por onde caminhava com passos
incertos, de bebado. Supplicava n'um choro humilde, e n'essa
noite--terça aziaga--se o Gebo ainda tinha vaidade ficou-lhe aos
farrapos na lama.
--Então? arranjaste?
--Valha-me Deus! cá está, mulher! cá está!... Apezar dos ralhos, todos
tres se queriam d'um profundo, d'um admiravel amor. A desgraça
anniquilava-os juntando-os. Deixava um de comer, fingindo-se farto, para
que o outro tivesse mais pão; se qualquer adoecia, os outros nem dormir
podiam, e um dia a mulher emfim tombada, inutil, sem poder erguer-se,
chamou Sofia para lhe dizer baixinho:
--Olha se cuidas de teu pae. Nunca o abandones. Foi sempre um santo.
Desde então ninguem mais lhe arrancou palavra. Com os olhos aguados,
seguia-os pela casa, até que ficou morta. Acabou gasta de luctar um dia
e outro com a desgraça sempre, depois d'uma vida de desespero. Ella era
o arrimo, a energia, a força que os sustentava a ambos e impellia para a
vida; era ella quem disputava--em vão!--braço a braço com o destino
ferreo tentando amparal-os, e arrancando-lhe os ultimos trapos e restos
de felicidade. Em dias de fome ella a primeira a fingir-se farta.
Ordenava, mandava, batalhava. Matou-a a hora em que teve de despedir-se
das arvores do seu quintal, que vira crescer, da agua da bica que
correra sempre inexgotavel como as suas lagrimas. Morta deram pela falta
que lhes fazia, como só se medem os troncos depois de tombados.
* * * * *
Vestida com o seu ultimo vestido, pelas mãos do Gebo e da filha, ficára
branca, mirrada, embebida de serenidade, mais feliz de que os que
ficavam. O velho cahira exhausto, a chorar, a um canto, e no casebre
toda a noite se ouviu aquelle ruido monotono, triste, infantil. Chorava
e scismava:--Amanhã lá tenho de ir á procura de pão...--Sempre a mesma
vida, sem tregoas, agora sós os dois e a Desgraça. Quando a mulher era
viva, apezar de tranzidos, ainda cuidavam:--Para o anno, talvez para o
anno a má sorte se canse de nos perseguir...--E assim se gastára a a
ultima energia e os trapos que, de usados, nem sequer aqueciam. Toda a
esperança murchára. O velho ouvia risadas na noite profunda e boccas a
clamarem:
--Ó Gebo! ó Gebo!...
--Anh? ahi vou! ahi vou!...
Levaram-n'a para a valla commum n'um caixão de pinho e elle ficou
abraçado á filha, soluçando.
--Se Deus nos levasse!...
Tropego, velho, cansado, só sabia chorar, e a filha tinha de o levar
pela mão como quem guia uma creança.
XVII
O QUE É A VIDA?
O Gabiru não entende a existencia. A sua alma é como uma penha ferida,
que se desfaz em agua. Acha-se de repente n'um pelago refervendo oiro.
Descobre torrentes impetuosas de odio, torrentes d'escarneo, a Arvore,
as estrellas, um eterno redemoinho, gritos, levadas de sonho. Para onde?
para onde corre tudo isto? A Morte ao lado d'uma arvore cheia de flor.
Um cahos. Treva e sol, oiro em borbotões, e o homem indifferente... Ao
dar de cara com a existencia, transido, ao vêr-se escarnecido entre a
Vida, o Gabiru gritou. Pois passa o inverno e a tempestade, vem a
primavera e o sol, e o homem nem sequer os olhos ergue? Sob os seus pés
a terra move-se, n'um borborinho, toda ella viva; sobre a sua cabeça a
abobada do céu arqueja, carregadinha d'estrellas--e o homem queda-se
inconsciente? Ha o escarneo, pedras, constellações e o mar profundo e o
homem continúa impassivel.
O que é isto? o que é a Vida? o que é este mysterio onde o homem entra
como a salamandra no fogo? Pode o homem de repente dar em uma arvore
cobrindo-se de flor, sem ficar espavorido? No mais desprezivel charco se
espelha o sol e tumultua a materia em combinações infinitas--e o homem
segue o seu trilho inconsciente!...
O que é a Vida? o que é a Vida? Uma alma, um sonho? A vida tem
realidade? O que pratico sobre a terra é indifferente ou vae
repercutir-se algures? Isto é lodo ou fogo, apparencia ou temerosa
realidade? E o escarneo e a agua a nascer fulgindo d'entre a terra, o
amor, a nuvem que passa, o vento? Tudo isto é um turbilhão d'almas e de
pedras, d'arvores e de sonho, sem fito, ou esta levada esplendida
caminha para um fim de belleza? Ideio n'uma cova, n'um sepulchro
fechado, ou vivo da verdadeira existencia?
E os pobres? porque é que os pobres soffrem sem gritos, revolvidos como
a terra por este arado ferreo--a dôr? Só se vem a este mundo para
gritar?
O Gabirù via-os cheios de resignação seguirem o caminho da vida, cada um
com sua cruz, feridos nas pedras asperrimas, sem pão, escarnecidos,
tombando sem gritos? Porquê tudo isto? Para que soffrer? E toda a sua
philosophia tombára por terra...
Reuniu os desgraçados para saber; foi perguntal-o ao Pitta, ao Sabio, ao
Astronomo, aos outros, aos pobres, e n'essa noite veiu gente de todas as
bandas da tristeza e do sonho, para lhe explicarem a Vida.
Partindo, para essa reunião, o Pitta e o Sabio falavam:
--Só sabem sonhar e depois...
--São homens extraordinarios, affiançou o Pythagoras.
--Veja você... Querem que se lhes explique, o quê? A Vida! Já o outro é
assim.
--O _homem do pacho_?
--Sim, esse...--e a voz do Pitta transiu-se--Na verdade existem terras
prodigiosas, chãos que só dão sonho. Ha sêres inteiramente edificados de
nevoa, creaturas cuja alma subterranea se creou na humidade e no
silencio, onde nem sequer tomba uma miserrima gotta de luz. A alma assim
cresce á solta, branca de certo e com uma forma inexplicavel... São
sapos de sonho.
--São sapos imbebidos de sonho. O que pode fazer com que uma creatura se
arrede e fuja, não do homem, que não importa, mas d'isto, do convivio
com isto,--a luz fulgindo sobre as coisas, a vida tumultuaria como um
oceano? Não a vêr, não a ouvir, não a sentir correr continuamente, toda
d'oiro e de verde, com mil formas, mil sons differentes... Você
comprehende?
--Comprehendo.
--A mais mesquinha terra géra mysterio. É tão admiravel e sempre tão
diversa, como isso a que você chama o infinito.
--O quê?
--O infinito. É ainda mais maravilhoso que o proprio maravilhoso, porque
a realidade é sempre maior que a phantasia.
--Muito bem... Elle, porem, quer fugir. Eu bem lhe explico e vou já na
trigessima licção... Esse homem nasceu com uma alma destinada a uma
estatua e coube-lhe em sorte um corpo de mendigo. Eu só o vejo nas
trevas...
--É horrivel?
--É. Por isso se fechou e se deitou a sonhar. Eu te conto! eu te conto!
O sabiou parou, olhando-o com admiração:
--Você, Pitta, afinal é um experimentador.
O Pitta sorriu, todo babado para a lua, e depois disse com modestia:
--Sim sou alguma coisa experimentador... Eu te conto. Fechou-se para não
sentir a piedade dos outros. Na treva não se vêm olhares de piedade ou
risos. Cada um pode esquecer a sua miseria, á forca de a esbrazear. O
seu sonho é subterraneo, sabes?
--Sei. É como o das plantas cortadas, só raiz, e que ficam vivas debaixo
da terra, com a vida sufficiente para sonharem em crescer e botar flor.
No tumulo scismam no ar azul--e nunca deitam haste.
--Assim é o seu sonho. Depois de que vida desesperada se fechou para
sempre? Talvez outrora perdido buscasse á noite alguem como elle, para
se amarem... Rondou com os sapos, que só apparecem a noite, porque são
grotescos...
--Mas os sapos encontram sapos com quem se põem a falar d'alguma
estrella e elle...
--Elle foi feito para viver na solidão. E que fome! e que sede! Agua, se
ha agua no universo, o que elle mal presente, quer vel-a jorrar
inexgotavel entre as suas mãos, cheia de scintillações e murmurios;
montes, se ha montes, quel-os subir e calcar sob os pés; e as arvores, e
o ceo, e as mulheres com toda a sua immaterialidade de flor. O pequename
vê lá!... Da terra não conhecia nada, quando eu surgi. Mal entreviu o
universo para logo se emparedar. Só sabe o que é o sonho. Refugiou-se em
soffreguidão no sonho--e sonha tudo. Calafetou-se e ainda hontem,
imagina tu, como um fio d'oiro, entrasse por uma fresta, como um cabello
de maio, elle teve um sobresalto e disso:--Eis talvez ao que chamam o
amor.--Mas aquillo fel-o pensar na sua miseria e tentou em vão quebrar
esse fiosinho tenue e resistente. Por fim chorou... Tenho-lhe explicado
tudo, a natureza, a vida, mas elle só quer sonhar.
--É que o sonho é o pão dos desgraçados. Todas as creaturas que soffrem
refugiam-se no sonho. Roubar-lho seria peor do que tirar-lhes a ultima
codea. Essa gente vem da vida espesinhada e sonha; calcam-nos, toca a
sonhar...
Meditaram. Depois o Pitta com tristeza affiançou:
--Amigo, só nós é que já não podemos sonhar...
--Nós não, nunca mais podemos sonhar!...
* * * * *
Eil-os reunidos aos desgraçados e todos se põem a falar ao mesmo tempo.
Nenhum quer ser o que é, e cada um para seu lado accusa a vida. Ha-os
que têm inveja dos poentes, das pedras, das aguas.
--Para quê ser homem?
--Ninguem sabe.
--Quem déra não sentir, andar como anda a essencia do tição ardido,
perdida no redemoinho eterno, ora na nuvem, ora na mãe de agua ou no
fundo do mar.
--O que é a Vida?
--Sei lá! Talvez uma aspiração, talvez um sonho. Olhae o universo, que
amalgama! Tudo se mistura e se enleia... Na raiz do teu sêr que sentes
deante do temeroso universo?
--Tudo é chimica,--disse o sabio profundo.
--Eis um sonho,--affiançou gravemente o Pitta.
Só os mais pobres, arredados a um canto não diziam palavra, porque
tambem só os pobres na vida sabem soffrer.
--Mas então mais vale a morte.
--Pois mais vale.
Põe-se a discutir e os pobres, sem palavra, ouvem arredados. Ha feições
consumidas, olhos fartos de chorar, cabeças simples e grandes de
martyres e de santos. Só elles sentem o mysterio da vida; só elles
gastos, mudos e contemplativos, mergulham na vida raizes profundas. Os
outros dizem palavras, constroem com nuvens. Elles edeficam.
--A vida, concluiu o Astronomo, só vale passando-a a sonhar, embevecido
n'uma obra.
--A sonhar não!
--Eu queria ser poeta...--torna um.
--Se eu fosse poeta quereria isto: não fazer um livro, mas crear uma
nuvem... E encadernal-a. Oh o leitor, o leitor teria um pasmo. Imagine
que tintas e que sonho!... Uma nuvem, pensem n'isto...--disse o Pitta.
Soára a hora da vida, em que, todas as illusões cahidas, se scisma ou na
morte ou n'um crime: a theoria em que consumimos annos vividos de
existencia, parece-nos, n'essa hora, negra e ardida; o livro revolvido
de paixão e de gritos, mirrado; o sonho exhausto: cada um d'esses homens
assassinaria para possuir o que haviam sempre desdenhado, o oiro e o
poder. Só o Pitta, outr'ora tão materialista, protestava em nome do
ideal.
Voltando-se para uma tremenda mulher, toda caiada de branco como um
palhaço, a quem chamavam o _Corsario_, o Sabio começou:
--Só a chimica existe, creia, madama. No fundo de todas as acções e de
todos os phenomenos, só encontramos a chimica... Na primavera e no odio.
Vocês nunca viram lá fóra onde existem arvores?... Sim ha arvores e
aguas... Ahi n'estes dias de chuva a terra é como um laboratorio
immenso. Tudo se envolve em agua, arvores, matto, campos ensopados: nos
montes corre um oceano: as nuvens liquifazem-se... Billiões de gottas. E
de toda esta lama, das folhas seccas arrasto, da terra inerte se obram
prodigios: reacções, transformações, a vida emfim. Vocês nunca viram uma
grande nuvem verde pousada sobre os campos?... É herva nascendo... Pois
é feita de chuva e terra... Das arvores--sabem?--cahem gottas mais
grossas e o cheiro a terra molhada e a pinheiro enebria. Imbebem-se os
troncos, o humus, as raizes, as pedras, para se desentranharem depois ao
sol, n'uma vida furiosa.
--Pois a chimicasinha, disse o Pitta, tem sua importancia... Mas não é
tudo: o infinito existe...
--Onde?
--Onde? Onde não sei, mas é lá que vive a alma d'aquella pobre senhora
que eu outr'ora amei desesperadamente...
Os pobres do seu canto escutam em silencio, attentos aquellas creaturas
nascidas entre pedras e que passam a vida agarradas ao sonho. A cidade,
a desgraça e o proprio sonho, constróem os seus typos. Marcam-nos.
Triste é chegar aos quarenta annos imbebido n'uma chimera, todo em
brazido, e subito haver uma hora em que a verdade irrompe como um
punhal. A multidão ri, escancara-se deante do teu poema, do lume que
comtigo trouxeste, da tua vida inteira. Quer dizer: se a mulher te
appareceu como um fructo, arredaste-a, para só pertenceres á tua obra: o
riso desprezaval-o: annos, pendurado n'um telhado, viveste absorto:
queimaste o que em ti havia de melhor: déste-lhe os nervos e o cerebro,
e quando surgiste emfim, exhaurido, e prégaste á multidão--eil-o o
poema!--tudo se riu em torno, e tu mesmo, o que é peor, viste que o
brazido da tua obra era apenas terra inutil--pedras. N'essa hora amarga,
a tua alma desmoronada e a tua physionomia adquiriram um endurecimento e
uma tristeza inexprimiveis: dir-se-hia que ficaste com uma physionomia
dilacerada. Começas a fugir de ti mesmo. Nenhum outro sonho te é
possivel: só o alcool te dá ainda illusões, e as conversas desesperadas,
monologos, gritos, como os teus eguaes, todos os que tombaram do sonho
para a terra, agarrados a farrapos d'esse passado radioso, que ainda os
illumina, como a mendigos que envolvessem a sua nudez em pedaços
arrancados ao poente.
Para o _Corsario_ chegára a velhice: desdenhavam-n'a e ella mergulhava
no odio; ao Sabio cahira a sua theoria; o Pitta empobrecera; só o
Astronomo vivia alheado. Se haviam pensado no suicidio?... Quantas vezes
todos juntos tinham discutido a morte!...
--A nossa desgraça, rompeu o Pitta, é a falta de dinheiro. Com oiro
triumphariamos ainda.
--Com oiro! berrou o _Corsario_.
--É que, respeitavel madama, hoje elle é o unico poder, a grande força.
Permitta-me que lhe affiance: é Deus. O oiro é tudo!
Cada um ruminava as suas idêas sem se importar com o Gabiru. Do saguão
vinha um rumor de papeis velhos: folhas d'arvore, coisas apodrecidas á
sombra, queriam entrar na alluvião eterna.
--Sem oiro mais vale a gente enforcar-se.
--Enforcado não. Lembra um palhaço. É a morte a deitar a lingua de fóra
aos vivos, um trapo pendurado... É afflictivo e dá vontade de rir.
--Já tenho pensado n'isso. Eu, por mim, escolheria a agua.
--Um horror, a agua!... O corpo arrolado, a lama das marés...
--Perdão, no mar largo...
--Uma bala, uma bala seria mais prompto. É até elegante. Repare que é a
morte dos namorados.
--E o veneno?
--Sempre escolhido pelos principes aborrecidos da existencia, pelos
banqueiros fallidos, por todos os que se querem ir embora sem rumor, o
veneno a mim atterra-me.
Ficavam um pedaço a scismar. O que os prendia afinal á vida? em que
criam? N'esse fim da tarde, chovia e aquillo era lugubre: como que as
coisas os empurravam para a morte. Na vida tudo lhes falhára e aos
quarenta annos já se não constróem nuvens. Só o Astronomo todo se
consummia em sonho: os outros, sentindo-o ainda feliz, puxavam-n'o para
o fundo, como os afogados aos que se querem salvar.
--Sonhar! sonhar!--prégava.
--Sonhar, deixe-se d'isso!... Na vida só o oiro vale.
--Que querem se eu nasci para isto? Eu só vivo na solidão, e a vida para
mim é sonhar. Como hei-de eu, que vivo lá em cima, pobre, com este
casaco que de gasto nem sequer me aquece, comprehender a existencia?....
D'um lado estou eu, miserrimo, do outro um turbilhão d'astros... Quantas
riquezas! Astros todos d'oiro, astros de crime, plagas d'uma areia fina
e rubra e depois largos oceanos desertos... Talvez o céu seja uma arvore
sempre na primavera... Infinitos mundos, colossos mudos, que passam, e
eu pobre, transido de frio, comprehendo e vejo!... Depois, se desço cá
p'ra baixo, nu, a vida parece-me triste e logo corro a refugiar-me no
céu.
--Mas a natureza...--disse o Pythagoras.
--Eu sei, eu vejo do meu quarto: havendo sol é bello: é tudo d'oiro e
verde. Sei que ha arvores, o mar, rios, mas nunca ninguem os viu ao
pé...
--Perdão! mas já muita gente... O amigo confunde!
--Na minha pobre cabeça tudo se confunde.
--Sempre sonhar, sempre sonhar! Eu por mim já estou farto de nuvens!
--E que querem que faça, se eu não sei mais nada? Nem me sei rir, nem
sei falar...
* * * * *
Falavam do suicidio, riam do Astronomo--um sonhador!--e no fundo todos
temiam a morte e quereriam ser como elle. Morrer sem ter vivido!... Era
desesperador. O que haviam tentado realisar, esse esforço para
materializarem a propria alma, que outra coisa não é crear, déra-lhes
como resultado um bloco gelido e informe, talvez vivo mas em bloco.
Porquê? Porque a sua alma era assim, sem harmonia. Por isso a morte os
aterrava, a morte que era o _nada_ para todos, até para o Pitta então
idealista. Sabiam que iam morrer sem ter vivido. A existencia não era de
certo como elles a haviam comprehendido: alguma coisa lhes falhára.
Tinham rido de tudo. Só a Morte ainda restava intacta, sem dedadas na
sua roupagem negra, com todo o seu mysterio e toda a sua belleza. Ella
põe, até no homem que na terra representa a omnipotencia, o banqueiro,
arrepios de allucinação e terror, quando acaso a Havas diz á Terra que
um Rotschild acabou de uma fórma identica á d'um pobre diabo ou d'um
poeta, ou d'um santo. Ella iguala, porque emfim é indifferente ir
apodrecer n'um palacio de marmore ou na valla commum: ella mistura
pobres com ricos, heroes e scepticos, egoistas e santos, e d'esse oceano
negro não sahem nem gritos, nem bençãos, nem palavras. É o formidavel, o
mysterioso silencio. Nem o sol, nem a morte, se podem olhar fixamente,
diz La Rochefoucauld.
Morrer, dormir, dormir! Sonhar talvez!...--Ella impõe-se ao homem, negra
e ferrea: quasi sempre, porem, sob o seu manto tem claridades de
relampago. Nada lhe escapa, e, se para uns é madrastra, para outros é
noiva. Ora avança como uma furia, ora coberta de flores como abril.
As creaturas grotescas, os que nascem para soffrer, escravos, párias,
esperam-na como a redempção. De tanta lagrima, de tanta aspiração,
alguma cousa se deve ter creado no infinito...