a desgraça! Não é isto subordinar o universo ao homem?
Se a vida tem um fim--é viver. Viver, deixar que cumpramos o fim para
que fomos nascidos. Isto é logico, inevitavel, maior decerto do que o
que suppomos, mais bello, mas cêdo ainda para se entrever.
* * * * *
O homem é uma fonte onde a vida corre limpida ou turva, n'um fio que a
emoção torna d'oiro ou n'um jacto negro de colera. Eu ouço assim correr
a minha existencia...
Um dia a fonte secca-se.
* * * * *
A terra ha-de sempre crear os seus typos, quer os homens queiram quer
não. O homem não é senão a essencia do universo e nasce para que tudo
tenha bocca. Podemos tentar abafar isto, pôr diques, retardar a
torrente, mas um dia o largo rio da Vida e do Destino irrompe.
* * * * *
Não, não é justo que a gente morra de subito sem protestos, sem
palavras, sem gritos, com os seus erros, as suas ambições, os seus
sonhos... Abre-se de subito uma cova... Não se pensa mais, não se vê,
não se ouve... E o que custa não é deixar pessoas queridas, nem
habitos--é não viver. Morrer quando a vida continua da mesma fórma
harmonica e impassivel--eis o horror.
* * * * *
Nenhum outro homem no universo existe realmente para o homem; nenhuma
outra vida senão a sua vida.
* * * * *
Ao chegar dos trinta annos abandonam-se os amigos. Se alguns restam é
por habito ou por interesse: é por calculo. Se queres continuar a amar
os outros, afasta-te, torna-te um solitario. Ou deixas de ser sincero e
passas a morar com a mentira. A peleja começou: é preciso arredar,
vencer--e cada um n'essa edade é o que é. Já se não amolda: é um ferro
desembainhado, sahido da forja; tem já os seus habitos, vaidade,
mentiras. Tudo o que estava apenas esboçado endureceu; é de pedra.
De fórma que se quizeres viver com os outros tens de representar. Da tua
edade ha centenas que vão comtigo pelo mesmo caminho e para o mesmo fim.
Adiante de ti estão os homens de quarenta annos, que é preciso arredar,
conquistar ou illudir. Cada um d'elles é de aço. Para triumphares tens
de os lisongear, tens de ser elles e não tu...
Os que têm uma forte individualidade arredam-se porque nunca podem
agradar. O triumpho pertence não aos mais fortes, nem aos mais
intelligentes, mas aos que, sem pessoalidade, pódem ser todo o mundo...
Ser parecido lisongea: d'ahi tens d'afivelar uma mascara egual á do
homem que precisas conquistar.
* * * * *
Sim a vida é uma tragedia esplendida, com todos os seus crimes, sonhos,
odios. Falam em nós as montanhas, as arvores, as nuvens, e fala até,
n'um murmurio, o que é ainda desconhecido.
Que é preciso para que cada um se encontre? Que é preciso para que as
arvores abaladas se carreguem de flor? A Primavera--a Dor.
Tu és a mãe, terra; tu a fecundaste, Dôr, e até nós veiu como o murmurio
apagado dos seus gritos.
Amo-te nos bichos, no sol, na luz, nas pedras; na terra onde mergulho as
mãos até as ennegrecer, na agua que m'as banha; no ar que respiro; no
sonho; na morte; na desgraça; no que é humilde ou grande não importa.
XIII
ESSA RAPARIGUINHA...
Quédo-me a scismar tão sósinho n'este velho casarão!... De noite ouço
vozes, logo suffocadas, que me querem falar e não podem. Só os meus
crimes d'outr'ora (ha tanto esquecidos!) se põem a prégar dentro em mim.
Arqueja o lume no escuro e sinto em redor toda a treva povoada.
Foi ha vinte annos e no emtanto hoje, como em certas horas presagas,
alguma coisa remove e acorda dentro em mim. Oh não! Bem sei, por demais
conheço a fórma porque as ideias se ligam, até as mais contradictorias,
e como um nada recorda um velho crime abafado. Mas não é isto: é do
fundo do meu sêr que esta imagem irrompe, desligada, sem nexo, como um
phantasma. Ás vezes estou só e esquecido e um estalido atraz de mim
alembra-me, outras acordo de subito, altas horas, já a pensar n'essa
pobre creaturinha explorada. O rumor da vida, outros crimes amontoados,
podem fazer-me esquecer a sua imagem, mas um dia vem em que grito:
--Abandonada! abandonada!...
E no emtanto o facto em si é simples e banal, vulgar como essa
rapariguinha das ruas, molhada até aos ossos, a quem nem mesmo soube o
nome, porque nem sequer lh'o perguntei.
Convenci-a a que me seguisse por vaidade, para ser como os outros, ao
encontral-a uma tarde, sem pão, expulsa de casa, vagueando na tristeza
das ruas. Teria quinze annos? Teria. Disse-me a medo que sim. E eu,
levando-a para a casa de _passe_, sentia, não orgulho nem prazer, mas
oppressão e vergonha. Perguntava-me já: como me hei-de ver livre d'ella?
Nada mais ignorante, mais puro, mais simples... Foi um crime. Deixei-a
rapidamente, dando dinheiro á mulher, gorda e vesga, que sorria, e fugi
como quem foge ao remorso.
Mais nada. Porque é então--e já lá vão muitos annos--que a certas horas
de silencio me lembra essa pobre creatura e as suas palavras ingenuas, o
sorriso da mulher vesga e o pobre corpo magrinho e encharcada da chuva,
todo dorido da vida?
Vejo-a aqui, aqui no escuro, descalça, molhada até aos ossos e a
sorrir-se para mim, com um sorriso piedoso, todo lagrimas, com um
sorriso tão triste que me piza o coração.
Arqueja o lume no escuro todo povoado de _vozes_, que vão prégar, mas
que logo se callam suffocadas. A ventania passa lá fóra e na escada soam
os passos do gato pingado; as mulheres gargalham e eu fico sósinho, a
scismar, n'este velho casarão, com os olhos presos no lume que
esmorece...
Eil-o que pára no patamar a tossir, com o peito escalavrado e roto!...
Na verdade não conheço outro homem tão nullo, banal como a propria
banalidade. A sorrir, a amar, e até com o coração despedaçado, esse
homem fazia sempre rir. Os proprios inimigos tinham por elle piedade ou
desprezo. Sim, piedade ou desprezo, porque S. José era incapaz de odios.
Nunca podera aprender a vingar-se e sabiam-n'o. A mim mesmo me fez algum
bem que depois lhe retribui em esmolas, ao encontral-o estatelado na
rua. Nunca lhe encontrei interesse: a sua vida é a vida de todas as
creaturas que se afundam por falta de tino pratico para a lucta:
enlamear, mentir, triumphar emfim. A vida (oh todas as solidas
philosophias o ensinam) é de quem possue a força e aptidão... Mas hoje
estou n'um dia enervado e sinto-me sósinho n'este velho casarão. Parece
que a noite tem vozes e que os meus crimes d'outr'ora (ha tanto
esquecidos!...) encontram emfim palavras e se põem a falar dentro em
mim.
É talvez para fugir a esta obsessão que me deito a scismar na vida
d'este homem banal como a propria banalidade.
Nem sei como conte, com que palavras faça a narração d'uma existencia,
que é como um trapo que se deita fóra todo molhado de lagrimas.
Sim, um doido. E nunca foi feliz. Veiu um dia a catastrophe e
incendiou-lhe a casa: mais tarde enganaram-n'o, mentiram-lhe. E não
faltou a doença a escalavral-o brocando-lhe a cara e a tisica a
romper-lhe o peito com tosse, nem a miseria a deprimil-o. É por isso que
elle, ao saccar das casas o caixão dos mortos como quem o arranca do
peito dos que ficam, decerto ri por dentro, ha-de rir consolado.
Quem foi a tua mãe, ó S. José?...
* * * * *
Apedrejam-n'o os garotos ao vel-o passar para os enterros, fogem d'elle
os visinhos e só a Rata fala ao gato pingado.
A Rata é sua egual, tão maltratada pelo destino como elle. Foi sempre
assim: rachitica, triste e feia. A vida para ella tem sido mourejar.
Sustentou primeiro a mulher que a tirou do asylo, depois o homem com
quem casou, e que logo a deixou sósinha. Com o S. José conversa ás
vezes. Diz sempre as mesmas coisas e com que mesquinhas palavras! Mal
sabe exprimir-se. Falam os dois como podem communicar entre si as
pedras, os sêres que o acaso rola juntos no mesmo vagalhão da vida. Nem
se queixam--e de que se hão-de queixar? Deus os sustenta na sua mão de
pae.
--A gente é pobre--diz elle.
--A gente é pobre--torna-lhe ella.--E ás vezes passa fome.
--Passa.
--Quando a minha mãesinha era viva, eu rapava fome. Era preciso dar-lhe
o sustento e eu mal o ganhava para mim. Até que acabou de penar os seus
trabalhos. Tudo se acaba um dia.
--Peor do que isso é não ter ninguem. É peor do que a fome.
--É o peor de tudo.
--Que se ha-de fazer?
--Sabe vocemecê? olhe que eu ás vezes ponho-me a scismar porque é que a
gente soffre...
* * * * *
E o vento ulula. No coração do inverno o enxurro leva as lagrimas que
ensoparam a terra e a lufada arrasta os gemidos para um destino
ignorado. Rola as lagrimas dos pobres n'alguma nuvem perdida e gemidos,
ais, palavras leva-as o vento comsigo. Noite negra! noite negra! Arqueja
o lume e o predio sob a ventania arqueja.
Eis-me a scismar absorvido nas brazas, fascinado pelo seu escarlate, ou
com os olhos postos n'esse outro lume, o Hospital, que brilha na
escuridão como um brazido de gritos.
A pedra de que o construiram dil-a-hieis transida. Foram-n'o
acrescentando: ao granito ligaram o granito, conforme a miseria cresceu.
Arrancaram-n'o ao coração da terra. A ossada dos montes, abraçada pelas
raizes, a fraga escondida que com a agua viveu e em si a guardou,
sentindo-a bolir no seu seio, minar para a luz, a pedra irmã da terra,
sepultada na terra, veio ter este destino--abrigo de miseros.
Ao pé da pedra a Arvore cresce. Prega o universo e ella retempera-se. As
suas raizes vão sob a terra até ao Hospital e os seus braços quasi
cobrem o predio. D'um lado o Hospital, do outro a Arvore. Só elles
prosperam. Deita a Arvore pernadas e a cada inverno o granito augmenta,
qual outra arvore de pedra. Num corre seiva, no outro gritos. O Hospital
tem raizes em toda a cidade.
A Arvore é quasi uma construcção. O tronco é corroido e as pernadas em
cima torcem-se e esgalham-se. Suas raizes vão sugar no Hospital. Com os
annos enlaçaram o granito, pouco e pouco desconjuntaram-n'o, abriram
fendas para mergulharem mais fundo na miseria humana.
E para lá? o que ha para lá? Ao findar dos dias sinto um ar vivo que é a
respiração dos montes adormecidos, batendo nos muros compactos do
Hospital e ruidos, claridades, mistura d'oiro e verde, gorgolejos de
minas, chuva de sol e d'agua, tombando. Arfa a terra, incham os montes e
vogam no ar aspirações de arvores, murmurios de fontes, o halito das
plantas ignoradas. Oh cahem noites encharcadas de luar, em que se ouvem
as lagrimas das noras paradas, cahindo uma e uma na terra sequiosa e se
presentem dialogos de sonho entre os grandes pinheiros bravios...
E a Arvore, a este ruido, fica entontecida, abalada até ás suas raizes
mais fundas.
* * * * *
Esperae! esperae!... A ventania redobra. Depois ha um silencio
prostrado, um silencio peor do que a lufada, em que eu ouço o esforço
que o mundo, que povoa a escuridão, faz para gritar. A treva arqueja e a
ultima braza reluz ainda no lar, cujo escarlate arqueja, arqueja e vae
esmorecendo...
Grito! É sempre a mesma rapariguinha que resurge, magra, pallida e
triste, com um pobre vestido encharcado de chuva ou ensopado de
lagrimas. Sorri para mim, descalça, estendendo-me os braços. Eil-a!
eil-a!... Só uma braza ainda vive no lume, misturando na escuridão uma
poeira escarlate. E vae apagar-se! extingue-se...
Toda a vida é uma construcção de gritos, a cada passo para a frente ha
sempre uma creatura espesinhada... Que queres tu?
Não é odio que ella tem por mim, porque o seu sorriso, que eu sinto
molhado de lagrimas, é triste mas resignado. No emtanto o remorso
acorda, o remorso põe-se a rugir... Vejo a mulher gorda e vesga dar-lhe
dinheiro; vejo-a depois partir atravez das ruas, encharcada até aos
ossos, sem perceber porque foi vilipendiada, enganada e expulsa... Vae
gritar? De que servem os gritos na terra, não me dirão?
Para quem ha-de ella apellar no mundo? E não entende. Descalça caminha
pelas ruas desertas á chuva; pela vida asperrima ao abandono. Vem depois
outro e engana-a, mente-lhe. Para que servem os gritos na terra? Tem de
soffrer e de se resignar á brutalidade, ao escarneo, aos risos; tem de
se affazer a ser explorada, á mentira, á infamia... E assim caminha,
ensopada de lagrimas, afundada na desgraça pelos que passam e riem;
assim vae pela vida fóra até onde?... Até onde?
Oh aquella braza que ainda reluz como uma poeirinha d'oiro, aquella
braza que vae morrer no lar quasi de todo apagado!... A lufada doida
passa lá fóra aos gritos. Quanta gente grita n'este valle de lagrimas! A
esta mesma hora quantos berram espesinhados, sem mão que os ampare? De
que servem os gritos, não me dirão?... Aquella restea de lume é como o
ultimo fio d'uma alma que vae findar!...
E ella ahi volta, ahi torna! Pobre corpo murcho, nascido para o
soffrimento, já dorido da vida, vestido d'uma sainha e d'um sorriso
resignado de quem já presente o que a espera--quantos gritos! quantas
lagrimas pela existencia fóra!...
* * * * *
Cerrou-se de todo a escuridão. Suffoco!...
XIV
O ESCARNEO
No ermo da noite o Gabiru vae tecendo a sua teia:
«A materia tambem sonha. N'essa mistura de homens e calháos, torrente
que leva comsigo gritos e forças embravecidas, turbilhão arrasto pelo
infinito fóra, não é indifferente ir ser pedra ou nuvem, nascer em
macieira de quintal escondido e humilde ou na agua fulgindo d'uma fraga.
Não é o acaso que reune ou afasta as moleculas, para as fundir n'outras
fórmas. Ha corpos que a chimica não consegue ligar, porque os separa o
odio, e outros que se reunem com soffreguidão.
Depois da morte a materia entra n'um mar. Rios acarretam as moleculas,
até que se encontrem as que se devem juntar. O meu coração unido ao teu
ha-de florir n'um simples espinheiro. Será n'um sitio pobre, mas alguem
que passe n'esse abril, sentir-se-ha enternecido para sempre. O meu
cerebro procurará o teu cerebro para vogarmos juntos na mansidão d'um
rio. Ora em terra, ora em pedra buscar-te hei inconscientemente até dar
comtigo e te fruir n'esse oceano bravio. Se tu fores fonte, irei
topar-te e juntos apagaremos a sede a muita raiz esquecida.
* * * * *
Creaturas simples vão ser arvores que de anainhas a gente se sente
commovida ao vel-as; os sonhadores, desfeitos em nuvens, andarão nos
poentes do mar salgado, e as penedias, que o sol abraza, as penedias
eternas, serão construidas do coração dos máus.
* * * * *
Eil-o o prodigio, o extraordinario milagre, esta vida que o Pitta me
mostrou, arvores, nuvens, mar, este monstruoso referver de vida, egual
nos montes e nos igneos mundos. E eu pertenço a este pelago como tu,
passo os meus dias a contemplal-o!
* * * * *
Fico horas a aparar nas mãos o jorro do sol, olhando-o correr...
* * * * *
Por força existe uma razão superior senão o homem seria Deus, a
consciencia do universo, o que se não comprehende: um deus reles, com
miserias e gritos, sempre a escalar o infinito e sempre despedaçado
pelos tombos.
* * * * *
Sê sempre bom, porque a bondade eternisa o amor.
* * * * *
Os crimes da materia pune-os a materia, os crimes do espirito pune-os o
espirito.
Já ouviste que as arvores, o mar e as pedras, tivessem duvidas ou
tremessem de pavor?
* * * * *
Vêr o sol, o universo, olhar, já é um prodigioso milagre. Mas tocar,
comprehender calháos, almas, ter raizes em todas as estrellas, no céo e
no oceano--é o portentoso sonho.
* * * * *
O homem arranca de si proprio universos de belleza.
* * * * *
O homem tem uma scentelha de prodigiosa alma que erra no grande mar de
sonho que vae espraiar-se de estrella a estrella e tudo enche, doirado e
enorme, e que em si consubstancia o genio, a belleza, o amor. Logo que a
materia se dispersa, a immorredoura faisca volta ao atlantico donde
tinha sahido.
* * * * *
Creamos cada um de nós um universo d'angustia ou de belleza, resequido
ou de fogo. São felizes os bons portanto. Ha no emtanto creaturas que
vivem sem suspeitarem que o universo existe.
* * * * *
Ás vezes nos mais simples factos encontra-se mysterio, como n'um punhado
de desprezivel terra ha uma força escondida. Parece inerte. Esperae,
porém, que março a toque!... Assim esse pobre desageitado, sempre timido
e vestido de negro, tinha uma existencia feliz. Na trapeira passava as
horas a scismar n'essa rapariga quasi tisica, com um ar de mascara que
vae gritar d'afflicção. A Mouca foi amada como as princesas lendarias, e
esses amores entre um philosopho esfaimado e uma mulher da vida, tinham
não sei que enternecido interesse. Sobre os calhamaços do Gabiru alguem
encontrou por vezes flores resequidas e n'essa primavera--caso unico--o
vento trouxe por cima dos telhados duas borboletas que vieram noivar no
saguão.
Elle era feliz. Que importa ter-se fome, se se ama? O amor e a fé não
transformam o mundo até ás suas mais profundas raizes? Quem diz que se
não podem construir com aquellas nuvens esparsas marmoreos palacios ou
estrophes de luar?
As suas theorias, as suas idéas ia-as tecendo e olhando a Arvore. Pelo
tronco corriam já estremeções: os gommos pareciam envernizados.
Debruçado na trapeira, fascinado olhava-a de galhos despidos, ainda nua,
mas--como direi?--vestida de emoção.
--Aquella Arvore...--murmurava elle scismatico.
Em baixo corria sempre a levada, lagrimas, gritos, gargalhadas, lama
espesinhada que fala, lodo misturado de sonho, logo nascido, logo
atirado a arena, gebos, prostitutas, monstros em cujo corpo de sapo
habita a alma d'um deus. Porque? d'onde? De que ruinas se constroem
estes seres que o destino marcou com dedadas tragicas? São feitos de
pedaços d'estatuas e loucura. Falam em giria. Se riem são o Riso e é
como se dentro d'elles andasse um doloroso palhaço aos saltos. Têm
olhares de desespero e de odio. Eis um rio de gritos que já brotou para
soffrer. É a Noite que anda a architectar de neblinas os seres
destinados a arena? Este esgoto que passa, todo revolvido, pela natureza
indifferente, é porventura necessario e fecundante?....
Todos os dias o Gabiru lá vae sentar-se olhando a Mouca entre os ladrões
e os soldados, que á noite surgem para se rirem das lagrimas e dos
gritos. Entre a turba sinistra vem sempre o Velho, callado e feroz, que
só ri com uma bocca disforme, e o Morto, que fala com desprezo do
soffrimento, das mulheres, da morte. O Gabiru, encolhido e triste,
põe-se ao seu lado a olhar para a Mouca e vae tecendo o seu sonho. Toda
a noite é uma mistura de gritos, de lagrimas e risos. Espancam as
mulheres e quando ellas choram, cahidas, tornadas em escarneo, infimas
como a terra, todos elles riem, com um _anh!_ de satisfação por as
fazerem soffrer.
Mas um d'elles d'essa noite repara no Gabiru, perdido a um canto sem vêr
nem ouvir, ridiculo, esguio, alheado. Aponta-o e logo a turba emmudece,
tragica. O Morto, pondo-lhe a larga mão no peito:
--Ó tu!
--Anh?
--Tu que andas aqui a fazer, ó Gabiru?
Logo o Velho escancara as fauces e todos os outros de repellão se
erguem.
--Esperem... Tu não ouves?
--Anh?--diz elle, acordando estonteado.--Anh?
Então o Morto, que aperta sempre uma contra a outra as mãos geladas,
como se tivesse vontade de maltratar, clama:
--Acho que é poeta! Dizem que é poeta!...
E em torno pega-se o riso feroz como um mar que sobe. As mulheres, que
foram sempre maltratadas, chegam-se rôtas, tisicas, razas como o chão:
--É o poeta!
Ha olhares vesgos, de odio, lume que gela e arde. A maldade resurge.
Vão-se rir, vão espesinhar. Logo o côro de gargalhadas e de gritos
esturge.
--Olhae p'ra elle... Sabeis como lhe chamam? chamam-lhe o Gabiru.
--É o enguiço,--diz a Mouca.
--Olha lá--avança outro--onde mettes tu essas pernas?
--Anh?--pergunta o Gabiru sem entender ainda, tonto de sonho.
E fita os ladrões e as mulheres que formam roda. Esguio e transido de
frio, dentro da sobrecasaca d'alpaca, pela primeira vez descobre, á luz
do candieiro fumarento, a triste realidade, as mulheres da vida, os
seres de descalabro, as caras dos ladrões. Ha physionomias de pavor e em
semi-circulo, chegam-se para elle, de boccas escancaradas, só boccas.
Ninguem se ri da dor physica como os pobres, que só admiram a força.
--Tu que andas aqui a fazer, ó Gabiru?
Elle espantado accorda:
--Anh?
Olha-os tonto, magro, esfaimado. Atravez da nevoa do sonho vê a
realidade, e entre o circulo dos ladrões e das mulheres acha-se
transido, timido e torto. Em redor os outros sentem que vão fazer mal.
Vão-se rir do que é pobre e desageitado; vão-se rir do que não
comprehendem--do sonho.
--Acho que é poeta!...
E os ladroes ululam. O riso é odio, o riso ignaro é odio da materia
contra o espirito. Tem este nome--o escarneo. Ajuntam-se os ladrões e as
mulheres para gargalharem d'aquelle sêr encolhido e tôrto.
Tem passado fome, tem vivido só com pão e scisma, preso a nuvens e de
subito dá de cara com o escarneo. Ha quem se ria da dor, dos gritos, da
tragedia. O mal faz rir? Faz. A dor faz rir? Faz. E a desgraça? Tambem.
Os ladrões e as mulheres têm vontade de espesinhar porque odeiam e não
comprehendem o sonho. Arrastem para um tablado as peores ruinas e as
mais amargas catastrophes que a multidão gargalha. Ponham a Fome a
ulular que a materia ri. Ri de tudo o que é triste, pobre e torto--e do
que é bello como os astros.
Resuma raiva o escarneo. N'este riso ha sempre gritos. Toca a gargalhar
da Desgraça e da Dor; transformem em farça toda a tragedia humana.
--Diz que estás apaixonado?
O Gabiru calla-se.
--Tu não falas?... Ah tu não falas, enguiço?... É d'esta que tu gostas?
--É de mim? pergunta a _tisica_ e tosse, rindo-se. É de mim?--Está ao pé
da cova e espesinha, ri com odio, pelo que soffreu na vida. Cessam n'um
momento os risos. O que sentem todos é vontade de calcar, de o tornar
razo como elles...
--É por esta? Não? Então tu imaginas que ha alguem que goste de ti, meu
desengonçado? Tu!... Vocês vêem-no? Nem sei que parece! Ahi vae o
poeta!...
Dá-lhe um encontrão, atira-o e, entre risos e chufas, vae de mão em mão
como um trapo. Todos têm vontade de o amachucar, de o tornarem mais
reles, mais triste, mais pobre e transido, por não lhe poderem tirar o
pão da sua vida--o sonho.
--Ahi vae o poeta!...
Até que o largam. De pé no meio da sala, com a sobrecasaca rôta,
amolgado, exclama, não comprehendendo:
--Mas eu que fiz? eu que fiz?....--Vae rir? vae chorar?....
As gargalhadas redobram ao verem-no espantado e picaro. As boccas más
clamam, cheias do gritos. O seu olhar afflicto procura a Mouca e vê-a
rir-se tambem. Nos olhos reflecte-se-lhe o abysmo que descobre, a
seccura dos outros, o sonho calcado e por terra, lagrimas e enternecido
espanto.
--Foste tu! foste tu! Tu riste-te de mim!...--diz, apontando a Mouca.
Os ladroes gargalham e só ella se calla, a Mouca que tem rido sempre de
tudo, da vida, da morte e até da propria desgraça.
--Ó Mouca! ó Mouca! olha o poeta!--gritam todos á uma.
--Que é? Deixem-me!...
E scisma.
* * * * *
Altas horas da noite... Saio, érro... A pensar em quê? Em coisas
desligadas, sem nexo: na ambição, no odio, no exaspero. As ruas seguem
monotonas, negras, enlameadas; d'um lado e d'outro as casas parecem
construidas de tinta e de lama o ceo que se desfaz e gotteja. Que mundo
este!... Na minha frente, reparo, caminha um velho... Não o distingo
bem: é a sua sombra que eu vejo, comica e desengonçada e, ao passar pelo
lampeão ia jurar que lhe notei cabellos brancos. Aquella sombra
agita-se. Mexe os braços, com o chapeu na mão, fala sósinho, discute...
Ás vezes tropeça, ergue-se e lá parte a prégar por entre a casaria e o
ruido, debaixo da chuva miuda, lama negra que gotteja do céo.
Agora as ruellas apertam-se e já reparei, elle dobra, volta para traz,
ha meia hora que gira no mesmo sitio, absorto. A chuva enlamea-lhe os
cabellos e o seu braço gesticula n'um redemoinho.
Das alfurjas vae sahindo um ou outro noctivago, que o olha e passa
indifferente, murmurando os seus exasperos ou as suas afflicções.
A cidade dil-a-hieis farta de tedio, afundando-se em lama. As nuvens
baixas e disformes esfarrapam-se, collam-se aos predios. Os casarões
alongam-se pesados e enormes, e onde a onde irrompe um golfão de luz. A
sombra caminha, toma por ruellas funereas. Vae sósinha com o seu sonho
ou a sua desgraça.
Trez horas n'uma torre. Ha um silencio cavo. Chove sempre a mesma chuva
tenaz, com um ceo nublado e afflictivo. A cidade morta, sob o aguaceiro,
espapaça-se na lama. Debaixo de cada um d'estes tectos escondem-se as
mesmas miserias e os mesmos sonhos. Esta pedra abriga odios, crimes,
escarneo. A sombra perde-se no escuro, torna, pára indecisa...