Havia as grandes, as médias e as pequenas. As grandes eram desageitadas,

de mãos enormes, com vestidos negros e grossos. E todas eram feias.

Faltava-lhes não sei que graça, que só existe nas que têem mãe, por mais

feias que sejam: seres d'abandono, plantas que vivem estioladas...

* * * * *

Ás vezes o senhor provedor visitava-nos. Era um homem secco, rispido, de

cara rapada, que nos vinha lembrar que viviamos por esmola:

--É preciso que se recordem d'isto: a sua vida devem-n'a aos

bemfeitores.

Elle proprio era um bemfeitor. O seu retrato lá estava collocado ao pé

dos outros, com o mesmo caixilho funebre. Era o ultimo da sala enorme,

gelada, onde os passos echoavam, toda cheia de retratos em torno. Os

bemfeitores!...--Dir-se-hia uma galeria d'afogados, todos solemnes,

seccos e maldosos, hirtos, de labios finos e ar de cerimonia.

Todas as noites as Irmãs nos faziam resar por elles, a quem deviamos o

pão e a vida.

* * * * *

Era prohibido falar, a não ser ás horas de recreio, e isto explica

talvez os vincos que todas tinhamos, ainda as mais pequeninas, aos

cantos da bocca.

* * * * *

O melhor sitio do Asylo era a enfermaria por isto: era mais quentinho:

dava-lhe o sol todo o dia e viam-se as arvores da cerca: e por a Irmã

enfermeira ser a unica que tinha coração e que gostava de nos beijar.

Todas eramos amigas d'ella.

É curioso. Lembro-me das grandes arvores que de lá se avistavam, mas só

as recordo descarnadas e despidas, n'um céu pallido. Sempre no inverno.

* * * * *

Tenho ainda a impressão de ter os joelhos frios e doridos. Nunca mais

consegui aquecel os.

* * * * *

O pão do Asylo tinha um sabor que nunca encontrei em outro pão, por mais

desgraçados que fossem os meus dias: um gosto amargo e requentado. E em

todo o refeitorio havia um cheiro identico. Tudo, até o Christo, até o

caldo aguado, a mesquinha ração que nos davam parecia dizer-nos: «Olhae

que viveis por caridade! Habituae-vos á desgraça!»

* * * * *

Quereis crer? Muito mais caridoso seria affogar as creanças que não têem

mãe. Livral-as-hieis do Asylo, da caridade, da vida.

* * * * *

No dormitorio tudo era regular, branco e monotono, e, apesar de branco,

funebre. O sol, que entrava pelas janellinhas, abertas n'uma muralha de

prisão, era pallido, e, mesmo de verão, parecia um sol d'inverno; as

camas, todas de branco, alinhavam-se encostadas ás paredes caiadas e

nuas; só ao fundo, por cima da cama da Irmã, um Christo de louça azul

manchava aquella brancura.

O recreio não era na cerca do convento. Brincavamos sem barulho no

claustro. Parece que tinham medo de nos mostrar arvores e sombras. O

claustro... Por cima via-se sempre, engastado no beiral, um rectangulo

do céo, e a sombra geometrica estendia-se cá em baixo. De um lado era

sempre frio e humido: as paredes tinham musgo. Ao meio do claustro um

golphinho de pedra deitava gota a gota, pelos dentes cariados, um fio

d'agua frigida. De tudo aquillo sahia uma paz transida de sepulchro. Só

andorinhas cortavam em cima o céo; mas d'uma vez que em março vieram,

afadigadas e chilreando, fazer ninho no beiral, as religiosas

deitaram-lhos abaixo. Destruil-os porque? Os restos, farrapos de

pennugem quente, ternos dirieis, andaram por muito tempo no claustro.

Passaram de mão em mão com alvoroço. Algumas das asyladas scismavam,

olhando-os: as mais pequeninas brincavam com elles. Uma disse:

--É um berço...

Destruil-os porquê? Para que não soubessemos que as aves têm mãe e

cuidam dos filhos? Para que não tivessemos saudades das nossas, que não

conheceramos? para que ignorassemos?... Mas que candura a das Irmãs se

era por isto! Nós presentiamos, adivinhavamos tudo aquillo e quando uma

das mais pequeninas explicou ás que faziam roda:

--É o berço dos passarinhos...

--quantas de nós já tinham scismado n'um berço assim agasalhado e

fôfo!...

* * * * *

D'aquella vida identica, secca, dura, vinha um dia, quando eramos

grandes, arrancar-nos o provedor.

Era um dia solemne. Iamos partir. Quem precisasse d'uma creada que

comesse pouco procurava-a no Asylo. Uma caderneta, papeis, alguns

trapos, camisinhas curtas e o discurso do senhor provedor:

--Sustentou-as este Asylo por caridade. Se vivem devem-n'o aos

bemfeitores. Ora agora lembrem-se sempre nas suas orações do bem que lhe

fizeram. E na casa que as recebe sejam agradecidas. Tomam-n'as por

esmola...

E assim, com uma trouxa debaixo do braço, partiamos para a Vida.

* * * * *

Oh! minha mãesinha!»

IX

PHILOSOPHIA DO GABIRU

Ter os mesmos direitos que as arvores e os bichos á immortalidade,

humilda-me, e fazendo-me humilde torno-me melhor, mais irmão do que é

pequeno e desgraçado.

* * * * *

Só as creaturas que soffrem é que são dignas de viver, e na verdade são

as unicas que vivem.

* * * * *

No tempo infinito e no espaço limitado as moleculas agregam-se,

desagregam-se... Só chimica, só a chimica existe... As moleculas, que

têem em si a força vital, são hoje arvore, amanhã animal, pedra, homem.

Conforme o quê? o que é que as modela?...

Eis-me: eu fui e continuarei a ser n'este oceano tragico, o que o acaso

determinar, conforme as minhas moleculas, amanhã desagregadas, se unirem

a outras mais tarde... Tenho vivido até aqui--continuarei assim pela

eternidade.

Quando pois me chegar a vez de ser homem, hei-de viver: quero viver da

minha propria vida: quero que fale dentro em mim o _universo_ que eu já

fui--a pedra que eu já fui--a arvore que eu já fui--o bicho humilde que

eu já fui...

A tua opinião?... De que me serve? E é ella tua, sentel-a bem tua, ou é

aprendida, falsa, vinda de outros homens que me querem esmagar?...

Qual deve ser o meu fim? Deixar falar todo o universo que compõe o meu

sêr, deixal-o prégar com a sua voz rouca--com a sua propria voz e não

com a tua. Se eu trago odio, deixae-me ser o Odio; se eu trago riso,

deixae-me ser o Riso.

O momento é unico, não vale perdel-o. Porque acaso, porque furia insana,

depois de que rebeldias, de que horas ou seculos de aguilhão, de

desespero e raiva, estas moleculas, perdidas n'um oceano maior que o

atlantico, tornarão a ser, se chegarão a reunir para terem a consciencia

do Universo? E agora vens tu, homem, e queres emmudecel-as com as tuas

leis, as tuas theorias, os teus sonhos...

O momento é unico: vae perder-se ámanhã. Seculos de canseira para terem

n'um minuto a consciencia do universo; seculos de sonho tremeluzindo no

fundo da obscuridade, para não virem afinal á luz, seculos de amargura,

de esforços, de tentativas abortadas--para não chegares afinal a viver.

É como ir a uma arvore e arrancar-lhe toda a flor...

Mas olha: tudo é feliz em torno de ti, porque tudo cumpre o seu destino.

Cumpre tu o teu. Tudo é harmonico, porque vive da verdadeira vida: as

plantas crescem sem que as outras lhes imponham regras, os animaes, a

natureza inteira, não têem remorsos nem duvidas. Nem tu as terás, se

viveres da tua verdadeira vida e não de outra.

A tua educação deve consistir n'isto: em fazer falar o universo que

trazes comtigo, com a sua voz. Arreda, mata, calca tudo o que te

contrariar n'isto. Sabes acaso d'aqui a quantos seculos, tornarás a ter

consciencia? E que forças perdidas, que luctas não vão ser

necessarias?... Quantos gritos!...

* * * * *

Gosa tudo: a desgraça, a fome, a terra, o sol, o riso, porque nunca

voltarás a sentir senão n'uma infinidade de seculos. Impregna-te de

vida, do teu largo quinhão de vida, para que ás portas do Nada possas

dizer:--Vivi!...

* * * * *

Estão em primeiro logar os deveres para comtigo, do que os deveres para

com os outros.

* * * * *

Deves amar os rios, porque já foste rio; os montes porque andaste nas

suas entranhas; a nuvem tua irmã; a arvore onde correste em seiva--e o

homem porque és o homem.

* * * * *

Se te não deixam ser o que deves ser--resiste.

Mais vale morrer do que não luctar. Morrendo, triumpharás porque

cumpriste o teu destino.

* * * * *

Tu és feito de humus, tu és feito de terra. Se ella te deu bocca para

que foi? Para que falasses. Com que fim cria tantas boccas? Para que ao

fim de mil tentativas se digam as palavras necessarias... N'esse dia

tudo terá voz. Na verdade não haverá fonte, arvore, bicho por mais

esquecido, pedra por mais ignorada, que não tenha voz e não faça a sua

confissão.

* * * * *

A educação moderna, ao contrario, tende para isto: para que todos falem

no universo da mesma fórma.

* * * * *

Nasce comnosco o destino. Não o cumprir, seja qual fôr, é ser

desgraçado.

* * * * *

Cada creatura que nasceu hontem ha quantos seculos anda a ser gerada?

Sabeil-o?...

* * * * *

Não contrariem a vida. Nós somos uma torrente, que Deus creou para um

fim... Assim nascerão creaturas que incarnarão o Mal, dirás... Pois que

o mal tenha tambem a sua bocca e que fale sem gaguejar.

* * * * *

Se a natureza cria monstros, é que elles são necessarios, como certas

pustulas que purificam.

* * * * *

Nunca os tigres afinal venceram.

* * * * *

E de que te serve andares mascarado?...

* * * * *

O homem tem em si particulas de tudo o que no universo existe: metaes,

pedras, etc. É um universo reduzido. Conforme n'elle predominam

determinadas moleculas, assim odeia ou ama.

Quando é que a chimica será tão grande, que possa fazer esta analyse?...

* * * * *

Ha pessoas que nunca nos fizeram mal e a quem odiamos. Nunca? quem

sabe?... Se ha um infinito que tu vives, se tu exististe sempre e és

eterno.

* * * * *

O que é a piedade sincera, abaladora, interior? Uma reminiscencia.

* * * * *

Fujamos da terra, dizem-te. Não, bem preso a terra, a terra subtilizada

que tu és, a terra tua mãe. Essencia da terra, trabalho insano do seu

ventre durante seculos e seculos, homem não a renegues! Ama-a, ama a

vida. Tu és talvez o sonho da terra. Ella poz em ti toda a sua emoção,

toda a sua maternidade, toda a sua dor e tambem tudo que tinha de

immaterial: deu-te o sonho. Sê bom, se ella t'o ordena, sê máu se ella o

quer.

* * * * *

Ha dias em que a gente se sente responsavel por todo o mal que se faz na

terra.

* * * * *

No mundo correm e entrechocam-se grandes rios de moleculas--que são rios

de odio, outros que são rios d'amor, outros que são a amargura, o riso,

o sonho...

X

HISTORIA DO GEBO

Elle ahi vae, aos tropeções, amachucado e ridiculo.

Tambem a dor torna picaro e as lagrimas no seu carão espantado só nos

fazem rir. Empurra-o a Vida, atira-o, estatéla-o no lagedo, afflicto,

sem mão que o ampare--e de cabellos brancos estacados. Gritam-lhe:

--Ó Gebo! ó Gebo!...

Não ha que ter piedade dos fracos. A propria natureza os repelle do seu

seio.

* * * * *

Faltava-lhes tudo, tudo se esfarrapava no seu lar. Dormiam em enxergas

no chão, n'essas noites de frio inverno. O que mais lhe custava era vêr

a filha horas e horas a scismar. Em quê?... O Gebo ao pensar na sorte de

Sofia cuidava que lhe torciam o coração. Por ella é que se batia ainda

com o destino. E quasi não tinha pão para lhe dar!

A mulher clamava:

--Mas trabalha! tu não trabalhas!... Tu o que és és um mandrião. Olha os

outros como furam, como sobem... Tu és um estupido! Na vida é preciso

ter-se muita finura. Quem é assim não se casa!

--Ó mulher, a gente quando cahe nunca mais se levanta.

E afinal cahira para sempre, sem energia e sem forças, prostrado. A sua

vontade seria deitar-se e nunca mais acordar. Corrêra tudo, batêra a

todas as portas e assim se affizera á humilhação e á esmola; a ser mal

recebido, a ouvir respostadas que ferem e despedidas bruscas. Os amigos,

que a principio lhe davam para o rebaixar, falavam-lhe agora com pedras

na mão:

--Volte depois! É demais! Isto sempre não pode ser, você abusa!

As suas melhores horas eram as do somno, profundo, de pôço, em que ao

deitar mergulhava logo. Esses pedaços de vida, furtados á desgraça, em

que se não pensa, sem sonhos, d'um profundo anniquilamento, eram o unico

goso do Gebo. E tanto mais a desgraça o abalava, tanto maiores eram os

seus cuidados, mais absoluto o seu somno. Ao contrario da mulher, que

quasi não dormia e levava a noite inteira a scismar e a chorar, elle,

logo cahido na cama, logo tombava como morto. Ás vezes a mulher nem

descançar o deixava; queria falar, discutir, ouvil-o...

--Dormes como um porco! Fala, escuta-me!

E o Gebo, a pingar de somno, lá se punha a dizer palavras, coisas

desnorteadas, até que ella enfurecida exclamava:

--Dorme! Fica-te para ahi!...

Mas tinha de acordar e a caça aos magros cinco tostões, que todos os

dias precisava de juntar, começára a ser desorientada e feroz. Viam-n'o

correr, espreitar um conhecido d'outr'ora, seguil-o, dizer-lhe a sua

afflicção em palavras rôtas, e depois muito baixinho pedir. Ficava horas

á porta d'uma loja, esse velho tropego, com o casaco no fio remendado

pela filha, á espera que um conhecido passasse. Ás vezes consummiam-se

os dias e elle sem dinheiro para pão--porque os corações são de pedra.

Rondava n'um desespero pelas ruas. Não encontraria acaso alguem que lhe

valesse? Despediam-n'o, e elle fazia-se mais humilde, sem odios,

pedinchão e sempre a suar. Já não tinha que pôr no prego e muitas vezes

se lembrava da morte.

Oppresso o coração, voltava, lá ia á espreita, n'um desespero sem fim.

Ao chegar a casa, suffocado, pesado, a mulher que o esperava n'um

transe, perguntava ao avistal-o:

--E então? então?

--Cá está, mulher! cá está!

Ó descançar, dormir na terra bem pesada, bem funda, para sempre fugir

áquella fadiga de lagrimas, esquecer as humilhações, as horas amargas

passadas atraz dos que outr'ora servira! ficar no derradeiro somno, de

que nunca mais se acorda nem para a desgraça, nem para o escarneo!...

Que mal fizera elle a Deus e aos outros, para assim ser castigado sem

tregoas, com a fome e o frio e a sua filha desgraçada? E nem na propria

casa o Gebo descansava. Eram infindaveis os ralhos e os gritos. Só

Sofia, linda e triste, pela sua resignação lhe dava animo. Se não fosse

ella, seria tão bom morrer!... Os seus amigos estavam ricos e seccos

como as fragas. Alguns nem sequer o viam: riam-se outros d'elle e não

lhe davam esmola. E mais fundo, mais fundo, assim se atascava na

desgraça, gordo e picaro, atarantado e pedinchão, com uma unica idéa ao

acordar: arranjar cinco tostões, para as mulheres comerem.

Já cossados e gastos, todos os dias diziam as mesmas palavras e passavam

pelas mesmas afflicções. Transidos pelo frio interior, o verdadeiro

frio, que só a miseria dá, encostados uns aos outros, raro se aqueciam

ainda com um sonho vão. Fixavam o olhar, perdidos, absorvidos pela

realidade, e a Desgraça alli presente parecia rir-se. Gastavam as

ultimas roupas, faltavam já trapos usados e elle de cada vez mais gordo

e mais molle. Se acontecia rirem-se por futilidades, todos tres juntos,

aquelle riso fazia mais afflicção do que as proprias lagrimas. Muitas

noites não se accendia o lume e por fim todos tres dormiam n'uma unica

enxerga.

A ultima coisa vendida e que lhes custára as derradeiras lagrimas

d'olhos ardidos, fôra a pequena casa e o quintal, que de paes para

filhos até elles viera. Succumbiram ao terem de deixar para sempre as

arvores, que tinham plantado por suas mãos, a horta, o fio de agua da

bica, as fructeiras antigas, a que queriam como pessoas. Tudo fôra

levado, como uma parte do seu sêr, que lhes lembrava os dias de

felicidade, sol que ainda aquecia e que não tornaria a luzir.

A mulher já não ralhava: tombára, com o olhar desorientado e os dias

gastos em monologos desconnexos. E elle ficára, amolgado pelos

encontrões, gordo e ridiculo.

--Ó Gebo!

--Anh? anh?...

XI

LUIZA E O MORTO

O ladrão escondia-se. Perseguiam-n'o, fugira, andára e n'essa noite, com

um pedaço de pão metido entre o seio e a camisa rota, fôra dar ao caes.

O céu estava negro e o rio negro corria como lava. A agua á noite

assusta: fala, attrahe, e a sua frialdade tem qualquer coisa de cóva. O

rumor das aguas lembra um ruido de vozes a concertar baixinho coisas

presagas.

Estava uma noite de silencio humido e abafado. Brilhava uma luzinha ao

largo e ouvia-se a ressaca subir nas pedras, entrar nas cavidades poídas

do caes. E era no ermo o unico ruido, aquella respiração estrangulada,

apressada, um marulhar humano e tragico na noite funda, silenciosa e

opaca.

O Morto aconchegou ao seio o pedaço de pão--o seu jantar--e teve um ah!

de allivio. Alli ninguem o procuraria, era como se estivesse sepultado

no fundo do rio. Havia quasi dois dias que não comia e ia emfim dar a

primeira dentada no pedaço de pão. Tinha os joelhos doridos e sentia uma

lassidão enorme. Ao sentar-se topou n'um corpo cahido, abandonado. N'um

sobresalto, de pé, com o pão a que ia dar uma dentada na mão, perguntou:

--Quem está ahi?

Ninguem: a noite negra e o ruido de ressaca minando as pedras.

--Ouh!

As suas mãos ao tactear deram com uma rapariguinha inerte. A saia estava

encharcada e frios os pés.

--Estará morta.

E socegado tornou a sentar-se para comer o pão. Mas sentiu-a mexer-se.

--Outra desgraçada...--scismou--Quem está ahi?

E, sahindo da treva, uma voz de creança, começou:

--Sou eu.

--Tu quem és?

--Não sou ninguem.

--Que estás aqui a fazer?

--Não estou a fazer nada.

--Tu que queres, então?

--Vim deitar-me ao rio.

--Ah!...

--Mas tive medo. A agua do rio sempre é mais fria do que a morte.

A treva espessa em torno e o mesmo ruido da ressaca a prégar. As nuvens

baixas envolviam-nos n'um fluido negro, ambos tragados pelo deserto da

noite. Não se viam e aquellas duas vozes, uma infantil e baixinha, a

outra rouca, eram como o dialogo de duas forças ignotas, que o acaso

rola no mesmo turbilhão do infinito. Perguntou-lhe o Morto:

--Como te chamas?

--Chamo-me Luiza.

--Quem te fez mal?

--Ninguem. Estou gravida.

--Ah!...

--Estou gravida. Eu não sabia nada. Estou gravida, acabou-se. Porque é

que não ensinam á gente que todos nos querem fazer mal? Uma pesssoa

devia aprender.

--O quê?

--A ser desgraçada. Ha dois dias que não como. Tenho andado por ahi.

Botaram-me fóra, empurraram-me e eu ando por ahi a chorar.

--Vae p'ra a tua casa.

--Eu sou do Asylo, não tenho ninguem, nem mãe, nem nada.

--Enganaram-te?

--A mim não, ninguem me enganou. Eu não sabia nada. Quando vim do Asylo

não sabia nada. Um dia appareci gravida e pozeram-me fóra. Ninguem me

quer assim. Quando a gente está gravida que ha-de fazer? A gente não tem

culpa...

--Não fizesses o filho.

--Eu era uma innocente.

--Ah!...

--Não sabia nada, juro-lhe pela minha salvação.

--E então?

--Deitaram-me fóra do Asylo e fui servir. O patrão foi quem me logrou.

É sempre o mesmo caso banal e tragico. Se o homem encontra uma pobre

creatura desprotegida e ao desamparo, illude-a e explora-a. Sahida do

Asylo com uma trouxa debaixo do braço e o discurso do senhor provedor,

foi servir. Logo que o patrão viu aquella rapariguinha ao abandono na

terra, poz-se a falar-lhe baixo, ás escondidas.

--Era como se me pizassem o coração...

Ella ouvia e depois com um sorriso triste, em que mostrava os dentes

agudos d'esfaimada, ficava muitas horas scismatica e a falar sósinha.

Abandonava-lhe o pobre corpo macerado, cheirando a enfermaria, já vindo

á terra com este destino amargo--ser explorada. Elle deixou-a logo e

ella continuou a servil-os, com o mesmo sorriso, mais descórada e

triste. Um dia acordou gravida e a patrôa pôl-a na rua. Remexeu-lhe a

trouxa e gritou:

--O que tu merecias era ir para a policia.

Com um filho na barriga e a trouxa debaixo do braço poz-se a andar pelas

portas, despedida das casas logo que lhe viam o ventre, até que foi dar

ao rio, com fome e inteiriçada pelo frio.

Callou-se. Só se ouvia o chapinhar da maré. Só o rio prégava. Tu, rio,

que carreias nas tuas aguas, para assim falares toda a noite? Levas

lagrimas comtigo, raizes, cadaveres: moeste pão, encharcaste terras,

humedeceste troncos: e entre salgueiros, espelhando a lua, prateado,

foste romantico e triste. Depois banhaste a pedra das cidades, o ferro,

e a tua voz tornou-se presaga. Levas lagrimas salgadas ao seu destino,

tudo levas, ais, confissões, restos, para o profundo mar. Que dizes,

rio? que prégas? Contas a tua vida incessante? Ir ao oceano largo, a

fundos redemoinhos para feito nuvem depois viajares, ora negra, ora

d'oiro no poente, trespassada de sol, aquecida e vivificada, cahindo por

fim em chuva para matar a sede das terras, e voltares ao seio do

planeta, rompendo de novo em fonte, que acarreta outras lagrimas, outros

sonhos e raizes na mesma condemnação eterna e n'um trabalho insano? É

isto? É para moeres pão negro, passares por troncos conhecidos sempre

rio, mar profundo ou nuvem?...

Uma luzinha, que brilhava ao largo, deixando na agua um fio d'oiro

tremulo, de todo se sumira. Então o Morto no silencio e no negrume,

começou:

--Tu que imaginas que é isto?

--Isto quê, senhor?

--A vida. Todos querem mas é enganar. Os ricos fazem mal aos pobres; os

pobres roubam os ricos. Todos querem fazer chorar os mais.

--Todos?

--Todos. Eu mesmo posso-te agora matar, posso-te fazer o mal que quizer.

Não grites que é peor. Ninguem te acode.

--Eu não grito.

--A tua mãe botou te fóra, para não te crear, o teu patrão enganou-te.

Tu que imaginas? E que podias fazer senão deixal-o enganar-te? Que

has-de fazer? Hão-de enganar-te sempre e só te não desamparará...

--Quem? perguntou anciosa.

--A fome. Has-de andar por ahi até cahires de velha, aos pontapés e ás

voltas com a desgraça. A desgraça é que póde tudo, ninguem no mundo tem

mais força. Se tiveres fome, hão-de-se rir de ti e dar-te terra a comer.

--Ó senhor! ó senhor! Mas então para que me crearam no Asylo? Era melhor

terem-me deixado morrer. Eu não faço mal a ninguem. Que hei-de fazer?

Tenho esta camisa que trago no corpo. Uma saia empenhei-a. Ha dois dias

que não como.

--Mata-te. Para que vieste tu ao rio?

--Para me afogar... Mas tenho um medo á agua!... Quando metti os pés no

rio tão negro, fugi... Ó minha mãesinha!...

E tombou para o lado.

O Morto deitou-lhe as mãos. Estava encharcada, todo o pobre corpo, ainda

por crear, enregelado e transido.

--Tu que tens?

--Nada. Fome.

--Toma lá o meu pão.

E o ladrão deu-lhe todo o pão que trazia.

XII

PHILOSOPHIA DO GABIRU

Em todo o caso se a immortalidade existe deve ser bem differente de tudo

o que se tem sonhado.

* * * * *

Ser despedaçado, opprimido, calcado, torna quasi sempre o homem grande,

porque abala e acorda vozes adormecidas.

* * * * *

Comprehendo o materialista sincero, o idealista sincero. Num predomina a

nuvem, no outro a terra. Tudo o que é verdadeiro, arraigado e fundo, é

bello--até o crime.

* * * * *

Não importa saber donde nasceu a idêa da immortalidade, o que importa é

saber se a immortalidade existe. Todos a sentem até os mais

materialistas, todos sabem que ella brilha no fundo do nosso sêr.

Podem-na abalar, abafar, com theorias, palavras, explicações mesquinhas,

o que não podem é arrancal-a. É como certas arvores que, deitadas

abaixo, deixam sempre profundas e inabalaveis raizes no solo. Para as

extinguir seria necessario tornar esteril a terra.

Cada homem tral-a comsigo como uma certeza ou como uma aspiração... Ella

remexe sob todas as cinzas.

Mas que immortalidade?

* * * * *

Tomo tudo a serio, até as coisas sem importancia--outra razão para ser

desgraçado.

* * * * *

E quando é que eu cumpro o meu destino?--dirás. Interroga-te.

* * * * *

Se as arvores não fossem necessarias, existiriam arvores? Se os

criminosos não fossem necessarios existiriam por ventura criminosos?

* * * * *

A educação que nos dão o melhor que ha a fazer é esquecel-a. E

esquece-se porque ella nada tem com a vida, é uma coisa á parte. A que

adquirimos á custa de nervos, de sangue, de suor, a que se aprende na

peleja, essa acompanha-nos até ao tumulo. É a verdadeira.

* * * * *

O homem procura sempre uma philosophia onde caiba o seu temperamento, os

seus erros--e até os seus crimes. Se não existe, inventa-a.

* * * * *

Acho que, ao contrario do que se diz, não sou amigo de ninguem senão nos

primeiros tempos. A principio os angulos não apparecem ou disfarçam-se.

Depois começamos a ser duros.

Creio que só ha amigos até aos vinte annos, quando ainda se não pensa na

vida. Depois endurece-se. Raros são os homens que atravez da vida a

serio e dos interesses conservam ainda amigos.

Para ficarmos amigos tenho ou de me submetter ou de te submetter.

* * * * *

Não, a morte não destroe a essencia da vida, mas desorganizando uma

forma destroe a consciencia d'essa forma, que é formada de milhares de

consciencias...

A acção do que se chama espirito sobre a minha materia produz o meu

_eu_, com os seus erros, sonhos, desesperos, odios. A mesma força tira

harmonias differentes d'uma harpa ou d'um orgão. O que resta, pois? A

essencia da vida?

* * * * *

A predominancia de certas moleculas produz o sonhador; a predominancia

de outras o heroe, etc... Eis a futura chimica.

* * * * *

Não se trata de ser feliz ou desgraçado mas de se cumprir o destino para

que se nasceu.

* * * * *

Os Pobres Precedido de uma Carta-Prefacio de Guerra Junqueiro · 第 4 / 10 段