arrancando-lhe os ultimos trapos, disputando-os um a um até vel-os
desfeitos. Ao fim do dia ouviam-se os passos vagarosos do velho nas
escadas e a sua respiração--anh! anh!--suffocada.
--Ahi vem elle...--murmurava a mulher.
O Gebo entrava e ella logo, soffrega, morta por desabafar o que todo o
dia ruminára:
--Até que vieste, homem! E então? Conta. Então ha alguma esperança?
--Não ha nada, mulher.
E sentava-se arrazado.
--Tambem ninguem faz caso de ti. Que és tu? Sabes o que tu és?
--Eu não, o quê?
--Um ente inutil. Não ha ninguem que se não ria de ti, das tuas
desgraças, das tolices que tens feito... Que é do dinheiro que tanto nos
custou a poupar?
--Eu sei lá agora do dinheiro. Não falemos mais n'isso... O que lá vae,
lá vae.
--Pois é o que tu queres... Mas hei de falar, has-de-me ouvir. Déste
cabo de tudo, davas dinheiro a toda a gente... Tinhas-me a mim, tinhas a
pequena. Reparasses, era a tua obrigação.
--Ó mulher, ora tu que todos os dias vens com a mesma sécca. Não me
basta a minha afflicção!... De que serve isso agora?
--De que serve? Serve de muito!
Á noite, á luz do petroleo, o Gebo fazia escriptas com um cobertor pelos
hombros e as mãos geladas de frio. A filha, sumida na sombra,
compunha-lhe a roupa, e a mulher ralhava, passeando na sala. Batia a luz
do candieiro na cara oleosa do Gebo, no nariz enorme, nos seus olhos
tristes, e, do outro lado da meza, só se viam illuminadas as mãos de
Sofia, toda a noite trabalhando sem ruido e sem descanço.
--Já tive uma lettra tão linda e agora... Os desgostos cansam a gente.
--É de ti! é de ti! Outros têem penas, desgostos, cahem e tornam a
levantar-se...--dizia-lhe a mulher.
--Têem sorte, é o que é. Para tudo é preciso sorte.--E curvado sobre os
livros contando, murmurava mais baixo:--E vão sete--...
--Sorte! sorte! A culpa é tua que não tens energia nenhuma. Procura!
Deixas-te ficar espapaçado p'ra ahi... Tu o que queres é comer e dormir.
--Ó mulher!...--E erguia o carão afflicto, onde batia a claridade de
chapa. Viam-se-lhe os olhos aguados.--Ó mulher, a gente tambem perde as
forças... Sempre a desgraça! sempre a desgraça!...
--Tudo nos corre torto!
--Mas...
--Tudo! Deixa-me!...
E desatava a chorar. Então o Gebo, afflicto, a mão curta e gorda
ronronando no papel, mentia para lhe dar animo.
--Qualquer dia entro ahi n'um negocio, tu verás... Não te afflijas.--E
vão cinco...--Tambem ha-de chegar o nosso S. Miguel. A desgraça ha-de-se
cansar de nos perseguir.
E o pão que trazia para casa era quasi uma esmola. Mas tanto mentia, que
chegava elle proprio a illudir-se.
A velha reanimava-se. E outra vez passeava na sala, embrulhada no chale
rapado.
--Não, que é preciso sahirmos d'este atoleiro.
--Agora vae, agora vae, tu verás. Ando ahi com um negocio... Sabes tu
que mais?... Deixa-me trabalhar.
Ia a mãe deitar-se e Sofia, até ahi silenciosa, dizia erguendo-se:
--Pae não se afflija.
--Eu não, filha, eu não. Aquillo é genio, coitada. Ella tem razão, tem
soffrido muito. Vae tu tambem p'ra cama. Dá cá um beijo... Assim. Eu cá
fico com a escripta.
--Muito boa noite.
Sósinho o Gebo scismava muito tempo, olhando a luz. Depois, horas e
horas, ouvia-se a penna correr do papel, parar, tornar...--E vão cinco,
e vão sete... noves fóra nada...--até que a vista se lhe toldava, e a
deshoras, embrulhado no cobertor, tombava sobre a meza, soluçando:
--Não posso! não posso mais! E tinha uma lettra tão linda!...
* * * * *
Na propria desgraça cahem por vezes resquicios de sol. Assim houve tempo
em que respiraram. Tinham-lhe dado escriptas, mas ia-lhe faltando a luz
dos olhos, e a vida d'expedientes tornára-se mais aziaga. Achavam-no
ridiculo, ninguem o tomava a serio, a esse homem gordo e chorão, que
vivia com esta pedra a gastal-o--a sorte da filha. Escondido da mulher
empenhára a casinha onde moravam, e passava as noites trabalhando nos
livros.
Quasi sempre ao deitar falavam da filha.
--É o que nos vale a nossa filhinha.
--Sempre nos dá mais animo.
--É tão boa, tão nossa amiga!...
A velha trabalhava, ruminava projectos desconnexos para enriquecerem; a
roupa andava defendida e cuidada até ás ultimas. Luziam as coisas e
quasi não comiam para poupar, sobretudo ella que tudo guardava para o
Gebo e para a filha.
--Ó homem, mas então? Toda a gente, se arranja e tu estás sempre na cepa
torta!
--Deixa estar, mulher! As coisas não vão como tu pensas.
--Ora não vão! não vão!...
Era ella afinal que o empurrava, áquelle ser gordo e inutil.
Fortalecia-o.
--Por vossa causa é que eu lucto,--dizia elle sempre.
Ás vezes visitava-os uma parenta afastada, a tia Anninhas e as duas
mulheres punham-se a falar das pessoas conhecidas. Ha creaturas que só
apparecem quando a desgraça entra n'uma casa. Era uma velha, de chale
preto sem pello, e que vivia de aproveitar os restos da miseria. Trazia
novidades e com que alegria a mulher do Gebo, ao ouvir-lhe dizer, que
pessoas suas conhecidas tambem eram infelizes, tinha pena dos que
soffriam como ella!
--Ó Anninhas ouvi dizer que a Desideria está por baixo, coitada!...
--Tem tudo empenhado, filha. Passa muita fome.
E ella n'uma ancia:
--Fome? passa fome? Coitada!
--Mesmo fome, filha.
--Que me dizes?
--É isto que te digo. E tu como vaes com a tua vida?
--Agora, graças a Deus, vamos indo. As coisas vão-se remediando.
Entretanto o Gebo ia para uma loja conhecida onde se juntavam os
negociantes fallidos, os professores sem discipulos, os burguezes
desesperados por terem perdido tudo. Falavam muito, procuravam
illudir-se. Enganavam-se uns aos outros, não por mentirem, mas para
tornarem mais visivel a sua aspiração, o sonho que traziam escondido.
Discutiam imaginarias emprezas, negocios impossiveis.
--Oh como eu sou feliz!...--dizia o Gebo--Agora tenho ahi um logar...
Nem sequer o escutavam e, se um sahia, diziam os outros:
--Cuido que está cada vez peor.
--Um homem que teve um credito na praça!
--Tem a fome á porta.
--Coitado! Eu agora é que trago entre mãos um negocio...
Porque é que elles não trabalham? Porque a quebra, as afflicções, a
ruina, tolheram-nos para sempre. Perderam a energia e só sonham em se
tornar ricos. Vivem illudidos e tombam no sepulchro gastos e com a
scisma em maravilhosos lucros. E não têm porventura razão? Não vão
amanhã quinhoar d'essa larga e mysteriosa empreza--a Morte?
VI
PHILOSOPHIA DO GABIRU[1]
E que tu acreditas na immortalidade da alma? Bem fundo, bem arreigado?
Tenho horas em que creio: é uma esperança, um raio de luz entrando n'um
tumulo vasio pela juncta abalada d'uma pedra. Porque crêr? porque não
crêr? Theorias, palavras... No intimo, porém, sou materialista como toda
a gente. Dormir na terra funda e gorda é bom--dormir para sempre. Ir ser
arvore, luz, detricto, correr nas veias da terra, é quasi
consolador--excellente somno sem sonhos, depois da lide canceirosa d'um
dia.
Na primavera quasi sempre sou materialista, no inverno idealista e com a
mesma sinceridade, quasi com ferocidade.
* * * * *
Ser só, sem amigos, sem apertos de mão, sem conhecidos, ser só e livre,
que sonho!...
Ser só por cobardia, para não ter este aguilhão da vaidade a
espicaçar-me:--Então tu não fazes, e este, aquelle, o diabo,
fizeram!--Ser só para sonhar e para vêr este espectaculo unico---a
natureza; para passar os meus dias vendo as transformações d'uma
d'aquellas arvores que d'aqui contemplo!...
Quando me fecho e estou só, sou tão differente!... Como o homem é
desconhecido até de si proprio, porque o tempo passa, vem a morte e elle
não esteve sósinho! Se estou só vêm falar-me _vozes_--eu mesmo--mas com
que palavras unicas! Os sêres de que sou composto, se me habituo á
solidão, nos primeiros tempos balbuciam, mas depois falam! pregam!...
* * * * *
Tenho a certeza de que fui arvore e é por isso que tanto as amo.
* * * * *
Ha livros que falam baixinho, ha livros que falam alto. Uns têem por si
o encanto, outras a força. Ás vezes as palavras murmuradas impressionam
mais: passado tempo ainda ellas acordam em nós fibras adormecidas.
Porque é que a agua, até o mais humilde charco, attrahe e faz sonhar os
homens de imaginação?
* * * * *
Quanto mais desprezo o homem, mais amo a natureza. Ella é inalteravel.
* * * * *
O homem prende-se com muitas coisas inuteis: a riqueza, a ambição,
interesses mesquinhos: vive emaranhado n'uma teia. De forma que não tem
tempo de vêr, nem de ouvir, nem de se conhecer. Quantas creaturas,
existem que nunca olharam para o céo? A natureza, arvores, montes, rios,
esse pelago que vejo do meu quarto deixa-os indifferentes; as horas de
preguiça e sonho deixam-os indifferentes. Nunca tiveram tempo para amar
as coisas simples e grandes da vida. O que é eterno não no viveram. Por
mim antes quero comer pão e scismar, deixar correr as minhas idéas como
um regato corre--até onde tem agua. Alguns morrem sem terem reparado que
existiram.
É por isso que eu corto sempre com tudo que me não deixa sonhar--e que
quando encontro razões para acabar com um amigo tenho um suspiro
d'allivio. É uma amarra de menos.
* * * * *
Habituar-se a gente a viver com idéas simples é como habituar-se a andar
com fatos velhos e rotos. Indigna os outros. De forma que tem de se
viver arredado.
* * * * *
A morte aterra-me pouco. Porquê? Porque só penso na morte como n'uma
divida distante. Fica para muito longe ainda.
Ha horas, porem, á noite, de subito, em que, sem ligação, essa idéa
rapidamente me toma e abala até ás mais reconditas fibras. Suffoco então
aterrado.
* * * * *
Com que facilidade se matam até os entes mais queridos!... Quantas vezes
me surprehendo a assassinar eu a desejar a morte--é a mesma coisa, com
este acrescimo, a cobardia--de pessoas que soffreram por mim! Por a
menor causa, por o mais leve transtorno, o primeiro pensamento é este:
--Se elle morresse...
É claro que protestas logo. Protesta o teu coração, a tua educação, os
teus habitos e até a tua hypocrisia. Mas se deixares trabalhar a
imaginação á vontade, sem peias, é uma hecatombe--por futilidades.
VII
PRIMAVERA
O Gabiru sentiu-se aquecido, como a terra quando vem a primavera. Ia
crear! ia crear!... Aquelle chão que só o arado do sonho lavrára, eil-o
atravessado por este veio turvo, que tudo remexe e transforma--a Vida.
Consumira-o o sonho, tornando-o cambado e gasto, esguio e d'olhos
perdidos de scisma...
Acordára emfim para a realidade e elle, que tinha passado a vida a
revolver um brazido d'idéas, longe da terra e do seu lodo, amou a Mouca,
raza como o chão. Todos se riam d'ella, magra e pallida, de pacho n'um
olho, com um ar de mascara que vae gritar d'afflicção.
O seu ideal prendera-lhe os olhos tal'qual nol-os prende o lume, de
fórma que ao erguel-os, déra de cara com a vida e perguntára: Que é
isto? o mundo, a tempestade, tudo o que do cubiculo vejo, arfando ao
sol, penetrado de ruidos e de sombras? Arvores acenando-me com os
braços, vozes d'aguas fartando as terras imbebidas? Isto?... Tudo é luz,
é uma chamma? E como tudo é bello!
Vêr ao pé arvores e montes, a esse esguio philosopho habituado a
conviver com velhos cartapacios, parecia-lhe tão irrealisavel como subir
ás estrellas. Nos alfarrabios fala-se de tudo menos da vida. Por isso
acordando espantado, interrogava as ondas luminosas, os rios correndo, o
extraordinario mar: «Vós que me quereis?» E no alto da mansarda sorria
para a terra, pencudo e triste, esguio como um enterro.
--Porque a amas tu, philosopho?
--Sei lá! Amo-a. Dá-me vontade de chorar ao vel a. Amo os seus olhos
tristes, o seu feitio do cão espancado. Amo-a, porque qualquer outra me
desprezaria, envelhecido a sonhar. Ella é parecida commigo, talvez tenha
pena de mim.
Todos somos constructores. De terra e de emoção andamos pelo mundo a
amassar estatuas; de realidade e de sonho architectamos as figuras que
se misturam na nossa vida. Ellas existem mais pelo que lhes damos de nós
mesmos, do que pelo que na realidade são. De saudade, de sonho, de lodo
e piedade, construira uma figurinha offendida e triste, andando no mundo
aos tombos, sem pão e sem abrigo. A elle que passára a vida inteira a
atear um brazido, cabia-lhe em sorte a Mouca, escarneo de ladrões e de
soldados.
A casa das mulheres de dia é funebre, mas de noite, á luz do petroleo
que esvoaça e deixa tudo n'uma meia tinta d'afflicção--candieiros
partidos, luzes fumarentas--lembra um circo de desgraça, onde palhaçadas
tragicas façam gargalhar e onde os ladrões e as mulheres enfarinhadas
representem a serio vicios e crimes, com risos e choros á mistura, para
que o publico que paga se possa rir. Vem um Velho, que sem falar
gargalha toda a noite ao vel-as maltratadas, e o Morto, palido e
soturno, com um laivo na cara. Tem as mãos osseas e enormes sempre frias
e as mulheres temem-no pela sua crueldade, pelo seu sorriso tragico.
Despreza a dor e os gritos. Sente-se que d'elle não ha a esperar
piedade. Só a Mouca se atreve a resistir-lhe. Apparecem outros e toda a
noite, se ouvem insultos, choros, gargalhadas.
Cada um alli arranca a mascara, transforma-se, fica um ser nu: as
feições endurecem, o riso é atroz. O homem tem vontade de ouvir gritos.
Paga, maltrata. É lodo, não ha que ter piedade. E as mulheres cantam
sempre na mesma toada triste e soluçante... Nenhuma fala do passado, com
medo ao escarneo, mas guardam-no para si, sem o esquecerem. A historia é
identica, o eterno humus amassado em lagrimas. Ellas sabem que nasceram
para soffrer e resignam-se: o esgoto é necessario. Tudo na vida se
alimenta de gritos, como as raizes na terra se sustentam d'agua. Enganam
nas e não se queixam. É o Fado. Não têem odio a quem as illudiu; ao
contrario não esquecem esse fio de sonho espesinhado, que ainda sentem
correr na vida, longiquo e triste, quasi a sumir-se de todo. O Fado as
faz nascer e as traga. Triste é sempre a vida--lagrimas, pancadas, pão e
assim as leva a sorte até á cova. Ouvi: esta seiva dolorida fará nascer
um dia alguma mysteriosa Arvore.
São irmãs e unidas, sustentam-se na desgraça. Os amantes moem-nas e
ellas humildam-se, tão triste é não ter ninguem a quem amar. E as
desgraçadas, aquellas que, de confundidas com a lama, se não enxergam,
são as que de todo se sacrificam por elles. Miseras creaturas, a quem se
paga com injurias, quanto mais afundadas na desgraça e mais pobres,
quanto mais perto da enfermaria e da morte, mais se fazem pequeninas
para que as amem. Ficam dias sem pão para que os amantes o tenham. Tiram
a ultima camisa do corpo para lhes dar de comer. As arroladas matam-se
se as desilludirem. Sêres de ignominia só amam idealmente. Assim será o
amor das hervas, dos sapos, das nascentes, de tudo o que na natureza é
pequenino ou disforme. O Sonho para o esgoto é a unica realidade.
* * * * *
A casa é tragica, de tectos negros, sumidouros, corredores onde toda a
noite agonisa uma luz de petroleo.
Ha mulheres tisicas, com tosse e a taboa do peito raza; ha-as que
insultam quem entra para serem espancadas. A filha, do Gebo, Sofia, é
alta, curva, cansada, e tão cheia de resignação que parece morta; outra,
Luiza, a quem chamam a Asylada, quasi não fala. Olha soturna, com os
negros cabellos violentos todos soltos e a physionomia empedrada de
magoa.
Ao fundo divide a casa um corredor com cubiculos. Ás vezes, altas horas,
tudo sereno, ouve-se na escuridão um ruido de choro suffocado.
Fóra vê se o Hospital e a rua negra, onde o enxurro humano sem cessar
carreia detrictos, lagrimas, sonho. Especadas ás esquinas creaturas
esperam... Parecem pedaços de noite destacados da propria noite.
Fazem-lhe nicho as arcarias e arrancaram á treva para se embrulharem um
farrapo do seu manto. Ás vezes da escuridão sae um perfil, mãos que
querem arrepellar, mas logo tudo se some entre roupagens, que têm a
rigidez tragica das estatuas. Só a mão, que o lampião illumina, fica
decepada. Por vezes toda a figura baça e amolgada surge, para logo se
anniquilar. A lama faz-lhe pedestal, passa o enxurro, e ellas nem se
mexem, petreas: se choram são a Dor. Algumas, de viverem d'um passado de
fogo, parecem mirradas, outras procuram mingoar, extinguir-se, não
occupar logar na terra. E entretanto as mulheres vão cantando na mesma
toada de catastrophe, que a noite traga, como farrapos de sonho
espesinhado...
* * * * *
Todas as noites o Gabiru lá vae sentar-se a um canto a scismar. Olha a
Mouca sem palavra e sonha. Conhecem-no os ladrões e os soldados e ellas
vendo-o entrar, esgrouviado e triste exclamam:
--Lá vem o enguiço!
A Mouca ás risadas diz:
--Cá temos o enguiço!...
Mas em vão! Elle, com as enormes pernas dobradas, alheado, a penca
cahida, sem vêr nem ouvir, pensa n'um amor ideal e monologa baixinho,
entre as mulheres, os ladrões e os soldados:
«O que eu sonho! Eu que sou tão timido, ponho-me a falar e a scismar...
E tanto scismo!... Troco tudo. Como é que tu gostas de mim, que nem te
sei sorrir?
Ando a inventar uma lingua nova, que seja como a das fontes e a das
arvores, quando desponta março, para te exprimir o que sinto. Todas as
palavras me parecem mirradas e servidas.
Olha, dize-me: chamas-te Maria, não é?»
E entretanto os ladrões e as mulheres conversam:
--«Tu não te callarás, estupor!»
E uma tisica, magra, só com a pelle e o osso, explica:
--Uma mulher da vida... Que estão vocês a dizer das mulheres da vida? Eu
inda queria vêr... Quando tu não tens pão quem t'o dá?
E o ladrão responde:
--És tu.
--O pão que eu ganho com o meu corpo com quem o parto?
--Commigo.
Mas outra do outro lado berra:
--A gente aqui é como os cães. Toca a rir, raparigas! Se uma mãe
adivinhasse para o que cria aos seus peitos uma filha!...--E virada para
um que entra:--Olha lá, ó coisa, pozeste-me o corpo negro n'outro dia...
Tu imaginas que uma pessoa é de ferro?
--Abaixo as patas!
Uma mulher pergunta a um velho ladrão calvo, que a um canto só ri, com
uma bocca disforme, escancarada na sombra:
--Tu que eras, ó velho?
Mas elle ri-se com a bocca aberta sahindo do escuro--só bocca--como a
fauce desdentada d'um lobo, e um outro é que responde:
--O velho era lavrador. Olhae-lhe p'ras mãos. Cheira a terra e a pobre.
O philosopho a um canto scisma, olhando a Mouca entretida a falar com os
soldados:
--«Tenho muito que te dizer--tanto!...--e não sei o que te hei-de
dizer!...
Se me perguntam:--Tu que tens?--parece-me que acordo e que me puxam para
a terra.
As arvores levam todo o inverno a sonhar inchadas e um dia acordam
desfeitas em sonho. É o que lhes acontece.
Ora vem ahi março, já rebentaram novas fontes... Maria é um nome tão
lindo!»
Falam aos grupos, n'um borborinho. Andam todas mal vestidas e com frio.
Uma traz meias amarellas e outra, a quem a tosse desconjuncta, anda com
um chale de seda que a não aquece.
--E tu que eras?
--Eu nada. Basta de conversas. Dás-me um beijo?
--Tira-te! A ti um beijo!... Antes queria morrer. Nem morta eras capaz
de me dar um beijo. Com essa cara! Olhae p'ra elle, raparigas... Já
viram alguem rir-se assim?
--Ó minha arrolada!
E deu-lhe um pontapé.
Entretanto duas mais afastadas conversam no escuro:
--N'esse dia tomo uma bebedeira, que ha-de dar que falar.
--Tu?
--Sim.
--A mim minha mãe é que era a capa. Encobria-me.
E ninguem se importa com o Gabiru, que tece, vae tecendo a sua teia,
toda de emoção e de nuvens, encolhido a um canto, absorto, sem vêr nem
ouvir:
--«Não sei bem o que sinto, que nunca me vi assim. Do meu coração sahe
uma bica que rega as coisas mais seccas. E ouço! o que eu ouço!... Ao
luar, lá em cima, ouço as montanhas em dialogo e falarem arvores e
pedras!...»
E a _tisica_, voltada para o ladrão, diz-lhe:
--Que queres mais que te eu dê?
E elle, rindo:
--Ora! dinheiro...
--Nem p'ra pão já o tenho, quanto mais!... Já o não ganho. Quem me quer,
se todos dizem que estou tisica? Estarei...
--Tu arranjas sempre.
--Aonde? os meus trapos estão no prego, este chale é emprestado por
misericordia. O lenço que hontem trazia, vendi-o p'ra pagar á patroa. E
amanhã entro para o Hospital.
Elle lentamente ergue-se para sahir. Quasi á porta murmura:
--Bem sei onde ir buscal-o.
Magra, desconjunctada, a tossir, a _tisica_ exclama:
--Pois vae! vae!... Se outras te dão mais, vae!... Deixa-me!...
--Pois vou...
E logo ella, arrependida, torna:
--Espera. Dei-te tudo. Escuta... Tens sido como quê? como um filho
meu...--E para as outras com um amargo sorriso:--Ó raparigas, quem ha
ahi que me empreste algum dinheiro pelas almas?
Uma abaixa-se. D'entre a meia e o sapato tira uma moeda e a _tisica_,
estendendo a mão:
--Já a não ganho com o meu corpo.
E beija as cruzes ao dinheiro.
--Toma.
Dá-lha e baixinho põe-se a pedir-lhe:
--Antes de eu morrer, promettes que me vaes vêr ao Hospital? Todos dizem
que estou tisica. Não é por nada, mas vae-me custar morrer, sem vêr
ninguem ao pé de mim... Quem hei-de eu vêr? Agora olha como te portas
sósinho, ouviste? Inda te levam para o chelindró. Vocês em se pilhando á
solta, adeus meu amigo!... Entro amanhã de manhã para o Hospital e na
quinta é dia de visita. Não te esqueças de mim, ouviste? A gente
prende-se e depois custa-lhe. Ora! que é que eu faço n'este mundo?....
Tu ha boccado disséste que bem sabias onde ir buscar o dinheiro. Era á
Gorda, pois era? Podes dizer que eu bem sei. 'Stou prompta! Sou um
cangalho, só sirvo de tropeço... Mas olha que fui sempre tua amiga. Já
agora deixa-me acabar, p'ra lhe não dares esse gosto... Só te peço uma
coisa. É que me vás vêr antes de eu ir p'ra a cova. P'ra a terra! Isto
de a gente morrer sem mais nem menos até me parece exquisito... Que
haverá no outro mundo?... Estou prompta. O medico hontem disse:--Estás
prompta!--E atiram assim com a gente p'ra o cemiterio!... Eu ainda
queria que me dissessem o que é que a gente cá vem fazer...
--Sei lá!
--Chorar. Só se fôr... E levar má vida.
Apertando-lhe as mãos, envergonhada:
--Então vê lá se te esqueces de mim.
--Ágora!...
E ella sorrindo com um sorrir triste e piedoso, que lhe illumina a bocca
descorada como um reflexo de sol:
--Ágora! é o que vocês sabem dizer. Os homens são todos o mesmo, falam
todos pela mesma bocca. A gente, coitada, prende-se, mas vem a morte e
tudo leva comsigo.
O Gabiru, desenroscando as pernas, ergue-se e murmura de si para si:
«Que tempo este em que estamos. Parece feito de emoção... E tudo vae
sonhando o seu sonho, que eu bem sei, bem n'o sinto nas arvores, nas
pedras e na terra, até na terra mirrada... E eu tanto te queria dizer!
tanto!... Olha, sempre te chamas Maria?»
VIII
MEMORIAS DE LUIZA
É assim a historia de uma das mulheres:
«Tive sempre frio. Esta impressão de ter os ossos gelados vem de muito
longe, de pequenina.
* * * * *
Nunca tive mãe, nem ninguem. Fecho os olhos e só vejo o Asylo, os
corredores humidos, o dormitorio, o frio refeitorio abobadado de
granito. Toda aquella pedra parecia sepultar-nos.
* * * * *
Tambem guardo de pequenina esta impressão: a vontade que tinha de
beijar, sem ter ninguem a quem dar beijos. Todos os que eu conhecia eram
hirtos.
* * * * *
Vou vêr se me lembro bem... Primeiro é tudo confuso: depois vae-se
espancando a nevoa e eu recordo a triste existencia do Asylo.
Noite ainda nos erguiamos para resar. Tocava um sino. Mal sabiamos
andar, tropegas como velhinhas. A algumas era preciso vestil-as. A Irmã
ralhava se nos demoravamos. Aquelle somno da manhã de que nos arrancavam
era como a cova e o esquecimento. Antes nos deixassem dormir para
sempre. Para que vem a gente ao mundo?
* * * * *
De tantas que conheci quasi todas, mais felizes, morreram por não terem
mãe.
* * * * *
Todas, tão pequeninas, tinham o ar de serem já crescidas. E não sei quê
de amargo, de reflectido, de soffrimento, de experiencia da vida.
Brincavam sem risos pelos cantos, com bichos, com pedrinhas. Uma vez uma
disse alto:
--Ó mamã!...
E foi um escandalo. Onde aprendera ella, que não tinha mãe a pronunciar
aquella palavra?
* * * * *
Quereis crer? Só tenho esta imagem: pareciam velhinhas recolhidas,
tristes por não terem filhos.
* * * * *
E no entanto eu curto saudades d'essa negra existencia do Asylo.
* * * * *
Na cerca havia um curral com vaccas, que nos davam um leite aguado.
D'uma vez uma, já eu era grande, toda a noite gemeu. Por piedade
perguntei ao hortelão o que ella tinha.
--Soidades por lhe levarem o filho.
E ha mães que os deitam fóra!
Muito deve custar a morrer a uma mãe, que deixa no mundo um filho para o
Asylo!
* * * * *