era eu pequenina, e eu, se tivesse uma filha, botava-a á roda p'ra
ganhar a vida. Tomaram conta de mim os ladrões, cresci na rua e a minha
cama eram as pedras dos portaes... Tomaram conta de mim os ladrões.
Vidas! vidas!...
--Tu não te calarás!
--Em pequena andei todo um inverno com uma camisa rôta. Até foi bom,
agora não sinto o frio. Depois moeram-me. Vocês não querem saber?
Calcavam-me aos pés por nada. Aprendi. Muito custa a levar a vida... Aos
treze annos um ladrão desfructou-me. Era um velho careca que parecia um
S. Pedro. Chamavam-lhe o Lesma, vocês hão-de ter ouvido falar. A gente
só aprende á sua custa. Vidas! vidas!... Eu sou feita de terra, da terra
que todo o mundo piza, mas tambem já tenho calcado. Elle ha desgraças
peores, eu sei que ha. Já vi gente morrer por não ter uma codea p'ra a
bocca. Olhae que eu conheço a desgraça. Tenho-a encarado... Faz mal quem
se abaixa... Um dia a gente põe-se a gostar d'um homem e inda é peor.
Que se lhe hade fazer? Todas temos de nos sujeitar, todas somos o mesmo,
as ricas e as que não tem uma sêde d'agua. O peor é quando se começa a
gostar d'um homem...
Vocês sabem o que é o amor? O amor é cada qual ser como um cão. É a
gente ser menos que nada e elles serem tudo. Ahi têm o que é o amor.
Elle a bater-me e eu a dizer cá commigo:--Tu que me bates é porque
gostas de mim...--Ahi têm o que é o amor, é a gente ser menos que um
cão... Eu escrava, elle o senhor. Acabou-se! todas temos de soffrer.
--Todas. Não ha nada peor do que nascer mulher.
--Eu nunca tive sorte. Que me importava a mim que elle me batesse?
Punha-me a olhar p'r'as nodoas do meu corpo e a dizer cá por
dentro:--Este é meu amigo.--Um dia partiu-me um braço, mas a gente é
como os cães, que só gostam d'um dono que lhes dê pontapés. O peor foi
que elle botou-me ao desprezo. Os homens são todos o mesmo... Vidas!
vidas! Um dia disse-me:--Estou farto de ti.--E sabeis? nunca mais falou
p'ra mim. Ai, quanto mais se pena p'r'amor d'um homem mais se lhe vem a
querer!--Mas deixa-me gostar de ti...--Vae elle disse-me:--Fóra!--E eu
fiquei passada. O meu comer eram lagrimas. E bebia a toda a hora para
atormentar uma dor que se me pozera no coração. Mas elle vem! elle
torna!... Qual!...
--Como se chamava?
--Que te importa? Não é bom allumiar os mortos. Deixae estar quem está
quieto. Ah, se vós o visseis morto como eu vi!... Vêr morto um corpo que
se teve nos braços é como vêr no caixão um filho. Por mais que a gente
grite não lhe dá vida! Trazia sempre no coração a mesma dôr... Vae uma
vez vesti-me socegada e fria como defunta e fui ter com elle.
--A que vens? disse elle. E eu disse-lhe:--A servir-te.--E ri-me.--Já
sei que me não podes vêr, acabou-se! não me importo. O que te peço é que
me deixes servir-vos. Venho ser vossa creada.--Elle poz-se a rir. Depois
veio ella e eu puz-me a rir tambem.--Venho ser vossa moça, quanto me
daes de soldada?--Elles cochicharam.--Onde vocês pozerem os pés ponho eu
a bocca. Aqui estou, aqui me têm.--Elles riram-se de mim.--Anda
escrava!--Vae eu e ria-me.--Que quereis de mim?--Rua, escrava!--e eu
ia-me embora. Um dia peguei e dei-lhes rosalgar a comer. Comeram-no.
Então, quando o vi morto, puz-me a rir, a rir, que era uma dor do
coração. Levaram-me em braços. Na cadeia chamaram-me a perguntas e eu só
me ria. Já me doia a cara de tanto rir e via-o sempre morto a meu
lado.--Porque o mataste? E eu desatava a rir-me... Aqui têm, cada qual
cumpre o seu fado. Todas temos de nos sujeitar e de soffrer. Eu sou a
Mouca--terminou ás risadas.
* * * * *
Aquella porta aberta para a tragedia e para o escarneo fica em frente do
Hospital. As mulheres dos ladrões e dos soldados moram ao pé da dor. As
paredes são negras e humidas: mãos ao roçarem-nas deram-lhes afflicção,
gritos abalaram-nas. Acredital-as-hieis construidas do mesmo sonho e da
mesma pedra de que é feita a vida.
Lá dentro, a uma luz enfumaçada e oleosa, as mulheres expõem-se como
farrapos d'adelo ou mascaras: direis retratos feitos a tresuar
d'afflicção, tanto desespero resumam as boccas que gargalham. Duas á
porta espreitam, uma scisma com a physionomia petrificada, d'imbebida em
magoa, outra canta, e a patroa gorda e desdentada, calcula o ganho. É
dura, espremida, de feições crueis e coleras subitas. Ás vezes
prega-lhes horas e horas:
--O amor sabe a zinagre. É peor do que a morte... Não no queiram,
ouviram?
--A senhora fala! fala!... Bem triste é achar-se a gente sósinha no
mundo,--diz uma derreada e tisica.
--E ter o quê? Escarneo, só se fõr...--accrescenta outra.
--Eu de mim, se fosse sósinha no mundo, cuido que me affogava.
--Pois andae! andae!--diz a patroa--Fartae-vos de desgraça. É só fartar.
Que sois vós? Menos que terra... Ireis d'este mundo fartas de desgraças.
Antes morrer no rio!
--Eu cá--diz outra--tenho o corpo negro, mas que m'importa? Se o meu me
deixasse antes queria acabar... Pela minha salvação que ia direitinha ao
rio.
--Depois queixae-vos...--ameaça a velha.--Sereis peor do que arroladas.
--Nem as pancadas d'elle me doem, e mais o meu faz-me comer
terra,--affiança outra.
--A gente não tem mais ninguem no mundo. Quem quer saber d'uma
_desinfeliz_?
--A gente não tem pae nem mãe, nem folego vivo.
--Se choro, os outros riem-se. Quem entra e sahe que se importa?
--E ninguem n'este mundo póde chorar sósinho...
--Eu cá--diz a Mouca--eu cá estou tão habituada a que me dêm dinheiro,
que se o meu amigo fica commigo, escondo moedas no lençol... Quando
acordo e as encontro, parece que me pagaram.
As outras riem-se com risos que destoam, e a patroa prega-lhes:
--Vocês nem sequer vêm... O que aconteceu á Maria? Affogou-se e o amante
ri. Helia lá foi p'ra o Hospital. É morta. E todas morrem se se deixam
ter coração.
--Ás vezes mais vale morrer.
--Morrer!...--exclama a tisica.
--Eu já me matei... E depois? Foi quando me vi sósinha no mundo. Elle
tinha-me desprezado. Peguei e bebi um quarteirão de agua-ardente com
lumes. Pensaes que estou arrependida? Ah, se a senhora soubesse o que se
sente!... Quando me vieram dizer--foi a Mouca--que o meu amigo estava
com outra, foi como se tornasse a resurgir deante de mim a mãe que eu
matei á força de lagrimas, por me vêr na triste vida. Nem podia gritar.
Tinham-me seccado os gritos aqui--na bocca... Sahi, andei...
A porta d'ella estava fechada e alli fiquei até de manhã ao frio. Os
homens que passavam diziam o que lhes parecia, porque ninguem ideia o
que cada um traz dentro do coração. Scismei, passei a noite ora a
scismar, ora a chorar. N'esse dia poz-me elle o corpo negro, como este
lenço que trago na cabeça. Olhae... Ainda tenho as marcas. Estas só na
cova me passam.--Farta-te, se queres, mas não me deixes...--Vae elle e
disse:--Fica-te p'ra ahi, estupor, que te não posso vêr.--Vejam
vocês!... Se isto é assim no mundo, se a gente cá vem p'ra isto, p'ra
nos deitarem fóra, e não ha mais nada, era melhor morrer... E antes
tivesse morrido p'ra não ter mais que penar...
--O Hospital está á espera, raparigas--diz a patroa d'um canto.
--Ouvi dizer que os estudantes cortam a gente p'ra estudar?...
--E a mim que me importa?
--Eu já ouvi a um... E o que elles se riem uns com os outros!...
--Depois da morte a gente não sente.
--Quem é pobre acho que vae sempre p'ra elles aprenderem a estudar.
--Pois a mim é o que me entristece... O meu pobre corpo ser
retalhadinho!
--Lá está o Hospital á espera, raparigas!...
--Tu não te calarás!
Riem-se, uma fica scismatica e a patroa continua:
--Filhas inda podeis enriquecer. O que é preciso é muita experiencia da
vida. Olhae que na terra só ha dor e vaidade. Não ha nada peor do que
envelhecer pobre... O que elles se riem! Se lhes pedis pão, dão-vos
escarneo. E põem-se a rir até do nosso odio, ouviram?
--Quem nasce p'ra esta vida mais lhe valia morrer.
--E tu p'ra que vieste?
--Foi o meu fado.
E a velha continua:
--Haveis de querer comer e tereis...
--O quê? diz uma anciosa.
--Pedras.
--Acabou-se! diz outra.
E fica scismatica.
--Mais nos valia morrer.
--Mais valia.
--Andae, andae! Lá está o Hospital á espera. Lá tendes todas uma enxerga
e o lençol. E o cemiterio póde sempre com gente. Aquelle nunca se farta.
--Tem sempre fome,--murmura do lado uma sorrindo.
--Pois tem,--affiança a companheira.
--Deixal-o ter!--exclama a Mouca.
--Envelhecei pobres e vereis! vós vereis!...--ameaça a patroa pondo-se
de pé.
--O quê senhora?
--Para sempre, traz-se para sempre uma pedra no coração sem se poder
arrancar.
--Então para que nasce a gente? Só para soffrer?--pergunta Sofia.
--Só. A este mundo vem-se para soffrer.
--Ah!...
--Enganae-os. Tratae do ganho, de juntar, de juntar muito dinheiro. O
resto tudo é fingido...
Mas uma, triste e magra, a _tisica_:
--N'esta vida todos nos rebaixam e a gente precisa de encontrar alguem,
um pobre como a gente...
--Inda que seja um ladrão...--interrompe Luiza.
--Ao pé de quem se não sinta desprezada.
--Metteu-se a gente na triste vida e nunca mais pode sahir--affiança
outra.--Olhae que me lembro... Cada qual aqui é menos que nada, é como a
terra...
* * * * *
Callam-se e scismam ou passam as longas noites de inverno a cantar, em
frente do Hospital tragico. De dia pela porta escancarada vê-se _o
banco_ do hospital. Nada mais poído do que essas miseras taboas de pinho
seccas, gastas, destingidas, e nada tambem mais commovente. Vivem,
estremecem. Ha coisas que á força de serem tocadas por mãos humanas,
ganham alma, criam physionomia. Antes da morte alli tombaram os corpos
que, como uma pua, a dor brocou. Aquellas taboas mirradas, de se
sentirem a toda a hora roçadas pelas mãos de naufragos (todos os que
entram no Hospital alli passam, santos, poetas, pobres com a bocca cheia
de gritos) começaram uma outra existencia.
Foi a arvore arrancada á terra para amparar os pobres. É ainda mais
bella do que levantada no topo do solitario monte, ao nevão, ao sol, á
tempestade, ás estrellas. Eil-a emfim sómente erguida para a dôr. Taboas
que já deram sombra na floresta, imbebidas de seiva e de azul, vieram
servir de encosto a miseros: tem nodoas de sangue, dedadas d'afflicção e
suor de desgraçados que se entranhou na madeira.
IV
O GABIRU
No ultimo andar do predio móra o Gabiru, um solitario philosopho, esguio
e triste como um enterro, armado da mais formidavel penca e da mais
estranha sabedoria que Deus tem creado. Nunca viveu. Tudo que existe
para lá do Hospital é para elle um grande mar ignorado e verde.
A realidade tambem não na entende: solitario e pencudo, da vida só se
fartou com soffreguidão d'esta fonte que trasborda--o sonho. Tem o olhar
extactico e, mettido na trapeira com ignobeis calhamaços, deixa correr
as suas idéas á solta como os rios. Assim, metaphisico e pobre, de raras
palavras, deitou-se a amar a Mouca, escarneo de soldados.
Nasceu para sonhar. Tem um suspiro d'allivio quando se fecha na mansarda
e exclama:--Vou idear!...--Sabe palavras, theorias, cartapacios, e nunca
viu ao pé os rios, os montes, nem as arvores. Remexe em idéas profundas
e nunca encontrou a realidade.
É assim feliz e triste. Posto á janella do cubiculo sente correr o
doirado jorro dos dias, scisma n'um portentoso sonho e ama. Entre as
idéas que vae tecendo surge aquella figura tragica, que todo o dia ri
com os ladrões e os soldados.
Mas elle ignora a vida. Alguma coisa porém existe de immaterial--emoção
violeta e oiro--que o rodeia, quasi o toca e subito foge magoada e aos
soluços. E fio a fio vae tecendo e constroe a sua theoria:
* * * * *
«Oh como eu tremo deante das arvores, do luar que corre branco e sem
murmurio, da natureza esplendida!... Passo por doido e na verdade eu
quasi grito de pavor deante do espantoso universo. Olhae a treva a
escutar, o mysterio, a agua que brota sem ruido, a arvore de braços
erguidos, o caliginoso mar...
O homem passa indifferente, mas eu sinto-me enlouquecer deante das
coisas mais simples: d'um farrapo de nuvem como um sudario a rasto, d'um
raio de luz em pó, todo d'oiro vivo, que entra no meu quarto. Nunca me
pude habituar a olhar a natureza cara a cara. Isto! que significação tem
isto? É um sonho, um grito de belleza, uma alma? Montes verdes e
ethereos, constellações infinitas, nevoa que do mar nasce e sobre o mar
vae, como um portentoso rolo, como um giganteo phantasma...
E não adquiro o habito. Todas as manhãs é como se pela vez primeira me
achasse deante da monstruosa natura--verde, oiro, azul, como os seus
rios, florestas, o mar a bramir e arvores que são sêres!... Por isso,
sobretudo n'estes dias d'inverno, em que anda uma prodigiosa voz
d'Adamastor a prégar á terra e ás coisas dilaceradas, eu me ponho,
escondido e só, a discutir o enigma...
* * * * *
Devo, porém, notal-o: eu sou uma creatura singular. Ha até quem me
supponha doido. Todos os que são apenas restos de sonhos vivos e
despedaçados como eu, têm este feitio encolhido e transido. A esta hora
da noite em que o universo parece deshabitado e em que até o rumor da
penna no papel me faz medo, fecho-me sobre mim mesmo e escuto-me: alguma
coisa, que não sou eu proprio, se põe então a murmurar baixinho. E
eis-me perdido, no canto d'uma negra trapeira, encolhido e esguio, a
sonhar em quê? N'esta belleza infinita, o universo igneo...
Deshabituei-me de falar, mas sonho. Ha vozes esplendidas dentro em mim;
de mim brotam arvores, estatuas mutiladas, pedaços vivos de sonho. Oh eu
creio que cada creatura é um composto d'almas de montes, de pedras,
d'aguas, e creio tambem que existe uma mysteriosa ligação entre o homem
e os mundos. Estou preso ás estrellas e aos cardos humildes.
Dizem rindo se eu passo encolhido e esguio:
--Lá vae o Gabiru!
Deixal-o dizer! Eu sou mais feliz do que aquelles que riem, e antes
quero conviver com os desgraçados do que com os outros. D'elles tiro
emoção para o meu sonho. Depois fecho-me n'esta trapeira alta,
construida nos telhados e donde se vêem sêres admiraveis: labaredas
verdes que se agitam--e são arvores; nuvens pousadas sobre a terra com
oiro a flux ou então d'um violeta desfallecido--e são montes; e rôlos
que correm vivos e fluidos--e são rios. Muito tempo levei a
decifrar-lhes o nome. Nenhum dos desgraçados o sabia, porque o Hospital
enorme entaipa a cidade, e essa vida humida, nóras, torrentes de
detrictos, arvores, primaveras, gritos de sol, é desconhecida a todos os
que soffrem lá em baixo, entre o granito resequido. Só outro pobre, o
Pitta, da trapeira contigua vê como eu a prodigiosa natura--a Mãe.
Oh! e ha horas, quando uma neblina de sol cahe sobre as coisas
estarrecidas, todas verdes, em que eu quasi toco o mysterio. Ouço as
palavras da natura, n'uma linguagem gigantea, de que não comprehendo o
sentido. Os sons são syllabas perdidas, umas d'oiro, outras verdes. O ar
é fino, alma empoada de luar, as arvores desmaiam e os grandes montes
pallidos, onde o sol deixou fuligem, que vae esmorecendo até ao vir da
noite, falam baixinho, entontecidos. Mais timido é o murmurio dos
fontes, como se não quizessem perturbar o espantoso dialogo.
É esta a melhor hora para se ouvir e em que eu quasi entendo as
palavras. Ha coisas desfallecidas: arvores vão tombar cheias de emoção e
de tudo o que existe sahe uma prodigiosa alma etherea e viva, que me
envolve e toca, e que fala! que vae falar!...
Donde nasce esta belleza? d'onde vem tudo isto?... Se um homem cahe
prostrado e grita as suas palavras igneas são apenas sons, que
misturados a outros gritos de dor, formam palavras d'um monologo
giganteo. E credes que existam montanhas, aguias, o mar, credel-o por
ventura?.... São syllabas, são vozes da Terra que entra no dialogo. E
mundos, estrellas, são palavras d'Aquelle que no infinito préga. É
sempre a mesma força, a unica força que cria a belleza e o sonho, a
força donde brota a Vida.
Eu tinha visto que a dor era sempre necessaria para se produzir alguma
coisa de bello e de giganteo: para se agarrar um pedaço de sonho, que,
apenas entrevisto, foge: para que nas nossas mãos esqualidas fique um
farrapo d'essa figura de prodigio: para que a vida tenha um fim: para
amar: para crear: para que alguma coisa de duradouro reste. N'um grito
existe sempre viva uma porção de belleza. Da cova nascem coisas
materiaes, fórmas, arvores, nuvens--da dor jorra a belleza absoluta.
E com que fim? dir-me-hão.
Imaginem um estatuario: para compor uma marmorea figura, para realizar
um phantasma entrevisto, precisa de soffrer. Depois tritura o barro,
petrifica a dor. E acaso se pergunta se o barro soffre? Assim Deus
esmaga o barro que nós somos para construir alguma coisa de
extraordinario: mundos, a Vida e a Morte, alma infinita que tudo
atravessa.
De que precisam os poetas para fazer uma obra de genio? De dor. O
soffrimento cria. Lembram-se das figuras de marmore, para sempre
debruçadas sobre os tumulos antigos? O luar que vem pela rosacea gothica
ao tocar-lhes dá-lhes uma vida de sonho, fal-as todas de poalha:
estremecem, levantam vôo, dir-se-hia. Pois a dor, fio a fio, como o
luar, dá vida ao sonho.
Para se crear é preciso soffrer-se. Hoje e sempre só a dor é que deu
vida ás coisas inanimadas. Com um scopro e um tronco inerte faz-se uma
obra admiravel, se o esculptor soffreu. Mais: com palavras, com sons
perdidos, com immaterialidades, consegue-se este milagre: fazer rir,
fazer sonhar, arrancar lagrimas a outras creaturas. Com as simples e
seccas lettras do abecedario, um desgraçado com genio, mettido n'uma
agua furtada, edifica uma coisa eterna, uma construcção mais solida e
mais bella, do que se fosse arrancar os materiaes ao coração das
montanhas.
O que é então a dor, milagre extraordinario, que consegue dar vida ás
fragas? o que é esse assombroso fluido, que se communica, alma arrancada
da propria alma e que se póde repartir como o pão? Nunca houve sob o sol
creatura que soffresse da verdadeira dor cujo soffrimento não consolasse
ou salvasse. Até as mais humildes, tal como arvores que ainda depois de
mirradas, vão aquecer e allumiar os pobres.
A dôr dá a vida e não é a propria vida: cria, redime, obra prodigios e
nada ha que se communique, que convença, que torne os homens irmãos,
como ella... Para onde vão pois todos esses gritos, unidos n'um só
grito? Visto que nada se perde, que é que se sustenta no infinito com
essa enxurrada de lagrimas? Deus?
Por muito tempo escutei o ruido de vozes, de exasperos, de gritos de
creaturas. Vinham da guerra, do Hospital, da miseria humana.
E d'esse mar espesinhado nasciam clarões, as nebulosas d'onde surgem
mundos. Esse eterno rio de gritos, a correr desde que o homem existe,
vae desaguar no infinito.
É que a dôr é a unica força que verdadeiramente cria e destroe: é a
Força. Alimenta Deus e o limo. É um atlantico de fogo, é o espirito do
universo. Cria claridades na alma dos desgraçados e faz nascer
montanhas.
* * * * *
As arvores são emoções da terra.
* * * * *
Sonhae! soffrei!
* * * * *
Este mundo é talvez, como disse um philosopho desconhecido, uma gotta
cahida d'um oceano infinito de belleza.
O universo é o sonho dolorido de Deus.
* * * * *
Nada se perde. A alma, as idéas e as emoções, fazem parte da força que
faz florir o céo e os humildes pomares ignorados.
* * * * *
Eu colleciono a dor. Passo a vida a juntar farrapos d'esse manto em
fogo.
O mundo é mysterioso, cheio de gritos. A cada passo um tumulo d'onde
renasce uma amalgama, uma poeira verde, azul, doirada, cóva onde o
Desconhecido remexe fórmas: o mar, as creaturas, as pedras, as
tempestades, tudo vivo e a falar! O homem passa inconsciente mas eu
tremo de pavor.
Estas pobres creaturas que vivem ao mesmo predio em que eu habito,
ladrões, philosophos, coveiros, mulheres perdidas, são esmagadas para
que alguma coisa se crie. Geram o mysterio, o mar bravo da dor, e as
macieiras anãs. Sob a nossa vista indifferente a cada passo se cumpre um
milagre: sol, agua a nascer, pinheiros bravios e vivos!...
* * * * *
Escutae... As coisas choram. N'esta noite de frio inverno--ventania--o
que as coisas dirão!... Estão transidas--ha que dias chove!...--o vento
despedaça-as e é sempre triste ouvir cahir tantas lagrimas. Por momentos
quedam-se n'uma quietação, como se ficassem a escutar ou se pozessem a
falar baixinho entre si...
Eu tremo e, para me esquecer, deito-me a escrever o meu livro _A
Arvore_. É do lodo d'estas coisas humildes, que eu construo a minha
estatua disforme... Ora uma tarde d'estas, imbebido nos meus pensamentos
como n'um largo horisonte, não reparei que pela porta aberta alguem
entrára. De fórma que tive um sobresalto, ao ouvir a meu lado n'uma voz
pausada:
--Maquinações philosophicas, meu preclaro amigo...
--Hein?
Era o Pitta, mas o Pitta transfigurado e triste; o Pitta com dentes a
menos e não sei que doloroso sorriso; o Pitta mais velho e mais sordido.
--Maquinações philosophicas meu preclaro amigo. A realidade é triste e
amarga. Isto que d'aqui vê e não comprehende, arvores, montes e aguas, é
no fundo tão revolvido e espesinhado como o lodo humano. Vem uma raiz e
despedaça outra raiz, um braço que se crie empurra logo outro braço.
Cada monte gera tanto odio como o coração do homem.
--Por ventura o amigo já viu arvores ao pé? Eu só vi a do saguão.
--Sim, conheço-as não só dos bons auctores, como de ter dormido á sua
sombra movediça e fresca... São differentes: são vivas e enormes...
--E o mar?
--O mar, que d'aqui vê longinquo, todo do poeira verde, é tragico e
feroz. Brame de furia, despedaça. É esverdeado e cheio de coleras... Só
eu n'este momento lhe posso dar informações cathegoricas, reaes,
absolutas, só eu, Pitta da Conceição, é que possuo no universo esse
segredo temeroso.
--E a Mãe, a natureza?
--Uma amalgama, um cadinho cheio de gritos; fórmas revolvidas e
trituradas, boccas que não pódem gritar. Veja...
Para lá do Hospital havia ainda tremulos de luz, fios esquecidos de sol
emaranhados nas arvores, presos nos espinhos do monte. Dir-se-hia no
emtanto que a vida redobrava: cresciam e murmuravam os pinheiros,
gorgolejava a seiva ao trepar nos troncos. De certo a agua tinha um
ruido mais vivo, e a terra, que o sol queimára, bebia-a toda d'um trago.
As nóras cansadas pingavam ainda o seu ultimo suor, e da noite que
descera irrompia um murmurio, vozes de arvores e rios e montanhas.
--Maquinações philosophicas, meu preclaro amigo...»
V
HISTORIA DO GEBO
Por fim, na entrada d'esse frio e rigoroso inverno, já tinha vendido
tudo, até o oiro da filha. De envelhecido e gasto, de picaro e gordo,
dil-o-heis um trapo que se deita fóra ou um doido de cabellos brancos
estacados, a falar sosinho. Toda a gente o conhecia.
--Ó Gebo!
--Anh?
* * * * *
A mulher, que fôra sempre bôa, azedára com a pobreza. Nervosa e secca
passava horas e horas a chorar, atirada para um canto, ou prégava dias
inteiros: monologos cheios de gritos, de sonho espesinhado, todos
lavados em lagrimas. Se tudo acabasse!... Mas nem a Morte escuta os
desgraçados, nem o tempo se apréssa; vae moendo na sua mó,
consumindo-as, as tristezas, as afflicções e o pão negro. O desespero
d'aquella creatura cahia em improperios sobre a cabeça do Gebo
espantado, a suar, e a quem nem a propria desgraça conseguia impedernir
o coração.
Todos os dias eram da mesma fórma eguaes, sombrios e tristes. Isto de
chorar um dia e outro dia, dá a impressão de que chove e se não sahe do
inverno.
--Déste, emprestáste a toda a gente. E agora? agora?--dizia-lhe a
mulher--Riem-se de ti inda por cima, e ninguem te ajuda. Morremos á
fome.
--É o mesmo, mulher, é o mesmo. Paciencia...
--O peor é de nós, de mim e da pequena.
--Pois é o que me afflige, que por mim quem me déra morrer!
--Não fosses tolo! olha os teus amigos como trepam.
--Ó mulher, mas que hei-de eu fazer? Tu não me dirás o que hei-de fazer?
--Roubal-o! roubal-o!...
E eram palavras negras, afflicções sem conto. Ás vezes esqueciam-se e
ainda palravam em torno d'uma esperança, a qual, agora nascida, logo a
desgraça calcava. A mais humilde poeira d'illusão bastava, para que
todos tres, gelados pela desventura, se sentassem na enxerga, promptos a
edificar os mais altos castellos e esquecidos de tudo. Só a filha,
Sofia, era sempre a mesma, sem queixas, magra e linda, e com um sorriso
tão triste que lembrava certas horas em que ha sol e chuva misturados. E
como o Gebo lhe queria! Pelo seu destino que seria amargo, por a ver
rapar miserias, e por ser o unico sêr no globo, que lhe não dizia más
palavras.
Lá ia indo pela vida fóra, cossado e com um ar de afflicção que fazia
rir. Parecia amachucado: as marcas dos encontrões nunca mais lhe sahiam.