Tinha-me a Real munificencia do Senhor D. João VI, já em 1819, collocado
em posição de fortuna, para entre poetas, e poetas portuguezes, muito
invejavel: dera-me a propriedade sem onus de um dos mais pingues
officios de Justiça na Correição de Coimbra. Com essa renda vitalicia,
que ainda hoje durára, se não fossem as uteis refórmas introduzidas no
fôro depois de 34, podia eu ter folgadamente realisado desde todo o
principio o meu consorcio com Maria; mas eu tinha feito voto anterior de
mim para mim, e não queria quebral-o, de deixar sempre na casa paterna,
integral e incondicionado, o usufruto d'aquelle rendimento. Não era
generosidade; era simples dever. Tendo pois, como se não tivesse,
facilmente se imagina ¡como eu ficaria por dentro com este raiar subito
da Providencia, da Providencia encarnada em amor fraterno! A chave
d'oiro do meu paraizo tinha-a eu posto d'onde a não podia retomar; meu
irmão acabava de me entregar outra; e com tal melindre de affecto, como
tudo que d'elle vinha para mim, que recusar-lh'a eu, fôra magoal-o mais
a elle, do que a mim proprio.
A casinha parecia-me transfigurada em albergue de fadas.
Respondeu-se ali mesmo á carta. Antonita estava cantando uma cantiga de
amores a vinte passos de distancia; a alegria e a amizade cantava no
coração de Augusto; no meu, cantavam o alvoroço, o enternecimento, a
amizade. Era uma hora d'aquellas de que o Céo não empresta mais de uma
ás existencias afortunadas.
A carta que eu então dictei para mensageira de tão boa nova, e a que
tres dias depois se lia mysteriosamente no mesmo logar aos ultimos raios
de um sol magnifico, existem ainda hoje, mas não pódem ser relidas;
doer-me-hiam excessivamente; hão-de ser pelo contrario queimadas com
todas as outras d'este romance intimo e sagrado, logo que eu tenha
concluido o presente escripto. Se alguem não comprehender por si este
melindre, paciencia; eu é que me não atrevo a explicar-lh'o.
A elegia _Ermitagem da montanha_ tinha sido poucos dias antes
phantasiada ali mesmo. Junto ao convento havia tambem serras, como já
vos disse:
_Sola eris, et solos spectabis, Cynthia, montes._
Na desesperança, ou, quando menos, incerteza de conseguirmos jámais
posse real um do outro, ¿não eram bem naturaes aquelles desejos,
aquellas visões do poeta solitario no meio dos seus bosques, pensando na
poetisa solitaria á sombra do seu mosteiro? ¿Que amante deixou de sonhar
alguma vez que a felicidade o aguardava n'uma caverna sonegada aos olhos
de todo o mundo?
A mutação maravilhosa que se me acabava de operar nas perspectivas da
alma, fez rebentar o meu ultimo canto--_A Esperança._
¡Ah! ¡a esperança! ¿quem? não sendo amante, ou louco, póde fiar-se nos
sorrisos de tal phantasma? Os gozos, que tão proximos se me antolhavam,
ainda vinham longe. ¡Ha tantas illusões d'estas na vida! teem-se os
olhos fitos n'uma ventura que já se vê e se ouve tão perto, que se
figura alcançavel com dois passos... e não se repara em que entre ella e
nós pode haver duas ribanceiras escarpadas, e até de permeio um rio
sem ponte, profundo, vertiginoso, mortifero!