Despidos os accessorios esplendidos e sobrenaturaes, a fabula de
Pygmalião reproduziu-se na minha historia; o simulacro que eu incensára
e servira, o simulacro filho da minha imaginação, era emfim mulher;
mulher amante, capaz de bemaventurar-me, e desejosa de o fazer. Só a
Philoméla do platano, e o hymeneu, andavam ainda tão longe e tão
emboscados nas brenhas do futuro, que eu mesmo não ousava crer-lhes bem
deveras na existencia.
Entretanto, como a encarnação e os sentimentos do meu idolo para commigo
eram innegaveis, começou logo a haver entre nós uma especie de
semi-consorcio tacito; era já a communidade dos corações, se não era
ainda a dos somnos, visto que o bom Ducis, chamou ao casamento
_Douce communauté de coeurs et de sommeils._
As nossas mutuas confidencias passaram a ser, por minha parte, o que por
parte d'ella desde o principio tinham sido: reservadas inteiramente de
ouvidos extranhos e curiosos. Com isso lucraram muito maior affoiteza,
e um novo encanto, que nos concitou a ampliál-as de dia a dia.
Quanto é dado a ausentes conhecerem-se, conhecemo-nos. Pelas mutuas e
circumstanciadas descripções que trocámos das nossas vivendas, dos
nossos gostos, do emprego das nossas horas, e de todos os nossos
pensamentos, podemos, como sylpho e sylphide, visitar-nos de continuo.
Estavamos simultaneamente: eu junto d'ella, no seu mosteiro; ella
commigo, no meu castello. Já não havia lá nem cá, ladrilho de pavimento,
nem abobada, accidentes de luz ou sombra, movel ou planta, que nos não
fosse familiar. Via ella gostosa ao meu lado, o irmão inseparavel que me
excitava a querer-lhe, a amál-a, com a mesma espontaneidade com que me
acompanhava nas outras excursões poeticas; eu, achava ao pé d'ella a
Religiosa sua intima, que a vira crescer, que a estremecia como a filha
e irman, que a ajudava com os seus conselhos, a protegia como Anjo da
guarda, se revia na sua bondade e no seu talento, e que, apesar de não
saber como viveria se a perdesse, nem por isso apressava menos com os
seus votos o momento de m'a entregar.
Assim mesmo, ¡grande era na verdade a minha solidão! mas tenho que a de
Maria era ainda mais profunda, poetica, e enamorada.
Ha uma natural propensão que nos leva sempre o desejo do que possuimos,
para o que não temos, para o que muitas vezes não poderemos alcançar; a
imagem de um ermo attrai o mundano; a do mundo dessocega ao eremita. São
palpitações e adejos da alma captiva para o ideal. Somos assim. Se o não
fôramos, ¿onde estariam os horizontes luminosos da alma? ¿Onde, como, e
de quê, podéra crear-se poesia?
Eu, que tinha em redor de mim uma cidade, e a liberdade de me expandir
para toda a parte, punha as minhas mais cordeaes delicias em me ir
encerrar não pressentido, nem presumivel, n'aquella remota clausura.
Maria, costumada a ella, sem quasi conhecer outra coisa, e devendo
estremecer só ao pensamento de trocar o seu pacifico viveiro pelas
extranhezas e perigos do ar pleno e sem limites, Maria, compunha agora
lá os seus melhores devaneios no phantasiar outro viver, outro sentir,
outros deleites, e de todos os deleites o maior, dizia ella, o de gastar
a sua existencia em amenisar outra; ambição verdadeiramente feminil: ¡a
abnegação absoluta!
Se viessem no futuro a citál-a como a socia, a guia, a auxiliar, a
afinadora da lyra do poeta, e a serva ministra das suas festas, seria
isso para ella um triumpho (mil vezes m'o repetiu). Mas, embora o seu
nome viesse a esquecer de todo (acrescentava com uma effuzão de ternura
encantadora), a certeza de haver obscuramente cumprido todo esse
encargo, já lhe bastava para não trocar a sua dita pela de outra alguma.