XXV

Despidos os accessorios esplendidos e sobrenaturaes, a fabula de

Pygmalião reproduziu-se na minha historia; o simulacro que eu incensára

e servira, o simulacro filho da minha imaginação, era emfim mulher;

mulher amante, capaz de bemaventurar-me, e desejosa de o fazer. Só a

Philoméla do platano, e o hymeneu, andavam ainda tão longe e tão

emboscados nas brenhas do futuro, que eu mesmo não ousava crer-lhes bem

deveras na existencia.

Entretanto, como a encarnação e os sentimentos do meu idolo para commigo

eram innegaveis, começou logo a haver entre nós uma especie de

semi-consorcio tacito; era já a communidade dos corações, se não era

ainda a dos somnos, visto que o bom Ducis, chamou ao casamento

_Douce communauté de coeurs et de sommeils._

As nossas mutuas confidencias passaram a ser, por minha parte, o que por

parte d'ella desde o principio tinham sido: reservadas inteiramente de

ouvidos extranhos e curiosos. Com isso lucraram muito maior affoiteza,

e um novo encanto, que nos concitou a ampliál-as de dia a dia.

Quanto é dado a ausentes conhecerem-se, conhecemo-nos. Pelas mutuas e

circumstanciadas descripções que trocámos das nossas vivendas, dos

nossos gostos, do emprego das nossas horas, e de todos os nossos

pensamentos, podemos, como sylpho e sylphide, visitar-nos de continuo.

Estavamos simultaneamente: eu junto d'ella, no seu mosteiro; ella

commigo, no meu castello. Já não havia lá nem cá, ladrilho de pavimento,

nem abobada, accidentes de luz ou sombra, movel ou planta, que nos não

fosse familiar. Via ella gostosa ao meu lado, o irmão inseparavel que me

excitava a querer-lhe, a amál-a, com a mesma espontaneidade com que me

acompanhava nas outras excursões poeticas; eu, achava ao pé d'ella a

Religiosa sua intima, que a vira crescer, que a estremecia como a filha

e irman, que a ajudava com os seus conselhos, a protegia como Anjo da

guarda, se revia na sua bondade e no seu talento, e que, apesar de não

saber como viveria se a perdesse, nem por isso apressava menos com os

seus votos o momento de m'a entregar.

Assim mesmo, ¡grande era na verdade a minha solidão! mas tenho que a de

Maria era ainda mais profunda, poetica, e enamorada.

Ha uma natural propensão que nos leva sempre o desejo do que possuimos,

para o que não temos, para o que muitas vezes não poderemos alcançar; a

imagem de um ermo attrai o mundano; a do mundo dessocega ao eremita. São

palpitações e adejos da alma captiva para o ideal. Somos assim. Se o não

fôramos, ¿onde estariam os horizontes luminosos da alma? ¿Onde, como, e

de quê, podéra crear-se poesia?

Eu, que tinha em redor de mim uma cidade, e a liberdade de me expandir

para toda a parte, punha as minhas mais cordeaes delicias em me ir

encerrar não pressentido, nem presumivel, n'aquella remota clausura.

Maria, costumada a ella, sem quasi conhecer outra coisa, e devendo

estremecer só ao pensamento de trocar o seu pacifico viveiro pelas

extranhezas e perigos do ar pleno e sem limites, Maria, compunha agora

lá os seus melhores devaneios no phantasiar outro viver, outro sentir,

outros deleites, e de todos os deleites o maior, dizia ella, o de gastar

a sua existencia em amenisar outra; ambição verdadeiramente feminil: ¡a

abnegação absoluta!

Se viessem no futuro a citál-a como a socia, a guia, a auxiliar, a

afinadora da lyra do poeta, e a serva ministra das suas festas, seria

isso para ella um triumpho (mil vezes m'o repetiu). Mas, embora o seu

nome viesse a esquecer de todo (acrescentava com uma effuzão de ternura

encantadora), a certeza de haver obscuramente cumprido todo esse

encargo, já lhe bastava para não trocar a sua dita pela de outra alguma.

A Chave do Enigma · 第 38 / 95 题