XXVI

As abobadas de um claustro encobrem thesoiros de sensibilidade

inapreciaveis, inexhauriveis, e bem mal avaliados dos profanos.

Cada um considera aquelles encerros mysticos á luz dos seus proprios

preconceitos. Um espiritual, vê ali um alfobre de plantas para o Céo;

uma terra de Gessen allumiada de cima pelo sol, no meio de um Egypto

ennoitecido; um paraizo passageiro sotoposto ao Paraiso perennal, com a

mais curta e directa serventia de um para outro. Ao incredulo, figura-se

um pantano antigo de fanatismo e superstições. Um economista, lhe chama

desperdicio anachronico de riquezas, de forças productivas, e de

população. Um naturalista, execra, em nome da Natureza, que se ousem e

se permittam votos de a renunciar; e, propheta de infortunio, commina,

em nome d'ella, como infalliveis penas do desacato, as tristezas, as

enfermidades moraes e physicas, as allucinações, os delirios, o

definhamento, o envelhecimento no incompleto dos annos, a morte

prematura. Finalmente, um romancista licencioso sonha, e se arroja a

escrever os seus sonhos como historia, que o amor, bannido em vão

d'aquelles recintos, em parte nenhuma é tão despota, tão insensato e

monstruoso como lá. Segundo esses moralistas de abominação, os mysterios

vergonhosos da deusa Bona, ter-se-hiam perpetuado ao abrigo e no seguro

inviolavel dos nossos asylos religiosos.

Desprêso a tantos exageradores systematicos. Se um mosteiro não é Céo,

porque o não ha nem cabe na terra, é um santo e bemdito refugio, onde

muitas penas se atalham, e muitas se adormentam.

¿O caracter de contranatural, que acintosamente se exprobra ao mosteiro,

existirá porventura, como se comprazem de declamar os seus

antagonistas? Não de certo; no mosteiro feminil principalmente.

Se a felicidade terrestre, por outra, o contentamento, é o unico alvo

racional, a que tendem por diversas vias todos os exforços humanos,

¿quem affirmará com a mão na consciencia, que a mulher do nobre no seu

solar, a do burguez na sua casa, a do artifice no seu sótão, a do

rustico na sua cabana, a do pescador na sua choça, para não falarmos de

tantas outras mulheres sem poisada certa, sem familia, e sem sociedade,

disfructam maior quinhão de ventura que as Religiosas? ¿Será tudo, será

mesmo o essencial para a felicidade, o ter um esposo e ter filhos, esses

dois bens, essas duas ufanias tantas vezes descontadas pelos mais

pungentes cuidados, pelos mais amargos desgostos, e não raro pelo

encurtamento da existencia?

«Possuem a liberdade,» dirão elles. ¡A liberdade!... ¿que liberdade?

interrogae-as a uma e uma; não ousarão responder-vos; mas um

involuntario sorriso triste vos responderá por ellas. ¿Quantas são das

forçadas que remam n'esta galé mundana, as que não terão muita vez

pensado com inveja no viver manso e sem estrondo d'aquellas solitarias,

sem os cuidados do amanhan, sem as fadigas improbas do hoje, sem os

arrependimentos e os pesares do hontem?...

Cada uma d'estas diversas operarias do futuro, colhe, é verdade, aqui ou

além, mais ou menos abundante, mais ou menos imperfeito, algum deleite

que o mundo nega ás cenobitas; ¡mas quanto não compra ella caro esses

deleites, essas escaças compensações dos seus pobres destinos, que vós,

philosophos exclusivos da população e da riqueza publica, chamarieis

naturaes, se vos atrevêsseis!

A eremita, pelo contrário, privada d'estes gosos passageiros, está livre

das sollicitudes que tantas vezes os precedem, os envolvem, os seguem,

os descontam, os aniquilam.

As faculdades amantes de que se compõe essencialmente o ser feminino,

não se anihilaram entrando para o ermo; exaltar-se-hiam porventura; e,

se lhes faltasse emprêgo e alimento, devorariam afinal miseravelmente, e

com medonha rapidez, as miseras depositarias d'esses dons celestes.

Felizmente não succede assim. Ellas amam tambem.--«¿Amam?!» ¡Oh! ¡e

quanto! ¡e quão bem! ¡e quão satisfeitas! «¿Ellas?!!» Sem nenhuma

dúvida. Os seus amores são melhores que paixões: são simplices affectos.

Uma cultura especial, e o influxo dos ares que respiram, operaram

n'ellas, sem as destruir, uma curiosa transformação: tinham nascido

flores singelas para fructificarem vulgarmente; uma jardinagem milagrosa

as converteu a pouco e pouco em flores dobradas, mais fragrantes, mais

para cubiças. Do que originariamente havia de servir para a reproducção,

fez petalas; fez viço; fez flor de flor: monstruosidade embora para o

botanico e para o naturalista, mas ufania para a terra, e orgulho para a

arte, que, sem destruir a natureza, logrou apresental-a com aspecto mais

formoso. D'estas flores viventes póde coroar-se a Religião, que são

dignas d'ella; póde inspirar-se a Poesia, que em nenhuma outra parte as

encontrará tão celestiaes; e póde a Moral mesma comprazer-se, que tem

n'ellas modelos perfeitos de virtudes, sempre raras, e cada vez mais

recommendaveis.

¿Mas teimais em perguntar que é o que realmente amam estas mulheres?

Tenho medo de que não chegueis a entendêl-o bem, porque eu mesmo,

grosseiro, carnal, mundano como vós, não cheguei ainda bem a

explicar-m'o. Para isto, falta-nos a nós todos um sentido, sentido sem

nome, que descobre mil coisas subtis no mundo moral; a metade mais

delicada da nossa especie é que o possue; as mulheres é que o saberiam

explanar.

Se em espirito devassâmos a furto uma clausura, ¿que é com effeito o que

descobrimos n'aquelle mundo tepido, tão suave, melodioso, e perfumado

por dentro, como triste, áspero e mudo parece cá de fóra? A alteza dos

muros, e as grades de ferro, têem razão: não estão ali para evitar a

fuga; estão porventura para disfarçar a seducção do retiro, que, a ser

conhecido, fascinava excessivamente; estão sobre tudo para rebater

audacias de desejos impuros, qua a pureza mesma attrahiria, como o balir

manso das ovelhas no aprisco está innocentemente chamando os lobos em

seu damno.

Por traz d'aquellas gradarias severas, d'aquellas muralhas ameaçadoras,

está uma cidadinha toda feminina, sempre em paz e em festa; paz

talvez com leves quebras, para melhor se apreciar; festa sem tumulto nem

estrondo, sem custosos preparos, nem recordações afflictivas.

Os dormitorios são bellas ruas direitas, calçadas de lageas polidas, e

onde o silencio, amigo da meditação, se casa harmoniosamente com a

sombra fresca, e deixa perceber o som dos proprios passos que vêem da

extremidade opposta, como se até o andar tivesse ali a sua reflexão.

Por ambos os lados d'estas ruas, abobadadas como hoje as de Herculanum,

e condecoradas cada uma com o gracioso nome de uma Santa, se enfileiram

os modestos palacios das habitantes. As portas sem chave, á primeira

saudação affectiva, ao minimo toque, se descerram. Descobre-se no

interior a riqueza da desambição; um sorriso hospedeiro, que illumina

tudo como sol; o leito alvo para os alvos sonhos; os paineis

meditabundos, que a musa da lenda explica, ora em idyllios, ora em

phantasticos romances, ora em tragedias gloriosas. Sobre a mesa sem

espelho, a jarra de flores entre duas velas de cera alvissima, e alguns

livros, d'estes cuja leitura se interrompe a scismar, e se continua

mentalmente por uns mundos nunca vistos, em que tudo são maravilhas. Um

pintasilgo saltitando e scismando tambem n'alguma coisa do passado, do

futuro, ou do possivel, alterna suspiros e cantares, pendente do tecto

na sua thebaidasinha de arames, enfeitada de ramos frescos; vê de um

lado a arqueta do seu pão sempre cheia, do outro a sua cisterna de

vidro, em que se mira como Narciso, em que bebe como a Samaritana, ou se

banha na sésta como odalisca; em baixo, vê a sua providencia, que em

fórma de boa amiga o considera, lhe fala, e interrompe os seus lavores,

ou orações, para lhe atirar beijos. Emfim: a janella completa as

magnificencias do palacete, juntando-lhe, como dominios contiguos, o

vergel proximo, e o ceo, que pouco mais distante se figura.

Nas casas d'esta singular cidade, que o mundo não vê, e muito d'elle não

quer ver, para mais a seu salvo a poder negar, ajuntam-se frequentemente

assembléas, em que se não gosa por certo á moda de nós outros, mas se

gosa não menos, e talvez mais, á moda do ermo: são conversações entre

espiritos. Se as paixões vehementes as quizessem invadir,

resvalavam-lhes pela superficie. Os affectos sim que as povoam, e

constituem a sua essencia; é um papear como dos passarinhos n'um bosque

ao principio e ao fim do dia; porque n'aquellas vozes meigas, ora

transpiram os influxos de um crepusculo, que apoz as trevas se abre para

um dia grande, ora os de outro crepusculo, que se vai a pouco e pouco

fechando sobre as alegrias, para acabar na escuridão; mas, quer um, quer

outro, todo o crepusculo tem rosas, todas as rosas teem amores.

Não se discutem ali, nem as novidades do periodico, jornal das modas dos

politicos, nem os caprichos dos enfeites, politica das mulheres. Os

eccos dos espectaculos, dos motins, dos escandalos, das heroicidades,

das demolições e das edificações das outras cidades, das grandes, das

Babylonias, ou não chegam até esta povoação, ou lhe entram tão

amortecidos e como de coisa tão extranha, que nada ou pouco desconcertam

a immutabilidade do pensar, e nada absolutamente a do viver.

O amor sensual é da Natureza, não ha duvida, e não entra ali;

afugentam-n-o, exorcizam-n-o, como o demonio do meio dia e da meia

noite; debalde o pobresinho se faz Protheu para as captar: agora

cantando-lhes convites d'entre a copa de uma arvore, agora passando como

viração que vem de ver namorados, e vai correndo por cima das hervas

trémulas a espreitar outros; uma vez é som de flauta longinqua, que

desperta suspiros por onde passa; outras, um nome de homem proferido ao

acaso, palavra sem virtude onde elles abundam, mas ali occasionadora de

devaneios; reveste a fórma de alguma coisa, de alguma pessoa, de algum

sitio, de alguma scena, que se viu em quanto se andava lá por fóra, em

que se ficou pensando, e que ainda na memoria do coração se não apagou.

Sim, sim; não ha negál-o: o Amor, ladeado das Graças, deve espreitar bem

a miude, trepado nas grades exteriores, para o que vai lá dentro, como

os passeantes n'um jardim devoram com os olhos as flores e moveis de uma

estufa, ou como as pombas de Pygmalião lhe consideravam as frias e

ridentes estatuas da officina.

¿Mas que mal faz isso? tambem as Amazonas haviam de ser salteadas,

não raro, por vagas tentações voluptuosas. Todavia, a gloria de lhes

resistirem, junto ás occupações que lhes enchiam a vida, as mantinha

satisfeitas umas das outras, e ufanas do seu forçado celibato.

Toda a differença é: que as heroinas do Thermodonte, cortando o seio

direito para melhor pelejarem, como que despediam de si metade da sua

feminidade, e, endurecidas com a prática das guerras, se indemnisavam

com a alegria de vencer a inimigos, dos deleites de serem vencidas por

amantes; ao mesmo passo que estas amazonas pacificas da Religião,

conservando inteira toda a sua sensibilidade, a enganam, dispartindo-a,

furtada aos impetos da natureza carnal, por um cardume de objectos qual

a qual mais consentaneo á sua indole delicada: é o trato das flores, que

são suas irmans; é a creação dos passarinhos, que são, voadores do ceo,

os irmãos de suas almas; o canto, exercicio de Anjos; é a caridade,

enlevo do Creador; são as miragens infinitas da esperança; são as

perdoaveis altivezes de um estoicismo temperado; são tambem os

entretenimentos manuaes: ora de vestir e ataviar a santa Imagem

predilecta, que para o coração suppre uma filha, ora de coser o enxoval

branco para a creança que está para nascer na cabana visinha, ora tambem

de seroar na grinalda de flores de laranja, com que se ha-de enfeitar no

seu dia grande uma noiva muito amiga.

¿Que são os presentes que saem continuos d'aquelas portas, se não coisas

todas formosas e suaves como a cera e o mel das colmeias? laminas

devotas e scintillantes; doces de mil gostos, de mil côres, de mil

fórmas; flores e fructos artificiaes, com que as abelhas se enganariam;

aromas para toucadores e festas; cartas, mensagens, e convites quasi

pueris na simpleza, e sempre rescendendo á innocencia mais sympathica e

mais alegre.

O segredo de tantas e tamanhas branduras, por si mesmo se descobre: a

mulher no trafego do mundo, se infiltra suavidade para o sexo forte, com

quem convive, recebe d'elle em troca o que quer que seja de mais grave,

que não quero dizer de menos extremoso; e uma beneficiação mutua e

perenne, que a Providencia ideou quando partiu em duas metades a nossa

especie; mas a mulher na convivencia exclusiva do seu sexo, mantem

inteiras, completas, e no mais perfeito estado de graça original, todas

as suas disposições nativas; é como a violeta, que emboscadinha á sombra

conserva o cheiro subtil e o frescor virginal, que as mãos e o sol lhe

estragariam.

A mulher aqui não é esposa nem mãe, porém não deixa de ser mulher, se

não que o é em muito maior auge.

¿Não vos basta? ¿deplorais a encantada cidadinha por estar carecente de

praças, de passeios, de espectaculos? Outro engano; outro engano

manifesto: ¿pois não são donosas praças aquellas crastas arborisadas,

com suas sonorosas fontes de repuxo no centro, e á volta majestosas

arcarias á romana? ¿claustros guarnecidos de baixo a cima com azulejos

de biblica erudição, não recordam os Porticos, em que os antigos

senhores do mundo se espaireciam das calmas por entre estatuas e

pinturas de suas fabulas? ¿não são passeios publicos, e mais apraziveis

por libertos de constrangimentos, os jardins, os pomares, as frescas

hortas da cerca? ¿theatro de espectaculos augustos, não o será o templo

aos olhos da fé e da piedade? ¿não se representam ali em seus dias

prefixos todos os lances da vida do Salvador, desde o Presepio até ao

Calvario, desde o Calvario até á Ascensão? ¿todos os passos da Rainha

das Virgens, desde a sua Natividade até á sua Assumpção? ¿todas as

glorias dos principaes Bemaventurados? ¿Não é ali, no magnifico

santuario, que entre a profusão de marmore, luzes, oiros, sedas, flores,

incenso, resoam em musicas solemnes, que só o orgam é digno de

acompanhar, os mais graves e poeticos pensamentos dos Prophetas, dos

Apostolos e dos Doutores, e que, inspirando-se de todos elles, a

eloquencia sagrada derrama a doutrina para a ignorancia, a esperança

para os afflictos, os desenganos para os vaidosos? aos pobres annuncia

thesoiros, thronos aos conculcados, festins eternos aos famintos,

sobrecorôa aos Santos, invoca luz perpetua para os finados, e vôa, como

o Dante, por uma espiral infinita, do fundo dos abysmos até ao cume do

firmamento.

Cada festividade é precedida de longe pela ancia de a ver chegar, e

deixa apoz si recordações para muitos dias.

As donzellas dos salões, que revolvam e troquem entre si memorias

das contradanças, do valsador infatigavel, do discreto que as entreteve,

dos trajos e penteados que se distinguiram, do novo duetto que se

executou, do romance ou das poesias que se annunciaram de autor querido,

de uma inclinação encoberta de que já todos segredavam, do baile

estrondoso que se ia ter, de uma regata, de um duello, de um passeio a

Cintra, de uma lua de mel, ou de uma exposição de bellas-artes. As

virgens do que se cuida solidão, não acham para si menor nem menos

attractivo assumpto, o revolverem na conversação, o repastarem no

espirito, as circumstancias, os minimos accidentes, de que se acompanhou

o dia festivo do seu templo; os enfeites e a elegancia de cada altar, o

inesperado primor d'esta ou d'aquella cantora, a maviosidade com que o

orgão gemeu na Adoração, o como a ponto acudiram de fóra o repique e a

girandola, o rasgo de pintura, ou de affecto, com que o orador

maravilhou o auditorio, a multidão e a variedade de vestidos que

affluiram á egreja, as largas distancias d'onde accorreu povo a ella, a

satisfação com que todos sahiram, e o bello e saudoso effeito que fazia

aquella torrente ondeante de cabeças, ao engolfar-se e desapparecer da

nave para o terreiro, por baixo do côro, como um rio fugaz por baixo de

uma ponte inabalavel.

Direis que ha um travo particular de tristeza em tudo isto. ¿E quaes são

os prazeres do seculo em que esse resaibo se não mistura? denunciae-me

um unico, se o descobristes.

Murmurais que em tudo isto é sempre mais ou menos a contemplação inerte

e passiva, e que a vida fraudada de todo o movimento proprio e

espontaneo não é vida.

¡Mas então não sabeis que n'aquelle povoado ha tambem, a seu modo, uma

Paschoa de flores, estreias de anno bom, fogueiras de S. João, dias

duplices para regosijos, banquetes e alegrias de abbadessados, visitas

ao locutorio, quanto mais raras tanto mais bem vindas, e em que o ermo e

o mundo se confrontam de perto! e não é por certo o ermo o que mais se

póde queixar do seu quinhão.

¿Que dirieis vós da monja, que negasse existirem passatempos nas nossas

cidades, só porque os não via, e descriptos os não imaginava? Pois outro

tanto podia ella dizer, se o não diz, de vós outros, que descredes

da bemaventurança da sua cidadinha.

O cenobio, tal como o esboçamos aqui, existe em realidade; e contra os

d'esta especie não aventamos que séria objecção possa pôr a philosophia

humanitaria. São refugios para corações feridos, que em nenhuma outra

parte o encontrariam; são asylos para muito desamparo da fortuna; são

taboa de salvação para muito naufragio; repoiso para muito cançaço;

gruta mysteriosa para muito animo poetico; seguro para muita innocencia;

e se a Liberdade os não pode proscrever sem contradicção, sem a si

propria se annullar, a philosophia, mãe, filha, e socia, da mesma

Liberdade, o que só pode contra taes mosteiros, ou antes em favor

d'elles, é exigir que os severos votos, aliás licitos em si mesmos,

sejam soluveis, e se desatem apenas finde a vontade que os dictou; e que

a prepotencia, a ambição barbara, calculos ou vinganças, não atirem para

os pés do altar victimas consternadas, em vez de sacerdotisas radiosas.

Franca a entrada, franca a sahida, o mosteiro não ficará sendo senão a

séde do contentamento, da virtude, da perfeição, e até da Liberdade mais

ampla, mais inoffensiva, mais formosa, mais completa.

Apressemo-nos em confessar, que nem todas as clausuras se assimelham a

esta que entrevimos, de que já existe metade, e de que a outra metade

hade vir por certo, quando ressentimentos politicos emmudecerem, e a

razão dos povos, desassombrada de todo o genero de preconceitos, for

adulta e governar.

Não; nem todas as clausuras são assim; e contra as que assim não são,

pouco nos magôa que a Philosophia troveje, e que a Liberdade se levante.

O convento que amamos e defendemos, o convento que o bom senso applaude,

que a natureza approva, que a cidade deve acarinhar, e o Céo cobrir com

benção de prosperidades, está equidistante do convento fanatico,

suicida, e assassino, e do convento relaxado, vicioso, onde impera, em

odio aos ceos e á terra, o monstro execrado sob o titulo de _crasta_ na

linguagem mesma das chronicas monasticas.

Estes ultimos (¡ainda bem!) dissolve-os a podridão interna; passam, e a

sua memoria só fica subsistindo nos contos asquerosos da escola de

Bocaccio e La-Fontaine; mas a vida d'aquelles, mais dura, mais

resequida, mais resguardada, não se gasta senão muito lentamente.

A Religião e a Humanidade caminham sorrindo uma para a outra; logo que

se encontrem n'um abraço estreito de irmans, para nunca mais se

dividirem, aquelles institutos, que nem uma nem outra reconhecem por

seus, ou hão-de desapparecer com todas as suas sevicias, como

desappareceu a Inquisição, ou se hão-de converter á Natureza, cujas

branduras licitas e bonissimas rejeitavam. Nunca mais uma triste mãe

sentirá estalar-se-lhe o coração a fibra e fibra, vendo sumir-se-lhe

para a catacumba de um claustro a filha mimosa das suas entranhas,

creada com o seu leite, crescida entre os afagos, ufania dos seus olhos,

bordão florido para a sua velhice. ¡Velhice! Que mãe, verdadeira mãe,

poderia chegar até lá, dizendo-se a cada hora do dia:--«¡Nunca mais a

posso ver!, ¡nunca mais a hei-de ouvir, se não fôr por sonhos! quando eu

acabar de morrer, dir-se-ha no meio da communidade, silenciosa como

espectros pallidos, e tremulos todos: _Resemos pela alma da mãe de uma

de nossas irmans_; e nada mais, senão chorarem todas, suppondo-se todas

orphans na orphandade que só é de uma.»--Á mesa, onde não vê sua filha,

salgará com lagrimas o pão, porque a sua innocente, defecada da

penitencia e dos jejuns, não terá, para matar a fome, no seu canto

escuro e solitario, senão um pedaço de pão negro e duro, que o mendigo e

o cão esfaimado de tres dias recusariam. Não poderá encarar com donzella

alheia coberta de galas, e trocando risos de alma com toda a Natureza,

sem logo se atirar de mãos postas, e debulhada em lagrimas, aos pés da

imagem da sua ingrata, coberta de burel sêcco e mordente nas calmas do

estio, descalça, apertada n'um cilicio, cortada das disciplinas,

entregue aos mistéres mais trabalhosos e obscuros, definhando-se de

semana para semana, com o coração já morto, com a alma já meio morta a

pezar dentro na fronte pendida e despojada, ¡que não ha reconhecel-a! ¡e

os olhos sempre no chão, á procura do sepulcro, que assim tarda! ¡Como

dormirá e mãe, quando, encarnada pelo amor na pessoa da filha, cogitar

(e cogita sempre) que a pobresinha nem tem, como a ovelha, um feno

em que descance, mas pernoita vestida, ora n'uma taboa nua com uma pedra

por cabeceira, ora prostrada em oração sobre as lageas regeladas do

pavimento!

Arredemos d'ali os olhos; mas isto existe. O proprio Martyr Sublime, não

n-o póde ver sem pena do alto da sua Cruz, Elle que proclamou que o seu

jugo era suave, e que fez do amar a pae e mãe o primeiro dos seus

mandamentos em relação ao proximo.

A Chave do Enigma · 第 39 / 95 题