XXIV

Lêstes sem duvida a historia de Pygmalião; então sabeis como aquelle

phantasioso escultor, com a arte no coração, e a fé na alma, lavrou uma

estatua, se ennamorou e endoideceu por ella.

O sol da Grecia, que tantos portentos allumiou, nunca vira coisa assim

formosa.

O Real estatuario, pois era Soberano, esqueceu por ella mais que o seu

throno de oiro, e os seus estados que o adoravam; esqueceu todas as

beldades de umas regiões como aquellas, digno berço de Venus e das

Graças, e onde os lacteos marmores e as ceras coloradas, para copiarem

aos olhos as formosas do Olympo, e povoarem os templos com Hebes e

Junos, Dianas e Minervas, de mais não precisavam que retratar os bandos

vivos e buliçosos das filhas da terra. A todas offuscava para elle,

para elle Jupiter do cinzel, a Pallas brotada da sua cabeça poetica

e fogosa; assim a lua cheia, ao levantar-se de traz dos cumes selvaticos

dos Dáctyles, desterra o scintillante cardume das estrellas.

Não contente de a vêr todo o dia, vinte vezes se levantava cada noite

para tornar a vêl-a, e de cada vez lhe descobria gentilezas novas. Com a

alampada trémula na mão, erguendo-a, abaixando-a, ora de longe, ora de

perto, a rodeava, scismando, palpitando, sorrindo, figurando-se-lhe

vêl-a corresponder com a expressão do aspecto ás blandicias com que

elle, mais poeta que Anacreonte, a affagava. ¡Oh! ¡que não daria elle

por ter a lyra de Orpheu e de Amphião, cujos sons escutados pelas pedras

as animavam!

Ás plantas nuas da sua Galatéa, mil vezes rebeijadas, tomava as suas

refeições, offerecendo-lhe sempre com suave convite as primicias de

Baccho e Ceres, os mais perfeitos favos de Hybla e do Hymetto, e os mais

delicados dons de Pomona, que em canistreis de vimes de prata lhe vinham

pôr deante virgens, por quem o Pae dos numes se metamorphosearia vinte

vezes.

Cochichavam ellas entre si, e riam doidinhas á socapa os mais tentadores

risos que sabiam, sem nunca lograrem que os olhos fitos nos da estatua

se abaixassem, nem por descuido, para os d'ellas. Retirada a mesa,

fechava o Principe as portas eburneas do aposento, incendia-se com

segundas libações rituaes de Naxos e Chios; exhalava o seu fogo

tresdobrado em abraços e beijos; cingia de perolas e diamantes o collo e

os pulsos da effigie; banhava-a com essencias de nardo e dictamo;

engrinaldava-lhe a fronte com as rosas mais frescas das emmolhadas em

vasos aureos esculpidos, coroando-se com as restantes a si mesmo;

tornava a encaral-a; e o reflexo das flôres de Amathunta, que Sapho

algum dia havia de proclamar rainhas de todas as flôres, e a que a Mãe

de Cupido fadára as mais extranhas seducções, quando as viu retintas com

sangue do seu Adonis, aquelle reflexo purpurino no alvor das faces lhe

parecia, no seu estatico enlevo, uns assomos do pudor virginal

sobresaltado com a desnudez propria, com a solidão e voluptuoso

desamparo do sitio, com o olhar a um tempo supplicante e audaz do

adorador.

Era então que, delirante, perdido de desejos impossiveis, elle se lhe

pendia amorosamente ao pescoço, forcejava por animal-a com ósculos; e

reconhecendo quanto eram baldados os seus desejos, imbebia o rosto

ardente entre os arfantes seios, frios, de marmore, e os áljofrava com

um chuveiro de lagrimas. Nestas porfias, sem victoria nem derrota, se

lhe exhauriam as forças; deixava-se cahir esmorecido para cima do tapete

de purpura de Tyro, cerrava os olhos, e um somno transparente, um

meio-sonho, dando-lhe por momentos a posse da sua beldade, ouvindo-a,

sentindo-lhe palpitar o coração, repassando-se do seu calor, o

restaurava, para se tornar com mais vehemencia, em acordando, á sua

adoração perpétua, ás suas cubiças insensatas.

A deusa dos mil amores, que perscruta até ao intimo os corações dos

mancebos, podia bem ter ciumes d'aquella pobre e insensivel beldade tão

amada; mas foi generosa; generosa... não: antes muito justa. ¿Não era

aquelle o mais solemne culto, o culto mais sincero e desinteressado que

jámais se rendêra á sua divindade?

Não odiou a Galatéa; sorriu-lhe como para uma irman mais nova; mirou-se

n'ella complacente como n'um espelho. A filha das ondas do Egeu foi

benigna para a filha dos marmores de Paros.

--«¿O amor que nasceu de mim--dizia ella--não me tem a mim propria

ferido e felicitado, tantas vezes? ¿Por que não farei eu que esse amor,

não menos maravilhoso, que nasceu d'aquella, lhe dê tambem um quinhão

nos céos que eu disfructo sem limite?»--

Pygmalião, o Rei artista, havia afeiçoado para muitos altares os mais

perfeitos, os mais adoraveis simulacros da Immortal; e se não se

inflammára por elles, como agora por este de Galatéa, era só por que a

santa majestade do ser divino lh'o prohibira; mas os templos, em que os

milagres d'essa arte crente e inspirada resplandeciam alvejantes, eram

sempre os mais frequentados, os mais servidos com offertas, sacrificios,

e grinaldas. A officina mesma, em que avultava entre um povo de outras

estatuas e grupos a estatua da sua rival em fascinações, era sympathica

aos olhos da Omnipotente, e sollicitava o seu favor. As pombas, que a

ella lhe vogam o carro aereo, jungidas com festões de murta, tinham

ali entrada livre. Dos loireiros rosiflores, e das grutas dos jardins do

palacio, esvoaçavam-se familiares até aos peitoris das janellas, sempre

francas ás inspirações dos ceos diáphanos, do cicío das auras pela

folhagem, e do estrépito das fontes, melodias como de nautas migdóneas.

D'ali observavam, conversando umas com outras, a profusão que lá dentro

ia, de coisas tão brancas, tão suaves: ¡tanta nympha! ¡umas, trajadas

como para chorêas! ¡outras, despidas como para o banho! ¡e entre todas,

e sobresahindo a todas, o vulto da propria deusa, tão sua conhecida, e o

de Galatéa, não menos celeste, candida como ellas, e, a julgar pelo

sorriso, como ellas affectuosa! Alguma das espreitadeiras aladas dizia

então lá pela sua lingua ás companheiras:--«¡Olhae, olhae como está em

ambas enlevado! os escravos chamam-lhe Rei, mas não é tal: é, como nós,

um captivo do amor; ¡e de quão benigna condição!... é reparar-lhe no ar,

nos movimentos. ¿Não vêdes como olha para nós, tão benevolo, e quasi

invejoso, quando nos beijâmos? entremos sem medo, que nos não ha-de

fazer mal. ¡Mal aquelle!... Apostaria eu que já foi pomba, antes de ser

gente. Chôva-lhe a nossa rainha, como sobre nós, amores sem espinhos, e

delicias renovadas de hora a hora.»--

A estancia era então invadida pelo bando festivo. Pygmalião exultava,

tomando por feliz agoiro ver as conductoras do coche de Dióne

arraiarem-lhe a casa toda com os reflexos argenteos das suas azas

irrequietas, e cobrirem de ternura, de voluptuosidade, de poesia, como

um veo alvo, roto, e esvoaçado, as estatuas dos dois idolos do seu coração.

¿Não era tudo isto mais que bastante para merecer á mãe do amor um

prodigio sem exemplo, e que a ficasse glorificando nas lyras namoradas

de todo o mundo?...

Acabava um dia o Principe de queimar aos pés de Venus, segundo o seu

costume de todas as manhans, uma copiosa oblação do mais puro incenso.

Tinha regado o fogo, em que elle fumava n'uma amphora de bronze, com

vinho amadurecido havia cem annos pelos oiteiros pampinosos de Chypre, e

reservado em talhas de barro para sacrificios aos deuses maximos. Tomada

respeitosamente venia da Immortal, transporta por suas mãos o vaso

depositario do fogo para deante de Galatéa. Quer offerecer-lhe, ainda

que em segundo logar, porção igual, tanto da rescendente massa, orgulho

da Arabia, como do liquido generoso. Enganou-se-lhe a mão no incenso, e

lançou nas brazas porção avantajada. Venus sorriu, e não se agastou. As

distracções do amor, ninguem melhor do que ella as conhece por experiencia.

Emquanto o veo alvacento do innebriante fumo, elevando-se d'ante o

pedestal da nympha, a envolvia toda, e tornava a sua presença mais

celestial, Pygmalião, acompanhando-se com a lyra de sete cordas, cantava

de joelhos um hymno, que as pombas escutavam n'um silencio religioso;

pareciam querer decorál-o para o repetirem á sua rainha, quando ella se

jazesse em amoroso ocio, reclinada sobre as violetas em algum secreto

pavilhão de rosaes da sua Paphos:

--Tu que exhalas de ti, qual vérte a rosa aromas,

effluvios de prazer, universal ternura,

Mãe das Graças e Amor, deusa da formosura,

que envolves a nudez co'o veo das aureas comas,

Venus; pois que são teus os ceos, a terra, os mares,

e até ás sombras do Orço abrange o teu poder,

lança um propício olhar, Venus, aos meus pezares;

do teu jugo me solta, ou dá-me emfim morrer.

Com tão cruel supplicio, ignoto á humanidade,

ria teu filho em vão, tu, deusa, és mais piedosa.

Ardo por uma pedra em chamma vergonhosa,

perdi a paz e a gloria, o siso e a liberdade.

Qualquer ente alardeia ufano os seus amores:

a ave, piando; o peixe, aos pulos pelo mar;

o rebanho, mugindo; em cantos os pastores;

e eu, Venus, só a ti ouso este ardor mostrar.

¡Quão menos insensato o moço do Cephyso

se finou por si mesmo ao pé do espelho aquoso!

Suppoz a sombra nympha; espera ser ditoso;

cai no engano; perece; apiadas-te, é Narciso.

E eu, eu sei que a beldade, iman d'est'alma ardente,

só a mim deve o ser; nasceu de minha mão;

não me ouve, não me vê, não se condoe, não sente;

não lhe pude formar lá dentro um coração.

¡Ó Venus! se ha mulher que eu possa crer retrato

do immenso que sonhei compondo a Galatéa,

revela-me onde habita a amavel Semidéa;

assim teu filho Amor jamais te offenda ingrato.

Seja embora pastora, obscura, humilde, escrava;

terá por choça um throno, e por captivo um Rei;

e eu, já salvo da insania, eu, que a teus pés chorava,

a ti uma hecatomba alegre immolarei.»--

Ainda bem não findára a prece, quando lhe pareceu notar nos labios da

Immortal um sorriso auspicioso. O Cupido, que junto d'ella estava em pé,

e que era tambem obra de suas mãos, agitou as azas de marmore, soprou as

labaredas petrificadas do facho, que instantaneamente coruscaram, e

rompendo por entre a cortina do incenso, que ainda envolvia a nympha,

lhe lustrou com o milagroso calor a fronte, os olhos, as faces, a bocca,

o seio, o coração. Ao fogo d'este segundo e divino Prometheu, a estatua

estremece; a pallida brancura se tinge da côr da vida; o peito palpita;

os olhos se voltam para o céo da Grecia, que logo os embebe do seu mais

brilhante azul; baixam sobre Venus; ¡parecem attonitos! descem;

¡encontram-se com os de Pygmalião! duas rosas subitas se abrem nas

faces; o sorriso, aurora de uma existencia de amores, alvorece em labios

nacarados.

--«¡Filha dos meus sonhos!» «¡Galatéa!--» exclama o artista delirante,

correndo a tomál-a em braços, ao vel-a descer do pedestal. «Galatéa,

¡filha dos meus sonhos! ¡se é esta uma nova illusão que Morpheu me

envia, compassivo, mas cruel, possa eu não acordar jámais!»

¿Vistes vós alguma vez rasgar um dia magnifico depois de uma noite

profunda? ¿Notastes como então sahiam do nada as amenidades das terras e

dos rios, a animação e o movimento dos campos e das cidades, as côres,

os cantares e as esperanças? assim, repassada a subitas de calor e luz

pelo sol dos espiritos, pelo amor, a alma recemnascida de Galatéa

adivinhou para logo a adoração de que era alvo. Comprehendeu a turbação

que inspirava, pela que sentia. Viu nas profundezas interiores do

seu ser, diaphanas como um lago limpido, a sua pureza virginal, a sua

magica-branca, a sua suavidade irresistivel, o seu destino de ser feliz

felicitando.

A turbação instinctiva de um pudor que a si proprio se ignorava, cobriu

o rosto de Galatéa do mais amavel escarlata; abaixou a vista sobre si

mesma, e não sabendo para onde se refugiar, mariposa attrahida da luz,

voou para os braços do amante, escondendo o seio no peito d'elle,

fechando os olhos para não ser vista.

N'este momento a Philoméla, occulta na folhagem de um platano visinho,

entoou um brilhante epithalamio, e o hymeneu fechou as cortinas

purpureas do aposento.

A Chave do Enigma · 第 37 / 95 题