Lêstes sem duvida a historia de Pygmalião; então sabeis como aquelle
phantasioso escultor, com a arte no coração, e a fé na alma, lavrou uma
estatua, se ennamorou e endoideceu por ella.
O sol da Grecia, que tantos portentos allumiou, nunca vira coisa assim
formosa.
O Real estatuario, pois era Soberano, esqueceu por ella mais que o seu
throno de oiro, e os seus estados que o adoravam; esqueceu todas as
beldades de umas regiões como aquellas, digno berço de Venus e das
Graças, e onde os lacteos marmores e as ceras coloradas, para copiarem
aos olhos as formosas do Olympo, e povoarem os templos com Hebes e
Junos, Dianas e Minervas, de mais não precisavam que retratar os bandos
vivos e buliçosos das filhas da terra. A todas offuscava para elle,
para elle Jupiter do cinzel, a Pallas brotada da sua cabeça poetica
e fogosa; assim a lua cheia, ao levantar-se de traz dos cumes selvaticos
dos Dáctyles, desterra o scintillante cardume das estrellas.
Não contente de a vêr todo o dia, vinte vezes se levantava cada noite
para tornar a vêl-a, e de cada vez lhe descobria gentilezas novas. Com a
alampada trémula na mão, erguendo-a, abaixando-a, ora de longe, ora de
perto, a rodeava, scismando, palpitando, sorrindo, figurando-se-lhe
vêl-a corresponder com a expressão do aspecto ás blandicias com que
elle, mais poeta que Anacreonte, a affagava. ¡Oh! ¡que não daria elle
por ter a lyra de Orpheu e de Amphião, cujos sons escutados pelas pedras
as animavam!
Ás plantas nuas da sua Galatéa, mil vezes rebeijadas, tomava as suas
refeições, offerecendo-lhe sempre com suave convite as primicias de
Baccho e Ceres, os mais perfeitos favos de Hybla e do Hymetto, e os mais
delicados dons de Pomona, que em canistreis de vimes de prata lhe vinham
pôr deante virgens, por quem o Pae dos numes se metamorphosearia vinte
vezes.
Cochichavam ellas entre si, e riam doidinhas á socapa os mais tentadores
risos que sabiam, sem nunca lograrem que os olhos fitos nos da estatua
se abaixassem, nem por descuido, para os d'ellas. Retirada a mesa,
fechava o Principe as portas eburneas do aposento, incendia-se com
segundas libações rituaes de Naxos e Chios; exhalava o seu fogo
tresdobrado em abraços e beijos; cingia de perolas e diamantes o collo e
os pulsos da effigie; banhava-a com essencias de nardo e dictamo;
engrinaldava-lhe a fronte com as rosas mais frescas das emmolhadas em
vasos aureos esculpidos, coroando-se com as restantes a si mesmo;
tornava a encaral-a; e o reflexo das flôres de Amathunta, que Sapho
algum dia havia de proclamar rainhas de todas as flôres, e a que a Mãe
de Cupido fadára as mais extranhas seducções, quando as viu retintas com
sangue do seu Adonis, aquelle reflexo purpurino no alvor das faces lhe
parecia, no seu estatico enlevo, uns assomos do pudor virginal
sobresaltado com a desnudez propria, com a solidão e voluptuoso
desamparo do sitio, com o olhar a um tempo supplicante e audaz do
adorador.
Era então que, delirante, perdido de desejos impossiveis, elle se lhe
pendia amorosamente ao pescoço, forcejava por animal-a com ósculos; e
reconhecendo quanto eram baldados os seus desejos, imbebia o rosto
ardente entre os arfantes seios, frios, de marmore, e os áljofrava com
um chuveiro de lagrimas. Nestas porfias, sem victoria nem derrota, se
lhe exhauriam as forças; deixava-se cahir esmorecido para cima do tapete
de purpura de Tyro, cerrava os olhos, e um somno transparente, um
meio-sonho, dando-lhe por momentos a posse da sua beldade, ouvindo-a,
sentindo-lhe palpitar o coração, repassando-se do seu calor, o
restaurava, para se tornar com mais vehemencia, em acordando, á sua
adoração perpétua, ás suas cubiças insensatas.
A deusa dos mil amores, que perscruta até ao intimo os corações dos
mancebos, podia bem ter ciumes d'aquella pobre e insensivel beldade tão
amada; mas foi generosa; generosa... não: antes muito justa. ¿Não era
aquelle o mais solemne culto, o culto mais sincero e desinteressado que
jámais se rendêra á sua divindade?
Não odiou a Galatéa; sorriu-lhe como para uma irman mais nova; mirou-se
n'ella complacente como n'um espelho. A filha das ondas do Egeu foi
benigna para a filha dos marmores de Paros.
--«¿O amor que nasceu de mim--dizia ella--não me tem a mim propria
ferido e felicitado, tantas vezes? ¿Por que não farei eu que esse amor,
não menos maravilhoso, que nasceu d'aquella, lhe dê tambem um quinhão
nos céos que eu disfructo sem limite?»--
Pygmalião, o Rei artista, havia afeiçoado para muitos altares os mais
perfeitos, os mais adoraveis simulacros da Immortal; e se não se
inflammára por elles, como agora por este de Galatéa, era só por que a
santa majestade do ser divino lh'o prohibira; mas os templos, em que os
milagres d'essa arte crente e inspirada resplandeciam alvejantes, eram
sempre os mais frequentados, os mais servidos com offertas, sacrificios,
e grinaldas. A officina mesma, em que avultava entre um povo de outras
estatuas e grupos a estatua da sua rival em fascinações, era sympathica
aos olhos da Omnipotente, e sollicitava o seu favor. As pombas, que a
ella lhe vogam o carro aereo, jungidas com festões de murta, tinham
ali entrada livre. Dos loireiros rosiflores, e das grutas dos jardins do
palacio, esvoaçavam-se familiares até aos peitoris das janellas, sempre
francas ás inspirações dos ceos diáphanos, do cicío das auras pela
folhagem, e do estrépito das fontes, melodias como de nautas migdóneas.
D'ali observavam, conversando umas com outras, a profusão que lá dentro
ia, de coisas tão brancas, tão suaves: ¡tanta nympha! ¡umas, trajadas
como para chorêas! ¡outras, despidas como para o banho! ¡e entre todas,
e sobresahindo a todas, o vulto da propria deusa, tão sua conhecida, e o
de Galatéa, não menos celeste, candida como ellas, e, a julgar pelo
sorriso, como ellas affectuosa! Alguma das espreitadeiras aladas dizia
então lá pela sua lingua ás companheiras:--«¡Olhae, olhae como está em
ambas enlevado! os escravos chamam-lhe Rei, mas não é tal: é, como nós,
um captivo do amor; ¡e de quão benigna condição!... é reparar-lhe no ar,
nos movimentos. ¿Não vêdes como olha para nós, tão benevolo, e quasi
invejoso, quando nos beijâmos? entremos sem medo, que nos não ha-de
fazer mal. ¡Mal aquelle!... Apostaria eu que já foi pomba, antes de ser
gente. Chôva-lhe a nossa rainha, como sobre nós, amores sem espinhos, e
delicias renovadas de hora a hora.»--
A estancia era então invadida pelo bando festivo. Pygmalião exultava,
tomando por feliz agoiro ver as conductoras do coche de Dióne
arraiarem-lhe a casa toda com os reflexos argenteos das suas azas
irrequietas, e cobrirem de ternura, de voluptuosidade, de poesia, como
um veo alvo, roto, e esvoaçado, as estatuas dos dois idolos do seu coração.
¿Não era tudo isto mais que bastante para merecer á mãe do amor um
prodigio sem exemplo, e que a ficasse glorificando nas lyras namoradas
de todo o mundo?...
Acabava um dia o Principe de queimar aos pés de Venus, segundo o seu
costume de todas as manhans, uma copiosa oblação do mais puro incenso.
Tinha regado o fogo, em que elle fumava n'uma amphora de bronze, com
vinho amadurecido havia cem annos pelos oiteiros pampinosos de Chypre, e
reservado em talhas de barro para sacrificios aos deuses maximos. Tomada
respeitosamente venia da Immortal, transporta por suas mãos o vaso
depositario do fogo para deante de Galatéa. Quer offerecer-lhe, ainda
que em segundo logar, porção igual, tanto da rescendente massa, orgulho
da Arabia, como do liquido generoso. Enganou-se-lhe a mão no incenso, e
lançou nas brazas porção avantajada. Venus sorriu, e não se agastou. As
distracções do amor, ninguem melhor do que ella as conhece por experiencia.
Emquanto o veo alvacento do innebriante fumo, elevando-se d'ante o
pedestal da nympha, a envolvia toda, e tornava a sua presença mais
celestial, Pygmalião, acompanhando-se com a lyra de sete cordas, cantava
de joelhos um hymno, que as pombas escutavam n'um silencio religioso;
pareciam querer decorál-o para o repetirem á sua rainha, quando ella se
jazesse em amoroso ocio, reclinada sobre as violetas em algum secreto
pavilhão de rosaes da sua Paphos:
--Tu que exhalas de ti, qual vérte a rosa aromas,
effluvios de prazer, universal ternura,
Mãe das Graças e Amor, deusa da formosura,
que envolves a nudez co'o veo das aureas comas,
Venus; pois que são teus os ceos, a terra, os mares,
e até ás sombras do Orço abrange o teu poder,
lança um propício olhar, Venus, aos meus pezares;
do teu jugo me solta, ou dá-me emfim morrer.
Com tão cruel supplicio, ignoto á humanidade,
ria teu filho em vão, tu, deusa, és mais piedosa.
Ardo por uma pedra em chamma vergonhosa,
perdi a paz e a gloria, o siso e a liberdade.
Qualquer ente alardeia ufano os seus amores:
a ave, piando; o peixe, aos pulos pelo mar;
o rebanho, mugindo; em cantos os pastores;
e eu, Venus, só a ti ouso este ardor mostrar.
¡Quão menos insensato o moço do Cephyso
se finou por si mesmo ao pé do espelho aquoso!
Suppoz a sombra nympha; espera ser ditoso;
cai no engano; perece; apiadas-te, é Narciso.
E eu, eu sei que a beldade, iman d'est'alma ardente,
só a mim deve o ser; nasceu de minha mão;
não me ouve, não me vê, não se condoe, não sente;
não lhe pude formar lá dentro um coração.
¡Ó Venus! se ha mulher que eu possa crer retrato
do immenso que sonhei compondo a Galatéa,
revela-me onde habita a amavel Semidéa;
assim teu filho Amor jamais te offenda ingrato.
Seja embora pastora, obscura, humilde, escrava;
terá por choça um throno, e por captivo um Rei;
e eu, já salvo da insania, eu, que a teus pés chorava,
a ti uma hecatomba alegre immolarei.»--
Ainda bem não findára a prece, quando lhe pareceu notar nos labios da
Immortal um sorriso auspicioso. O Cupido, que junto d'ella estava em pé,
e que era tambem obra de suas mãos, agitou as azas de marmore, soprou as
labaredas petrificadas do facho, que instantaneamente coruscaram, e
rompendo por entre a cortina do incenso, que ainda envolvia a nympha,
lhe lustrou com o milagroso calor a fronte, os olhos, as faces, a bocca,
o seio, o coração. Ao fogo d'este segundo e divino Prometheu, a estatua
estremece; a pallida brancura se tinge da côr da vida; o peito palpita;
os olhos se voltam para o céo da Grecia, que logo os embebe do seu mais
brilhante azul; baixam sobre Venus; ¡parecem attonitos! descem;
¡encontram-se com os de Pygmalião! duas rosas subitas se abrem nas
faces; o sorriso, aurora de uma existencia de amores, alvorece em labios
nacarados.
--«¡Filha dos meus sonhos!» «¡Galatéa!--» exclama o artista delirante,
correndo a tomál-a em braços, ao vel-a descer do pedestal. «Galatéa,
¡filha dos meus sonhos! ¡se é esta uma nova illusão que Morpheu me
envia, compassivo, mas cruel, possa eu não acordar jámais!»
¿Vistes vós alguma vez rasgar um dia magnifico depois de uma noite
profunda? ¿Notastes como então sahiam do nada as amenidades das terras e
dos rios, a animação e o movimento dos campos e das cidades, as côres,
os cantares e as esperanças? assim, repassada a subitas de calor e luz
pelo sol dos espiritos, pelo amor, a alma recemnascida de Galatéa
adivinhou para logo a adoração de que era alvo. Comprehendeu a turbação
que inspirava, pela que sentia. Viu nas profundezas interiores do
seu ser, diaphanas como um lago limpido, a sua pureza virginal, a sua
magica-branca, a sua suavidade irresistivel, o seu destino de ser feliz
felicitando.
A turbação instinctiva de um pudor que a si proprio se ignorava, cobriu
o rosto de Galatéa do mais amavel escarlata; abaixou a vista sobre si
mesma, e não sabendo para onde se refugiar, mariposa attrahida da luz,
voou para os braços do amante, escondendo o seio no peito d'elle,
fechando os olhos para não ser vista.
N'este momento a Philoméla, occulta na folhagem de um platano visinho,
entoou um brilhante epithalamio, e o hymeneu fechou as cortinas
purpureas do aposento.