Maria conhecia-me pelos meus livros e pelas minhas cartas; alguma coisa
era; mas os meus escrupulos melindrosos pediam mais: enviei-lhe o meu
retrato, uma expressiva miniatura em marfim. A mão engenhosa do pintor,
não paga de me reproduzir, enchera de um rosal florescente o fundo do
seu painelinho; era o poeta da _Primavera_, rodeado dos seus preteritos
amores. Guardo-o como preciosidade e reliquia; ¡se andou tanto tempo
occulto no seio com que eu sonhava!... A carta em que ella me agradecia
este pequeno penhor, repoisa, outra reliquia, no mesmo cofre junto
d'elle; seria profanação o publicál-a. Fique ali a sonhar eternamente a
immensa ternura de que a repassou a melhor, a mais carinhosa mão de
quantas jamais pegaram na penna para revelar a uma alma a formosura de
outra.
É a este segundo periodo das nossas relações, começado ao desfazer-se a
nuvem da divindade, deixando apparecer a mais sympathica das mulheres,
que pertence inteiro o livro sobre que emprehendi derramar agora alguma
luz.