¡Que digo! ¿Esta mesma digressão aqui não é porventura uma sobreprova de
quanto o amor, na sua mais vasta accepção, o amor que não suppre assim a
poesia senão porque o é, constitue o caracter do pobre homem? Nem os
desenganos o desenganam; nasceu affectivo; affectivo tem vindo
caminhando pela vida fóra, da primavera para o estio, do estio para o
outomno, que já se lhe desverdece, e nem os gêlos do inverno lograrão
provavelmente resfrial-o.
Na festa da Primavera, n'esses dias do amor só sensual e egoista, bem
que innocente, ¿que pedia elle aos amigos para quando já não existisse?
Deixae-me escutar n'um ecco d'alma aquelles versos:
Depois que entre os abraços delirantes
de todos os que amei findar meus dias,
sepultae-me n'um valle ignoto e fertil.
Para marcar da sepultura o sitio,
sobre o cadaver que vos foi tão caro
mangeronas plantae, cuja verdura
em roda fecham variados lirios.
Na raiz funda da soberba olaia
poise a minha cabeça, e o tronco amigo
sobre mim curve a copa florescente.
Mil piteiras unidas, ostentando
na hastea vaidosa as flores amarellas,
em quadrado não grande me defendam
das incursões das cabras roedoras.
Em meu tronco se escreva este epitaphio:
_Foi poeta amador da Natureza:_
_d'entre as sombras ancioso a procurava,_
_qual terno amante a bella fugitiva._
Sobre isto pendurae sonora flauta,
que se revolva á discreção do vento.
Não cerque os ossos meus, não m'os ensombre,
nem teixo nem cipreste; arvores quatro
quizera só no meu jardim de morte.
N'um canto a laranjeira graciosa,
que mescla util e doce, a flor e o fructo;
n'outro a figueira sob as amplas folhas
modesta occulte seus nectáreos mimos;
defronte um pecegueiro em fructos mostre
que amavel é pudor, quando enche faces
de penugem subtil inda cobertas;
no ultimo canto... (a escolha me confunde)
plantae no ultimo canto uma ginjeira;
é a arvore da infancia, até na altura;
d'esta por sua mão colhe um menino
a mui ridente baga, e ri de ufano.
Alguns tempos depois que a fria terra
meus restos encerrar, á minha olaia
vós, meus amigos, vós dareis meu nome,
pois de mim se nutriu, e eu serei n'ella.
Dos guerreiros nos tumulos afiem
faminta espada os barbaros guerreiros;
no sepulcro do sabio o sabio estude;
e dos Reis nos marmoreos monumentos
vá sonhar a ambição grandeza e pompas;
vós soltos de freneticas loucuras
aqui vireis mil vezes visitar-me,
na amizade pensar que nos unira,
e unir-nos deverá transposto o Lethes.
¿Por que me interrompeis com taes suspiros?
¡ah! deixae-me acabar. Quando sentados
em torno a mim na flórida alcatifa,
guardardes meditando alto silencio,
se d'entre as mangeronas que me cobrem
sahir acaso a borboleta errante,
¿não vereis n'ella o espirito do amigo
que vem gozar do sol a claridade?
Quando o suave rouxinol de noite
da minha olaia gorgear nos ramos,
¿não pensareis, de santo horror tranzidos,
que feito rouxinol, meus cantos sólto?
Sim, pensareis, e erguendo-se inspirado
algum lhe ha-de bradar: «¡Oh! ¡meu amigo!»
Responderão: «Oh meu amigo» os bosques;
e vós direis que o meu phantasma errante,
da argentea lua á muda claridade,
á conhecida voz d'alem responde,
e em tudo encontrareis a imagem minha.
Se inda então meus costumes vos lembrarem,
se vos lembrar meu coração piedoso,
velae que em meu retiro as bellas aves
de caçador cruel cantem seguras;
Amor, o leve Amor, com arco d'oiro,
só elle, e mais ninguem logre atirar-lhes;
careço de amorosa melodia
que me poetize o somno derradeiro;
morto que nada tem, preciza d'estas
pobres delicias rusticas, se folga
que a namorada moça, o terno amante,
juntos, ou sós, a visitál-o acudam.
Então ao som de languidos suspiros,
de alegres cantos, de amorosos versos,
de ternas queixas, de perdões suaves,
muitas vezes contente a minha sombra,
formando ao pôr do sol vermelha nuvem,
girará n'estes ares revolvendo
da passada existencia almas lembranças.
Andaram tempos. Amores mais serios, mais vastos, mais duradoiros, mais
uteis, ainda que menos entendidos das turbas a quem se referiam,
inspiraram já outros desejos:
Ó terra de Colombo, um navio de esmola
do abysmo te evocou, e aurea brotaste á luz.
Por outra regia Heroina esmolada uma escola
vai transformar-te em ceos, terra de Santa Cruz.
E eu, que já uma vez, largando o patrio ninho,
romeiro do progresso em balde te busquei,
retomarei de novo o undívago caminho,
e irei juntar meu hymno ao seu triumpho; irei
pender na escola-templo os festões da poesia,
e, novo Simeão, findar a vida em paz.
Onde o homem que se humana affoito invoca o dia
direi:--«A patria é esta; aqui viver me apraz;
«apraz-me aqui morrer, onde as mães porventura
co'os filhos pela mão me hão-de vir visitar;
saudades esparzir na minha sepultura,
e dizer: _Este sim, que soube o que era amar._»
Passaram tempos ainda, e até essa esperança consolativa se desfloriu.
Ouvi o esmorecimento não já cantar, mas gemer, no seio da amizade:[1]
«Depois vem a reparação, a rehabilitação, não ha duvida. Do sepulcro
brota o loiro, e a posteridade amarra a elle os inimigos dos amigos dos
homens, os areopagitas idolatras envenenadores dos Socrates crentes. Mas
as cinzas não sentem; as estatuas não vêem nem ouvem.
«O premio que eu devaneava a principio, quando via tão ás claras a
bondade da obra que estava fazendo, era que os filhinhos, e as mães, me
acompanhariam, chorando, ao cemiterio. A esse côro de amor imaginava que
até o cadaver se me alegraria. Não dava aquelle triumpho posthumo pelas
torrentes de carroagens e salvas funebres dos magnates. Pois nem já
com isso conto. Conseguiu esta gente, não sei se invejosa, se quê,
diffundir tão copiosamente os seus preconceitos, escurecer em tanta
maneira a luz do beneficio, que nem já espero aquillo. As mães
ver-me-hão passar, sem saberem quão grande amigo de seus filhos e netos
ali vai; e d'estes só porventura me irão dar despedida os que n'esta
hora estão cantando e amando por essa meia duzia de escolas regeneradas».