XIII

Saiamos d'aqui a toda a pressa, leitores amigos, antes que nos degenere

em paginas de santa mas feia indignação, um escripto que eu vos prometti

e destinei todo pacifico e amoravel. Torno-me pois á minha Arcadia da

mocidade, como o soldado mal ferido das guerras, e ainda mais dos

menoscabos que dos golpes, se acolhe á quieta poisada em que se creou.

Apóz algumas tentativas incertas e incoherentes de lavor poetico, de que

o publico se esqueceu, e eu quizera esquecer-me tambem, foi a fabula

selvatica de Narciso e Ecco a primeira producção que me rebentou nativa,

e verdadeiramente congénita áquella indole campestre e amoravel, que os

successos e os estudos me tinham andado a preparar desde o principio.

Nunca jámais essas singelas _Heroides_, impetuosamente e quasi de

improviso brotadas (posso hoje dizer isto sem jactancia, e sem que os

entendidos m'o descreiam) ousaram esperar o extraordinario, o excessivo

favor com que foram recebidas, multiplicadas em edições sobre edições em

Portugal e no Brazil.

¡Ora, quem poderia jámais lembrar-se de que um livrinho assim, todo vão,

todo fabuloso, uma especie de globo de espuma, nascido de um sopro para

boiar nas virações por alguns instantes, espelhando os verdes da terra e

o azul de cima, e apagar-se para sempre, filho do nada restituido ao

nada, conteria o germen de uma historia muito real!

Pois foi assim: Das _Cartas d'Ecco e Narciso_, sahiu, como de flôr

ephemera um fructo, o _Amor e Melancolia_, este _Amor e Melancolia_, que

já não era um devaneio e um canto, mas sim registo disfarçado de uma

historia do coração: _lacrimæ rerum_.

A Chave do Enigma · 第 26 / 95 题