Saiamos d'aqui a toda a pressa, leitores amigos, antes que nos degenere
em paginas de santa mas feia indignação, um escripto que eu vos prometti
e destinei todo pacifico e amoravel. Torno-me pois á minha Arcadia da
mocidade, como o soldado mal ferido das guerras, e ainda mais dos
menoscabos que dos golpes, se acolhe á quieta poisada em que se creou.
Apóz algumas tentativas incertas e incoherentes de lavor poetico, de que
o publico se esqueceu, e eu quizera esquecer-me tambem, foi a fabula
selvatica de Narciso e Ecco a primeira producção que me rebentou nativa,
e verdadeiramente congénita áquella indole campestre e amoravel, que os
successos e os estudos me tinham andado a preparar desde o principio.
Nunca jámais essas singelas _Heroides_, impetuosamente e quasi de
improviso brotadas (posso hoje dizer isto sem jactancia, e sem que os
entendidos m'o descreiam) ousaram esperar o extraordinario, o excessivo
favor com que foram recebidas, multiplicadas em edições sobre edições em
Portugal e no Brazil.
¡Ora, quem poderia jámais lembrar-se de que um livrinho assim, todo vão,
todo fabuloso, uma especie de globo de espuma, nascido de um sopro para
boiar nas virações por alguns instantes, espelhando os verdes da terra e
o azul de cima, e apagar-se para sempre, filho do nada restituido ao
nada, conteria o germen de uma historia muito real!
Pois foi assim: Das _Cartas d'Ecco e Narciso_, sahiu, como de flôr
ephemera um fructo, o _Amor e Melancolia_, este _Amor e Melancolia_, que
já não era um devaneio e um canto, mas sim registo disfarçado de uma
historia do coração: _lacrimæ rerum_.