E na verdade, já que estamos conversando desenfadados, sinceros, e sem
armar a vanglorias, ou, por outra, já que me estou confessando dos meus
peccados de poesia pratica, direi aqui (embora quebre o fio da narração,
depois o atarei) que, estendendo a consideração por todo o longo e
variado decurso da minha vida até hoje, não descortino em toda ella
senão... (¿como direi isto que me não afronte em demasia?) senão um
predominio constante da phantasia sobre a realidade; uma extranheza
activa e passiva dos homens, successos e coisas do mundo, em que vivo
como que emprestado, semi-pagão, semi-classico, semi-republicano dos
Gracchos, semi-conviva de Mecenas, semi-Tityro, semi-captivo das
Corinnas e Delias, e, com tudo isto, a esvoaçar-me sempre da poesia que
foi, ou que se nos figura lá traz, para outra que lá adiante ri aos
santos amigos da humanidade, aos utopistas.
Sempre que o individuo, de quem falo, entrou, ou cuidou entrar, na politica
(n'esta parte, Deus louvado, já escrevo o necrológio) foi sempre levado do
enthusiasmo, ignorante da historia contemporanea, e da mesma politica, não
ajuramentado a bandeira de côr alguma, não adstricto a tal ou tal plano de
estadista, curando pouco de nomes, e menos ainda de interesses proprios;
foi campeão sem divisa de uma causa apenas prophetisada, vaga, confusa,
remotissima.--a civilisação pela moral, pelo amor, pelo trabalho, e pelo
saber. Pueril e incorrigivelmente seduzido por miragens humanitarias e
poeticas, nunca passou entre os politicos positivos de alvitrista
chimerico, e homem para nada; pugnou com o ardor de quem reivindicasse
algum morgado pingue, pugnou até vencer (¡vêde isto!) para que se fechasse
aos tentados de suicidio a paragem vertiginosa que mais por seu contagio os
attrahia; empenhou sabios em procurarem remedio, se o houvesse, que
diminuisse as duas pestes:--duello, e infanticidio; incitou para o cultivo
serio das Lettras quantos talentos esperançosos descobriu; foi de todos
amigo sem inveja, pregoeiro sem restricções; propoz para os veteranos dos
estudos e da poesia uma Runa gloriosa, abundante, e aprazivel, em vez do
hospital que ainda não mandou queimar a enxerga de Camões, á espera dos que
poderão vir; pediu, e tambem debalde (¡debalde até isto!) um Campo Elysio
terrestre para os mortos memoraveis; suas effigies postas pelo publico
agradecido nos passeios, e uma lamina commemorativa pregada pelo Municipio
na frontaria de cada casa, testemunha do nascimento, dos trabalhos, ou do
obito, de um benemerito; procurou e descobriu as reliquias do Cantor dos
_Lusiadas_, para que as desagravassem; forcejou com a persuasão para que se
desse á agricultura o seu apreço, á imprensa o mais amplo favor, premios
reaes aos talentos operosos e productivos, subsistencia e honra aos
educadores, ensino liberal, christão e ameno á puericia; pela puericia, que
é a nação de amanhan, fez mais, muito mais, quanto poude e mais do que
podia: invocou por ella ceo e terra, throno e plebe, sabios e ignorantes,
ricos e miseraveis, o clero e as mulheres; foi na vanguarda dos consociados
para se promover a educação popular; fez-se, a expensas de tudo seu,
mestre-escola de plebeus e descalços; evangelisou de terra em terra o novo
ensino, o ensino racional, a centenares de professores honestos; pelejou na
imprensa, com o amor e com o odio, desde a supplica até á verrina, em prol
dos calcados direitos da infancia, da maternidade, e da Patria; e
convencido, pela evidencia dos factos, resposta eloquente e peremptoria aos
negadores das vantagens da reforma, que riem, que riem da caridade, que
riem da philosophia, que riem do progresso, que riem de seus filhos, que
riem de si mesmos, deixou pendente a envelhecer por dez annos, desenfeitada
e esquecida, a sua lyra (¡oh! ¡milagre summo de uma fé verdadeira!), para
andar sollicitando a redempção e o baptismo de luz dos captivosinhos de
sete e menos annos; foi levar o beneficio espontanea e gratuitamente ao
Brazil; ambicionou que lh'o acceitassem do mesmo modo na Hespanha e na
Italia. Se n'estes dois lustros de lidas obscuras, só pagas com desgostos,
alguma hora se recordou de poetar, foi só para convidar com o exemplo
e com o discurso talentos melhores que o seu a encetarem cantares
de civilisação, a enxertarem nos loireiros estereis alguns ramos
fructuosos; e não se levantou da cadeira de um ensino quasi ignobil aos
olhos do mundo, senão para escrever livros sem vulto, mas necessarios ou
uteis:--_Noções rudimentaes_;--_Guia pratica de mestres_;--_Tratado
de Metrificação_;--_Tratado de Mnemonica_;--_Felicidade pela
instrucção_;--_Felicidade pela agricultura_;--_Tentativas grammaticaes_--um
_Curso de lingua latina_;--e, de envolta com tudo isso, requerimentos
reiterados e instantes aos poderosos, ás sociedades, ás academias, aos
principes, aos tribunaes de instrucção, para que o ajudassem.
Quando um Rei _amigo dos que trabalhavam_, e cheio elle mesmo de nobres
ambições, convidava ao poeta de outr'ora para ir colher fructos de oiro
num ensino altamente litterario, ousou o poeta pedir-lhe commutação no
serviço, offerecendo-se-lhe operario para a trasladação dos monumentos
classicos romanos á lingua patria, por entender que ia n'isso muito
maior vantagem aos estudos e á poesia, ainda que para elle menos lucro e
menos brilho.
Todos estes rasgos de loucura se provam e documentam d'aquelle pobre
sonhador, a quem, deneguem tudo mais, coração e muitissimo não lh'o
podem contestar.