que nào chegava; nem quero tomar tão humilde vingança de quem me foge,
nem (como alguns costumam) dizer mal de meu proprio desejo: a empreza é
facil, e só no muito, que ha para dizer d'ella, difficultosa: porém se a
copia aos discretos empobrece, (como um d'elles disse) nào pode ser que
a do ouro faça effeito tào desegual; pois que n'elle consiste toda a
riqueza. Bem o posso invocar como poderoso, e desejar ao menos uma bôcca
de ouro, de que sahiram dignamente os seus louvores; mas é tào inimigo
do que lhe quero, que, por me offender a mim, fugíra d'elles. E
começando do nascimento d'este desejado metal, que quanto mais queremos
culpar engrandecemos: Nasce (como Pindaro disse) nas entranhas dos
montes, porque até a mesma natureza nos ensinou a fazer d'elle thesouro,
pondo tantos muros da terra, para o defender, para que tambem a
difficuldade e rareza lhe dê maior valia. Logo sahindo da mina, onde se
cria, e provado no fogo, em que se apura, começa a fazer competencia com
sua formosa côr ás mais bellas obras da natureza. O mais nobre dos
planetas, que é o sol, dourado nos apparece, e o seu luzente carro com
raios de ouro allumia a terra: o fogo, mais nobre e poderoso dos
elementos, da sua côr se veste; o arco celeste, que nas tempestades da
terra nos assegura, perfilado de ouro se descobre; as nuvens ao pôr do
sol, da sua côr guarnecem os horisontes. As rosas brancas e encarnadas,
os lirios roxos, e azues, as cecens brancas, os bem-me-queres, e as
boninas com uma roza dourada no meio se guarnecem, e enfeitam para os
olhos dos homens; os fructos das arvores, quando chegam á sua desejada
perfeição, e as searas na fertilidade de suas espigas se tornam de ouro:
e as mais formosas creaturas humanas, com as cabeças douradas, mostram
sua belleza; e a esta imitação trazem os principes, e monarchas do mundo
o ouro sobre a cabeça; os reis e imperadores nas corôas, os papas nas
thiaras, os bispos nas mitras, e as matronas illustres nos toucados, ao
pescoço, sobre o peito, e pendurado das orelhas, nos dedos, e nos
braços, fazendo voluntarias prisões de sua formosura. No culto divino
elle orna e aformosea os templos sagrados, as cruzes, imagens,
retabulos, calices, patenas, lampadas, e castiçaes; com elle se adornam
os tectos, frizos, columnas, pedestaes, e todos os ornamentos, e
vestiduras da egreja. Batido em moeda é preço, e resgate das cousas de
maior valia, sem que n'elle se começasse o trato, e commercio do
dinheiro: pois antes que o cunhassem de ouro, o houve de prata, cobre, e
latão: assim que, sem prejudicar a seus louvores o mal que usam d'elle
os avarentos, lhe podiamos com razão chamar formosura do mundo; ornato,
e guarnição de todas as virtudes. A humildade carregada de ouro se
inclina mais, e é mais formosa, como foi a de Primislau primeiro rei de
Bohemia; que no maior poder de sua riqueza, e senhorio, mandava trazer
ante si as alparcas de pastor com que se creara, mandando que andassem
em morgado a seus descendentes para antidoto contra a soberba da
dignidade real. E deixando exemplos estrangeiros, a nossa rainha Santa
Izabel, o nosso infante D. Fernando, a nossa infante D. Sancha, D.
Branca, e D. Joanna, e o condestavel D. Nuno Alvares Pereira, bem
douraram com sua grandeza, e poder a virtude da humildade. Com o ouro se
exercita, e põe em pratica a liberalidade, que sem elle parecera virtude
sem mãos; que mal as tivera Marco Antonio triumviro para aquelle excesso
de magnificencia, que usou com um amigo, se o não tivera: porque,
mandando-lhe dar pelo seu thesoureiro vinte cinco mil escudos, parecendo
ao avarento creado que aquella largueza nascia da ignorancia de seu
senhor, lhe mostrou aquella quantidade de dinheiro sobre uma meza,
dizendo lhe que aquillo era o que mandava dar. Mas o romano por
desmentir a malicia do thesoureiro (que entendeu logo) lhe disse:
Fizeste bem de me avisar; que não cuidei que dava tão pouco: pelo que
sobre estes accrescenta outros vinte cinco mil; e dá-lhe cincoenta. O
mesmo, e quasi pelo mesmo modo, ouvi que acontecera a um principe de
Hespanha com seu pae, mandando dar a uma moça humilde trinta mil
cruzados. E vindo aos nossos exemplos: bem dourou e engrandeceu a
liberalidade com seus poderes o nosso primeiro rei D. Affonso Henriques,
que nas terras, que conquistava, edificou mais egrejas ricas, que Paços
Reaes, e casas pobres: bem o seguiram os mais de seus descendentes em
differente modo. D. Pedro o justiçoso com os pobres, que até a manga do
braço direito mandava fazer mais larga, e comprida, para alcançar a
todos no fazer mercês, como o mesmo rei dizia. Seu filho el-rei D. João
o I, foi tão liberal com os vassallos que o serviram, que deixara sem
patrimonio a corôa, se el-rei D. Duarte seu filho não fizera a lei
mental, com que limitou sua largueza. El-rei D. Manuel com os poderes de
sua riqueza, e a magnificencia de sua condição assombrou as nações
extranhas, e ao nome portuguez fez mais honrado. A castidade mais
excellente, e formosa parece guarnecida de ouro, que nos humildes trajos
da pobreza; e por isso foi tão louvada em Scipião, que poderoso, rico, e
vencedor, quando entrando Carthago lhe offereceram captiva uma formosa
dona, e bem nascida, em logar de gosar d'ella a mandou honradamente
acompanhada a seu marido com o resgate, que por sua liberdade lhe
offereciam. Não faltou esta excellencia em muitas donzellas do sangue
real d'este reino, que, deixando riquissimos dotes da ventura,
offereceram a Deus este da natureza. E se é celebrado el-rei D. Affonso
o Casto em Hespanha, não desmerecia este nome o rei portuguez, que
persuadido de seu valoroso animo, e errado conselho, perdeu a vida nos
campos africanos. A paciencia quanto é mais louvavel e excedente no
poderoso rico, que no miseravel, em quem não tem execução a ira, nem a
vingança. Rico e poderoso no mundo era Filippe, rei de Macedonia, que
perguntando aos embaixadores athenienses o que lhe queriam, respondeu
com inconsideravel liberdade um d'elles, que _vêl-o sem vida_; e elle
voltando aos outros com muita brandura disse: _Dizei aos Athenienses que
mais modesto é quem soffre essas palavras, que os sabios de Athenas, de
quem elles se prezam_. E se contam d'el-rei D. Affonso I, rei de
Napoles, que, sabendo que um creado seu dizia mal d'elle, lhe fez muitas
mercês, com que elle obrigado disse depois de suas obras mil louvores; e
o rei avisado d'isto disse: _Folgo que esteja em minha mão dizerem bem
de mim_: tambem houve rei em Portugal que em muitas occasiões usou o
mesmo termo, como se verá da chronica d'el-rei D. João o II, e de muitas
memorias do III, não esquecendo a paciencia d'el-rei D. Diniz com seu
filho, e a d'el-rei D. Pedro, sendo principe, com seu pae. A temperança
medida por vasos de ouro, e ainda á vista d'elle, é mais estimada: como
a de Curio, que com o ouro dos Samnitas deante não deixou a panella de
couves, e nabos que cozinhava; antes respondeu aos que lh'o traziam, que
não era necessario a quem com tão humildes viandas se sustentava. A
sobriedade, e temperança nos nossos reis naturaes é tão louvada, que de
mui poucos sabemos que bebessem vinho, e de nenhum que comesse
demasiado: e tanto pareceu isto bem ás nações extrangeiras, que a
imperatriz D. Leonor, filha d'el-rei D. Duarte de Portugal, e mulher de
Frederico III, Imperador de Allemanha, não tendo geração, e averiguando
os medicos que por a frialdade d'aquella provincia não concebia, porém
que, se bebesse vinho, teriam filhos; ella não consentio no remedio: e
Frederico disse que antes queria sua mulher esteril, que mal acostumada.
A caridade, subida sobre columnas de ouro, se levanta sobre as
estrellas; e ainda nos que sem lume da Fé a conheceram, com o poder do
ouro a sustentaram: como Cimon Atheniense, poderoso, e rico, que mandava
abrir as portas aos jardins e pomares, que tinha para que entrassem
livremente os necessitados a colher seus fructos: mandava aos seus que,
achando algum velho mal vestido trocassem com elle os seus para o
melhorarem; dava todos os dias banquete publico aos que mendigavam pela
cidade: e aos pobres de qualidade sustentava com esmolas secretas. Não
fôram n'isto os nossos reis e principes portuguezes inferiores, como o
testemunham os varios hospitaes, mosteiros, casas de caridade, e santos
costumes, que deixaram n'este reino, para agasalhar peregrinos,
sustentar, e vestir pobres, e curar enfermos e feridos: no que fôram,
entre os outros, insignes os reis D. Affonso I, D. João I, II, e III, e
o insigne cardeal e devoto rei D. Henrique. Á diligencia com muita razão
lhe calçáram os antigos esporas douradas, pois o duro estorvo da
pobreza, como pintou Alciato, impede as azas e limita os passos á
diligencia. Com ouro e com os poderes d'elle conquistaram Alexandre, e
Cesar em mui limitados annos a redondeza: o nosso rei D. Diniz com os
poderes d'elle accrescentou em seu reino quarenta e quatro villas com
castellos, e fortalezas; izentou a Ordem de S. Thiago de Portugal; e
instituio a de Christo; e fez os primeiros estudos de Coimbra. E os reis
D. João, e D. Manuel descobriram, e ganharam para a Fe as terras do
Oriente com tanta inveja, como espanto das nações extrangeiras. De
maneira que, se os avarentos, que usam mal do ouro e das riquezas,
guerream com elle contra as virtudes, nenhuma cousa ha que tanto como
elle as engrandeça e alevante. E se os cubiçosos na sua conquista perdem
tantas vidas, muitas mais se compram, e resgatam a preço d'elle. E
deixando o balsamo de ouro, tão admiravel nas feridas, o ouro potavel,
tão celebrado dos distilladores nas enfermidades; qual risco da vida,
qual perigo ou necessidade d'ella, qual oppressão ou captiveiro não
remio o ouro? Elle faz a formosura das cidades, a belleza dos edificios,
a fortaleza dos exercitos, a bizarria dos trajos, a galanteria das
côrtes: com elle se alcançam n'ellas as honras, dignidades, titulos, e
privanças, e até os louvores e as mesmas graças da natureza: todos o
buscam, o desejam, e o conquistam: e ainda os outros metaes se querem
converter n'elle por meio de alquime; os animaes se rendem á sua
formosura; pois não ha caça mais certa que a que se toca com laço de
ouro, nem melhor pescaria que a que se alcança com anzol d'elle: e é tão
grande a fôrça de seus poderes, que se atreveu a dizer um auctor, que na
maior furia de um leão, de um tigre, e de outra qualquer féra, se lhe
lançarem moedas de ouro deante, amansarão com ellas sua braveza. E
passando por todas as cousas da terra sua valia, podem os ricos subir ao
céo por escadas de ouro, e dar-lhe com elle assalto e bataria, pondo as
balas e settas d'este metal nas mãos da caridade. E de elle se subir em
tanta altura nasce ficar de mim tão longe, como está de ser digno de
seus louvores meu humilde talento, que, se fôra de tão illustre metal,
tudo alcançara.
A todos pareceu extremada a oração de Solino, posto que alguns a
esperavam menos grave, e mais engraçada: e assim lhe disse
Leonardo:--Parecestes-me esta noite mais orador insigne, que murmurador
galante. Folgo que, errando eu a eleição, acertasseis vós tambem os
louvores.--Não vos agradeço (respondeu elle) os que me daes; por quanto
d'antemão vos vingastes d'elles. Porém se quereis vêr em outrem com
gravidade o que de mim esperaveis como satyra e agudeza, pois os bens e
males do ouro estão encetados; diga o senhor prior agora os poderes do
interesse, que no successo da sua peregrina achará largo campo para esta
materia.--Essa é mui larga (disse o prior) e são passadas muitas horas
da noite; e eu me não escusara com ellas, se não imaginara que todas as
verdades, que cahem sobre este sujeito, hão de parecer murmuração.
Porque dizer que o interesse tudo vence, e a tudo alcança, é sentença
antiga, e experiencia moderna; porém, se particularisar os modos e
termos, com que batalha, será ir com os dedos aos olhos de muitos. Se
disser que o interesse quebrou muitos sceptros reaes, quem se defenderá
d'elles? Se affirmar que torce, e derriba varas da justiça, quantas se
virarão para castigar-me? Se ousar a dizer que profana as leis, e
offende a immunidade das egrejas, temo que até na minha me neguem a
entrada. Se contar que é carta de seguro de salteadores, couto de
homicidas, torre do facinorosos, e merecimento de descuidados, quantos
se levantarão contra minha verdade? Só direi em um conto breve o que de
sua valia se pode presumir na necessidade; e será julgar pelas unhas o
leão, e pela pisada de Hercules a medida de sua grandeza.
Um homem curioso, bem intencionado, e não mal entendido, andou alguns
annos na milicia do Oriente: e vindo d'elle a este reino para se
despachar, trouxe entre algumas cousas de menos valia, que curiosidade,
umas imagens de santos, e anjos de marfim, maravilhosamente obrados. E
depois de entrar em seu requerimento, deu conta a um amigo, pratico nas
cousas da côrte, do estado de seus negocios; aconselhou-o elle como
convinha e buscando entre o movel, que trouxera, peça que podesse
offerecer a um ministro, com quem tinha intelligencia, lhe inculcava
aquelles santos de marfim, que o tinham muito affeiçoado.--Como (disse
elle) não trouxestes da India algum pagode, ou idolo de ouro d'esses
gentios?--Para que? lhe perguntou o pouco esperto requerente.--Ah,
respondeu o amigo, que para o que vós pretendeis, e cá se costuma, _Mais
podem diabos de ouro, que anjos de marfim_. E assim não me parece que
está mal o dito vulgar do povo, _que o interesse é diabo_. E pois o
tempo é tão curto, seja isto uma cifra do que se pode dizer de seus
poderes; que são tão grandes, que a mim me tiram a liberdade de falar,
contra o desejo que tenho de vos obedecer. E sendo elles taes, e o ouro
o principal interesse de todos, mui bem lhe cabem com os males, que
Pindaro d'elle disse, os louvores com que Solino o celebrou fazendo a
differença sómente no uso d'elle. Que se Santo Agostinho lhe chamou
enfermidade da soberba, fraqueza das virtudes, materia de trabalhos,
perigo do possuidor, senhor insoffrivel, e escravo atraiçoado; Santo
Ambrosio, laço do demonio; S. Chryzostomo, escola dos vicios, e doença
da alma; e se d'elle nasceu a Cresso a soberba, a Heliogábalo e
Sardanápalo a luxuria, a Nero a crueldade, a Cómmodo e Vitelio a gula:
se por elle Polycrates morreu na forca, Cresso na fogueira, Crasso
degolado, Heliogábalo arrastrado, e outros ricos tiveram fins
semelhantes; não teve a culpa o ouro, senão a má avareza de quem o
possuia, ou a cubiçosa sede do que o desejava; pois elle nos animos
livres não impede o caminho das virtudes, antes lhes dá forças, lustre e
grandeza: como em um Constantino Magno, que enriqueceu a egreja Romana;
um Carlos IV, que comprou com elle a vida; um Emmanuel, que honrou o
nome Portuguez, o dilatou a fé catholica pelo Oriente; um Lourenço de
Medicis, que honrou Florença: um Leonardo Lauredano, que libertou
Veneza; um Carlos Brugi, que soccorreu a esterilidade de Flandres; e
outros muitos, que o souberam dispender valorosamente. De maneira que
n'elle está a condemnação ou justificação, a morte ou a vida de quem o
possue ou deseja. Para o que eu acho extremada aquella historia, que
toca Auzonio poeta em um seu epigramma. E é que um homem desesperado com
uma paixão, que teve, se hia enforcar em um logar secreto, levando
comsigo o baraço, em que havia de deixar a vida. Succedeu que com a
força que fez, cahindo uma parte da terra n'aquelle logar, se lhe
descobrio um thesouro; a cuja vista mudou logo o pensamento: e, levando
o que achara, deixou em seu logar o baraço que trazia. Vindo depois o
que alli o escondera, e achando-o menos, e em seu logar a tentação de
sua desventura, fez, porque perdera um thesouro, o que o outro deixou de
fazer porque o achara: de modo que a um deu a vida o ouro, a outro matou
a avareza d'elle.--Com tão boa historia (accudiu D. Julio levantando-se)
é razão que vamos satisfeitos, e deixemos ao senhor prior bem
agazalhado, posto que pelo interesse de sua conversação deixara eu
muitos dos que os outros desejam; porque se a opinião dos cubiçosos deu
preço ao ouro e pedraria, á conversação dos sabios o não pode tirar a
mesma ventura.
DIALOGO VIII
DOS MOVIMENTOS, E DECORO NO PRATICAR
Foi-se o prior da casa de Leonardo em apparecendo o dia: e n'ella em
vindo a noite se ajuntaram os amigos, sentindo grandemente a falta
d'aquelle que os deixara. Foi essa a primeira cousa, de que trataram: e
entre outras disse Feliciano:--Por todas as razões se devia desejar a
conversação de tão discreto, e douto cortezão, como é o prior, em todo o
tempo, mas n'este das noites do inverno muito mais: e n'ellas encherá
elle muito bem o seu logar; porque, além de saber e auctorisar o que diz
com o fundamento das lettras e curiosidade que tem, é muito composto e
engraçado no que fala: e por extremo me pareceu bem aquelle modo de
encarecer negando na materia do interesse, e o descrever com brevidade
nas historias.--Quanto mais ouvirdes d'elle (lhe respondeu Leonardo) vos
parecerá melhor. E sabei que, antes de trazer aquelles habitos parecia
muito bem nos de côrte; e que debaixo dos compridos pode ainda dar
lições d'ella a muitos de capa e espada.--Parte é o falar bem (accudiu
D. Julio) que leva tudo após si: e não consiste este bem só nas razões
discretas e palavras escolhidas, senão no bom modo e graça de as dizer:
o que eu comparo a uma cousa escripta de boa ou ruim lettra; que a boa
aformosea, e dá ser, côr, e graça ao que lêdes; e a ruim desconcerta,
empeça, e afeia as razões, sendo todas umas: e não faltarão mui perto
exemplos d'esta verdade.--Fujamos das comparações para a doutrina (disse
Pindaro) e melhor fôra ser essa a materia, em que se gastára este
serão.--Ainda vos ficaram sobejos do passado (tornou Solino) pois vos
adeantaes da companhia: porém eu a quero fazer ao vosso voto, se ha de
ir aos mais.--Nem a mim me descontenta (disse Leonardo) se o doutor nos
abrir o caminho.--Sempre (respondeu elle) me mandaes deante como os
frades menores nas procissões; quero-os tambem imitar na obediencia:
porém lembro-vos que são duas materias as que tocou o sr. D. Julio,
convém a saber, a graça, e composição do rosto e corpo no falar, e o
concerto das palavras, e discrição das razões.--Essa divisão parece
escusada (disse Leonardo) porque a graça não se aprende, nem se pode
alcançar por arte, pois é mero dom da natureza--Todas as cousas d'ella
(tornou o doutor) se aperfeiçoam e melhoram com a arte: e, para saberdes
logo esta verdade, tomarei á minha conta o em que vos parece que ha
menos que dizer; e fique á vossa a demazia.
Primeiramente no movimento, e graça do falar, chamou Marco Tullio
_eloquencia do corpo_: e Quintiliano disse que com todas as partes
d'elle se ha de ajudar a pratica. E posto que esta doutrina parece que
convinha então aos oradores, como agora aos prégadores, uns e outros
praticam, e em todo o tempo é necessaria: e assim pintaram alguns o
jeroglifico da rhetorica com uma mão aberta, outra cerrada.--Muito
contraria me parece essa lição (disse D. Julio) á policia da côrte, onde
é regra que o homem ha de falar com a lingua, e ter quieto o corpo e as
mãos.--Eu concertarei essa regra com as minhas (replicou o doutor), que
o homem no falar nem ha de parecer estatua, nem bonifrate: e logo vereis
que o que quero dizer é o mesmo, em que vos quereis anticipar. O
primeiro instrumento da pratica é a voz: e, para essa ser engraçada no
falar, ha de ter estas propriedades, _Ser clara, branda, cheia, e
compassada_: porque a voz escura confunde as palavras, a aspera e secca
tira-lhes a suavidade; a muito delgada e feminina faz impropria a acção
do que fala; a muito apressada empeça e revolve as razões, que por si
podem ser muito boas: não trato das que a natureza inhabilitou para esta
perfeição, como é a voz do gago, do cicioso, e do rustico grosseiro: mas
na do cortezão tomara eu estes attributos; porque ha alguns que falam
com a voz tão mettida por dentro, que deixam as palavras para si, e os
ouvintes ás escuras, que lhes é necessario estar espreitando o que lhes
querem dizer: e outros, que pronunciam com tanta aspereza, que espinham
as orelhas dos que escutam; e outros, que falam tão apressadamente, que
parece que levam esporas na lingua.--Entre vozes (disse Solino) tambem
eu hei de soltar a minha: e no que é a voz cheia, que dizeis, quizera
saber a differença; porque eu tenho que ainda é peor a muito grossa que
a feminina: porque ha homem que, quando fala, mais parece tom de baixo,
que espirito de voz. E egualmente aborrece vêr um homem com um rosto
como uma peneira, muito versudo da barba e sobrancelhas, sahir com voz
de frauta muito exprimida.--O meio (respondeu o doutor) em todas as
cousas é a perfeição d'ellas: e se estaes bem lembrado, tambem deixei de
fora a voz grosseira, como a quem a natureza privou da graça no falar.
Depois da voz, os olhos dão muito espirito ás razões: porque, como elles
são as janellas d'alma, por elles se communica vida ás palavras: e assim
hão de ser claros, alegres e moviveis: porque os muito intensos, e
extendidos entristecem; os muito apertados e franzidos movem a desprezo;
os muito abertos, pasmados, e sahidos para fora, fazem temor; e posto
que os olhos, por risonhos, nunca perdem a graça, parece que nas
praticas graves, e de importancia, não hão de ser muito
chocalheiros.--N'isso tendes vós muita razão (disse D. Julio) que ha
homens. que dão olhado ao que falam: porém não vos esqueçaes das
sobrancelhas.--Tambem a acção do falar toma muito d'ellas (tornou o
doutor) porque franzidas fazem carranca, e mostram que fala um homem com
melancholia; baixas representam tristeza, ou vergonha; muito arqueadas
significam espanto; e levantadas alegria. E não menos convém a
composição da barba, que fincada nos peitos mostra desconfiança ou
porfia; e posta no ar vangloria: e o pescoço, que nem se ha de ter tão
levantado que faça soberba nas palavras, nem tão baixo, que pareça que
não pode com a cabeça; a qual não ha de estar tão firme, que pareça que
a espetaram n'elle; nem se hade quebrar para todas as partes como
grimpa. Da mesma maneira a bôcca ha de ser quieta quando fala, sem estar
mordendo beiços, nem torcendo-se, nem inchando com as palavras; nem com
o riso se ha do mostrar tão descuidada, que as entorne pelos cantos; nem
tão apertada, que offenda a boa pronunciação e graça d'ellas; no que vae
mais á lingua portugueza, que a outras muitas: porque sabemos que todas
as nações orientaes naturalmente opprimem a voz na garganta quando
falam, como os Indianos, Persas, Assyrios, e Chaldeus: e todos os
Mediterraneos referem as palavras aos padares da lingua, como fazem os
Gregos, Frygios e Asiaticos: e todos os occidentaes, como os Francezes,
Italianos, e Hespanhoes, mastigam as palavras entre os dentes, e as
pronunciam na ponta da lingua: posto que em alguns logares, conquistados
outro tempo dos Africanos, ficaram usos e palavras, que ainda obrigam a
sua pronunciação; mas os que estão mais izentos d'ella são os
Portuguezes, como aqui na primeira noite da nossa conversação se tocou.
Além d'estas partes do rosto tem o movimento do corpo o seu logar: que
pode parecer airoso, quando fala, mostrando as materias sobre que fala
nos contos, historias, graças ou galanterias, não representando o que
diz com meneios de comediante, nem com modestia e compostura sobeja, mas
com uma boa sombra, e um termo no persuadir assocegado, no relatar mais
ligeiro, no arguir esperto, no desculpar ou defender-se mui brando; nem
fazer badallos dos pés quando fala assentado, bolindo sempre: nem estar
com os olhos n'elles quando passeia. Sobre todos os mais gestos ou
acções, que tenho tocado, se ajuda a pratica do movimento das mãos, que
ha de ser com um leve ar e compostura, com que o discreto favorece as
palavras que diz, não falando com ambas ellas, nem chegando com alguma
perto da vista dos ouvintes; e guardando estas e outras advertencias
semelhantes, pode fazer um homem uma agradavel gentileza no praticar,
emendando algumas faltas da natureza, ou favorecendo com o cuidado as
graças, que ella lhe dotou: não tratando dos incuraveis, a que já não
possam valer estes remedios; mas dos que á falta d'elles, e com o largo
discurso de maus costumes se vieram a fazer incuraveis.--Parece que daes
a entender, senhor doutor, (disse Pindaro) que ha mais algumas
advertencias, que podem ser de importancia n'esta materia: e, para a
tratar de fundamento, não é razão que fiquem de fora.--Para essas e para
o mais, que tenho dito (respondeu elle), nomearei alguns vicios, que são
contra o bom termo da pratica; que, reprovados n'ella, acreditarão as
minhas opiniões, a que eu não posso nem quero dar nome de preceitos,
posto que são fundadas em os melhores dos que d'esta materia escreveram.
O primeiro é _escutar-se um homem a si proprio quando fala, por se
contentar do que diz_.
O segundo _repetir outra vez o que tem dito, com os olhos nos ouvintes,
para que lh'o gabem_.
O terceiro _deter-se tanto nas palavras como que as vae pezando, e
compondo para as dizer_.
O quarto _ir-se arrimando a bordões para que lhe accudam em tanto as
palavras_.
O quinto _ir á mão ao que quer responder, por querer falar tudo_.
O sexto _bracejar muito, e dar grandes risadas a seus proprios ditos_.
O setimo _borrifar as palavras com o humidade da bôcca, por falar com
vehemencia_.