Houve em Italia, em um dos mais conhecidos logares d'ella, um honrado

pae de familia, nobilissimo por geração, rico de bens procedidos da

herança e nobreza antiga de seus antepassados, dotado de muitas partes,

e graças da natureza, e tão liberal do que possuia, que mais parecia

dispenseiro das riquezas, que carcereiro d'ellas. Teve este em sua

mocidade um filho tão industrioso e experto nos negocios de mercancia,

que ajuntou em poucos annos grande copia de dinheiro, o qual elle

guardava com tão solicito cuidado, como costumam os que com cobiça e

trabalhos o adquiriram: e era notavel espanto aos naturaes verem em um

velho a largueza e liberalidade de mancebo; e em o filho a avareza e

tenacidade de velho. O pae, que o via responder tão mal a suas

inclinações, e que já com a edade e continuação de gastar largo, estava

menos rico, muitas vezes lhe dizia e aconselhava com brandura que

conservasse, com o que ganhara, a honra que tinha de seus passados; e

não degenerasse d'elles, por seguir a villeza do interesse: que usasse

das riquezas como nobre, e favorecesse a velhice de quem o creára, e

honrasse aos pequenos irmãos que tinha; que fosse proveitoso aos amigos

e parentes; benigno aos pobres e se não captivasse ao trabalho de

enthesourar riquezas sem fructo. Mas como falar a um morto, e aconselhar

a um avarento é cuidado vão, nenhum effeito faziam os paternos rogos em

sua má natureza. Succedeu que o senado d'aquella republica por a

nobreza, e pessoa do mancebo, e pela industria e sagacidade que

mostrava, o elegeram em companhia de outros para ir com uma embaixada a

Roma ao Summo Pontifice. Depois de sua partida, vendo o pae occasião ao

que havia muito que desejava, mandou secretamente fazer chaves falsas,

com que entrou na camara do filho; e abriu os cofres em que aquelle

inutil thesouro estava depositado; e com a brevidade que o desejo lhe

pedia, vestiu a si, a sua mulher e filhos custosamente; deu libré a seus

creados; comprou ricas armações e baixellas; encheu a estrebaria de

cavallos formosos; fez esmolas a muitos pobres; acudiu em occasiões a

parentes e amigos necessitados; dispendeu emfim aquella prata e ouro que

o filho com muitas vigilias ajuntára da maneira em que elle, quando

florescia em riquezas usava d'ellas. Gastado o dinheiro encheu os saccos

em que antes estava, de miudos seixos e areia: e posto tudo na mesma

ordem em que o filho o deixára, tornou a fechar os cofres e as casas

como d'antes. Tornou depois o filho da sua embaixada: e os pequenos

irmãos o foram esperar á entrada da cidade vestidos custosamente, e com

o magnifico apparato de que então usavam. Vendo-se o irmão rodeado

d'elles ficou confuso; e enleado lhes perguntou logo d'onde houveram tão

ricos vestidos, e tão formosos cavallos. Ao que elles com uma

simplicidade innocente responderam que seu pae e senhor vivia com

differente largueza da que d'antes tinha; e que outros trajos e cavallos

de maior preço lhe ficavam. Entrando depois em casa de seu pae, nem a

ella, nem a elle conhecia, pelo differente estado em que a deixára: e

como n'esta mudança se lhe não aquietava o coração, foi-se com muita

pressa aonde o tinha posto. Entrou na sua camara, abriu os cofres: e

vendo que os saccos estavam cheios, e da maneira que elle os deixára, se

aquietou, porque não dava logar a mais vagarosa experiencia a pressa com

que os companheiros o chamavam, e o senado o esperava. Depois que deu

fim a aquella obrigação (que a elle não pareceu que fosse tão custosa)

fechando-se devagar no seu aposento, abriu as arcas e os saccos, em que

lhe parecia que estava a sua bemaventurança; e vendo o engano da areia e

seixos que dentro tinham, começou a gritar com grandes lamentações e

brados. A que primeiro, que todos, acudiu o generoso velho,

perguntando-lhe que tinha? de que se queixava? e quem o offendera? Ai de

mim (disse elle) que me roubaram as riquezas, que com tantos trabalhos,

e em tão largo discurso de annos tinha grangeadas. Como é possivel que

te roubaram (respondeu o pae) se eu vejo esses cofres e saccos cheios,

que parece que não podiam tirar nada d'elles, nem elles levarem mais? Ai

triste de mim (tornou o filho) que o de que elles estão cheios, não é do

ouro e prata, com que os deixei; que não tem agora mais que pedras e

areia sem proveito. A isto respondeu o generoso pae, sem no rosto fazer

mudança: Ah! enganado filho! que importava para ti que estes saccos

estivessem cheios de ouro fino ou de areia grossa, se a tua avareza te

não deixava fazer nas obras differença d'ella? Cessaram os brados, mas

não já o sentimento do filho com esta resposta; que a mim me pareceu

digna de ser contada entre as mais celebres do mundo.

--Eu a tenho por tal (disse o prior), e a historia por maravilhosa para

o nosso intento; e andou muito bem o pae de cumprir em vida o testamento

do filho; porque, como disse Pub. Mimio, nenhuma cousa o avaro faz boa,

senão quando morre, porque deixa o que tem a quem possa usar d'elle.--E

o mesmo (disse Feliciano) escreveu que para ninguem o avarento é bom: e

para si peior que para todos; pois nem dispende, nem se aproveita: e

n'este sentido me parece maravilhosa a allegoria d'aquella engenhosa

fabula de Midas, que, pedindo aos deuses, como cobiçoso, que tudo o que

tocasse se lhe convertesse em ouro, perecia de fome na grande abundancia

do que pedira. E quando a necessidade o fez mudar a petição forçado do

mal, que como bem procurára, lhe mandaram que se fosse lavar ao rio

Pactolo; que fez corrente do que elle queria fazer estanque, pondo em

suas douradas areias, para communicar a todos, o que Midas só para si

queria ter usurpado.--Bem se representou em Midas (accrescentou Pindaro)

um cobiçoso no pedir e em se não aproveitar: que por isso disse Seneca

que mais facilmente se atreveria a alcançar da fortuna que désse, que de

um cobiçoso que não pedisse. Mas deixemol-os a elles com seu engano, e

falemos nos poderes do ouro, que é o para que Solino nos convidou a

noite passada.--Como é certo (disse elle) que para o ouro todos se

convidam de boa vontade, e vós, pela que tendes a este metal, parece que

estivestes de ponto sobre a materia.--Não a apontei (respondeu Pindaro)

por esse respeito, mas por me contentar da que escolhestes; e é desgraça

minha que para os outros levantaes d'ouros, e para mim de espadas.--Eu

me quero metter entre ellas (acudiu D. Julio) e se assim parecer aos

mais, diga Solino todos os males do ouro, pois tem boa mão para dizer

mal; o Pindaro todos os bens: e sobre o que ambos disserem ficará logar

aos mais de darem suas razões.--Errastes, sr. D. Julio (disse o doutor),

que para Solino dizer mal no sentido que vós quereis, ha de dizer bem do

ouro, e Pindaro os males.--Dou-me por vencido, respondeu elle:--E eu por

obrigado (disse Pindaro) a obedecer. Todos festejaram a eleição; e

ordenando que fosse o primeiro, começou d'esta maneira!

Se as causas são pelos effeitos conhecidas, e elles testemunham a

excellencia ou maldade d'ellas, qual o foi de maiores males e damnos na

redondeza, e metteu aos homens em mais perigosos trabalhos que o ouro, a

quem com muita razão podiam todos chamar _peste do mundo_? E posto que

os notaveis exemplos das destruições e ruinas que n'elle fez, podiam

tomar mais tempo do que agora tenho para tratar d'elle; quero começar

primeiro de seu nascimento, para que mostrem os seus arriscados

principios os desastrados successos para que a malicia humana o

descobriu. E não desprezando o que diz Plinio tão doutamente, que não

contentes os homens com o que a superficie da terra produzia para sua

recreação e mantimento, a formosura das arvores, a diversidade dos

fructos, a belleza e cheiro das flores, a verdura das hervas, o esmalte

das boninas, a abundancia dos legumes; quizeram desentranhar do centro

d'ella os segredos que a benigna natureza nos escondia. Nasce o ouro nas

entranhas dos montes, e nas arterias occultas dos penedos; e subindo

como arvore da profunda raiz, d'onde começa, vae espalhando os ramos em

desegual medida, convertendo o sol com seus poderes aquella materia

disposta e propinqua, até que chega a ser ouro, e se demonstra por

duvidosos signaes na face da terra; que logo d'aquella emprenhidão se

mostra triste, dando por indicios da riqueza que encerra, herva

descórada, delgada, subtil e sequinhosa areia, e barro leve, secco e sem

proveito; e até as aguas, que por entre as veias descem, sahem cruas e

com sabor pesado. Espreitando estes signaes a industria humana, entra

fazendo guerra ao profundo, caminhando por debaixo dos montes

sustentados em columnas da mesma terra, deixando a vista do sol e das

estrellas, pondo as vidas ao risco das ruinosas machinas, que mil vezes

o opprimem, que tanto a nossa sede fez cruel á benigna terra, que parece

menor temeridade tirar do fundo do mar perolas e aljofar, que do seu

seio o inimigo ouro, que ainda então o não é mais que nas esperanças.

Depois de tirado com tão custosas diligencias, sahindo como parto de

venenosa vibora, rompendo as maternas entranhas, com o fogo se aparta,

apura o aperfeiçoa. ficando menos apto para o serviço dos homens, na

cultivação dos campos e arvoredos, e mais apparelhado para sua

destruição e ruina: porque ou se lavra para ostentações e demasias da

vaidade, ou se bate e cunha em moeda, cujo preço tyrannisa os poderes e

graças da natureza. Tirou o ouro a valia a todas ellas, e fez em si

estanque de todos os commercios do mundo, no qual, antes que elle

apparecesse, se trocavam as cousas umas por outras, com uma composição e

trato mais conforme e obrigado á necessidade e commodos da vida que aos

roubos da cobiça, maldades da avareza e sobejidões da vaidade; e

apoderou-se tanto de tudo o que na terra havia, que veiu a ser preço até

da liberdade dos homens contra o direito natural, em que viviam. Foram

crescendo seus atrevimentos: e se antes de sahir do centro da terra

começou a matar homens, sahindo d'ella se levantou contra o céo, fazendo

guerra de rosto a rosto a todas as virtudes: tirou logo a vara das mãos

á justiça: e deitado em sua balança perverteu o fiel de sua egualdade.

Diga-o Commodo imperador, que todos os crimes de homicidios e insultos

deseguaes, remiu a preço de ouro, vendendo por elle publicamente não só

a pena dos delictos, mas os proprios logares dos julgadores. Cerrou os

olhos á misericordia, para não se compadecer dos affligidos: como se viu

no exercito de Tito Vespaziano, que tendo cercada Jerusalem, os

moradores, que opprimidos da fome se sahiam da cidade com licença sua,

enguliam primeiro uma pequena moeda de ouro, para que na passagem o

pudessem salvar dos inimigos; os quaes sabendo esta astucia, a dois mil,

que em dois dias sahiram da cidade, partiram pelo meio para lhes tirarem

do bucho a moeda, por não esperarem que com o termo commum da natureza

d'ahi a pouco espaço a lançassem fóra: assim que aquella pequena

quantidade de ouro, qual de finissima peçonha, lhes tirou a vida.

Derribou a columna, e quebrou os braços á fortaleza, atados com as

prisões de seu interesse: diga-o Ulysses que por elle vendeu a Priamo o

corpo de Heitor Troyano; e Aulo Posthumio, que a preço de ouro deixou a

empreza da guerra de Jugurtha, e a gloria d'ella. Desterrou do mundo a

fidelidade; pois por elle vendia Nicias aos romanos a vida de el-rei

Pyrrho seu senhor: Demonica a cidade de Efezo a Bresso capitão francez,

que de industria a afogou com peso de ouro: Tarpeia Romana, a entrada do

Capitolio aos Sabinos, que do mesmo modo com o peso de ouro e dos

escudos a acabaram. Depravou a piedade, e veneração que os antigos

tinham aos mortos, não perdoando a suas sepulturas, como el-rei Dario,

enganado com o letreiro da de Semiramis, que dizia que, se algum rei seu

successor se visse em necessidade, abrisse aquella sepultura, e acharia

um thesouro: elle confiado creu o letreiro, revolveu a pedra; e achou

outro que dizia: _Se não foras cobiçoso, não andaras desenterrando os

mortos._ Os romanos desenterraram os mortos de Corintho para lhes

tirarem a moeda que tinham por costume metter comsigo na sepultura; para

o que é mais notavel aquelle caso extranho que conta Paulo Diacono, de

Rodoaldo rei de Lombardia, o qual, porque seu pae se mandára enterrar

com as insignias reaes de ouro, abriu uma noite secretamente a

sepultura, e, depois de roubar e despojar o cadaver paterno, lhe

appareceu S. João Baptista, em cuja egreja aquelle corpo estava

enterrado; e reprehendendo-o rigorosamente, lhe mandou em castigo do

atrevimento que commettera, que mais não entrasse n'aquella sua egreja:

e assim querendo o rei alguma vez commetter a entrada, foi pelo mesmo

santo lançado fóra. O ouro sustenta e favorece a todos os peccados

capitaes, a soberba com suas pompas, apparatos e vaidades. As baixellas

de Midas, as grandezas de Cresso, os escravos de Claudio, o theatro de

Nero, as casas de Clodio, e todos os mais excessos da vangloria d'elle

nasceram. A avareza n'elle como em materia propria se conserva e

accrescenta; por elle deixava Oco, riquissimo rei dos persas, de sahir

de casa por não dar certas moedas de ouro ás mulheres que o sahiam a

receber como era costume d'aquelle reino, como conta Plutarcho. Nero

despojava por este as matronas bem vestidas, e roubava as tendas dos

mercadores: e Angeloto, de quem escreve Pontano que era tão avaro, que

se levantava de noite a furtar a ração a seus proprios cavallos; e sendo

achado pelo estribeiro ás escuras no furto, o açoutou cuidando que era

dos escravos da estrebaria. A sensualidade com o ouro se cria, pois a

força d'elle corrompe a pudicicia, como os antigos engenhosamente

significáram na fabula de Danae, a quem Jupiter enganou convertido em

chuva de ouro: d'elle nasceram os estupros de Commodo, os incestos de

Caligula, as luxurias de Heliogábalo, os adulterios de Julio Cesar; pois

só a perola com que conquistou a Servilia, mãe de Bruto, lhe custou

seiscentos sestercios. Por ouro tem a ira feito abominaveis estragos e

homicidos no mundo. Pygmalion matou a seu cunhado Sichueu por lhe roubar

o thesouro que tinha. Polimnestor tirou a vida a Polidoro, de quem era

tutor, por lhe roubar a herança das riquezas que esperava. As demazias e

sordidezas da gula, a delicia e sobejidão dos manjares com elle se

compram.--Das mezas de Cleópatra, das hortas e banquetes de Lucúlo, dos

manjares e convites de Heliogábalo elle tem a culpa. A venenosa inveja

n'elle, como em seu objecto natural, se emprega toda. Herifile invejosa

das manilhas de ouro de Adrasto entregou á morte Amfiarau seu marido; e

Julio Cesar invejoso das riquezas da Luzitania, se fez salteador das

cidades d'ella. A preguiça e descuido sobre o ouro descança e se

aquieta: elle fez preguiçosa e muda a lingua de Demósthenes com o preço

que lhe deram por não orar: e o symbolo e jeroglifico da preguiça foi o

kagado, por o vagar e peso com que se move. Que cousa com mais

difficuldade e tardança se abala, que um rico? E se a diligencia cahiu

em sorte á pobreza, pois a necessidade foi inventora das artes e

subtilezas; o peso do ouro entorpece os sentidos empregados todos

n'aquella materia: e, por conhecer esta verdade, Crates Thebano o afogou

no mar para apprender a philosophia. Pitaco e Anacarso não acceitaram a

Cresso o que lhes mandava: Anacreonte tornou a engeitar a Policrates o

que lhe déra: e Curio recusou aos Samnitas o grande peso d'elle que lhe

traziam.

Foi o ouro finalmente a ruina de todos os bens, que mereciam este nome;

e um veneno mortifero para a vida humana: e se muitos a perderam indo em

seus alcances pelo centro da terra, e outros buscando as extranhas, em

que elle se cria, por remotos climas entre irracionaes Ethiopes

feneceram; não estão seguros do mesmo damno os que dentro em suas casas,

e fechado em seus cofres o possúem. E fazendo pausa em seus males (que

para os contar todos fôra infinito) só um bem tem o ouro, que eu não

quero deixar á conta dos louvores de Solino, que é o que os Gregos

declararam n'aquelle seu celebrado proverbio, que diz: _O de que serve

ao ouro a pedra de toque, serve o ouro ao homem_; pois no toque d'elle,

como em um espelho de desenganos, é conhecido: e se elle d'esta minha

invectiva se houver por aggravado, vingança lhe tem dado a ventura até

ao que de seus males me fica por dizer.

Todos ficaram por extremo satisfeitos de ouvir a pratica de Pindaro; e o

prior a gabou de bem ordenada, e elegante; e gastaram n'isto algumas

razões, tendo os olhos em Solino, que começando a falar com engraçadas

mostras os obrigou a silencio, e disse:

Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume I) · 第 8 / 10 段