pae de familia, nobilissimo por geração, rico de bens procedidos da
herança e nobreza antiga de seus antepassados, dotado de muitas partes,
e graças da natureza, e tão liberal do que possuia, que mais parecia
dispenseiro das riquezas, que carcereiro d'ellas. Teve este em sua
mocidade um filho tão industrioso e experto nos negocios de mercancia,
que ajuntou em poucos annos grande copia de dinheiro, o qual elle
guardava com tão solicito cuidado, como costumam os que com cobiça e
trabalhos o adquiriram: e era notavel espanto aos naturaes verem em um
velho a largueza e liberalidade de mancebo; e em o filho a avareza e
tenacidade de velho. O pae, que o via responder tão mal a suas
inclinações, e que já com a edade e continuação de gastar largo, estava
menos rico, muitas vezes lhe dizia e aconselhava com brandura que
conservasse, com o que ganhara, a honra que tinha de seus passados; e
não degenerasse d'elles, por seguir a villeza do interesse: que usasse
das riquezas como nobre, e favorecesse a velhice de quem o creára, e
honrasse aos pequenos irmãos que tinha; que fosse proveitoso aos amigos
e parentes; benigno aos pobres e se não captivasse ao trabalho de
enthesourar riquezas sem fructo. Mas como falar a um morto, e aconselhar
a um avarento é cuidado vão, nenhum effeito faziam os paternos rogos em
sua má natureza. Succedeu que o senado d'aquella republica por a
nobreza, e pessoa do mancebo, e pela industria e sagacidade que
mostrava, o elegeram em companhia de outros para ir com uma embaixada a
Roma ao Summo Pontifice. Depois de sua partida, vendo o pae occasião ao
que havia muito que desejava, mandou secretamente fazer chaves falsas,
com que entrou na camara do filho; e abriu os cofres em que aquelle
inutil thesouro estava depositado; e com a brevidade que o desejo lhe
pedia, vestiu a si, a sua mulher e filhos custosamente; deu libré a seus
creados; comprou ricas armações e baixellas; encheu a estrebaria de
cavallos formosos; fez esmolas a muitos pobres; acudiu em occasiões a
parentes e amigos necessitados; dispendeu emfim aquella prata e ouro que
o filho com muitas vigilias ajuntára da maneira em que elle, quando
florescia em riquezas usava d'ellas. Gastado o dinheiro encheu os saccos
em que antes estava, de miudos seixos e areia: e posto tudo na mesma
ordem em que o filho o deixára, tornou a fechar os cofres e as casas
como d'antes. Tornou depois o filho da sua embaixada: e os pequenos
irmãos o foram esperar á entrada da cidade vestidos custosamente, e com
o magnifico apparato de que então usavam. Vendo-se o irmão rodeado
d'elles ficou confuso; e enleado lhes perguntou logo d'onde houveram tão
ricos vestidos, e tão formosos cavallos. Ao que elles com uma
simplicidade innocente responderam que seu pae e senhor vivia com
differente largueza da que d'antes tinha; e que outros trajos e cavallos
de maior preço lhe ficavam. Entrando depois em casa de seu pae, nem a
ella, nem a elle conhecia, pelo differente estado em que a deixára: e
como n'esta mudança se lhe não aquietava o coração, foi-se com muita
pressa aonde o tinha posto. Entrou na sua camara, abriu os cofres: e
vendo que os saccos estavam cheios, e da maneira que elle os deixára, se
aquietou, porque não dava logar a mais vagarosa experiencia a pressa com
que os companheiros o chamavam, e o senado o esperava. Depois que deu
fim a aquella obrigação (que a elle não pareceu que fosse tão custosa)
fechando-se devagar no seu aposento, abriu as arcas e os saccos, em que
lhe parecia que estava a sua bemaventurança; e vendo o engano da areia e
seixos que dentro tinham, começou a gritar com grandes lamentações e
brados. A que primeiro, que todos, acudiu o generoso velho,
perguntando-lhe que tinha? de que se queixava? e quem o offendera? Ai de
mim (disse elle) que me roubaram as riquezas, que com tantos trabalhos,
e em tão largo discurso de annos tinha grangeadas. Como é possivel que
te roubaram (respondeu o pae) se eu vejo esses cofres e saccos cheios,
que parece que não podiam tirar nada d'elles, nem elles levarem mais? Ai
triste de mim (tornou o filho) que o de que elles estão cheios, não é do
ouro e prata, com que os deixei; que não tem agora mais que pedras e
areia sem proveito. A isto respondeu o generoso pae, sem no rosto fazer
mudança: Ah! enganado filho! que importava para ti que estes saccos
estivessem cheios de ouro fino ou de areia grossa, se a tua avareza te
não deixava fazer nas obras differença d'ella? Cessaram os brados, mas
não já o sentimento do filho com esta resposta; que a mim me pareceu
digna de ser contada entre as mais celebres do mundo.
--Eu a tenho por tal (disse o prior), e a historia por maravilhosa para
o nosso intento; e andou muito bem o pae de cumprir em vida o testamento
do filho; porque, como disse Pub. Mimio, nenhuma cousa o avaro faz boa,
senão quando morre, porque deixa o que tem a quem possa usar d'elle.--E
o mesmo (disse Feliciano) escreveu que para ninguem o avarento é bom: e
para si peior que para todos; pois nem dispende, nem se aproveita: e
n'este sentido me parece maravilhosa a allegoria d'aquella engenhosa
fabula de Midas, que, pedindo aos deuses, como cobiçoso, que tudo o que
tocasse se lhe convertesse em ouro, perecia de fome na grande abundancia
do que pedira. E quando a necessidade o fez mudar a petição forçado do
mal, que como bem procurára, lhe mandaram que se fosse lavar ao rio
Pactolo; que fez corrente do que elle queria fazer estanque, pondo em
suas douradas areias, para communicar a todos, o que Midas só para si
queria ter usurpado.--Bem se representou em Midas (accrescentou Pindaro)
um cobiçoso no pedir e em se não aproveitar: que por isso disse Seneca
que mais facilmente se atreveria a alcançar da fortuna que désse, que de
um cobiçoso que não pedisse. Mas deixemol-os a elles com seu engano, e
falemos nos poderes do ouro, que é o para que Solino nos convidou a
noite passada.--Como é certo (disse elle) que para o ouro todos se
convidam de boa vontade, e vós, pela que tendes a este metal, parece que
estivestes de ponto sobre a materia.--Não a apontei (respondeu Pindaro)
por esse respeito, mas por me contentar da que escolhestes; e é desgraça
minha que para os outros levantaes d'ouros, e para mim de espadas.--Eu
me quero metter entre ellas (acudiu D. Julio) e se assim parecer aos
mais, diga Solino todos os males do ouro, pois tem boa mão para dizer
mal; o Pindaro todos os bens: e sobre o que ambos disserem ficará logar
aos mais de darem suas razões.--Errastes, sr. D. Julio (disse o doutor),
que para Solino dizer mal no sentido que vós quereis, ha de dizer bem do
ouro, e Pindaro os males.--Dou-me por vencido, respondeu elle:--E eu por
obrigado (disse Pindaro) a obedecer. Todos festejaram a eleição; e
ordenando que fosse o primeiro, começou d'esta maneira!
Se as causas são pelos effeitos conhecidas, e elles testemunham a
excellencia ou maldade d'ellas, qual o foi de maiores males e damnos na
redondeza, e metteu aos homens em mais perigosos trabalhos que o ouro, a
quem com muita razão podiam todos chamar _peste do mundo_? E posto que
os notaveis exemplos das destruições e ruinas que n'elle fez, podiam
tomar mais tempo do que agora tenho para tratar d'elle; quero começar
primeiro de seu nascimento, para que mostrem os seus arriscados
principios os desastrados successos para que a malicia humana o
descobriu. E não desprezando o que diz Plinio tão doutamente, que não
contentes os homens com o que a superficie da terra produzia para sua
recreação e mantimento, a formosura das arvores, a diversidade dos
fructos, a belleza e cheiro das flores, a verdura das hervas, o esmalte
das boninas, a abundancia dos legumes; quizeram desentranhar do centro
d'ella os segredos que a benigna natureza nos escondia. Nasce o ouro nas
entranhas dos montes, e nas arterias occultas dos penedos; e subindo
como arvore da profunda raiz, d'onde começa, vae espalhando os ramos em
desegual medida, convertendo o sol com seus poderes aquella materia
disposta e propinqua, até que chega a ser ouro, e se demonstra por
duvidosos signaes na face da terra; que logo d'aquella emprenhidão se
mostra triste, dando por indicios da riqueza que encerra, herva
descórada, delgada, subtil e sequinhosa areia, e barro leve, secco e sem
proveito; e até as aguas, que por entre as veias descem, sahem cruas e
com sabor pesado. Espreitando estes signaes a industria humana, entra
fazendo guerra ao profundo, caminhando por debaixo dos montes
sustentados em columnas da mesma terra, deixando a vista do sol e das
estrellas, pondo as vidas ao risco das ruinosas machinas, que mil vezes
o opprimem, que tanto a nossa sede fez cruel á benigna terra, que parece
menor temeridade tirar do fundo do mar perolas e aljofar, que do seu
seio o inimigo ouro, que ainda então o não é mais que nas esperanças.
Depois de tirado com tão custosas diligencias, sahindo como parto de
venenosa vibora, rompendo as maternas entranhas, com o fogo se aparta,
apura o aperfeiçoa. ficando menos apto para o serviço dos homens, na
cultivação dos campos e arvoredos, e mais apparelhado para sua
destruição e ruina: porque ou se lavra para ostentações e demasias da
vaidade, ou se bate e cunha em moeda, cujo preço tyrannisa os poderes e
graças da natureza. Tirou o ouro a valia a todas ellas, e fez em si
estanque de todos os commercios do mundo, no qual, antes que elle
apparecesse, se trocavam as cousas umas por outras, com uma composição e
trato mais conforme e obrigado á necessidade e commodos da vida que aos
roubos da cobiça, maldades da avareza e sobejidões da vaidade; e
apoderou-se tanto de tudo o que na terra havia, que veiu a ser preço até
da liberdade dos homens contra o direito natural, em que viviam. Foram
crescendo seus atrevimentos: e se antes de sahir do centro da terra
começou a matar homens, sahindo d'ella se levantou contra o céo, fazendo
guerra de rosto a rosto a todas as virtudes: tirou logo a vara das mãos
á justiça: e deitado em sua balança perverteu o fiel de sua egualdade.
Diga-o Commodo imperador, que todos os crimes de homicidios e insultos
deseguaes, remiu a preço de ouro, vendendo por elle publicamente não só
a pena dos delictos, mas os proprios logares dos julgadores. Cerrou os
olhos á misericordia, para não se compadecer dos affligidos: como se viu
no exercito de Tito Vespaziano, que tendo cercada Jerusalem, os
moradores, que opprimidos da fome se sahiam da cidade com licença sua,
enguliam primeiro uma pequena moeda de ouro, para que na passagem o
pudessem salvar dos inimigos; os quaes sabendo esta astucia, a dois mil,
que em dois dias sahiram da cidade, partiram pelo meio para lhes tirarem
do bucho a moeda, por não esperarem que com o termo commum da natureza
d'ahi a pouco espaço a lançassem fóra: assim que aquella pequena
quantidade de ouro, qual de finissima peçonha, lhes tirou a vida.
Derribou a columna, e quebrou os braços á fortaleza, atados com as
prisões de seu interesse: diga-o Ulysses que por elle vendeu a Priamo o
corpo de Heitor Troyano; e Aulo Posthumio, que a preço de ouro deixou a
empreza da guerra de Jugurtha, e a gloria d'ella. Desterrou do mundo a
fidelidade; pois por elle vendia Nicias aos romanos a vida de el-rei
Pyrrho seu senhor: Demonica a cidade de Efezo a Bresso capitão francez,
que de industria a afogou com peso de ouro: Tarpeia Romana, a entrada do
Capitolio aos Sabinos, que do mesmo modo com o peso de ouro e dos
escudos a acabaram. Depravou a piedade, e veneração que os antigos
tinham aos mortos, não perdoando a suas sepulturas, como el-rei Dario,
enganado com o letreiro da de Semiramis, que dizia que, se algum rei seu
successor se visse em necessidade, abrisse aquella sepultura, e acharia
um thesouro: elle confiado creu o letreiro, revolveu a pedra; e achou
outro que dizia: _Se não foras cobiçoso, não andaras desenterrando os
mortos._ Os romanos desenterraram os mortos de Corintho para lhes
tirarem a moeda que tinham por costume metter comsigo na sepultura; para
o que é mais notavel aquelle caso extranho que conta Paulo Diacono, de
Rodoaldo rei de Lombardia, o qual, porque seu pae se mandára enterrar
com as insignias reaes de ouro, abriu uma noite secretamente a
sepultura, e, depois de roubar e despojar o cadaver paterno, lhe
appareceu S. João Baptista, em cuja egreja aquelle corpo estava
enterrado; e reprehendendo-o rigorosamente, lhe mandou em castigo do
atrevimento que commettera, que mais não entrasse n'aquella sua egreja:
e assim querendo o rei alguma vez commetter a entrada, foi pelo mesmo
santo lançado fóra. O ouro sustenta e favorece a todos os peccados
capitaes, a soberba com suas pompas, apparatos e vaidades. As baixellas
de Midas, as grandezas de Cresso, os escravos de Claudio, o theatro de
Nero, as casas de Clodio, e todos os mais excessos da vangloria d'elle
nasceram. A avareza n'elle como em materia propria se conserva e
accrescenta; por elle deixava Oco, riquissimo rei dos persas, de sahir
de casa por não dar certas moedas de ouro ás mulheres que o sahiam a
receber como era costume d'aquelle reino, como conta Plutarcho. Nero
despojava por este as matronas bem vestidas, e roubava as tendas dos
mercadores: e Angeloto, de quem escreve Pontano que era tão avaro, que
se levantava de noite a furtar a ração a seus proprios cavallos; e sendo
achado pelo estribeiro ás escuras no furto, o açoutou cuidando que era
dos escravos da estrebaria. A sensualidade com o ouro se cria, pois a
força d'elle corrompe a pudicicia, como os antigos engenhosamente
significáram na fabula de Danae, a quem Jupiter enganou convertido em
chuva de ouro: d'elle nasceram os estupros de Commodo, os incestos de
Caligula, as luxurias de Heliogábalo, os adulterios de Julio Cesar; pois
só a perola com que conquistou a Servilia, mãe de Bruto, lhe custou
seiscentos sestercios. Por ouro tem a ira feito abominaveis estragos e
homicidos no mundo. Pygmalion matou a seu cunhado Sichueu por lhe roubar
o thesouro que tinha. Polimnestor tirou a vida a Polidoro, de quem era
tutor, por lhe roubar a herança das riquezas que esperava. As demazias e
sordidezas da gula, a delicia e sobejidão dos manjares com elle se
compram.--Das mezas de Cleópatra, das hortas e banquetes de Lucúlo, dos
manjares e convites de Heliogábalo elle tem a culpa. A venenosa inveja
n'elle, como em seu objecto natural, se emprega toda. Herifile invejosa
das manilhas de ouro de Adrasto entregou á morte Amfiarau seu marido; e
Julio Cesar invejoso das riquezas da Luzitania, se fez salteador das
cidades d'ella. A preguiça e descuido sobre o ouro descança e se
aquieta: elle fez preguiçosa e muda a lingua de Demósthenes com o preço
que lhe deram por não orar: e o symbolo e jeroglifico da preguiça foi o
kagado, por o vagar e peso com que se move. Que cousa com mais
difficuldade e tardança se abala, que um rico? E se a diligencia cahiu
em sorte á pobreza, pois a necessidade foi inventora das artes e
subtilezas; o peso do ouro entorpece os sentidos empregados todos
n'aquella materia: e, por conhecer esta verdade, Crates Thebano o afogou
no mar para apprender a philosophia. Pitaco e Anacarso não acceitaram a
Cresso o que lhes mandava: Anacreonte tornou a engeitar a Policrates o
que lhe déra: e Curio recusou aos Samnitas o grande peso d'elle que lhe
traziam.
Foi o ouro finalmente a ruina de todos os bens, que mereciam este nome;
e um veneno mortifero para a vida humana: e se muitos a perderam indo em
seus alcances pelo centro da terra, e outros buscando as extranhas, em
que elle se cria, por remotos climas entre irracionaes Ethiopes
feneceram; não estão seguros do mesmo damno os que dentro em suas casas,
e fechado em seus cofres o possúem. E fazendo pausa em seus males (que
para os contar todos fôra infinito) só um bem tem o ouro, que eu não
quero deixar á conta dos louvores de Solino, que é o que os Gregos
declararam n'aquelle seu celebrado proverbio, que diz: _O de que serve
ao ouro a pedra de toque, serve o ouro ao homem_; pois no toque d'elle,
como em um espelho de desenganos, é conhecido: e se elle d'esta minha
invectiva se houver por aggravado, vingança lhe tem dado a ventura até
ao que de seus males me fica por dizer.
Todos ficaram por extremo satisfeitos de ouvir a pratica de Pindaro; e o
prior a gabou de bem ordenada, e elegante; e gastaram n'isto algumas
razões, tendo os olhos em Solino, que começando a falar com engraçadas
mostras os obrigou a silencio, e disse: