--Vós (accudiu Solino) formastes aqui uns sete peccados mortaes contra a

discrição, e cortezania, que não merecerá n'ella ter graça quem n'elles

estiver culpado. Cada um dos presentes examine sua consciencia, porque

receio que falaes de proposito contra alguem.--É tão má a vossa natureza

(lhe tornou o doutor) que quer perverter a minha boa tenção, e d'estes

peccados contra a policia tirar outros que offendam a amisade: vale-me

porém ser a vossa conhecida. E proseguindo a materia dos vicios, os tres

primeiros nascem do amor proprio que cada um tem a suas cousas, a que os

gregos chamaram _Filaucia_: os quatro seguintes, ou da ignorancia, ou do

descostume e falta de doutrina cortezã. Escutar-se um homem, quando

fala, é de quem bem lhe parece o que diz: e posto que o vicio é natural,

tem ruim patria; que o homem, que se escuta, é lisongeiro de si mesmo, e

elle se paga por si de suas palavras, vendo-se e enfeitando-se n'ellas

como em espelho, conforme os proverbios antigos, que _a cada um parece o

seu formoso_; e outro, que _não ha melhor musico que cada um a si

mesmo_; e que _a cada um contenta o seu rosto, a sua arte, e cheira bem

o seu suor_.--Outro (disse Solino) me parece a mim melhor que todos

esses, porque os declara; e é que _quem se contenta a si contenta a um

grande nescio_; que não pode deixar de o ser o que do seu engano se

satisfaz. E não achareis discreto d'esse feitio, que não caia nos tres

primeiros laços: porque são encadeados uns com outros: e em se escutando

um homem a si, o vereìs ir encarecendo as palavras com as sobrancelhas,

enchendo com ellas a bôcca, e pronunciando-as com muito

cuidado.--D'esses disse Horacio (accudiu Pindaro) que _falavam empolas_;

é está muito bem o nome á inchação das suas palavras. Mas o segundo

vicio, que é da repetição, parece menor erro; porque o que é bem dito se

pode repetir, conforme ao que disse o poeta; e só será a culpa quando o

dito não fôr acertado.--Essa estimação não ha de ser feita por seu dono

(respondeu Solino), nem elle pode pôr o preço a suas palavras, cuidando

que fala ouro; em obras alheias, referidas por outrem, tem logar essa

desculpa; e não se podem servir d'ella os que com os olhos, e com a

repetição do que disseram, estão puxando por vós a que lh'as gabeis, e

vos contenteis á força da sua razão; e mettem de quando em quando um

_entendeis-me? estaes commigo? digo bem? que vos parece? não sei se me

declaro_. De maneira que, para encarecerem o seu aviso, fazem dos outros

nescios. E com este cahem logo no terceiro, que é deter-se muito em cada

palavra, soltando-as por compasso, dilatando uma da outra, porque se não

peguem: e é vicio, que fará ser aborrecivel a todo o mundo a quem o tem;

e até á mesma discrição fará importuna este mau uso d'ella. E mais é mui

certo andar annexa esta boa parte a uma fala de doente mui molle; que

tudo junto vem a ser um xarope de semsaboria, que não ha quem o leve. O

quarto não entendo bem, porque não sei ao que chama _bordão_ o

doutor.--Sabei (disse elle) que os arrimos, a que se pega ou encosta o

que fala, quando as palavras lhe cançam, se chamam _bordões_, e são de

duas maneiras: uns que pertencem, ou para melhor dizer, que são

impertinencias nas acções do falar; e outros nas palavras: os primeiros

são mais culpaveis que os segundos, porque ha um que não sabe praticar

comvosco sem vos estar desabotoando, ou alimpando o cotão, e arrancando

a frisa do vestido: outro, que a cada palavra vos pega do cinto, ou

travando-vos do braço vos molesta: e ainda ha alguns tão desatinados,

que vos dão com a mão nos peitos a cada cousa que dizem: e outros que,

se deixam de entender com quem praticam, o hão comsigo, não estando

quietos com as mãos; esgravatando os dentes, ou bolindo nos narizes e

falando, tirando cabellos da barba, e mordendo as unhas; e outros vicios

semelhantes, que servem como uns espaços e reclamos, a que lhe acodem as

palavras. Os segundos são mettidos na mesma pratica com alguns, que em

cada palavra d'ella mettem um _diz_, _assim que digo_, _tal e qual_,

_sim senhor_, _vae vem_, _então_, _senão quando_, _espere vossa mercê_,

_assim que senhor_, _estaes commigo_; e outros muitos, fora os que vós

apontastes no vicio da repetição, que são bordões da primeira

classe.--Certo (disse Feliciano) que tem muita razão o doutor em dizer

que este vicio e os dois, que se seguem, nascem do descostume, e falta

da doutrina cortezã: porque eu alcancei ainda por condiscipulo um

estudante, que na opinião dos mais não era tido por o que falava peior,

que, por o grande odio, que tinha aos bordões, inventou um modo

excellente para os desterrar da conversação dos amigos, com que tratava

de ordinario; e foi um jogo de não menor engenho, que utilidade; e pelo

exercicio d'elle se perdeu até a semente dos bordões entre aquelles

amigos.--Não vos esqueçam (disse Leonardo) os termos de tão bom jogo,

que já pode ser que occupemos com elle uma noite, mais bem empregada, do

que o remedio será necessario para os presentes, porque não são dos

homens limitados, que se apegam a estes encostos: e se quereis

conhecel-os, ouvi-lhes contar uma historia, e metter-vos-hão n'ella mais

bordões, do que tem de palavras.--O quinto vicio (proseguiu o doutor) é

incomportavel; porque ha homens tão sôfregos de falarem tudo; que

atalham as palavras ao que lhes começa a responder, querendo anticipar

com o seu entendimento a tenção alheia.--Esses taes (disse Solino) falam

a duas mãos, porque querem que vá tudo por elles. E como me acho entre

esses, por não pedir por mercê que me ouçam uma palavra, deixo o feito

sem parte; e como ficam falando á reveria, desfaço as suas sentenças com

uma bochecha de agua.--Esses faladores são como cigarras, que atrôam, e

não deleitam (disse D. Julio) e é sentença mui approvada entre cortezãos

que tres cousas não ha de haver entre elles demasiadas, _sobeja parola,

comprida porfia, e grande rizada_; porque _quem muito fala d'elle damna_

(como diz o rifão) _e com quem aporfia não disputes; e onde ha muito

riso ha pouco siso_; que todos estes pertencem á conversação.--Essa

terceira parte (proseguiu o doutor) é do sexto vicio, que é bracejar

quando fala, e festejar com risadas seus proprios ditos o que se quer

vender por discreto. E assim vereis alguns, que falam ás pancadas; e se

acharem um pulpito deante, o farão em pedaços, como se a policia podéra

soffrer o desassocego e inquietação da sua esgrima. As risadas, além de

arguirem falta de entendimento, são mais impertinentes quando um homem

festeja seus proprios ditos; que, para terem galanteria, elle, que os

diz, ha de ficar sisudo; e os que o ouvem, risonhos. E assim os

engraçados de nossos tempos que conhecemos, e outros, que deixaram esse

nome, sabiam festejar moderadamente as graças alheias, e dissimular o

riso nas suas, fazendo menos caso d'ellas.--Duas cousas (disse D. Julio)

se me offerecem para vos perguntar n'essa materia: e seja a primeira,

que moderação se ha de usar no riso, com que um homem festeja o conto ou

graça do que falla deante d'elle?--Os homens (respondeu o doutor) não

hão de ser tão sevéros que nunca riam como Catão Censorino, Anaxagoras,

e Sócrates: nem como Marco Crasso, que rio uma só vez na vida; pois é

definição e differença do homem _ser animal racional_, e a sua propria

paixão é _ser rizivel_: porém não menos se ha de guardar de ser

desentoado nas risadas; que, para n'isto haver uma moderação politica,

lhe buscaram os antigos muitas differenças: e deixando o riso Jonio,

Megarico, Sardonio, e Synclusio, dos quaes falam tantos auctores gregos,

e latinos; colhida d'elles a melhor doutrina, não ha de rir o homem com

a bôcca aberta que dá grande tom ao riso, nem com os beiços apertados,

como costumam os que tem cieiro n'elles; nem sómente mostrando os

dentes, que a estes chamaram os latinos _riso de cavalgaduras_; nem com

um riso molle e affeminado, como era o Jonio; mas com uma boa sombra e

graça na bôcca e no ar do rosto, com que se mostre, agradecido do que

escuta. E se esta resposta vos satisfaz, bem podeis continuar com a

segunda pergunta.--Ainda que as minhas (tornou elle) não fôssem muito a

proposito, com o interesse de vossa doutrina ficariam desculpadas, como

será esta: Se na graça, que outrem conta, em que eu a não acho, sou

obrigado em primor cortezão a me mostrar risonho? Obrigado é o cortezão

(respondeu o doutor) a se mostrar agradavel aos com quem se pratica: e

não o poderia ser quando seccasse o riso na occasião, em que outrem

mette cabedal para o provocar a elle; que seria mettel-o em

desconfiança.--Eu me dou por satisfeito (disse o fidalgo) e já agora

podereis passar ao setimo erro; em que ha pouco que discorrer segundo me

parece; que nao é mais que um descuido e desattento dos que, mostrando o

fervor do animo com que falam, borrifam com humidade o que dizem, e ás

vezes a quem os escuta.--Não cuido eu (disse Feliciano) que são esses os

de que trata o proverbio, que _falam fontes de prata_.--Antes (tornou

Solino) lhes chamara eu _homens que falam frescos_ que nem uma manhã de

abril deixa tao orvalhado um campo do boninas, como elles a roda dos que

os estão ouvindo; e para estas immundicias houvera de ter a discrição um

Almotacé da limpeza.--Desterrados pois (continuou o doutor) da

conversação estes sete inimigos d'ella, parecerá um homem cortezão aos

que o escutarem, falando agradavelmente nas palavras as leis que agora

lhe der o senhor Leonardo: que posto que a verdadeira discrição seja

natural, nenhum dos dons da natureza deixa de receber beneficio da arte,

da continuação e dos costumes.--Muito depressa vos quereis desobrigar

(respondeu Solino) e eu ainda esperava que passasseis pela minha porta,

dando algum toque na murmuração, como déstes no riso: que tambem estes

preceitos são fóra das palavras.--O riso sim (lhe tornou elle), mas não

o murmurar; que é culpa que não se attribue á pratica, posto que alguns

digam que sem esse sal a mais discreta é pouco saborosa: e é porque ha

muitas cousas, que não queremos dizer, e folgamos em extremo de as

ouvir. Assim que o que murmura ordinariamente agrada a gostos alheios de

gente ociosa, com risco proprio. Porém, por fazer as pazes comvosco,

entrarei em contendas, de que estou desobrigado, tocando na murmuração

engraçada; e para lhe dar logar, a metterei no meio de uma sentença

excellente, que diz que _dos animaes bravos a peior mordedura é a do

praguento_; e _dos mansos a do lisongeiro_. O praguejar é maldade, o

lisongear traição, o motejar levemente galantaria: o discreto nem ha de

morder, nem lamber; porém picar levemente, e com arte, é graça da

conversação. Para o que, deixando auctoridades, exemplos, preceitos, e

cousas infinitas, que poderão levar grande tempo: o cortezão, quando

arguir para graça, ha de considerar tres cousas: o que fala, com quem, e

deante de quem. O primeiro por fugir de materia em que o presente

desconfie: o segundo por não motejar com quem não saiba pesar e conhecer

as galantarias: o terceiro por não falar graças, de que, algum dos

ouvintes se envergonhe: porque de outro modo, sendo a graça pesada,

perderia o nome. Não falo do murmurar de ausentes, que em todo o modo me

parece culpavel. E bem podiam servir para lei d'estas galantarias as

vossas, que a todos agradam, e que, se aos ouvintes não fazem fastio,

tão pouco aos offendidos causam queixume.--Lembra-me (disse Pindaro) que

no quinto vicio condemnastes o querer um homem falar tudo: e não déstes

regra aos que falam pouco.--Seria (respondeu o doutor) por me conformar

com uma sentença, que diz: _Aos que pouco falam, poucas leis lhes

bastam_. Além d'isto até agora não tratei dos louvores do silencio, nem

da verdade d'aquelle dito: _Assás sabe o que não sabe; se calar sabe_. E

o outro, que: _O nescio calando, parece-se com o discreto_. Falo sómente

da maneira de praticar entre os amigos, onde as palavras não tem mais

que estas duas medidas, que são _falar a tempo_, e _a proposito_: a

tempo, porque nem em todos se pode dizer tudo o que é bem dito.

Nas comidas se ha de fugir falar em cousas que enojem o estomago, e

offendam ao gôsto, ainda que em outros logares podem dar muito. Entre

enojados não dizer graças, ou contos, que desautorisem a tristeza, e

provoquem a riso. Entre enfermos não contar historias, que causem temor

ou desconfiança em seus males. Entre ecclesiasticos guardar-se de coisas

que saibam a lascivia, e profanidade. A proposito; porque ha muitos, que

se desviam do principio da pratica, de maneira que do primeiro salto vão

parar a Flandres; outros, que em tudo querem metter uma historia que

sabem, contar uma nova que lhes veiu, um dito que ouviram, um sonho que

sonharam; e pela deleitação, que tomam de contar coisas proprias, perdem

o decóro, com que hão de escutar as alheias, e o tento do que elles

mesmos respondem: e tambem me a mim parece que me vou mettendo nas que

não são minhas; que me fizeram passar os termos de maneira, que nem a

meu amigo ficou tempo para continuar com a segunda parte d'este

discurso.--Vós dizeis tudo tão bem (tornou Leonardo) que se perde pouco

no que eu havia de accrescentar, quanto mais, que o que se dilata não se

tira; e já ámanhã terei cuidado, ou espaço de cuidar no que hei de

dizer, por não cahir no terceiro peccado de ir compondo as palavras com

o vagar que enfastia.--Em casa cheia (disse Solino) de pressa se faz a

cêa; e em entendimento tão rico, como o vosso, nem de cousas, nem de

palavras pode haver pobreza: guarde-vos Deus de uns meus senhores, que

as pedem fiadas aos livros de cavallarias, com suas sentenças de cabo de

capitulo, que se se lhe atravessa um escarro de um dos ouvintes,

varreu-lhes toda a prégação da memoria, e vão com a pratica em muletas

até tomarem assento com muito trabalho seu, e de quem os escuta.--Hora,

não o dêmos tão grande ao senhor Leonardo (disse D. Julio) que hoje o

não deixemos dormir, pois ámanhã o havemos de despertar; que as duas

noites passadas foram de hospede, e a conversação dos que são de mais

gôsto, roubam melhor o tempo; e comtudo. a parte que se tira ao repouso,

sempre faz falta,

Começaram-se os outros a levantar, e o velho ainda os deteve em pé

dizendo:--O senhor D. Julio em tudo tem tenção de me fazer mercês; porém

esta não é das em que fico devendo mais: porque antes quizera poupar o

tempo do somno para viver, que o da vida para dormir. E se é verdade que

na conversação de tão bons amigos só se vive, qual posso eu ter melhor,

que, fazendo estas noites mais compridas, alargar a minha edade? que

sentença é antiga, que _o tempo, em que dormimos, perdemos da vida_:

pelo que chamaram ao somno _imagem da morte_.

DIALOGO IX

DA PRATICA, E DISPOSIÇÃO DAS PALAVRAS

Ia crescendo o gosto d'aquelles amigos com o exercicio de tão proveitosa

conversação, de tal maneira, que nenhum perdia o sentido das materias,

que ficavam tocadas, para se armarem de razões, contos, e exemplos, com

que cada um mostrasse aos outros sua sufficiencia. N'aquella porém da

pratica vulgar ficou Leonardo muito atalhado, assim por ser cousa em que

tudo pende de opiniões incertas; como porque o doutor lhe cortara a

urdidura, com que havia de ir tecendo o seu discurso, desejava mudar o

proposito a outra cousa, que viesse mais ao seu; mas como aquelle era o

de todos, não via caminho de o desviar. Veiu pois a noite do outro dia,

e com ella os companheiros mui alvoroçados; aos quaes elle festejou com

a mesma alegria; e logo, depois que se assentaram, lhes disse: Se hei de

falar verdade, eu estou tão carregado com o officio que de novo me

déstes, que me não atrevo a dar boa conta d'elle; porque todas as que

fiz para me dispôr a isso, me sahiram erradas: e me parece tão

difficultoso falar de cuidado, e ordenadamente na materia em que se ha

de praticar na lingua portugueza, que me hei de chamar ao engano, e o

maior de todos foi darem-me espaço para temer, quando eu cuidei que o

tomava para me prevenir.--Em vós (disse D. Julio) é gentileza esse

receio; e ainda que fôsse fingido, eu o tenho por a primeira regra de

falar bem, pois ensinaes aos discretos a não falarem com sobeja

confiança; e pela que eu tenho de vossa discrição, só em uma cousa

achara difficuldade, que é pôrdes em regras, e preceitos, o que tendes

por natural, e por costume; que servieis mais para exemplo de quem vos

ouve, que para mestre dos que não podem comprehender a vossa

doutrina.--Se com titulo de me fazerdes mercê (respondeu elle) quereis

que desconfie, mais facil vos será isso, que a mim o acertar: mas, para

que não erre no principal, digo que não posso fazer escola de falar bem,

mormente entre cortezãos tão discretos, que cada um me poderá dar

preceitos para o ser: mas se disser em algumas cousas a minha opinião,

faço-o para com as razões dos que a contradisserem aprender a

acertar.--Parece-me (disse Solino) que as melhores duas lições para os

discretos são essas primeiras, _receio_, e _humildade_. E passando

adiante, começae já a descobrir essa rhetorica, nova á lingua

portugueza.--Por escusar (tornou elle) uma muito comprida; e dilatada em

preceitos, e limites, que á força se hão-de misturar com os da latina; e

por evitar a largueza da arte, e poupar a paciencia dos ouvintes para

outras noites, accudirei brevemente a alguns vicios da lingua

portugueza, não fugindo dos termos da latina, nem levando-os a elles por

fundamento, mas fazendo-o n'estas cinco advertencias:

_Falar vulgarmente, com propriedade._

_Fugir da prolixidade._

_Não confundir as razões com a brevidade._

_Não enfeitar com curiosidade as palavras._

_Não descuidar com a confiança._

--Certo (disse o doutor) que me parece essa uma rhetorica abreviada, que

podia servir a todas as linguas: porque a confusão dos muitos preceitos

e figuras, que lhe attribuem os mestres d'esta arte, se podem

comprehender debaixo d'esses cinco muito bem achados. E pois Solino

chamou aos meus vicios sete peccados contra a discrição, podia chamar a

estes preceitos os cinco sentidos d'ella. E tratando do primeiro, como

entendeis _falar vulgarmente com propriedade_, que em parte me parece

que o vulgar não guarda muitas vezes o respeito ao proprio? --Falar

vulgarmente (respondeu Leonardo é qual os melhores falem, e todos

entendam sem vocabulos estrangeiros, nem esquisitos, nem innovados, nem

antigos, e desusados: senão communs, e correntes, sem respeitar origens,

derivações, nem etymologias; que a linguagem mais pende do uso, que da

razão: e por isso se chama lingua materna, porque nas mulheres, que

menos sahem da patria, se corrompe menos o uso do falar commum, posto

que ellas saibam pouco da razão de seus principios. E d'isto, e do falar

com propriedade, tenho dito na pratica que tivemos sobre as cartas

missivas; o que não será necessario repetir agora de novo, mas sómente

dar mostra de que estes dois termos se não encontram: que se o falar

proprio, é com palavras naturaes, e menos figuras da rhetorica, para

ornamento d'ellas; e não usar dos tropos de allegorias, metaforas,

translações, antonomazias, antifrazes, ironias, enigmas, e outras

muitas; isso se usa na pratica vulgar para se tratarem livremente as

palavras proprias, pois sómente algumas translações, antonomazias, e

ironias se acham n'ella; e mui raramente outras figuras: e posto que

n'isto me detenha mais do que determinava, me hei de embaraçar com estas

três figuras. _Translação_ é figura quando passamos as palavras de uma

cousa a outra, porém com uma semelhança conveniente, como quando dizemos

_uma fonte de sabedoria_, _um pôço de lettras_, _um rio de ouro_, _um

thesouro de partes_, ou _de graças_. Esta figura se costuma usar para um

de quatro effeitos, ou para evitar palavras deshonestas, ou para

abreviar razões compridas, ou por accudir á pobresa da linguagem, ou por

aformosear e enfeitar a pratica. No primeiro modo faz officio mui

necessario, que é dar a entender, por palavras alheias, cousas que sôam

mal por o seu nome proprio, como dizer: _uma mulher que usa mal de sua

formosura_; _que se vende a preço_; _que se entrega a Venus_; _que serve

o seu gôsto_. _Um homem affeiçoado a ramos_; _perdido por Bacco_;

_esquecido de si_. Tambem, para abreviar razões, é de muita utilidade na

pratica, como quando dizemos, _ficou em secco_, _deitou azar_, _torceu a

orelha_, _deu cinco_. Os outros dois modos me parecem na pratica

sobejos, e culpaveis: o primeiro, porque sempre se ha de fugir n'ella o

enfeite, e ornamento das palavras: e o outro, porque não faltam na

lingua portugueza as necessarias para cada um declarar o que lhe convém

dizer. A figura da _Antonomazia_ se usa algumas vezes na conversação:

posto que só nas pessoas, ou partes do mesmo reino será mais aceite.

Entre nós, quando nomeamos _o Poeta_, se entenderá Luiz de Camões, _o

Historiador_, João de Barros: _o Duque_, o de Bragança: _o Marquez_, o

de Villa Real: _a Cidade_, a de Lisboa: _a Coutada_, a de Almeirim; e

outras semelhantes cousas, ás quaes a grandeza deu superioridade das

outras do mesmo nome. A _Ironia_, mais que todas, é propria na

conversação, pois consiste mais na graça, riso, ou dissimulação do que

fala, que nas palavras: esta se considera em duas maneiras, a primeira

tirando a propriedade ás cousas; a segunda, furtando o sentido ás

razões; uma é mero escarneo; a outra dissimulada subtileza. A primeira,

quando do fraco dizemos que é um Hercules: do louco, que é um Catão: do

miseravel, que é um Alexandre: e da mulher pouco casta, que é uma

Helena. A segunda, como se disseramos: _Nunca lhe cahiu a lança da mão_

ao que a não tomou n'ella: _não lhe chegou ninguem com a espada_,

falando do que fugiu: _nunca pediu nada_, falando do que furta: _paga

mais do que deve_, entendendo o que paga por justiça. No que pertence ás

figuras me parece que basta esta lembrança. E as palavras, que se devem

escusar para falar vulgarmente, não hão de ser estrangeiras, nem

esquisitas, nem innovadas, nem tão antigas, que se perdesse já o uso

d'ellas. Das primeiras teem muita culpa os estudantes, e lettrados, que

introduziram as latinas na conversação, fazendo a linguagem de

misturas.--Essa culpa (respondeu o doutor) é dos mancebos que como no

praticar não teem a madureza, que só costuma a ensinar a experiencia,

cuidam que se melhoram em falar escuro, e elegante, fazendo na prosa

accentos de musica, ou medidas de poesia.--Muitos lettrados sei eu

(disse Solino) que não são moços, e n'isso o querem parecer, que falam

uma linguagem como sereia, mulher até aos peitos, e ametade peixe; e são

homens, a que não escapa por nenhuma via o verbo no cabo; e sendo a

nossa lingua de muito bom metal, lhe misturam tanta liga, que perde

muito de seus quilates.--Não tenho por grande erro (acudiu Pindaro)

quando a conversação é entre doutos, usar de algumas palavras tiradas do

latim, quando forem melhores que as com que nos podiamos declarar em

portuguez: antes creio que, se isto se fôra introduzindo, viera a nossa

lingua pouco a pouco a se apparentar com ella, e ficar tão polida, e

apurada como a toscana.--E essa (tornou Leonardo) que fructo tirou do

parentesco, se não foi chamarem-lhe alguns auctores _bôrra da lingua

latina_?--O caso é (disse Solino) que vós devieis ser affeiçoado á

phrase de um cirurgião de Coimbra do nosso tempo, que por ella se fez

famoso, que disse á moça de um ferido, a quem curava: _Traga-me um panno

corpulento, para fricar os labios d'esta cicatrice._ E a um rustico, que

vinha esmechado, respondeu que não tinha mais lesa que a superficie da

fronte; e tendo palavras com outro, lhe disse que o aniquilaria, se

dissesse alguma cousa em vilipendio de sua dignidade. E certo que tenho

raiva, sabendo que a lingua portugueza não é manca, nem aleijada, vêr

que a façam andar em muletas latinas os que a haviam de tratar

melhor.--Ha outros (proseguiu Leonardo) que nem com isso se contentam; e

andam buscando palavras muito esquisitas, que por termos mui escuros

significam o que querem dizer. Como um que se queixava de sua dama, que

de ciosa andava inquirindo os escrutinios do seu pensamento. E outro a

um barbeiro disse, que lhe rubricára a parede com a sangria.--Alguns

(disse o doutor) conheci eu culpados n'esse modo impertinente de falar,

que por taes eram reprovados: porém o uso das palavras innovadas não

achei ainda entre os portuguezes, como os hespanhoes e italianos. Nem

tenho por grande vicio aproveitar de algumas antigas, muito bem usadas

em outro tempo, e desterradas, sem razão, na nossa edade.--Não faltam

(respondeu Leonardo) curiosos, que por acharem pobre a lingua, ou por

elles o estarem de seus vocabulos, fazem alguns ao seu modo: como um

lettrado, que querendo auctorisar umas casas para certa occasião, disso:

_É necessario que as paredes d'este domicilio sejam alreadas, e que o

fato uzivel fique retendo nas ultimas d'elle_. E outro disse de um

navegante, _que fôra felice, se não fortuneara tanto no exito da

viagem_. E ao que dizeis das palavras antigas, posto que em algum tempo

fôssem boas, não o ficam sendo na parte em que se perdeu o uso d'ellas;

pois, como já disse, esse só é o fundamento e razão das palavras: e

assim, não diremos _leixou_, _trouve_, _dixe_, _ca_, _sicais_, _acram_,

_leidisse_, e outros vocabulos de que usaram auctores gravissimos de

cujos escriptos podemos aprender a perfeição da lingua portugueza. E

bastou o contrario uso para n'esta parte poderem seguir os que agora

escrevem, e falam bem.--Com uma só razão (accudiu Solino) condemnára eu

a toda essa turba dos que no falar querem parecer singulares, e é que

não falam para que os entendam melhor, senão para que pasmem d'aquella

sua estranha eloquencia e galanteria. E haveis de saber que é lanço

muito certo, que os que se contentáram com saber pouco do latim, falam

mais alatinado, para que os ouvintes cuidem que o sabem: e assim como

virdes cirurgião, ou boticario, que acabou a grammatica na quinta

classe, ponde-lhe abrolho, que o não tirareis com vinte galgos á estrada

do falar commum e se me esperardes estudante de philosophia em grade de

freiras, vereis uma linguagem meada de logica, que vos não entendereis

com o sentido d'ella. E dos que falam pela tempera velha, eu o não

consentira, senão em homens de barba larga, penteada sobre os peitos,

com carapuça redonda, e pelote de abas pregadas, que vos conte historias

d'el-rei D. Manuel, e dos infantes em Almeirim, e de quando D. Rodrigo

de Almeida tomou por compadre a Villa de Condeixa, do filho que alli lhe

nasceu, em tempo do bispo D. Jorge. Porem nos vestidos justos de agora,

e barbinhas turquescas tiradas pela fieira, e tintas sobre branco,

palavras d'aquelle tempo parecem remendo de outra côr.

FIM DO 1.^o VOLUME

INDICE

Advertencia 5

Dialogo I--Argumento de toda a obra 7

Dialogo II--Da policia e estylo das cartas missivas 22

Dialogo III--Da maneira de escrever, e da differença

das cartas missivas 35

Dialogo IV--Dos recados, embaixadas e visitas 54

Dialogo V--Dos encarecimentos 70

Dialogo VI--Da differença do amor e da cobiça 81

Dialogo VII--Dos poderes do ouro e do interesse 95

Dialogo VIII--Dos movimentos e decoro no praticar 110

Dialogo IX--Da pratica e disposição das palavras 121

Lista de erros corrigidos

Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:

+----------+-----------------------+---------------------------+

| | Original | Correcção |

+----------+-----------------------+---------------------------+

|#pág. 67 | os proprio filhos | os proprios filhos |

|#pág. 91 | totos | todos |

|#pág. 118 | descuido) | descuido |

+----------+-----------------------+---------------------------+

Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume I) · 第 10 / 10 段