Na ilha de Irlanda, e na cidade de Dublin principal de seus estados, no

maior enleio, e dissensão dos principes d'ella, que com a differença, e

variedade das erradas seitas de Inglaterra, a cujo rei obedecem, vinham

em total ruina, e destruição d'aquella provincia, nasci de generosos

paes, tão mimosa dos afagos, e enganos da fortuna em meu principio,

quanto depois a senti esquiva, e deshumana em minhas desgraças. Não

tiveram meus progenitores outro fructo, em que empregassem o amor

paternal, (que faziam notavel excesso á qualidade de seu sangue) mais

que a mim, que com esta boa sorte era invejada de todas as de minha

edade, e pertendida dos mais illustres mancebos de toda Irlanda. No

melhor de meus tenros annos, que a estes costuma morder sempre por

varios modos a inveja venenosa da dura parca, de uma arrebatada

enfermidade perdeu minha mãe a vida; e eu como ainda na minha não

provara outros males, senti este primeiro com grande pena: mas como a

sorte m'o ordenara para ensaio de novas desgraças, depois de me ter

encetado o soffrimento; em poucos mezes depois perdi meu pae, e senhor,

a quem muito amava, e fiquei mettida entre parentes cubiçosos de minha

herança, e amantes fingidos, que obrigados das riquezas d'ella me

procuravam por esposa. Tinha eu a todos, os que me offereciam, pouca

vontade; e grande obrigação de tomar estado conveniente aos respeitos de

minha nobreza. E como os favores, em que me creei, me ensinaram a ser

altiva (que este é um dos grandes damnos que faz a prosperidade) puz o

pensamento em quem com despreso, e ingratidão castigou minha arrogancia:

havia n'aquella mesma cidade um principe, mui chegado por descendencia

ao sangue real de Bretanha, cheio de muitas graças da natureza; que,

ainda que me era muito desegual por nascimento, tinha tão poucos bens da

fortuna, que fazia eu no meu dote confiança para o pretender. Alcançou

elle d'isto alguns signaes, que teve em pouco; não advertindo que a

vontade de uma dama sempre põe em divida a um espirito generoso, que

conhece o preço d'ellas. Succedeu pois que, tendo eu já de minha

pretenção poucas esperanças, o elegeram os da ilha de Lister, Ragrim, e

das mais da parte oriental de Irlanda, por capitão de uma armada de

corsarios, afim de fazerem uma preza muito importante no mar Oceano: e

como ás vezes o castigo dos maus intentos é a mesma fortuna, (posto que

outras como cega os favorece) se perdeu esta armada com uma tormenta, na

qual a maior parte da gente pereceu; e a que ficou do miseravel

naufragio se salvou em uma enseada, onde foi captiva de um turco

corsario, que a levou a Argel, e alli por o pouco segredo dos seus ficou

o seu general conhecido por quem era; e como o sangue, d'onde descendia,

junto ao cargo que levava, o faziam de mór preço para os que o

captivaram, ficou impossibilitado o seu resgate, e elle sem remedio

n'aquella prisão alguns annos: até que a necessidade, e apêrto d'ella me

aconselharam que de novo emprehendesse o de que com seus despresos

desconfiara, mandando-lhe offerecer liberalmente meu dote para resgate

de sua liberdade. E elle com o desejo d'ella, e obrigado d'esta

lembrança, tendo por menores grilhões os que de novo lhe punha, que os

que elle trazia, aceitou a offerta, e me mandou em satisfação um

escripto, em que me jurava por sua esposa. Puz eu, sem mais cautella, em

execução o meu intento, perdendo a affeição ás muitas riquezas, que

tinha, pela honra e contentamento, que d'aquelles desposorios esperava.

Tornou livre á sua patria, e mudou de improviso a tenção que fingira

para alcançar o remedio á custa do meu engano. Estranhou-lhe o mundo

esta crueldade: e os meus vendo-me sem dote, e sem marido, e, o que o

havia de ser, tão ingrato, e na opinião de todos tão culpado, me levaram

a o demandar por justiça nos tribunaes supremos, onde, depois de

convencido, me foi julgado por devedor, e por esposo. Mas como a minha

vontade não era que elle o fôsse contra a sua, esperei o tempo mais

conveniente para a declarar. Obrigado emfim da justiça, e, depois

d'ella, rendido aos conselhos dos principaes parentes que o tratavam; o

dia, em que se havia de desposar comigo, cumprindo por sentença a

palavra que me tinha dado, antes de lhe dar a mão, metti na sua um papel

em logar da minha, que era quitação plenaria de tudo o que por elle

déra, e juntamente do que elle com tanta ingratidão recusara, escolhendo

para castigo de minha altiveza a humildade da religião mais apertada.

Fez isto em toda a ilha grande espanto; e eu com o resto, que do meu

dote ficára, aborrecendo a patria como a madrasta, determinei logo

buscar em reino alheio segura morada. E porque a fama da religião

portugueza, e da famosa cidade de Lisboa, onde muitas religiosas do

illustre sangue de Bretanha vivem santamente em clausura, me trazia mais

affeiçoado o desejo; mandei por alguns mercadores de confiança o maior

cabedal do que possuia a quem até á minha chegada o detivesse; e eu como

tive a certeza de este dote mais necessario estar seguro, fugindo ás

affrontas, e odio de meus naturaes, me embarquei com o mais que me

ficava; e com prospero vento tomei porto em Galiza, e visitei a casa, e

sepultura do glorioso apostolo Santiago; d'onde caminhando por terra,

livre já dos enredos de minha ventura, não pude escapar á cobiça dos

criados que me acompanhavam; que esquecidos da fé que me deviam, e pouco

affeiçoados da catholica que professava á sua vista com tanta firmeza,

me roubaram as joias, o dinheiro que trazia, deixando-me n'estes desvios

desamparada. Senti mais esta derradeira desgraça, por ser a que me tomou

com a paciencia quasi rendida aos trabalhos da viagem, que venceram o

descostume e fraqueza femenina; e tambem por me achar tão só na confusão

d'estes caminhos: porém se pelos que parecem tão errados me quer Deus

guiar ao mais seguro, eu ponho em suas mãos o soffrimento: e por elle,

senhor, vos peço como a ministro seu que em tudo pareceis, que, ainda

que vos dê cuidado, me mandeis d'aqui em companhia de confiança, até

onde d'aquellas bemaventuradas religiosas seja conhecida; que á sua

vista poderei logo satisfazer a diligencia: a vós pagará o céo este

trabalho, e a estas senhoras o amor com que favorecem o meu desamparo;

que a maior consolação, que devem ter os perseguidos da sorte, é saber

que a todo o tempo, que se acolherem a Deus, acham n'elle brandura; e

que tem á sua conta pagar largamente as boas obras, que no decurso de

seus trabalhos receberam.

Esta historia contou a peregrina com os olhos cheios de agua, com que

orvalhava de quando em quando as rosas do seu rosto; e a nenhum dos que

alli estavam faltaram lagrimas. Eu lhe disse: Senhora, se o estado que

buscaes com tanto desejo, não fôra melhor que o que vos roubou a

ventura, muito era para sentir a que vos offende. Porém como o caminho

dos que Deus escolhe é tão differente do que seguem aquelles que lhe vão

fugindo; não podeis n'este ter maior seguro, que saber que vos acompanha

nos trabalhos presentes, e vos ha de dar o galardão e premio de todos: e

para que eu tenha n'elles alguma parte de merecimento, me offereço ao

remedio dos que ficam até tomardes logar n'essa clausura. Lisboa é terra

grande; e a muita confusão da gente e trafego d'ella a faz embaraçada; e

vós é razão que com a decencia e commodidade, que vossa pessoa e

qualidade requer, vos deis a conhecer. Pelo que, se quizerdes descançar

com estas minhas parentas, e ja criadas vossas n'esta aldeia, eu irei á

cidade, e procurarei servir-vos com todo o cuidado. Isto me agradeceu a

estrangeira com muito boas palavras, mostrando tambem nas côres do rosto

signaes de obrigação. E hoje, antes da minha partida, me fez uma

lembrança do que por sua parte havia de perguntar. No caminho me atalhou

a jornada uma occasião forçosa, que me fez passar a noite tão perto de

casa como vêdes, mas com o maior interesse que podia esperar: pois, além

das mercês do senhor Leonardo, goso a conversação de tantos amigos e

senhores, que é fim, a que se podiam dirigir outras jornadas

maiores.--Já agora (disse D. Julio) não serão tão culpados meus

extremos; pois nos que disse o senhor prior da peregrina ficam

acreditados; e passam as suas obras tanto adiante das minhas palavras,

que deixa a sua egreja e familia para por a servir no que eu nem ainda

me soube offerecer: e contou ao prior o como encontrara, andando á caça,

a mesma estrangeira, e o que n'aquella conversação tinha passado sobre

os louvores, com que elle quizera pintar sua formosura.--Nenhuns lhe

podieis dar (proseguiu elle) que não ficassem os maiores encarecimentos

devendo muito á verdade: e o maior espanto, que eu achei nos de sua

gentileza, foi que, sendo ella tal, houvesse um homem bem nascido, que

sobre obrigações tão forçosas a despresasse.--Isso (tornou D. Julio) não

tenho eu por espanto; que d'esse modo se costuma vingar a sorte da

naturesa, quando na perfeição de suas obras a não pode egualar: mais se

me representa a mim que seria o homem nobre, e sem entendimento, como ha

muitos, pois fugiu de tantos e tão poderosos attributos, como eram

formosura, riqueza, magnificencia, cortezia, e humanidade, todos

empregados em seu favor.--E a mim (acodiu Solino) me pareceu ingrato,

mas discreto, fugindo o jugo de uma mulher que lhe ficava sendo duas

vezes senhora, uma pelos poderes naturaes de sua belleza, e outra por a

divida, e preço de seu resgate.--O meu voto é (disse Pindaro) mui

differente; antes julgo que o que o homem aceitou por necessitado, veiu

a enjeitar por cubiçoso, vendo que se dispendera com sua liberdade o

dote que dourava as perfeições de sua esposa; que nunca deixara de o

ser, se fôra tão rica como no principio, em que o libertou; porque a

cobiça e o amor são grandes competidores.--Não me descontentam as

opiniões (disse Leonardo) mas já que vos entalastes entre esses dois

inimigos do socego humano, seja a questão e a materia da conversação da

noite á conta d'elles. E perguntou ao doutor, qual dos dois é mais

poderoso, e obriga os homens a maiores extremos?

--Se houvessemos de dar credito (respondeu o doutor) á experiencia, e

tomar os successos do mundo por argumento, com poucas porfias se

manifestará a verdade da vossa pergunta: mas tratando primeiro das

razões, vejamos em que se parecem, e os poderes em que os antigos

igualaram o amor, e a cubiça; que de ambos deixaram jeroglificos, e

figuras. Pintaram pois ao amor menino, formoso, com os olhos tapados,

despido, com azas nos hombros, e armado de arco e settas: menino, por

facil e fagueiro; formoso, porque a belleza é o objecto dos amantes;

despido, porque se não póde encobrir; cego, porque não vê, nem conhece a

razão; com azas nos hombros, por ligeiro, e mudavel; armado, por forte,

poderoso e cruel. A cubiça pintaram-a mulher, despida, com os olhos

tapados, e azas nos hombros. Despida, pela facilidade com que por seus

effeitos se descobre; cega, porque não vê nenhum respeito humano em

rasão do que deseja: com azas pela velocidade com que segue aquelle

objecto, que debaixo da especie de proveito se lhe representa. Assim que

só nas armas, e no sexo feminino achamos na pintura differença: porém se

considerarmos os effeitos da cubiça, ou foi que na pintura de mulher as

quizeram cifrar todas, ou que lhes faltou lugar para tantas armas;

porque se amor é forte e poderoso, e vence a tudo, como disse o poeta; o

mesmo confessa que a todos os extremos fórça, e obriga a sede do ouro

aos humanos; se a amor como a poderoso o fingiram Deus cruel, como diz o

poeta Seneca; não só a cubiça é Deus do avarento e cubiçoso, mas o mesmo

ouro que deseja, como d'elles disse um doutor santo; se lhe chamam cruel

pelos damnos que no mundo fizeram seus poderes, mais reinos assolados,

cidades destruidas, e damnos immortaes se fizeram no mundo por cubiça,

que por amor: e antes de chegar aos exemplos, com que se póde provar

esta verdade, vejamos em seu nascimento que coisa seja amor humano; e o

que é cubiça. A elle chamaram muitos auctores furor; e este definio

maravilhosamente um doutor grego, que disse que amor era um desejo

irracional, que facilmente se emprega, e com grande difficuldade se

perde. E da cubiça escreve outro mais moderno, que é um appetite fóra da

medida certa, que ensina a razão; que não tem modo, nem fim. É certo que

cada um d'elles podia trocar com o outro esta definição, sem ficar

enganado; porque o mesmo é excesso de um desejo irracional, que appetite

fóra dos limites da rasão: e o mesmo ser leve em se empregar, e

deixar-se com difficuldade, que não ter modo, nem fim. Mas posto que na

pintura, e nascimento os podiamos igualar, os effeitos da cubiça são com

mais força, e vehemencia, que os do amor; porque, se faz cego o amante

para perder o lume da razão, todavia não o faz vil, antes o engrandece:

e o cubiçoso é cego para não vêr razão, nem honra, e para se abaixar a

todas as infamias, a que se sujeita o interesse: se o pintam despido

para se não poder encobrir, com mais vergonhosas mostras se pinta a

cubiça: o que na mesma pintura de mulher está declarado. Se é ligeiro o

amor para se empregar, com tudo busca sempre a formosura como objecto

seu, e obra a que honrou a mesma natureza: e a cubiça se emprega nas

mais humildes e indignas coisas da terra, como d'ellas possa tirar

fructo o cubiçoso: que a Tito cheirava bem o dinheiro que cobrava das

immundicias de Roma; e no que são atrevimentos e ousadias, muito atraz

ficaram os amantes dos cubiçosos. Romper as entranhas da terra, e chegar

á vista do inferno por tirar ouro: descer ao fundo do mar por buscar

perolas, descobrir novas regiões, soffrer climas estranhos, e barbaras

gentes para adquirir commercios, obras foram de cubiça, e não de amor,

como tambem o foi a navegação, que na empreza do Velocinio d'ouro

começou: e se amor é cruel, muito menos o parece nas obras que a cubiça,

pois elle ao amante offende com suavidade amorosa, e aos estranhos com

animo compassivo tanto mais nobre, quanto elle o é mais, que a cubiça,

que mata no mundo mais homens em um só dia, que o amor em muitos annos.

Assim que a meu ver em competencia, ella tem mais poderes, e na

semelhança se parece tanto com o amor, que é elle mesmo; mas com tal

differença, que elle ama a formosura humana, e a cubiça a riqueza.

--Não consinto (disse o prior) que o vosso entendimento faça tão grande

aggravo ao amor, como é igualar com elle a cubiça: porque quando em

poderes tenham grande semelhança, na nobresa e nascimento tem muito

maior desegualdade; que posto que o amor considerado como appetite

carnal seja excesso de um desejo fóra da razão; significado como

affeição humana, é uma força que ajunta, ou deseja unir duas vidas em

uma, a do amante e da coisa amada, e é este amor tão natural a todos,

que é defeito e torpeza não saber amar, como diz S. Chrysostomo. E pelo

contrario Aristoteles chamou a cubiça desejo fóra da natureza. O amor

nasce tão nobremente, que tem por objecto a belleza humana, e os dotes

naturaes mais excellentes como são graça, juizo, parecer, e perfeição: e

assim diz S. Agostinho, que amamos coisas boas, porém com amor mal

intencionado. E a cubiça como é vicio do entendimento, e appetite

preternatural, sempre é mal nascida, e inclinada a coisas baixas. Assim

que sejam os poderes, e as pinturas quão parecidas quizerdes; são as

naturezas de ambos mui differentes.--Parece-me, senhor doutor (disse

Feliciano) que aquella razão ha de achar muitos votos contra o vosso,

porém eu por me pegar ao melhor parado, nem quero ir contra elle, nem

hei de encontrar o do senhor prior, antes ajudado da doutrina de ambos

accrescentarei o meu pouco, mettendo-me entre tão boas partes pela de

amor; e digo que posto que elle e a cubiça sejam semelhantes no poder,

no que é amar são em tudo deseguaes, porque não se ama a coisa que pelo

que é, e por amor de si propria se não ama; e menos se póde amar a que

se não conhece: e assim seria erro chamar amor ao do cubiçoso, que se

emprega em coisas que por si não merecem amor, e em outras, de que não

tem nenhum conhecimento: amar a uma pessoa, que obriga e sujeita a nossa

vontade; é ter-lhe amor por qual ella é, e por essa a desejamos unir

comnosco, por natural appetite: mas empregar a affeição no dinheiro, e

no ouro, que não amamos pelo que é, senão pelo que com elle se alcança,

não póde ser amor. E menos o será amar o que ainda não conhecemos, como

faz o cubiçoso a muitas coisas, que não vio, pelo interesse que d'ellas

espera. E não tratando ainda de que o amor não se considera só no que

ama, senão tambem na coisa amada; e que falta correspondencia, sendo

essa insensivel: o amor todo se emprega no interesse dos sentidos; e

este falta em todos elles ao cubiçoso: porque, se a sua temerosa côr o

cativara, nem d'essa o deixa usar o seu cativeiro. D'onde veio dizer o

poeta Horacio que o ouro para os avaros não tinha côr, porque o enterram

segunda vez, pois por essa e por seu nascimento lhe podem chamar

desenterrado: nem com a voz deleita os ouvidos, nem com a suavidade do

cheiro recrea, nem com o tacto agrada, nem com o gosto satisfaz. Diga-o

Midas, que o pediu aos Deozes por dom: e como lhe ficou por mantimento,

perecia na abundancia do que tanto desejara. Diga-o Pithio, o qual deu a

el-rei Dario o platano e videira de ouro: o gosto, que achou na ceia que

sua mulher lhe ordenára: o qual com sua demasiada cubiça não dava lugar

aos seus cidadãos de se empregarem em outro trabalho mais, que em

beneficiar as minas do ouro, em cuja ruina muitos d'elles miseravelmente

pereciam: pelo que, vendo as matronas da cidade tanto damno, foram

juntas pedir á mulher de Pithio que, compadecendo-se de tão grande mal,

rogasse por ellas a seu marido, pedindo-lhe que désse aos seus melhor

tratamento: e ella, a quem não faltava entendimento, nem piedade,

conhecendo que era vão vencer com rogos a sua cobiça, ordenou a Pithio

uma ceia esplendida em um dia de festa; na qual todas as eguarias, que

lhe deu, eram formadas de ouro. Alegrou-se muito com ellas na primeira

vista, e com a magnificencia do apparato, com que lhas apresentavam:

porém quando pelo discurso do banquete não viu nenhuma de que podesse

comer, perguntou pelas eguarias verdadeiras, confessando d'aquellas que

eram fingidas. Como (respondeu então a sabia matrona) queres que te

apresente outra comida, se só no cuidado da que tens deante occupas a

todos teus vassallos, pois se não lavram os campos, nem se cultivam as

arvores, nem se pescam os rios, nem se caçam as aves, nem se criam os

animaes, pelo exercicio continuo de tirar ouro? Contenta-te tambem com o

fruto d'elle por mantimento. E com este ardil emendou em alguma parte

sua demasia.

Bem parece que entendia esta verdade Halaono imperador da Tartaria, que

vencendo, em Baldaco, o Califa mestre da seita Mahometica, que era o

mais poderoso rico, que então havia no mundo, vendo que, por se não

ajudar de suas riquezas, e as não despender em soldo, não tivera

resistencia contra o exercito dos Tartaros; depois de captivo o mandou

metter em uma camara entre o ouro e joias preciosas, que antes tinha,

sem lhe mandar dar outro mantimento, dizendo que d'aquelle comesse á sua

vontade: e assim entre a grande abundancia de suas riquezas o miseravel

Califa morreu de fome.

Pois se o ouro por si não póde satisfazer ao gosto, nem deleitar sentido

senão com o engano do que com elle alcança, como póde ser capaz de amor?

--Vós (disse Pindaro) temestes ao doutor; porém não o seguistes: e eu

ajudado do vosso receio, e da sua auctoridade, me hei de valer da

primeira opinião que propoz, e é que o amante e o cubiçoso não differem

mais no amor, que no emprego d'elle; e para isto me fundo em uma opinião

moderna, que tem por si muitas auctoridades antigas; e é que nenhuma

pessoa ama mais a outra, que a si mesma, nem póde ter amor a outro, se

primeiro se não amar a si; e do amor que se tem, nasce o desejar e amar

as coisas a que se affeiçoa, e inclina mais a sua natureza: amo isto,

porque me parece bem, e o quero unir a mim, pelo que me quero, e desejo

tudo o que me agrada e satisfaz por meu respeito; e por isso chamaram ao

amigo uma alma em dois corpos, e, como diz o proverbio, _o amigo é outro

eu_; quero-lhe tudo o que para mim quero, e amo-o como a minha alma

unida com a sua. E Aristoteles diz que o amigo se hade egualar no amor

com o que cada um tem a si: logo tanto quer e deseja o amante o objecto

da belleza, em que se emprega, como o cubiçoso o ouro, que quer para si.

E quanto á objecção de que o ouro senão ama pelo que é, senão pelo que

vale, e por o que com elle se compra e alcança, os vossos mesmos

exemplos dirão por mim o contrario; que o cubiçoso, e avaro antes

perderá a vida, que resgatal-a com o ouro, a que quer mais que a ella; e

antes perece á fome, que satisfazel-a com dispender o que tem em mais

estima que a fartura; que para elle é mór damno gastar, que todos os

outros; como Lucilo conta de um avarento chamado Hermones, que, sonhando

uma noite que gastara certa quantidade de dinheiro, foi tanta a sua

paixão e dôr, que, cuidando que era verdade, se afogou. E assim diz S.

Jeronymo que tanta necessidade tem o cubiçoso do que possue, como do que

lhe falta, pois lhe falta animo para usar d'elle: e diz n'outro lugar

que só a avareza e cubiça fez no mundo pobres, porque assás o é mais,

que todos, o que tudo deseja; e possuindo mendiga, e padece como se lhe

faltára. Logo certo é que o ouro ama o cubiçoso, e não já o que com elle

se compra; pois o não quer para comprar, senão para o possuir. E

respondendo á deleitação dos sentidos, que o amor humano offerece, e na

cubiça falta, ousarei a dizer que o ouro, ainda enterrado, parece melhor

ao cubiçoso, que ao amante a formusura que appetece; e que é mais suave

a seus ouvidos o rumor, e tinido do dinheiro, que a brandura de todos os

requebros, e galanterias namoradas; e que nenhum gosto para elle é egual

com o que tem de tocar, tratar, e revolver-se entre o mesmo dinheiro: o

que se póde ver com grande admiração n'aquelle afamado cubiçoso o

Imperador Caligula, que, depois que a muitos obrigou que o instituissem

por herdeiro, aos quaes, depois de testarem, fez matar com peçonha

(rindo-se de haver homem que quizesse viver mais depois de haver

testado) atraz de em sua casa instituir publica mancebia de todos os

vicios, de que tirava um copioso tributo, se lançava despido entre o

dinheiro, que d'estas infames obras procedia; e, dando sobre elle mil

voltas, tinha em menos conta todas as outras delicias, que os homens a

preço do dinheiro procuravam. Certo é logo que o ouro ama, e a elle

quer, e com elle se deleita o avaro e cubiçoso; que, se o desejára para

o empregar em o que com elle se alcança, perdera o primeiro nome, e

podera merecer o de rico, prudente, e liberal: porque o ouro, e as

riquezas, como diz S. Leão Papa, não são boas de si, nem más; mas o bom

ou mau uso d'ellas engrandece, ou desacredita a quem as possue: e assim

não é rico o que muito tem, senão o que com o que tem se contenta: e não

ha maior pobreza, que, por empregar o desejo em um baixo metal, que sem

bom uso não presta, deixarem os homens o muito que com sua valia poderam

adquirir.

--Todos (disse Solino) deram sua pancada a esta lebre; Leonardo, que a

levantou, deixou-se ficar no covil; e eu fiquei atrás dos galgos sem dar

um brado; farei muito, se agora quizer desmanchar o bemdito de todos.

Comtudo a minha opinião é que quanto tendes feito na grandeza e poderes

da cubiça é errado, e que se haviam de attribuir ao ouro, e não a ella.

E tratando da pintura, em que a embaraçastes, e quizestes assemelhar com

o amor, tenho por mui errada a declaração d'ella: e posto que seja

contradizer a tão grandes entendimentos, a hei de explicar ao meu modo,

que me parece que a pintaram os antigos: mulher por sua fraqueza; pois é

tal, que se rende a qualquer pequeno, e vil interesse; despida como

desavergonhada, por quão sem respeito, nem moderação se atreve a

commetter qualquer infamia; com azas por a ligeireza, com que se

arremessa a qualquer preza como ave de rapina; cega por pedinte,

mendiga, e importuna: e se isto não é, venho a presumir que a fingiram

com o rosto de mulher, e as pennas de ave como a harpia, que na

etymologia propria do seu nome manifesta o roubo e condição do cubiçoso:

e assim como a harpia damna, e descompõe todos os manjares a que chega,

assim a cubiça estraga e corrompe toda as virtudes: pelo que me parece

que nenhum parentesco tem com amor, que na nobreza é tão desegual, e

pelos louvores de sua excellencia tão conhecido. O a que se podera

voltar a nossa porfia, e arguir mil historias extremadas, é a tratar dos

poderes do ouro, e da valia do interesse, que já nos tempos antigos, e

no prezente de agora póde tanto, que obrigou a dizer a um auctor que

esta é a verdadeira edade do ouro, porque só elle senhoreia os animos

dos homens. E viera isto mais ao proposito da vossa peregrina, que com

elle e sua formosura não pôde vencer a um coração ingrato.--A mim me

parece (respondeu Leonardo) que vós tinheis mui boa razão se a não

guardareis para tão tarde: porém em a noite d'amanhã se lhe fará

justiça; que n'esta é rasão que se dê ao hospede lugar conveniente para

o repouso, pois ha de ir á cidade e voltar no mesmo dia.--Por não mandar

em casa alheia (disse o prior) não defendo a minha parte; mas prometto,

se voltar a horas que possa passar a noite tão bem como esta, de a não

perder.

Então se levantaram os mais e se despediram; e o prior gastou muitas

palavras em manifestar a Leonardo a inveja que tivera d'aquella

companhia: ao que elle respondeu com a que a todos fazia com a vista da

peregrina, que lhe ficára em casa; que posto que a boa conversação é

manjar da alma, a vista de uma estranha formosura, que rouba as de

todos, tem muito maior poder sobre o desejo.

DIALOGO VII

DOS PODERES DO OURO E DO INTERESSE

No mesmo tempo, em que os amigos se juntaram para o seu costumado

exercicio, se apeava o prior no pateo de Leonardo; que o desejo que lhe

causara a noite do dia d'antes, o fez tornar mais cedo da cidade. Foi

recebido com alegria: e depois de lhe perguntarem do bom successo de sua

jornada, lhe disse Solino:--Agora vejo que roubou a ventura a empreza

d'aquella peregrina ao sr. D. Julio: pois a deu a quem a deixa de vêr

por nos ouvir.--Antes vereis (respondeu o prior) quão poderoso é o ouro,

que até para ouvir falar n'elle deixo a propria casa, e n'ella a vista

de tão extremada formosura.--Não sois vós (acudiu Leonardo) o primeiro

que a deixastes por ouro, nem usaes n'esta occasião como avarento, pois

que vindes com esse titulo de cobiça enriquecer a todos, e a esta

casa.--Vós (respondeu elle) me individaes para me empobrecer com a mercê

e cortezia que me fazeis; de maneira que sempre o meu erro é dourado

para contentar os cobiçosos, quando pareça a Solino culpa deixar a vista

da minha hospeda pelo interesse da vossa conversação.--Não é só elle o

que vos accusa (disse D. Julio) antes eu de a vós deixardes me queixo,

ainda que de a acompanhardes tinha ciumes.--Só esses faltavam (tornou

Solino) para a conversação ficar de ouro e de azul; mas se d'este se

batera moeda, nenhum de nós se queixára de pobre, porque a dos

comprimentos é a mais corrente de todas. Porque o maior mal que o avaro

faz ao ouro, é impedir-lhe a corrente com a prisão em que o encerra,

podendo com elle até ás prisões fazer agradaveis e formosas, que para

isso imagino que se inventaram as cadeias e grilhões de ouro, que d'elle

servem para ornato, e dos outros metaes para castigo.--Não me

descontenta essa razão (disse Leonardo), porque se ao ouro quando sahe

da mina, antes de o pôrem em seus quilates, chamam os artifices _ouro

bruto_, quanto com mais razão merece este nome o que o avarento tem

escondido e fechado? E a este proposito me cabe contar uma historia que

li esta manhã; e se fôr sobejo, pelo que callei a noite passada, se póde

descontar o que agora disser.

Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume I) · 第 7 / 10 段