esta materia em desconto, e recompensa das passadas; e gastar esta noite
em saber a causa, e o estilo dos encarecimentos namorados, que é
pensamento que já me desvelou em outra edade.--Obrigo-me eu (disse
Leonardo) que a nenhum dos presentes descontente a vossa escolha; e eu
particularmente estimarei seguil-a, tomando o primeiro voto do
Licenciado, que por hospede, estudioso e cortezão se lhe deve o
logar.--O meu voto (tornou Feliciano) é de pouca importancia, e o logar
devido a outrem; mas com toda a humildade acceitarei o que me derem: e
se com a minha razão ficar corrido, barato é o saber que se compra com
primeiro errar: e assim digo que os encarecimentos nascidos de amor não
devem parecer estranhos (por deseguaes que sejam) a nenhum juizo
affeiçoado; porque o amante para pintar a formosura de uma dama, que
satisfaz a seus olhos e pensamentos, difficultosamente achará nas cousas
creadas a que a compare, que lhe fique parecendo que a encarece; porque,
ainda que sejam formosas as estrellas, lhe não agradam tanto como os
seus olhos; e sendo o Sol tão bello, se alegra menos com a claridade de
sua luz, que com vêr o rosto de quem ama; e são de menos valia para seu
gosto e desejo o ouro, as perolas, rubins, esmeraldas, e saphiras, que o
riso da sua bôcca e a graça da sua vista; e de não imaginar na terra um
amante cousa que se eguale ao objecto da sua affeição, dá em o desvario
de a comparar aos espiritos que não alcança com o entendimento, subindo
com elle pelas gerarchias mais levantadas: a causa é, porque o amor faz
as cousas tão formosas a seus olhos, que leva muita vantagem á natureza
que creou umas, e outras; e a cubiça e opinião, que engrandeceu a muitas
d'ellas: que até do gosto, como diz Plauto, nem o que tem sabor sem amor
é saboroso; nem ha fel tão amargoso, que com elle não pareça suave: que
não sómente com seus poderes dá perfeição ás cousas, mas tambem as
converte em outra substancia.--Não estou contra a vossa razão (acudiu
Leonardo) mas parecem-me de forma os encarecimentos de que falaes, que
todos, pouco mais ou menos, não sahem de certos limites; porque, em
descendo da pedraria, os que são menos lapidarios empeçam em coral,
marfim, porfido, alabastro, rosas, neve, ouro: e, quanto por meu voto, a
paixão de amor não havia de guardar regra certa nas palavras, e
louvores, antes encarecer sua dama com as cousas que a seu gosto e
opinião sejam mais formosas; e como as affeições são tão differentes,
assim o seriam os gabos, e encarecimentos.--Para louvar (replicou
Feliciano) não ha tantos caminhos como para ter affeição; porque logo
daes com uma estrada Coimbrã, que é _tão bella como o Sol_, _tão clara
como a Lua_, _tão alva como a neve_, _tão loura como o ouro_; e d'aqui
adeante.--A mim me parece bem (disse Solmo) a razão do Licenciado, que o
doutor tinha geito de metter os louvores de uma dama em exemplos
caseiros, chamando-lhe fresca como o seu pomar, linda como o seu jardim,
clara como a sua fonte, e alta como as suas faias: e como os amantes
para encarecer se não contentam com pouco, todos chegam ao que pode ser:
todo o branco é crystal e diamantes; o corado rosas e rubins; o verde
esmeraldas; o azul saphiras; e o amarello ouro e jacintos; e até as mães
dos meninos, a que naturalmente tem excessivo amor, não lhes sabem
chamar pouco: quando os tomam nos braços, logo os intitulam de _meu
duque_, _meu marquez_, _meu conde_; nas pedras _meu diamante_, e nas
flôres _meu cravo_, e _minha rosa_: quanto mais louvando mulheres, a
quem todo o encarecimento fica curto, e envergonhado pela fôrça, com que
tem captivos os sentidos, e as potencias dos que hão de falar n'ellas. E
para conclusão de tudo, diga Pindaro o que sente n'este particular.--Os
encarecimentos, de que usam os amantes (disse Pindaro) menos são seus,
que adquiridos dos famosos poetas, que lh'os ensinaram deixando-os
escriptos em suas obras: porque, como retratadores das obras excellentes
da natureza, buscaram tão altivos materiaes para darem vivas côres á
formosura. E não é muito que, pintando um rosto formoso da terra, lhe
accommodassem côres, e attributos celestes, quando para pintarem cousas
do mesmo céo usam tantas vezes de semelhanças, e encarecimentos da
riqueza da terra, como o fez Ovidio na casa de Febo, com tectos de
lavrado marfim, e ladrilhos de ouro, com paredes de topazios, jacintos,
e esmeraldas; e o mesmo fez pintando os pavões, que no céo levavam o
carro da Deusa Juno, que depois accrescentou em obra e feitio Martiano
Capella. E como a phrase poetica é a mais excellente, e levantada, e por
tal escolhida das Sibyllas, e Oraculos para usarem d'ella, tambem
fizeram os amantes a mesma eleição; entre os quaes qualquer miuda
consideração de um voltar de olhos é arco, aljava, e settas de Cupido,
com todas as mais allegorias, e transformações que os poetas usaram.--A
verdade é (disse o doutor) que a perfeição da formosura animada se não
pode devidamente encarecer com alguma semelhança, que o não seja, porque
todas lhe ficam muito inferiores: o que declarou bem uma dama
Florentina, que perguntando-se-lhe o que lhe parecia de uma figura de
mulher de alabastro, feita por um famoso esculptor d'aquelle tempo;
ella, sem responder com palavras, fez que uma creada sua formosa e bem
proporcionada, despisse em si as partes, que a figura mostrava núas; e
logo á vista da natural belleza perdeu a pintura, a fama, e valor que
d'antes tinha. E eu vi tambem um jeroglifico da formosura, que declara
engenhosamente este pensamento: a figura do qual era uma mulher com a
cabeça mettida entre as nuvens, o corpo despido, mas rodeado de um
resplendor, que o não deixava vêr distinctamente; na mão direita um
lirio, e na outra um compasso; significando com a cabeça mettida no céo,
e no resplendor, que só com as cousas d'elle se podia encarecer, fazendo
impedimento á vista humana como raios derivados da belleza Divina; o
lirio denotando a graça das partes naturaes, porque em côr, e pureza foi
sempre symbolo da formosura; o compasso a medida, proporção, e
correspondencia dos membros, em que consiste toda a perfeição d'ella.
Mas Pindaro tudo quer attribuir á sua profissão: e n'esta parte não tem
pouca justiça: porque sómente na licença poetica podem entrar os
desvarios dos namorados, por serem muito eguaes o furor poetico, e o
amoroso. Porém, já que os encarecimentos estão approvados com tão boas
razões, estimara eu ouvir alguma em desculpa dos que vivem, morrem, e
ressuscitam a cada passo, e que andam sem almas como cantaros, e sem
coração como furões, que, a meu vêr, é gente que por privilegio de amor
vive exceptuada das leis da natureza.--A razão (respondeu Feliciano) é a
mesma; porque quem encarece a causa egualmente exagera os effeitos: a
pena de um desfavor, o termo de uma crueldade, ou esquivança é o maior
tormento da morte ao que ama; e um favor e brandura, que recebe em sua
affeição, é na sua estima o maior bem da vida; e quanto ao estilo de
viver sem alma, e sem coração, o declarou maravilhosamente um poeta
moderno, dizendo em um soneto á sua dama, da qual estava ausente, que
uma parte da alma, com que vivia, lhe ficara; mas a com que imaginava,
entendia, e amava, tinha sempre com ella. Nem é outra cousa os
desvarios, e desattentos dos que amam, senão viver em certo modo fora de
si, como pareceu a Propercio, dizendo que o que se entrega ao amor perde
o juizo; e o que eu vejo que poucos em presença da cousa amada ficam com
elle.--Tambem S. Jeronymo (accrescentou o doutor) escreve que o amor da
formosura é um esquecimento da razão; e assim chamam os poetas ao amor,
inimigo d'ella. E que maior exemplo se pode imaginar d'esta verdade e
mudança dos que amam, que o de Hercules, a quem os embaixadores de Lidia
acharam lançado no regaço de sua amada, mudando-lhe os anneis dos dedos,
ella com a corôa real na cabeça, e o famoso Thebano com um sapato seu
d'ella em logar de corôa? que menos esperado que o de Dionisio
Syracuzano, que por mão, e parecer de Mirta sua amiga despachava os
negocios importantes do seu reino? que mais extranho, que o de
Themistocles Atheniense, famoso capitão de Grecia, que namorado de uma
dama, que captivou na guerra de Epyro, usava em uma doença, que sua
amada teve, dos mesmos remedios que lhe a ella faziam, tomando as
purgas, e sangrias como a mesma dama, e lavando o rosto por regalo, e
gentileza com o seu sangue d'ella? que menos crivel, que o de Lucio
Vitelio Imperador, que namorado de uma filha de um escravo seu, a quem
libertara, de tal maneira perdia o juizo, que, tendo uma esquinencia,
não usava outro remedio mais que um unguento que fazia de mel com o
cuspo de sua dama, imaginando que a virtude do ser seu lhe podia dar
saúde untando com elle a garganta?--De maneira (disse Leonardo) que amor
tira os sentidos, e o juizo a quem se emprega todo em seus cuidados: e
eu tinha para mim, e ouvi sempre dizer que não podia o nescio ser bom
namorado; o que agora vejo que contradiz a vossa opinião, pois os que
amam não tem entendimento.--Só o discreto (respondeu Feliciano) sabe ser
amante, e por isso perde o juizo nas mãos de amor; que o nescio mal
poderá perder n'ellas o que não tem. E falando mais ao ponto da vossa
duvida, o amante pelo ser não fica nescio, mas parece-o em muitas acções
dos sentidos, e entendimento; porque, transportado na imaginação do que
ama, se descuida de tudo o que não é sua paixão.--Extranhamente (accudiu
Solino) me contenta ouvir esta razão para desculpar commigo os maus
successos de namorados, a que não sabia tão boa desculpa; que assás
grande é para esquecer cousas menores quem está fora de si: porque,
deixados esses exemplos de amantes, cuja grandeza de estado faz maior, e
mais notavel o desatino, com que nas mãos do amor renunciaram o
entendimento; de outros de menos estofa, e mais modernos sei eu
descuidos, que podiam entrar em historia n'esta occasião, e por me
aproveitar d'ella: Eu conheci um cortezão mui empenhado em finezas de
amor, que passeava em um terreiro, onde tinha a dama em um quartão, que
já aturava aquelle fadario todos os dias como em atafona; acertou
n'aquelle a ser mais favorecido da senhora, que de quando em quando lhe
apparecia, cevando com sua vista os desejos do namorado mancebo, que por
seguir a caça se esqueceu do tempo, e das horas de comer, mettendo-se
pelo certão da calma que n'aquelle tempo fazia; o cavallo, que não devia
de estar tão affeiçoado a aquella estancia como á sua costumada,
estancava muitas vezes do passeio, sem haver accordo nem espora que o
despertasse; até que uma vez, estando o amante parado com o ponto no
alvo da janella, acertou a passar um macho que levava uma rede de palha,
a que o rocim se arremessou com tanta furia, que, prendendo os copos da
brida nos laços da rede, se embaraçou de maneira, que levou ao quartão
enamorado por todo o terreiro, onde se resentio do rapto, sem se poder
valer contra os couces do macho, e risada dos rapazes. Mas não é muito
padecer d'elles afrontas quem do um tão mal acostumado fia sua
liberdade. Outro, que ainda nas guerras de amor não era armado
cavalleiro, passeava a pé á vista de seu cuidado, ora com os olhos na
janella, ora com o tento na postura, e galanteria de seu bom trajo: a
dama, que não trazia ainda aquella affeição em abertas, e publicadas,
porque não notassem os que passavam os meneios, e esgares que o mancebo
fazia, acenando-lhe se tirou do posto passando-se a uma janella mais
pequena que cahia sobre uma esquina das mesmas casas: o galante mais com
o tento na mudança, que no caminho, com os olhos no alto, deu com a
testa um grande encontro na esquina, de que se esmechou, e atolou em um
monte de cal amassada de fresco, que estava arrimado á parede, ficando
até os sendaes mais caiado, que cantareira d'Alfama.--A todos pareceram
os contos de Solino cheios de graça; e (disse Leonardo) sempre sahe o
amor culpado n'estes ferimentos; e não tenho por grande desar todo o que
succede á sua conta, que por isso o pintam cego, e são conhecidos por
taes os que o servem: porém a mim me parecia que quando o amante perde o
tento, e o sentido de tudo o mais, devia ficar só discreto, e avisado
para sua dama, que é o objecto em que todo se emprega; que para lhe
falar lhe sobejariam razões galantes, respostas obrigadas, termos de
subtileza, e galanteria: e eu pela experiencia acho o contrario, que dos
noivos, e dos amantes se contam as primeiras parvoices.--Não sei (disse
Solino) se dirá agora Pindaro que tomaram isso os namorados dos poetas,
como os encarecimentos.--Os poetas (respondeu elle) não são havidos por
parvos; e quem lhes quiz fazer todo o mal lhes chamou doidos: o que
poderia ser; que o arrebatarem-se, e alhearem-se de si os amantes com
affeição, como os poetas com o furor divino que os excita, aprenderiam
d'elles. Pelo que o vosso remoque não deu boa chaça: mórmente que esses
primeiros erros são de outra geração; e nenhum parentesco tem com a
parvoice. Antes é um modo de se atalhar, e suspender um homem o seu
entendimento com muita razão; porque não pode dizer cousa, que pareça
bem aos outros a primeira vez que fala com aquella a quem ama; que é
passo, onde os mais discretos o perdem.--Parece-me que está no certo meu
companheiro (disse Feliciano) que eu sei de homens, que entre os outros
podiam falar sem medo, terem-no muito grande a estes primeiros
encontros; que certo me parece mais respeito que se deve á formosura,
que falta que se possa dar em culpa ao entendimento: pois o verdadeiro é
que amor o apura, e engrandece; e por este respeito os Athenienses lhe
levantaram uma estatua na Academia de Palas como a sabio, e lhe
dedicaram uma escola os Samios, significando que só na de amor se
alcança com perfeição tudo, o que pelas do mundo variamente se aprende,
e com muito discurso de annos se alcança: o aviso no falar, a discrição
no escrever, a brandura no conversar, a policia no vestir, a graça no
parecer, a cortezania no tratar, a liberalidade no dispender, o esforço
no pelejar, a largueza no jogar, a humildade no servir, e a pontualidade
no merecer. Do pensamento, e juizo dos amantes sahiram ao mundo as
emprezas discretas; as chimeras escuras, as idéas levantadas, os motes
avizados, os versos excellentes, os enredos subtis, as cartas galantes,
as fabulas bem fingidas, os primores, os extremos, e as finezas tudo é
doutrina tirada das escolas de amor. E pois n'ellas se alcança tudo, não
é muito que se ache tambem um termo de falar encarecido, e levantado
sobre todas as cousas vulgares que tratamos, posto que o juizo d'este
acerto se não deve fazer por homens livres d'esta paixão amorosa, se
pode haver algum, a quem não coubesse em sorte padecel-a: e bastava sem
outros exemplos, fazer a eleição d'ella o sr. Julio, que em todas as
partes de côrte e gentileza pode servir de espelho aos mais
apurados.--Vós me obrigaes por tantas vias (respondeu o fidalgo) que
fico desconfiado de poder pagar nem com encarecimento do que mereceis,
nem com a restituição dos louvores injustos que me daes, que só são
devidos ao vosso entendimento. E pois a victoria d'esta batalha ficou
por elle em meu favor, quero-me aproveitar d'ella, e do cuidado que me
deu o dia com me recolher a casa, e fazer mais comprido o repouso da
noite.--Essa resolução (disse Leonardo) é em damno de todos: e muito
mais de sentir, porque á força nos obrigaes a que consintamos n'elle:
mas como em logar de preza trouxestes da caça empreza tão difficultosa,
poupaes horas para cuidar n'ella á nossa custa.--Antes (respondeu elle)
para reformar no somno as que me desvelei na madrugada.
A isto se levantou; e os mais dando boas noites o iam seguindo, e disse
para todos Solino: O senhor D. Julio vae a sonhar com aquelle thesouro
encantado que lhe appareceu na fonte; e para este cuidado não quer
companhia; que se a communicação dos bens de amor faz muito maior a
gloria d'elles nos contentes; aos que só o estão de seu pensamento
nenhuma cousa é mais agradavel, que saudosa lembrança.
DIALOGO VI
DA DIFFERENÇA DO AMOR, E DA COBIÇA
Cada um dos amigos ao outro dia fez curiosa diligencia por saber algumas
novas da peregrina, que D. Julio tanto encarecera a noite passada; e não
achando d'ella nenhuma noticia, tiveram a historia por fingimento.
Juntaram-se ás horas acostumadas á porta de Leonardo, a tempo que tambem
o fidalgo apparecia, e que o velho os vinha a esperar ao peitoril da
escada com um hospede que lhe viera, que era um clerigo de edade,
pessoa, e trajo auctorisado; que dos mais foi logo conhecido por ser
prior de uma egreja que perto d'alli ficava: sentaram-se agasalhando-o
entre si com a devida urbanidade; e depois de lhe perguntarem de sua
saude; como estavam com o desejo de tirarem a terreiro a D. Julio,
fizeram signal a Solino que começasse; porém Leonardo não deu logar á
boa vontade que elle tinha, e se lhe adiantou na pergunta.--Bem cuidava
eu, senhor D. Julio, (disse elle) que aquella formosa peregrina era
encantada, e que foi traça do vosso entendimento fazer a todos
cavalleiros d'essa aventura; porém a mim só a encommendastes; que pela
edade pudéra já estar aposentado para tal empreza; eu a tomei por vos
obedecer, e andei bem cuidadoso no seguimento d'ella, sem até agora
atinar no caminho, em que vos perdestes.--Minha foi só a desgraça
(respondeu elle) pois perdi comvosco, e com os mais o credito do que
disse, e para meu desejo a gloria do que pudéra tornar a vêr em sua
formosura.--Essa levantastes vós tanto sobre as estrellas (disse Solino)
que se devia de agasalhar com ellas no céo, e enjeitar a pouzada d'esta
aldeia.--Parece-me (accudiu o prior) segundo o que vos ouço, que nós
podiamos mostrar o jogo; porque a occasião, que me trouxe a este logar,
e leva a Lisboa, é uma estranha peregrina que hontem appareceu na nossa
aldeia, de cujos successos, e formosura se podiam contar grandes
extremos; que já pode ser que seja a de que falaes.
Com esta nova se mostraram os amigos mui alvoroçados, e D. Julio
contente; e Leonardo respondeu ao prior:--Não imaginei que tinha tanto
bem junto com o de vos ter n'esta casa; affirmo-vos que, se ella não
fôra vossa, não poderieis pagar melhor a pouzada, que com tão boas
novas: pelo que vos peço que as não dilateis, contando-nos mui
particularmente d'essa peregrina, que tem tão obrigados os desejos dos
que aqui estamos, como agora pendurados os olhos, e ouvidos do que nos
haveis de dizer.--Hontem á tarde (proseguiu o prior) a tempo que já o
sol se ía encobrindo com as azas da noite, andava eu continuando com a
obrigação da reza à vista da egreja; veiu fazer oração á porta d'ella, e
d'alli ter commigo uma mulher em habito de romeira; que se a minha vida
merecera a Deus que mandasse a algum anjo falar comigo, podera imaginar
que ella o seria; porque a sua belleza passava os limites do
encarecimento humano, e com uma voz, que respondia bem á honestidade do
seu rosto, e á humildade do seu trajo, me falou (posto que em lingua
estrangeira) de modo que se deixava entender mui sem trabalho:
perguntou-me se acharia gasalhado em algum hospital, ou casa de caridade
d'aquella terra, em que passasse a noite, e pela manhã guia de confiança
para ir ter á cidade, offerecendo que n'ella pagaria bem a quem a
encaminhasse. Eu, que no merecimento de sua vista achei que era pouco
tudo o que lhe podia offerecer, fiquei enleado; porém lhe disse:
Senhora, esta terra é muito pequena; e para o que vós representaes,
outra maior me parecera limitada. Eu, posto que sacerdote, e d'esta
edade, tenho em minha casa uma irmã viuva, e sobrinhas, que vos saberão
servir melhor que as naturaes da aldeia; fazei-me mercê de aceitardes a
pousada, qual ella é, e, á conta do que faltar ao que vós mereceis,
supprirá a vontade que é muito grande. Ella me deu as graças do
offerecimento com poucas palavras, mostrando que o acceitava: vim com
ella a minha casa, onde foi agasalhada, e servida com grande gosto, pelo
que as moças tinham de se estarem revendo nas graças da sua belleza.
Depois da cêa, em que a peregrina fez pouco damno, lhe pedimos nos
contasse a causa de sua peregrinação, e como sem companhia viera ter ao
nosso logar: e ella mudando a côr em um suspiro, entre algumas lagrimas,
e com tão discretas razões, que as não saberei eu agora referir com a
perfeição propria (posto que algumas palavras eram de linguagem alheia)
contou o seguinte: