materia d'elle tão altiva, que me parece que eu e Pindaro ficamos esta
noite camarço, sem nenhum de nós fazer postoleta: ainda este mau jogo me
fez o meu moço, que não cuidei que d'elle saltasseis a coisas tão
differentes: folgara de saber se haveis de ficar n'esse tom, porque vos
deixarei em termo com o dono da casa, e o senhor D. Julio; e irei buscar
minha vida.--Ainda não tendes razão de vos queixar (respondeu elle) que
antes por me chegar pouco, e pouco aos criados, deixei muito dos
embaixadores, após os quaes se seguem logo os agentes, e procuradores,
que as cidades, villas, e lugares mandam a cortes, e outras vezes a
visitas, e occasiões dos principes, que não menos devem ser escolhidos
para estes cargos, buscando n'elles as partes mais necessarias que são
discrição, experiencia, e pessoa, quando não possam concorrer todas as
mais; porque a cidade, ou villa, que manda ao principe seu procurador,
ou agente, n'esse mesmo faz representação de sua sufficiencia.--De um
cidadão se conta (disse D. Julio) que, sendo enviado por procurador a
cortes, lhe esqueceu no caminho o que a cidade lhe encommendára, e
tornou a dormir a casa a perguntar a sua mulher o negocio a que ía: e
fôra melhor eleição, se a mandaram a ella, pois lhe não esqueceu.--De
outro ouvi eu (respondeu Solino) que jurou por vida da sua a el-rei
Filippe I que se havia de cobrir sua magestade para lhe fallar em nome
de uma cidade d'este reino: fóra outras impertinencias que na pratica
disse, mais dignas de riso, que de credito. E um conheci eu, a que
cahiram as luvas, e o chapéo da mão, começando a dar o recado de uma
cidade a um principe; e levantando-as, perdeu o que queria dizer, de
maneira que nunca atinou palavra.--Estes maus successos (proseguiu o
doutor) testemunham o muito cuidado, com que se hão de eleger os homens
para taes cargos; o que não importa menos aos titulares e fidalgos, que
mandam vizitar a outros em occasiões de pazes, ou parabens, por pessoas,
que saibam accommodar-se á tristeza, ou alegria que o caso requer, para
credito, e boa opinão de quem os manda.--Certo (accudiu Leonardo) que
não julgará bem quanto isso releva, senão o que já se envergonhou de
ouvir visitas desencaminhadas, como se fez uma a um fidalgo que eu
tratei particularmente, ao qual, estando enojado por morte de um seu
filho, visitou da parte de um personagem um capellão bem apessoado, e
disse que o senhor N. estimára muito aquella occasião para mandar
visitar a sua M. e se offerecer a seu serviço. A este conto fizeram
todos muita festa. E Solino, que vio lugar aos seus, accudio logo: "Não
sei se virá muito a proposito; porém tambem eu hei de dizer a minha
historia, em rasão da advertencia, e cuidado que deve ter quem visita em
nome alheio; pois se vê que mais desattentos, que ignorancias, os erros
d'estas materias. Uma senhora enojada por a morte de um seu irmão tomava
as visitas em uma camilha, como as mais costumam. A esta mandou visitar
outra parenta sua por uma pessoa de auctoridade; que entrando na
primeira casa achou tão escura que, pegando-se ás paredes, esperou uma
dona que lhe servisse de moço de cego; a qual o levou por a mão até uma
porta estreita, onde havia um degrau alto; e alli o soltou para passar
deante; a qual não alcançou tão bem o degrau, que não désse primeiro com
as queixadas na humbreira do portal; e sahido do perigo o tornou a guiar
a dona da mesma maneira até junto da camilha, onde o tornou a soltar:
esta pessoa, cuidando que tinha alli outra porta, por não errar o degrau
por baixo, levantou o pé de maneira, que o poz nos peitos á enojada, que
dando um grande grito a fez cahir de focinhos. Muitos, que estavam na
casa, e tinham furtada a luz aos que de novo vinham a ella, levantaram
tão grande riso, e borburinha, que desauctorisaram de todo o sentimento
do nojo, e cahia cada um para sua parte sem se poder valer." Como Solino
tinha graça natural no que dizia, deu muita a este conto, que foi
celebrado com riso de todos.--Se assim é (disse Solino) que nesses ha
tantos desatinos, e inadvertencias, não ha que espantar de criados
menores, que uns são por natureza tão rusticos, que em nada acertam;
outros por malicia tão depravados, que não querem saber senão o que é em
favor de sua maldade.--Uma questão se offerecia agora (acudiu Pindaro)
que, ainda que rasteira, é em materia proveitosa. Convem a saber se é
melhor servir-se um homem de um moço simples, e nescio; ou de um
malicioso ainda que seja esperto.--Eu estou melhor (tornou D. Julio) com
o que me engana, que com o que me enfada; porque a confiança, que fizer
do meu moço, será segundo a opinião que d'elle tenho para me poder
enganar em pouco: e do nescio nem posso confiar em um recado as minhas
razões, nem as minhas obras dentro em casa; que o que ignora o que ha de
dizer, menos sabe o que lhe convém calar: além de que é grande desgosto
andar um homem de continuo ensinando um rustico, sem proveito, que não
tomará em sua vida tinta de discrição, por mais que o cozam n'ella.--A
mim me parece outra coisa (disse Solino) em razão d'aquelle proverbio:
_Antes asno que me leve, que cavallo que me derrube_.--Pelo rifão
(respondeu Leonardo) entendo que quereis defender o vosso moço.--Se o
não fizer bem, ficarei no seu lugar (replicou elle). Porém o moço nescio
não pode desacreditar com sua parvoice o entendimento de seu amo, que
não está obrigado ao tirar das escolas de Athenas. E o malicioso, e
esperto, nem por o ser deixa de errar peior que os outros; porque não
aprende o que convém a seu amo, senão ao intento de sua maldade; e dá ás
vezes por recado o que lhe parece, em lugar do que lhe mandam; e quando
não, troca as palavras ou o sentido d'ellas; muda o tempo, e a acezão do
recado; vai quando quer, e não ao tempo que vos releva; tira-vos o
credito nas obras, se o conserva nas palavras, porque dizem que _qual o
amo tal o moço_; mais vos desacredita com a murmuração, do que vos
acredita com o recado; e quando vos lisonjeia, é quando vos rouba. O
simples, se não diz o que lhe dizeis, faz o que quereis, contenta-se com
o que d'elle fiais, e não trata de penetrar o que pretendeis; e muitas
vezes seus erros cahem em graça como as subtilezas dos outros em
damno.--Boas são essas razões (disse Feliciano) porém é dura coisa que
pelo moço nescio julguem por tal a seu amo; pois é regra de direito que
_faz por si o que manda fazer por outrem_: e se a victoria dos soldados
se attribue ao capitão, os ensinos, e palavras dos moços porque se não
hão de julgar por de quem os governa, e manda? e menor damno é qualquer
dos outros, que o de um homem parecer nescio á conta do seu moço. E
sobre tudo não se ha de pintar tão perverso o malicioso, que faça mal,
diga mal, e presuma mal, e seja intelligente; que os mais d'elles cantam
de quem roubam; que d'esse outro modo não é pintar criado, mas
inimigo.--E não sabeis vós (accudiu o doutor) que todos os criados, ou a
maior partes d'elles o são de quem os sustenta? e assim diz a sentença
de Euripides, que não ha maior, nem peior inimigo que o criado: e
Democrito diz que o criado é coisa tão necessaria, como amargosa:
Luciano diz que os criados sempre tem malicia, e traições armadas contra
seus amos.--A muitos tenho eu por inimigos (disse Feliciano) porém peior
o será o nescio, que o que o não for; e não sómente sustentará inimigo
em casa, mas senhor, que, como diz S. Jeronymo, não ha maior servidão
que mandar a um nescio.--Eu tenho procuração em causa propria (disse
Solino) para acudir pelos criados, como testemunha de muitos fieis, e
verdadeiros a seus senhores: e Euripides, e os mais devem de entender, o
que disseram, dos escravos, que, como lhe temos tomada a coisa mais
principal, e mais sua, que é a liberdade, sempre nos tem odio, e nos
desejam, e procuram mal; porque a vilesa do seu animo não soffre
mostrarem valor na sujeição.--Não me parece a mim essa boa razão
(accudiu o doutor) porque por dito de Seneca _nenhum escravo ha mais
vil, que o livre, que serve por sua vontade_. (Não entendo n'este conto
os nobres, e honrados, que servem aos grandes por respeitos razoaveis).
E dos escravos, a que fez taes ou a ventura de guerra, ou outra
desgraça, temos os livros cheios de exemplos de valor, e fidelidade, em
que deixaram muito atraz os proprios filhos. E se não, vêde se fez algum
o que o escravo de Publio Catieno. que, deixando-o o senhor por
universal herdeiro de seus bens, pela fidelidade com que o servira;
elle, por se mostrar agradecido na morte, se deitou vivo na fogueira em
que queimavam o corpo de seu senhor, e morreu com elle, mostrando que
estimava mais tal servidão, que a vida, e as riquezas que lhe deixava.
Erotes, escravo de Marco Antonio, se matou de pesar de ver a seu senhor
vencido de Augusto. Euporo, escravo de Lucio Graco, que se matou sobre o
seu corpo. E um escravo de Papinião, que, vendo que os inimigos entravam
uma quinta, em que o senhor estava, para o matarem, trocou com elle o
vestido, e metteu no dedo um seu annel de preço: e deitando-o fóra por
uma porta, sahiu pela outra a receber a morte, que haviam de dar a seu
senhor. E Frederico de Eveshim, escravo de Conrado Imperador, que,
sabendo que vinham para o matar, o fez sahir do paço, e se deitou na sua
cama, onde, cuidando os inimos que era Conrado, o mataram: o outros
muitos escravos sem nome, que mereciam que o seu ficasse eterno por
memoria de sua fidelidade. Nem se póde esquecer aquelle grande animo de
Lazaro Cherdo, escravo, de nação Serviano, que vendo seu senhor cativo
de turcos, e depois morto, desejando vingar-lhe a morte por preço de sua
vida, fingindo que vinha fugido dos hungaros, entrou no campo Turquesco,
e dizendo que queria fallar a Amurates, primeiro imperador d'aquelle
imperio, o matou a punhaladas; d'onde não pôde fugir, mas perdeu a vida
valorosamente.--D'esses escravos (replicou Solino) não trato eu, que
mereciam ser senhores de seus senhores; como tambem houve criados que
mereciam ser servidos de a quem serviram: que tambem Diogenes foi
escravo; e perguntando-lhe Xeniades, que o comprava, em que sabia
servir, respondeu: que _em mandar homens livres_; por o que Xeniades o
libertou dizendo: _aqui te entrego meus filhos para que os mandes_. E
Epicteto, que se chamava escravo de si mesmo: e a Phedão, escravo de
Cebes, ouvi dizer, que Platão dedicara um livro da immortalidade. Porém
a nós não nos cahiram em sorte estes escravos, senão a gente mais
barbara do mundo como é a de toda a Ethiopia: e alguma escravaria da
Asia, que é da gente mais vil das provincias d'ella; que uns, e outros
tratam os portuguezes com rigoroso cativeiro n'aquellas partes,
vendendo-os para serviço das minas das Indias de Hespanha como
condemnados á morte: e assim se podem estes chamar com razão inimigos
mortaes de seus senhores.--Tambem (disse o doutor) houve já n'este reino
escravos illustres de muito valor, entendimento, e sangue, conhecidos
por taes, e tratados como se estiveram em liberdade, que cativaram nas
nossas fronteiras de Africa, em cujas historias me eu não quero deter
por me não alongar mais do intento do nosso discurso dos recadistas, que
uns e outros representam a pessoa de quem os manda, no que toca ao
recado que dão: o que a mim me parece que está bem provado com o
costume, que os antigos tinham em mandar os seus, que não fallavam por
terceira pessoa, como é o nosso uso, que dizemos _diz fuão que vos beija
as mãos_; _que vos pede isto_; _vos encommenda este outro_; _vos lembra
tal coisa_: antes costumavam: _N. vos diz_, _beijo-vos as mãos_,
_rogo-vos isto_, _encommendo-vos este outro_, _lembro-vos tal coisa_,
representando nas palavras a mesma pessoa que as mandava dizer; e d'esta
maneira ficava arriscado nosso amigo Solino, representando pelo seu
moço: pelo que a mim me parece que o melhor do recado é ser tão breve,
que o possa dar sem erro quem o leva; e tão claro, que o entenda sem
trabalho a quem se manda. E com isto, e com vossa licença me hei por
desobrigado do que n'esta materia podia dizer.--Não pela minha parte
(disse D. Julio) porque deixais de fóra um officio de mais habilidade
que todos os de que falastes, em cuja profissão entra a de embaixador,
agente, procurador e recadista; e ainda outros muitos, que é o do
terceiro, ou alcoviteiro. A isto deram todos grande risada, e disse
Leonardo: O doutor calava esse officio, por ser mais vil, e reprovado,
que os de mais, e se empregar em materia tão odiosa á Republica: porém
sem entrar no fundo d'elle, nos poderá dizer alguma coisa da
superficie.--Bem sei (respondeu o doutor) que para me metter em
desconfiança levantais essa lebre; e não vos enganeis, que tanto se deve
tratar de officios viciosos para fugirem d'elles, como dos de virtude
para os seguirem, e desejarem; e posto que esse é tão vil, já os romanos
deram leis á sua profissão, segundo escreve Pedro Crinito; as quaes
estavam escriptas no templo de Venus; e Licurgo, aquelle grande
legislador dos Lacedemonios, tambem lhes deu regras, e liberdades, posto
que lhe está melhor o castigo com que os nossos direitos os agasalham;
mas se ha officio de muito cabedal, e pouca honra, é o do alcoviteiro,
porque ha alguns que os não vence Tullio no fallar, Catão no dissimular,
Sallustio no persuadir, Terencio no representar, Ovidio no fingir,
Lucano no encarecer, Diogenes no desprezar, Ulysses no tecer, Momo no
desdenhar; e todas as artes, e sciencias do mundo tem e empregam em
afeiçoarem com engano vontades innocentes. E para lhe assignarmos as
partes necessarias, fôra acertado pintar o avesso do embaixador, com que
só convém em ser discreto, e experimentado; porém ha de ser baixo, vil,
desprezivel, avarento, chucarreiro, mentiroso, ingrato e soffredor de
todos os escarneos e zombarias, porque não só é de sua profissão
enganar, mas tambem obedecer a toda a ignominia, e infamia que seu
exercicio merece.--Muito cruel estais contra elles (tornou D. Julio) e
não tendes razão; quando vitupereis o seu officio, não vos esqueçais da
grandeza das partes d'elle, pois o alcoviteiro descreve, enfeita, e
encarece melhor que um escriptor: persuade, aconselha, e convence como
um rhetorico: finge, disfarça, e representa com figuras, espantos,
meneios, e hypocrisias nos gestos, e palavras como um commediante:
pinta, veste, touca, accommoda, guarnece, doura, argenteia toucados, e
vestidos, e trata os rostos, e feições melhor que um pintor; sabe mais
da natureza das pessoas com que trata, que um philosopho; vende o falso
por verdadeiro, como logico; conhece as enfermidades, e achaques dos que
lisongeia, como medico; obriga, e engana no interesse, como legista;
adivinha os tempos, occasiões, e vontades melhor que um astrologo. Não
ha finalmente arte liberal, nem mecanica, de que se não valha, e em que
não vença a seus professores.--Ainda me parece (disse Solino) que haveis
de chegar á Celestina; que posto que o officio é do genero commum de
dois, accommoda-se melhor ao feminino. E pois de embaixadores descemos a
criados, não é de espantar que tropecemos em tão ruim gente.--Parece-me
(disse o doutor) que de aposta quereis profanar a minha auctoridade; não
vos quero dar esse gosto á minha custa: e não passemos d'aqui n'esta
materia: e tambem porque é mais tarde do que parece, demos lugar a que o
senhor Leonardo se recolha.
Com isto se levantaram todos, e se despediram, festejando e agradecendo
cada um ao outro o que dissera; que tanto se contenta o discreto da boa
razão alheia, como o nescio da sua ignorancia propria.
DIALOGO V
DOS ENCARECIMENTOS
Não perdiam tempo os da conversação em se chegarem aos interesses
d'ella: e era em todos tão egual o desejo, que nem a occupação de cada
um os desencontrava; porque o gosto, em que se enleva o entendimento,
faz menores todos os respeitos ordinarios da fazenda, e familia.
Entraram á noite juntos em casa do hospede com grande alvoroço, dando
cada um no caminho seu voto sobre a materia, em que se haviam de gastar
aquellas horas. Porém assentados, sem o estarem ainda no que seria,
disse D. Julio: Por certo, senhores, que estou tão enleado com uma coisa
que vos quero dizer, que temo das razões e da edade faltar ao decoro que
convém ao sujeito d'ellas; porque nos mancebos as palavras de mero
louvor de uma mulher, ainda sendo mui compostas, parecem lascivas; e
mais facil é de presumir um engano de affeição nos meus olhos, que de
persuadir um espanto a entendimentos tão levantados como os vossos.
Porém seja o que fôr, e corra o meu credito o risco que ordenardes; que
com todos, os que houver, me aventuro.--Que novidade é esta, senhor D.
Julio (disse Solino), que sermão quereis fazer, que tomaes a graça, e
nos tendes pendurados a todos no desejo de vos ouvir?--Esta manhã,
(proseguiu elle) porque me pareceu de caça, e por gastar n'ella o dia,
com menos cuidado do desejo da noite, me fui pôr detraz da nossa serra
alongando-me para a parte do mar um grande espaço de caminho; e voltando
sobre uma fonte, que nasce ao pé de uma corôa de penedos, coberta da
sombra de uns altos hervados, e atoeiras, cheios de verde rama como no
melhor tempo da primavera, embaraçados com umas vides silvestres que os
atavam, e que ainda de todo não estavam despidas de sua folha, vi junto
a ella, e coberto com elles o mais formoso rosto, que eu imagino que
pode haver no mundo para satisfação de uns olhos afeiçoados: era de uma
mulher em habito de peregrina, que fiada na solidão d'aquelle deserto, e
por gosar dos raios do sol, que n'aquelle logar se espalhavam, com os
toucados lançados sobre os ramos á vista da fonte concertava os
cabellos; e eram elles taes, que não sómente faziam perder ao sol a
formosura, mas cobrindo outro mais formoso, que era o seu rosto,
contentavam de maneira o desejo, que não fazia muito por passar d'elles
adiante. Eu sem atinar no silencio, com que era razão que me escondesse
por lhe não ser pesado, fiquei tão esquecido, que, afrouxando as redeas
ao cavallo, o deixei tropeçar entre os ramos, e fui sentido da formosa
peregrina; que levantando os olhos, a cuja obediencia os cabellos se
apartaram, qual sôa ferir o relampago d'entre as nuvens, me saltearam a
vista com uma luz estranha, descobrindo juntamente aquelle thesouro de
ricas pedras, que o ouro dos cabellos escondia. Os olhos eram duas
estrellas de diamantes, em cujo fundo um verde escuro de esmeraldas
apparecia, que communicando áquella formosa côr a claridade dos raios,
que despediam, roubariam as almas de quem os olhasse; e descendo d'elles
abaixo, era tudo tão cheio de perfeições, que o menor logar, em que se
empregava a vista, tinha desusados extremos de formosura. A bocca era um
laço de todos os pensamentos amorosos; e nunca vi coisa tão pequena, em
que coubessem tantas grandezas; pareceu-me um rubi partido pelo meio,
que com um perfilo aleonado se dividia, e por detraz luziam como por
vidraça as perolas, que até então me não descobrira o pejo, com que
ficou de haver visto. A columna, que sustentava este edificio, era um
pescoço de crystal jaspeado de umas veias roxas, e azues muito delgadas,
que me representaram n'aquella hora a côr do céo sereno, que pela rotura
de duas nuvens brancas apparece, a que fazia parecer mais formoso o
circulo da sombra, com que se engastava no aspero burel da esclavina que
a romeira vestia: apeei-me eu; e n'este mesmo tempo lançou ella o
toucado sobre os cabellos, pondo os olhos na fonte como em espelho; mas
como as suas madeixas eram mais compridas, que a toalha branca, com que
as quiz encobrir, se mexericavam pelos extremos das pontas, que vinham a
guarnecer de fino ouro aquelle grosseiro trajo: falei-lhe com a
cortezia, a que a modestia, e gravidade do seu rosto me obrigava; e ella
sem mostrar outro alvoroço de minha presença mais, que vestir de
escarlata a branca neve de que parecia formado, me respondeu,
perguntando se estava perto o lugar, e se era aquelle o caminho. Eu, que
não perdia com os olhos um só movimento dos que os seus faziam, me
pareceu tudo o que tinha visto, sombra da graça e brandura com que falou
com uma voz tão fina, que penetrava o interior do coração, e tão suave,
que o desfazia, e com uma modestia tão grave, que não dava logar a se
pôrem n'ella os olhos direitamente, senão com um respeito armado de
receios. Perguntei-lhe d'onde era, para onde ía, encarecendo-lhe o
perigo em que punha sua belleza de ser offendida, fiando-a de desvios
tão solitarios. Mas ella despresando todos os temores, e fazendo mais
difficultosa sua jornada, pelo que d'ella lhe pendia, que pelos trances
que á sua conta se me representavam, deu a entender muitas cousas, com
que eu perdi o accôrdo, e ousadia de lhe perguntar outras, e lhe
offerecer algumas das que costumam haver mistér os que fóra da sua
patria vem experimentar os males das alheias. E além de eu estar
atalhado com sua vista, o estava ella tanto com minha presença, que
perdi o interesse de a vêr, por o respeito de a não molestar: despedi-me
magoado: estou arrependido; e cubiçoso de a tornar a vêr, de maneira que
não aparto o pensamento do logar onde os meus olhos a deixaram. E porque
ainda me parece que deve ser mais estranho o successo, que a traz
n'aquelles vestidos, que a novidade de sua gentileza, a que se deve todo
o cortezão tributo de vontades bem nascidas; peço ao senhor Leonardo que
por a melhor via, que lhe parecer, saiba d'esta estrangeira, que por
esta noite deve de estar na aldeia; ouvirá d'ella mesma a sua historia,
e eu acreditarei com a vista o que tenho dito de sua formosura.--Bem
andastes, senhor D. Julio (disse o doutor) em tomar primeiro carta de
seguro para o que havieis de dizer; porque os encarecimentos d'essa
peregrina são mais pinturas vossas, que gentilesas suas; porque não ha
mulher nas obras da natureza tão perfeita cá na terra como a soube
fingir o vosso entendimento, ou affeição: e á conta d'ella me parecia
bem que assentassemos o retrato de belleza tão sobrenatural, que em
materias de amor tudo o que reluz é ouro, e tudo o que assombra é sol; e
só com esta desculpa salvareis louvores tão desacostumados.--A affeição
do que vi não posso eu negar (tornou elle) mas á vista da peregrina
dizei o que quizerdes contra minhas razões, que nas suas partes hei de
achar armas com que defenda o que disse. Leonardo se offereceu então a
mandar fazer a diligencia com muito cuidado: e voltando para Solino, que
tinha os olhos no chão, lhe disse: Vós, callaes, quereis allegar
serviços ao senhor D. Julio, porque a vossa natureza não é deixar passar
esta mercadoria sem registo.--Estava agora (respondeu elle) cuidando nos
livros de cavallarias, que ha poucas noites que defendi; e desejava dar
um cavalleiro andante áquella peregrina; que se uma cousa d'estas
apparecêra a meu amigo Pindaro, que encantamentos não rompera, e que
poesias, e obras heroicas appareceram de novo no mundo, que alabastros,
marfins, marmores, crystaes, topazios, jacintos, esmeraldas rodaram por
esses ares! Que posto que o senhor D. Julio sahiu d'este encontro mais
elegante do que se esperava; Pindaro, com sua licença, tem n'esta
materia mais direito adquirido; e não se houvera de contentar de descer
do céo as estrellas, e o sol em similhantes louvores: mas os archanjos,
cherubins, dominações e potestades haviam de ter logar n'elles.