gentes e das alheias, para de novo offerecerdes batalha a Alexandre. Não
sei a que effeito; pois o poder de toda a redondeza não basta para
pelejar com os deuses immortaes que a elle o favorecem. Deixae esses
pensamentos altivos; apartae-vos da vangloria d'elles, concedendo á
grandeza de Alexandre alguma cousa; que melhor é deixar o que não podeis
ter, para gosar livremente o que possuis; que, querendo dominar tudo,
ficar sem nada."
Cada um dos presentes gabou estas cartas com tanto extremo, que não
deixaram que com ellas acabasse Leonardo sua obrigação; porque (disse D.
Julio) já pelo voto de Solino, estas são as cartas, que entram na
jurisdicção de minha curiosidade, não consinto que nos exemplos seja
este genero mais limitado; mórmente que d'este se tira outra doutrina
mais que a das cartas, que é a variedade das historias e occasiões
d'ellas.--Eu (respondeu Leonardo) ainda tinha cabedal para ir adeante,
se as horas tornaram atrás; mas partirei (como dizem) a contenda pelo
meio, recitando uma carta, que o grã senhor dos turcos escreveu aos
amazonios; e a valorosa resposta que elles lhe mandaram: e dizia a
primeira:
CARTA DO TURCO AOS AMAZONIOS
"Se por defensão de vossa liberdade sustentáreis guerra contra meu
poder, não vos tivera tanto por inimigos, como por valorosos cidadãos,
que pela patria, filhos, parentes e amigos punheis as vidas. Porém com
nenhuma razão me persuado que os que deixaram tantos annos governar o
reino a mulheres (como tenho ouvido) recusem agora o imperio, e governo
de homens valorosos."
E a esta carta responderam elles outra, que dizia:
RESPOSTA DOS AMAZONIOS
"Este reino das amazonas, que, como por affronta nossa nomeaes, com o
seu mesmo exemplo nos aconselha não obedecer a outrem: porque temos por
infamia e torpeza que o exforço varonil seja vencido do espirito e braço
feminino. Pelo que deveis julgar por invenciveis em armas, e dignos do
governo e principado do mundo homens, entre os quaes até as mulheres
apprenderam a reinar."
E porque com exemplos gentilicos e barbaros não dê fim á conversação
d'esta noite, direi por remate uma carta que o veneravel sacerdote Beda
escreveu a Carlos Martelo, rei de França, e aos mais potentados
d'aquelle reino sobre a entrada dos mouros em Hespanha, que dizia:
CARTA DO VENERAVEL BEDA A CARLOS MARTELO REI DE FRANÇA
"Em quanto se move perigosa e cruel guerra na christandade, se apparelha
notavel ruina de toda a Europa: porque os sarracenos, occupada a Africa
e Libya, começando de Ceita, tem conquistada toda a terra de Hespanha,
tirando a das Asturias e Cantabria. Africa, que o capitão Belizario
cobrou aos romanos, e que cento e setenta annos obedeceu a seu imperio,
juntamente com a Hespanha Betica, tem tomado os mouros, fazendo-a
obedecer a seus falsos ritos, com grande ignominia e affronta do nome
christão. Que cousa póde haver mais excellente, valorosa e pia, que
contra estes inimigos de Deua tomar armas? Que fizeram os suevos, os
allemães e os mais varões do nome christão, que com tão grandes
destruições tendes perseguidos? Perto estào, e sobre vossas cabeças os
sarracenos, que com soberbo jugo ameaçam a toda a redondeza da terra.
N'elles tendes formosissimos reinos, grossas cidades, ricos despojos; e
vos esperam grandes triumphos da victoria: e principalmente incomparavel
premio de gloria com Christo nosso Salvador, que para tão santa empreza
com continuos brados vos está chamando."
Certo, disse o doutor, que, se pudéra dilatar a noite pelo interesse de
tão proveitosa doutrina; mas porque n'esta se não ha de dar fim ao nosso
exercicio, fiquem algumas perguntas, que agora escuso, para outra
occasião, pois agora a não tiveram as cartas amorosas nem as de
desafios.--As primeiras (replicou Leonardo) deixei por ser improprio da
minha edade tratar d'ellas; as segundas, por me não embaraçar com o
duello que está reprovado. Porém fica o campo livre para os mancebos.
Com isto se despediram dando-se boas noites: e o estudante foi
encarecendo ao companheiro o muito que o espantára vêr tanta côrte em
uma aldeia; que as cousas achadas onde não se esperam, são de maior
admiração, e de mais estima.
DIALOGO IV
DOS RECADOS, EMBAIXADAS E VISITAS
Amanheceu o sol tão claro e gracioso, que alguns dos amigos por se
lograrem d'elle com a occasião da caça se espalharam pelos montes; mas
depois de horas de vespera visitou o estudante em companhia de Pindaro
ao doutor Livio, com quem passaram a tarde n'um seu jardim em boa
conversação, esperando a da noite, a que elles foram os primeiros que
acudiram, e se acharam em casa de Leonardo; que commummente nos
lettrados se accende melhor o desejo de saber, e não n'aquelles aos
quaes lhes custou menos. Sentaram-se á vista do fogo, que á conta dos
hospedes estava melhor ordenado; e depois de gastarem algumas palavras
de cumprimento, chegaram D. Julio e Solino a quem todos fizeram muita
festa; e, reprehendidos da pequena tardança, disse Solino:--Grande
espaço ha que eu pudera gosar esta companhia, se me não detivera em
esperar resposta de um recado, que mandei ao sr. D. Julio.--E eu
(respondeu elle) se vos não encontrára, ainda não tinha entendido o
vosso moço; porque de maneira embaraçou o que me mandaveis dizer, que
nem por discrição pude tirar o recado: nem vos desfaçaes d'elle para os
que forem de importancia, que val a peso de ouro.
A isto se começaram todos a rir, e tornou Solino:--O meu moço, sr. D.
Julio, tem desculpa em ser nescio, porque é meu moço; que, se soubera
mais, eu o servira a elle; mas os creados dos grandes, como vós, esses
hão de ser discretos, pois são tão bons como eu: e comtudo eu vos sei
dizer que ha aqui moço que no dar um recado o pudera fazer como ao que
lá mandei, que não é dos peiores da sua ralé, e já entermette de lêr
carta mandadeira: mas nos recados ainda agora lê por nomes, e não acerta
a nenhuma cousa.--Pouca paciencia tenho (disse o doutor) a um creado que
esperdiça o entendimento de seu amo: mandaes um recado concertado,
discreto e cortezão: e o madraço, que o leva, muda-lhe os trastos e
desentôa com uma parvoice que vos desacredita, como com os meus me tem
acontecido mil vezes.--Nos vossos não é muito (disse Solino) que daes os
recados guarnecidos de rhetorica com seus vivos de latim, que são mais
perigosos na bôcca d'estes, que vidro em mão de menino: mas os meus, que
não passam de quatro palavras em linguagem corrente, e que assim os
virem do carnás e me mettam em vergonha, não é desgraça? Ora prometto
que os de importancia eu mesmo os leve como aconteceu ao cortezão
ausente, que levou elle proprio a carta a sua mulher: e os que houver de
dar o meu moço, que sejam seus, por não andar remendando o burel da sua
natureza com o trabalho da minha disciplina. D'aqui por deante bôcca faz
jogo: digo, que o que o meu moço disser, elle o diz, e que me não ha de
chamar por auctor das suas impertinencias.--Certo (disse Leonardo)
deixando de tratar dos meus, e vossos recados, que importam menos, e de
outros em que vae tão pouco, que é uma das cousas de maior consideração
aos reis, principes, republicas, e aos grandes mandarem suas embaixadas,
visitas e recados por homens de auctoridade, discretos e bem
disciplinados, em cujas razões e procedimentos consiste muitas vezes o
bom successo do que pretendem. E assim os reis, principes e republicas
nas materias de estado; as cidades e povos nas occasiões das côrtes; os
senhores particulares nas visitas; devem sempre escolher homens, que no
entendimento se avantajem dos outros, porque não sómente conseguem o fim
da pretenção de quem os manda; mas o acreditam: e porque ás vezes por
respeitos, privança e valia se antepõem os menos sufficientes para estes
cargos, se deitam a perder negocios de uma republica, em que consiste a
quietação e honra d'ella.--Pouco e pouco (disse Pindaro) se foi o sr.
Leonardo á materia dos recados, que não ficam fóra de seu logar, depois
de o terem as cartas missivas; e bem se póde fazer a noite bem
assombrada com tão bom sujeito.--Desculpado estou (respondeu elle) com o
trabalho, que na de hontem cahiu á minha conta, em fugir d'elle; mas não
de approvar a vossa advertencia.
A todos os mais pareceu que seria acertado tratarem a materia de mais
longe; e pediram ao doutor que, tomando-a á sua conta começasse.--Bem
pudera usar (disse elle) do privilegio do sr. Leonardo, e de outros para
minha escusa; porém ainda que os tinha, e qualquer dos presentes mais
sufficiencia para este encargo por lhe não pôr a elles ruim fôro, me dou
por obrigado. Digo que _recado_ é nome que entre nós tem a etymologia. A
significação é muito duvidosa, pelo modo em que usamos d'elle: porque,
se houveramos de derivar este nome do verbo italiano _recare_, que é
_trazer_; ou do verbo _recapacitare_ que é _recapacitar_ (d'onde elles
chamam _recapacitar_ ao _recado_) nunca disseramos d'elle tanto, como na
nossa lingua portugueza significamos; mas se lhe buscarmos a origem do
latim, virá mais ao nosso modo pela differença do messageiro ao que leva
recado: que o primeiro _missa gerit_, faz as cousas que lhe mandam; e o
segundo _recautus_, este é homem acautelado, que sabe o que ha de fazer
no que está á sua conta; que assim convém mais com o nosso modo de
falar, quando dizemos _homem de recado_, que quer dizer _de importancia,
posto a bom recado, que é seguro_, e _com cautella: tardar e arrecadar_,
que é levar ao fim o que começou: porém seja uma cousa ou outra, ou
ambas, o principal recado de todos é o do embaixador; e estes são de
duas maneiras, ou o que o principe manda a outro por occasião
successiva; ou o que de ordinario assiste em sua côrte, para conservação
da benevolencia e amisade que entre elles ha: estes segundos tinham os
romanos nas provincias junto á pessoa do consul, que as governava com
titulo de legados, e com elles despachava os negocios de importancia.
Mas aos primeiros chamavam elles oradores, por serem mui semelhantes no
officio de persuadir, mover e obrigar; e ainda em nossos tempos se
aproveitaram muitos d'essa arte, sendo escolhidos para o cargo de
embaixadores.--Eu (disse Leonardo) tenho um cartapacio não pequeno de
falas e orações de embaixadores portuguezes feitas a grandes principes,
e não pouco doutas e elegantes, como foi uma que fez o bispo D. Garcia
do Menezes ao papa Xisto, indo por embaixador por mandado de el-rei D.
Affonso V, e por capitão de uma armada que elle mandava contra os turcos
em favor da egreja no anno de mil e quatrocentos e oitenta e um: e
outra, que fez o doutor Diogo Pacheco ao papa Julio, indo com o
arcebispo de Braga por embaixador a lhe dar obediencia por el-rei D.
Manuel no anno de mil e quinhentos e cinco: e outra, que fez o mesmo
doutor ao papa Leão, indo com Tristão da Cunha embaixador a lhe dar
obediencia com aquelle famoso ornamento, que ainda agora é dignamente
celebrado na egreja romana assim pela grande devoção d'aquelle pio e
catholico rei, no anno de mil e quinhentos e quatorze, á qual o papa
respondeu em publico com uma doutissima oração de louvores do mesmo rei.
E não é este costume só dos nossos embaixadores, mas de todos os
extrangeiros, assim quando eram enviados a este reino, como a outros.
Vindo a este por embaixador de el-rei Francisco de França a el rei D.
Manuel, que estava em Almeirim, no anno de mil e quinhentos e seis,
Monsieur de Lanjaca, governador de Avinhão, lhe fez uma douta oração em
sua chegada: fóra outras muitas com que pudera allegar.--D'esses
exemplos ha muitos (disse o doutor), e continuando com o que convém mais
ao fim do nosso intento, devem ser escolhidos para este cargo de
embaixador os homens das familias mais illustres do reino, dos illustres
os mais discretos e cortezãos, d'estes os mais animosos e liberaes, dos
animosos os mais apessoados, e de todos os mais bem acostumados; e são
todas estas partes tão necessarias ao embaixador, que com a falta de
qualquer d'ellas ou arriscará o credito do principe, que o manda, ou o
negocio de que vae a tratar por sua parte. Primeiramente ha de ser
illustre por auctoridade de seu rei e de seu reino, e dos illustres
d'elle, e por honra tambem do principe a que é mandado, pois ha de fazer
as partes de um, e assistir á ilharga do outro. E assim n'este reino, e
nos vizinhos a elle vimos cada dia entrarem embaixadores muito chegados
em sangue ás casas dos reis que os enviaram, e sahirem outros da mesma
qualidade; o que não só tem exemplo dos reis da Europa, mas da Persia,
Japão e outras remotas partes do oriente. Depois de illustre ha de ser
discreto e cortezão, porque parece que mais que todas as outras partes,
lhe está requerendo o mesmo cargo aviso, entendimento, discrição e
cortezia para tratar as cousas convenientes á sua embaixada, encobrindo,
desculpando e persuadindo o que a seu rei convém; que esta é a
differença do recadista ao embaixador: que o primeiro relata o que lhe
mandam que diga: o outro dispõe, ordena e conclue o que lhe encommendam
que faça: um leva o recado na lingua, outro no peito, como disse um
embaixador dos romanos aos carthaginezes na guerra de Sagunto, que
levava a paz, e a guerra dentro no peito; e assim não vindo elles no que
os romanos pediam, declarou a guerra. Além d'isto como o embaixador é um
terceiro, e conciliador da amizade de dois principes, nenhuma cousa lhe
é mais importante, que o entendimento, e tambem o ser cortezão lhe
importa muito, pois a sua principal assistencia é no paço, e junto á
pessoa do principe, com communicação dos principaes senhores do reino; e
ás vezes por esta parte sendo engraçado, e acceito áquelle a quem é
mandado, acaba mais facilmente os negocios e pretenções de quem o manda.
Ha de ser animoso e liberal; o primeiro, porque nas materias que tocarem
á guerra, tregua e liga, ou confederação com seu principe, se não mostre
por sua parte acanhado, timido nem pusillanime: antes obrigue com seu
exemplo a que o respeitem e temam; e tambem porque na occasião em que se
offerecer ao senhor a quem assiste, acredite com o conselho e com as
obras as armas de seus ascendentes e naturaes. E o segundo, porque com a
magnificencia se conquistam mais vontades e animos extrangeiros, que com
qualquer outra valia, por grande que seja; e posto que esta parte a
todas as pessoas illustres é necessaria, e em todos os cargos de guerra
e officios da paz é tão estimada, no de embaixador é muito mais
proveitosa para saber o aviso, o secreto, o intento e a cautella que
convém ao de sua embaixada, e para mover os ministros e validos, em cuja
mão ou conselho está seu negocio. Convém além d'isto que seja o
embaixador homem apessoado, que pela vista obrigue a respeito e
veneração; que em outro modo o corpo pequeno em pessoas de grande logar
lhes tira muita parte do que se lhes deve. E um doutor nosso de muito
grande nome, e pequena estatura, mandou pôr ao pé de um retrato seu uma
lettra que dizia: _A presença diminue a fama_.
E outro do mesmo grau, e não de maior corpo, indo d'este reino com uma
embaixada a um rei assás poderoso, vendo-o elle tão pequeno, lhe
perguntou motejando d'elle: "Se el-rei seu irmão tinha em seu reino
outros homens mais apessoados que enviasse com semelhante cargo?" Ao que
elle respondeu valendo-se do entendimento, e animo que tinha: "Que na
corte d'el-rei seu senhor havia muitos homens do grande pessoa, e
partes, a que encommendar aquelle cargo; mas que para sua magestade lhe
pareceu que elle bastava, e por isso o mandára." Finalmente é de muita
importancia ser bem acostumado, para com sua temperança, continencia, e
bom termo conservar, e acreditar o bom nome, e fama de seu rei, a honra
de sua patria, e da propria pessoa. E porque com alguma demazia de seus
costumes não faça com que se diminua, e perca o respeito, liberdades, e
exempções que tem os embaixadores, como aconteceu aos da Persia, que
vieram a el-rei Amyntas de Macedonia, que foram mortos por traça de
Alexandre, filho do mesmo rei, o qual, não podendo soffrer sua estranha
dissolução, mandou alguns moços de bellissima figura, que em habito de
damas os servissem á meza, levando escondidos punhaes com que se
vingassem de qualquer deshonesto acometimento dos embaixadores; que
usando de sua demasiada luxuria foram mortos a punhaladas. O rei da
Persia offendido de se não guardarem com os seus as leis dos
embaixadores, mandou um poderoso exercito contra el-rei Amyntas; porém o
general d'elle sabendo como o caso passára, se retirou sem querer dar
batalha aos Macedonios. Tambem importa muito que os embaixadores sejam
escolhidos de sujeito acommodado aos negocios, de que hão de tratar; que
tal occasião se offerece, em que convém serem humildes; e outra, em que
é melhor mostrarem-se arrogantes; tal, em que hajam de ser animosos, e
arriscados; e outras brandos, e dissimulados. Francisco Dandalo,
embaixador dos Venezianos ao Papa Clemente V para levantar o interdicto
ao Senado, contra quem estava iroso por razão das coisas de Ferrara,
esteve lançado de bruços grande espaço á meza do Summo Pontifice, com
uma cadeia de ferro ao pescoço; e com tantas lagrimas, e palavras o
obrigou, que alcançou d'elle o que pedia. Este por sua grande humildade
foi chamado _cão_, e por seu valor succedeu no Ducado de Veneza. Pelo
contrario Orfato Justiniano, homem de letras, e animo generoso,
embaixador do mesmo Senado a el-rei Fernando de Napoles, que pelo mau
animo, que contra os Venezianos tinha, não fazia d'elle a conta, e
estima que seu valor merecia. Orfato lhe mostrava tão pouca inclinação,
e humildade, que o rei indignado mandou fazer tão baixa a porta, por
onde entrava a lhe falar, que á força lhe fizesse dobrar o pescoço:
porém elle entendendo a tenção de Fernando, entrou com as costas para
diante, e voltando-se direito na casa fez a mesma cortezia, que
costumava. Outro dia achando-se em um banquete, que o rei mandou fazer,
dando-lhe de proposito os convidados tão estreito lugar que achava sua
auctoridade, deixando o que tinha se sentou sobre uma rica toga, que
trazia vestida; e acabado o banquete, a deixou ficar como os outros
assentos.--A mim me parece (disse Leonardo) que os attributos mais
importantes ao embaixador, e que sempre n'elle devem andar annexos, são
esforço, e entendimento, que são como dois eixos, em que se revolve o
maior peso, e substancia, das coisas do Estado; o que se colhe dos
exemplos que dissestes, e de outros muitos; porque o esforçado e
entendido em nada falece, nem áquillo a que seu rei o manda, nem ao que
a si mesmo deve, nem á occasião de que se póde aproveitar, como
aconteceu a Pompilio, embaixador a el-rei Seleuco, sobre conservar
amisade com os Romanos, ou romper com elles guerra: que respondendo o
Rei que se aconselharia devagar no que lhe estava melhor; e entendendo o
Romano que aquella dilação se fundava em fraqueza, e cautela, com o
bordão que trazia fez um circulo na terra, em que Seleuco ficou mettido,
dizendo-lhe que antes que d'elle sahisse se havia de determinar na
resposta de sua embaixada; e com isto obrigou ao rei a acceitar a paz
que lhe requeria. E em caso differente Lucio Posthumio, embaixador aos
Tarentinos, lançando-lhe por desprezo sobre as roupas muitas immundicias
com grande rizada, e escarneo, o Romano lhe respondeu animosamente:
Vingai-vos agora do riso á vontade, porque tendes muito que chorar
quando com vosso sangue se lavarem as nodoas d'este meu vestido.--Esses
casos (accudiu D. Julio) são da mera jurisdicção do esforço, e
cavallaria; ainda que sejam acompanhados do entendimento, porque o valor
do animo a tudo acode, e em nada perde ponto. E se não, vede a estimação
que fizeram os reis catholicos do nosso prior do Crato D. Diogo
Fernandes de Almeida, quando estando elles sobre Granada, e o prior
sendo embaixador d'el-rei de Portugal, o ajudou a combater valorosamente
tirando com muitos louvores d'aquella batalha feridas; e querendo-o
el-rei desviar antes, porque não convinha ao cargo que trazia, lhe
respondeu que, se o officio lh'o defendia, o sangue, e o animo o
obrigava. E em que conta teria el-rei Filippe I a Frederico Badoaro, que
os Venezianos lhe mandaram por embaixador a Genova, sendo elle principe
de Hespanha, que estando com elles aos officios divinos no segundo
logar, succedeu chamar o principe a si ao duque de Saboia; e acenando ao
veneziano que lhe désse o lugar, o que elle não quiz fazer, o principe
com acenos, e palavras asperas o mandou muitas vezes tirar; mas
respondeu que antes havia de deixar a vida, que aquelle lugar, porque
com a morte de um particular se não fazia affronta ao Senado; mas que se
lhe faria muito grande, se désse o lugar, que lhe era devido, a pessoa
inferior em merecimentos. E quanto á dissimulação, e soffrimento só nos
esforços costuma a achar confiança para metterem em cortezania o que
puderam estranhar com arrogancia: como aconteceu a Giuberto Dandalo,
embaixador dos Venezianos ao Papa Nicolau III, que já mais foi ouvido,
nem pôde alcançar entrada do Summo Pontifice, por o enojo que tinha
contra o Senado, sobre a possessão de Ancona; até que, vendo elle o
pouco que importavam suas muitas diligencias, fingio um dia, sahindo com
alegre semblante, haver-lhe fallado, e alcançado o fim do negocio a que
vinha: e sem esperar outra coisa se partiu para Veneza; onde
perguntando-lhe o Senado o que passara, respondeu: "Não achei o Papa em
Roma, nem quem me soubesse dizer onde o acharia."
--Mui principaes (disse o doutor) são as partes de esforço, e
entendimento no embaixador; porém tem igual necessidade de todas as
outras para representar com a nobreza a pessoa do seu rei: para com a
magnificencia adquirir as vontades dos ministros, e criados: para com a
gravidade, e brandura ser amavel, e auctorisado: para com o conhecimento
das coisas do Estado, e experiencia d'ellas acertar nas que se lhe
offerecessem: e para com a gravidade, e gentileza da pessoa dar uma
approvação na vista, de tudo o que se conhecer de suas obras. Mas porque
não pareça que vou fora do em que comecei: A que os embaixadores não
levam recados, é certo, (que ainda que os seus sejam de maior confiança)
que levam por escripto muito do que hão de dizer, e do que hão de pedir,
ou conceder; porém a eleição do tempo, occasiões, e palavras fica
subordinada ao seu entendimento; e para isso dão os reis, e seus
conselhos supremos largas instrucções, regimentos, e ordens de como se
hão de haver nas coisas os embaixadores; que são mais largas, quanto são
mais remotas as provincias, a que são enviados.--O officio (disse
Leonardo) é de tanta importancia, que nenhum outro demanda maior cabedal
de partes da natureza, e das adquiridas por experiencia: e sei-vos eu
dizer que houve n'este reino famosos homens d'esta profissão, e taes,
que, querendo nomear alguns, faria manifesto aggravo a outros muitos.
Mas se o gran-duque de Florença, vencido da eloquencia, e partes de
Hermolau Barbaro (que estava em sua corte por embaixador dos Venezianos)
com tantas mercês, e favores o persuadia a que ficasse em seu serviço;
não faltaram outros, que sahidos d'este reino com o mesmo cargo, fizeram
maior inveja a principes, a monarcas mais poderosos. E algum teve lugar
nos tribunaes supremos da corte de Hespanha, que para negocios
particulares de um principe d'este reino foi mandado a ella, que pela
grande satisfação, que n'elles deu de sua pessoa, foi escolhido para os
de uma monarquia tão dilatada. Mas não é de espantar que de um
embaixador e messageiro particular se fizesse um conselheiro de estado,
sendo criado da casa de um senhor, do serviço do qual, como de outro
cavallo Troiano, sahiram heroes famosos, e varões insignes em todas as
profissões: d'onde sahiram vice-reis, e capitães maiores para o Oriente,
e soldados para capitães, e mestres de campo, que defenderam, e honraram
o Norte; cavalleiros, e bailios, que sustentaram Malta; fronteiros
valorosos, que se assignalaram em Africa, todos criados da mesma casa,
onde se acharam sempre em grande copia espiritos, que honrem a Marte, e
engrandeçam a Minerva, fazendo inveja aos mais avantajados nos
exercitos, e presidios hespanhoes, e aos mais insignes nas escolas, e
academias mais nomeadas da Europa.