regras; e que não estava a cousa nos epithetos serem proprios ou
necessarios. Uma carta (proseguiu elle) póde ser breve, e levar
escriptas muitas
paginas de papel; porque póde tratar de tantos negocios ou cousas que as
occupem, mas estarão relatadas de modo que seja a leitura comprida, e a
carta breve.
--O segundo ponto (perguntou Pindaro) que é clareza sem rodeio, me
parece a mim que fica declarado n'essa primeira parte; pois sendo breve
a carta, e não tendo enfeite nas palavras, será clara e sem
rodeios.--Não estaes no caso (tornou elle), que posto que a clareza é
parte da brevidade, a clareza é das razões, e a brevidade das palavras:
e assim póde a carta ser breve, mas confusa; e clara sendo comprida: que
muitos para dizerem cousas querem estrada coimbrã, e caminho direito;
buscam rodeios e atalhos em que se perdem, confundindo o que querem
dizer. Em uma minha doença escreveu um amigo, e dizia: _Disseram-me que
a saude de vossa mercê corria perigo na inconveniencia de medicos
discrepantes no remedio dos males d'essa doença_. E fez estas trocas
onde podia dizer: _Soube que os medicos não se conformavam na cura dos
vossos males, que na duvida d'elles corria risco a vossa saude_. Outro
me escreveu ha muitos dias: _Se vossa mercê não está ausente das
lembranças que suas promessas me asseguraram de haver de ter muitas
d'este seu captivo_. Havendo de dizer: _Se vos não esquece que me
promettestes de ter lembranças de mim_. E porque ainda temos logar de
tornar aos particulares das disposições das razões:
Passando ao terceiro ponto, que é _propriedade sem metaforas_, ou
_translações_.--A propriedade (disse o doutor) era materia da noite
passada, quando falastes das letras e razões em seu logar, sem barbaria,
nem impropriedade no escrever: e como isto é parte do exterior da carta,
já hoje não tem dia.--A propriedade que vós dizeis (accudio Leonardo) é
exterior, mas muito differente a de que eu trato, e não pouco importante
ao falar, e escrever, que é a propriedade das palavras na sua propria
significação, sem serem emprestadas por via de translações para outros
logares, que é termo que argue nobreza de linguagem; e porque fique mais
declarado, sabei que dizemos em portuguez, falando propriamente dos
nomes: _Bando de aves_, _cardume de peixes_, _rebanho de ovelhas_, _fato
de cabras_, _vara de porcos_, _alcatéa de lobos_, _tropel de cavallos_,
_cafila de camellos_, _récua de cavalgaduras_, _manga de arcabuzeiros_,
_mó_, ou _roda de homens_; e se, trocando isto, disséramos: _Um cardume
de aves_, ou _uma alcatéa de ovelhas_, ou _um fato de porcos_, seria
impropriedade, e desconcerto. Dizemos tambem nos verbos: _Chiar_ de
aves, _balar_ de gado, _grunhir_ de porcos, _ladrar_ de cães, _rinchar_
de cavallos, _bramir_ de leões, _empolar_ de mares, _encapelar_ de
ondas, _assoprar_ de ventos, etc. E se dissessemos _chiar_ de porcos,
_rinchar_ de leões, e _grunhir_ de cavallos, seria o mesmo erro. E
porque ha metaforas e translações tão uzadas e proprias, que parecem
nascidas com a mesma lingua, que como adagios andam pegadas a ella, se
devem trazer (quando forem taes) nas cartas missivas, do mesmo modo que
na pratica se costumam. Dizemos dos nomes: _folha de espada_, _lume de
espelho_, _veia de agua_, _braços de mar_, _lingua de fogo_, _lanço de
muro_, _faxa de ferro_, e outras semelhantes: e nos verbos: _lançar o
cavallo_, _fazer á capa_, _quebrar a palavra_, _cuspir o pelouro_,
_arripiar a carreira_, e outras muitas: e além d'estas tão usadas, e
naturaes, que servem de propriedade á lingua portugueza, ha outras
nascidas de proverbios, ou adagios, que tem o mesmo logar, e
antiguidade, como são _furtar o corpo_, _ir vento em pôpa_, _nadar
contra a agua_, _ficar em secco_, _repicar em salvo_, _tirar barro á
parede_, _etc_. E quanto a carta tiver mais d'estas, será mais breve, e
cortezã; pois, como primeiro disse, por este modo se entendem da carta
mais coisas, do que tem escripto de palavras.
Pelo contrario, usando, em logar d'estas, outras humildes, populares, ou
innovadas, será vicio na propriedade da carta; como se nos nomes
dissessemos: _um feixe de cuidados_, _um mar de encommendas_, _um moio
de queixumes_, _um golpe de razões_; e nos verbos, como: _enfeitar o
desejo_, _tropeçar em cuidados_, _navegar em desconfiança_, e outras
muitas. Esta é a propriedade, de que trato, e a que me parece que se
deve usar no escrever das cartas missivas; porque não soffre o estilo
d'ellas o que em a pratica, ou em outro genero de escriptura não sómente
se permitte, mas muitas vezes se deseja.
--Espero (disse D. Julio) que deis alguma limitação, ou declareis a
linguagem, que se deve usar n'este estilo das cartas; porque encontro
muitas muito mal escriptas, cujos erros, a meu ver, nascem dos homens se
cançarem muito em quererem parecer singulares.--Posto que isso pertence
primeiro ao fallar, que ao escrever (respondeu Leonardo) pois, como já
disse, devemos escrever como praticamos; as palavras da carta hão de ser
vulgares, e não já populares, nem exquisitas: vulgares de modo que todos
as entendam; e ao menos, que a quem se escrevem, não sejam peregrinas: e
não já populares, que sejam termos humildes, palavras baixas, que a
cortezia não recebe: e que tão pouco, em logar dos adagios, e sentenças,
tenham anexins. Tambem se deve fugir ao termo exquisito de palavras
alatinadas, ou carreteadas de outras linguas estranhas, que sempre tem o
sabor da sua origem.--Assim na linguagem, como em tudo (accudio
Feliciano) ficavamos satisfeitos, se de aquelles tres generos, em que o
senhor Leonardo dividio as cartas, déra alguns exemplos que nos
allumiaram; porque nem as regras sem elles ensinam de todo, nem se póde
perder a lição de tão bom estilo. O que eu não pedira, se foram dos
vinte generos de cartas, em que um rhetorico as dividio; que, por querer
dar leis, e partes a cada uma, as confundio todas.--Em tudo (tornou
elle) vos quizera satisfazer: porém cartas mais se hão de escrever em
occasião, do que trazerem-se por exemplo; que é o porque eu lhe nào déra
regra certa, nem das muitas, que ha bem escritas, se póde tirar; que
esse auctor, que vós dizeis que lhe assignou vinte generos, achará fóra
d'elles infinitas cartas, bem melhor escriptas, que as com que os elle
quer auctorisar. Porém, com o presupposto de não dar preceitos:
As cartas do primeiro genero, familiares, domesticas, civis, e
mercantis, respeitam tanto a brevidade, que não podem os rhetoricos
dividil-as em partes, se não forem nas da oração; e bastava para exemplo
aquella de Cicero a Cornelio, que dizia sómente:
CARTA DE CICERO A CORNELIO
"Alegrai-vos de eu não estar mal; pois terei o mesmo contentamento de
saber que estais bem."
E muito é mais para notar uma carta de Octavio Imperador para Caio Druzo
seu sobrinho, que contém bem mais coisas, e avizos que palavras, e
dizia:
CARTA DE OCTAVIO A DRUZO
"Pois estais no Illyrico, lembrai-vos que sois dos Cezares; que vos
mandou o Senado; que sois moço; meu sobrinho; e cidadão Romano."
E estas, e outras semelhantes, nem tem regra, nem deixam de ser cartas.
Mas porque não só nos ajudemos das antigas, mas tambem com as nossas
façamos pestoleta; esta é breve, e domestica, que um cortezão escreveu a
seu amigo, a quem em uma ausencia deixára sua casa; e dizia:
CARTA MODERNA A UM AMIGO
"Estou tão confiado no que vos mereço, e tão seguro no que de vosso
animo tenho conhecido, que me não dá cuidado a familia que deixei á
vossa conta; senào o trabalho, que vos dará o sustentalla: não procuro
saber d'ella mais, que novas de vossa saude; que em quanto a tiverdes,
estará sem sobresalto a minha vida."
Á qual o amigo respondeu com brevidade; e dizia d'esta maneira:
RESPOSTA
"N'esta casa só vós fazeis falta; mas como sois o tudo d'ella, ainda que
sobeja a minha diligencia, lhe falta tudo. No que é servir-vos, a todos
satisfaço, senão o meu desejo, que é igual ás obrigações que vos tenho.
Vivei seguro; e gozai saude; que, em quanto a tiver, porei por vossas
coisas a vida."
--Não estão as cartas para desprezar (disse Solino) e para me assegurar
se a vossa memoria é archivo d'ellas, ou se as ides fingindo de repente
(ainda que isto é
menos curiosidade, que tenção) hei de pedir por parte d'estes senhores
que de alguma nos deis semelhantes exemplos.--Não quero (disse elle) que
acrediteis tanto o meu entendimento com mostrardes desconfiança da
memoria; mas a troco do louvor vos hei de obedecer nas que me lembrarem:
e proseguindo nas da segunda especie d'este genero, me parece carta
civil, e breve esta, que um amigo escreveu a outro, que mudava sua casa
para a terra, onde elle vivia; e dizia:
CARTA DE UM AMIGO
"Espero com grande alvoroço que venhais para esta cidade, para que com
vossa companhia viva n'ella contente, e vós desenganado de quam pouco em
si tem que me possa alegrar, senão depois que vos possuir."
A quem o amigo brevemente respondeu em outra que dizia:
RESPOSTA
"Assim como o desterro em o melhor lugar é penoso, nenhum pode haver tão
esteril, que, tendo a tal amigo, não seja desejado. Vós sois a quem
busco, é força que me contente a parte onde vos achar; que as pedras não
fazem a cidade, senão os homens: nem as commodidades da vida a
sustentam, senão os amigos."
As mercantis posto que são segundo os tratos, e negocios, e acodem mais
a elles, que ao bom termo dos comprimentos; não deixa de haver muitas
tão bem escriptas, que podem ter logar entre as melhores; e ainda que
não é d'ellas uma, que eu vi há poucos dias, a darei por ser tão breve,
e era esta:
CARTA MERCANTIL
"Ha nova de Cossarios no mar; e por esse respeito grande risco nas
fazendas d'essa terra: porém a valia d'ellas será muito avantajada, se
chegarem a este porto a salvamento; se a cubiça do interesse vence o
perigo das encommendas, ponde-as em ventura; que eu a terei para mim por
muito boa o vosso bom successo."
E assim não me desagradou outra, que dizia d'esta maneira:
CARTA MERCANTIL
"Com os tempos contrarios á navegação foram as occasiões ao nosso trato:
que, como as mercadorias não foram requestadas de extrangeiros, estão ao
presente abatidas: enviae-me menos d'ellas para que, faltando, mais as
procurem os mercadores da terra; e n'essa vos não descuideis de fazer
emprego, mandando-me o de muito boas novas vossas."
--Não me pareceu (disse o doutor) que tirasseis tão boa doutrina de
materia tão limitada; porque esse primeiro genero de cartas tinha eu que
não sahia de uns termos e principios, que andam escriptos no panno da
serpe, como são: _Á feitura d'esta_. _Esta não é para mais_. _Uma de v.
m. me deram_. _Pela de v. m. de tantos do passado_: _Depois de me
encommendar em v. m._ E d'aqui correndo por seus capitulos _de quanto a
isto_, e _quanto a est'outro_ até topar no _a quem Deus guarde_.--Esses
principios (disse Solino) estão já muito bolorentos; mas ainda para
cartas de mais ponto tenho outros grangeados de algumas secretarias
velhas, como impressão de Torres, de que me valho nas pressas de uma boa
nota, que não são tão corriqueiros.--Não me atreverei eu sem esses
(disse Leonardo) a ir por deante pelo que vos hei por notificado.--Pois
assim é (disse Solino) quero obedecer, ainda que perco grande valhacouto
em os descobrir; porque sabei que é comer feito para os ronceiros d'esta
mecanica; e o mór trabalho d'ella é desencalhar a penna com a primeira
palavra: e são quatro: _Como quer que_, _Tanto que_, _Depois que_, e
_Antes que_. E sabei que não ha proposito, que saia das unhas d'estes
bilhafres; e nos capitulos de _quanto isto_ etc., se mette em logar do
_quanto_, _no que toca a tal_, e _no que toca a qual_; que, a meu vêr,
era melhor o _item_, que tinhamos tomado aos latinos. Mas os notadores
de espada solta esgrimem já agora sem estes bordões
maravilhosamente.--Bons estão os principios (disse D. Julio) porém
haveis de metter a lettra em todos elles, para que nos não passem por
alto.--Antes por muito rasteiros (respondeu elle) vos ficarão entre os
pés. Porém tende tento, e vereis que são principios de parafuso e que se
encaixam, e viram para todas as partes como grimpa.
"Como quer que os meus serviços montem ante vós tão pouco, e a vontade
por minha seja de menos preço, etc.
"Como quer que o animo, com que sou vosso, me não deixa perder
occasiões, em que vos sirva, etc.
"Tanto que soube que era cousa de vosso gosto deixar esta empreza, etc.
"Tanto que me vi desfavorecido de vossas lembranças, lancei mão do meu
atrevimento, etc.
"Depois que me apartei de vós, não soube mais de mim, que para sentir
saudades vossas, etc.
"Depois que meus males me deram logar para tomar esta penna na mão, a
empreguei em procurar novas vossas, etc.
"Antes que me desculpe de meus descuídos, etc.
"Antes que vos dê larga conta dos meus successos, etc."
De modo, que são como materia prima, em que moldareis tudo o que
quizerdes: porém não quero ir adeante, e tomar o tempo ao sr. Leonardo;
que o vejo entrar já por outras cartas missivas.--Antes (lhe disse elle)
tomei folego em quanto vos ouvia falar n'essas. E tratando das do
segundo genero, que são cartas de novas, a que chamam narrativas de
cumprimentos, que se dividem em cartas de agradecimento, recommendação,
desculpa, queixume e outras muitas, cartas de galantaria ou jocosas,
como chamam os latinos: Para as narrativas nos podia servir de exemplo
aquella em que o imperador Tiberio Cesar dava novas de Italia a seu
irmão Germanico, que dizia:
CARTA DE TIBERIO CEZAR A GERMANICO
"Os templos se guardam; os deuses se servem; o senado está pacifico: a
republica prospera; Roma sã; a Fortuna mansa; o anno fertil; e isto, que
ha aqui em Italia, desejo que da mesma maneira gozeis em Asia."
Deixo a que Cesar escreveu a Roma, das novas de Persia, que continha só
tres palavras: _Cheguei: vi: venci._ E a de Gneu Sylvio, escrevendo as
novas da Farsalia, que dizia:
CARTA DE GNEU SYLVIO
"Cesar venceu: Pompeio morreu: Rufo fugiu: Catão se matou: acabou a
dictadura; e perdeu-se a liberdade."
E chegando a alguma, que com menos aperto faça sua relação, me não
pareceu engeitar a que Marcello escreveu ao senado romano, dando-lhe
novas da rota de Fulvio, que dizia:
CARTA DE MARCELLO AO SENADO
"Bem sei que a nova, que vos mando, é de sentimento. Fulvio Proconsul
com treze mil homens foi desbaratado e ferido. Porém não vos cause temor
este successo; que eu sou o mesmo, que, depois da batalha de Canas,
mortifiquei a soberba de Hannibal, vencedor d'ella: contra elle caminho
brevemente com o meu exercito para lhe fazer mais breve a alegria d'este
triumpho; e em vós desejo muito o mesmo animo que levo."
--Uma carta (acudiu o doutor) me escreveu os dias atraz um amigo, de
novas de Lisboa, que certo, pela brevidade, me pareceu digna d'esta
lembrança, e dizia:
CARTA MODERNA
"Esta cidade está abastada, mas descontente: o mar cheio de corsarios:
os portos de receios: o paço de requerentes; e elles de queixumes: para
os validos tudo é pouco: aos desamparados não cabe nada: do remedio de
tantos males não ha boas novas; e as minhas são que entre todos elles me
falta a vossa companhia."
--Essa (disse Leonardo) se póde ajuntar por exemplo ás antigas que
relatei: e por não me empregar em outras, que seria demasiado trabalho a
todos ouvil-as, e a mim recital-as, peço-as de recommendação de alguma
pessoa ou de algum negocio, nas quaes tem mais logar a disposição e
offerecimento dos rhetoricos, encarecendo os merecimentos da pessoa ou a
importancia da causa que encommendaes, facilitando-a na condição e
vontade a quem a pedia; concluindo com a petição e offerecimento de
vossa parte: e todas estas, e ainda um exordio de sentença, que hei por
escusado, se vêem em uma carta que ha pouco que li, que um rei de
Portugal antigo, escreveu ao de França, encommendando-lhe um fidalgo que
ia estudar a Pariz; e dizia tirada de latim, em que estava em um livro
extrangeiro:
CARTA DE EL-REI DE PORTUGAL AO DE FRANÇA
"Entre as virtudes e excellencias dos principes, me pareceu muito digna
de louvor a de terem particular cuidado e lembrança dos vassallos
benemeritos em seu serviço, para com favores e mercês os ajudarem: e por
esta razão me pareceu que devia encommendar a vossa magestade D. Pedro
de Almeida, que por occasião de seus estudos vae a essa côrte de Paris,
posto que claramente conheço que, sem recommendação minha, vae assás
encommendado pela liberalidade e brandura com que vossa magestade honra
e recebe os homens tão illustres como elle é. Além do que, tem elle
tantas partes e entendimento, que não achará melhor terceiro, que a si
mesmo. Deixo seu pae D. João de Almeida conde de Abrantes, que com suas
singulares virtudes e claros feitos, adquiriu e conservou até á morte
muito estreita privança e amizade com meus antecessores e commigo; de
sorte que ponho em duvida se importe mais a seu filho a minha carta, se
a fama e lembrança de seu pae. De qualquer modo o encommendo muito a
vossa magestade. E de minhas cousas não offereço de novo nada; pois pela
irmandade de meus antepassados e minha, em toda a occasião deve vossa
magestade usar d'ellas, como se foram communs a ambos."
Outra achei no mesmo logar, de el-rei D. Manuel, mais breve que a
passada, que era de seu antecessor, a qual elle escreveu ao mestre de
Rhodes, encommendando-lhe um noviço portuguez, que ia servir a religião
que será para exemplo das menos enfeitadas. O grão, mestre era o cardeal
Pedro de Buzon, e dizia:
CARTA DE EL-REI D. MANUEL AO GRÃ MESTRE DE RHODES
"Ayres Gonçalves, filho de Henrique de Figueiredo, vae a tomar o habito
d'essa religião: não pareceu fóra de proposito nem de humanidade,
encommendal-o a V. P. assim por sua nobreza, e ser creado de minha casa,
como pelos serviços e merecimentos de seus passados com os reis meus
antecessores; e finalmente por seu bom esforço e virtude. Rogo a V. P.
que com sua costumada brandura o favoreça de sorte que n'elle se
accrescente o valor e a devoção que leva: e não porei esta obrigação no
menor logar das muitas que tenho a V. P."
As cartas de agradecimento tem o campo mais largo para n'ellas se
espalhar a penna, e o entendimento; pois quem mais se obriga e encarece
o que recebe, escreverá com melhor termo, não sahindo dos da carta
missiva: e já os antigos não desconheciam esta galanteria; pois Lybanio
respondendo a Demetrio, que o obrigava a que lhe pedisse, escreveu
assim:
CARTA DE LYBANIO A DEMETRIO
"Não daes logar a que eu vos peça, porque me mandaes tudo. Ainda bem as
arvores não dão seu fructo, quando vossos creados m'o trazem: e do que
até nos agros se sente a falta, eu a não tenho. Como me haverei n'isto?
que o lavrador, quando o tempo lhe nega a agua, então a pede: porém, se
chove, contenta-se de vêr que favoreceu o céo suas esperanças."
O queixume por carta se deve fazer com toda a moderação que a urbanidade
requere: e póde n'estas servir para exemplo e lembrança a que Olympias,
mãe de Alexandre, respondeu a seu filho, a uma em que elle se assignava
por filho de Jupiter, que dizia:
CARTA DE OLYMPIAS A ALEXANDRE
"Muito me alegro com a victoria que alcançastes da cidade de Tyro; e com
todas vossas venturas e façanhas: porém tive por grande affronta minha
vêr que vos nomeaes por filho de Jupiter na carta que d'esta nova me
escrevestes. Estimarei muito, meu filho, que aquieteis n'isso o
pensamento, e me não leveis a juizo ante a deusa Juno; que algum grande
mal me ha de ordenar, sabendo que por lettra vossa me chamaes manceba de
seu marido."
E se me não parecêra um pouco enfeitada uma carta que Angelo Policiano
escreveu ao grande Lourenço de Medicis, a podéra pôr em exemplo da
moderação de queixume, porque dizia:
CARTA DE ANGELO POLICIANO AO DUQUE DE FLORENÇA
"O poeta é semelhante ao cysne na brancura e suavidade, em ser
affeiçoado a correntes de agua e amado de Apollo. Comtudo, dizem que o
cysne não canta senão quando o vento zephiro respira. Não é logo muito
que eu seja mudo tantos dias, sendo poeta vosso, se vós, que sois meu
zephiro, n'elles me faltaes."
As cartas jocosas, ou de galantaria, tem mais campo, e liberdade para se
poderem usar n'ellas alguns termos fóra das limitações das nossas
regras; porque assim em se entenderem mais, como em se sujeitarem menos,
ficam desobrigados das primeiras leis. que são _brevidade sem enfeite_:
_clareza sem rodeios_: _propriedade sem metaphoras_; pois o termo da
graça e galantaria, n'isso se differença do sizudo e pontual; não
negando que ha algumas que não perdem a graça nem o sizo, como é uma que
Lybanio escreveu a Aristoneto, que dizia:
CARTA DE LYBANIO A ARISTONETO
"Onde vos achaes, sei que dizeis sempre mal de mim; eu pelo contrario
não perco occasião de dizer louvores vossos; porém quem a ambos nos
conhecer, a nenhum de nós ha de dar credito."
Das mais ha tantos e tão differentes exemplos, que seria aggravo a cada
uma das outras trazer aqui algumas bem escriptas. Só direi que uma
especie d'ellas é narrativa, motejando do mesmo, que contam, ou das
novas que dão; que não são por esse respeito pouco engraçadas. Ha outra
das de disbarates, que, parecendo que se desviam nas palavras do
proposito que tomam, dão a entender, como em enygma, o pensamento de
quem as escreve; e são estas graciosas com subtileza. Outra ha das de
murmuração em materias leves, como satyras menores: e umas e outras tem
a galanteria no pintar e descrever as pessoas e as cousas, com apodos
graciosos, encarecimentos desuzados, palavras facetas, phrase humilde,
accommodada sempre ao sujeito. É certo que n'isto tiveram mão particular
os portuguezes, que escreveram ao gracioso, que nem os italianos na
phrase burlesca, nem os hespanhoes no estylo picaresco os egualaram.
--Não vos houvera eu de consentir esse salto (disse Solino) deixando
tantos exemplos em aberto, se não tivera pensamento de cobrar a demasia
n'outra occasião; e assim por isso, como por ser já passada tanta parte
da noite, vos peço que façaes a vontade ao sr. D. Julio com essas cartas
Reaes, de Estado e Governo, que as está desejando com a vida; pois a sua
é nadar na altura de cousas semelhantes.--Eu vos mereço (respondeu o
fidalgo) a boa opinião em que me tendes: porém egualmente me contentam
todas as cousas em que fala o sr. Leonardo: e porque sempre as ultimas
me ficam parecendo melhor que as primeiras, posso desejar esse terceiro
genero de cartas; e se d'elle tornar ao primeiro, farão o mesmo effeito
na minha satisfação.--Para responder a esse favor (tornou Leonardo)
havia mister o tempo que hei de gastar nas cartas que me ficam: e assim
ou uma ou outra cousa me havei por perdoada.
Não deixou o doutor ir os cumprimentos por deante, dizendo que eram em
prejuizo de terceiro; e proseguindo Leonardo, disse:
--As cartas do terceiro genero, que, pelas materias importantes, e
differença das pessoas, são mais graves e humildes; posto que se incluem
algumas d'ellas á oratoria, aproveitando-se da elegancia e razões para
persuadir, consolar, dar louvores ou reprehender; e posto que d'estas
estão cheias as chronicas e annaes de todos os reinos, recitarei algumas
que pareçam menos vulgares e mais breves para exemplo, como é uma que os
consulares C. Fabricio e C. Emilio escreveram a el-rei Pyrrho sobre uma
consideração em materia de Estado, que dizia:
CARTA DE FABRICIO EMILIO A EL-REI PYRRHO
"Pelos aggravos que de vós temos recebido, o maior cuidado nosso é
fazer-vos guerra com animo inimigo e braço esforçado: porém, para
exemplo commum de fidelidade, nos pareceu conservar-vos a vida, porque
com a perda d'ella nos não faltasse um contrario valoroso a quem vencer.
Nicias, vosso particular, veiu ter comnosco, pedindo-nos preço certo por
vos dar morte occulta; em que nós não consentimos, fazendo-lhe perder a
esperança de tirar fructo da sua maldade. Juntamente assentámos dar-vos
este aviso; porque, se alguma cousa acontecer, se não presuma que sahiu
do nosso conselho; e não sendo o intento d'elle pelejar por preço,
premio ou engano, vós, á falta de cautella, percaes a vida."
Tambem me não parece indigna de lembrança uma,
com que Rhodoge, mãe d'el-rei Dario, o reprehendia, e aconselhava na
segunda expedição contra Alexandre; que foi a que se segue:
CARTA DE RHODOGE PARA ELREI DARIO, SEU FILHO