que seja sahir um pouco fora do proposito, é tão grande bugia da virtude
e da honra a vaidade, que, sómente por a seguir em as apparencias,
tropeça a cada passo em desatinos. Este escreveu, _Para vêr_; porque N.
Ministro, ou privado escreveu assim; e veste de tal panno, porque N. de
maior qualidade o trazia; e o que este fez (pode ser por remediar o seu
frio) faz outro á imitação, e se abraza de quentura. A Hespanha se
passou o uso de vestir dos soldados de Flandres, por bizarria; e razão
tinham de imitar em outras cousas aos praticos que militam em uma praça
tão ennobrecida das nações da Europa; mas o que elles faziam obrigados
do clima, e o sitio da terra, usavam os cortezãos por gala, levados do
engano da verdade, os chapéos de aba grande contra a neve, os
ferragoulos abotoados, e com descanços para o frio, as meias de
escarlata debaixo de botas altas contra a humidade, as solas levantadas
por detraz, para não resvalarem nos caramelos, as roupetas abertas sobre
as armas; tudo isto, e outras muitas cousas, sendo inventadas pela
necessidade, se passaram á galanteria. Deixo as côres de Rei, e da
Infante, e a historia do Mercador com el-rei D. João o III, que lhe
pediu que se quizesse vestir de um panno que tinha muito rico, o qual
lhe daria de graça; que com este ardil, em el-rei o vestindo, vendeu
elle a mór valia uma quantidade de peças d'aquella côr que lhe haviam
entrado n'uma partida.--Não é isso sómente nas cartas, e nos arrojos,
disse o doutor; que ainda passa adeante o engano. Em a côrte do
imperador Carlos V, andando elle indisposto, lhe mandaram os medicos
comer borragens, por ser herva medicinal para a sua enfermidade; e
porque os fidalgos e titulares a viam de ordinario na meza imperial sem
advertirem a occasião porque se fazia, veio a valer entre elles muito, e
a fazerem mil iguarias d'aquella herva, de sorte que se semeavam tantas
nas terras onde a côrte assistia, que não havia agros d'outro fructo.
Vão-se emfim as cousas mal, e ás vezes são nascidas de bom
costume.--Assim é (disse Solino) que até oculos, que se inventaram para
remediar defeitos da natureza, vi eu já trazer a alguns por
galantaria.--D'essa maneira seguiu D. Julio se devia mudar para as
cartas o estillo dos papeis, que o não estão por imitarem aos validos. E
tornando á cortezia, que cousas tem mais de que tratar?
--A terceira, tornou elle, é o nome, e signal do que escreveu a carta,
que nem ha de estar tão junto das lettras, que pareça soffrego d'ellas,
nem no meio do papel como quem escolheu melhor logar, nem tão apertado,
que fique ausente das regras, nem tanto na ponta do fim, que pareça que
se amuou áquelle canto; mas com um meio ordinario, como é assignar-se um
pouco abaixo das regras, mais inclinado á parte direita que á esquerda,
que é uma certa modestia, e humildade de quem escreve.--E que dizeis,
(perguntou o doutor) do acompanhamento do signal? Porque ha uns que se
nomeiam _servidor de vossa mercê_ N., outros _vassallo_; outros
_captivo_, outros _seu_ N. e ha n'isto muita variedade, e
ignorancia.--Primeiramente (continuou Leonardo) _servidor_ já se passou
das cartas para os retretes: _servo_ para os matos, e _captivo_ para os
comprimentos refinados em a pratica; _creado_, era termo bem creado, e
_seu_ é descortezia: e por fugir d'esta, e de alguns extremos, o mais
seguro é escrever cada um o seu nome sem mais leitura.--Não sejaes tão
estreito nas licenças(disse Solino) que deitaes a perder cartas que só
pelos comprimentos do signal merecem fama. Um homem escrevendo a sua
propria mulher, se assignou _vosso servo N._, e ella o fazia tal na
mesma ausencia. O outro, de que contam vulgarmente, porque corria nos
signaes o _menor creado de vossa mercê N._, escrevendo a sua mulher se
assignou _o menor marido vosso N._, e a senhora devia de ter mais varões
que a Samaritana. De uma gentil dama sei eu (disse Pindaro) que
escrevendo a um seu galante se assignou _sua N._, e elle lendo a carta,
voltou para um amigo com que estava, e disse _sempre temi esta nova_; e
perguntando-lhe o outro que era? Respondeu _sua N., e é principio de
verão_: Outro em Coimbra, querendo-se humilhar muito aos pés de um
amigo, a que escrevia, se assignou _Antipoda de vossa mercê N._--Quanto
mais galantes são essas historias (tornou Leonardo) tanto mais de
estimar é a moderação, e bom termo de não se sahir d'aquelle limite da
cortezia commum; e passando d'ella ha de ter a carta regras direitas,
que ha alguns que escrevem em escadas como figuras de solfa: lettras
juntas, e razões apartadas, com a distincção dos pontos, virgulas, e
accentos necessarios, para fazerem perfeito sentido das razões; porque
ha cortezãos, que por aformosearem a lettra, e facilitarem melhor os
rasgos da penna, vão encadeando as lettras pelas cabeças, como sardinhas
de Galliza; e de maneira confundem a escriptura, que não ha tirar d'ella
o sentido verdadeiro de seu dono; e ha cartas bem notadas, que por mal
escriptas perdem reputação; o papel seja limpo para n'elle empregar sem
fastio a vista o que ha de lêr, e porque pareçam melhor as lettras bem
ordenadas; a chancella sutil, porque ao abrir da carta a não offenda,
que alguns a fazem parecer carta rota antes de lida: dobras eguaes,
porque o concerto auctorisa as cousas, e as faz parecer melhor: o sêllo
claro, assim para lustro da carta, como para guarda d'ella, pois é o
cadeado que a defende dos curiosos de saber segredos alheios.--Não
corrais com tanta pressa (disse D. Julio) por essas particularidades, e
miudezas, que em algumas d'ellas tinha perguntas que fazer; mas
contentar-me-hei com as que se me offerecerem de novo sobre a materia
das armas, e tenções com que se costumam sellar as cartas; e assim
estimarei que nos digaes d'isto alguma cousa.
--As armas (respondeu elle) é a insignia que cada um tem de sua nobreza,
conforme ao appellido com que se nomeia, e com o sinete d'ellas sella as
cartas de importancia, ou com elmo, e folhagens sobre o paquife do
escudo, ou com elle em tarja, como tenção; que estas como são
pensamento, e desenho particular, se abrem ás vezes em redondo, ovado,
ou quadrangulo, e outras figuras, sem respeitar a do escudo. Em Portugal
é cousa muito antiga aos principes trazerem tenções, e emprezas com
lettras, e ainda as usavam misturadas nas Armas Reaes, que posto que
n'aquelle tempo não estavam tão apuradas como agora, nem eram sujeitas á
arte, que d'ellas e para ellas fizeram os modernos, não lhes faltava
entendimento, e galanteria. El-rei D. João o I trazia na orla das Armas
uma lettra, que dizia: _Por bem_. E a rainha D. Filippa de Alancastre
sua mulher, outra que respondia a esta em Inglez que dizia: _Me
contenta_. O infante D. Fernando seu filho, o Santo, trazia uma capella
de hera com seus cachinhos, e no meio d'ella a Cruz de Aviz, de cuja
cavallaria era Mestre. O infante D. Pedro uma capella do carvalho com
suas bolotas, e no meio umas balanças, e nas Armas Reaes, no banco de
pinchar, em cada pé d'alto abaixo mãos, e por cima umas lettras
escriptas muitas vezes, que diziam: _Dizer_, e entre cada palavra
d'estas um ramo de carvalho com bolotas. O infante D. João, que foi
mestre de S. Thiago, casado com a neta do condestavel D. Nuno Alvares
Pereira, trazia uma capella de ramos de silva com cachos de amoras, com
as bolsas de S. Thiago no meio, e tres conchellas em cada uma com uma
lettra em Inglez, que dizia: _Com muita razão_. O infante D. Henrique,
Mestre na Ordem de Christo, trazia as armas do Mestrado, e de antigas de
Portugal, e ao redor um cinto largo de correia, que abroxava no cabo de
baixo, e uma fivella que fazia volta com a correia, e em Inglez a lettra
dos cavalleiros de Garrotea, que elle tambem era, e dizia: _Contra si
faz quem mal cuida_. E uma capella de carrasco, e no banco de pinchar
tres flôres de lirio em cada pé. El-rei D. Affonso o V trazia pintado um
mundo com esta lettra: _Conheço que não te conheci_. El-rei D. João II
seu filho, trazia um rodizio, com esta lettra: _Setere_: e na outra
trazia um Pelicano ferindo o peito, e dizia a lettra: _Pela lei e pela
grei_. A rainha D. Leonor sua mulher, trazia uma rede de pescar, a que
chamam rastro. El-rei D. Manoel, uma esphera com uma Cruz. A excellente
senhora, uns alforges, e nas cevadeiras pintadas as Armas de Castella
com esta lettra: _Memoria de mi derecho_. O marquez de Valença, neto do
conde D. Nuno Alvares, trazia dois guindastes, que levantavam um titulo
de pedra, com quatro lettras, cada uma por parte. E além d'estas ha
memoria d'outras muitas, que dão testemunho do uso que d'ellas havia
n'este reino.--Por certo, disse D. Julio, que estou assás contente do
fructo que colhi da minha pergunta, por saber curiosidade tão notavel
dos nossos principes antigos, que para a minha natural inclinação é a
cousa de maior gosto, e interesse: e não fôra menor; pois falamos de
Armas, e Tenções, e vós sois visto n'ella fazer que saibamos mais alguma
cousa atraz d'esta materia, principalmente d'onde nasceu, e teve
principio o uso dos Escudos de Armas, e das Tenções.
--Quanto á minha opinião (respondeu Leonardo) é que armas, e emprezas,
ou tenções não tiveram no seu principio a differença, que agora lhes
assignam os que d'ellas escrevem de lettras, e corpos sem lettras, com
limitações, e regras mui apertadas. Antes me parece, que as armas eram
as insignias que os reis, e imperadores davam aos seus para ser
conhecida sua nobreza, conformando-se na figura d'ellas com a qualidade
dos successos por onde as mereceram, ou com a antiguidade do sangue
d'onde descendiam a quem as davam, e as que os mesmos reis tomavam para
si em memoria de semelhantes feitos, ou derivadas por seus antecessores.
Emprezas, ou tenções são as que os mesmos reis, principes, ou
particulares tomam, conformando as figuras, e lettras com o desenho, e
pensamento que cada um tem, para emprehender cousas altas. E d'aqui
adeante entram as regras, que depois lhe aconteceram; que, por ser um
discurso mui comprido, não tem logar em noite tão breve. Além d'estas
ha, outras armas dos reinos, provincias, republicas, e cidades, que se
devem chamar _diviza_, que tiveram principio ou das cousas de que são
mais abundantes, ou da maneira em que fôram povoadas, ou adquiridas. E
no que toca ao principio das armas, Hercules foi o primeiro que trouxe
por armas a pelle do leão que matou na relva Nemea, depois da victoria
que d'elle teve, e antes d'esta victoria trazia a mesma ínsignia do
porco de Erimanto, que matou em Arcadia. Jazon trouxe por armas o
Velocino de ouro, que conquistou. Thezeu o Minotauro. Ulysses, o
Paladion, e Eneas o escudo que ganhou de Ulysses na guerra de Troia:
estas eram verdadeiras armas, em memoria de valorosos feitos. E quanto
ao principio das emprezas, escreve Pauzanias, que Agamemnon trazia no
escudo a cabeça de um leão de ouro, com uma lettra que dizia: _Este é
terror dos homens, e o que o traz é Agamemnon_. Antioco trazia por armas
outro leão. Heitor, dois leões de ouro em campo vermelho. Seleuco um
touro. Alexandre, um rei de ouro em seu throno em campo azul. Alcibiades
um Cupido. Lucio Papirio o Pégazo. Cezar uma aguia preta. Pompeio um
leão com uma espada empunhada. Judas Macabeu um dragão vermelho em campo
de prata. Attila um açor coroado. E cada um d'estes, posto que poderam
tomar a figura das armas em significação de feitos celebrados, e
victorias adquiridas, só quizeram dar-lhe as figuras conforme ao seu
pensamento; e Cesar, ao agouro que da aguia teve. E descendo ás armas
particulares dos reis, que sabemos: As do imperador é uma aguia preta de
duas cabeças em campo de ouro, em memoria da de Julio Cesar, e da união
do Imperio Oriental, e Occidental. Armas d'el-rei de França são tres
flôres de lirio de ouro em campo azul, que fôram milagrosamente dadas a
el-rei Clodoveu. Armas d'el-rei de Portugal, os cinco escudos de azul em
cruz, em signal do vencimento que o primeiro rei D. Affonso teve dos
cinco reis mouros no campo de Ourique, e n'elles, e com elles, os trinta
dinheiros de prata, por que nosso Senhor foi vendido, em memoria da sua
Paixão, e do apparecimento que o mesmo rei vio antes da batalha: por
orla das armas sete castellos de ouro em campo vermelho, e por timbre,
um Drago coroado. Armas d'el-rei de Inglaterra, tres Leopardos de ouro
em campo vermelho: posto que d'antes tinha el-rei Arthur por armas tres
corôas de ouro em campo azul. Armas d'el-rei de Hespanha, os castellos,
e leões, tão conhecidos no mundo. Armas d'el-rei de Frizia, um escudo de
prata, riscado de linhas vermelhas, e atravessado com uma banda azul.
Armas d'el-rei de Jerusalem, uma cruz de ouro nos extremos, com cruzetas
do mesmo metal, e outras pelos vãos dos angulos. Armas d'el-rei de
Polonia, duas aguias de prata e um homem em cima de um cavallo, do mesmo
metal. Armas d'el-rei de Irlanda, uma harpa, e uma mão que a está
tocando. Armas do Preste João da India, um crucifixo negro, com dois
azorragues, em campo de ouro. Deixo outros muitos, como os bastões de
Aragão, as cadeias de Navarra, a romã de Granada, as bandas de ouro, e
vermelho de Malhorca, e outras que querer contar fôra infinito. Tem do
mesmo modo as provincias suas armas. Primeiramente, as quatro partes, em
que o mundo se divide: Azia, tres serpentes: Africa, um elephante:
Europa, um cavallo: A America, um crocodilo: Italia tinha por armas
antigamente o cavallo: Thracia, um Marte: Persia, um arco: Scythia, um
raio: Armenia, um bode: Fenicia, um Hercules: Sicilia, uma cabeça
armada: Albania, um cágado: Frizia, uma porca: Hespanha, um castello:
Luzitania, uma cidade. As Republicas tem tambem suas armas particulares:
A de Veneza, um leão com um livro nas unhas: A de Sena, uma loba: A de
Genova, um S. Jorge: A de Florença, um leão com um livro de ouro. As
Cidades, da mesma maneira: Athenas, a Coruja: Roma, a aguia: Lisboa, uma
nau com os corvos, em memoria do corpo do glorioso Martyr S. Vicente,
seu padroeiro: Coimbra, o drago, e a donzella coroada: Evora, as cabeças
das vigias: O Porto, a imagem de Nossa Senhora entre duas torres:
Leiria, uma torre entre dois pinheiros, e n'elles dois corvos. E assim
todas as outras. Porém isto é já muito tarde, e gastámos n'esta materia
mais tempo do que convinha á das cartas, em que começamos; e porque nas
armas, e tenções nos não fique por saber algumas significações, e
figuras de armas dos particulares senhores, e fidalgos de Portugal, que
todas fôram merecidas com louvores de gloriosos feitos: deixando os
animaes, significadores de fôrça, braveza, e velocidade: e os planetas
de poder, antiguidade, e clareza, e outras figuras semelhantes: Banda
significa postura de taboa: Escada, o engenho por onde se cometteu
alguma obra de valor, ou difficultosa entrada, com risco da vida: faxa,
ou barra, representa victoria da batalha singular de cavalleiro a
cavalleiro, e quantas fôrem, tantos diremos que são os vencimentos com
que se ganharam as armas. Parte de muro, torre, ou castello, significa
ser ganhado, entrado, ou soccorrido, com esforço, e perigo da vida.
Escadas, asteas, ou pedaços de lanças, denotam subida trabalhosa, ou
defensão arriscada na mesma subida. Assim que a variedade dos corpos, ou
forma que vêdes nas armas, todas nasceram de illustres façanhas, e
valorosos feitos. E todas as das empresas, e tenções, dão signal claro
do animo, e pensamento de seus donos: e com umas, e outras se devem
sellar as cartas, de maneira que se divizem as figuras, e lettras
d'ellas, como tenho dito.--Vejo (disse Solino) que temos a carta
cerrada, sellada, e com sobrescripto, sem ainda sabermos nada do
principal d'ella. Não vos enfadeis (respondeu elle) que na noite de
ámanhã a abriremos, e leremos muito de vagar a estes senhores, se não
ficarem de agora cansados do sobrescripto.--Antes (disseram elles) que
só o dia seguinte lhes parecia comprido, e vagaroso. E dando fim á
conversação d'aquella noite, deram o que d'ella ficava ao repouso, que
com a moderada recreação de horas bem gastadas é mais aprazivel.
DIALOGO III
DA MANEIRA DE ESCREVER, E DA DIFFERENÇA DAS CARTAS MISSIVAS
Mui satisfeito ficou D. Julio de ouvir a Leonardo aquella noite na
materia das armas; e quasi a escolhera antes, que a das cartas. Por
alguns particulares, que desejava saber, quiz com mão alheia, por não
parecer importuno, perguntar algumas cousas a Solino, que achou junto á
sua porta; e depois de o saudar, lhe disse: Como estaes depois da noite
de hontem.?--Como o dado (respondeu elle) que está de qualquer
ilharga.--Deveis de ficar do azar (tornou D. Julio) pois tendes tão
poucos pontos, que faltaes aos da cortezia:--Fiquei (tornou elle) tão
cansado das da carta de Leonardo, que lhe tomei aborrecimento, e nem
estou para vos servir, nem para o dizer, e perdoae-me.--Logo (disse o
fidalgo) não quereis continuar na conversação d'esta noite.--Se a carta
(lhe tornou Solino) ha de ser tão comprida como o sobrescripto, assim o
imagino.--Pois a minha tenção (proseguiu elle) era pedir-vos que na
materia das armas, que elle tocou, fizesseis hoje algumas perguntas á
minha conta sobre alguns particulares das familias d'este reino.--Vós
deveis buscar armas para me matar (disse Solino) porque das de hontem
sahi eu tão escalavrado, que determinava fugir d'ella; e sei que tem
Leonardo tantos livros de armas, e gerações, que, se o tirar a terreiro,
havemos mister todo o inverno para o ouvir.--Eu me contento (respondeu
D. Julio) com saber que elle tem os livros, e assim o escuso do
trabalho:
porque n'elles lerei alguns feitos particulares dos Portuguezes
merecedores dos brazões que seus successores possuem.--Bom seria (disse
Solino) acabar as cartas antes de entrar por esses feitos, e para isso
vos irei acompanhando até a casa de Leonardo, posto que tinha outra
determinação.--Porque vós não falteis (respondeu D. Julio) quero ir mais
cedo. E com esta pratica, e outras que occorriam, foram passeando, e
entertendo o que ficava do dia, até que a sombra da noite, e uma chuva
miuda os fez recolher a casa de Leonardo, onde os amigos esperavam já
que elles chegassem; e com Pindaro outro estudante seu companheiro, por
nome Feliciano, que, vindo-o a visitar, se aproveitou da occasião em sua
companhia. Festejaram todos a Solino; e elle vendo o hospede, de novo se
lhe inclinou com mais auctoridade, e disse para os outros: Tenho inveja
á dita do senhor licenciado que veio ao abrir da carta, que cerrámos sem
elle, e com não pequeno trabalho.--Não tivera eu por tal (respondeu o
estudante) antes por grande ventura, se do passado me coubera alguma
parte; e esta, que alcanço agora com o consentimento d'estes senhores
por meio de meu companheiro, tenho por muito grande favor, e mercê de
todos.--Essa humildade (disse Solino) está acreditando mil esperanças de
vosso entendimento; e bem sei eu que o de Pindaro sabe fazer esta
eleição dos amigos tambem, como em tudo o mais é discreto, e acertado: e
para que entendaes o logar em que vos fico, sabei que eu sou o mais
certo creado que elle tem entre os senhores presentes.
A esta cortezia respondeu Pindaro, e o estudante com as suas, até que o
doutor os despartiu, e disse a Leonardo:--Bem gastado era o tempo em
comprimentos tão cortezãos, e tão devidos, se o desejo, que temos de
continuar a materia da noite passada, o não quizera poupar todo para
ella: e assim vos peço que me façaes mercê, e a todos, de ir por
deante.--Tendes razão (tornou elle) de me aliviardes mais depressa do
cuidado, em que me mettestes. E tornando a traz, por me aproveitar dos
vossos principios, dissestes que cousa era carta na origem do seu nome,
os primeiros modos de escrever, e o como entre nós se conservou; tratei
do sobrescripto, da cortezia, das lettras, do signal, das dobras, e
sello da carta, o que bastou para todos ficardes mais enfadados, que
saudosos.
Agora, começando a entrar na leitura das regras, saibamos que cousa é
carta missiva, ou mandadeira, e o para que foi inventada; que pela
definição de Marco Tullio, a quem todos seguem, é uma messageira fiel,
que interpreta o nosso animo aos ausentes, em que lhes manifesta o que
queremos que elles saibam de nossas cousas, ou das que a elles lhes
relevam. Tres generos de _cartas missivas_ assigna o mesmo Tullio, aos
quaes alguns costumam reduzir muitas especies d'ellas. O primeiro é das
_cartas de negocio e de cousas que tocam á vida, fazenda e estado de
cada um_, que é o para que as cartas primeiro foram inventadas; que, por
tratarem de cousas familiares, se chamaram assim. O segundo, de cartas
d'entre amigos uns aos outros, de novas e comprimentos de galantarias,
que servem de recreação para o entendimento, e de allivio e consolação
para a vida. O terceiro, de materias mais graves, e de peso, como são de
governo da republica e de matérias divinas, de advertencias a principes
e senhores e outras semelhantes. O primeiro genero se divide em cartas
domesticas, civis e mercantís. O segundo em cartas de novas, de
recommendação, de agradecimento, de queixumes, de desculpa e de graça. O
terceiro, que é mais grave e levantado, contém cartas reaes em materias
de estado, cartas publicas, invectivas, consolatorias, laudativas,
persuasorias e outras, que se pagam a cada uma das que nomeei em todos
os tres generos.--E onde deixaes (disse D. Julio) as cartas amatorias ou
namoradas? que se na vossa edade não teem logar, parece que o mereciam
n'este díscurso.--Bem sei eu (tornou Solino) quem as tomára no primeiro;
mas o sr. Leonardo já não joga com essas cartas.--Não me esquecia de
todo d'ellas (tornou elle), mas deixo-as para que no fim das mais sejam
melhor recebidas, e para proseguir a materia quem agora as puder apurar.
--As do primeiro genero (disse o doutor) me parecem cartas muito seccas,
que é materia esteril para que empregueis n'ella sem fructo o vosso
entendimento.--Antes (disse Leonardo) como essas foram as primeiras, e
d'ellas nasceram as leis e as regras para outras, será razão que debaixo
d'este genero tratemos das mais, repartindo o pouco que eu soube dizer,
por os logares de cada um. E assim me parece, que como a carta que
escrevemos ao amigo sobre seu negocio; ao creado sobre as cousas da
casa; e o mercador ao outro sobre seus tratos e mercancia; um aviso e
uma relação que lhe não podemos fazer em presença, fazendo-o por meio de
uma carta, devemos usar n'ella o que na pratica costumamos que é
brevidade sem enfeite, clareza sem rodeios, e propriedade sem
metaphoras, nem translações.--E quando (disse o doutor) faremos breves
em uma carta?--Quando (respondeu elle de tal maneira, e com tal
artificio a escrevermos, que se entendam d'ella mais cousas do que tem
de palavras.--E como póde ser? (tornou elle).--Por meio dos relativos e
subsequentes (disse Leonardo) que, sem nomear as palavras, as repetem; e
por ordem das sentenças e adagios que sem entender as cousas as
declaram; e n'isto se adeantam muito as cartas da pratica familiar, que,
se escrevem de cuidado, e tem mais tempo de se furtarem palavras para se
subentenderem razões.--E que cousa é enfeite ou affectação? (perguntou
Solino).--É, disse elle, o cuidado sobejo de enfeitar as palavras com
elegancia ou por via de epithetos, ou de escolha de logar para as
syllabas fazerem melhor som aos ouvidos. E em favor d'esta opinião,
dizia um homem insigne d'este reino, e que teve n'elle os melhores
logares da republica ecclesiastica e secular, que a carta e a mulher
muito enfeitada, em certo modo eram deshonestas: e eu antes seguira este
voto, que o de alguns rhetoricos, que deram á carta missiva cinco partes
de oração, convém a saber: _saudação, exordio, narração, petição e
conclusão_: e se houvessemos de seguir o seu estylo, mudariamos de todo
o das cartas.--Nunca rhetoricos (disse o estudante) souberam escrever
cartas, se as sugeitaram ás leis da oração. Mas parece que o sr.
Leonardo dá a entender que na carta se não devem usar epithetos ou
adjectivos por evitar o enfeite, e sobeja elegancia d'ella: e eu tenho
que sem elles se não póde escrever.
--Os epithetos (proseguiu Leonardo) ou servem para discripção e
declaração das cousas ou para propriedade, ou para ornamento e enfeite
d'ellas. Os primeiros são necessarios nas cartas como em tudo; os
segundos menos, os terceiros escusados. Para dizer ou escrever, _um
homem douto_, _uma mulher formosa_, _um cavallo ligeiro_, _uma arvore
alta_, _um caminho comprido_, _um peito forte_, sào attributos
necessarios para declarar o que queremos dizer; porque ha homem que não
é douto, mulher que é feia, e os mais. Os de propriedade como _ferro
frio_, _relva verde_, _sol claro_, _calma ardente_, _areia sêcca_,
_pedra dura_, estes são pouco necessarios nas cartas: e sómente por
comparação ou em adagios se devem usar n'ellas, como dizendo, _é duro
como pedra_, ou _é dar em pedra dura_, ou _é malhar em ferro frio_. Os
de elegancia e ornamento, tenho eu que se hão de degradar das cartas
missivas para fóra do termo d'ellas, como agora _firme soffrimento_,
_incansavel diligencia_, _solicito desejo_, _cuidadoso receio_,
_importuna lembrança_, _desusada brandura_, e outros que tem juiz de seu
fôro. Assim que não digo que faltem nas cartas epithetos necessarios,
mas que se escusem os sobejos; nem se andem grangeando as palavras para
fazerem assento em o cabo da sentença, que será ir contra a brevidade
sem enfeite ou affectação.