Eu sei que existe um certo numero de _chronicons d'esses tempos_,

publicados pela maior parte nos appendices da _Hespanha Sagrada_. Mas

infelizmente para o nosso caso, aquelles em que os successos vem mais

particularisados, e que mereceriam não o nome de _historias_, mas

talvez, alguns pelo menos, o de _chronicas_[56], não ultrapassam a

epocha d'Affonso VI. Taes são o d'Isidoro de Béja, o do Biclarense, o de

Sebastião de Salamanca, o de Sampiro, o Monge de Sillos etc. Os que

passam áquem da morte d'Affonso VI são apenas um aggregado de datas

relativas aos seculos XII e XIII e aos anteríores, datas estremes de

nascimentos, batalhas, obitos e phenomenos naturaes. Em taes monumentos,

essencialmente chronologicos, como fôra possivel encontrar a menção do

facto que pela sua propria natureza devia ser lento, e concluido por uma

série de actos graduaes e escuros, praticados successivamente durante

annos? Como se poderia achar uma historia politica em rudes apontamentos

de monges ignorantes, que muitas vezes para indicarem uma batalha

importante contentavam-se com dizer: _Era de tal_--_Foi a de Sagralias:

foi a d'Ucles_? Eu, ao menos, não creio que similhante espécie ahi se

podesse encontrar.

Mas, se abstrairmos d'estes _chronicons_, que obras historicas nos

restam escriptas n'esse tempo ou proximamente, com tal extensão, que

devamos buscar n'ellas noticia d'este facto politico e complexo? Conheço

apenas tres: a _Historia Compostellana_, a _Chronica d'Affonso VII_, e o

livro de D. Rodrigo Ximenes _Das coisas de Hespanha_. Como já notei, a

primeira e terceira chamam rebellião a esse facto: a segunda é que

guarda silencio a similhante respeito. Tire d'aqui o leitor a conclusão

que quizer, não se esquecendo que já ponderei sobre o valor historico

que me parece têr a _Chronica d'Affonso VII_.

O clarissimo auctor das _Memorias do conde D. Henrique_ regeita, ao que

parece, n'este ponto a auctoridade dos historiadores compostellanos

(postoque na _Memoria sobre a origem de Portugal_ os houvesse

qualificado de _não suspeitos_) por serem _exaggerados_ e _apaixonados_.

Esta observação é exactissima. Quem ler dez ou vinte capitulos d'aquella

chronica ficará plenamente convencido de tão inquestionavel verdade, sem

que lhe seja preciso ter presente a extensa dissertação de Masdeu a este

respeito.[57] Mas o que _exaggeram_ os tres conegos de Sanctiago

auctores do livro?--A perversidade de D. Urraca, e as virtudes do

arcebispo Diogo Gelmirez. Não ha injúria que elles não vomitem repetidas

vezes contra aquella rainha, que sem ser sancta, ou pelo menos beata,

como a pinta Flores, não foi tão detestavel mulher como os tres honrados

conegos a descreveram. Por outra parte não ha lisonja ridicula ou louvor

despropositado que não dirijam ao seu velhaco, hypocrita, cubiçoso e

violento patrono. Porque serão pois elles suspeitos mostrando-se

favoraveis ás pretensões de D. Urraca ácerca de Portugal, quando, além

d'isso, não tinham motivo nenhum de odio contra D. Theresa, que

beneficiou a sé de Compostella, e que até, andando Diogo Gelmirez com a

rainha D. Urraca devastando o Minho, lhe deu aviso de que sua irmã o

queria prender ou matar? É realmente incomprehensivel para mim o motivo

por que na questão da legitimidade ou illegitimidade da separação de

Portugal a _Historia Compostellana_ haja de ser-nos suspeita por

exaggeração e parcialidade.

Finalmente, a exigencia de um documento leonez, pelo qual conste a

pretendida sujeição de Portugal, parece-me demasiado violenta. Qual

devia ser o documento? Um manisfesto? No seculo XII não creio existisse

ainda essa divindade dos homens honestos, chamada opinião pública. Nas

questões politicas recorria-se ás armas para obter justiça ou desforço,

e não se faziam allegações. Se apparecesse um tal documento, a prova da

sua falsidade seria a sua existencia; e todavia só por um manifesto

poderiam constar directamente as pretensões de D. Urraca e de Affonso

VII. Indirectamente, porém, na propria _Memoria_, a que alludo, se

lembra seu respeitavel auctor do que D. Urraca se intitúlava _rainha de

toda a Hespanha_. Que mais podia fazer? Doações em Portugal de bens da

corôa? Ninguem lh'as quizera, porque não se effeituariam, visto que

Portugal não a tinha por senhora. Providencias governativas? Não lhe

obedeceriam. De que titulo, pois, pode resultar a prova directa que se

exige?

Prova directa digo, porque só esta tinha em mente por certo o sabio, de

cuja opiniões me vejo constrangido a afastar-me, quando escreveu que não

existe documento pelo qual _conste a pretendida sujeição_[58]. Era

impossivel que elle se não lembrasse do tractado que traz Brandão[59] em

cujo preambulo se lê: «É este o juramento e convenio que faz a _rainha_

D. Urraca a sua irmã a _infanta_ D. Theresa.» Desejaria eu saber porque,

intitulando-se a viuva do conde Henrique constantemente _regina_ nos

documentos de Portugal, consentiu em um tractado de paz com sua irmã que

esta reservasse para si similhante titulo, e lhe désse unicamente o

d'_infanta_? Como se registou tal denominação no _Liber Fidei_ de Braga,

d'onde a tirou Brandão, sendo assim offensiva da legitima independencia

e senhorio real de D. Theresa?

Accrescentarei uma conjectura. O documento produzido por Brandão não tem

data. Quem lêr attentamente os capitulos 40 e 42 do livro 2.^o da

_Historia Compostellana_ poderá talvez attribui-lo ao anno de 1121, em

que D. Urraca acompanhada do guerreiro arcebispo Diogo Gelmirez entrou

por Portugal dentro, e o devastou, chegando D. Theresa ás estreitezas de

se ver cercada no castello de Lanhoso. Distraídos pelos perigos do seu

heroe Gelmirez, que n'esta occasião D. Urraca, dizem elles, quiz prende,

esqueceram-se de narrar expressamente as consequencias politicas da

guerra. Mas dos factos referidos n'esses capitulos se pode deduzir que

as duas irmãs fizeram pazes, e até os dois campos inimigos conviveram

familiarmente[60]. Aquelle tractado não é por ventura mais que o

desfècho da invasão; bem como as condições vantajosas que por elle devia

obter D. Theresa, o repentino intento de prender o arcebispo, e a

notoria perfidia e turbulencia d'aquelle sancto varão, me fazem

suspeitar que elle tramaria alguma traição contra a sua soberana, a qual

odiava cordialmente, e tractando secretamente com D. Theresa (cujo

repentino accésso de amor por um homem que lhe devastava o paiz é aliás

inexplicavel) pretenderia com a juncção das suas forças ás portuguezas

aniquilar D. Urraca. Se assim foi, porque isto é apenas uma conjectura

verosimil, habilmente andou a rainha em conceder uma paz vantajosa a sua

irmã, para poder desaggravar-se da traição de Gelmirez. Admittida esta

hypothese, o documento do _Liber Fidei_ e a _Historia Compostellana_

concorda e explicam-se excellentemente.

O titulo d'_infanta_, dado com exclusão de outro a D. Theresa, não

apparece unicamente no _Liber Fidei_. Remettendo Bernardo, arcebispo de

Toledo, a Diogo Gelmirez copia de certas letras apostolicas relativas ao

celebre Mauricio Bordino, arcebispo de Braga, envia-lhe com ellas outras

dirigidas á _infanta dos portuguezes_[61]. Vê-se d'esta passagem, da

carta do primaz que tal era o titulo diplomatico com que na côrte de

Toledo se designava D. Theresa; titulo vago, que mostra, a meu vêr, a

incerteza d'aquella côrte entre o facto, que provavelmente não tinha

fôrça para annullar, e o direito de supremacia, que julgava evidente.

Ficarei aqui pelo que toca ao facto da origem da independencia de

Portugal: algum dia examinaremos como ella se consolidou e legalisou.

Chama-nos mais grave assumpto--a historia social do nosso paiz n'essa

épocha.

*CARTA IV*

A folhinha d'algibeira, tecendo o catalogo dos nossos reis, divide-se em

quatro dynastias: a 1.^a Luso-Capêta, a 2.^a, do Mestre d'Aviz, a 3.^a

dos Philippes, a 4.^a Brigantina. A folhinha resume e representa o

estado da sciencia historica do nosso paiz.

Mas a folhinha, salvo o incompleto e inexacto d'aquellas divisões

dynasticas, tem razão. Ella tece o catalogo das familias reaes. Quem não

tem razão é a sciencia, que, annunciando a _Historia de Portugal_, em

vez de distribuir as épochas chronologicas pelas transformações

essenciaes da sociedade, sujeita a ordem dos acontecimentos sociaes ás

mudanças das raças reinantes. Isto é altamente absurdo.

Mr. Thierry, fallando das divisões dynasticas applicadas á historia

franceza, já observou a impropriedade de similhante systema[62].

«Supponde (diz elle) que um estrangeiro, pessoa de juizo, que não seja

hospede na leitura dos historiadores originaes da decadencia do imperio

romano, e que nunca houvesse aberto um volume moderno da nossa historia;

supponde, digo, que ao encontrar a primeira vez um livro d'estes lhe

corra o indice, e divise ahi por balizas, ou antes por fundamentos da

obra, a distincção das diversas raças. Que idéa quereis que faça d'estas

raças e do pensamento do auctor? Ha-de provavelmente crer que tal

distincção corresponde á de diversas gentes, ou gaulesas ou peregrinas,

cuja mistura produziu a nação franceza; e quando souber que se enganou,

que são unicamente diversas familias de principes, sobre as quaes versa

todo o systema da nossa historia, ficará sem duvida cheio

d'assombro.»--Esta reflexão do mais célebre historiador francez da

épocha presente, é inteiramente applicavel ao nosso paiz.

Com effeito, quem, á vista das diversões estabelecidas na _Historia de

Portugal_, imaginará, por exemplo, que os acontecimentos sociaes do

ultimo quartel do seculo XIII, isto é, do reinado de D. Diniz, consituem

uma divisão naturalissima, uma verdadeira épocha historica, ao mesmo

tempo que a intrusão dos Philippes apenas mereceria tal nome? Quem

adivinhará que no reinado de D. João II se completa uma revolução

capital na indole da organisação politica do paiz, ao passo que a

revolução de 1640 traz á sociedade portugueza levissimas mudanças no seu

mode de existir? Ninguem o crerá, se attendendo unicamente ás épochas

assentadas pelos historiadores se persuadir de que a historia é a

biographia dos individuos eminentes.

A historia pode comparar-se a uma columna polygona de marmore. Quem

quizer examina-la deve andar ao redor d'ella, contempla-la em todas as

suas faces. O que entre nós se tem feito, com honrosas excepções, é

olhar para um dos lados, contar-lhe os veios da pedra, medir-lhe a

altura por palmos, pollegadas e linhas. E até não sei dizer ao certo se

estas indagações se teem applicado a uma face ou unicamente a uma

aresta.

Mas é similhante trabalho desprezivel? Não por certo. Este exame miudo,

feito com consciencia, tem grande applicação, e ainda em si é

importante; mas dar-nos isso como a historia da nação é, salvo erro,

enganar redondamente o genero humano; é não perceber os fins da

historia, a sua applicação como sciencia; é sobretudo fazer uma coisa, a

que podêmos chamar novella, distincta sómente d'aquellas a que se dá tal

titulo, pelo tedioso, árido e sem sabor da leitura que offerece.

As divisões historicas actuaes nasceram d'este modo falso (por

incompleto) de considerar o passado. A necessidade de estabelecer uma

chronologia rigorosa era evidente: os factos politicos e a vida dos

homens publicos precisavam de ser fixados com exacção no correr dos

tempos, principalemente para o julgamento dos diplomas, genero de

monumentos, em que as gerações extinctas se pintam melhor, que em

nenhuns outros. O erro, a meu vêr, foi acreditar que ficando-se aqui

existia a historia: erro digo, e completo; porque nem se quer a

biographia dos homens eminentes surgiu de taes averiguações. Temos a

certidão do seu nascimento, baptismo, casamento e morte. Se foi um

guerreiro, temos a descripção das suas batalhas; se legislador, a medida

intellectual e moral de seu espirito, os seus habitos e costumes, não os

conhecemos. E porque? Porque esse homem é uma abstracção: está separado

do seu seculo. As opiniões, os costumes, os usos, todos os modos, emfim,

de existir da épocha em que viveu, são desconhecidos para nós; e todavia

tudo isso, toda essa existencia complexa de muitos milhares de homens, a

que se chama nação, devia ter uma influencia immensa, absoluta,

n'aquella existencia individual do homem illustre, que o historiador

acreditou poder fazer-nos conhecer com os simples extractos de quatro

chronicas, cosidos com bom ou máu estylo ás respectivas certidões de

baptismo, de casamento e de obito.

É por isso que, além de ser absurdo em these geral resumir e representar

a sociedade nos individuos, tal absurdo se torna mais monstruoso, quando

os tomamos como medida das phases da sociedade. O homem, assim collocado

fóra de todas as relações sociaes, que lhe modificaram d'este ou

d'aquelle modo o aspecto moral, podendo representar todas as épochas,

pertencer a todos os tempos, tomar todas as physionomias, nada

representa, a nada pertence, nenhuma physionomia tem; e quando n'elle

buscâmos a imagem do seu tempo, não a achâmos, até porque nem a d'elle

proprio existe. Ajunctem-se, porém, estas individualidades abstractas,

embora na ordem do tempo constituam uma dynastia, uma série de capitães,

de legisladores, de magistrados; junctas ou separadas, ellas nunca

poderão representar uma épocha historica; o seu apparecimento ou a sua

falta nunca serão balisas verdadeiras das diversas transformações pelas

quaes passam os povos na sua vida de seculos.

Abramos os livros de qualquer historiador nosso. Sejam os do homem que

mais attingiu o espirito da sciencia historia, exceptuando Antonio

Caetano do Amaral de João Pedro Ribeiro: sejam o terceiro e quatro

volumes da _Monarchia Luzitana_, por Fr. Antonio Brandão. Brandão

começou a sua narrativa com o conde Henrique e concluiu-a com D. Affonso

III, ou porque sentisse que este era rigorosamente o primeiro periodo da

nossa historia, ou por mera casualidade, o que eu não creio[63].

Corram-se esses dois volumes; estudem-se as physionomias do conde, de D.

Affonso I, e dos seus successores até D. Affonso III: comparem-se com as

mais bem conhecidas dos nossos reis modernos; com a de D. João IV, de D.

Affonso VI, de D. Pedro II, de D. João V. Creremos que foram

contemporâneos uns dos outros: a sua côrte parece-se com as d'estes; o

teor da sua vida, domestica ou publica, os pensamentos politicos, a

fórma de administrar, de legislar, de fazer guerra são, com levissimas

excepções, similhantes; e resumindo n'essas physionomias falsificadas,

n'essas mascaras historicas, o aspecto social da épocha, ficam os

seculos XII e XIII similhantes necessariamente á segunda metade do XVII

e primeira do XVIII. A nossa imaginação transporta para aquelles tempos

a côrte esplendida, ceremoniatica, erudita, hypocrita e louçan de D.

João V; ou as intrigas mulherís, os odios covardes, os mexericos

fradescos, e as vinganças tenebrosas do tempo de Affonso VI e de D.

Pedro II, cobertos com um manto de decencia, de compostura, de

regularidade nas fórmas.

Assim, crendo que temos lido a historia portugueza dos seculos XII e

XIII, apenas saberemos as datas d'esses primeiros reinados, a

antiguidade d'algumas familias, os successos militares ou politicos de

então. Quanto ao resto, não só ignorâmos o que era a sociedade

primitiva; mas, o que é peior, compomos d'ella uma fabula com as

reminiscencias da nossa vida, com as tradições de nossos paes, ou com as

anecdotas, que estes ouviram aos seus. Feito isto, está feito o nosso

bastimento de sciencia historica.

* * * * *

Mas voltemos os olhos para os monumentos d'aquellas eras antigas, em que

ellas fielmente se reflectem, e fechemos os livros: busquemos a historia

da sociedade e deixemos por um pouco a dos individuos. Os primeiros

documentos que nos cairem nas mãos destruirão essas illusões: sentiremos

a infinita differença entre uns e outros tempos: veremos que os reis, os

nobres, o clero, os cidadãos, os camponezes de então, eram reis, nobres,

clero, cidadãos, e camponezes bem diversos dos actuaes. Pouco bastará

para nos persuadirmos de que a biographia das familias ou dos

inidividuos nunca pode caracterisar qualquer épocha; antes, pelo

contrario, a historia dos costumes, das instituições, das idéas, é que

ha de caracterisar os individuos, ainda quando quizermos estudar

exclusivamente a vida d'estes, em vez de estudar a vida do grande

individuo moral, chamado povo ou nação.

Transcreverei varios documentos relativos ao primeiro periodo da nossa

historia. Serão os que successivamente me occorrerem, sem fazer escolha.

Reflicta n'elles o leitor, que conhecer os nossos livros historicos. Que

julgue se algum d'estes lhe faz suspeitar ao menos o que por aquelles

anteverá de golpe--um modo d'existir n'essas eras remotas alheio

inteiramente das formas da sociedade presente.

* * * * *

I--«Se algum bispo ou pessoa d'ordens sacras tiver o vicio da

embriaguez, ou se emende ou seja deposto.»

«Se um sacerdote ou qualquer clerigo se embriagar, que faça penitencia

por 20 dias. Se vomitar com a embriaguez, faça penitencia por 40 dias.

Se for com a Eucharistia, faça penitencia por 60 dias.

Quem vomita a hostia, e esta é comida por algum cão,

faça penitencia um anno.[64]

* * * * *

II--Achando-se a rainha D. Urraca (1127) em Compostella, o povo

opprimido pelo bispo Gelmirez revolta-se e accommette a sé e o palacio

episcopal. Eis como a _Historia Compostellana_ pinta uma commoção

popular do seculo XII.[65]

«......é accommettida a egreja do apostolo com repetidos assaltos: as

pedras, as settas, os dardos, voam por cima do altar...... Estes homens

perdidissimos deitam fogo á egreja de Santiago, e incendeam-na toda,

porque uma grande parte d'ella era coberta de ramos de tamargueira e de

taboas.................»

«Depois que o bispo e a rainha vêem a egreja incendiada....fogem para a

torre dos sinos.... Os compostellanos....accommettem a torre, e despedem

pedras e settas contra o bispo e a rainha. Mas os que estavam com elles

defendem-se bem.... Finalmente os compostellanos....valem-se do fogo e,

unindo os escudos por cima das cabeças, deitam-no dentro por uma fresta

aberta na parte inferior da torre. O fogo atéa-se e trepa contra os que

estavam n'ella.»

«...... Clamavam de fóra: «a rainha se quizer que saia: a ella só

concedemos permissão de sair e de ficar viva: os outros hão de morrer a

ferro e fogo». Ouvido o que, e crescendo o incendio, a rainha

constrangida pelo bispo, e recebendo d'elles palavra de seguro, saiu da

torre. As turbas, tanto que a vêem sair, accommettem-na, agarram-na e

levam-na a rastos para um lodaçal; arrebatam-na como lobos, e rasgam-lhe

os vestidos: fica nua dos peitos para baixo, e assim jaz por muito tempo

descomposta diante de todos. Muitos quizeram apedreja-la, e até uma

velha lhe deu com uma pedra na cara.»

Qual foi o resultado d'estas gentilezas de canibaes? A rainha, escapando

da cidade como pôde, d'ahi a pouco:

«.......consentiu em fazer um pacto de reconciliação com os

compostellanos.»[66]

Fazendo queixas de seu marido, o rei d'Aragão, a mesma D. Urraca dizia

diante dos fidalgos da Galliza:

«.....não sómente me deshonrou com palavras affrontosas, mas tambem é de

sentir para toda a nobreza que me enxovalhasse as faces com as suas mãos

immundas, e me désse pontapés.»[67]

É preciso confessar que havia alguma differença da côrte de Affonso o

_Batalhador_ á de D. João V.

* * * * *

III--«....... O clero bracharense, carecendo de quem o guiasse, desejava

fosse como fosse obter um pastor; mas não podera achar em todo o bispado

pessoa digna d'aquella cadeira.

«Quando (S. Giraldo) entrou na cidade de Braga, e viu o estado bravio

d'aquelle logar despovoado e sepultado em ruinas, ficou attonito.»[68]

Louvando o procedimento exemplar e excepcional de S. Giraldo, diz o seu

discipulo e biographo:

«Nunca tractou de falcões, nem de caça com cães, ou de jogos d'azar.»

Eis um caso que elle refere, e que representa bem um aspecto dos

costumes do seculo XII.

O arcebispo havia excommungado por incestuoso certo cavalleiro:

«Aconteceu, porém, n'aquelle tempo, que por mandado do conde Henrique,

que então dominava na terra portugallense, todos os próceres

portuguezes, e com elles o excommungado por incestuoso, se ajunctassem

em Guimarães. Ao qual conventiculo, por assim ser necessario, veio

tambem o varão de veneravel vida. Celebrando, pois, missa o homem de

Deus na egreja vimaranense, e estando ahi presentes o conde Henrique e a

formosa rainha Theresa, com grande numero de próceres, viu que

sobredicto excommungado estava na egreja com os mais. Immediatamente,

suspendendo o officio divino, perante todos proclamou incestuoso aquelle

homem.... Este, inspirado pelo espirito diabolico,....recusou sair da

egreja. Saiu finalmente por ordem do conde, e aos empuxões dos outros.»

Para se ver qual era o estado de segurança individual, e do que dependia

a honra e fazenda das pessoas no seculo XII, extrahirei outro fragmento

do mesmo livro.

«Havia n'aquella região certa matrona chamada Toda, que, sendo

d'illustre sangue, era abastada por grande cópia de herdades e

muitissimo dinheiro[69], de cuja opulencia invejosos alguns magnates de

Portugal trabalhavam por perde-la e deshonra-la, para de algum modo lhe

havarem ás mãos as riquezas. Assim, deram traça a um villico[70] do

egregio conde Henrique, chamado Ordonho, homem de raça servil, como a

raptasse e casasse com ella, de modo que manchada por tal casamento

perdesse a dignidade da honra[71]. Seguindo a traça dos fidalgos, o

víllico arrebatou a matrona, deu um grande banquete, arranjou o thálamo,

e dispoz-se para commetter a maldade.»

Perto da noite, D. Toda, mandando deitar uma serva no leito nupcial,

fugiu com os trajos d'esta, e escondeu-se nos bosques. Quando o víllico

deu no engano:

«Grandemente irado, lançou muitos vigías com _mastins_ pelas saídas dos

caminhos, pelos desvios dos montes, e pelas brenhas selvaticas em busca

da nobre mulher.»

Da sequencia da historia se vê que o honrado víllico ficou impune d'esta

e de mais atrocidades, que depois commetteu, até que outros,

provavelmente tão bons como elle, o assassinaram no castello de Lanhoso.

* * * * *

IV--Invadindo o imperador Affonso VII a terra de Portugal, saiu-lhe ao

encontro Affonso I em Valdevez. Devia ser esta uma batalha decisiva para

a independencia de Portugal. D. Affonso Henriques tinha assentado as

tendas na estrada por onde marchava seu primo Affonso Raimundo dez. O

imperador chegou:

«Logo que vinha alguem da banda do imperador para uma especie de jôgo ou

torneio, a que os populares chamam bufúrdio, immediatamente lhes saíam

ao encontro alguns da parte do rei de Portugal, a torneiar com os

adversarios, e assim aprisionaram Fernando Furtado, irmão do

imperador,....e muitos outros.... Vendo o imperador que tudo saía

prosperamente ao rei de Portugal....mandou chamar o arcebispo de Braga e

outros homens bons, e pediu-lhes que viessem ter com o rei de Portugal,

para que firmassem boa paz com as condições que a tornam perpetua. Assim

se fez, porque o rei e o imperador se ajuntaram em uma tenda,

beijaram-se, comeram e beberam juntos, e fallaram a sós, voltando cada

qual em paz para a sua terra[72].»

* * * * *

V--«Memoria das malfeitorias que el-rei D. Sancho I fez a D. Lourenço

Fernandes, e das que lhe mandou fazer, e executou Vasco Mendes.

Primeiramente tirou-lhe setenta moios em pão e vinho, e vinte e cinco

entre arcas e cubas, e quarenta escudos, e dois colxões e dois

travesseiros, e entre bancos e leitos onze, e caldeiras e mezas, e

escudellas e muitos vasos, e chapéos de ferro, e dez porcos, ovelhas e

cabras, e quinze maravedis, que levaram dos seus homens, aos quaes

fizeram uma espera, e muitas outras armas. Além d'isto ermaram-lhe

setenta casaes, perdendo-se por isso a colheita d'este anno que ahi

tinha, e a do anno que vem, e cem homens de maladia[73], que assim

perderam. Depois lançaram-na de modo que nada ficou. E derribaram da

torre o que poderam, e ao que não poderam deitaram fogo, o qual deu cabo

d'ella, de modo que não póde ser concertada, e para a fazer de novo nem

com mil e quinhentos maravedis. E quantos casaes tinha tantos lhe

queimaram, e de mais levaram-lhe um moiro alentado.»

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 05 · 第 4 / 14 段