aposentos qualquer homem sem o meu consentimento e, muito menos,
individuos que, com a sua desprezivel e escandalosa conducta, se
tornaram culpados do meu justo despreso.
--De boa vontade te obedecerei n'isto como em tudo, e não receberei
jamais nenhum homem sem que tu me auctorises a tanto, respondeu com
doçura angelical a bella esposa do ciumento e apaixonado mouro. Mas, por
esta vez, te rogo, meu querido amigo, que perdoes a Cassio e lhe
devolvas a estima e o affecto que d'antes lhe dedicavas e que tanto
merece.
--Não quero, entendes? não quero tornar a ouvir pronunciar em minha
casa, e muito menos aos teus labios, o nome de tal homem. Ouves? Pois
bem, aconselho-te que não o esqueças, pois não gosto de repetir as
ordens que dou, rugiu Othello.
--Não esquecerei, esposo meu, disse Desdemona, sem perder nem um
instante a inalteravel doçura. Mas asseguro-te que, tu, tão prudente e
generoso sempre, és injusto n'esta occasião com o pobre Cassio.
--Outra vez? gritou o mouro fóra de si. E sentindo que a cólera que o
dominava o arrastava a uma brutalidade, da qual teria de arrepender-se,
abandonou precipitadamente o quarto, dizendo com voz agitada para o
alferes: Segue-me, Iago!
O infame não fez repetir a ordem, e sahiu na esteira do general, não sem
fazer um profundo e servil cumprimento a Desdemona.
Quando se encontrou no corredor só com Othello, começou a murmurar em
voz baixa:
--Que imprudentes! Quem o tivera advinhado! Chama-se a isto jogar com a
propria vida!
Othello, que apezar da ira que o dementava, ouvira perfeitamente as
insidiosas palavras do alferes, que com tal proposito as havia dito,
embora apparentando fallar para si, agarrou violentamente Iago pelo
pescoço, de tal modo que esteve a ponto de o estrangular e
perguntou-lhe:
--Que dizes, mizeravel? quem são os imprudentes e os que jogam com a
vida?
«Atrever-te-hias a suspeitar, infame, de minha esposa, da minha
Desdemona?!
«Falla, cão, ou morrerás ás minhas mãos, aqui mesmo!
Iago não respondeu, pela simples rasão de que não podia fallar, apertado
como estava entre os ferreos dedos do furioso africano.
Mas, levando a mão ao bolso, tirou d'elle um lenço de seda, bordado nos
quatro cantos, e estendeu-o a Othello, emquanto fitava eloquentemente o
marido de Desdemona.
Este retrocedeu alguns passos, como horrorisado, e fixando no lenço um
olhar de louco, murmurou com phrases entrecortadas, a voz cheia de
angustia:
--Como! O meu lenço!
«O lenço que era uma reliquia de minha mãe e de que fiz presente a
Desdemona como a joia mais preciosa que possuia! A melhor prenda dos
nossos amores em mãos extranhas!...
«D'onde o roubaste, traidor?--gritou a Iago, prompto a lançar-se de novo
a elle.
--Cassio! Cassio é que o tinha e tirei-lh'o! apressou-se a responder o
alferes, receando realmente pela sua vida, ao vêr a espantosa attitude
de Othello.
--Tinha-o Cassio?--rugiu o mouro.
«Ira de Deus! Mas isso é impossivel! Impossivel!
«Mentes, traidor, infame! Diz-me que mentes ou te arranco as entranhas!
--Não o posso dizer, general, porque sou demasiado fiel para vos
enganar.
«Esse lenço, que nunca vos mostraria, a não ser n'um caso especial como
o de hoje, para salvar a minha vida, tirei-o a Cassio, repito, e a elle
o havia entregado Desdemona alguns dias depois do vosso casamento. Eu
proprio, que estava occulto, a alguma distancia, pois suspeitava
d'ambos, lh'o vi dar!
«Juro-vos que daria a vida para não despedaçar o vosso coração como o
faço n'este momento; mas ordenais-me que falle e não tenho outro remedio
senão obedecer.
Othello, cuja bronzeada pelle se havia posto repentinamente côr de
cinza, quiz pronunciar algumas palavras, mas não poude; arrancou a gola
do gibão que o apertava, soltou uma especie de suspiro rouco, como o
estertor da agonia, e o seu athletico corpo de gigante cahiu sobre o
tapete, debil, apesar das herculeas forças, para resistir ao furioso
furacão das selvagens paixões que a intriga do infame Iago lhe
desencadeára na alma.
O miseravel, ao ver cahir o desditoso esposo de Desdemona, esboçou um
sorriso horrivel e murmurou entre dentes:
Isto vae ás mil maravilhas, e já falta pouco para o fim.
«Que bruto, hein? Se não venho preparado com o lenço, matava-me com
certeza! Verdade seja que isto adeantou os successos, que nada perdi com
passo!
«Agora vamos chamar soccorro, pois não quero que morra antes de que
tenha despachado os outros e eu arredondado a minha fortuna, para o que
tenho á mão esse imbecil de Rodrigo e o cargo de tenente que deixou vago
esse outro imbecil de Cassio.
E, ditas estas palavras com sangue frio e cynismo espantosos, junto do
inanimado corpo de Othello, o traidor revestiu uma apparencia de dôr e
de lastima que teria invejado o mais habil farçante do tempo, e foi
correndo em busca de soccorros para a sua infeliz e crédula victima.
CAPITULO VI
Os embaixadores
A terrivel crise soffrida por Othello, em consequencia das infames
calumnias urdidas por Iago e que apresentavam a pura e innocente
Desdemona como vil adultera, determinou no arrebatado mouro uma
congestão cerebral, que durante alguns dias o teve prostrado no leito,
entre a vida e a morte.
Restabelecido, por fim, graças á rigorosa organisação e, mais do que
tudo, aos assiduos e ternos cuidados que lhe prodigalisou Desdemona, que
o não abandonou um só instante, nem mesmo para entregar-se ao
imprescindivel descanso, poude deixar o leito e, n'esse mesmo dia em que
se levantou, mandou chamar aos seus aposentos Emilia, mulher de Iago, e
por meio de supplicas e de ameaças tratou de arrancar a confissão da
culpabilidade de Desdemona julgando acertadamente que, se esta tinha, em
verdade, algum segredo punivel, o conheceria, sem duvida, a esposa do
alféres, que mais do que uma simples creada da filha de Brabancio, havia
sido sempre a sua mais intima companheira e fiel amiga, dispondo, como
tal, da absoluta confiança da joven.
Mas, por mais que fizesse para obrigar a Emilia a fallar contra a
supposta adultera, como a confidente d'esta nada tinha que dizer contra
ella, nada disse, e, pelo contrario, mostrou-se profundamente
surprehendida a começo, chegando até a indignar-se, quando se convenceu
de que Othello duvidava, mais ainda, estava convencido da traição de
Desdemona.
Em vão se esforçou o mouro por fazer com que a nobre mulher proferisse
uma só palavra, que désse vulto e alimento e fortificasse os crueis
ciumes que lhe mordiam as entranhas; em vão lhe fallou de Cassio e das
suppostas intimidades d'este com a esposa. Emilia negou redondamente,
pela salvação da sua alma, que existissem taes intimidades, chegando no
grande affecto que devotava a Desdemona a increpar Othello por offender
a sua ama e amiga com tão miseraveis suspeitas.
Isto fez chegar ao cumulo a irritação e cólera do apaixonado e ciumento
africano, o qual, julgando que a serva encobria Desdemona e que, por
tanto, fazia causa commum contra elle para atraiçoar o seu amor e lançar
inextinguivel mancha no seu nome, acabou por insultar furiosamente
Emilia, expulsando-a do aposento com terriveis ameaças e promettendo-lhe
que não tardariam em se arrepender do que elle chamava infame conducta
de alcoviteira e encobridora.
A fiel e leal criada foi-se chorando com verdadeiro desgosto, e, sem
perder um minuto, dirigiu-se ao encontro da ama, á qual referiu o que
acabava de succeder-lhe e o que lhe dissera Othello.
Estavam assim conversando, ouvindo Desdemona a Emilia com o doloroso
espanto que pode calcular-se facilmente, quando, de repente, as duas
mulheres ficaram estupefactas, ao vêr entrar o mouro no aposento.
--Como supponho, disse com rapidez Othello, dirigindo-se a Desdemona,
que já haveis fallado mais do que é necessario, e sobre tudo, mais ainda
do que para minha honra e para minha tranquilidade convem, creio que
essa mulher poderá retirar-se, pois tenho necessidade de fallar a sós
comtigo.
--Retira-te Emilia, disse a joven com doçura para a sua creada de
quarto. Se precisar de ti chamarei.
A dama de companhia sahiu immediatamente dirigindo um cumprimento
carinhoso a Desdemona e quasi sem olhar para Othello, ao qual semelhante
attitude irritou mais do que estava.
--Já vejo, começou dizendo com mal reprimida colera, que não te
preoccupas a ensinar aos criados o respeito que devem a teu esposo.
--Perdoa a Emilia, respondeu carinhosamente Desdemona; respeita-te e
estima-te, como te respeitam e estimam aqui todos, começando por mim e
acabando no ultimo dos teus servidores. Mas hoje está nervosa e muito
contrariada, como eu propria estou, devido á entrevista que teve comtigo
e que me contou, pormenorisadamente.
--Felicito-te por teres servos tão leaes, respondeu sarcasticamente
Othello. Já não posso dizer outro tanto.
--Queixas-te injustamente, observou a joven, porque, repito: ninguem
aqui faz distincção alguma, senão em teu favor, pois seria eu a primeira
a não a consentir.
--Mil graças! respondeu Othello com o mesmo sarcasmo com que
anteriormente se havia expressado. Já vejo que não tenho razão de me
queixar, e que sou o mais injusto dos homens e o mais contradictorio dos
maridos.
--Não quiz dar-te a entender semelhante cousa; mas se assim o fiz mesmo
contra minha vontade, perdoa-me, disse humildemente Desdemona.
--Estás perdoada, respondeu o mouro seccamente; e logo accrescentou
mudando o tom da voz que tentou tornar o mais indifferente possivel: Ha
poucos dias, ao cahir sem sentidos no pavimento, molestei um pouco a mão
direita; a começo não me doia nada e por isso nada tambem disse até
hoje; agora doe-me bastante e agradecer-te-hia que atasses em redor
d'ella qualquer coisa, um lenço... aquelle de seda de que te fiz
presente em Veneza, dizendo-te que o guardasses como reliquia, porque
era de minha mãe.
Desdemona poz-se pallida como morta ao ouvir o esposo expressar-se de
tal maneira. O lenço em questão havia-se extraviado dias antes, e
receando os arrebatamentos do caracter de Othello, occultára-lhe tamanha
perda, pois não ignorava que o marido sentia por essa recordação de sua
mãe, unica que possuia, verdadeira veneração. Calcule-se pois o terror
que experimentaria em tal momento, sabedora por Emilia, e pelo que
pessoalmente observava no esposo, da má predisposição que elle tinha
contra ella, devida a furiosos e injustificados ciumes. Dizer-lhe
n'aquelle instante que perdera o lenço, era dispor-se a desencadear
contra ella todas as terriveis tempestades d'aquelle temperamento
arrebatado até á ferocidade; por outro lado mentir, inventar qualquer
fábula que justificasse a falta do lenço, seria tão inutil como indigno
da nobreza e da lealdade do seu caracter. Por conseguinte só poude
responder, com voz balbuciante, e sentindo que um suor gelado lhe
banhava todo o corpo:
--O lenço de seda!... O lenço de tua mãe!... Olha... tenho-o tão bem
guardado, que perderia demasiado tempo em dar com elle!... Outro
qualquer te servira de egual modo!... Não te parece?...
E a infeliz tremia, olhando o esposo com olhos aterrorizados, e sentindo
que ia desmaiar se a espantosa situação se prolongasse demasiado tempo.
--Quero o lenço de seda! Quero-o agora mesmo! respondeu Othello com
implacavel aspereza.
--Mas, atreveu-se todavia a accrescentar a infeliz Desdemona, não te
disse?...
--O lenço! rugia o terrivel mouro arrebatado já pela selvagem explosão
dos ciumes. A desventurada tremeu até ao intimo d'alma; começou o pranto
a banhar-lhe as nacaradas faces e, tapando o bellissimo rosto com as
mãos, cahiu de joelhos aos pés do cruel marido, balbuciando entre
convulsivos soluços:
--Perdão! Perdão! meu querido Othello!... Perdi-o!... não sei que foi
feito d'elle!...
--Oh! infame!... confessas, finalmente! accrescentou rugindo
furiosamente o terrivel ciumento, acaba de vez a tua confissão,
miseravel adultera, vil prostituta!... Dize que o não perdeste; que,
pelo contrario o déste ao teu amante, ao traidor que enganava a minha
amizade, roubando-me a honra; ao cobarde por quem tinhas, ainda ha
poucos dias, a desvergonha e o cynismo de interceder, chegando o teu
impudor a defender-lhe as crapulosas e indignas bebedeiras!...
«Confessa, infame, confessa ou te afogo entre as minhas mãos de ferro,
feitas para estrangular féras como tu, que tens coração de tigre! ouves,
miseravel?! Confessa ou te mato!...
E o formidavel africano, convertido já n'um d'esses irracionaes a que
vinha de referir-se, apertou entre as herculeas mãos o gracil e delicado
corpo da esposa, a qual, apovorada, abateu a delicada e branquissima
garganta sobre o peito, cerrou os meigos e bellos olhos e, soltando
debil suspiro, ficou inerte nos braços do temivel esposo.
Ao ligeiro grito desprendido dos labios da joven ao perder o
conhecimento, succedeu acto continuo a repentina entrada de Emilia no
aposento. Conhecedora do vehemente caracter de Othello, previra, ainda
que apenas em parte, as consequencias da conversação do mouro com a
innocente esposa, e não se affastára muito do quarto.
Sem embargo, a mulher do traidor alferes nunca previra até onde chegaria
a selvagem paixão do africano, e ao ver nas terriveis mãos de Othello o
corpo inanimado da querida ama, julgou que elle a tinha matado e,
começou a gritar desesperadamente, rompendo em violentos soluços e
increpando o ciumento marido com os mais horriveis improperios:
Othello, cujos olhos se injectaram de sangue, e cujo bronzeado rosto
instantaneamente se pôz quasi branco, sentiu desejos irresistiveis de
arrojar-se sobre Emilia e estrangulal-a; mas, dominando os impulsos
ferinos com supremo esforço da vontade, conseguiu vencer-se e,
abandonando o desmaiado e precioso corpo que ainda conservava entre as
mãos, lançou á criada um olhar de ameaça feroz e sahiu precipitadamente
do aposento, como se temesse não ser senhor de si, caso n'elle
permanecesse mais algum tempo.
Emilia ficou, pois, só com Desdemona, a qual levantou do chão com o
delicado esmero de mãe, e, depois de a deitar no leito, prodigalisou-lhe
todos os cuidados que considerou necessarios para a fazer recuperar os
sentidos.
Quando a infeliz voltou a si do deliquio, rompeu em amargo e copioso
pranto, o que lhe desafogou um tanto o angustiado coração. Depois, em
vez de se mostrar indignada contra o implacavel esposo, começou a
desculpal-o aos olhos de Emilia, que continuava dirigindo-lhe os
insultos mais violentos.
--Meu pobre Othello--terminou dizendo a pura e nobre Desdemona.
«Soffre mais ainda do que eu, porque me ama apaixonadamente, e julga-me
culpada, devido a um erro fatal, que é preciso aclarar a todo o custo.
Ditas estas palavras, que lhe punham em relevo toda a angelical
formosura da alma, fechou os olhos e, o seu delicado organismo, rendido
por fim, por tantas e tão violentas emoções, cahiu n'um profundo somno,
que era o melhor lenitivo que podia achar n'esse instante a desventurada
para acalmar a dôr que lhe atormentava a alma...
Entretanto Othello dirigia-se para os seus aposentos particulares, com o
proposito de encerrar-se n'elle e poder desafogar melhor, no isolamento
a raiva e os ciumes que lhe mordiam cruelmente o coração.
Mas, apenas penetrou no salão que lhe servia de gabinete, encontrou-se,
cheio de admiração, na presença completamente inesperada em tão
dolorosos momentos de quatro cavalleiros venezianos, que acabavam de
chegar á ilha de Chypre e o estavam esperando.
De novo conseguiu o mouro dominar as violentas agitações e as crueis
torturas da alma, e, depois de trocados os primeiros cumprimentos,
perguntou ao mais velho dos quarto, e que parecia ser o chefe, o motivo
de tão inesperada como grata visita.
Este, que era o senador Graciano, irmão de Brabancio e tio por
conseguinte de Desdemona, começou por abraçar affectuosamente Othello e
depois, em voz grave e repousada, expressou-se d'esta forma:
--O Doge, em nome do illustre e sabio Conselho dos Dez, nos manda aqui,
valente general, como encarregados de exprimir o agradecimento de sua
agradecida Magestade e de toda a Republica pelos valiosos serviços que,
n'este momento, como sempre, prestaste a Veneza, no exercicio do teu
governo de Chypre.
«Em seguida proseguiu mais gravemente ainda Graciano, ordena-nos que te
façamos saber que o Conselho e sua Senhoria necessitam de ti com grande
urgencia, para encarregar-te de nova expedição de vital interesse para o
Estado.
«Não devemos demorar muito tempo a nossa partida, e por isso, apenas
tenhamos descançado das fadigas da viagem, que foi penosa e accidentada
em extremo, sahiremos da ilha para Veneza, onde terás a gentileza de
acompanhar-nos. Isto tardará tres ou quatro dias, o maximo, tempo
sufficiente para que possas tomar as disposições que consideres
opportunas para o melhor governo de Chypre, do qual, por ordem expressa
do Conselho, encarregarás o tenente Cassio, que de ti tem sempre
merecido os melhores elogios quando se te offerece occasião de
fazer-lh'os. Eis quanto tinhamos a dizer-te em nome do Doge e do
illustre Conselho dos Dez, valente Othello. Está pois cumprido o objecto
da nossa embaixada, e agora, rogamos-te encarecidamente ordenes o que
necessario for para que possamos desfructar a tua generosa hospitalidade
e entregarmo-nos ao repouso de que tanto carecemos.
Um raio que tivesse cahido aos pés de Othello não lhe produziria maior
espanto do que o que lhe causou o breve discurso proferido pelo
emissario da Magestade. A principio ficou como que aturdido; mas não
tardou em readquirir o sangue frio, e respondendo como poude ao senador
Graciano, prometteu obedecer, como sempre, ás ordens do Doge e do
illustre Conselho.
Seguidamente deu as instrucções necessarias para que installassem os
embaixadores nos seus respectivos aposentos.
Depois, quando conseguiu ficar só, sorriso extranho, cheio de ironia e
de odio, entreabriu-lhe os grossos labios; mandou chamar immediatamente
Yago, e apenas este chegou, disse-lhe sem mais preambulos:
--Ouve-me com todas as tuas faculdades, e sem te admirares de cousa
alguma, nem perder o tempo em exclamações inuteis. Fixa bem na memoria o
que te vou dizer e obedece á risca.
--Já sabeis, illustre general--respondeu servilmente Yago--que sou para
vós um cão fiel, e que daria de boa vontade a vida se fosse necessario,
para servir-vos.
--Sei, e como chegou agora o momento de pôr á prova a tua amisade por
mim, por isso te chamei.
O alferes tremeu, pois ignorava onde queria chegar o terrivel Othello;
mas fazendo das fraquezas forças respondeu com voz firme:
--Mandai e obedecerei.
--Acabo de receber uma embaixada de Veneza, que me ordena, em nome da
Senhoria, que saia de Chipre, sem demora, para a cidade de S. Marcos.
--Como!--exclamou Yago profundamente surprehendido, apesar da ordem que
havia recebido de Othello, de que o não interrompesse.
--Ainda não é tudo--respondeu o mouro com sarcastica amargura, sem fazer
caso da exclamação do alferes--O Doge ordena-me tambem que deixe o
tenente Cassio encarregado do governo de Chypre.
O infame Yago pôz-se livido de inveja, e tão violenta foi a impressão
que n'elle causaram as palavras de Othello que se atreveu a
perguntar-lhe:
--E que tenciona fazer, general? Obedecer á Senhoria?
--Não poderei obedecer, ainda que quizesse--respondeu Othello sorrindo
ferozmente,--porque os embaixadores partirão dentro em tres ou quatro
dias, e esta mesma noite morrerá Cassio de uma punhalada que tu mesmo te
encarregarás de dar-lhe.
Brilharam de infernal alegria os olhos do alferes, que se limitou a
responder:
--Sou vosso em corpo e alma. Cassio morrerá esta noite....
Mas accrescentou vacillando, porem resolvido a todo o custo a saber o
que ganharia de semelhante missão:
--Que pensaes fazer, no que vos diz respeito?
--A seu tempo o saberás--respondeu seccamente o mouro.--Agora, vae-te,
pois já disse o que tinha a dizer e esta mesma noite, seja a que horas
fôr, te espero para que me dês conta da morte do infame ladrão da minha
felicidade e da minha honra.
Pronunciadas estas ultimas palavras, Othello despediu Yago com um gesto,
e acto continuo abandonou o quarto.
Apenas se viu só, Yago sorriu com expressão de odio e de ambição
satisfeita, e murmurou entre dentes:
--Amanhã, a estas horas, serei tenente e talvez governador da ilha, pois
saberei obrigar Othello a que me pague bem a morte de Cassio; quanto a
este não serei eu que o hei de matar, mas sim esse imbecil de Rodrigo,
ao qual offerecerei a posse immediata de Desdemona se a livrar do
official que sempre a está importunando com as suas instantes e
vergonhosas declarações; assegurar-lhe-hei que isto me disse ella
propria, e que se ainda se não entregou, foi porque teme que Cassio
venha a sabel-o e, para vingar-se, conte tudo ao marido. Que o diabo me
leve se o estupido Rodrigo não acredita na fabula e não mata o rival!
Para tanto facilitar-lhe-hei occasião oportuna, marcando a Cassio uma
entrevista na praia ás 11 horas da noite de hoje. Rodrigo matal-o-ha com
uma punhalada á traição e eu, que ficarei presenciando a scena,
denuncial-o-hei á justiça...--Não, interrompeu o miseravel.--Isto é
perigoso, porque o imbecil poderia fallar, e não me convém, pois toda a
gente saberia então que o illudi para apoderar-me de todas as suas joias
e dinheiro. O melhor, é depois de matar Cassio, matal-o a elle tambem, o
que me será facil, porque é muito menos perigoso do que o outro. Assim
está bem--terminou dizendo com expressão satisfeita.--Está resolvido: de
tal guisa livro-me d'esse parvo que já começa a incommodar-me, e já não
tenho nada a temer de Cassio, podendo em troca cobrar o preço da sua
morte, sem o menor risco para a minha pessoa...
E Yago dispoz-se a ir procurar Rodrigo sem perda de tempo, para começar
a pôr em execução o seu infame plano; mas, antes de abandonar o palacio
do governador, enviou a Cassio um soldado encarregado de lhe dizer que o
esperasse ás onze horas da noite na praia, pois tinha que communicar-lhe
uma noticia de grande interesse para elle.
--Aposto a cabeça em como não faltará--disse o miseravel--regosijando-se
antecipadamente com o resultado que ia obter da nova e dupla infamia
acabada de planear.
CAPITULO VII
Crime e Castigo
Avança a noite e os relogios de Chypre dão pausada e gravemente as dez
badaladas.
Na alcova de Desdemona, a joven e bella esposa do governador da ilha
dispunha-se a deitar-se ajudada carinhosamente pela mulher de Yago, tão
fiel e leal servidora, como falso e traidor era para o general africano
o infame marido.
--Emilia, disse com voz de infinita doçura a filha de Brabancio;
enfeita-me muito e põe-me bonita para dormir. Tenho um presentimento
estranho, tão extranho como doloroso, que não me abandona desde esta
tarde, e que me annuncia que este vae ser o meu ultimo somno.
--Que loucura! exclamou a criada, tratando de se mostrar alegre aos
olhos da ama. Desprezai, senhora, esses tristes e lugubres
presentimentos e pensai sómente, pelo contrario, em que vos esperam dias
cheios de aventura, pois sois ainda muito nova e a vida começa agora
para vós.
--Sim, respondeu melancolicamente Desdemona, mas has de concordar que
começa de maneira bem dolorosa! Que será de mim sem o amor de meu
esposo?
--Vosso esposo, disse Emilia com gesto de convicção;--não tardará em
arrancar pelas proprias mãos a negra venda que hoje lhe tapa os olhos, e
que o impede de ver todo o thesouro de virtudes e de felicidades que em
vós possue! Então voltará ainda mais enamorado do que nunca, e depois
vereis, minha querida ama, como esses maus pensamentos que hoje vos
atormentam, não tardarão a converter-se em sonhos côr de rosa.
--Queira Deus que não te enganes! respondeu Desdemona, soltando um
profundo suspiro, que pareceu aliviar-lhe um tanto o coração opprimido
pela angustia.