«De hoje em diante prohibo-te terminantemente que recebas nos teus

aposentos qualquer homem sem o meu consentimento e, muito menos,

individuos que, com a sua desprezivel e escandalosa conducta, se

tornaram culpados do meu justo despreso.

--De boa vontade te obedecerei n'isto como em tudo, e não receberei

jamais nenhum homem sem que tu me auctorises a tanto, respondeu com

doçura angelical a bella esposa do ciumento e apaixonado mouro. Mas, por

esta vez, te rogo, meu querido amigo, que perdoes a Cassio e lhe

devolvas a estima e o affecto que d'antes lhe dedicavas e que tanto

merece.

--Não quero, entendes? não quero tornar a ouvir pronunciar em minha

casa, e muito menos aos teus labios, o nome de tal homem. Ouves? Pois

bem, aconselho-te que não o esqueças, pois não gosto de repetir as

ordens que dou, rugiu Othello.

--Não esquecerei, esposo meu, disse Desdemona, sem perder nem um

instante a inalteravel doçura. Mas asseguro-te que, tu, tão prudente e

generoso sempre, és injusto n'esta occasião com o pobre Cassio.

--Outra vez? gritou o mouro fóra de si. E sentindo que a cólera que o

dominava o arrastava a uma brutalidade, da qual teria de arrepender-se,

abandonou precipitadamente o quarto, dizendo com voz agitada para o

alferes: Segue-me, Iago!

O infame não fez repetir a ordem, e sahiu na esteira do general, não sem

fazer um profundo e servil cumprimento a Desdemona.

Quando se encontrou no corredor só com Othello, começou a murmurar em

voz baixa:

--Que imprudentes! Quem o tivera advinhado! Chama-se a isto jogar com a

propria vida!

Othello, que apezar da ira que o dementava, ouvira perfeitamente as

insidiosas palavras do alferes, que com tal proposito as havia dito,

embora apparentando fallar para si, agarrou violentamente Iago pelo

pescoço, de tal modo que esteve a ponto de o estrangular e

perguntou-lhe:

--Que dizes, mizeravel? quem são os imprudentes e os que jogam com a

vida?

«Atrever-te-hias a suspeitar, infame, de minha esposa, da minha

Desdemona?!

«Falla, cão, ou morrerás ás minhas mãos, aqui mesmo!

Iago não respondeu, pela simples rasão de que não podia fallar, apertado

como estava entre os ferreos dedos do furioso africano.

Mas, levando a mão ao bolso, tirou d'elle um lenço de seda, bordado nos

quatro cantos, e estendeu-o a Othello, emquanto fitava eloquentemente o

marido de Desdemona.

Este retrocedeu alguns passos, como horrorisado, e fixando no lenço um

olhar de louco, murmurou com phrases entrecortadas, a voz cheia de

angustia:

--Como! O meu lenço!

«O lenço que era uma reliquia de minha mãe e de que fiz presente a

Desdemona como a joia mais preciosa que possuia! A melhor prenda dos

nossos amores em mãos extranhas!...

«D'onde o roubaste, traidor?--gritou a Iago, prompto a lançar-se de novo

a elle.

--Cassio! Cassio é que o tinha e tirei-lh'o! apressou-se a responder o

alferes, receando realmente pela sua vida, ao vêr a espantosa attitude

de Othello.

--Tinha-o Cassio?--rugiu o mouro.

«Ira de Deus! Mas isso é impossivel! Impossivel!

«Mentes, traidor, infame! Diz-me que mentes ou te arranco as entranhas!

--Não o posso dizer, general, porque sou demasiado fiel para vos

enganar.

«Esse lenço, que nunca vos mostraria, a não ser n'um caso especial como

o de hoje, para salvar a minha vida, tirei-o a Cassio, repito, e a elle

o havia entregado Desdemona alguns dias depois do vosso casamento. Eu

proprio, que estava occulto, a alguma distancia, pois suspeitava

d'ambos, lh'o vi dar!

«Juro-vos que daria a vida para não despedaçar o vosso coração como o

faço n'este momento; mas ordenais-me que falle e não tenho outro remedio

senão obedecer.

Othello, cuja bronzeada pelle se havia posto repentinamente côr de

cinza, quiz pronunciar algumas palavras, mas não poude; arrancou a gola

do gibão que o apertava, soltou uma especie de suspiro rouco, como o

estertor da agonia, e o seu athletico corpo de gigante cahiu sobre o

tapete, debil, apesar das herculeas forças, para resistir ao furioso

furacão das selvagens paixões que a intriga do infame Iago lhe

desencadeára na alma.

O miseravel, ao ver cahir o desditoso esposo de Desdemona, esboçou um

sorriso horrivel e murmurou entre dentes:

Isto vae ás mil maravilhas, e já falta pouco para o fim.

«Que bruto, hein? Se não venho preparado com o lenço, matava-me com

certeza! Verdade seja que isto adeantou os successos, que nada perdi com

passo!

«Agora vamos chamar soccorro, pois não quero que morra antes de que

tenha despachado os outros e eu arredondado a minha fortuna, para o que

tenho á mão esse imbecil de Rodrigo e o cargo de tenente que deixou vago

esse outro imbecil de Cassio.

E, ditas estas palavras com sangue frio e cynismo espantosos, junto do

inanimado corpo de Othello, o traidor revestiu uma apparencia de dôr e

de lastima que teria invejado o mais habil farçante do tempo, e foi

correndo em busca de soccorros para a sua infeliz e crédula victima.

CAPITULO VI

Os embaixadores

A terrivel crise soffrida por Othello, em consequencia das infames

calumnias urdidas por Iago e que apresentavam a pura e innocente

Desdemona como vil adultera, determinou no arrebatado mouro uma

congestão cerebral, que durante alguns dias o teve prostrado no leito,

entre a vida e a morte.

Restabelecido, por fim, graças á rigorosa organisação e, mais do que

tudo, aos assiduos e ternos cuidados que lhe prodigalisou Desdemona, que

o não abandonou um só instante, nem mesmo para entregar-se ao

imprescindivel descanso, poude deixar o leito e, n'esse mesmo dia em que

se levantou, mandou chamar aos seus aposentos Emilia, mulher de Iago, e

por meio de supplicas e de ameaças tratou de arrancar a confissão da

culpabilidade de Desdemona julgando acertadamente que, se esta tinha, em

verdade, algum segredo punivel, o conheceria, sem duvida, a esposa do

alféres, que mais do que uma simples creada da filha de Brabancio, havia

sido sempre a sua mais intima companheira e fiel amiga, dispondo, como

tal, da absoluta confiança da joven.

Mas, por mais que fizesse para obrigar a Emilia a fallar contra a

supposta adultera, como a confidente d'esta nada tinha que dizer contra

ella, nada disse, e, pelo contrario, mostrou-se profundamente

surprehendida a começo, chegando até a indignar-se, quando se convenceu

de que Othello duvidava, mais ainda, estava convencido da traição de

Desdemona.

Em vão se esforçou o mouro por fazer com que a nobre mulher proferisse

uma só palavra, que désse vulto e alimento e fortificasse os crueis

ciumes que lhe mordiam as entranhas; em vão lhe fallou de Cassio e das

suppostas intimidades d'este com a esposa. Emilia negou redondamente,

pela salvação da sua alma, que existissem taes intimidades, chegando no

grande affecto que devotava a Desdemona a increpar Othello por offender

a sua ama e amiga com tão miseraveis suspeitas.

Isto fez chegar ao cumulo a irritação e cólera do apaixonado e ciumento

africano, o qual, julgando que a serva encobria Desdemona e que, por

tanto, fazia causa commum contra elle para atraiçoar o seu amor e lançar

inextinguivel mancha no seu nome, acabou por insultar furiosamente

Emilia, expulsando-a do aposento com terriveis ameaças e promettendo-lhe

que não tardariam em se arrepender do que elle chamava infame conducta

de alcoviteira e encobridora.

A fiel e leal criada foi-se chorando com verdadeiro desgosto, e, sem

perder um minuto, dirigiu-se ao encontro da ama, á qual referiu o que

acabava de succeder-lhe e o que lhe dissera Othello.

Estavam assim conversando, ouvindo Desdemona a Emilia com o doloroso

espanto que pode calcular-se facilmente, quando, de repente, as duas

mulheres ficaram estupefactas, ao vêr entrar o mouro no aposento.

--Como supponho, disse com rapidez Othello, dirigindo-se a Desdemona,

que já haveis fallado mais do que é necessario, e sobre tudo, mais ainda

do que para minha honra e para minha tranquilidade convem, creio que

essa mulher poderá retirar-se, pois tenho necessidade de fallar a sós

comtigo.

--Retira-te Emilia, disse a joven com doçura para a sua creada de

quarto. Se precisar de ti chamarei.

A dama de companhia sahiu immediatamente dirigindo um cumprimento

carinhoso a Desdemona e quasi sem olhar para Othello, ao qual semelhante

attitude irritou mais do que estava.

--Já vejo, começou dizendo com mal reprimida colera, que não te

preoccupas a ensinar aos criados o respeito que devem a teu esposo.

--Perdoa a Emilia, respondeu carinhosamente Desdemona; respeita-te e

estima-te, como te respeitam e estimam aqui todos, começando por mim e

acabando no ultimo dos teus servidores. Mas hoje está nervosa e muito

contrariada, como eu propria estou, devido á entrevista que teve comtigo

e que me contou, pormenorisadamente.

--Felicito-te por teres servos tão leaes, respondeu sarcasticamente

Othello. Já não posso dizer outro tanto.

--Queixas-te injustamente, observou a joven, porque, repito: ninguem

aqui faz distincção alguma, senão em teu favor, pois seria eu a primeira

a não a consentir.

--Mil graças! respondeu Othello com o mesmo sarcasmo com que

anteriormente se havia expressado. Já vejo que não tenho razão de me

queixar, e que sou o mais injusto dos homens e o mais contradictorio dos

maridos.

--Não quiz dar-te a entender semelhante cousa; mas se assim o fiz mesmo

contra minha vontade, perdoa-me, disse humildemente Desdemona.

--Estás perdoada, respondeu o mouro seccamente; e logo accrescentou

mudando o tom da voz que tentou tornar o mais indifferente possivel: Ha

poucos dias, ao cahir sem sentidos no pavimento, molestei um pouco a mão

direita; a começo não me doia nada e por isso nada tambem disse até

hoje; agora doe-me bastante e agradecer-te-hia que atasses em redor

d'ella qualquer coisa, um lenço... aquelle de seda de que te fiz

presente em Veneza, dizendo-te que o guardasses como reliquia, porque

era de minha mãe.

Desdemona poz-se pallida como morta ao ouvir o esposo expressar-se de

tal maneira. O lenço em questão havia-se extraviado dias antes, e

receando os arrebatamentos do caracter de Othello, occultára-lhe tamanha

perda, pois não ignorava que o marido sentia por essa recordação de sua

mãe, unica que possuia, verdadeira veneração. Calcule-se pois o terror

que experimentaria em tal momento, sabedora por Emilia, e pelo que

pessoalmente observava no esposo, da má predisposição que elle tinha

contra ella, devida a furiosos e injustificados ciumes. Dizer-lhe

n'aquelle instante que perdera o lenço, era dispor-se a desencadear

contra ella todas as terriveis tempestades d'aquelle temperamento

arrebatado até á ferocidade; por outro lado mentir, inventar qualquer

fábula que justificasse a falta do lenço, seria tão inutil como indigno

da nobreza e da lealdade do seu caracter. Por conseguinte só poude

responder, com voz balbuciante, e sentindo que um suor gelado lhe

banhava todo o corpo:

--O lenço de seda!... O lenço de tua mãe!... Olha... tenho-o tão bem

guardado, que perderia demasiado tempo em dar com elle!... Outro

qualquer te servira de egual modo!... Não te parece?...

E a infeliz tremia, olhando o esposo com olhos aterrorizados, e sentindo

que ia desmaiar se a espantosa situação se prolongasse demasiado tempo.

--Quero o lenço de seda! Quero-o agora mesmo! respondeu Othello com

implacavel aspereza.

--Mas, atreveu-se todavia a accrescentar a infeliz Desdemona, não te

disse?...

--O lenço! rugia o terrivel mouro arrebatado já pela selvagem explosão

dos ciumes. A desventurada tremeu até ao intimo d'alma; começou o pranto

a banhar-lhe as nacaradas faces e, tapando o bellissimo rosto com as

mãos, cahiu de joelhos aos pés do cruel marido, balbuciando entre

convulsivos soluços:

--Perdão! Perdão! meu querido Othello!... Perdi-o!... não sei que foi

feito d'elle!...

--Oh! infame!... confessas, finalmente! accrescentou rugindo

furiosamente o terrivel ciumento, acaba de vez a tua confissão,

miseravel adultera, vil prostituta!... Dize que o não perdeste; que,

pelo contrario o déste ao teu amante, ao traidor que enganava a minha

amizade, roubando-me a honra; ao cobarde por quem tinhas, ainda ha

poucos dias, a desvergonha e o cynismo de interceder, chegando o teu

impudor a defender-lhe as crapulosas e indignas bebedeiras!...

«Confessa, infame, confessa ou te afogo entre as minhas mãos de ferro,

feitas para estrangular féras como tu, que tens coração de tigre! ouves,

miseravel?! Confessa ou te mato!...

E o formidavel africano, convertido já n'um d'esses irracionaes a que

vinha de referir-se, apertou entre as herculeas mãos o gracil e delicado

corpo da esposa, a qual, apovorada, abateu a delicada e branquissima

garganta sobre o peito, cerrou os meigos e bellos olhos e, soltando

debil suspiro, ficou inerte nos braços do temivel esposo.

Ao ligeiro grito desprendido dos labios da joven ao perder o

conhecimento, succedeu acto continuo a repentina entrada de Emilia no

aposento. Conhecedora do vehemente caracter de Othello, previra, ainda

que apenas em parte, as consequencias da conversação do mouro com a

innocente esposa, e não se affastára muito do quarto.

Sem embargo, a mulher do traidor alferes nunca previra até onde chegaria

a selvagem paixão do africano, e ao ver nas terriveis mãos de Othello o

corpo inanimado da querida ama, julgou que elle a tinha matado e,

começou a gritar desesperadamente, rompendo em violentos soluços e

increpando o ciumento marido com os mais horriveis improperios:

Othello, cujos olhos se injectaram de sangue, e cujo bronzeado rosto

instantaneamente se pôz quasi branco, sentiu desejos irresistiveis de

arrojar-se sobre Emilia e estrangulal-a; mas, dominando os impulsos

ferinos com supremo esforço da vontade, conseguiu vencer-se e,

abandonando o desmaiado e precioso corpo que ainda conservava entre as

mãos, lançou á criada um olhar de ameaça feroz e sahiu precipitadamente

do aposento, como se temesse não ser senhor de si, caso n'elle

permanecesse mais algum tempo.

Emilia ficou, pois, só com Desdemona, a qual levantou do chão com o

delicado esmero de mãe, e, depois de a deitar no leito, prodigalisou-lhe

todos os cuidados que considerou necessarios para a fazer recuperar os

sentidos.

Quando a infeliz voltou a si do deliquio, rompeu em amargo e copioso

pranto, o que lhe desafogou um tanto o angustiado coração. Depois, em

vez de se mostrar indignada contra o implacavel esposo, começou a

desculpal-o aos olhos de Emilia, que continuava dirigindo-lhe os

insultos mais violentos.

--Meu pobre Othello--terminou dizendo a pura e nobre Desdemona.

«Soffre mais ainda do que eu, porque me ama apaixonadamente, e julga-me

culpada, devido a um erro fatal, que é preciso aclarar a todo o custo.

Ditas estas palavras, que lhe punham em relevo toda a angelical

formosura da alma, fechou os olhos e, o seu delicado organismo, rendido

por fim, por tantas e tão violentas emoções, cahiu n'um profundo somno,

que era o melhor lenitivo que podia achar n'esse instante a desventurada

para acalmar a dôr que lhe atormentava a alma...

Entretanto Othello dirigia-se para os seus aposentos particulares, com o

proposito de encerrar-se n'elle e poder desafogar melhor, no isolamento

a raiva e os ciumes que lhe mordiam cruelmente o coração.

Mas, apenas penetrou no salão que lhe servia de gabinete, encontrou-se,

cheio de admiração, na presença completamente inesperada em tão

dolorosos momentos de quatro cavalleiros venezianos, que acabavam de

chegar á ilha de Chypre e o estavam esperando.

De novo conseguiu o mouro dominar as violentas agitações e as crueis

torturas da alma, e, depois de trocados os primeiros cumprimentos,

perguntou ao mais velho dos quarto, e que parecia ser o chefe, o motivo

de tão inesperada como grata visita.

Este, que era o senador Graciano, irmão de Brabancio e tio por

conseguinte de Desdemona, começou por abraçar affectuosamente Othello e

depois, em voz grave e repousada, expressou-se d'esta forma:

--O Doge, em nome do illustre e sabio Conselho dos Dez, nos manda aqui,

valente general, como encarregados de exprimir o agradecimento de sua

agradecida Magestade e de toda a Republica pelos valiosos serviços que,

n'este momento, como sempre, prestaste a Veneza, no exercicio do teu

governo de Chypre.

«Em seguida proseguiu mais gravemente ainda Graciano, ordena-nos que te

façamos saber que o Conselho e sua Senhoria necessitam de ti com grande

urgencia, para encarregar-te de nova expedição de vital interesse para o

Estado.

«Não devemos demorar muito tempo a nossa partida, e por isso, apenas

tenhamos descançado das fadigas da viagem, que foi penosa e accidentada

em extremo, sahiremos da ilha para Veneza, onde terás a gentileza de

acompanhar-nos. Isto tardará tres ou quatro dias, o maximo, tempo

sufficiente para que possas tomar as disposições que consideres

opportunas para o melhor governo de Chypre, do qual, por ordem expressa

do Conselho, encarregarás o tenente Cassio, que de ti tem sempre

merecido os melhores elogios quando se te offerece occasião de

fazer-lh'os. Eis quanto tinhamos a dizer-te em nome do Doge e do

illustre Conselho dos Dez, valente Othello. Está pois cumprido o objecto

da nossa embaixada, e agora, rogamos-te encarecidamente ordenes o que

necessario for para que possamos desfructar a tua generosa hospitalidade

e entregarmo-nos ao repouso de que tanto carecemos.

Um raio que tivesse cahido aos pés de Othello não lhe produziria maior

espanto do que o que lhe causou o breve discurso proferido pelo

emissario da Magestade. A principio ficou como que aturdido; mas não

tardou em readquirir o sangue frio, e respondendo como poude ao senador

Graciano, prometteu obedecer, como sempre, ás ordens do Doge e do

illustre Conselho.

Seguidamente deu as instrucções necessarias para que installassem os

embaixadores nos seus respectivos aposentos.

Depois, quando conseguiu ficar só, sorriso extranho, cheio de ironia e

de odio, entreabriu-lhe os grossos labios; mandou chamar immediatamente

Yago, e apenas este chegou, disse-lhe sem mais preambulos:

--Ouve-me com todas as tuas faculdades, e sem te admirares de cousa

alguma, nem perder o tempo em exclamações inuteis. Fixa bem na memoria o

que te vou dizer e obedece á risca.

--Já sabeis, illustre general--respondeu servilmente Yago--que sou para

vós um cão fiel, e que daria de boa vontade a vida se fosse necessario,

para servir-vos.

--Sei, e como chegou agora o momento de pôr á prova a tua amisade por

mim, por isso te chamei.

O alferes tremeu, pois ignorava onde queria chegar o terrivel Othello;

mas fazendo das fraquezas forças respondeu com voz firme:

--Mandai e obedecerei.

--Acabo de receber uma embaixada de Veneza, que me ordena, em nome da

Senhoria, que saia de Chipre, sem demora, para a cidade de S. Marcos.

--Como!--exclamou Yago profundamente surprehendido, apesar da ordem que

havia recebido de Othello, de que o não interrompesse.

--Ainda não é tudo--respondeu o mouro com sarcastica amargura, sem fazer

caso da exclamação do alferes--O Doge ordena-me tambem que deixe o

tenente Cassio encarregado do governo de Chypre.

O infame Yago pôz-se livido de inveja, e tão violenta foi a impressão

que n'elle causaram as palavras de Othello que se atreveu a

perguntar-lhe:

--E que tenciona fazer, general? Obedecer á Senhoria?

--Não poderei obedecer, ainda que quizesse--respondeu Othello sorrindo

ferozmente,--porque os embaixadores partirão dentro em tres ou quatro

dias, e esta mesma noite morrerá Cassio de uma punhalada que tu mesmo te

encarregarás de dar-lhe.

Brilharam de infernal alegria os olhos do alferes, que se limitou a

responder:

--Sou vosso em corpo e alma. Cassio morrerá esta noite....

Mas accrescentou vacillando, porem resolvido a todo o custo a saber o

que ganharia de semelhante missão:

--Que pensaes fazer, no que vos diz respeito?

--A seu tempo o saberás--respondeu seccamente o mouro.--Agora, vae-te,

pois já disse o que tinha a dizer e esta mesma noite, seja a que horas

fôr, te espero para que me dês conta da morte do infame ladrão da minha

felicidade e da minha honra.

Pronunciadas estas ultimas palavras, Othello despediu Yago com um gesto,

e acto continuo abandonou o quarto.

Apenas se viu só, Yago sorriu com expressão de odio e de ambição

satisfeita, e murmurou entre dentes:

--Amanhã, a estas horas, serei tenente e talvez governador da ilha, pois

saberei obrigar Othello a que me pague bem a morte de Cassio; quanto a

este não serei eu que o hei de matar, mas sim esse imbecil de Rodrigo,

ao qual offerecerei a posse immediata de Desdemona se a livrar do

official que sempre a está importunando com as suas instantes e

vergonhosas declarações; assegurar-lhe-hei que isto me disse ella

propria, e que se ainda se não entregou, foi porque teme que Cassio

venha a sabel-o e, para vingar-se, conte tudo ao marido. Que o diabo me

leve se o estupido Rodrigo não acredita na fabula e não mata o rival!

Para tanto facilitar-lhe-hei occasião oportuna, marcando a Cassio uma

entrevista na praia ás 11 horas da noite de hoje. Rodrigo matal-o-ha com

uma punhalada á traição e eu, que ficarei presenciando a scena,

denuncial-o-hei á justiça...--Não, interrompeu o miseravel.--Isto é

perigoso, porque o imbecil poderia fallar, e não me convém, pois toda a

gente saberia então que o illudi para apoderar-me de todas as suas joias

e dinheiro. O melhor, é depois de matar Cassio, matal-o a elle tambem, o

que me será facil, porque é muito menos perigoso do que o outro. Assim

está bem--terminou dizendo com expressão satisfeita.--Está resolvido: de

tal guisa livro-me d'esse parvo que já começa a incommodar-me, e já não

tenho nada a temer de Cassio, podendo em troca cobrar o preço da sua

morte, sem o menor risco para a minha pessoa...

E Yago dispoz-se a ir procurar Rodrigo sem perda de tempo, para começar

a pôr em execução o seu infame plano; mas, antes de abandonar o palacio

do governador, enviou a Cassio um soldado encarregado de lhe dizer que o

esperasse ás onze horas da noite na praia, pois tinha que communicar-lhe

uma noticia de grande interesse para elle.

--Aposto a cabeça em como não faltará--disse o miseravel--regosijando-se

antecipadamente com o resultado que ia obter da nova e dupla infamia

acabada de planear.

CAPITULO VII

Crime e Castigo

Avança a noite e os relogios de Chypre dão pausada e gravemente as dez

badaladas.

Na alcova de Desdemona, a joven e bella esposa do governador da ilha

dispunha-se a deitar-se ajudada carinhosamente pela mulher de Yago, tão

fiel e leal servidora, como falso e traidor era para o general africano

o infame marido.

--Emilia, disse com voz de infinita doçura a filha de Brabancio;

enfeita-me muito e põe-me bonita para dormir. Tenho um presentimento

estranho, tão extranho como doloroso, que não me abandona desde esta

tarde, e que me annuncia que este vae ser o meu ultimo somno.

--Que loucura! exclamou a criada, tratando de se mostrar alegre aos

olhos da ama. Desprezai, senhora, esses tristes e lugubres

presentimentos e pensai sómente, pelo contrario, em que vos esperam dias

cheios de aventura, pois sois ainda muito nova e a vida começa agora

para vós.

--Sim, respondeu melancolicamente Desdemona, mas has de concordar que

começa de maneira bem dolorosa! Que será de mim sem o amor de meu

esposo?

--Vosso esposo, disse Emilia com gesto de convicção;--não tardará em

arrancar pelas proprias mãos a negra venda que hoje lhe tapa os olhos, e

que o impede de ver todo o thesouro de virtudes e de felicidades que em

vós possue! Então voltará ainda mais enamorado do que nunca, e depois

vereis, minha querida ama, como esses maus pensamentos que hoje vos

atormentam, não tardarão a converter-se em sonhos côr de rosa.

--Queira Deus que não te enganes! respondeu Desdemona, soltando um

profundo suspiro, que pareceu aliviar-lhe um tanto o coração opprimido

pela angustia.

Othello(#28526) · 第 4 / 5 段