--Não me engano, tenho a certeza,--insistiu Emilia alegremente.--Vereis

como esta mesma noite o vosso esposo virá ver-vos e implorar o vosso

perdão, e ao contemplar-vos tão formosa como os anjos de céu, cahirá de

joelhos ante vós arrependido da sua conducta. Como estaes linda, minha

senhora!--continuou olhando para a joven com sincera admiração, depois

de dar-lhe uns ultimos toques no toucado.--Agora, dormi e sonhai com

dias melhores, porque os bons sonhos trazem comsigo a ventura, segundo

affirmam.

Dizendo estas palavras, Emilia ajudou a joven a deitar-se; apanhou em

seguida as roupas que estavam cahidas, pelo aposento, e olhando

cuidadosamente em torno de si, para convencer-se que tudo ficava em

ordem, deu as boas noites e abandonou em silencio o quarto, que apenas

ficou illuminado pela vaga e febril luz de uma lampada de azeite.

Haviam transcorrido dez minutos, e já os preciosos olhos da joven

começavam a cerrar-se, vencidos pelo somno, quando a mesma porta por

onde sahira Emilia se entreabriu suave e lentamente, e na hombreira

appareceu a alta e soberba figura de Othello.

O mouro avançou com lentidão até ao leito onde repousava a esposa que,

ao advinhar, melhor do que via, a sua presença, deu um debil grito de

alegria e estendeu os nús e marmoreos braços ao marido, exclamando

amorosamente:

--Tu aqui! meu querido Othello! Vens dar-me o teu perdão pela desgraçada

perda do lenço?

--Rezaste esta noite, Desdemona? perguntou o general com gravidade meiga

e triste, que tinha algo de tragica.

--Sim, esposo meu, respondeu a innocente Desdemona; esta noite, como

todas, fiz as minhas orações do costume. Mas, porque me fazes tal

pergunta?--interrogou a infeliz começando a sentir-se presa de vago

terror, ao ver a sombria e implacavel expressão retratada no semblante

do marido.

--Porque vaes morrer depois de findarem os cinco minutos que te concedo

para encommendares a Deus a tua alma!--respondeu Othello inexoravel.

--Deus! Que dizes? exclamou a joven, sentando-se no leito, como

surprehendida pelo espanto e julgando ter ouvido mal.

--Digo que vaes morrer e que aproveites o tempo que te dou para

encommendar a tua alma a Deus, repetiu o mouro com frialdade que fazia

tanto damno como o de uma folha de aço. E accrescentou logo: Se o

proprio Deus houvesse baixado á terra para me annunciar que morrerias ás

minhas mãos, teria duvidado de Deus; já vês se tinha ou não fé no teu

carinho! Mas tu atraiçoaste essa fé, e por isso mereces a morte.

Sim--continuou implacavelmente o terrivel mouro, exaltando-se á medida

que fallava, e sem fazer caso do tremor e da mortal lividez que se viam

na desventurada e innocente Desdemona;--sim, mereces e vaes justamente

morrer. Mas, por que ainda te amo, apezar de tudo, e vim sem armas,

porque não quero derramar o teu sangue, que sempre será precioso para

mim, morrerás estrangulada ás minhas mãos, entre estas mãos que com tão

ardente amôr te acariciaram nos dias felizes para mim. Vês como te amo,

Desdemona? Sim, amo-te, e ainda te perdoaria, se tanto fosse possivel!

Mas não é! Não, não é, porque atraiçoaste o meu amôr com um amigo

desleal e infame, e porque, não contente com tal crime, para o qual não

existe misericordia possivel, urdiste, de cumplicidade certamente com o

miseravel, uma indigna traição no intuito de que me chamassem a Veneza e

vos deixasse aqui a ambos em completa liberdade para gosarem a infamia

praticada.

«Ah! ah! ah! gargalhou o formidavel africano, rindo como um louco.

«Já vês que, apezar da nobre ingenuidade do meu caracter, que me

entregou de corpo e alma nas tuas mãos, não é tão facil enganar-me, e

que immediatamente advinhei tudo. Sim, proseguiu, recobrando a terrivel

expressão de implacavel dureza, advinhei, mas o vosso plano não dará o

exito appetecido. Ouves?--perguntou, interrompendo-se para escutar as

badaladas dos relogios que marcavam a hora. São onze horas e n'este

momento cae o teu amante sob o punhal de um fiel servidor meu! E como

passaram os cinco minutos que te concedi para que encommendasses tua

alma, chegou tambem para ti a hora da morte!

A infeliz Desdemona quiz fallar, pedir, supplicar misericordia ao

terrivel esposo, fazer protestos da sua innocencia, salvar a vida,

emfim, porque a morte horrorizava-a e a tal ponto que a fazia tremer e

bater os dentes como se tivesse febre; mas tudo foi inutil, porque só

teve tempo de lançar um grito desesperado, estridente, horrivel e que

havia de se ouvir em todos os aposentos do immenso palacio, alterando

com a infinita angustia das suas dolorosas vibrações o profundo silencio

da noite.

Os férreos dedos do mouro apertavam ferozmente a delicada e branquissima

garganta da innocente vitima, quebrou-se a columna vertebral com um

estalido horrivel e o precioso corpo, abandonado instantaneamente a si

proprio, sob o impulso do invencivel horror que ao ouvir o espantoso

estalido acommetteu immediatamente o verdugo, cahiu pesadamente sobre o

leito flexivel e desarticulado, como pesada massa.

Aterrado da propria obra, com os cabellos erriçados e os olhos

horrivelmente dilatados pelo espanto, Othello retrocedeu ante o cadaver

da infeliz esposa, tratando, talvez, de fugir para apagar da vista o

tremendo espectaculo. Mas, n'esse instante abriu-se com violencia a

porta do aposento e appareceu Emilia que, desolada e quasi nua, correu

para o leito de Desdemona, gritando;

--Senhora! Que vos aconteceu? Respondei, por Deus, respondei!

--Para traz, miseravel encobridora! rugiu Othello, recobrando toda a sua

selvagem crueldade, á vista da mulher que julgava cumplice no supposto

adulterio da victima. E continuou, agarrando por um braço Emilia: Sim,

morreu, e morreu ás pressões de minhas mãos vingadoras, como tu agora

vaes morrer, infame, para que não fique no mundo nenhuma testemunha, da

minha deshonra!

E o vingativo africano dispunha-se a sacrificar tambem ao terrivel odio

aquella nova victima que o destino lhe deparava. Mas, por fortuna para a

fiel criada de Desdemona, n'aquelle momento e attrahidos, primeiro por o

grito que lançou ao morrer a innocente esposa de Othello, e depois pelos

que havia soltado a mulher de Iago, penetraram no quarto Graciano e os

tres companheiros da embaixada, o traidor alferes, causa de toda essa

espantosa tragedia, e, por ultimo, entraram varios soldados amparando

nos braços Cassio, ferido e que havia exigido que o levassem a todo o

transe á presença de Othello sem perda de um minuto, pois em breve

morreria e queria fallar com o general antes de exhalar o ultimo

suspiro.

Ao vêr entrar tanta gente no aposento, e especialmente ao encontrar-se

em presença do veneravel Graciano, tio de Desdemona, Othello retrocedeu

instintivamente alguns passos e deixou em liberdade Emilia.

Esta correu, como louca, para os recem-chegados, e gritou, rompendo em

soluços:

--Matou a minha ama, senhores, o infame matou-a!

--Sim, confessou sombria e altivamente Othello, dirigindo um olhar de

desafio a todos os presentes, matei-a, porque sou o unico juiz da minha

honra e eu proprio sentenciei a culpada!

--Mentira! gritou de novo Emilia. Senhores, não acrediteis! A infeliz

Desdemona era tão pura e innocente como os anjos do céu, e levava a

incomparavel bondade de sua alma até ao extremo de amar com todas as

energias do seu coração o seu proprio verdugo!

--Tu é que estás mentindo, infame impostora! rugiu Othello, que tremeu

até ao mais intimo d'alma ao entrever a possibilidade da innocencia da

esposa pela maneira convicta com que fallára a dama. E accrescentou

tirando do bolso o lenço de seda, que guardava como prova accusadora:

Atrever-te-has a negar que conheces esta prova do criminoso adulterio?

Este lenço deu-o minha esposa ao amante, a esse infame Cassio, que o

proprio inferno repelliu, pois que ainda o vejo aqui com vida!

Ao ver o lenço, Emilia ficou convertida em estatua; pôz-se livida como

um cadaver, as pupilas pareceram querer-lhe saltar das orbitas, e

exclamou horrorisada:

--O lenço de seda! O lenço que roubei a Desdemona!

--Que roubaste?--exclamou Othello enlouquecido e julgando ter ouvido

mal.--É mentira! Foi minha esposa que o deu a Cassio como prenda dos

seus criminosos amores!

--Proximo a entregar a alma a Deus interveio com debil e apagada voz o

antigo official de Othello--Juro pela minha salvação que nunca vi

semelhante lenço nas minhas mãos e que Desdemona te era tão fiel como

póde ser a mulher mais pura do mundo!

«Juro tambem, continuou fallando com grande custo,--que morro victima de

um erro teu, general, e assassinado por ordem d'esse infame, que não se

atrevendo a atacar-me, enviou um instrumento seu, o qual logrou enganar

por meio de outra calumnia, e que, depois de ferir-me, acaba de morrer

ás minhas mãos, confessando tudo! Juro, por ultimo, accrescentou Cassio,

cada vez com voz mais debil,--que sempre te amei como a um pae, como ao

morrer te quero ainda, e que Desdemona, tão innocente e pura como um

anjo, não foi outra cousa para mim do que foi para toda a gente; um

coração cheio de bondade e de doçura! Juro-o por tudo quanto existe de

sagrado!...

E o antigo tenente de Othello cahiu sem sentidos nos braços dos soldados

que o amparavam.

--E eu juro--exclamou por sua vez Emilia, encarando Othello, que

permanecia atonito, como se tivesse recebido um profundo golpe; juro que

esse homem disse a verdade, que minha ama era pura como um raio de sol e

innocente como uma criança; que Cassio nunca teve em suas mãos esse

lenço, e que fui eu que o roubei a Desdemona, obrigada a tal acto por

meu marido e fazendo-o jurar que com elle não prejudicaria ninguem!

Juro-o pela memoria de meus paes!

Succedeu então uma cousa verdadeiramente horrivel.

Iago, ao vêr o caminho que tomavam para elle as coisas, fôra

approximando-se lentamente da porta para se escapulir sem ser visto.

Mas, no momento em que Emilia se calou, Othello saltou sobre elle com a

agilidade e a força de um leopardo, e arrancando-lhe a propria espada,

enterrou-lh'a nas entranhas até aos copos. Em seguida, voltando-se para

onde estava Graciano, e tirando o punhal que o velho senador trazia

pendente do cinto cravou-o no proprio peito até ao cabo e cahiu sobre o

leito em que jazia o cadaver de Desdemona, á qual deu a alma n'um beijo

com o ultimo suspiro.

A dupla acção do formidavel e ciumento mouro havia sido tão rapida, que

quando os circumstantes, refeitos do assombro, quizeram intervir, já

estava consumada a tragedia.

FIM

INDICE

Cap. Pag.

I--O rapto 5

II--Othello 19

III--Em Chypre 37

IV--O traidor 53

V--O lenço 67

VI--Os embaixadores 83

VII--Crime e castigo 97

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Othello(#28526) · 第 5 / 5 段