Quando por fim a desarvorada galera capitanea fez a sua entrada

triumphal no bellissimo porto da ilha de Chypre, onde já era tambem

conhecida a destruição da esquadra turca, o regosijo e a alegria não

tiveram limites; Othello e Desdemona foram recebidos com o fervente

enthusiasmo que só se tributa aos heroes, e toda a população distincta

da ilha, com o governador Montano á frente, correu a visital-os ao

palacio em que se haviam installado, para tributar-lhes sincera e franca

homenagem de admiração e de estima.

Othello, pela sua parte, ao assumir, n'aquella mesma tarde, o comando

supremo de Chypre, decretou em nome da Republica veneziana festas geraes

durante todo o resto do dia e até á meia noute, para que o povo

celebrasse, cada qual consoante a sua vontade e gosto, o ter-se livrado,

tão feliz como inopinadamente, do terrivel e feroz inimigo que

pretendera apoderar-se da ilha.

Em seguida, e apenas anoiteceu, retirou-se para o Palacio em companhia

de Desdemona, pedindo a Montano para ainda fazer as suas vezes durante a

noute, pois alem de estar fatigado, devido á accidentada viagem, era

essa tambem a primeira noite em que, desde que se unira a Desdemona,

podia encontrar-se a sós e tranquillo com a formosa e virginal esposa.

Montano, como póde suppor-se, accedeu promptamente ao desejo do general

governador de Chypre, offerecendo-lhe cumprir o seu encargo de vigiar

cuidadosamente os guardas durante a noute, tanto para acudir ás

desordens e escandalos resultantes de todas as festas populares, como

para não abandonar a vigilancia do porto que, não obstante o desastre

casual soffrido pelos turcos, era presa demasiado cubiçada por elles

para se descurar, um momento que fosse, observando com semelhante

prevenção o famoso e prudente proverbio latino _si vis pacem, para

bellum_, que deve ser sempre a divisa de todo o bom militar.

Caiu a noute sobre Chypre com os melhores auspicios e em meio da alegria

de todos os seus habitantes que, já livres das tristes preoccupações que

os haviam atormentado até ali se entregaram inteiramente ao gozo das

festas que haviam organizado.

Ao dizermos todos os habitantes, devemos descontar dois muito nossos

conhecidos, que já não participavam do regosijo commum, e recolhidos

n'um angulo do edificio que servia de quartel á guarda encarregada da

vigilancia do porto, conversavam animadamente e em voz baixa de assumpto

que, a julgar pelo aspecto e gestos de ambos os interlocutores, devia

ser de grande interesse para elles.

Estes dois personagens eram Iago, o alferes de Othello e o seu nobre

companheiro Rodrigo, sobrinho de Barbancio e desprezado amante de

Desdemona, o qual não deixára ainda o disfarce de marinheiro, por assim

o ter aconselhado o amigo, como medida de prudencia.

O dialogo que segue porá os nossos leitores ao corrente do assumpto que

tratavam, e que, como já terão advinhado, não era outro senão o dos

desditosos amores da ingenua victima do alferes.

--A avaliar por quanto pude ver desde que sahi de Veneza, dizia Rodrigo

ao companheiro, asseguro-te que, se não fôres o proprio diabo em pessoa,

te será difficil que eu consiga o amor da minha bella prima, que dia a

dia me parece mais enamorada do horroroso marido.

--Trouxeste comtigo todas as joias e quanto dinheiro podeste reunir,

segundo prometteste? perguntou tranquillamente Yago, sem dar a menor

attenção ás palavras do amigo.

--Nas minhas malas tenho todas as alfaias de familia, que valem para

cima de dez mil escudos de ouro, e quasi outro tanto em moedas novas

venezianas e genovezas, respondeu Rodrigo.

--Com menos de metade se comprava, seduzia e conquistava uma rainha,

ainda que abrigasse no seio um coração mais duro que as afiadas garras

do leão de S. Marcos, disse o alferes em cujos olhos brilhou um clarão

de cobiça, ao ouvir as palavras do companheiro.

--Não proponho comprar Desdemona, replicou este, por duas razões: a

primeira porque a conheço bem e estou certo que não é mulher que se

venda; e a segunda porque receberia um amor que se daria por dinheiro e

não por natural correspondencia á paixão que inspira a mulher amada.

--Ta! ta! ta! cantarolou cynicamente Yago, tudo isso são cantatas, bôas,

quando muito, para servir de assumpto a rimances cantados por

trovadores, depois de opipara ceia em noute de festa. A tua bella prima

é como todas as mulheres, e todas as mulheres são como as andorinhas.

Namoram-se de tudo quanto brilha; por isso tua prima se enamorou de

Othello, porque a seus olhos brilhou mais do que todos os nobres

venezianos, devido ao inegavel esplendor das suas maravilhosas proezas.

--Que devo então fazer? perguntou Rodrigo, contemplando Yago com

irritação não isenta de espanto. Não me asseguraste que Desdemona está

enamorada do marido?

--Nem mais, nem menos, respondeu fleugmaticamente Yago. Mas, por

dizer-te que está enamorada, não significa semelhante affirmação que o

esteja sempre. O amor de tua prima, nobre Rodrigo, crê piamente no que

digo, pois sou homem de experiencia, não é amor verdadeiro, mas

ficticio; o que poderiamos chamar amôr de imaginação.

--Como! exclamou, cada vez mais surprehendido, o joven veneziano.

--O que acabo de proferir, continuou o alferes, é precisamente a phrase

approximada e perdoa que me gabe ao dizer-te que muito feliz fui em a

ter encontrado: um amor de imaginação. O brilho que vê em Othello, e que

a deslumbrou, não é outra coisa senão o que se vê nos heroes dos

romances, que é precisamente como se apresenta o marido aos olhos de

Desdemona. Ella vê o heroe, sempre o heroe. Pergunta-lhe pelo homem, e

não saberá responder-te.

--Porquê? perguntou Rodrigo, verdadeiramente interessado.

--Simplesmente porque o homem não existe para ella nem, felizmente para

o que respeita a Othello, se preoccupa de procural-o; no dia em que tal

faça, o marido está perdido e o mesmo será no dia em que o encontre.

--Não te comprehendo, interrompeu o joven veneziano, que, como todos os

seus eguaes d'essa epocha, estava pouco habituado a torturar o cerebro,

sentia enorme confusão perante semelhante embroglio para elle

inintelligivel.

--Porque não queres comprehender-me, replicou Yago com a mesma

tranquilidade do gato que brinca cem o rato. E se não, continuou

dizendo, ouve-me attentamente e verás como te explico tudo, em quatro

palavras, verás como entendes: tua prima é mulher, não é verdade?

--Essa é de cabo de esquadra! exclamou irritado Rodrigo. Pois que outra

coisa poderia ser?

--Não te abespinhes, homem, não te abespinhes! De vagar se vae ao longe

e nao tardarei em chegar onde quero, disse o alferes que, semelhante

n'isto a todos os miseraveis, se comprazia em atormentar a victima.

Responde: é mulher ou não?

--Quem duvida?

--Ninguem, por certo. Ora como mulher, necessitará de um homem que lhe

satisfaça as exigencias do organismo; um homem que ame fisicamente,

entendes-me agora, alma de cantaro? _fisicamente_, porque o amor

_fisico_ é o unico que póde convir á vida de uma mulher, quando as

paixões imaginativas e novelescas, como a agora experimentada por ella,

se evaporam e fogem ante a fortaleza brutal dos gritos da carne.

--Bem, de accordo, respondeu Rodrigo que ia começando a comprehender o

companheiro.--Mas aonde queres tu ir parar com todas essas philosophias?

--Simplesmente a uma conclusão que não admitte duvidas: tua prima está

hoje satisfeita e enamorada porque não vê mais do que o lado poetico do

marido, e ainda não se fixou na cara, linguagem, gestos, e no mais que

n'elle existe de tosco, de selvagem e de brutal. Mas como o seu amor não

póde alimentar-se de sonhos, e um beijo dado por uns labios humidos e

vermelhos vale mais para uma mulher do que toda a poesia do mundo, no

dia em que esse tigre africano despertar torpemente a carne da mulher, o

que n'este momento está fazendo, asseguro-te que, ou não ha senso commum

sobre a terra, ou apenas Desdemona se inteire do que então ignorava,

quer dizer, de que tem sexo, o negro estará perdido para ella, completa

e irremediavelmente perdido. Talvez, nas suas horas de tédio, o recorde

e até careça d'elle, como se recorda e se carece, em determinados

momentos, de uma historia interessante ou de um fragmento de poema; mas,

durante os parentesis da realidade, que são os maiores da vida,

precisamos todos, e ella tambem, coisa mais substanciosa e mais pratica:

o gastrónomo, carne fresca e appetitosa que desfaça nos dentes; e o

amante, carne mais fresca e mais appetitosa que lhe palpite nos braços!

Já vês que n'este pobre mundo tudo é questão de carne, meu caro amigo!

Ah! ah! ah!

E, ao dizer estas palavras o miseravel soltou uma gargalhada cynica e

estrepitosa, gozando em desfolhar, uma a uma, as poucas flôres da

illusão que ainda vicejavam no coração de Rodrigo.

--Assim, pois, continuou dizendo quando acabou de rir, confia em mim e

não tortures a cabeça com supplicios inuteis.

«A noiva de Othello será tua, porque assim jurei e não falto nunca aos

meus juramentos, disse com um sorriso de escarneo quasi imperceptivel. E

proseguiu acto continuo:

«Apenas terás de me ir entregando joias e dinheiro, á medida que eu vá

pedindo, para captivar com ellas o coração de minha mulher, que é o anjo

da guarda do Paraiso, e seduzir tambem a coração de Desdemona. Já vês

que sou imparcial na minha opinião com respeito a mulheres, terminou o

mizeravel, pois que não sendo a minha das peores, não lhe dou mais valor

do que positivamente tem.

--E julgas, realmente, que Desdemona se deixará captivar por fim, com

dadivas e presentes? perguntou o infeliz apaixonado, cuja certeza a

respeito da virtude da prima começava a fraquejar, combatida

simultaneamente pelos proprios desejos e pelas perfidas theorias do ruim

amigo.

--Dá tempo ao tempo e depois te convencerás do que digo, proseguiu Iago

com a firmeza de quem tem certo o triumpho.

«Dá-me tudo o que te pedir e deixa o resto por minha conta. Não te

preoccupes mais com tal assumpto e presta attenção, e ao dizer estas

palavras baixou a voz e adoptou uma attitude mysteriosa; ha outra coisa

e outra pessoa que constituem um grande perigo para os teus amores.

--Que queres dizer?--perguntou Rodrigo sobresaltado.

«Explica-te mais claramente porque os teus enigmas apenas servem para me

atormentar.

--Não tens reparado na assiduidade com que o tenente Cassio segue para

toda a parte Desdemona, e na singular preferencia que esta lhe dispensa

constantemente, mesmo na presença do esposo?

--É certo! exclamou Rodrigo empallidecendo; até agora ainda não tinha

dado importancia a semelhantes detalhes; mas acabas de abrir-me os

olhos, e não ha duvida que tens razão de sobra para assim fallares. Que

infame! acabará, talvez, por entender-se com Cassio, procurando n'elle o

homem a que ha pouco te referias? Se assim fôr, posso perder as ultimas

esperanças, pois o meu amor não se verá jámais correspondido!

--Enganas-te, porque estou eu aqui para o evitar respondeu Iago,

fingindo carinho affectuoso.--Tenho o meu plano. Esta noute preciso que

me ajudes, para varrer esse empecilho, de fórma que não torne a

molestar-nos em vida.

--Como?--perguntou Rodrigo.

--É muito simples; primeiro que tudo, é perciso fazer que Cassio, perca

a estima de que desfructa junto de Othello, e que este o demitta do seu

posto de tenente, para dar-m'o. D'este modo, affastado para sempre do

general, não terá pretexto para approximar-se de Desdemona e todas as

suas seducções e artificios resultarão completamente inuteis. Entretanto

eu, investido nas funcções do meu novo cargo, poderei converter-me em

sombra do mouro e, por conseguinte, de tua prima, e não me parece

necessario encarecer as vantagens que poderás tirar d'isto para os teus

amores.

--É certo!--exclamou o moço veneziano, contemplando com admiração e

gratidão o amigo--Mas como te vais arranjar para levar a cabo o teu

plano e em que poderei auxiliar-te?

--Da maneira seguinte: d'aqui a uma hora, pouco mais ou menos, vou cear

em companhia de Montano e de Cassio no quartel que existe n'este mesmo

edificio. O tenente é tão mau bebedor que não póde resistir a um só copo

do riquissimo vinho d'esta ilha. Ora bem; hei de fazer o possivel para

que beba dois ou tres, o que bastará para o embriagar como a qualquer

mendigo e, em seguida, busca sahir-lhe ao caminho e, sem o provocar,

farás que te dirija algum insulto, cousa que não será difficil, porque

quando está bebedo, é aggressivo. Replicar-lhe-has acto continuo e

continuarás discutindo até conseguires que te bata. Como farás tudo

isto, procurando não te affastares do quartel, onde se effectuará a

ceia, gritarás de modo que Montano e eu possamos ouvir-te. Então

acudiremos ambos, eu occupar-me-hei de ti, e deixaremos que os dois se

entendam, na certeza de que Cassio, homem sereno e senhor de si quando

está no estado normal, é indiabradamente provocador e insultante quando

se embriaga, o que lhe succede poucas vezes na vida, e não deixará de

puchar pela espada para responder com ella ás amigaveis indicações que

lhe dirija Montano; fará sangue, certamente, e então entrarei eu em

scena para armar tal escandalo, que Othello terá de inteirar-se

necessariamente do caso. Ora bem; como não transigiria nem com o proprio

filho em pontos de disciplina, surprehenderá Cassio em falta grave,

precisamente no momento de guarda, e affirmo-te que o teu provavel rival

não tornará a pôr no peito a divisa de tenente, que passará a ser minha,

e que, a partir d'esta noute, poderás viver completamente tranquillo.

--E estás bem seguro do teu plano?--perguntou Rodrigo ao alferes, quando

este acabou de narrar o infame projecto, que o joven veneziano escutára

com profunda attenção.

--Certissimo--respondeu Iago--Só preciso que prestes o serviço que te

peço.

--Conta comigo--prometteu o sobrinho de Brabancio, decidido a tudo para

conseguir o amor de Desdemona.

--Então, mãos á obra--respondeu o alferes levantando-se e apertando a

mão do companheiro.--N'este mesmo sitio estás perfeitamente para fazeres

quanto te indiquei, porque Cassio sahirá por aquella porta--apontou,

indicando uma que havia a poucos metros de distancia.--Espera-o aqui,

executa fielmente as minhas instruções, e não duvides de que o triumpho

será nosso.

E, acto continuo, o miseravel despediu-se do ingenuo Rodrigo e correu a

pôr em pratica o diabolico plano que concebera, não para ajudar o

companheiro nos seus amores, como promettera, mas para perder um

innocente a quem invejava, e supplantal-o no posto e no affecto de

Othello.

* * * * *

Duas horas depois, o sino de alarme tocava desabaladamente no quartel

situado junto da doca do porto, pondo em alvoroço toda a ilha, que

começava a entregar-se ao somno passada a agitação da festa, e obrigando

a saltar do leito, em sobresalto, o proprio Othello, que repousava

docemente entre os bellissimos braços de Desdemona.

CAPITULO IV

O traidor

A minuciosa exposição que Yago fizéra a Rodrigo do plano que tinha

in-mente, bastaria para que os nossos leitores tivessem noticia exacta

de quanto havia succedido durante as duas horas que passaram desde a

separação dos dois amigos até o momento em que o inesperado toque do

sino de alarme levou a inquietação e o desassocego a todos os habitantes

de Chypre, incluindo n'este numero o proprio Othello.

Mas, se, para maior clareza da narração é imprescindivel por um lado

conhecer a descripção pormenorisada do succedido e assim chegar ao

desenlace d'esta tragica historia sem uma solução de continuidade que

prejudicaria notavelmente a comprehensão dos factos; pelo outro, seria

impossivel, omittindo tal narração, seguir passo a passo as

interessantes e accidentadas peripecias do complicado drama cuja base

principal assenta na ambição e na inveja de uma alma perversa, nascida

para a infamia e para o crime.

Assim, sigamos Iago no momento em que, ao separar-se do primo de

Desdemona, entrou no quartel onde, á entrada, o estavam esperando para a

ceia o tenente Cassio e o nobre Montano, governador da ilha de Chypre e

representante da Republica Veneziana, na ausencia de Othello.

--Boa noite, prudente Cassio; saude e prosperidade, illustre Montano,

cumprimentou o alferes ao entrar, dirigindo-se aos companheiros e

superiores.

--Graças a Deus que vieste; julgavamos que tivesses esquecido que te

esperavamos! exclamou Cassio ao vêr entrar o amigo.

--Pelo que prevejo, interrompeu Montano esboçando um sorriso malicioso,

este bom Iago, apezar de ter uma esposa deveras formosa, não faz má cara

ás mulheres do proximo, especialmente quando são jovens lindas; e como

abundam em Chypre as que reunem estas duas qualidades, graças sejam

dadas ao Amôr e a Venus, certamente se atrazou, dando uma volta pelas

ruas da ilha, com o perverso proposito de render alguns corações mais do

seu gosto.

--Acertaria no alvo o vosso gracejo, se visasseis o nosso tenente, que

tem, na verdade, fama de irresistivel com as bellas, replicou Iago

esboçando um sorriso intencionado, de que só elle percebeu a

transcendencia. Quanto a mim detesto as saias, por instincto de

conservação, e não trocaria uma só garrafa de bom vinho de Chypre por

todas as mulheres casadas, viuvas ou solteiras, que vivem na ilha.

--Parece-me, Iago, observou Cassio affectuosamente, que acabas de fazer

duas affirmações duplamente exaggeradas: uma, aquella em que alludes á

minha boa estrella junto das bellas, que seja dito de passagem, só

existe na tua imaginação, pois confesso-te que, até agora, não tenho na

minha folha de serviços uma só conquista que valha referencia.

--Nunca é tarde quando a sorte nos sorri, replicou astutamente Iago.

«Ha quem assegure que estás a caminho de entrar por assalto n'uma praça

que mais de um nobre veneziano, teu compatriota, invejaria.

--Não te comprehendo, respondeu Cassio com estupefacção tão profunda

como sincera retratada no semblante.

--Saibamos, saibamos que praça é essa e veremos se é digna de disputal-a

o bello Cassio! exclamou alegremente Montano.

--Se elle guarda segredo, não sou eu que tenho o direito de desvendal-o,

disse hypocritamente o alferes.

--Guardo segredo porque não sei a que aventura te referes, respondeu

Cassio de boa fé. Explica-te, peço, porque conseguiste intrigar-me.

--Modestia, pura modestia, discreção levada até á mudez! disse rindo o

alferes. Cassio, felicito-te porque és um cavalleiro digno de ter vivido

nos bons tempos do rei Arthur. Mas, continuou, dando deliberadamente

outro rumo á intencional charada, cada vez me convenço mais de que o

mundo está cheio de paradoxos e nós proprios o somos.

--Porquê? perguntou Montano com estranheza.

--Nada mais simples, respondeu Iago. Vocês esperavam-me com impaciencia,

o que evidentemente accusa um apetite devorador; por minha parte tambem

declaro que não vinha menos resolvido a entender-me com uma boa ceia.

Pois bem, em vez de aproveitarmos o tempo predispondo o estomago com

meia duzia d'essas veneraveis garrafas que nos escutam, para entrarmos

depois heroicamente pelos manjares, estamol'o perdendo lastimosamente,

fallando de mulheres, isto é, do assumpto menos substancial e mais

perigoso que pode tratar-se entre cavalleiros.

--Indubitavelmente esta noute estás pouco amavel e galanteador para as

damas, valente Iago, respondeu Montano rindo.

--Nem mais nem menos do que n'outras occasiões e nem menos nem mais do

que o merecem, disse Iago.

E passando em revista meticulosa as garrafas poeirentas que se viam

sobre a mesa artisticamente posta, pegou n'uma de respeitavel

antiguidade, a julgar pelo aspecto e pela marca que ostentava na rolha,

abriu-a e encheu de riquissimo e perfumado vinho os copos dos

companheiros e o d'elle. Seguidamente e sem dizer palavra, bebeu-o de um

trago e fez estalar a lingua com a placida expressão de um bebedor

satisfeito.

Montano fez com o copo o mesmo que Iago fizera com o d'elle; mas o

tenente Cassio contentou-se com leval-o aos labios e humedecel-os

ligeiramente com o dourado nectar.

--Como! exclamou Iago apparentando indignação e assombro ao ver que o

seu amigo voltava a por sobre a mesa o copo tão cheio como o levantára.

Não bebes comnosco, ou não aprecias este vinho, herdeiro directo da

sagrada ambrosia com que Jupiter obsequiava de vez em quando os seus

amigos do Olympo? ignoras, por ventura, desgraçado, que o vinho de

Chypre foi consagrado pela historia, atravez dos seculos, até que

vencendo o seu rival Falerno, teve a honra de toldar com frequencia o

cerebro de Alexandre, de produzir as gloriosas alegrias de Alcibiades,

de servir de vehiculo para o veneno que matou Britanico e de inspirar os

versos de Nero e os pontapés que o imperial artista dava em Popêa para a

expulsar dos festins, quando o estorvava nos seus desabafos amorosos com

os mancebos romanos? Ignoravas isto, infeliz? Pois bem, é um peccado de

lesa ignorancia, indesculpavel n'um homem ponderado como tu; mas, apesar

de tudo, Montano e eu perdoamos-te com a melhor vontade do mundo, dado

que honres o historico vinho como nós o honramos.

--Nunca bebo! respondeu gravemente Cassio.

--Porquê? perguntou com curiosidade Montano. É talvez algum juramento?

--Não, respondeu o tenente; a minha repugnancia em beber obedece sómente

a que o vinho me ataca de tal modo a cabeça, que basta um copo para

transtornar-me por completo e fazer de mim um homem absolutamente

diverso de que sou no estado normal.

--Mas ceando, aventurou Iago, é outra coisa, e affirmo que não te

succederá mal algum. Além d'isso, proseguiu alegremente para animar o

companheiro, estás entre amigos e, se a bebedeira te der para dormir,

mandar-te-hemos deitar n'um fôfo e confortavel leito, ou então

rir-nos-hemos se te der para nos insultar.

--Um homem embriagado é um ente desprezivel, e por cousa alguma d'este

mundo consentiria em chegar a semelhante e lastimoso estado.

--Pois bem, disse deliberadamente Iago; ceêmos; de qualquer forma,

affirmo que saberei obrigar-te a brindar comnosco, dado o caso que o

nosso exemplo não te leve por motu proprio a provar o historico nectar.

Acto continuo serviram-se os primeiros pratos, e durante minutos apenas

se ouviu o ruido produzido pelos dentes ao triturarem os tenros ossos

das presas que devoraram.

Inesperadamente Iago levantou-se e enchendo os dois copos que ainda

estavam vasios, pegou no d'elle e brindou:

--Pelo feliz matrimonio do nosso general e para que nunca veja

perturbado com a mais ligeira nuvem o céu de seus amores com a bella

Desdemona.

E dirigindo-se a Cassio, accrescentou:

--Atreve-te a recusar este brinde, e asseguro-te que Othello nunca te

perdoará a descortezia, se um dia vier a sabel'a.

Cassio vacillou um segundo; mas, instado por Montano, que juntou os seus

rogos aos do alferes, pegou no copo e bebeu-o de um trago dizendo:

--Á saude do general, e pela eterna felicidade do seu matrimonio!

E em seguida cahiu na cadeira, sombrio e taciturno, como arrependido de

ter quebrado tão facilmente a resolução de permanecer sobrio.

Continuou a ceia, animada pela pittoresca conversação do alferes e pela

alegria natural e espontanea de Montano, e, passado algum tempo, o

primeiro voltou a erguer-se, encheu novamente os trez copos, e disse

levantando o seu:

--Brindemos pela gloria e prosperidade de Veneza e pelo triumpho das

suas armas sobre todos os inimigos!

Montano e elle emborcaram os copos d'um só trago; mas o tenente, sem

despejar o seu, disse em tom resoluto:

--D'esta vez não beberei, já lhes fiz a vontade, apezar de contrariado,

e por isso espero que não insistam mais.

--Prevês o que se dirá, replicou Iago, sem dar importancia ás palavras

do amigo, quando se souber, e saber-se-ha comcerteza, porque as paredes

teem ouvidos, que não quizeste brindar pela gloria de Veneza, depois de

ter brindado pela felicidade do homem que te protege? Pois toda a gente

affirmará, continuou, sem parecer notar o olhar colérico que lhe dirigia

o companheiro, que não passas d'um adulador egoista, que pretende afagar

os poderosos, para medrar á sombra d'elles, e que, como florentino

afinal, te importa pouco que a Republica triumphe ou seja derrotada

pelos seus inimigos.

Cassio cravou no miseravel um olhar ameaçador e apertando

convulsivamente os queixos um contra o outro, como para conter as

palavras que estavam prestes a escapar-lhe dos labios, pegou no copo e

bebeu nervosamente até á ultima gôtta.

Outra vez proseguiu a scena, e foi então Montano quem, excitado já pelas

libações, ainda que bastante senhor de si, encheu os tres copos e disse

apresentando o seu:

Othello(#28526) · 第 2 / 5 段