Produced by Pedro Saborano
OTHELLO
Editor e proprietario, F. A. de Miranda e Sousa.
Comp. e imp. na typ. da Empreza Lusitana Editora,
pertencente ao editor C. do Ferregial, 23--LISBOA.
G. DUBARRY
OTHELLO
_Trad. de D. Alda de Sousa_
LISBOA
EMPREZA LUSITANA EDITORA
Calçada do Ferregial, 83
DEPOSITARIO NO RIO DE JANEIRO
LIVRARIA EDITORA JACINTO SILVA
Rua Rodrigo Silva, 7
I
O rapto
Era a epoca mais feliz e florescente da aristocratica Republica de
Veneza. As esquadras disputavam vantajosamente aos turcos a supremacia
no Mediterraneo, e nas costas gregas, Rhodes e Chypre unidas ao feliz
povo da poderosa Senhoria, diziam eloquentemente ao ottomano que não era
nada facil arrancar a presa ao leão de S. Marcos, quando este a colhera
nos seus afilados dentes.
Vivia-se por então no tempo em que a espada não podia enferrujar dentro
da bainha, pois nos breves intervallos durante os quaes os exercitos não
luctavam de povoado em povoado, de nação em nação, os individuos, sem
distincções de cathegorias nem de classes, inventavam mil pretextos para
guerrearem entre si, receosos talvez de olvidarem no repouso o manejo
das armas.
Por causa d'isto e tambem com receio dos innumeraveis «_briganti_» e
roubadores de bolsas que, durante a noute, vagueavam pela poetica cidade
dos canaes, nem todos se atreviam a transitar por ella fóra de horas,
pois estavam certos de que nada bom encontrariam nas suas escuras e
mysteriosas ruas.
Eis porque causava certa extranheza ver a tranquilidade com que dois
cavalleiros, jovens e de elegante porte, se bem que tal elegancia fosse
mais notavel no que aparentava menos edade, conversavam passeando pela
solitaria praça de S. Marcos á uma hora da madrugada d'uma noute de
inverno.
Devemos ponderar que a tranquilidade, a que acabamos de alludir,
referia-se sómente ao facto dos cavalleiros não recearem dos perigos
nocturnos que os ameaçavam em tal sitio e a horas tão mortas da noute;
por outro lado, os dois homens pareciam dominados por viva agitação, a
julgar pela vehemencia dos gestos e pela animação com que sustentavam o
seguinte dialogo:
--Digo-te, meu caro Yago, que semelhante coisa é impossivel, dizia o
mais novo e de melhor apparencia dos dois interlocutores, tão impossivel
como o Adriatico poder devolver a sua Senhoria o Doge o annel que este
lhe deu no dia das suas nupcias.[1]
[1] Allude á cerimonia que celebravam os Doges no dia do seu
advento, e no qual simulavam casar com o Adriatico arrojando para o
mar uma preciosa joia, que era o annel de nupcias.
--Pois eu asseguro-te, nobre Rodrigo, replicou o mais velho dos
cavalleiros, que trajava á militar e ostentava a divisa de alferes, que
vi com os meus poprios olhos tua prima Desdemona, ha pouco mais de uma
hora, fugir de casa do pae, o senador Brabancio, e saltar para uma
gondola, onde a esperava esse maldito africano, que Deus confunda.
--Pois bem, os teus olhos trahiram-te, apresentando á tua fantasia como
real o que não era mais do que um sonho. Ah! as garrafas de vinho de
Chypre que bebeste esta noute, tiveram mais força do que a tua
resistencia de bebedor habituado ás libações, e puzeram-te completamente
borracho, respondeu de mau humor aquelle a quem o seu companheiro dava o
nome de Rodrigo.
--Dizem, e com razão, que de namorado a tonto não vae mais do que um
passo! exclamou o alferes Yago em tom desdenhoso.
--Porque dizes isso? porguntou com altivez Rodrigo. Tratas acaso, de
insultar-me?
--Deus me livre de tal coisa, respondeu Yago. Queres dizer-me o que
ganharia com isso?
--Seja pelo que fôr, o facto é que me chamaste tonto.
--Não, disse que estavas enamorado, e desafio a que o negues.
--Seria inutil, pois sabei-o tão bem como eu, confessou Rodrigo. Mas
deixemo-nos de discussões inuteis e vamos ao que importa. Se o que me
acabas de dizer não é uma infame mentira ou estupida fantasia de bebado;
se a minha prima Desdemona esqueceu a honra de sua familia, o respeito e
as cans de seu pae, toda a sua juventude de pudor e recato que a
tornavam a donzella mais pura de Veneza; se esqueceu tudo isto, repito,
para lançar-se nos braços d'esse mouro de rude linguagem e de rosto
enegrecido, como qualquer infame Messalina, preciso será crer de hoje
para sempre que a mulher, desde que nasce, é materia affeiçoada para o
vicio e o ser mais ignobil que existe sobre a terra.
--Enganas-te, nobre Rodrigo, e a tua paixão e ciumes fazem-te ver as
cousas, augmentadas até á exageração ridicula, replicou tranquilamente
Yago. A mulher, na realidade, não é boa nem má, pura ou impura, mas
simplesmente mulher e, como tal, joguete das circumstancias. A culpa do
que succede não a tem ella, mas sim o velho tonto do pae que, depois de
a ter encerrada como monja durante dezessete annos, deixou entrar em
casa Othello com a mais ampla liberdade, consentiu que visitasse tua
prima, conversasse com ella no mais absoluto isolamento, e, emfim,
cruzou tranquilamente os braços, emtanto que o lobo rondava
incessantemente em redor da ovelha.
--Mas, replicou Rodrigo irritado, quem poderia suppôr que uma joven tão
innocente e virginal como Desdemona, podesse chegar a enamorar-se de um
homem negro e feio como esse maldito mouro?
--Outro qualquer que não tivesse sido um velho imbecil como teu tio
Brabancio, ou um namorado cego como tu, teria suspeitado que esse mouro,
precisamente pelo que tem de extraordinario, poderia chegar a deslumbrar
e a seduzir a donzella, como realmente succedeu. Ignoras por ventura,
continuou Yago animando-se emquanto fallava, que ninguem conhece Othello
melhor do que eu, e que é este exactamente o motivo do odio mortal que
lhe tenho? Esse homem é feio, concordo; de rude linguagem e desabridas
maneiras, mas nasceu como o leão para dominar e vencer, onde quer que se
encontre; a alma d'elle é grande como o espaço e profunda como o abysmo;
o coração é de gigante, e n'elle os sentimentos humanos, com tudo quanto
ha de leal e de nobre, desenvolvem-se até assumirem proporções do sobre
natural; junta a isto uma vida romantica, cheia de peripecias
emocionantes e curiosissimas, sustentada á custa de uma lucta constante
com os homens, com as feras e até com os elementos; emfim, um homem de
sangue real, realeza moura, mas que vale tanto como outra qualquer, um
homem de sangue real, repito, que perde seus paes, é vendido como
escravo, foge atravez do deserto e, sem outras armas do que a coragem
pessoal, a força d'um hercules, se assenhoreia das selvas virgens, das
quaes desaloja os tigres e os leopardos: que depois se apresenta entre
os homens e pratica com elles o mesmo que com os temiveis moradores dos
bosques; que chega a Veneza quando a Republica está a ponto de tornar-se
provincia de Constantinopla, e, com o seu valor lendario e o seu talento
de general a salva, destroe os inimigos e devolve todo o brilhante
esplendor á vacilante Magestade. Pensa em tudo isto, repito, apresenta
tal homem prodigioso a uma rapariga de desessete annos, enamorada, como
todas, do maravilhoso poetico, do extraordinario, e á fé de cavalleiro
te juro, que a fealdade e a rudeza materiaes d'um mouro desapparecerão
ante os olhos da virgem innocente, para não lhe deixar ver mais do que o
lado poetico da varonil e sobrehumana figura do heroe, ante a qual
surgem empequenecidos até ao ridiculo, os peralvilhos loiros e
affemininados que tenha visto pisar até então as alcatifas dos seus
salões.
--A julgar pela discripção que acabas de fazer de Othelo, não parece
senão que estás tão enamorado d'elle como minha propria prima Desdemona,
ponderou sarcasticamente Rodrigo.
--Porquê? replicou Yago com maior sarcasmo. Porque o conheço e conservo
o senso commum necessario para poder apreciar no seu justo valor as
qualidades d'esse homem e dar conta exacta da influencia que taes
qualidades podem exercer no coração d'uma joven? Que disparate suppôr
que eu amo Othello! Pelo contrario, odeio-o com todas as forças da minha
alma e de boa vontade inventaria qualquer novo tormento para vel-o
morrer na mais horrorosa das agonias. Preferiu-me a esse florentino,
Miguel Cassio, a quem nomeou seu tenente, deixando que eu, com o
estupido pretexto de que ignoro a estrategia militar, continue sempre
alferes, o que é peor ainda. Fallando francamente, não tenho base firme
para fundar as minhas suspeitas, mas chegou-me a parecer que o maldito
mouro e minha mulher, Emilia, dormiram mais de uma vez no mesmo leito
que paguei para celebrar as bodas. Só esta suspeita faz com que sinta
todos os martyrios do inferno nas entranhas e deseje vingar-me de
Othello, de maneira que cause horror ao proprio Deus das vinganças. Por
isso te procurei esta noute, accrescentou o alferes fixando em Rodrigo
os olhos chammejantes. Estás apaixonado por tua prima Desdemona, e o
homem que eu odeio roubou-ta; pois bem, se me promettes fazer tudo
quanto te disser cegamente e sem discutir as minhas indicações,
garanto-te que Othello pagará o seu crime e Desdemona acabará por
arrojar-se nos teus braços sincera e profundamente arrependida do que
fez.
--Devéras? Não me enganas? esclamou Rodrigo louco de alegria.
Juro-o! respondeu Yago com um gesto de convicção; se me obedeceres em
tudo, antes de um mez Desdemona será tua.
--Que tenho a fazer para tanto? perguntou Rodrigo disposto aos maiores
sacrificios para conseguir o amôr da prima.
--Primeiro, disse Yago, que nunca perdia a presença de espirito, ganhar
o tempo que temos perdido discutindo aqui como dois tontos, ou como dois
homens despreoccupados, que não teem nada a fazer, quando cada minuto
que se perde é um seculo, difficil de recuperar.
E no relogio de S. Marcos soaram n'esse momento duas horas.
--Já duas horas! esclamou Yago, arrastando comsigo o amigo, emquanto
fallava. É bastante tarde e ainda precisamos de correr muito!
--Onde me conduzes? perguntou Rodrigo desconfiado, mas seguindo
docilmente o alferes.
--Ao palacio de teu tio, para communicar ao pobre velho a sua deshonra e
a fuga da filha, se é que elle ainda não deu por tal, como é provavel,
pois deve dormir a estas horas, ajuntou Yago.
--Mas vamos provocar um escandalo! replicou o primo de Desdemona, a
quem, como cavalleiro que era repugnava semelhante especie de delação.
--É isso precisamente o que nós necessitamos: um escandalo, disse Yago,
sem deixar de arrastar o amigo. Um escandalo que fira o orgulho e a
vaidade de um dos senhores mais poderosos de Veneza, e que obrigue o
Doge a castigar o culpado com todo o rigor que exigem a gravidade da
falta e as duras leis da Republica. Basta-me tanto para vêr satisfeito o
meu odio, continuou o miseravel com feroz sorriso, depois Othello será
destituido do seu posto de general e de todas as honras, como auctor de
um delicto que attentou contra a dignidade de um dos membros do Senado,
sem contar as penas corporaes que cahirão sobre elle e que serão
verdadeiramente terriveis, pois conheço bem a justiça veneziana e sei
que é inexoravel n'este ponto.
E, ao proferir taes palavras, Yago ria com um riso sedento de sangue.
Entretanto chegaram ao magnifico palacio do senador Branbancio e, depois
de baterem ruidosamente á grande porta de entrada, obrigaram a criada a
despertar o amo, que deixou o leito e recebeu os nocturnos visitantes
com a vontade que pode suppor-se.
Mas esta má vontade não tardou em converter-se em estupefacção levada
até á atonia, que por sua vez se transformou n'uma indignação que esteve
a pontos de o enlouquecer, quando o sobrinho o informou da fuga da joven
e virginal Desdemona, rapto que se negou obtinadamente a acreditar, a
começo, mas que em breve poude ver comprovado, depois de pessoalmente
percorrer todos os cantos do palacio com a mesma minuciosidade que
empregaria se, em vez de procurar uma mulher, se tratasse de um objecto
menos que imperceptivel.
Era que o infeliz velho tinha ante os olhos a realidade e recusava
admittil-a, ditoso ainda com a illusão de que tudo aquillo não era mais
do que um pesadelo horrivel, do qual não tardaria a despertar.
Assim, quando lhe foi impossivel duvidar e que teve de se render
fatalmente á evidencia, a sua dôr não conheceu limites e, no cumulo da
desesperação, amaldiçoou a filha e todas as mulheres chamando-lhes
encarnação viva de Lusbel, da qual tinham até a infernal formosura;
renegou o ceu e a terra e não deixou de lastimar-se e blasfemar até que,
vencido pelo peso da propria afflicção, sómente lhe ficaram energias
para lamentar com soluços convulsivos a immensa desgraça que acabava de
cahir-lhe na encanecida cabeça.
Passada a angustiosa crise, reanimou-se um pouco, e com as forças
voltou-lhe o orgulho e a altivez de patricio venesiano; a partir d'este
momento só pensou em vingar o ultrage recebido, para o que era preciso,
antes de mais nada, apoderar-se do autor da sua deshonra, do infame que
lhe roubara a filha.
Por conseguinte e sabendo por Yago que Othello se encontrava áquellas
horas nas margens do Adriatico, e não longe do porto, onde estava
ancorada a galera destinada a transportal-o nas suas expedições
guerreiras, reuniu a toda a pressa alguns soldados, e pondo-se
animosamente á frente da pequena escolta, ordenou a seu sobrinho e a
Yago que o guiassem até o sitio onde poderia encontrar o raptor de
Desdemona.
Rodrigo prestou-se de bom grado a acompanhal-o; mas o alferes, que tinha
razões sufficientes para recear que o mouro o visse em companhia dos que
iam perseguil-o, allegou tão plausiveis e logicos motivos, que o
vingativo e furioso pae consentiu em que marchasse deante de elles,
precedendo-os a boa distancia, para que quando a ameaçadora comitiva
chegasse onde estava Othello, elle se encontrasse já ao lado do chefe,
ao qual teria entretanto explicado satisfatoriamente a sua ausencia.
Assim fizeram, com effeito, adeantando-se Yago a passo largo, pelo
caminho mais curto e seguindo-o lentamente, Brabancio, Rodrigo e os
homens de armas que os acompanhavam.
Precisamente no momento em que Yago se apresentava ao general, recebia
este uma embaixada do Doge, que, apesar do adiantado da hora, estava
presidindo ao Conselho dos Dez convocado a toda a pressa para assumpto
de vital interesse da Republica e que exigia a presença immediata do
general ante o Conselho.
--Está bem, respondeu gravemente Othello aos emissarios do Doge que
acabavam de dar-lhe esta ordem. Já os sigo; para fallar verdade,
preferia aguardar o dia de amanhã para tratar negocios graves; pois
asseguro-lhes, senhores, que esta noute tenho mais coração do que
cabeça. Mas o Estado está acima de tudo e obedeço o sua senhoria.
Partamos.
--Alto ahi, perro traidor, ladrão de honras, corruptor de donzellas!
gritou uma voz colerica e cheia de ira, no momento em que o mouro e os
commissionados do Doge se punham a caminho.--Pára ou mato-te como o
miseravel que és! Que fizeste de minha filha? Vamos, responde, infame
Restitue-me Desdemona!
Ao encontrar-se cara a cara com Brabancio, que, como já terão advinhado
os leitores, era quem o increpava tão asperamente, o mouro ficou
preplexo por um instante e sem saber, realmente, que partido tomar, pois
era a primeira vez na sua vida que ouvia um homem insultal-o de tal
modo. Mas recuperando acto continuo o sangue frio, dominou a situação
com um simples esforço da poderosa vontade e respondeu brandamente ao
velho:
--Senhor, reprimi a vossa colera, que não tem razão de ser, pois nem eu
sou ladrão de honras, e menos ainda corruptor de donzellas. Vossa filha
seguiu-me esta noute voluntariamente, como está disposta a confessál-o,
e, apesar de ha tres horas ser minha mulher, permanece todavia tão pura
como os anjos do céu. Juro-o pela minha espada!
--Mentes como um cão! gritou fóra de si o velho. Minha filha não te
seguiria de boa vontade e ainda menos se prestaria a ser esposa de um
infame hereje como tu! Recorres a tão estupida desculpa para te livrares
de cahir nas minhas mãos. Mas enganas-te, miseravel! continuou irritado
Brabancio, avançando um passo mais para Othello, enganaste, se julgas
ser-te facil escapar á justiça e á minha vingança. Vês estes homens que
me acompanham? accrescentou voltando-se e apontando com o braço hirto
para os companheiros; pois bastará um signal meu para te arrancarem com
os seus punhaes a alma do corpo, se vacilas um só momento em me
seguires.
O africano contemplou fixamente, durante um segundo, o encolorizado pae
de Desdemona, e no bronzeado rosto deixou transluzir uma expressão terna
e compassiva; depois ergueu a poderosa cabeça com um gesto de leão e
lançou um olhar de supremo desprezo aos homens que acompanhavam
Brabancio.
Em seguida respondeu com voz meiga e socegada:
--São poucos, senhor, para obrigar Othello a que faça o que não quer,
emquanto estas duas mãos possam manejar uma espada ou estrangular um
homem, e ao pronunciar estas palavras, o mouro estendeu os atleticos
braços n'um tal gesto, que todos, até o proprio velho, retrocederam um
passo e soffreram uma especie de calafrio que lhes chegou até aos ossos;
são poucos, repito; seriam necessarios mais homens e, sobre tudo, homens
de tempera, differente d'esses que vos acompanham. Mas ha outras razões
mais poderosas, continuou o formidavel africano com a mesma brandura até
ali mantida, que vos impedirão agora de pôr mão sobre mim.
--Quaes? rugiu o velho cego pela ira. Julgas por ventura que te vaes
livrar com as tuas valentias?
--Não, respondeu friamente Othello; livro-me pelo menos agora, porque
assim é a vontade do Doge, que acaba de chamar-me para que compareça sem
a menor demora ante o Conselho dos Dez, o qual, presidido por elle, se
acha reunido n'este momento para tratar de assumpto de gravissimo
interesse para o Estado, e a respeito do qual, segundo parece,
necessitam conhecer a minha opinião. Agora bem; proseguiu dizendo o
mouro deliberadamente, ousarieis oppôr-vos á vontade do Doge e do
conselho, e tolher que se executassem as suas ordens, que, como sabeis,
são sagradas na Republica, expondo-vos, talvez a pôr em perigo a
segurança do Estado?
--Ceus! Fallarás verdade? exclamou Brabancio desesperado ao ver que a
presa estava prestes a escapar-lhe.
--Estes cavalleiros podem responder-te, affirmou o mouro, indicando os
commissionados do Doge, que permaneciam a poucos passos de distancia,
testemunhas mudas da acalorada scena.
--Assim é, nobre Brabancio, affirmou o que parecia ser o chefe do grupo.
Quanto acaba de dizer o general é absolutamente verdade.
O velho senador pareceu ficar um momento atordoado com o peso da
noticia.
Mas, de prompto, ergueu a cabeça, os olhos faiscaram-lhe com a viva
satisfação da vingança satisfeita, e perguntou ao chefe dos
commissionados:
--Disseste que o Doge está n'este momento presidindo ao Conselho dos
Dez?
--Assim o disse e assim é, nobre Brabancio; respondeu o interpelado.
--Pois bem, n'esse caso, continuou o pae de Desdemona, que melhor
accasião do que esta para exorál-o a que faça justiça? Por muito grave
que seja o assumpto que presentemente o occupa, não poderá sel-o tanto
que o impeça de ouvir a queixa de um senador da Republica, sobre tudo de
um senador da minha ascendencia, contra um bandido que o Estado abrigou
incautamente, no seu seio. Ides á presença do Doge, não é assim? Pois
bem, eu vou tambem e assim ganharei tempo, em vez de o perder, como
suppuz. Já vês, concluiu o raivoso velho dirigindo-se a Othello, que não
ha poder humano que te livre da minha vingança! Vamos ter com o Doge e
pedir-lhe justiça!
E todos formando um grupo compacto abandonaram as margens do Adriatico e
perderam-se lentamente nos solitários e tenebrosos labyrintos da poetica
cidade dos canaes.
II
Othello
Apezar da gravidadade das circumstancias, o Doge não poude conter uma
exclamação de surpreza ao ver entrar Brabancio na sala onde se celebrava
o conselho, acompanhando Othello, sem que para isso trouxesse ordem sua.
Lançou pois, um olhar colerico ao velho senador e perguntou severamente:
--Quem se atreve a desobedecer d'este modo á minha vontade e ás leis da
Republica, que prohibem a entrada na sala do Conselho a todo aquelle que
não tenha ordem expressa de comparecer ante mim?
--Eu, Senhoria--respondeu em tom firme, e attitude respeitosa o pae de
Desdemona.--Eu, que venho pedir-vos justiça para o irreparavel ultraje
que lançaram nas minhas cans e no meu nome de patriota.
--Tão urgente é o caso e tão imperioso e vehemente o teu desejo de ver
reparado o agravo que recebeste, para olvidando toda e qualquer
consideração, entrares n'este recinto sagrado para todos os cidadãos da
Republica?--replicou o Doge com enfado.
--A Vossa prudente e sabia rasão julgará por si mesma--disse Brabancio
sem se deixar intimidar pela attitude severa do Doge, attitude que se
reflectia nos dez membros do Conselho. E, acto continuo, indicando a
Othello que permanecia de pé a seu lado.--Este homem, que a Republica
acolheu em hora aziaga para todos, acabou de roubar-me a filha,
deshonrando-a, deshonrando-me tambem e lançando uma mancha indelevel
sobre toda a nobreza veneziana, sobre o nobre nome que me orgulho de
usar. Justiça, Senhoria, contra tamanho criminoso! justiça, se não
quereis que eu renegue a propria terra em que nasci!
--Tranquillisa-te, bom Brabancio--respondeu o Doge com benevolencia--se
é certa a accusação que acabas de fazer contra esse homem, contra esse
habil e heróico general que mais de uma vez tem dado provas da
generosidade do seu coração, salvando a Republica, eu te prometto, como
cavalleiro veneziano e como magistrado supremo do Estado, que justiça te
será feita! Bem disseste affirmando que o ultraje que recebeste recae
sobre todos os teus compatriotas. Mas sabes, prudente velho, que os
momentos actuaes são em extremo solemnes e as circumstancias
gravissimas? Os turcos dirigem-se contra ilha de Chypre, com uma
poderosa esquadra, e d'ella se apoderárão, facilmente se não realizarmos
um verdadeiro milagre de vontade e de força. Agora bem--proseguiu o
Doge, com convicção.--Sabes o que significa para Veneza a perda da ilha
de Chypre? Significa ver-se reduzida a Rodas no Archipelago; é a ruina
do seu commercio com a Grecia e com toda a parte oriental da Europa; é o
principio da decadencia do seu poder no Mediterraneo, e quando Genova,
Florença e o Pontificado saibam isto, cahirão sobre a orgulhosa soberana
do Adriatico como um bando de abutres sobre uma aguia ferida e enferma,
para repartir os seus restos e insultar a sua passada grandeza. Immensa
e justa é a tua dor, pobre velho, mas ante as calamidades que ameaçam a
Republica, tu, varão sabio e prudente, responde: que significa a
desgraça de um individuo, de uma familia, de uma dôr pessoal por grande
que seja, comparada com o soffrimento de um povo?
--Perdoe-me a Vossa Senhoria e o sabio Conselho, respondeu humildemente
o velho; ignorava as terriveis noticias que me acabaes de communicar e
cega-me a dôr e a soberba. Soffra eu e os meus mil vezes, dado que se
salve a Republica! Se a pessoa que a póde salvar é esse homem, terminou
indicando Othello, desde este momento retiro a minha accusação e
esperarei pacientemente, para lavar a mancha cahida sobre o meu nome,
que venham melhores tempos! Veneza e a Republica acima de tudo!
E, ao dizer estas palavras, o nobre velho pareceu verdadeiramente
transfigurado pelo generoso enthusiasmo que lhe trasbordava do coração,
enthusiasmo que se communicou instantaneamente a todos os circumstantes,
exceptuando Othello, que permaneceu sereno e frio como estatua de
bronze. Mas apenas acabou de fallar o pae de Desdemona, e antes que o
Doge tivesse tempo de responder-lhe, agradecendo a nobreza da sua
conducta, como pensava fazel-o, o mouro estendeu o braço direito, como
dando a entender que queria pedir a palavra, e ao ver que os membros do
Conselho inclinavam a cabeça, com um gesto de approvação, começou com
voz grave e pausada:
--O sabio e prudente Conselho, assim como a Senhoria que o preside, vão
perdoar-me expôr a minha opinião a respeito de tudo quanto succede, sem
que previamente me tenham auctorizado para tanto.
--Era o que pensava agora fazer, pois não foste chamado para outra
cousa, heroico Othello, disse o Doge com benevolencia; falla pois, com
liberdade absoluta.
--Primeiro que tudo, proseguiu o general, occupar-me-hei, como é de
justiça, do mais importante; quer dizer do que diz respeito ao Estado;
depois tratarei da accusação que este velho acaba de lançar contra mim.
Nada receiem! Serei breve, muito breve, porque pouco, na realidade,
tenho de dizer com respeito aos dois assumptos. Por outro lado não é
este o momento opportuno para dispensarmos palavras, mas sim de
praticarmos actos; além d'isto a minha linguagem é rude e desataviada de
galas.
«A Senhoria de Veneza e o sabio Conselho ignoram decerto que a unica
eloquencia de que posso orgulhar-me é a das acções.
--Precisamente aquella de que hoje necessita a Republica, observou o
Doge gravemente.
--Pois tel-a-ha, respondeu Othello com convicção absoluta. O que tenho a
dizer com relação aos turcos que buscam apoderar-se da ilha de Chypre,
reduz-se a isto: Montano, a quem deixei como governador na ilha, com
plenos poderes para que me substituisse durante curta ausencia, é um
militar valente como ha poucos e experimentado como nenhum; adora Chypre
como um filho adora a mãe, apesar de não ter nascido lá; dispõe de bons
elementos de combate e, por muito vigoroso que seja o ataque dos turcos,
saberá resistir durante alguns dias, os sufficientes para que, sahindo
eu esta mesma noute ou, para melhor dizer, esta manhã, de Veneza, tenha
tempo de surprehender os otomanos antes de que logrem pôr nas torres da
ilha o estandarte da meia lua.
--E crês, general, perguntou anciosamente o Doge, que dispões de
bastantes recursos para dominar e vencer o grande contingente de homens
de guerra e armamento naval com que, segundo noticias fidelissimas
recebidas, os turcos se aprestam para a lucta?
--Essas noticias exageram, ou mentem, replicou friamente Othello. O
sultão está gravemente empenhado nas guerras com Castella e com Papa, e
não pode dispor de grandes elementos de combate. Que Montano resista
sómente oito dias, que me sejam favoraveis os ventos, e respondo pela
minha cabeça, que a Republica conservará em seu poder Chypre e dará uma
nova e forte lição ao seu constante e teimoso inimigo, que o manterá na
reserva durante muito tempo. Othello, que nunca mentiu, jura-o pela sua
lealdade ao Estado.
E o altivo africano contemplou com tão fria serenidade os individuos do
Conselho, que estes sentiram que a confiança, uma confiança absoluta,
voltava a renascer-lhes nos corações.
--Assim pois, perguntou o Doge ao mouro, partirás hoje mesmo para
Chypre?
--Apenas o sol doire com os seus raios o extremo do mastro real do meu
navio, a quilha d'este rasgará as ondas orgulhosas do Adriatico em
direcção á ilha, respondeu Othello. Mas antes, Senhoria, ordena-me o
coração e a lealdade responder ás accusações d'este velho e deixar
terminado este assumpto. Peço-vos que não me negueis o favor de me
ouvirdes e de fallar agora mesmo na causa que vou submetter ao vosso
recto juizo, Senhoria; porque, apesar de tudo, poderia morrer na nova
empreza que vou emprehender e por cousa nenhuma do mundo quereria que
pezasse sobre o meu nome a affronta que Brabancio acaba de lançar sobre
elle com as suas palavras, ante o Conselho...
--Falla pois, Othello--disse o Doge, com deferencia;--mas, como ha pouco
disseste, procura ser breve, o mais breve que te seja possivel, porque
não ignoras que o tempo urge e os momentos perdidos são preciosos.
--A brevidade convem a todos--disse o africano;--porém mais a mim do que
a ninguem, porque d'ella depende o exito do meu plano de batalha e da
sorte da minha existencia. Não receieis pois, Senhoria, e escutem,
ouçam-me todos, com os corações de homens e toda a consciencia de
magistrados, porque é a minha honra, a minha vida e a minha felicidade
que jogo n'este momento.
Calou-se o mouro e, durante alguns instantes, pareceu como abstrahido em
meditação dolorosa; depois, erguendo a altiva e bronzeada fronte com o
gesto leonino que lhe era peculiar, olhou cara a cara para o Doge e para
os individuos do Conselho com olhos nos quaes se reflectia toda a
lealdade do seu grande caracter, e começou em voz grave e pausada, que
condizia perfeitamente com a soberba majestade da attitude:
Barbancio accusou-me ante vós, Senhoria, de que esta noute lhe raptei a
filha para deshonral-a e deshonral-o a elle e a toda a nobreza da
Republica.
--E assim é; atreve-te a negál-o! gritou fóra de si o velho senador, a
quem a recordação do rapto da filha despertara toda a colera que,
durante momentos, havia parecido abandonál-o.
--Nego-o, porque não é verdade--respondeu friamente Othello--Desdemona
deixou esta noute a casa de seu pae para seguir-me, para acompanhar seu
esposo, porque meia hora depois de ter pisado o tapete da minha gondola,
enlaçava-se com o meu o seu destino ante os altares.
--É mentira, uma infame mentira!--rugiu o velho--A minha filha não póde
ser a esposa de um cão hereje como tu!
--Tanto póde, que o é--affirmou categoricamente o mouro, sem perder nem
por um momento o sangue frio.--Além d'isso, não casou com um hereje,
pois creio no Deus dos christãos, porque é o Deus da mulher que adoro.
--Então é porque a enlouqueceste, porque a embruxaste com feiticerias e
artes magicas!--exclamou Brabancio no paroxismo da ira. D'outro modo, é
admissivel que uma donzella tão pura, tão formosa e delicada como
Desdemona, se enamorasse de um horrivel negro como tu?
D'esta vez as palavras do colerico velho feriram por certo alguma fibra
sensivel e devéras intima do coração de Othello, porque a côr bronzeada
do mouro branqueou durante um segundo, e o general, erguendo mais ainda
o alto e poderoso busto, murmurou com voz moderada, mas na qual, apesar
de tudo, se sentia vibrar um furacão de sentimentos ignorados.
--Sempre a mesma phrase! Um horrivel negro! Como se ha-de enamorar uma
virgem, bella e pura como Desdemona, de um horrivel monstro como
Othello! Ignoro, senhor--continuou o africano dirigindo-se d'esta vez ao
senador,--se as mulheres veem mais longe e mais profundo do que os
homens, mas para dita nossa e honra sua é preciso acreditar que sim, e
que a vossa filha viu a minha alma. A minha alma, ouvem, senhores? que é
a de um homem como vós, como a vossa, velho implacavel, como a de todos
os homens brancos emfim, e que ainda talvez valha mais do que a de
muitos d'esses, porque está firmemente temperada na desventura e na
lucta pela existencia.! Uma lucta horrivel, espantosa capaz de
aniquillar, o melhor coração de toda a nobreza veneziana á
qual--continuou com gesto de leão,--egualo, se não supero em raça,
porque se ella nasceu em berço doirado, o brilho de uma corôa real
illuminou meu nascimento. Sim, orgulhoso nobre; sou, quando menos, teu
egual, porque descendo de reis, e sou teu superior em valor moral,
porque estou purificado pela desgraça. Vencidos meus paes por um
inimigo, não tão poderoso, porem mais astuto e mais cobarde do que
elles, fui vendido com meus escravos, como um egual de taes miseraveis.
Sim, o leão foi comprado revolto e mettido entre uma jaula de cães; mas
a escravatura não se fez para os leões e eu fugi da minha jaula matando
os guardas e correndo para o deserto, que era o meu ambiente natural.
Ali lutei com as féras para disputar-lhes o alimento, e digo-te
sinceramente que ellas são mais leaes e mais nobres na luta do que a
maioria dos homens com quem tenho deparado antes e depois de vencel-as.
Mais tarde, farto da solidão, fui de povo em povo, de nação em nação, e
desde o estreito de Gibraltar até ao dos Dardanelos, reguei o caminho
com sangue de cobardes e lagrimas de corações agradecidos. Quando, por
ultimo, o Destino me trouxe para entre os vossos, a Republica tremia
como presa prestes a ser devorada pelo turco, pelo genovez, pelo
florentino, pelo romano, por todos os seus inimigos, emfim. E eu
firmei-a; derrotei aquelles que queriam a sua queda para a fazerem em
pedaços, dei estabilidade á Republica vacilante, e a minha mão
acostumada a apertar sem tremer a garganta dos tigres, cravou no ponto,
mais alto da Europa a bandeira de Veneza.
«Que sangue haverá, pois, na cidade de S. Marcos que possa
envergonhar-se de se misturar com o meu?
Calou-se o mouro por um momento, e por toda a salla pareceu vibrar a sua
potente voz. Othello continuou, sempre dirigindo-se a Brabancio:
--Tua filha sabia tudo isto, sim, sabia-o, porque eu proprio lh'o havia
contado; conhece a minha historia, leu em meus olhos e bebeu nas minhas
palavras a formidavel e sangrenta epopeia da minha vida; viu-me tal qual
sou, e não como me veem os outros, como tu me vês, cego pela ira, e, em
vez de achar em mim o monstro a que te referes, viu apenas o homem de
coração, que sabe triumphar do Destino e dos homens, e começou por
admirar-me, como um ser que valia mais do que todos os fatuos inuteis e
vadios que a rodeavam; para concluir, amou-me com o mesmo amor profundo
e infinito com que eu a amo. Este é todo o nosso crime, e por elle peço
que nos julguem--terminou dizendo, dirigindo-se ao Doge e aos membros do
Conselho.
--Tudo quanto disseste nada é mais do que palavras e só
palavras!--gritou Brabancio desesperado, pois temia que o prestigio que
rodeava Othello inclinasse em seu favor os que tinham de o julgar.--«Os
factos fallarão mais alto do que tudo quanto possas dizer em teu abono!
Minha filha! Confessa onde occultaste Desdemona! Minha filha que
compareça ante vós, senhores, e ella desmentirá essa ridicula novella
que acaba de contar-vos este homem, para disfarçar o indigno recurso de
que se valeu para desvairar o cerebro e annular a vontade de uma virgem
pura e innocente como a propria innocencia!
--É justo--assentiu o Doge, dirigindo-se a Othello.--a tua causa está
bem apresentada e melhor defendida por ti mesmo; mas para tratarmos
d'ella equitativamente, é necessario ouvir as duas partes. Diz, pois,
onde se encontra Desdemona, e nós a faremos comparecer sem perda de
tempo para deixar ultimado este assumpto. Porque urge aclarál-o até ao
fim; se és realmente, como julgamos, digno da confiança que em ti
deposita a Republica, ao enviar-te hoje de novo a defendel-a contra os
seus inimigos, ou se terá razão o senador em te accusar com a aspereza
com que acaba de fazel-o; em tal caso, as leis do estado, que podem
alcançar a minha propria senhoria, haviam de alcançar-te tambem, fatal e
necessariamente. Responde, general, onde está Desdemona?
--A dois passos d'aqui, e nada mais facil, para vós, de que mandal-a
comparecer aqui e ouvirdes de seus labios as palavras que hão-de
perder-me ou salvar-me, visto que daes mais valor ao testemunho de uma
mulher do que ao juramento de um homem--respondeu Othello n'um tom de
sentida amargura.
--Como!--exclamou o Doge tão surprehendido como todos os circumstantes,
e sem prestar attenção na maneira como o mouro pronunciára as ultimas
palavras.--Dizes que está aqui Desdemona?
--Sim--respondeu o general--disse.
--Suponho--replicou gravemente o Doge,--que não ignoras que o sitio em
que te encontras é o menos a proposito para gracejos?
--Não gracejo nunca--respondeu com certo desdém Othello--Quando me
dispuz a seguir os individuos que me enviaste, e depois de ter ouvido
Brabancio insultar-me e ameaçar-me com pedir-vos justiça contra mim este
mesma noute, considerei, como era logico, que necessitaria apresentar a
melhor e a unica testemunha de confiança que póde fallar em meu favor.
Por conseguinte, pedi ao meu tenente Cassio que fosse onde estava
Desdemona e lhe rogasse em meu nome que o acompanhasse aqui, dizendo-lhe
do que se tratava. Ora bem; como estou convencido de que Cassio terá
cumprido as minhas ordens, pois é fiel e amigo até á morte, e jámais
desobedeceu a quem serve, respondo como já disse, que bastará que que
mandeis chamar Desdemona para que esta compareça ante o Conselho.
Com effeito, apenas o Doge deu a um porteiro ordem de que mandasse
entrar na sala a filha do senador Brabancio, esta apareceu vestida de
branco, com o traje de noiva que talvez não tivesse tido tempo ainda de
tirar. Surgiu bellissima na sua pallidez, e serena e firme como estatua
de Diana.
Brabancio e todos os circumstantes, exceptuando Othello, soltaram uma
exclamação de surpreza e assombro, ao vel-a apparecer como visão
celestial, e o Doge disse-lhe com voz affectuosa:
--Approxima-te, preciosa Desdemona, e nada receis, porque a lei e o
cavalheirismo te protegem!
A joven aproximou-se com passo certo e firme da mesa do Conselho, sem
parecer fixar a attenção em Othello nem no proprio pae, e parando a
respeitosa distancia dos juizes, perguntou:
--Que deseja sua Senhoria de mim?
--Que respondas, sob juramento, ás perguntas que vou fazer-te, sem que o
medo ou o pezo, nem nenhuma outra consideração humana, te façam occultar
a verdade. Comprehendeste?
--Perfeitamente--respondeu com sangue frio Desdemona--Devo advertir-vos,
Senhoria, de que não tenho de que recear, e menos de que me envergonhar,
e que os meus labios jámais se mancharam com a mentira.
--Acredito e applaudo-te com toda a minha alma--disse o Doge com
benevolencia--Agora, responde: conheces esse homem que está a tua
direita?--e apontou, indicando Othello.
--Sim, Senhoria, conhece-o e amo-o, porque é meu esposo ante Deus e ante
os homens, ha tres horas; juro-o por Christo crucificado, assim como
juro que esta noute, por minha propria vontade e sem que ninguem me
compellisse nem sequer aconselhasse, abandonei a casa de meu pae para o
seguir.
--Mentira! gritou o velho senador desvairado pela colera--Essa mulher
está louca, completamente louca! Se assim não fosse, nunca se atreveria
a dizer, deante de mim, seu pae, semelhantes vergonhas.
--Não são vergonhas, pae e senhor meu--replicou respeitosa mas
firmemente a joven;--mas simples verdades: deixei a casa paterna para
seguir meu marido, como, ha muitos annos, tu abandonaste aquella que era
tua para seguir tua mulher.
--Maldita, maldita sejas, filha desalmada e sem coração! Aborreço-te e
amaldiçoo-te, e nunca mais tornarás a vêr teu pae! Juro-o pelos santos
Evangelhos e pela fidalguia da minha raça. Adeus para sempre, e que a
minha maldição te persiga por toda a parte!
E completamente transtornado pela desesperação e pela ira que o
suffocava, o implacavel velho abandonou, tremendo e cambaleando, a sala
do conselho.
--Não chores, preciosa Desdemona, disse o Doge affectuosamente á joven,
ao vel-a enxugar as lagrimas que lhe inundavam as faces nacaradas.--A
colera de teu pae, ainda que injusta até certo ponto, é no entanto
explicavel.
«Mas espero que tão depressa recobre a tranquilidade e o sangue frio,
reflectirá e conquistarás de novo todo o seu carinho. No entanto,
continuou dirigindo-se a Othello, devolvo-te a estima e a confiança que
sempre tive no teu valor e na tua bem provada lealdade. Damos, pois, por
terminado este enfadonho assumpto, e dispoe-te a emprehender viagem sem
perda de tempo.
--Viagem! exclamou Desdemona estupefacta. Como, Senhoria! Ides affastar
assim de mim, tão de repente, o meu esposo, deixando-me na solidão e no
abandono mais desconsoladores?
--Assim é necessario, linda Desdemona! respondeu o Doge n'um tom
compassivo. Crê que o lamento com toda a minha alma, mas exige-o a
salvação e a honra da Republica.
--E onde o mandaes? perguntou a triste desposada com a maior amargura.
--A Chypre, que está ameaçada pelos turcos, e onde faz falta a presença
do general mais habil e valente que tem o estado, disse o Doge.
--Pois bem, respondeu a joven n'um tom de resolução inquebrantavel--irei
tambem com elle a Chypre. Não diz o Apostolo que a mulher deve seguir o
marido? Pois eu opponho-me com toda a minha alma a separar-me d'aquelle
que a Providencia collocou no meu caminho.
--Mas, e os perigos a que te vaes expor, indo na sua companhia? observou
o Doge.
--Não me importam. Seguil-o-hia, embora soubesse que caminhava para a
morte, respondeu a corajosa joven.
O Doge consultou Othello com o olhar, e este sentindo-se tacitamente
apoiado pela poderosa Senhoria, atreveu-se a dizer:
--Realmente, não vejo inconveniente em que minha esposa me siga, visto
não receiar os perigos que vamos correr juntos. Por outro lado, a mulher
de um guerreiro deve ser animosa, e além d'isto a sua presença, longe de
diminuir ou quebrantar o meu valor ou os meus talentos militares,
multipolical-os-ha até o infinito. Por consequencia, se sua Senhoria e o
sabio e prudente Conselho não se oppõem a tal resolução, levarei minha
esposa comigo á ilha de Chypre, para onde partirei d'aqui a uma hora.
Mas, proseguiu, olhando para Desdemona, para poupar os riscos da viagem,
peço ao Conselho que me auctorize a levar comigo todos os officiaes que
me são dedicados e que estão acostumados a combater sob as minhas
ordens. De este modo, se morrer em qualquer recontro com os turcos
durante a expedição, sei que o meu tenente Cassio e o meu alferes Iago,
que são meus irmãos de armas, velarão por minha mulher, como faria sua
propria mãe.
Assim ficou combinado e, passada uma hora, Othello e Desdemona, com os
officiaes favoritos do general, embarcaram em direcção á ilha de Chypre.
O que todos ignoravam a bordo, exceptuando o alferes Iago, que nem o
confessou á propria mulher, Emilia, aia de Desdemona, era que, no mesmo
navio que albergava os dois felizes esposos, ia tambem o nobre Rodrigo,
sobrinho de Brabancio e primo de Desdemona, da qual estava loucamente
apaixonado, e a cuja posse não renunciava, apezar de Iago lhe haver dado
a noticia de que n'aquella madrugada se realisára o matrimonio da joven.
Mas o alferes de Othello, dotado do maior cynismo, constando que o seu
nobre amigo se desesperava, renunciando para sempre ao objecto da sua
paixão ao comtemplal-o nos braços de outro, riu-se d'elle e quasi o
obrigou a que o acompanhasse a Chypre, disfarçado de marinheiro,
promettendo-lhe que, se, como havia dito antes, não lhe desobedecesse em
coisa alguma, e muito menos lhe negasse o ouro que corrompe todas as
consciencias, arranjaria tudo de fórma a n'um prazo curto, que nunca
excederia um mez, a candida e innocente prima cahiria, louca de amor,
nos braços do apaixonado primo.
Mas, o que pretendia o mizeravel com tudo isto, era, sómente, enriquecer
á custa das joias e do dinheiro de que havia obrigado a prover o ingenuo
Rodrigo, e ter este como uma corda mais no arco, para quando chegasse o
momento de disparar a envenenada flecha destinada a despedaçar o coração
do homem generoso que o acolhera sob a sua protecção e lhe déra a sua
amizade e o seu carinho, bem longe de suppôr que abrigava no seio a
vibora, que depois havia de causar-lhe a morte com a mordedura venenosa.
Mas não nos adeantemos aos acontecimentos, e sigamos passo a passo o
curso da terrivel tragedia que chegou a immortalizar a perfidia de um
invejoso e os ciumes de um amante, cujo unico crime consistiu em ser
propenso ás paixões, e dispôr de tempera superior áquella em que está
forjada a vulgaridade dos homens.
III
Em Chypre
Duas outras galeras com um bom numero de soldados e infinidade de
apetrechos de guerra, acompanhavam a capitanea que levava a insignia de
Othello, e na qual este ia com Desdemona, os officiaes e o sobrinho de
Brabancio, disfarçado de marujo.
Com estes tres barcos, sómente, contava o general africano defrontar a
poderosa esquadra turca, no caso de dar-se um recontro mais do que
provavel, visto que os ottomanos, a avaliar pelas ultimas noticias
recebidas no momento do embarque, deviam já navegar nas aguas de Chypre.
Mas o heroismo e o talento militar de Othello suppriam tudo, e as
tripulações dos tres navios confiavam tão cegamente no chefe, que quasi
desejavam esse recontro em vez de o recear.
Não obstante, a situação aggravou-se ao terceiro dia de viagem, até
tornar-se desesperada, pois que furiosa tempestade fez sossobrar as duas
galeras que acompanhavam a capitanea, e taes destroços causou n'esta,
que, deixando-a raza como um pontão e pouco menos do que sem governo,
pois o leme soffreu tambem graves avarias e as obras mortas ficaram
feitas em pedaços, converteu-a em débil joguete das encrespadas e
gigantescas ondas, que a faziam dançar sobre as espumosas cristas como
fragil casca de nós.
Ninguem, no emtanto, perdeu a coragem durante aquelle calamitoso transe,
apezar de todos estarem firmemente convencidos de que soára para elles a
ultima hora. Era que o exemplo de coragem e sangue frio de Othello e
sobretudo de Desdemona, que não se apartou do esposo um só momento
durante o perigo, seguindo-o por toda a parte com o sorriso nos labios e
resolvida a morrer com elle, communicára-se a todos, e ninguem, ainda
que a sentisse, queria dar provas de fraqueza, alli onde uma mulher era
a primeira a fazer galla do mais extraordinario heroismo.
Mas, por ultimo, no dia seguinte, e depois da noite verdadeiramente
horrorosa aquietaram-se os elementos, o furacão diminuiu a furia e foi
pouco a pouco acalmando até converter-se em brisa suave e acariciadora.
O mar, que durante vinte horas mortaes parecera um Leviathan furioso,
transformou-se, por fim, em Iago tranquillo.
Os afortunados viajantes, salvos por verdadeiro milagre, não tardaram em
encontrar, junto da desmantelada embarcação, terriveis e numerosos
indicios dos destroços que havia causado em taes paragens a formidavel
tormenta.
Uma coisa, não obstante, feriu a viva imaginação de Othello. Extranhou
ver a excessiva abundancia de cadaveres, restos de navios feitos em
pedaços e destroços de toda a especie que fluctuavam sobre as ondas.
Chegou um momento em que a ideia d'esses despojos o atormentára de tal
modo, que teve necessidade de communical-a a alguem, pois queria a todo
o transe ouvir, a tal respeito, outra opinião.
Chamou por isto o tenente Cassio e o alferes Iago, e sentando-se com
elles na tolda do navio, disse-lhes, mostrando o mar, que cada vez
apparecia mais juncado de cadaveres:
--Que me dizeis d'isto? Certo deve ter succedido grande catastrophe,
pois de outro modo não se explica que haja tantas victimas e tantos
restos de navios destroçados. Que opinião é a vossa?
--Se fosse a esquadra turca?--atreveu-se a insinuar o tenente Cassio
olhando para o chefe, em cujos olhos surprehendeu um relampago de
alegria, ao ver que encontrava alguem, e nada menos do que um homem
ponderado, que pensava como elle.
--Neptuno foi tão propicio durante a vossa viagem, general, disse por
sua vez Iago com servil adulação, que não admiraria nada que levasse a
protecção que vos dispensou até ao extremo de livrar-vos sem combate dos
vossos inimigos.
--De qualquer maneira, respondeu Othello, sorrindo affavelmente ao
alferes, seja ou não a Providencia que nos auxiliou, é indubitavel que
não podemos queixar-nos da sorte, e que esta corôaria dignamente a sua
obra e, ao chegar a Chypre, encontrassemos comprovada a opinião do
tenente Cassio que, seja dito com franqueza, foi tambem a minha.
Não tiveram de esperar pela chegada a Chypre para saberem da destruição
da esquadra turca, de modo innegavel.
N'aquelle mesmo dia encontraram uma lancha tripulada por seis naufragos,
todos soldados otomanos, os quaes, depois de serem recolhidos no navio e
tratados com todos os cuidados e attenções que a sua lamentavel situação
exigia, agradecidos á generosidade que Othello usava para com elles, lhe
contaram minuciosamente todos os detalhes da espantosa catastrophe, na
qual desapparecera toda a esquadra, exceptuando duas embarcações que,
partidas e sem léme, acabaram por perder-se no horizonte á vista dos
naufragos, sem que pudessem dizer o que fôra d'ellas; mas a julgar pelo
deploravel estado em que as havia posto a tempestade, era mais do que
provavel que houvessem acabado por ser tambem tragadas pelo Oceano.
Julgue-se, pois, a impressão que tão faustas noticias fariam nos ditosos
viajantes, que viam desapparecer n'um minuto os perigos que ameaçavam a
Republica de Veneza, para elles mil vezes mais temiveis e angustiosos,
pois lhes tinham ameaçado até então a popria vida.