executar uma aproximação á esquerda da via Vitellia, quando os francezes
tentaram perturbar-lhe o trabalho. Immediatamente os majores Lanzi e
Panizi fizeram tomar armas aos trabalhadores, ao corpo da guarda, e com
uma incrivel temeridade lançavam-se sobre o parapeito da muralha
franceza. Foram acolhidos por um fogo terrivel. Pedro Lanzi poz-se á
frente de seus bolonezes; mas n'um instante teve a mesma sorte que o seu
companheiro, e cahiu ferido no braço e no peito. Entretanto os outros
conduzidos pelo official Meloni, conservavam ainda o terreno, impotentes
para proseguir o ataque, mas gritando com todas as suas forças: «Viva a
Italia!» e dando assim coragem a seus companheiros. O regimento da União
combateu n'este dia com um valor admiravel: para não perder tempo a
carregar, feriam ora com a bayoneta, ora com a coronha das espingardas.
Outros, como os Ajax e os Diomedes da _Iliada_, arrojavam pedras aos
seus adversarios.
A exasperação era tal que o capitão bolonez Vern, que tinha muitas
cruzes ao peito, e entre estas a da Legião de Honra ganha em Africa, em
pé sobre a barricada, batia com a palma da mão no peito e gritava:
—Aqui, aqui, atirae aqui sobre a cruz da Legião de Honra!
Uma balla o feriu na cabeça.
—Mais abaixo, gritava elle, mais abaixo, maldictos!
Segunda balla lhe acertou; levaram-n'o para fóra do combate. Volveu, e
depois foi morrer na Grecia.
Assisti do meu mirante a este combate. Ainda que pouco prodigo de
elogios—os que me conhecem me farão justiça—julguei dever fazer delle
uma descripção ao governo.
A 14 de maio, pela manhã, pelo menos assim o julgo,—escrevo sem
documentos á vista e posso enganar-me nas datas—almoçámos na villa
Spada, n'uma camara do terceiro andar, com Sacchi, Bueno e Corcelli;
estavamos todos em mangas de camisa; eu, um pouco taciturno, porque
acabava de condemnar á morte um dos nossos officiaes, um napolitano, que
tomado de terror na noite passada tinha abandonado o seu posto, quando
ouvimos passos apressados no corredor. Abriu-se a porta, e dou um grito:
era Annita que vinha juntar-se a mim, conduzida por Orrigoni.
Os meus companheiros reconhecendo minha mulher, vestiram os uniformes e
deixaram-nos.
—Sabeis em que ella se tem divertido vindo da via Corrici aqui, general?
perguntou-me Orrigoni.
—Não.
—A parar ao longo de S. Pedro in Montorio para ver a bateria franceza.
Olhae, vêde a poeira que nos cobre a ambos: é a que as ballas produziam
batendo sobre a muralha. E quando eu lhe dizia «Vinde, senhora, vinde! é
inutil fazermo-nos matar aqui!» respondia-me: «Como achaes, meu charo,
que os francezes arranjam as nossas egrejas?»
Chara Annita! apertei-a contra meu coração. Parecia-me que agora ia tudo
marchar á medida de meus desejos.
O meu bom anjo volvera a meu lado.
Tive pesar de não poder conceder a Annita o primeiro pedido que me fez,
e que era o perdão do official italiano; mas era preciso um exemplo. Não
podia recompensar Medici por sua admiravel conducta no Vascello, mas
devia dar punição ao fraco pela sua fraqueza. Foi fusilado.
XIX
A SURPRESA
A 13 de junho os francezes tinham começado um bombardeamento terrivel.
Sete baterias vomitando incessantemente fogo, batiam em brecha a face
direita do terceiro bastião da esquerda, a cortina e a face esquerda do
segundo bastião. As outras occupavam-se particularmente da villa Spada e
da villa Savorelli, que ameaçava a cada instante cahir-nos em cima, de
sorte que com grande pesar meu, vi-me a 20 forçado a transportar o meu
quartel general para o palacio Corsini.
Era impossivel que eu ahi ficasse: estava muito affastado das muralhas.
É verdade que julgava poder estar tranquillo.
Atacado por todos os lados, todos os dias Medici, que nós chamavamos o
infatigavel, repellia os ataques e conservava o Vascello e as suas
barracas.
Eu não saberei dizer em seu elogio, senão que não sei como elle poude
tanto.
A 20 de junho havia tres brechas praticaveis, apezar de tudo o que
Manara e eu haviamos feito para nos oppôr aos effeitos dos projectis.
Afóra isto fazia do assalto um divertimento. Os adversarios que tinhamos
em frente eram dignos de nós. Já lhes haviamos mostrado que os italianos
sabiam bater-se. Esperava ainda mostrar-lhes o que era uma lucta á faca
e ao punhal.
Na noite de 21 o segundo batalhão da União estava de guarda ao bastião
da esquerda e á defensa da brecha, assim como duas companhias do 1.°
regimento, que deviam ser trocadas. Entretanto prolongaram o seu serviço
até ao amanhecer, para melhor defensa do terceiro bastião á esquerda.
A primeira e a quinta companhia dos bersaglieri estavam ao serviço no
Vascello; a sexta e a setima, de guarda aos approches da esquerda, fóra
da porta São-Pancracio, de onde se estendiam nossas sentinellas, sobre a
direita, até aos muros do casino e a poucos passos da parallela
franceza.
Este serviço era horrivelmente perigoso. Apenas se fazia de noite, e um
pouco antes de amanhecer, todos os postos eram retirados e a guarda de
noite reentrava nos muros.
O major Calvandro tinha a vigilancia exterior d'esta linha; o coronel
Rossi o serviço de ronda interior.
Depois de ter disposto todos os postos avançados, o major estava
occupado a dar suas instrucções aos capitães Stambio e Morandoli quando
pelas onze horas da noite, se ouviu para o lado dos bastiões n.{os} 2 e
3 um certo ruido egual ao de cousa que se quebra.
Alguns tiros seguiram este ruido, e tudo reentrou na noite e no
silencio.
Que acontecêra?
Que os francezes se haviam apresentado repentinamente ante a brecha, não
como um inimigo que sobe ao assalto, mas como soldados que despertam uma
sentinella.
De onde sahiram elles? por onde tinham vindo? que caminho haviam
seguido? Eis o que foi sempre impossivel saber-se.
Muitos suppozeram uma traição.
A sentinella interrogada respondeu que os francezes tinham sahido
debaixo da terra, e lhe tinham ordenado de fugir.
Na mesma noite, apezar de uma energica resistencia, o bastião n° 7 e a
cortina que o unia ao bastião n° 6 cahiu depois de um combate
sangrento, nas mãos dos francezes.
Era justamente no dia precedente que eu havia transportado o meu quartel
general da villa Savorelli ao palacio Corsini. Quasi immediatamente ao
successo fui d'elle prevenido pelo ajudante Delai, do regimento da
União.
Confesso que foi grande a minha surpreza, e que não fui dos ultimos a
attribuir o facto a uma traição.
Seguido de Manara e do capitão Hoffstetter, cheguei aos postos
justamente no momento em que os bersaglieri, sempre promptos e álerta,
estavam reunidos na rua que conduz a São-Pancracio.
A legião italiana, seguiu-me a marche-marche; e logo atraz vinham duas
cohortes do coronel Sacchi.
Este enviou logo uma companhia a reconhecer os logares; chegada ao
segundo bastião foi constrangida a retirar-se para a casa Gallicelli,
visto o numero excessivo dos francezes.
A terrivel nova já estava espalhada pela cidade; e o triumvirato
prevenido d'ella fez tocar a rebate. A este ruido cada casa pareceu
repellir seus habitantes; n'um instante encheram-se as ruas de gente.
O general em chefe Roselli, o ministro da guerra, todo o estado maior e
Marini correram ao Janiculo.
O povo em armas rodeiava-nos e pedia para repellir os francezes das
muralhas.
O general Roselli e o ministro da guerra eram d'este parecer; mas eu
declarei-me contra.
Temia a confusão que poria nas minhas linhas esta multidão, a
irregularidade dos movimentos, os panicos nocturnos tão naturaes em
gente não habituada ao fogo, e mesmo entre os já habituados, como vimos
na noite de 10.
Pedi pois positivamente que se esperasse a manhã.
De manhã vêr-se-hia a que inimigo era mister fazer face, fosse elle á
traição.
Vindo o dia, toda a minha divisão estava prompta, reforçada pelos
regimentos que o general Roselli poz á minha disposição.
A companhia dos estudantes lombardos que faziam parte da legião Medici
estava na vanguarda.
A propria legião Medici recebêra ordem de se juntar a nós.
Os canhões das nossas baterias voltados para os bastiões occupados,
ribombavam ao mesmo tempo de São Pedro in Montorio, do bastião n° 8 e
de Santo Aleixo.
Os estudantes lombardos marcharam na frente ao assalto. Ainda que
fulminados pelo fogo dos francezes, precipitaram-se á bayoneta sobre a
guarda principal e sobre os trabalhadores, que forçaram a concentrar-se
no casino Barberini.
Os bravos mancebos estavam já no terrapleno do casino; mas eu acabava de
saber com que forças tinhamos a combater. Vi que um segundo 3 de junho
ia roubar-me metade d'estes homens que eu amava como filhos. Não tinha
esperança alguma de affastar os francezes da sua posição; ia portanto
ordenar uma carnificina inutil.
Roma estava perdida, mas era perdida depois de uma defensa esplendida e
maravilhosa. A queda de Roma depois de um cerco tal era o triumpho da
democracia na Europa.
Depois restava-me a idéa de que eu conservava quatro ou cinco mil
defensores dedicados que me conheciam, que eu conhecia e que
corresponderiam á minha primeira chamada.[3]
[3] A campanha de 1859 e a expedição da Sicilia provam que
Garibaldi tinha razão.
Dei a ordem de retirada, promettendo para as cinco horas da tarde um
outro assalto, que não contava dar se não como o primeiro.
Os estudantes haviam sido admiraveis. Citarei apenas um exemplo.
Um pintor, o milanez Juduno, foi retirado da arena ferido por vinte e
sete bayonetadas.
Bertani salvou-o, e hoje gosa uma saude admiravel.
Para mim, pois, tudo estava perdido, pelo menos provisoriamente, não
desde o momento em que os francezes estavam senhores das nossas brechas,
mas desde o instante em que o partido que sustentava a republica romana
na constituinte franceza fôra vencido.
Suppondo que sacrificando um milhar de bravos, eu tinha repellido os
francezes das suas posições das villas Corsini e Valentina; como no 3 de
junho elles teriam retomado, á força de tropas frescas, todas as
posições d'onde eu os repellia.
E aqui não tinha eu as mesmas razões de me obstinar.
A villa Corsini em nosso poder impedia os trabalhos de approche.
Mas uma vez executados os trabalhos de approche, uma vez abertas as
brechas, quem podia impedir a tomada de Roma?
Ninguem.
Antes da noticia da fuga de Ledru-Rollin e de seus amigos para
Inglaterra, cada dia em que eu prolongava a existencia de Roma era um
dia de esperança.
Depois d'esta nova, a resistencia era uma desesperação inutil.
Ora, eu julguei que os romanos tinham feito muitos prodigios em face do
mundo para não ter necessidade de recorrer á desesperação.
Os poderes coalligados tinham encerrado a republica romana, isto é a
democracia da Peninsula nas velhas muralhas d'Aurelio.
Nada mais tinhamos a fazer do que romper o circulo e levar, como
Scipião, a guerra a Carthago.
A nossa Carthago era Napoles.
É ali que nos encontraremos um dia face a face, espero-o, o despotismo e
eu.
Deus approxime este dia.
XX
FIM
Estavamos, é verdade surprehendidos, mas não vencidos.
A duzentos passos atraz das muralhas eleva-se o antigo recinto do
Aurelio. Ordenei que o fortificassem o melhor possivel. Tinha posto de
parte a idéa de um assalto, mas queria defender o terreno passo a passo.
Uma bateria de sete peças foi collocada no bastião n° 5, e posta, por
nossos trabalhos, a cuberto do fogo dos francezes.
Começou a funccionar na manhã de 23, e secundada pela bateria de
Santo-Aleixo e a de São Pedro in Montorio, cruzou de tal fórma seus
fogos sobre a brecha que os francezes foram obrigados a abandonar os
seus trabalhos. O fim da engenharia franceza era estabelecer sobre a
cortina 6 e 7 uma bateria de canhões, apenas estivesse senhor da brecha.
O designio era impedir este estabelecimento.
Cobri os incriveis exforços dos francezes e a nossa opposição obstinada.
Na noite de 23 estabeleceram elles a sua bateria. Na manhã de 24
esmagados pela nossa artilharia foram obrigados a fechar as suas
setteiras. Pensaram então em elevar duas novas baterias sobre os
bastiões 6 e 7, d'onde podiam extinguir a bateria de S. Pedro in
Montorio defendida pela minha legião.
Esperando, o general Oudinot, para mostrar, como o havia dito em seus
boletins o culto que tributava á cidade, mormente desde 24, fazia lançar
bombas sobre todos os bairros. Era sobre tudo durante a noite que elle
empregava este meio de terror. Muitas cahiram no bairro Transteverino,
muitas no Capitolio, algumas sobre o Quirinal, sobre a praça de
Hespanha, e no Corso. Uma d'estas bombas cahiu sobre o templo que cobre
o Hercules de Canova; mas a cupola resistiu. Uma outra estalou no
palacio Spada, e damnificou a famosa pintura da _Aurora_ de Guido Reni.
Uma outra, mais impia ainda quebrou o capitel d'uma columna do
maravilhoso templosinho da fortuna viril, obra prima respeitada pelos
seculos.
O triumvirato offereceu ás familias populares, cujas casas se achavam
destruidas, um asylo no palacio Corsini.
O animo do povo romano n'estes dias de provação foi digno dos antigos
tempos. Em quanto que á noite perseguido pela saraiva dos projectís que
despedaçava os telhados de suas casas, as mães fugiam levando seus
filhos apertados contra o peito, em quanto que os ares atroavam de
gritos e lamentações, nem uma só voz fallava em se render.
No meio de todos estes alaridos um só grito mofador se elevava quando
alguma balla de artilharia ou algum obuz destruia uma parede de casa, e
era:
—Benção do Papa!
A certesa maravilhosa das nossas peças durante os dias 25, 26 e 27 de
junho, fez callar as baterias elevadas pelos francezes sobre a cortina e
os bastiões occupados. Mas duas baterias francezas, uma collocada no
bastião n° 6 e outra fóra dos muros, abriram o fogo contra as nossas
baterias de Santo Aleixo. Além d'isto duas outras baterias collocadas,
uma sobre a cortina, outra sobre o bastião n° 7, abriram tambem fogo
contra a nossa bateria de São Pedro in Montorio.
Uma quinta bateria de brecha, collocada ao pé do bastião n° 7, e por
consequencia a coberto do nosso fogo, descarregou sobre o flanco do
bastião n° 8. Uma sexta bateria posta entre a egreja de São-Pancracio,
batia o bastião n° 8, e o meu quartel general, na villa Savorelli. Uma
setima, emfim, ante a villa Corsini, ribombou ao mesmo tempo contra a
porta São-Pancracio, contra a villa Savorelli, e contra a muralha
Aureliana.
Nunca vi egual tempestade de fogo, egual chuva de metralha.
Os nossos pobres canhões estavam soffucados.
E todavia, digo apenas isto em elogio de Medici, o Vascello e as
barracas estavam ainda occupadas.
O cerco do Vascello só por si merecia uma historia.
Durante a tarde de 28, as baterias francezas pareceram descançar um
instante e retomar alento. Mas no dia 29 de novo começaram a atirar com
redobrada furia.
Roma estava cheia de feridos. O dia 27 de abril tinha sido terrivel, as
nossas perdas eram quasi eguaes ás de 3 de junho. As ruas estavam
juncadas de homens mutilados. Mal os trabalhadores tinham a pá ou a
enxada na mão, logo eram feitos pedaços ou mutilados pelas ballas.
Todos os nossos artilheiros, reparae bem, todos, haviam sido mortos
sobre seus canhões. O serviço da artilharia era feito pelos soldados de
linha.
Toda a guarda nacional estava em armas. Havia, cousa admiravel, uma
reserva composta de feridos, que todos ensanguentados faziam serviço. E
durante este tempo, notavel contraste, silenciosa e impassivel a
Assembléa, permanecia no Capitolio deliberando debaixo das ballas de
fuzilaria e artilharia.
Em quanto tivemos peças sobre seus eixos, respondemos ao inimigo.
Mas a 29 á noite foi desmontada a ultima.
Extinguiu-se o nosso fogo.
A brecha feita no bastião era praticavel.
O muro da porta São-Pancracio e o bastião n.° 9 desmoronavam-se.
A noite de 29 desceu egual a um lençol sobre Roma.
Para impedir a reparação das nossas brechas a artilharia franceza
ribombou de noute:
Foi uma noite horrivel. A tempestade do ceu misturava-se á da terra. O
trovão troava; o raio cruzava-se com as bombas, o raio cahia em tres ou
quatro partes como para sagrar a cidade.
Apesar da festa de São-Pedro, os dois exercitos haviam continuado o seu
duelo de morte.
Vindo a noite como se esperava um ataque nas trevas, toda a cidade
inclusivè a grande cupula do Vaticano, foi illuminada.
E demais a mais era de uso em Roma, fazel-o na noite de São Pedro.
Aquelle que durante esta noite houvesse fixado a vista sobre a cidade
eterna teria visto um d'estes espectaculos que o homem não contempla
senão uma vez no decurso dos seculos.
A seus pés teria visto estender-se um grande valle cheio de egrejas e
palacios, dividido em dois pelas aguas do Tibre, que parecia um
Phlégéton; á esquerda um monte, o Capitolio, sobre cuja torre fluctuava
ao vento a bandeira da republica; á direita o transumpto sombrio do
Monte Mario, onde fluctuavam ao contrario unidas as bandeiras dos
francezes e do papa, ao fundo a cupola de Miguel-Angelo, alevantando-se
no meio das nuvens toda coroada de luz; emfim, como painel ao quadro, o
Janiculo em toda a linha de São-Pancracio, tambem illuminada, mas pelo
fusilar dos canhões e dos mosquetes.
Depois ao lado d'isto alguma coisa mais que o choque da materia: a lucta
do bom e do mau principe, do Senhor e de Satanaz, d'Arimano e de
Oromaze; a lucta da soberania do povo contra o direito divino, da
liberdade contra o despotismo, da religião de Christo contra a religião
dos papas.
Á meia noute o ceu se aclarou, o trovão e os canhões se calaram, e o
silencio succedeu ao infernal mugido;—silencio durante o qual os
francezes se approximavam cada vez mais das muralhas, e se apoderavam da
ultima brecha feita no bastião n.° 8.
Ás duas horas da manhã, ouviram-se tres tiros de peça disparados a
distancia.
As sentinellas gritaram—alarma,—os clarins tangeram.
Os bersaglieri sempre promptos sempre infatigaveis, sahiram da villa
Spada e correram á porta São-Pancracio, deixando duas companhias de
reserva para guardar a villa. Embebiam-se até aos joelhos na terra
lodosa.
Puz-me á sua frente, com a espada desembainhada, cantando o hymno
popular da Italia.
N'este momento, confesso-o, completamente desesperado do futuro, não
tinha senão um desejo—o de me fazer matar.
Lancei-me sobre os francezes.
Que se passava então? Não o sei.[4] Durante duas horas feri, sem
descançar. Quando raiou o dia estava coberto de sangue. Não tinha uma só
ferida. Era um milagre.
[4] Eis aqui como o historiador Vecchi, um dos mais corajosos
defensores de Roma descreve este combate:
«Nós estavamos cerrados na villa Spada, onde sustentavamos um
horrivel fogo de mosquetes e carabinas: Começavam a faltar-nos
as munições, quando o general Garibaldi appareceu com uma
columna de legionarios e alguns soldados do 6.° regimento de
linha, commandados por Pazi, decidido a dar um ultimo golpe,
não para salvação, mas para honra de Roma. Reunidos aos nossos
companheiros, lançamo-nos sobre a brecha, ferindo com lanças,
espadas e bayonetas: a polvora e as ballas faltavam. Os francezes
espantados d'este terrivel choque recuaram logo; mas outros
vieram, ao mesmo tempo que a artilheria apontada sobre nós
começava a levar-nos filas inteiras. O recinto Aureliano foi
tomado e retomado; não havia ahi nem logar onde pousar o pé a não
ser sobre algum morto ou ferido. Garibaldi, durante esta noite,
foi maior do que eu nunca o vira, maior que nunca ninguem o vio.
Sua espada era um raio; cada homem ferido era um morto. O sangue
de um novo adversario lavava o sangue do que acava de cair.
Tel-o-hiam chamado Leonidas nas Termophylas, Ferracio no castello
da Gavissana. Eu tremia de o ver cair de um a outro instante; mas
não; ficou de pé como o destino.»
É n'esta batalha, que o tenente Moronini, pobre moço que ainda não tinha
vinte annos e que se batteu como um heroe, foi morto recusando
render-se.
No meio da sanguinolenta confusão, chegou-me um mensageiro da Assembléa
convidando-me a voltar ao Capitolio.
Devo a vida a esta ordem. Havia de ter feito com que me matassem.
Descendo pela Longara com Vecchi, que era membro da Constituinte, soube
que o meu pobre negro Aguyar acabava de ser morto.
Tinha-me prompto um cavallo de retorno, e uma balla lhe atravessára a
cabeça. Soffri uma dor terrivel; perdia mais que um servidor, perdia um
amigo.
Mazzini tinha ja annunciado á Assembléa o ponto em que estavamos.
Havia só tres partidos a tomar, dissera elle:
Convencionar com os francezes;
Defender a cidade de barricada em barricada;
Ou sair da cidade, Assembléa, triumvirato e exercito, levando comsigo o
palladio da liberdade romana.
Quando appareci á porta da salla, todos os deputados se levantaram e
applaudiram.
Eu procurava ao redor de mim que coisa deveria despertar seu enthusiasmo
a este ponto.
Achava-me coberto de sangue, meus fatos crivados de ballas e
bayonetadas. O meu sabre, mocegado á força de golpes, não entrava senão
até ao meio na bainha.
Gritaram-me:
—Á tribuna! á tribuna!
Subi.
De todos os lados era interrogado.
—Toda a defensa é d'oravante impossivel, respondi, a menos que não
façamos de Roma uma segunda Saragoça. A 9 de fevereiro propuz uma
dictadura militar; só ella podia pôr sobre pé cem mil homens armados.
Então existiam os elementos vivazes: era mister procural-os, ter-se-hiam
encontrado n'um homem corajoso. N'esta épocha a audacia foi repellida,
os pequenos meios levaram-na.
Eu não podia avançar mais o argumento. Cedi. Retinha-me a modestia;
porque, sinto-o, eu teria sido esse homem. Curvei-me n'isto ao principio
sagrado que é o idolo do meu coração. Se me houvessem escutado, a aguia
romana teria de novo feito seu ninho sobre as torres do Capitolio, e com
os meus bravos, e os meus bravos sabem morrer, bem o teem visto, eu
teria mudado a face da Italia. Olhemos com a fronte erguida o incendio
que já não podemos dominar. Saiâmos de Roma com todos os voluntarios
armados que quizerem seguir-nos. Onde nós estivermos, estará Roma. Eu
não me comprometto a cousa alguma; mas o que um homem pode fazer,
fal-o-hei, e refugiada em nós a patria não morrerá.
Esta proposta, já feita por Mazzini foi regeitada.
Henrique Cernuschi, o bravo Cernuschi, um dos heroes dos cinco dias
milanezes, o presidente da commissão das barricadas romanas, regeitou-a.
Succedeu-me na tribuna e com as lagrimas nos olhos e a voz abafada.
—Sabeis todos, disse elle, se eu sou um ardente defensor da patria e do
povo; pois bem, sou eu que vol-o digo, não temos um só obstaculo a oppor
aos francezes, e Roma e o seu bom povo—as lagrimas o abafavam—devem
resignar-se á occupação.
Depois d'uma curta deliberação a Assembléa lavrou o decreto seguinte:
«Republica romana.
Em nome de Deos e do povo.
A Assembléa constituinte romana cessa uma defeza impossivel.
Fica no seu posto.
O triumvirato é encarregado da execução do presente decreto.»
XXI
QUEM ME AMA SEGUE-ME
A 2 de julho reuni as tropas na praça do Vaticano, e caminhei ao centro
d'ellas. Annunciei-lhes que deixava Roma, para levar ás provincias a
revolta contra os austriacos, contra o rei de Napoles, e contra Pio IX.
E ajuntei:
—Quem quizer seguir-me, será recebido entre os meus; a esses não peço
senão um coração cheio de amor da patria. Não terão soldo nem repouso;
terão pão e agua quando o acaso lh'os der. Quem não está contente com
esta sorte fique. Uma vez abertas as portas de Roma, todo o passo dado á
retaguarda será um passo de morte.
Quatro mil infantes e quinhentos cavalleiros se juntaram ao redor de
mim; eram dois terços dos defensores que restavam a Roma.
Annita vestida de homem, Ciceravecchio que não queria ver a indignidade
do seu paiz, e Ugo Bassi, o santo que aspirava ao martyrio, foram dos
primeiros a acercar-se.
Pela noite sahimos de Roma, pelo caminho do Tivoli. O meu coração estava
triste como a morte.
A ultima noticia que havia recebido era a da morte de Manara...
G. G.
⁂
Aqui interrompem-se as memorias de Garibaldi.
Um dia obterei d'elle a segunda parte da sua vida como obtive a
primeira. Aquella resumir-se-ha em duas palavras:
Exilio e triumphos.
A. DUMAS.
Seguem alguns pormenores ácerca dos mortos, que o doutor Bertoni se
dignou redigir para mim.
XXII
OS MORTOS
LUCANO MANARA
A 30 de junho ás 2 horas da manhã começou como se viu nas memorias do
general, o ataque do recinto Aureliano, nossa segunda linha de defensa.
Manara pelas 3 horas da manhã reentrou na villa Spada; acabava de
collocar os seus atiradores.
Na vespera uma balla de peça depois de haver batido na muralha cahira
sobre seu leito.
Elle se tinha desviado para lhe dar logar, e rindo, dissera:
—Vereis que não terei a sorte de apanhar uma arranhadura.
Entrando achou Emilio Dandolo muito inquieto por causa de Morosini que
diziam prisioneiro.