quarenta mil homens, fazendo rodar trinta e seis bocas de fogo de sitio,
consegue fazer os seus preparativos de ataque, a tomada de uma cidade é
mera questão de tempo.
N'um ou outro dia ella cahirá; a esperança unica que lhe resta é de
cahir gloriosamente.
Estabeleci na mesma noite o meu quartel general no casino Savorelli, que
elevando-se acima das fortalezas, domina a porta de São-Pancracio e
deixa vêr tudo o que se passa no Vascello, na villa Corsini, e na villa
Valentini.
É verdade que eu estava a meio tiro de espingarda dos atiradores
francezes. Mas quem se não aventurou nem perdeu nem ganhou.
Encarreguei um bravo carreteiro de me procurar trabalhadores e de se
occupar de todas as pequenas doçuras de que os meus podiam ter
necessidade durante a fadiga, copos de vinho e gotas de aguardente, etc.
Era um bravo patriota que mais tarde pagou caro o seu patriotismo;
Ciceravacchio era o seu sobrenome, seu nome, Angelo Brunetto.
Nunca quiz receber um soldo sequer por seus trabalhos e fornecimentos.
Ha homens n'este mundo em cujas almas Deus põe dobrada porção de
perfectibilidade. Em dias tranquillos trabalham para o allivio e
instrucção da humanidade, e esforçam-se a facilitar a marcha do
progresso; então chamam-se Gutemberg, Vicente de Paula, Galileo, Vico,
Rousseau, Volta, Filangieri, e Francklin. Em tempos de calamidade,
veem-nos repentinamente surgir, guiar as massas e expôr-se com firmeza
ao choque das desfortunas. Então o reconhecimento do mundo os designa
sob os nomes de Arnoldo de Mescia, de Savonarole, de Cola di Riezzo, de
Masaniello, de José de Lesi, e de Ciceravecchio.
Estes homens nascem sempre pobres na classe popular, n'esta classe que
nas épocas desastrosas é sempre a privilegiada no soffrimento; mas, que
gemendo, medita; sonhando, espera; soffrendo, trabalha.
Angelo Brunetto, como disse, era um d'estes entes; nada lhe faltou para
a consagração da missão recebida pelo martyrio.
Durante todo o cerco de Roma foi a bandeira viva do povo. Applaudido,
procurado, acolhido por seus companheiros como uma authoridade, era elle
o verdadeiro _primus inter pares_; mas apezar de seus triumphos, não
ficou menos modesto, vivendo como sempre vivêra; franco, leal, honrado,
devia sua importancia ao trabalho, a affeição de seus concidadãos á sua
affavel probidade, e a estima do proprio Papa, ao qual prestou grandes
serviços no dia das desordens, á sua caridade pelos poderosos, uma das
mais raras virtudes dos fracos quando são chamados a occupar o lugar dos
fortes.
Tinha nascido em Roma em 1802 no bairro de Rijutta. Como era forte,
gordo e rubicundo na infancia, sua mãe lhe poz o cognome de
_Ciceravecchio_, o que no calão do povo romano quer dizer florescente,
cheio de saude.
Crescendo, este vigor promettido pela creança desenvolveu-se no homem.
Era o titulo que Brunetto reproduzia mais frequentemente. Tinha de
quando o conheci em 1849, uma barba loura que começava a embraquecer,
cabellos compridos e amellados, pescoço curto e cheio, peito largo,
estatura alta, porte firme. Nunca o desgraçado que entrou em sua casa
com a mão supplicante sahiu com ella vasia; mas tambem, nunca se viu seu
nome inscripto n'essas listas de subscripção destinadas mais a
glorificar os subscriptores que a alliviar os desgraçados.
Nas innundações do Tibre, tão frequentes em Roma, era sempre elle o
primeiro a fazer-se barqueiro para levar viveres e palavras de
consolação a seus compatriotas cercados pelas ondas. Este bravo
adorava-me. Quando tinha precisão de trabalhadores para os engenheiros,
bastava só que eu lhe fizesse um signal: corria logo com duzentos,
trezentos, quatrocentos homens; dei-lhe, sobre o ministerio, bonds, dos
quaes não utilisou um só. Á minha saida de Roma, seguiu-me com seus dois
filhos, tomou com Ugo Bassi, terra em Nessola, depois encaminhou-se com
elles n'uma direcção opposta á minha.
Em occasião opportuna contarei o seu duplo martyrio como pae e como
cidadão.
Tenho algumas vezes fallado no capellão Ugo Bassi. Consagremos-lhe
tambem algumas paginas. E vão ellas a proposito na tarde e noite de uma
batalha que devia tão rude emprego á sua doce piedade.
Para os nossos feridos Ugo Bassi, joven, bello, eloquente, era
verdadeiramente o anjo da morte.
Tinha ao mesmo tempo a alegria de uma creança, a fé d'um martyr, a
sciencia de um sabio, a coragem de um heroe.
Nascera em Cento, de pae Bolonez, mas como André Clenier, de uma mãe
grega. Seu nome era José, mas fazendo-se barnabita, tinha escolhido o de
Ugo, sem duvida em lembrança do nosso poeta patriota Ugo Foscolo.
Era pois de raça latina e hellenica ao mesmo tempo, as duas raças mais
bellas e intelligentes do mundo. Tinha os cabellos castanhos, e
naturalmente amellados, olhos brilhantes como o sol, ora serenos, ora
fulgurantes, boca risonha, pescoço alvo e longo, membros ageis e
robustos, coração de fogo para a gloria e para o perigo, instinctos bons
e honrosos, espirito elevado, cálido, rapido, feito ao mesmo tempo para
as piedosas contemplações do anachoreta e para os irresistiveis ardores
do apostolado.
Seus estudos foram, não apenas um labor, mas uma conquista. Apoderou-se
rapidamente da litteratura, da sciencia das artes, e como espelho de
toda a sciencia, sabia de cór o poema inteiro de Dante. Seis mezes lhe
foram sufficientes para aprender grego; quanto ao latim, fallava-o como
a sua lingua materna, e fazia versos no genero dos de Horacio; escrevia
correctamente com a penna o inglez e o francez, e quando os
acontecimentos o levaram ao meio dos combates, trazia comsigo Byron e
Shakspeare. O tragico inglez e o poeta que morreu em Missolonghi
escutavam as patrioticas pulsações do seu coração.
Além d'isto era pintor e musico. Da mesma sorte que eu havia acreditado
em Pio IX, Ugo n'elle crêra.
Pio IX succedia a Gregorio XVI, Pio IX dava a amnistia, Pio IX promettia
reformas, era adorado por todos os italianos, admirado pelos
estrangeiros, e imitado pelos demais principes da Italia.
A 25 de março de 1848, a cruzada partiu de Roma; os auguros pareciam
annunciar toda a unidade da Italia.
A sua carreira foi um triumpho perpetuo. Dos campos mais longiquos da
Italia accorria a dura raça latina a averiguar e levar a feliz nova da
resurreição da Italia, e de que o seu povo com a fronte molhada de suor
e de sangue ia emfim ser livre.
Ugo Bassi estava em Ancona, onde prégava a quaresma. A primeira legião
de voluntarios chegava ahi; Ugo arengou sobre a praça, e tomando
argumento do desgraçado estado em que via suas armas e seus trajes,
idealisou com a sua eloquente palavra a sua miseria, de que os nossos
inimigos faziam escarneo.
Dois dias depois juntava-se á cruzada e partia com ella como segundo
capellão dos voluntarios romanos.
Bassi como Gavazzi, seu amigo, era a providencia do exercito. Não só a
sua eloquencia impellia os italianos ao amor da Italia e á dedicação por
ella, mas ainda tirava dos mais rebeldes cofres numerosas e ricas
offerendas. Em Bolonha fez milagres; os ricos davam dinheiro aos
punhados, as mulheres suas joias, seus brincos e anneis.
Uma joven não tendo nada a dar cortou a sua linda trança e l'ha
offereceu.
Elle havia assistido a todos os nossos combates e dedicações em Cornuda,
Treviso e Veneza.
Irmã de caridade, apostolo, soldado intrepido, foi sobretudo no combate
de Treviso, onde morreu o seu amigo e compatriota, o general Guidotti,
que mostrou todas as virtudes de seu coração. Uma balla lhe mutilou a
mão, o braço esquerdo, e lhe abriu uma longa ferida no peito. Ainda
pallido e soffrente d'este cruel ferimento, viram-o no combate de
Mestre, com um estandarte na mão, ser o primeiro a subir e sem armas, ao
assalto do palacio Bianchini.
Bassi acompanhou a legião italiana em todas as peregrinações. A sua
palavra potente fascinava as massas, e se Deus tivesse marcado um termo
ás desgraças da Italia, a voz de Bassi como a de S. Bernardo, teria
arrastrado as povoações aos campos de batalha. Se a Italia um dia se
unificar, que Deus lhe dê a palavra de um Ugo Bassi! Quando Roma cahiu,
quando me não ficou senão o exilio, a fome e a miseria, Ugo Bassi, não
hesitou um instante em acompanhar-me. Recebi-o na minha barca em
Cesenatia, e partilhou comigo o ultimo sorriso de despedida!
N'esta barca, que eu proprio guiei, estavam Anita, Ugo Bassi,
Ciceravecchio, e seus dois filhos. Todos morreram, e de que maneira! Oh!
sagrados mortos, eu referirei o vosso martyrio!
O nome de Ugo Bassi será a palavra de ordem dos italianos no dia do seu
libertamento.
Mas deixei-me levar muito longe do meu fim.
Voltemos ao cerco de Roma.
Na noite de 4 de junho, em quanto que nossos adversarios disfarçavam um
attaque na porta de São-Pancracio, foi aberto um fosso a tresentos
metros da praça, e foram elevadas duas batterias de arco, uma cem metros
atraz do parallelo para fazer face á bateria romana de Vestaccio de
Santo-Aleixo. O parallelo apoiava-se á direita em alturas inatacaveis, á
esquerda na villa Pamphili.
Desde a alvorada, havia feito chamar Manara, pedindo-lhe de resignar o
seu titulo de coronel dos bersaglieri para acceitar o grau de chefe do
meu estado maior. Era pedir-lhe um grande sacrificio, eu bem o sabia;
mas Manara era mais habil que qualquer outro para estas funcções. Era de
um valor exemplar, d'uma rara tranquilidade de espirito no meio do
perigo, d'um golpe de vista seguro no combate; tinha feito dos seus
bersaglieri a tropa mais bem disciplinada do exercito. Fallava quatro
linguas; emfim o seu aspecto tinha esta dignidade que convem aos graus
elevados. Acceitou.
O resto do meu estado maior compunha-se dos majores Cenni, e Bueno, dos
capitães Caroni, e Davio, de dois francezes, excellentes officiaes,
chamados Pilhes e Laviron; do capitão Ceccadi, que durante seus serviços
em Hespanha e Africa tinha merecido a cruz de Hespanha, e a da Legião de
honra; de Silco e de Stagnetti, que na Palestrina, conduzia emigrados;
do tenente de cavallaria Gili, do correio Giannuzzi, e finalmente d'um
membro da assembléa, o capitão Cessi.
Manara organisou logo o estado maior no interior; todos queriam ficar
comigo na villa Savorelli; porque avistavamos o campo, e nada ahi se
passava que não vissemos.
É verdade que a distração não era um perigo. Como se sabia que a villa
Savorelli era o meu quartel general, ballas de artilharia, de fuzilaria
e de obuz, tudo me offertava o inimigo. Era sobretudo quando subia para
melhor observar ao pequeno mirante que dominava a casa, que a coisa se
tornava curiosa.
Era uma verdadeira saraivada de ballas, e nunca vi tempestade com eguaes
silvos. A casa sacudida pelas balas, tremia como n'um terremoto. Muitas
vezes para dar trabalho aos artilheiros, e aos atiradores francezes,
fazia com que me servissem o almoço no mirante, que não tinha outra
salvaguarda mais que um pequeno parapeito de madeira. Então tinha uma
musica que me dispensava de mandar tocar a do regimento.
Isto foi ainda tanto peior quando não sei que má galanteria do estado
maior o levou a arvorar no pára raios que sobresahia ao pequeno terrasso
uma bandeira onde estavam escriptas em grandes lettras estas palavras:
«Bom dia, Cardeal Oudinot!»
No quarto ou quinto dia em que eu dava esta distracção aos artilheiros e
atiradores francezes, o general Avezzana veiu ver-me, e não achando as
janellas do salão a uma altura sufficiente, perguntou-me se não tinha um
logar mais elevado de onde podesse contemplar a planicie.
Conduzi-o ao meu mirante.
Sem duvida os francezes quizeram honral-o; porque apenas ahi chegamos
começou a muzica a tocar.
O general olhou tranquilamente para as guardas avançadas, depois desceu
sem dizer nada.
No dia seguinte encontrei o meu mirante intrincheirado com saccos cheios
de terra. Perguntei quem havia dado a ordem.
—O ministro da guerra, me responderam.
Não havia meio de reagir contra uma ordem do ministro da guerra.
Esta raiva dos atiradores francezes de crivar o meu pobre quartel
general de metralha de toda a sorte, offerecia por vezes scenas
divertidas.
Um dia, era a 6 ou 7 de julho, o meu amigo Vecchi que era ao mesmo tempo
actor e historiador do drama que representavamos, veiu ver-me á hora do
almoço; e como eu tinha convidados havia feito trazer de Roma um jantar
completo n'uma caixa de folha de ferro. Vi que o aspecto dos nossos
petiscos tentava Vecchi. Offereci-lhe por consequencia para partilhar
comnosco da refeição. O general Avezzana e Constantino Rita estavam
comnosco. Assentamo-nos no chão do jardim. As ballas sacudiam a casa de
maneira que, para jantar sobre uma meza seria mister para a segurar um
d'estes apparelhos que em similhante caso se usão nos navios em dia de
temporal. Mesmo quando o jantar hia em meio, cahiu uma bomba a um metro
de nós. Tudo desaccampou; Vecchi ia fazer como os mais, mas eu retive-o
pelo pulso—era membro da Assembléa.
—Padre conscripto, lhe disse rindo, fica na tua cerulea cadeira!
A bomba estalou como, eu acreditava, do lado opposto áquelle em que nós
estavamos; fômos porém recompensados, porque ficamos cobertos de poeira;
nós e o jantar.
Vecchi tinha feito bem em approveitar o nosso banquete, porque nem
sempre tinhamos que jantar. Algumas vezes os moços do _restaurant_
espantados pelo ruido dos morteiros francezes, pela fusilaria dos
caçadores de Vincennes, e sobretudo pelos cadaveres que encontravam no
caminho, paravam não ousando ir mais além; então o primeiro que
apparecia apoderava-se do nosso festim e tragava-o. Um dia um dos meus
soldados chamado Casanova, fez-me ás tres horas da manhã um _macaroni_.
Havia quarenta e oito horas que eu era sustentado por uma chavena de
caffé com leite e duas ou tres botijas de cerveja.
Além d'isto, era quasi sempre a Vecchi que aconteciam aventuras no
genero da que acabo de referir. Um outro dia, como elle tinha sua
narração a fazer-me, porque havia dois dias que estava de guarda
avançada na vinha Costabili, chamavam assim uma das barracas que
tinhamos nas proximidades da villa Corsini, encontrou-me jantando, á
mesa. D'esta vez os senhores atiradores tinham tido a bondade de me
deixar algum tempo socegado. Ante mim estava um manjar dos mais
appetitosos. Dei logar a Vecchi a meu lado e convidei-o a partilhar do
jantar.
Mas, quando ia assentar-se, Manara o suspendeu.
—Não façaes tal, Vecchi, lhe disse elle. Ha tres dias consecutivos que
os officiaes convidados pelo general são mortos sem ter tempo de fazer a
digestão.
E com effeito, Davio, Rozat e Panizzi, acabavam de morrer nas
circumstancias assignaladas por Manara. Mas o fumo do manjar foi mais
poderoso que o aviso de Manara.
—Bem, disse Vecchi, isso quadra perfeitamente com uma predicção que me
fizeram.
—Qual, perguntou Manara.
—Na minha infancia uma bohemia tirou-me o horoscopo. Predisse-me que eu
morreria em Roma na edade de trinta e seis annos muito rico. Em 1838
n'uma viagem que fiz a pé de Napoles a Salerno, persegui n'um campo de
algodão uma cigana de dezoito annos cujos olhos eu queria absolutamente
beijar. Ella defendeu-se com a sua faca; oppuz á arma offensiva uma
defensiva; era um bello escudo (moeda) novo. Recebendo o escudo
predisse-me, examinando-me a mão, que eu morreria em Roma, na edade de
trinta e seis annos muito rico. Estou no trigesimo setimo anno; e sem
ser muito rico, sou-o sufficientemente para um homem que vae morrer. Mas
sou fatalista como um mahometano. O que está escripto está escripto.
Dê-me o manjar, general.
Rimos da historia de Vecchi, mas Manara guardava o seu serio dizendo:
—É o mesmo, Vecchi, eu só me tranquillisarei depois de findo o dia.
Depois, virando-se para mim:
—Por Deus general, não o mandeis hoje a parte alguma.
Isto effectuou-se assim; Vecchi estava horrivelmente fatigado por ter
velado as duas precedentes noites, e depois do jantar, pediu-me para se
retirar e ir repousar um pouco.
—Deita-te no meu leito, se queres, disse Manara, embora elle fallasse
serio ou proseguisse a galanteria. Em nome de Deus, não quero que saias!
Vecchi deitou-se no leito de Manara.
Uma hora depois vi que os officiaes francezes collocavam saccos cheios
de terra no fosso aberto em frente do nosso bastião. Procurei ao redor
de mim um official para dirigir contra elles o fogo de uma duzia de
atiradores.
Não sei onde tinha enviado todos, que me achava só.
Pensei no pobre Vecchi, que dormia com os punhos cerrados. Tinha dó de o
despertar, mas as balas faziam uma ceifa horrivel. Puchei-o pela perna.
Abriu os olhos.
—Vamos, lhe disse eu, ha vinte e quatro horas que dormes, a predicção de
Manara não se deve temer. Toma uma duzia dos melhores atiradores, e
acaricia-me as costas d'esses gentis-homens.
Vecchi que é muito bravo, não esperou que lhe gritassem aos ouvidos.
Tomou doze bersaglieri amadores, e foi embuscar-se com elles atraz de
uma barricada cheia de saccos de terra que um tenente da ordenança
chamado Pozzio elevava com a ajuda dos sapadores. D'ali começou sobre os
francezes um fogo tão mortifero, que elles responderam por balas de
artilheria, ás dos bersaglieri.
Meia hora depois vieram dizer-me:
—Sabei, general, que mataram o pobre Vecchi.
Soffri uma grande dôr. Eu era causa da sua morte, e reprehendi-me de o
haver feito. Mas ao fim de uma hora, com grande alegria minha vi-o
voltar.
—Ah! parabens, lhe disse eu, deixa-me abraçar-te, julgava-te morto.
—Estava só enterrado, me respondeu elle.
—Como?
Então contou-me que uma bala havia partido um dos saccos de terra, que
se havia espalhado sobre elle, que no mesmo momento este sacco
despejando-se tinha feito perder o equilibrio aos outros, os quaes
haviam cahido em numero de dez ou doze sobre elle e o haviam
litteralmente escondido.
Mas tinha succedido uma cousa mais pittoresca que a morte de Vecchi. A
mesma bala que o havia enterrado batêra contra a muralha, e indo de
recochete tinha despedaçado pelos rins um joven soldado. O pobre soldado
collocado sobre uma paviola tinha cruzado as mãos sobre o peito, elevado
os olhos ao ceu e exalado o ultimo suspiro.
Iam leval-o para a ambulancia, quando um official se precipitara sobre o
cadaver cobrindo-o de beijos.
Este official era Pozzio. O joven soldado era Colomba Antonielli, sua
mulher que o tinha seguido a Velletri e tinha combatido a seu lado a 3
de junho.
Isto recordou-me a minha pobre Annita que tambem estava tão tranquilla
no meio do fogo, e que a bem ou a mal eu havia deixado em Rieti.
Estava gravida e em nome do filho que trazia, havia-a decidido a
separar-se de mim.
A 7 houve treguas dos dois lados; era o dia corpo de Deus.
A 9 commandei uma grande sortida para interromper os trabalhos avançados
dos francezes, que se prolongavam até ao segundo bastião da esquerda.
Para esta funcção foram chamados os _douaniers_ e um batalhão do 5.°
regimento.
Os bersaglieri n'este momento faziam o serviço das barracas, á esquerda
do Visellia, e guardavam os bastiões.
O capitão Rozat, o mesmo que eu tinha visto levar da villa Corsini e que
ao passar me dissera: «General, já tenho a minha conta!» o capitão
Rozat, digo, apenas havia recebido uma bala morta, que lhe parara n'uma
costella. Ainda que em consciencia a contusão fosse rude bastante e o
obrigasse a ficar de cama, havia-se levantado de madrugada, e n'este dia
quiz absolutamente tomar o commando da quarta companhia destinada ao
segundo bastião.
Vendo que a guarda do fosso maltratava os assaltantes, Rozat tomou uma
carabina, e como era excellente atirador, despediu quinze tiros a metade
dos quaes aproveitaram.
Os seus soldados carregavam, elle atirava.
A sua certeza de pontaria despertou a rivalidade dos caçadores de Africa
que começaram, trocar-lhe tiro por tiro.
Uma primeira bala lhe arrebatou o chapeu; mas elle tomando-o de novo o
atirou ao ar gritando:
—Viva a Italia!
N'este momento, porém, uma bala lhe entrou pela boca e sahiu pela nuca,
abafando-lhe o grito.
No fim de duas horas de agonia expirou.
No dia 10 de junho, recebi aviso do general Roselli de que eu devia
tomar o commando de uma grande sortida, que se devia compôr de metade do
exercito romano.
Devia operar-se pela porta Cavallegieri, e tinha por fim retomar ou a
villa Pamphili ou a villa Valentini.
Em virtude d'isto, o ministro da guerra, Avezzana, tirou-me o commando
da linha São-Pancracio, e com a legião italiana e o regimento de
bersaglieri, marchei para a praça do Vaticano, onde devia completar-se
pelos regimentos Pasi e Mari e a legião polonesa o corpo destinado a
esta operação.
Passei a cavallo á frente de cada corpo, chamei os commandantes a
conferencia, e communiquei-lhes o fim da tentativa e a maneira pela qual
eu comprehendia o ataque.
Fiz em seguida passar a palavra de ordem, distribuir munições,
preparando tudo para a hora designada, em quanto que os soldados com os
olhos fixos sobre a lua, a apopavam pela lentidão com que fazia o seu
giro.
Para evitar um d'estes erros nocturnos tão communs n'estas sortes de
expedição, onde, confundindo os amigos com os inimigos, se ferem uns aos
outros, ordenei aos meus soldados de vestir suas camisas sobre o
uniforme. Foi uma manobra que excitou muito a alegria dos soldados, por
causa do estado em que alguns tinham o vestuario interno de que eu fazia
o externo.
Ás dez horas da noite, abriu-se a porta e a legião polonesa, commandada
por Hoffstetter que deixou um excellente jornal do cerco de Roma, sahiu
constituindo a guarda avançada; vinha em seguida a legião italiana, á
frente da qual ia o coronel Manara. Esta era seguida dos regimentos de
bersaglieri, Passi e Masi.
Masi commandava a retaguarda.
Apenas cheguei ao campo reconheci ter feito uma grande asneira mandando
vestir a camisa sobre os uniformes. Os nossos homens eram visiveis como
em pleno dia; bastaria elles andarem cem passos para os francezes
julgarem ser atacados por um exercito de phantasmas.
Mandei tirar as camisas. É desnecessario dizer que nenhum soldado se deu
ao trabalho de as tornar a pôr no logar de onde as havia tirado.
Cavalgava sobre o flanco da legião italiana, quando alguns soldados que
levavam uma escada, passando por uma villa quizeram assegurar-se se ella
effectivamente estava abandonada como parecia. Alçaram a escada contra
uma das janellas do primeiro andar. O regimento parou para vêr o
resultado da inquerição, deixando a vanguarda proseguir o caminho.
Cinco ou seis homens subiram a escada.
Repentinamente, um degrau se quebra sob os pés do que estava mais em
cima, este cahe sobre o segundo, o segundo sobre o terceiro, e todos com
um motim admiravel cahem em terra.
Na queda dispararam-se duas espingardas.
A vanguarda commandada por Hoffstetter e por Sacchi, dois dos meus mais
bravos officiaes, julga-se surprehendida pelos francezes que iam
surprehender; e enchendo-se de um terror panico, rompe por traz de
Hoffstetter e Sacchi que ficam isolados com uma vintena de homens, e vem
sobre nós a correr desesperadamente, destruindo com o choque tudo o que
encontra ante si. Manara tenta suspendêl-os, mas inutilmente. Eu corro
ao meio d'elles, e firo á direita e á esquerda com o meu chicote de
gaucho. Nada os detem, e julgo que no mesmo passo os meus heroes teriam
entrado em Roma, se os bersaglieri á frente dos quaes estavam dois
chefes de batalhão e o capitão Ferrari, não tivessem cruzado bayonetas
aos fugitivos.
Depois de todo este barulho, não se podia suppôr que os francezes não
estivessem a postos, e era mister renunciar á empreza.
Quanto a mim estava cançado de bater n'esta canalha, e volvi dizendo a
Manara:
—Caro amigo errámos em não pôr os bravos bersaglieri na vanguarda.
Com effeito, eram homens maravilhosos os bersaglieris, do que Manara
devia com justiça ter orgulho. Quando lhe pedia um destacamento de seus
soldados, costumava dizer:
—Vamos, quarenta homens de boa vontade para uma expedição em que um
quarto morrerá e o outro ficará ferido.
E apesar do programma todo o regimento se apresentava, de fórma tal, que
para não excitar ciumes era mister tiral-os á sorte.