N'este momento uma balla de recochete feriu Dandolo no braço.
—Por minha fé, meu pobre rapaz, parece que não ha d'isso senão para ti!
Depois desatando o cinturão e deixando a espada, tomou um oculo de
observação e veiu á janella para olhar os soldados francezes que
apontavam uma peça.
No mesmo instante, partiu um tiro de carabina; a bala passou entre dois
sacos de terra e feriu-o no ventre justamente no logar que o cinturão
teria protegido se elle o conservasse.
Dandolo viu-o tremer, e ferido como estava, aproximou-se para o suster:
—Estou morto, disse Manara, recommendo-te meus filhos.
Veiu um medico; mas vendo-o pallidecer o ferido comprehendeu que tudo
havia terminado.
Collocaram Manara n'uma paviola, e no meio do fogo os seus companheiros
o levaram a Santa Maria della Scala. Foram chamar-me á ambulancia dei
Pellegrini onde eu estava; corri. Era elle que tinha querido que o
levassem junto a mim. Ai de mim, estimavamo-nos ternamente!
A praça estava atulhada de projectis.
Uma joven que havia tido a imprudencia de chegar a uma janella, acabava
de ser ferida no peito e morta instantaneamente.
M. Varenna, official lombardo, ficou com a perna quebrada por um obuz,
quando ia a subir os degraus da egreja para se aproximar de mim.
Ia, como eu, vêr Manara.
Um medico tambem corria para a egreja. Uma granada o prostou do cavallo;
e um instante depois o cavallo ferido de egual golpe cahia sobre elle.
Eu chegava são e salvo; conduzia-me Deus!
Ao fundo da egreja, á direita, perto da balaustrada, estava um leito
rodeado pelos officiaes da legião Manara.
Logo que o ferido me viu estendeu a mão para mim, e com voz fraca
perguntou-me:
—É mortal?
A mocidade repellia apezar da evidencia a idéa da morte.
Vendo que eu lhe não respondia repetiu:
—Pergunto-te se a minha ferida é mortal; responde-me!
E sem esperar a resposta, prorompeu em palavras cheias de pesares e de
saudades.
Animei-o tanto quanto o póde fazer um homem a quem a coragem falta;
entretanto elle viu bem que eu não tinha esperança.
Muitos medicos se aproximaram d'elle, mas fazendo-lhe signal com a
cabeça para se affastarem:
—Deixae-me morrer tranquillo! lhes disse elle.
Seu pulso quasi se não sentia, as extremidades estavam frias, as feições
profundamente alteradas, e o sangue corria a golphadas da ferida....
soffria horrivelmente.
Seus companheiros perguntaram-me o que eu pensava do seu estado.
—Tem ainda pouco mais ou menos uma hora de vida, disse eu a Dandolo.
Então o mancebo inclinando-se ao ouvido do seu amigo:
—Pensa no Senhor! lhe disse elle.
—Oh! penso, e muito! respondeu Manara.
Depois accenou a um barbadinho para que viesse. O frade approximou-se do
leito, escutou a confissão do moribundo e deu-lhe a absolvição.
O nosso pobre amigo então pediu o Viatico.
Dandolo exforçava-se em consolal-o o melhor que podia, fallando-lhe em
Deus.
Elle o interrompeu para lhe fallar de seus filhos.
—Educa-os, lhe disse elle, no amor de Deos e da patria.
Depois accrescentou:
—Conduz a Milão o meu corpo com o de teu irmão. Causa-te pena que eu
morra, meu charo amigo, disse elle; ai de mim! tambem eu choro a vida!
Chamou então para seu lado um soldado que era sua ordenança, e que
bastantes vezes tinha feito enraivecer.
—Tu perdoas-me não é assim? lhe disse elle sorrindo.
Depois perguntou a Dandolo se tinha havido noticias de Morosini.
Dizia-se vagamente que elle estava prisioneiro.
Um pouco antes de morrer, Manara tirou um annel do dedo, metteu-o no de
Dandolo, e disse:
—Saudarei teu irmão por ti:
E virando-se para mim:
—Ó Bertani! faz-me morrer depressa, disse elle; soffro muito!
Foi a ultima queixa que sahiu de sua boca.
Entrou em agonia, agarrou-se convulsivamente aos que o cercavam, depois
recahiu no leito, com um suspiro, immovel e frio.
Puz-lhe a mão sobre o coração; battia ainda, mas lentamente: pouco a
pouco as pulsações cessaram.
Sua alma está já no Ceu.
Eu disse então aos monges que nos rodeavam de me prepararem uma solução
arsenical para injectar o cadaver, mas não havia arsenico. Contentei-me
de fazer a injecção com sublimado corrosivo. O cadaver foi transportado
para uma camara, á direita do altar mór, perto da sachristia, e ali
deposto levemente, vestido do seu uniforme, e com a cabeça apoiada n'uma
almofada.
Seu joven amigo Eleuterio Pagliano que durante todo o cerco tinha
valentemente combatido, e que é hoje um dos mais distinctos pintores
lombardos, fez o seu retrato.
Perto d'elle, deitado sobre uma prancha estava Aguyar, o negro de
Garibaldi: Mirava eu estes dois cadaveres tão bellos, e de tão
differente bellesa, quando ouvi soluçar atraz de mim.
Era Ugo Bassi que chorava.
Todo o tempo que estivemos n'esta camara, parecia ella ser o alvo dos
projectis francezes.
No seguinte dia foi o cadaver transportado a uma casa e d'alli á egreja
de S. Lourenço. Depois do que foi deposto na egreja dos Cem Padres, onde
o esperava o corpo de Henrique Dandolo e onde devia juntar-se o de
Morosini.
No proprio dia da morte de Manara chegava uma carta de sua esposa
contendo estas sós palavras:
«Não penses em mim nem em teus filhos, pensa só na patria.»
Pobre mulher! a morte estava encarregada de lhe levar a resposta.
EMILIO MOROSINI
Estavamos em redor do leito de Manara, perguntando o destino dos nossos
mais charos amigos, e entre outros d'Emilio Morosini.
Mas n'este dia foi impossivel saber nada de positivo a seu respeito.
Na manhã do 1.° de julho Dandolo soube de um soldado que se havia
achado na brecha ao mesmo tempo que Morosini, que elle havia cahido
gravemente ferido nas mãos dos francezes.
Apesar de soffrer muito da sua ferida, Dandolo correu ao triumvirato,
depois ao ministerio para obter permissão de sahir. Depois de tres horas
de instancia, obteve-a e correu ao campo dos francezes sem
salvo-conducto de qualidade alguma.
Sustido nos postos avançados, disse o fim a que ia. Um official teve
piedade de sua angustia e lhe permittiu de penetrar no campo, onde o
conduziram á ambulancia. Soube que Morosini havia morrido.
Pediu que lhe entregasse o cadaver para o entregar á sua familia; mas um
medico respondeu que havia duas horas que o haviam levado para um
cemiterio muito affastado. Dandolo sollicitou uma ordem de exhumação.
Em quanto esperava a resposta ao seu pedido, entrou um capitão ajudante
do estado-maior, que ficou muito admirado de ver no campo francez um
official italiano sem salvo-conducto. Condemnou a prisão o official que
o deixára passar, e mandou-o para a linha dos postos avançados sem nada
querer ouvir.
Dandolo volveu a trazer a triste noticia aos seus amigos, e escreveu ao
chefe do estado maior francez para pedir a permissão da exhumação.
Obteve-a na manhã de 2.
A triste ceremonia do transporte de Manara estava acabada quando Dandolo
se aproximou de mim dizendo:
—Bertani, d'aqui a algumas horas o cadaver de Morosini estará na egreja
dos Cem Padres, em Santa Vieto, onde poderás vêl-o.
Fui á egreja um pouco antes da noite. A casa ou antes o convento que
confinava com a egreja, estava occupada pelos francezes, de sorte que a
egreja estava fechada.
Pedi permissão de entrar a um capitão, que vendo a profunda tristesa
espalhada em meu rosto, me perguntou affectuosamente se eu era soldado,
qual a minha patria, e se havia perdido algum parente ou amigo.
Respondi-lhe que havia perdido muitos amigos, e entre outros Manara.
Conhecia-o de nome, e pediu-me pormenores sobre sua morte, e tambem me
deu alguns.
Um caçador de Vincennes, que estava perto d'elle no ataque de Spada, e
que elle me mostrou no meio de um grupo de soldados ao pé da porta onde
estavamos, lhe dissera no momento em que Manara se approximara da
janella com o seu oculo:
—Olhae bem este official, está morto.
Ao mesmo tempo o soldado havia atirado: a balla chegara ao seu destino;
e elle havia visto cair Manara.
O capitão continuava a fallar; eu estava tão triste que não lhe pude
responder senão pedindo-lhe que me deixasse entrar na egreja.
—Que ides ahi fazer? me perguntou elle.
—Vou procurar o cadaver de outro amigo, desenterrado hoje mesmo e
entregue pelos vossos á dôr de sua mãe.
Mandou pedir permissão ao coronel, obteve-a, e confiou-me ao guardião da
egreja para que me deixasse entrar.
A egreja estava escura; o guardião abriu uma pequena porta que conduzia
do convento ao côro da egreja, deu-me uma lampada e apontando-me um
canto sombrio disse-me:
—Procurae ahi.
Mas elle não quiz seguir-me mais ávante.
Approximei-me triste e piedosamente, com um tremor em todas as veias.
Este silencio, estas trevas, o duvidoso clarear da lampada, o precioso
objecto de minhas investigações, a angustia de encontrar assim o
encantador mancebo que eu conhecera vivo, tudo isto me fazia pulsar
fortemente o coração.
Caminhava lentamente, não conhecia aquelles lugares, sem saber onde
estava collocado o corpo, levantando a lampada e tremendo de o tocar com
o pé.
Emfim perto dos degraus descobri uma fórma negra e longa.
Reconheci um corpo humano.
Quasi louco de dôr, e de um horror que eu não dominava, inclinei-me
sobre elle.
Oh! triste! triste! triste!
Com a mão que me ficava livre, desatei a corda que ligava o lençol ao
pescoço, ao ventre e aos pés. Levantei a cabeça. Ainda que já
desfigurado, reconheci que era o pobre moço que eu procurava.
Larguei-lhe a cabeça.
Ella cahiu sobre a lagea imprimindo-lhe um som que eu nunca esquecerei.
Não havia em mim um cabello que não tivesse a sua gota de suor.
Parei tremendo.
Meu Deos, como vós sois grande, e como a morte é horrivel!
Fiz um exforço sobre mim. Medico habituado á morte, não queria ser por
ella vencido.
Pousei a lampada sobre um dos degraus do altar, volvendo os olhos para o
rosto do morto, olhando-o tristemente: estava mais pallido que o panno
que o cobria.
Procurei e toquei suas feridas. Teria querido guardar as ultimas gotas
de sangue de seu coração para as levar a sua mãe, e para fazer com este
sangue uma cruz sobre o rosto de todos os jovens italianos, que um dia
devem levantar-se para o libertamento da sua patria.
Cortei uma madeixa de seus cabellos. Talvez elle tivesse um amigo: com
certesa tinha uma mãe.
Emfim apertei-lhe a mão; descobri uma derradeira vez a minha cabeça ante
elle e murmurei:
—Até á vista!
Sahi transido da egreja, levando este espectaculo de morte exactamente
copiado em mim, que hoje, onze annos depois escrevendo estas linhas,
vejo ainda o cadaver, a figura pallida, no seu lençol todo cheio de
terra e sangue.
Sahindo encontrei o guarda, depois o official, ao qual apertei a mão sem
poder pronunciar uma palavra.
No dia seguinte o cadaver de Morosini foi deposto n'um caixão de chumbo,
esperando o momento da partida para o solo natal com os cadaveres dos
seus inimigos.
Todos nós desejavamos com egual ardor ter pormenores sobre a morte de
Morosini; mas os mais eram obrigados a partir. Ficavam só os mortos, e
os que ajudavam os feridos a morrer.
Eu era dos ultimos.
Eis aqui, pois o que soube sobre a morte de Morosini. Colhi estes
pormenores que vou dar de mr. de Santi, corso empregado no serviço
sanitario dos francezes, e que na noite de 29 a 30 de junho era
cirurgião na ambulancia do fosso.
Este honrado e bom confrade, ao qual sou devedor de alguns serviços, me
contou que a 30 de junho ao raiar d'alva trouxeram a ambulancia um dos
nossos officiaes, tão joven e tão bello que elle o tomou por uma mulher.
Estava levemente ferido na testa, na mão esquerda e no peito, mas
mortalmente no ventre.
De Santi o havia tratado com affeição.
Morosini que ainda fallava, perguntou-lhe:
—Que pensaes das minhas feridas?
De Santi respondeu:
—Tende confiança em Deus e na vossa mocidade.
—Está bom, disse Morosini; comprehendo, estou perdido!
Depois ajuntou com um suspiro:
—Pobre mãe!
Entregou uma carteira ao douctor, volveu a cabeça, e recusou desde então
pronunciar mais uma só palavra.
Poucos minutos depois de Morosini ter sido curado, um velho sargento do
32.° entrou na ambulancia, e depois de ter anciosamente procurado o
leito do joven official, disse ao medico.
—É elle!
—Que quereis dizer? lhe perguntou de Santi.
—Que a lodo o custo queria salvar este pobre moço; tenho feito tudo o
possivel. Mas não, isto foi mal para elle.
Então elle contou que Morosini, acompanhado sómente de quatro homens
tinha sido cercado; tinham-lhe intimado que se rendesse, ao que elle
respondêra:
—Nunca!
E continuou a ferir com sua espada gritando aos seus:
—Em nome da Italia prohibo-vos de vos renderdes!
O velho sargento então lhe havia apontado a bayoneta ao peito para o
intimidar; mas Morosini segurou-a com a mão esquerda, e descarregou um
golpe sobre a cabeça do sargento.
Este entretanto prohibia aos soldados de fazerem fogo, esperando
aprisionar vivo o mancebo e portanto salval-o. Mas então um soldado que
se achava atraz d'elle vendo que Morosini continuava a defender-se
atirou-lhe um tiro.
A bala atravessou-lhe as entranhas; era a ferida mortal. Morosini cahiu,
mas sobre um joelho e a mão esquerdo. N'esta posição ainda tentou ferir
seus adversarios gritando sempre a seus companheiros:
—Fazei-vos matar, mas não vos rendaes!
O sargento furioso voltou-se para o soldado dizendo:
—Desgraçado! que fizeste? Não vês que era uma creança?
Morosini morreu algumas horas depois de ter sido levado á ambulancia, e
foi envolvido no lençol em que eu o achára na egreja dos Cem Padres.
Morosini tinha á cintura duas pistollas, na coronha das quaes estava
gravado o nome de Koscinsko, amigo de sua familia, e que d'ellas fizera
presente a seu avô.
Fiz todas as diligencias possiveis para encontrar essas pistollas e a
espada, mas inutilmente. Parece que o velho sargento as possuia, mas
declarou não as dar por preço algum.
A 4 de setembro de 1849 os tres feretros que encerravam os cadaveres de
Henrique Dandolo, de Lucianno Manara e de Emilio Morosini desembarcaram
no Molo-Novo de Genova.
GODOFREDO MAMELI
Garibaldi conta nas suas Memorias e na curta biographia que fez de
Mameli que o joven poeta na noite de 3 de junho veiu pedir-lhe de tentar
um novo esforço sobre o casino Corsini e que elle lhe concedeu o pedido.
Mameli foi ferido na perna esquerda.
A ferida por si não era nada, mas por uma má disposição do sangue,
gangrenou em 18 de junho, e tornou-se indispensavel a amputação.
A janella da camara de Mameli na ambulancia da _Trinitá dei Pellegrini_,
dava sem cessar passagem a toda a especie de projectis; mas Mameli
mostrou-se sempre indifferente a este perigo posthumo e póde-se assim
chamar. Só no momento em que estava mais enfraquecido pela suppuração
elle se tornou um ou dois dias impaciente pelas balas como uma creança
pelas moscas.
—Ser morto em pleno ar combatendo, embora; mas morto no meu leito como
um paralytico, não!
No dia 8 de junho delirou, delirio encantador durante o qual elle
cantava em voz baixa, e se recordava quasi dia por dia da sua vida
intellectual—pobre moço!—tão bella e tão curta.
Nos intervallos destes cantos prophetisava ou fazia votos pela sua
patria.
Tinha vinte e um annos quando morreu.
Injectei o seu cadaver, que foi enterrado em Roma.
Tinha composto um canto de guerra, que Garibaldi cantava muitas vezes e
entoava sem cessar; _Fratelli de Italia_.
Este canto é popular na Italia.
BERTANI
FIM DO 2.° E ULTIMO VOLUME
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Nota do Transcritor
Pontuação e hifenização foram normalizados.
O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1860.
A ortografia originais foi mantida com exceção de alguns erros óbvios.
Palavras em itálico e frases são apresentados por em torno do texto com
sublinhados (_itálico_). A fonte Versaletes na versão do texto foi
alterado para todos os tampões.
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