O meu guia levou-me para uma das cabanas, e conseguiu accender fogo e

fez-me tornar a mim.

Durante este tempo a felicidade quiz que os meus soldados seguissem o

mesmo caminho que eu tinha seguido, de sorte que duas horas depois

tinham-me encontrado.

Tornámos de novo a pôr-nos a caminho, e descemos a Gravedona, sobre o

lago de Como.

Chegado ali, depois de uma paragem de meio dia, puz-me em marcha para

reunir-me aos dois generaes com quem devia encontrar-me, e que durante a

minha passagem deviam haver feito o levantamento.

Mas elles em vez de bater os austriacos haviam sido batidos, e eu ia dar

de face com a divisão Wohlgemmuth que occupava já o valle de Intelvi, e

com alguns barcos a vapor cheios de austriacos.

Tomei então por um atalho, e entrei no valle Menaggio, e occupei na sua

extremidade Porteyzo, sobre o lago de Lugano, reservando-me para a

retirada o valle Cavarnia, que tocava na fronteira suissa.

A posição era magnifica; estava em communicação com Lugano, d'onde podia

receber gente e munições: mas ninguem veiu juntar-se-me, e fiquei ahi

oito dias inutilmente.

No fim d'este tempo, os austriacos concentraram suas forças e marcharam

sobre Portecco. Retirei-me ao valle de Cavarnia, que separa a Lombardia

da Suissa. Contava, se me atacassem fazer tanto como em São-Maffeo.

Mas houve apenas alguns tiros de espingarda.

Dois dos meus homens morreram de suas feridas.

Nada havia a fazer; todas as passagens eram cobertas de neve; o inverno

tornava-se cada vez mais rigoroso; entrei na Suissa; escondi as

espingardas e em seguida eu mesmo me escondi.

Por desgraça, eu era mais difficil de esconder que uma espingarda; e

como estava tão compromettido, tratava-se em relação a mim, não de um

simples internamento, mas da prisão; muito feliz seria, se agarrado

pelas authoridades suissas não me entregassem aos austriacos.

Resolvi pois fazer todo o possivel para reentrar no Piemonte.

Prestaram-me uma carruagem para sahir do Lugano. Sahindo, iria a

Magadino; de Magadino a Genova, e de Genova Deus sabe aonde.

Atravessava pois Lugano de carruagem, quando um carro carregado de

madeira, que obstruia o caminho me fez parar. Era mister esperar que o

descarregassem. Estava esperando, quando o commandante do batalhão

federal me reconheceu, chamou gente e fez-me prender.

Conduziram-me prisioneiro; era o menos que tinha a esperar.

Entretanto aconteceu-me cousa melhor ainda. Como os principaes

habitantes de Lugano eram todos meus amigos, obtiveram que em vez de

ficar prisioneiro seria levado ás fronteiras sardas.

Não fiz mais que atravessar o Piemonte. A Toscana estava governada por

republica; embarquei em Genova, e parti para Florença. Em Liorne um

despacho telegraphico nos noticiou que o grão-duque illudindo Montanelli

por uma doença, acabava de fugir de Liorne e se tinha refugiado em

Porto-Ferrajo.

Immediatamente Guerazzi ordenou á guarda nacional de Liorne de embarcar,

perseguir o duque e prendêl-o.

Quando assignava esta ordem disseram-lhe que eu tinha chegado a Liorne.

—Offerecei-lhe o commando da expedição, disse Guerazzi, e instae para

que acceite.

Como se comprehende bem não foi preciso pedir-me muito; submetti-me

immediatamente ás ordens do governo provisorio.

Embarcamos a bordo do _Giglio_ e fizemo-nos de vela para a ilha d'Elba.

Apenas estavamos no mar deram-nos signal de que se avistava uma fragata

a vapor. Era franceza, ingleza, austriaca? Não sabiamos; mas a prudencia

ordenava que não nos aproximassemos.

Fiz pois que o _Giglio_ se voltasse, e em vez de abordar directamente em

Liorne, abordei em Golfo-di-Campo; atravessei a ilha n'um apice, e

cheguei a Porto-Ferrajo.

Não se havia ahi visto o grão-duque.

A expedição estava terminada.

Então volvi a Florença, e ahi organisei livremente os despojos da minha

columna, que reforcei com novos voluntarios; porque tudo o que era

refugiado em Florença quiz acompanhar-me.

Durante a minha estada ali, foram tentados dois ensaios de reacção, e

comprimi-os.

Uma manhã espalhou-se o boato de que os austriacos entravam pela

fronteira de Modena; corri ahi com a minha gente.

Nada havia.

Uma terceira tentativa de reacção vingou; o governo do grão-duque foi

restabelecido, e eu que tinha sido encarregado de o prender, fui

naturalmente obrigado a partir.

Além da minha legião havia em Florença uma legião polonesa perfeitamente

organisada; chamei-a e seguiu-me.

Atravessei os Apeninos e desci a Bolonha.

Ahi fui muito mal recebido pelo governo republicano, que me tratou como

desertor.

O general Mezzacapo formava em Bolonha uma divisão destinada a marchar

em soccorro de Roma. Passou-nos em revista, reconheceu que não eramos

desertores, e fez de nós sua vanguarda.

Seguimos a estrada de Foligno, de Nami e de Civita-Castelhana. Chegados

lá, apoiamos sobre a Sabina para evitar os francezes.

Entramos em Roma pela porta San-Giovanni.

Digamos onde era Roma.

XIV

ROMA

No dia 24 de abril de manhã, a vanguarda da divisão franceza chegou

diante do porto de Civita-Vecchia, e um ajudante de campo do general

Oudinot desembarcou para fallar na qualidade de parlamentario com o

perfeito da republica romana, Manucci. Disse-lhe que o fim da

intervenção franceza era garantir os interesses materiaes e moraes do

povo romano; que a França queria, inimiga como era do despotismo e da

anarchia, assegurar á Italia uma util liberdade; que esperava encontrar

no povo romano a antiga sympathia que o tinha unido ao povo francez, mas

que entretanto, como a armada corria perigo em se conservar a bordo,

necessitava uma prompta licença de desembarque; se esta licença fosse

negada, o general francez, com grande sentimento, vêr-se-ia obrigado a

empregar a força.

Além d'isto, devia prevenir a cidade de Civita-Vecchia de que lhe

lançariam o tributo de um milhão, no caso de se disparar sequer um tiro.

E, dito isto, sem esperar a resposta do governador de Roma, a quem

Manucci queria contar o occorrido, o general Oudinot desarmava o

batalhão Métara, occupava o forte, fechava a imprensa da cidade,

collocava uma sentinella á porta, e oppunha-se ao desembarque de um

corpo de quinhentos lombardos.

Estes quinhentos lombardos eram o batalhão de _bersaglieri_ commandado

por Manara, que, expulso da sua patria, e repellido pelo Piemonte, vinha

pedir um tumulo a Roma.

Este batalhão compunha-se da aristocracia lombarda, e vinha juntar-se

aos defensores da republica.

O mesmo Dandolo confessa no livro intitulado _Voluntarios e Bersaglieri_

que não era por sympathia pela causa dos romanos, mas porque não sabia

onde pedir um asylo.

Os _bersaglieri_ tinham chegado dois dias depois do general Oudinot; era

então o general quem dava as licenças de desembarque de que elle por

assim dizer, não tinha feito caso.

Henrique Dandolo, descendente do doge do mesmo nome, usando como o

historiador, filho do celebre vencedor de Constantinopla, do sobrenome

de Henrique, veiu duas vezes a terra para pedir ao general a licença;

não sómente lhe foi recusada, como teve ordem positiva de voltar para

bordo.

Levou esta resposta a Manara, que tambem veiu a terra para vêr se era

mais feliz do que elle.

A Manara porém foi-lhe negada, como o tinha sido a Henrique Dandolo.

—Sois lombardo? perguntou-lhe o general.

—Sem duvida, respondeu Manara.

—Pois bem, retorquiu Oudinot, se sois lombardo, por que vos intrometteis

nos negocios de Roma?

—Tambem vós, que sois francez, vos intrometteis n'elles, e muito,

respondeu Manara.

E virando as costas ao general, voltou para bordo.

Mas, quando se soube a bordo que o general francez se oppunha ao

desembarque, a exasperação chegou ao seu auge.

Depois da partida de Genova tinham soffrido o mar com todos os seus

rigores e muitas privações; _bersaglieri_ e voluntarios queriam

deitar-se ao mar e ganhar a costa a nado, arriscando-se ao que podesse

acontecer.

Quando Manara viu que a sua gente estava decidida a recorrer a este

extremo, voltou segunda vez a fallar com o general Oudinot, e obteve,

depois de uma longa resistencia, que o seu batalhão desembarcasse em

Porto de Anzio.

O general francez exigiu logo que Manara se conservasse longe de Roma, e

totalmente neutral até ao dia 4 de maio, em que, dizia elle, tudo

estaria acabado.

Manara porém recusou.

—General, lhe disse elle, não sou mais que um major ao serviço da

republica romana, subordinado por tanto ao ministro e ao meu general.

Como dependo d'elles, não posso fazer uma tal promessa.

Foi então que M. Manucci, julgou que devia, em nome do ministro da

guerra, acceitar as condições impostas pelo general Oudinot, e foi

mediante esta promessa que os voluntarios e _bersaglieri_ lombardos

poderam desembarcar, em Porto de Anzio, no dia seguinte, de manhã, 27 de

abril; partindo no dia 28 para Albano, e pernoitando nas campinas de

Roma.

Durante a noite, chegou uma ordem do general José Avezzana, ministro da

guerra, que, ou ignorava a promessa feita por M. Manucci em nome de

Manara, ou não lhe dava importancia: essa ordem dizia que marchassem

para Roma immediatamente.

Entraram em Roma no dia 29 pela manhã, no meio do enthusiasmo de uma

innumeravel multidão de povo.

Á noticia da chegada dos francezes a Civita-Vecchia, a assembléa romana

declarou-se permanente.

Ventilou-se então esta grave questão: Abrir-se-hão as portas aos

francezes, ou resistir-se-lhe-ha?

O triumviro Armellini e muitos outros eram de parecer que os francezes

fossem recebidos amigavelmente.

Mazzini, Cernuschi, Sterbini e a maioria queriam que se defendessem com

energia até á ultima.

Era necessario, antes de tudo, salvar a honra, diziam elles.

A assembléa não hesitou: no dia 26 de abril, ás duas horas da tarde, foi

votado o seguinte decreto com os applausos de toda a Roma.

«Em nome de Deus e do povo,

«A assembléa, segundo a communicação recebida pelo triumvirato,

entrega-lhe a honra da republica e encarrega-o de repellir a

força com a força.»

Decretada a resistencia, Cernuschi, que tinha feito as barricadas de

Milão, foi nomeado inspector das barricadas de Roma: os pontos elevados

foram guarnecidos de boccas de fogo, e o povo agitou-se, arquejando, á

espera de algum acontecimento importante.

Foi então que appareceu o homem providencial.

De repente um grito unanime se ouviu nas ruas de Roma:

—Garibaldi! Garibaldi!

Depois uma immensa multidão que o precedia, atirava com os chapeus ao

ar, e agitava os lenços, gritando:

—Eil-o! eil-o!

Seria impossivel descrever o enthusiasmo que se apoderou da população

logo que o viu; dir-se-ia que era o deus salvador da republica que

corria a defender Roma; a coragem do povo cresceu então pela confiança

que n'elle tinha, e pareceu que a assembléa não só tinha decretado a

defeza mas até a victoria.

Algumas linhas da _Historia da revolução romana_, por Biagio Miraglia

darão uma idéa d'este enthusiasmo:

«Este vencedor mysterioso, circundado de uma aureola de gloria tão

brilhante, que, estranho ás discussões da assembléa, e ignorando-as,

entrava em Roma na vespera mesmo do dia em que a republica ia ser

atacada, era, no espirito do povo romano, o unico homem capaz de

sustentar o decreto de resistencia.

«Por isso, immediatamente se reuniram ao homem que personificava as

necessidades instantaneas e que era a esperança de todos.»

D'esta fórma a necessidade publica dava a Garibaldi o seu posto de

general, contestado na ultima guerra por aquelles mesmos por quem elle

combatia.

⁂

Garibaldi não poude dar-nos os detalhes que se seguem, pela necessidade

que tinha de partir immediatamente para a Sicilia; foram-nos porém

fornecidos pelo seu amigo, M. Vecchi, o historiador da guerra de 1848, o

membro da assembléa romana, o soldado do dia 30 de abril, 3 e 30 de

junho; finalmente, o homem em cuja casa Garibaldi passou o ultimo mez da

sua estada em Genova, e que d'ali sahiu para embarcar.

Deixamos fallar M. Vecchi, ou antes damos as suas notas originaes.

M. Vecchi falla o francez tão bem como o italiano.

⁂

Garibaldi estava em Ravenne, alistando uma forte legião de voluntarios,

quando soube da morte de Rossi e da fuga do papa.

Determinou ir elle só a Roma para se entender com o governo provisorio,

cujo factotum era Sterbini; mas fizeram-lhe comprehender que a sua

presença em Roma era tão perigosa como os aquartelamentos dos seus

legionarios nas legações; e recebeu ordem de se aquartelar em Macerata,

cidade socegada, onde o fizeram preceder pela reputação de salteador.

Tendo chegado ali, recebeu ordem de passar com a legião para Rieti. A

tropa encaminhou-se por Tolentin, Foligno e Spoléte.

Garibaldi veiu a Ascoli porque soube que a policia bourboneza e papista

começava a sublevar a povoação dos Apenninos contra o governo de Roma

empregando para isso o dinheiro, o temor e o anathema.

N'esse tempo era eu capitão do 23.° de linha no exercito piemontez e

estava em Ascoli gosando dois mezes de licença quando os meus

compatriotas me elegeram deputado na constituinte romana.

Garibaldi visitou-me no dia 20 de janeiro, no dia seguinte quiz partir

para Rieti atravessando a montanha que estava coberta de neve e onde

havia um grande numero de salteadores; os conselhos prudentes que lhe

deram, a opposição dos patriotas não fizeram mais que reascitar o seu

desejo de intrepido militar; por espaço de uma legua fomos acompanhados

pela multidão que se lamentava e chorava: muitos me abraçaram pensando

que não tornariam a vêr-me.

Seguiam o general, Nino Bixio seu oficial de ordenança, o capitão Sacchi

seu companheiro de armas no novo mundo, e de Aguyar seu negro.

O resto da comitiva compunha-se de mim e de um cãosinho que ferido n'um

pé no dia do combate de Santo Antonio tinha desertado da bandeira de

Buenos-Ayres com a qual tinha andado até ali para se alistar na bandeira

de Garibaldi.

Chamava-se Guerillo.

O intelligente animal caminhava coxeando sempre entre as quatro pernas

do cavallo de Garibaldi.

Na primeira noite alojamo-nos em casa do governador de Arguata, Caetano

Rinaldi, chefe da reacção clerical que surgia atraz de nós a pouco e

pouco e á medida que avançavamos.

Ficámos n'uma sala ao _rez-de-chaussée_ ás escuras até ás dez horas da

noite com pessoas que entravam, sahiam e fallavam em segredo. Notei isto

ao general que me respondeu com o seu habitual socego.

—Estão detalhando o jantar.

Nada podia dizer mais verdadeiro, levantamo-nos da mesa á meia noite

tendo sido tratados como se fossemos cardeaes. Quando partimos o

governador deu-nos quatro arrateis de batatas para a viagem. Ás quatro

horas da manhã montámos a cavallo e fomos acompanhados até ao cume da

montanha pelo filho de M. Rinaldi que trazia uma bandeira tricolor de

seda. Ao meio dia devorámos um cordeiro que o general mandou assar por

partes n'uma fogueira de lenha, e á noite alojamo-nos n'uma estalagem

isolada cheia de camponezes armados. Talvez tivessem recebido a palavra

de ordem de Arguata, as physionomias eram sinistras, convidamol-os todos

para beber e recusaram.

Fomos deitar-nos e dormimos com o sabre ao lado e a mão sobre o gatilho

da pistola.

Garibaldi levantou-se, tinha o cotovelo esquerdo dorido e o joelho

direito inchado pelo rheumatismo apanhado na America, não poude calçar a

bota e foi de braço ao peito.

Depois de meia hora de marcha os cavallos não poderam continuar. Com

effeito trepavamos uma montanha escarpada que o gelo da noite tornara

escorregadia como um espelho.

Pelo espaço de uma legua os cavallos caminharam sobre os nossos capotes

que estendiamos diante d'elles, atravessamos em seguida uma planicie

coberta de neve onde os cavallos se enterravam até aos peitos; para me

aquecer apeei-me e fui saber da saude do general que cavalgava na minha

frente só com uma bota calçada e no outro pé uma meia de algodão.

—Então, perguntei-lhe eu, como vae, general?

Cumprimentou-me com o sorriso affavel que é habitual á sua natureza

forte e serena, e disse-me:

—Perfeitamente, obrigado.

Como eu ia ao lado d'elle, sem duvida para se distrahir das dôres

pungentes que lhe torturavam a carne, mostrou-me com a mão o aspecto

grandioso d'esta natureza selvagem. Effectivamente achavamo-nos no meio

de elevadas montanhas cujos cumes cheios de rochas se assimilhavam aos

fortes castellos edificados pelos Titans.

Por toda a parte rochedos escarpados, minados pelos seculos,

desprendendo-se das cumiadas tinham rolado para os valles estreitos e

escarpados e jaziam no leito de uma torrente espumosa, terrivel,

murmurante e limosa; a espaço viam-se algumas casas escondidas na

espessura de choupos, faias, castanheiros e outras arvores,

distinguindo-se pelas alvas nuvens de fumo que sahiam das chaminés.

Esta paysagem á Salvador Rosa assombreada pela tormenta e tornada mais

ameaçadora pelo sopro do vento, exaltou a alma de Garibaldi.

—É aqui, disse elle, que eu queria encontrar todo o exercito de

Radetzki: os nossos bravos legionarios não deixariam regressar a Vienna

um dos seus soldados; aqui vingariamos Varus e nossos irmãos mortos na

floresta de Teutberg.

Pelas cinco horas estavamos perto de Cascia, pequena reunião de casas

agrupadas no cume de uma collina verdejante; o vento tinha dispersado as

nuvens, o sol brilhava sobre as nevosas cumiadas, formando montanhas de

prata que se destacavam sobre um fundo azul que se tornava côr de rosa

para o lado do poente.

Descançavamos junto a um montão de palha, quando quatro mancebos vieram

perguntar-nos quem eramos, ao nome de Garibaldi partiram correndo e

passado um quarto de hora o porta-bandeira, as notabilidades, a guarda

nacional, e a multidão com musica na frente vieram receber-nos, e

convidar o general a ir á villa.

Armou-se, como por encanto, um arco triumphal de folhagem; o theatro

illuminou-se; houve jantar e baile em casa do governador, que, não

obstante, era um altivo clerical.

Lembro-me de terem apresentado a Garibaldi um camponez que, sem saber

lêr nem escrever, tinha dictado um poema completo sobre a vida pastoril.

Perto das nove horas, um visinho me disse em segredo que um rapaz de

quinze annos gemia na prisão embrutecido pelas pancadas e maus tratos do

pae, que, casando segunda vez, aos sessenta annos, com uma camponeza

muito nova, tinha, por conselho d'ella, accusado o filho de lhe ter

faltado ao respeito.

O governador recebeu vinte escudos e o rapaz foi lançado na prisão.

Fiz constar o facto e fallei d'elle ao general.

O pae foi chamado, e tambem o desgraçado rapaz. Houve então uma scena ao

mesmo tempo comica e horrenda. O pae queria, é verdade, que soltassem o

filho; mas reclamava com toda a sinceridade o dinheiro que tinha dado

para o prenderem. O rapaz chorava amargamente e abraçava Garibaldi; em

quanto ao governador, não sabia que postura havia de tomar. Por fim, fez

um discurso ao povo da janella, e o rapaz foi levado em triumpho por

todos os galopins da villa.

No dia seguinte, as cinco horas da manhã, um destacamento da guarda

nacional partiu comnosco por baixo de uma chuva miuda mas penetrante.

Acompanhou-nos até Rieti e escoltou um empregado das finanças que tinham

prendido no sitio onde almoçamos, porque era um espião pago pelo general

bourbonez Landi, commandante da columna movel na fronteira dos estados

romanos.

A legião italiana aquartelada em Rieti compunha-se de tres batalhões

(quinhentos homens) aos quaes se tinham juntado noventa lanceiros

equipados e montados á custa do seu commandante, o conde Angelo Masina

de Bolonha.

Foi com elles que o conde marchou a soccorrer Roma.

Quando os francezes desembarcaram em Civita-Vecchia, a legião achava-se

em Anagni, berço e tumulo de Bonifacio VIII.

_Aug. Vecchi._

⁂

Mas a este general que tinha todo o povo a seguil-o faltava-lhe

soldados.

Improvisaram-lhe uma brigada de elementos estranhos uns aos outros de

homens que não se conheciam, e que deviam reunir-se, fundir-se n'um só,

misturar-se por effeito do enthusiasmo que elle inspirava.

Esta brigada formou-se de dois batalhões da sua propria legião, entre os

quaes havia uns quarenta vindos com elle de Montevideo, trajando

_blouse_ vermelha com canhões verdes, de trezentos homens de volta de

Veneza, de quatrocentos mancebos da universidade, de trezentos officiaes

da alfandega, mobilisados finalmente de trezentos emigrados, ao todo

dois mil e quinhentos homens que foram encarregados de defender os muros

desde a porta Portese até ás portas San-Pancracio e Cavallegieri, e

occupando todos os pontos elevados por fóra das muralhas da villa

Corsini, conhecidos sob o nome dos _Quatro-Ventos_ até á villa Pamphili.

Segundo toda a probabilidade era sobre este ponto que empregariam mais

força os francezes que queriam conservar Civita-Vecchia para base das

suas operações.

No dia 28 de abril a vanguarda franceza estava em Palo, onde tinha

chegado na vespera um batalhão de caçadores para explorar o caminho.

No dia 29 estava em Castel-di-Guido, isto é a cinco leguas de Roma.

Então o general em chefe mandou em reconhecimento seu irmão, o capitão

Oudinot, e um official de ordenança com quinze soldados de cavallaria

ligeira.

Este reconhecimento avançou para o sitio onde se dividiam as duas

estradas Aurelianas, antiga e moderna, e a uma legua de Roma encontrou

os postos avançados dos romanos.

O official que commandava os postos avançados dirigiu-se então aos

francezes e perguntou-lhes:

—Que quereis?

—Ir a Roma, responderam os francezes.

—Não é possivel, disse o official italiano.

—Nós fallamos em nome da republica franceza.

—E nós em nome da republica romana, por tanto para traz senhores!

—E se nós não quizermos voltar para traz?

—Trataremos de os obrigar a isso.

—Por que meio?

—Pela força.

—N'esse caso disse o official francez voltando-se para os seus, se assim

é, fazei fogo.

E ao mesmo tempo disparava uma pistola que tirara dos coldres.

—Fogo! respondeu o official italiano.

O reconhecimento muito fraco para resistir, retirou-se a galope deixando

em nosso poder um caçador francez debaixo do cavallo que estava morto.

Foi preso e enviado a Roma.

O boletim francez diz que fomos nós que fugimos e fomos perseguidos, mas

se assim fosse como era possivel termos enviado a Roma um prisioneiro

feito por nós que estavamos a pé, em quanto que os francezes estavam a

cavallo?

No seguimento teremos de relevar mais de um engano d'este genero.

O reconhecimento foi pois levar ao general a noticia de que Roma estava

prompta a defender-se, e que deviam perder a esperança de entrar ahi sem

queimar uma escorva, e no meio das acclamações do povo como esperavam.

O general em chefe nem por isso afrouxou a marcha.

No dia seguinte, 30 de abril, avançou a passo dobrado, deixando em

Maglianilla as bagagens dos seus soldados.

Relevemos um novo engano relativo ao dia 30 de abril como relevamos o de

29.

Certos escriptores disseram que victimas de uma vil intriga, os soldados

tinham sido attrahidos para a cidade em perseguição de um simples

reconhecimento e tinham cahido n'uma cilada.

O negocio do dia 30 não foi um reconhecimento aos francezes, não se lhe

armou cilada alguma.

O successo do dia 30 foi um combate em que muito esperava o general

francez, e a prova é o plano de batalha que se segue achado a um

official francez morto, e transmittido pelo coronel Masi ao general

ministro da guerra.[2]

[2] Não estou escrevendo um romance, estou publicando _Memorias_.

Vejo-me pois forçado a traduzir textualmente. Não nego nem

affirmo, instruo um processo diante d'esse grande e ultimo juizo

que se chama a Verdade.

«Dever-se-ha dirigir um duplo ataque pelas portas Angelica e

Cavallegieri, com o fim de dividir a attenção do inimigo.

«Pela primeira forçar-se-hão as tropas inimigas que acampam em

Monte-Mario, e em seguida poder-se-ha occupar a porta Angelica.

«Quando os nossos tiverem occupado estes dois pontos

apertaremos o inimigo com toda a força possivel em todos os

sentidos e o ponto geral de reunião será na Praça de S. Pedro.

«Recommenda-se sobre tudo poupar o sangue francez.»

A idéa do general francez não só era má, mas foi mal executada; vamos

tentar proval-o.

A estrada que conduz de Civita-Vecchia a Roma separa-se em duas a

quinhentos metros pouco mais ou menos das muralhas, conduzindo pela

direita á porta San-Pancracio, e pela esquerda á porta Cavallegieri

visinha do angulo saliente do Vaticano.

Memorias de José Garibaldi, volume 2 Traduzidas do manuscripto original por Alexandre Dumas · 第 4 / 10 段