Estava encarregado de ir ao Piemonte e á Toscana e ver varios homens

eminentes, e alem d'outros Fanti, Guerazzi, e Beluomini filho do

general, tinha a morada de Guerazzi, escondido proximo a Pistoia.

Ajudado d'estes poderosos auxiliares, devia organisar a insurreição, de

modo que quando Garibaldi desembarcasse em Via Reggio, a achasse

prompta, e então apoderar-nos-ia-mos de Lucques, e marchariamos para

onde houvesse esperança.

Atravessei París, depois da revolta de 15 de Maio, passei á Italia, e ao

cabo de um mez, tinha 300 homens, promptos para marchar para onde

quizesse, até para o inferno se fôra necessario; foi então que sube que

Garibaldi tinha desembarcado em Nice.

A minha primeira impressão, foi o sentimento que elle se tivesse

esquecido do que entre nós tinhamos convencionado.

Logo depois sube que Garibaldi tinha sahido de Nice, e ahi tinha deixado

Anzani a morrer.

Gostava muito de Anzani, todos gostavam d'elle.

Corri a Nice, Anzani estava ainda vivo. Fil-o transportar para Genova,

onde recebeu hospitalidade no palacio do marquez Gavotto, no quarto que

occupava o pintor Gallino.

Estabeleci-me á sua cabeceira, e não o abandonei mais, estava affectado

mais do que merecia, com a minha preocupação contra Garibaldi, muitas

vezes me fallava d'elle, e um dia agarrando-me uma mão, e com um ar

prophetico, disse-me—Medici, não sejas severo com Garibaldi, é um homem

que recebeu do ceo tal felicidade, que faz bem de se seguir. O futuro da

Italia depende d'elle, é um predestinado; algumas vezes me zanguei com

elle, porém convencido da sua missão, sempre fui o primeiro a fazer as

pazes.

Estas palavras chocaram-me, como as ultimas de um moribundo, e muitas

vezes depois me tem vindo á memoria.

Anzani era philosopho, e praticava pouco os deveres materiaes da

religião; comtudo na hora da morte, perguntando-se-lhe se queria um

padre, disse que lhe levassem um, e como eu me admirasse d'este acto que

chamava fraqueza, disse-me:

—Meu amigo, a Italia espera muito n'este momento em dois homens, Pio IX

e Garibaldi; pois bem, é preciso que não sejam accusados os companheiros

de Garibaldi, de herejes. E dizendo isto sacramentou-se.

Nessa mesma noute, ás tres horas da madrugada, morreu nos meus braços,

sem perder um momento os sentidos, nem ter tido um momento de delirio.

As suas ultimas palavras foram:

—Não te esqueças da minha recommendação, a respeito do Garibaldi.

E deu o ultimo suspiro.

O corpo, e os papeis de Anzani foram entregues a seu irmão, homem

inteiramente dedicado ao partido austriaco.

O corpo foi levado para Alzate, patria de Anzani, e o cadaver do homem,

que seis mezes antes, não tinha achado em toda a Italia, uma pedra em

que descançasse a cabeça, teve uma marcha triumphal.

Quando se soube a sua morte em Montevideo, houve lucto geral na legião,

cantaram-lhe um requien, e o doutor Bartholomeu Udicine, medico e

cirurgião, recitou um discurso funebre.

Pelo que diz respeito a Garibaldi, fez quanto poude reviver a sua

lembrança, e quando organisou os batalhões lombardos, chamou ao

primeiro, batalhão de Anzani.

Depois da morte de Anzani parti para Turim.

Um dia passeando debaixo das arcadas, achei-me por acaso cara a cara com

Garibaldi; vendo-o, a recommendação de Anzani; veio-me á memoria, é

verdade que era secundada do profundo respeito e amisade que tinha a

Garibaldi.

Cahimos nos braços um do outro. Depois de nos termos ternamente

abraçado, a lembrança da patria, veiu-nos á memoria ao mesmo tempo.

—Que faremos, dissemos nós um ao outro.

—Então, perguntei-lhe, se não chegava de Robervella de offerecer a sua

espada a Carlos Alberto?

Sorriu desdenhosamente.

—Essa gente me disse elle, não é digna que corações como os nossos se

lhes submettam. Não tratemos de homens, caro Medici, só da patria, e

nada mais!

Como não parecia disposto, a contar-me a sua entrevista com Carlos

Alberto, cessei de interrogal-o.

Depois sube, que o rei Carlos Alberto, o tinha recebido friamente;

mandando-o para Turim, esperar as ordens do seu ministro da guerra, mr.

Ricci.

Mr. Ricci dignou-se lembrar que Garibaldi esperava ordens suas, mandou-o

chamar e disse-lhe:

—Aconselho-vos, que partaes para Veneza, e ahi tomando o commando de

alguns pequenos navios, podereis como corsario, ser muito util aos

venezianos, julgo que o vosso logar é ahi, e em mais parte alguma.

Garibaldi não respondeu a Mr. Ricci, só em logar de ir para Veneza ficou

em Turim.

Eis a razão porque o encontrei nas arcadas.

—Que faremos pois, dissemos nós em seguida.

Com os homens da tempera de Garibaldi as resoluções são repentinamente

tomadas.

Resolvemos ir para Milão, e partimos essa mesma noute.

A occasião era boa, acabava-se de receber a noticia dos primeiros

revezes, soffridos pelo exercito piemontez.

O governo provisorio deu a Garibaldi o titulo de general, e authorisou-o

para organisar batalhões de voluntarios lombardos.

Garibaldi e eu, debaixo das suas ordens, tratamos logo d'isso.

Principiamos por um batalhão de voluntarios de Vicencia, que nos chegou

organisado de Pavia.

Garibaldi creava o batalhão Anzani, que bem depressa completou.

Eu tinha a meu cargo disciplinar toda essa mocidade das barricadas, que

durante cinco dias, com 300 espingardas e 400 ou 500 homens, affastou de

Milão Radetzki e os seus vinte mil soldados.

Porem nós luctavamos com as mesmas dificuldades, com que Garibaldi

luctou em 1859.

Os corpos dos voluntarios, que representam o espirito da revolução

assustam sempre os governos, uma só palavra bastará para dar idéa dos

nossos.

Era Mazzini o porta-bandeira, e uma companhia denominava-se Medici.

Por esta razão, commeçaram a recusar-nos armas; e um homem d'oculos, que

occupava um logar importante no ministerio, dizia em voz alta que eram

armas perdidas, por que Garibaldi era um espadachim, e mais nada.

Nós diziamos, que nos forneceriamos d'armas, porém que ao menos nos

dessem uniformes, responderam-nos, que não havia uniformes, mas abriram

armazens onde existiam uniformes austriacos, hungaros e croatas.

Eram os proprios, para gente que pedia para morrer combatendo croatas,

hungaros e austriacos, e todos os nossos soldados, mancebos pertencentes

ás primeiras familias de Milão, de que algumas eram millionarias,

recusaram com indignação.

Mas como era necessario tomar uma resolução, porque não podiamos

combater uns de fraque outros de sobrecasaca, acceitamos os fatos dos

soldados chamados _ritters_, e fizemos delles uma especie de _bluses_.

Era irrisorio pois pareciamos um regimento de cosinheiros, e era preciso

ter boa vista para reconhecer debaixo d'aquelle panno grosseiro a flor

da mocidade milaneza.

Em quanto que se affeiçoavam os fatos á medida de cada um, procuravam-se

armas e munições por todos os meios possiveis, e emfim depois de armados

e vestidos, marchamos para Bergamo, cantando hymnos patrioticos.

Pelo que me diz respeito tinha debaixo das minhas ordens, cerca de 180

jovens, quasi todos, como disse, das primeiras familias de Milão.

Chegamos a Bergamo, e nos juntamos a Mazzini, que vinha tomar o seu

logar nas nossas filas, e foi recebido com acclamações.

Ahi um regimento de linha regular piemontez se nos juntou, trazendo

comsigo duas peças pertencentes á guarda nacional.

Apenas chegamos, recebemos uma ordem da «comité» de Milão, que se

compunha de Fanti, Maestri e Resteli, para voltarmos a marchas forçadas

para Milão; obedecemos e começamos a nossa contramarcha para Milão.

Porém chegando a Monza, soubemos que Milão tinha capitulado e que um

corpo de cavallaria austriaca tinha sido mandado em nossa perseguição.

Garibaldi ordenou então uma retirada sobre Como, a nossa estrategia era

approximar-nos quanto nos fosse possivel da fronteira suissa. Garibaldi

mandou-me para a retaguarda para sustentar a retirada.

Estavamos já muito cançados da marcha forçada que acabavamos de fazer,

não tinhamos tido tempo para comer em Monza, cahiamos de fome e

cançasso, e a nossa gente retirava-se em desordem e completamente

desmoralisada.

O resultado d'esta desmoralisação foi que quando chegamos a Como

começaram-nos a desertar soldados, de modo que sobre cinco mil homens

que tinha Garibaldi, quatro mil e duzentos passaram para a Suissa,

ficando apenas com oitocentos.

Garibaldi como se tivesse ainda os seus cinco mil homens, com o seu

sangue frio habitual, collocou-se em Camerlata, ponto de juncção de

diversas estradas, diante de Como. Ahi estabeleceu uma bateria com as

duas peças de artilheria, e expediu correios a Manara, Griffini, e a

Durando e Apice, e aos chefes dos corpos de voluntarios da alta

Lombardia, convidando-os a concordarem entre si, o tomarem posições

fortes, e sustentaveis até á ultima, apoiados na fronteira suissa.

O convite não teve resultado.

Então Garibaldi retirou de Camerlata para San Fermo, onde em 1859,

batemos completamente os austriacos. Porém antes de nos collocarmos na

Praça de São Fermo, reuniu-nos e fez-nos uma falla.—Os discursos de

Garibaldi, vivos e pittorescos, tem a verdadeira eloquencia do soldado.

Disse-nos que era preciso continuar a guerra em guerrilha, que esta

guerra era a mais segura e a menos perigosa, que bastava confiar no

chefe, e ajudarem-se os camaradas.

Apesar d'esta energica allocução houveram novas deserções durante a

noute, e de madrugada a nossa gente achava-se reduzida a quatrocentos ou

quinhentos homens.

Garibaldi, com grande desgosto, decidiu-se a entrar no Piemonte, porém

na occasião em que atravessava a fronteira, envergonhou-se de retirar

sem combate, demora-se em Castelletto sobre o Tecinio, ordena-me que

percorra os arredores e que lhe traga o maior numero de desertores

possivel. Fui até Lugano e trouxe trezentos homens, contamos-nos, eramos

setecentos e cincoenta. Garibaldi acha-se em força sufficiente para

marchar contra os austriacos.

No dia 12 d'agosto, fez a sua famosa proclamação, na qual declara que

Carlos Alberto é um traidor, que os italianos, nem se podem nem se devem

fiar n'elle, e que todo o patriota deve ter como um dever, o fazer a

guerra por sua conta.

Feita esta proclamação, no momento em que de todos os lados se tocava á

retirada, nós unicos marchavamos adiante, e Garibaldi com setecentos e

cincoenta homens, fez um movimento offensivo contra o exercito

austriaco.

Marchámos sobre Arona, apoderamos-nos de dois navios a vapôr, e de

outras pequenas embarcações. Começámos o embarque, que durou até á

noite, e no dia seguinte de madrugada chegámos a Luino.

Garibaldi estava doente, tinha uma febre intermitente contra os accessos

da qual tentava em vão luctar.

Com um d'estes accessos, entrou na estalagem da _Galinhola_, casa

isolada á entrada de Luino, e separada da vinha por um riacho, sobre o

qual está lançada uma ponte. Mandou-me chamar e disse-me:

—Medici, necessito por força de duas horas de descanço, toma o meu

logar, e vigia por nós.

A estalagem da _Galinhola_ era mal escolhida para quem queria socegar,

era a sentinella avançada de Luino, a primeira casa que devia ser

atacada pelo inimigo, suppondo-o nas circumvisinhanças.

Nada sabiamos dos movimentos dos austriacos, ignorando se estavamos a

dez legoas d'elles ou a um kilometro; comtudo disse a Garibaldi que

dormisse tranquilamente, asseverando-lhe que tomaria todas as precauções

para que o seu somno não soffresse interrupção. Feita esta promessa,

sahi; as armas estavam ensarilhadas do outro lado da ponte, e a gente

acampada entre ella e Luino.

Colloquei sentinellas á estalagem da _Galinhola_, e mandei uns lapões

explorar as proximidades.

Passada meia hora, os meus vigias voltaram todos assustados gritando:

—Os austriacos! Os austriacos!

Corri ao quarto de Garibaldi, dando o mesmo grito:

—Os austriacos!

Garibaldi estava na maior força da febre, saltou do leito, e

ordenando-me que mandasse tocar a reunir, da janella poz-se a descobrir

campo dizendo que não tardaria em nos alcançar.

Com effeito d'ahi a dez minutos estava no meio de nós.

Dividiu a nossa pouca gente em duas columnas; uma obstruindo o caminho,

foi destinada a fazer frente aos austriacos, a outra tomando uma posição

de flanco, impedia que nos voltassemos, e podia tambem atacar.

Os austriacos em breve appareceram na estrada, seriam mil e duzentos

homens, e apoderaram-se immediatamente da _Galinhola_.

Garibaldi deu ordem logo á columna que obstruia a estrada de atacar;

esta columna compunha-se de quatro centos homens, atacando resolutamente

mil e duzentos.

É o costume de Garibaldi, nunca conta os inimigos nem os seus, o inimigo

está na frente, logo deve ser atacado. É forçoso confessar que quasi

sempre esta tactica lhe deu bom resultado.

Comtudo os austriacos faziam resistencia, e por isso Garibaldi julgando

que seria necessario engajar todas as forças, chamou a columna do flanco

e renovou o ataque.

Tinha diante de mim um muro que escalei com a minha companhia,

achando-me n'um jardim. Os austriacos faziam fogo por todas as aberturas

do albergue.

Apesar d'isso lançámo-nos no meio das ballas, atacámos á bayoneta,

entrando por essas mesmas aberturas que um instante antes vomitavam

fogo.

Os austriacos retiraram-se em completa desordem.

Garibaldi havia dirigido o ataque a cavallo, no meio da ponte, sendo um

verdadeiro milagre que exposto ao fogo do inimigo não fosse ferido.

Quando viu fugir os austriacos disse-me que os seguisse com a minha

companhia.

A deserção havia-a reduzido a cem homens, e com elles persegui mil e

cem. Comtudo n'esta acção não houve grande merito, porque os austriacos

tomados por um verdadeiro panico, fugiam abandonando as espingardas e

patronas, não parando senão em Veneza.

Deixaram na _Galinhola_ uns cem mortos e feridos, e oitenta

prisioneiros.

Devo dizer que os austriacos tinham parado em Germiniada; voltei ahi,

mas já elles tinham partido. Segui então as suas pisadas, mas apesar de

correr bem, não os pude alcançar.

Durante a noite soubemos que uma força austriaca, mais consideravel que

a primeira, se dirigia para nós. Garibaldi ordenou-me que ficasse na

Germiniada, mandando eu logo fazer barricadas.

Tinhamos um tal habito d'estas fortificações que nos era só necessaria

uma hora para pôr a ultima em estado de sustentar um circo.

A noticia era falsa.

Garibaldi enviou duas ou tres companhias em differentes direcções, e

quando voltaram, mandou reunir todo o nosso exercito, dando-lhe ordem

para marchar sobre Guerla, e de lá para Varese, onde foi recebido em

triumpho.

Dirigiamo-nos directamente sobre Radetzki.

Em Varese occupámos Duimodi-Sopra, logar que domina Varese, e que nos

assegurava a retirada.

Ahi Garibaldi mandou fusillar um espião austriaco, que devia dar

esclarecimentos a tres columnas de austriacos que se dirigiam contra

nós.

Uma marchava sobre Como, outra sobre Varese, e a terceira separando-se

d'estas, dirigia-se sobre Luino.

Era evidente que o plano dos austriacos era de se collocarem entre

Garibaldi e Luzano, cortando-lhe a retirada fosse para o Piemonte ou

para a Suissa.

Partimos então de Buimo para Arcisate.

De Arcisate, Garibaldi mandou-me com a minha companhia que ia sempre de

vanguarda, para Viggia.

Chegando ahi com os meus cem homens, recebi ordem de me dirigir

immediatamente contra os austriacos.

A primeira divisão de que eu tive conhecimento foi a de Aspre, forte de

cinco mil homens.

Foi este mesmo general que ordenou depois os massacres de Livourne.

Em consequencia da ordem recebida, preparei-me para o combate, e para o

dar na melhor ordem possivel apoderei-me de tres pequenas villas que

formavam um triangulo—Catzone, Ligurno, e Rodero.

Estas tres villas guardavam todas as estradas que vinham de Como.

Por detraz d'estas villas achava-se uma forte posição, S. Maffeo,

rochedo inexpugnavel, e pelo qual não tinha senão deixar-me escorregar

para me achar na Suissa.

Havia dividido os meus cem homens em tres destacamentos, occupando cada

um d'elles uma villa.

Eu estava em Ligurno.

Tinha chegado durante a noite com os meus quarenta homens e havia-me

fortificado o melhor que tinha podido.

Ao romper do dia fui atacado pelos austriacos.

Tinham-se primeiramente apoderado de Rodero, que haviam encontrado

abandonado, porque durante a noite a guarnição havia-se retirado para a

Suissa. Fiquei com os meus sessenta e oito homens.

Chamei os trinta homens que estavam em Catzone e dirigi-me para S.

Maffeo aonde podia resistir.

Apenas ahi tinha chegado fui logo atacado. De Rodero os canhões

austriacos nos enviaram foguetes á congreve.

Lancei os olhos em roda de mim, a montanha estava rodeada de cavallaria,

mas apezar d'isso resolvi-me defender-nos em quanto podessemos.

Os austriacos começaram o assalto. Infelizmente cada um de nós só tinha

vinte cartuxos, e as nossas espingardas não eram das melhores.

Ao estrondo da fuzillaria as montanhas da Suissa, visinhas de S. Maffeo,

cobriram-se de curiosos, e cinco ou seis d'estes não se podendo conter

vieram unir-se comnosco tomando parte no combate.

Sustentei o combate até que os meus homens tivessem queimado os ultimos

cartuxos.

Esperei sempre que Garibaldi ouvindo o estrondo do combate viria

coadjuvar-me, mas Garibaldi tinha mais que fazer, porque tendo os

austriacos marchado sobre Luino, Garibaldi ia-lhe ao encontro.

Tendo queimado até ao meu ultimo cartuxo, pensei que era tempo de cuidar

na retirada. Guiados pelos nossos suissos tomámos atravez os rochedos um

caminho sómente conhecido dos habitantes do paiz.

Uma hora depois estavamos na Suissa.

Retirei-me com os meus homens para um pequeno bosque, emprestando-nos os

habitantes caixas para esconder-mos as espingardas, afim de as

encontrarmos quando nos fosse necessarias.

Durante mais de quatro horas, sessenta e oito homens tinham feito frente

a cinco mil.

O general d'Aspre mandou annunciar em todos os jornaes que tinha

sustentado um combate encarniçado contra o exercito de Garibaldi

havendo-o posto em completa derrota. Só os austriacos são capazes de

dizer d'estas petas.

XIII

CONTINUAÇÃO DA CAMPANHA DA LOMBARDIA

Garibaldi marchava como já disse sobre Luino; mas antes d'ahi chegar,

recebera noticia de que Luino estava já occupado pelos austriacos, ao

mesmo tempo que a columna d'Aspres, depois da sua grande victoria sobre

nós se apoderava d'Arcisate.

A retirada de Garibaldi sobre a Suissa tornava-se desde então

difficultosa. Decidiu-se pois a marchar direito a Morazzone, posição

muito forte e por consequencia muito vantajosa.

Além d'isso, o ruido do canhão que tinha ouvido lhe tinha feito crescer

agua na bocca.

Apenas tinha acampado viu-se completamente rodeado por cinco mil

austriacos.

Comsigo tinha quinhentos homens.

Durante um dia com seus quinhentos homens sustentou o ataque dos cinco

mil austriacos. Vindo a noite, formou os seus em columna cerrada, e

lançou-se sobre o inimigo á bayoneta.

Favorecido pela obscuridade fez uma sanguinolenta passagem, e achou-se

em campo raso.

A uma legua de Morazzone licenciou seus voluntarios, dando-lhes ponto de

reunião em Lugano, e a pé com um guia, desfarçado em paisano seguiu para

a Suissa.

Uma manhã soube em Lugano que Garibaldi, que todos criam morto, ou pelo

menos prisioneiro em Morazzone, tinha chegado a uma aldêa visinha.

Então vieram-me á memoria as palavras propheticas de Anzani.

Corri a Garibaldi, achei-o na cama, quebrado, moido, e apenas podendo

fallar. Acabava de fazer uma marcha de seis horas, e só por milagre

havia escapado aos austriacos.

A sua primeira pergunta ao ver-me foi:

—Tens a tua companhia prompta?

—Tenho, lhe respondi.

—Pois bem, deixa-me dormir esta noite, e ámanhã prepararemos a nossa

gente e recomeçaremos.

Não pude deixar de me rir: era evidente que no dia seguinte estaria

tolhido a ponto de não poder mover uma perna.

No dia immediato, com grande admiração minha, Garibaldi estava a pé; a

alma e o corpo n'este homem são eguaes, ambos de bronze.

Mas nada havia a fazer; a campanha de Garibaldi na Lombardia estava

finda.

Garibaldi então entrou no Piemonte e volveu a Genova.

Ali recebeu propostas que lhe trazia uma deputação siciliana.

Estas propostas eram de embarcar para a Sicilia, afim d'ahi sustentar a

causa da revolução.

Acceitou-as e partiu com trezentos homens para Livourne; mas ahi sabendo

o que se passava em Roma, abandonou a idéa da sua expedição á Sicilia e

partiu para Roma.

É ali que prestes o encontraremos.

Quanto a mim fiquei em Lugano com a minha companhia, a que tendo reunido

alguns desertores se achava com o numero de oitenta homens, e foi-me

permittido conservar-me com elles n'um deposito.

As nossas armas estavam sempre occultas, mas debaixo de mão.

Durante este momento de repouso organisámos, para não perder tempo, uma

insurreição na Lombardia.

O governo da Suissa foi prevenido d'isto, e fez occupar o cantão de

Tessino pelos contingentes federaes.

Resolveu-se então de me internar.

Fui com duzentos homens, a maior parte dos quaes haviam servido com

Garibaldi, e outros comigo, enviado para Bellinzona, onde nos guardaram

n'um quartel, como perigosos e capazes de violar a fronteira.

O projecto não deixou de marchar.

Os generaes Ascioni e d'Aspice deviam partir de Lugano e dirigir-se

sobre Como pelo valle de Intelvi.

Quanto a mim devia partir de Bellinzona, atravessar a passagem do Jorio,

uma das mais elevadas e difficeis da fronteira, descer sobre o lago de

Como, e chamar os habitantes ás armas. Depois do que, com a minha gente,

iria reunir-me aos dois generaes.

Como eramos guardados á vista, a cousa era difficil de executar.

Sobre uma altura que dominava Bellinzona estão as ruinas de um velho

castello que out'rora pertenceu aos Visconti.

É ali que tinha feito guardar as nossas armas e as munições que depois

podera obter.

Ao todo tinha duzentos e cincoenta homens. Dividi-os em oito ou dez

bandos, que deviam por muitas estradas, evitando a vigilancia das

tropas, reunir-se no castello.

Contra toda a esperança o projecto realisou-se completamente.

Cada um se encontrou no ponto de reunião sem encontrar impedimento;

armei todos e estava prompto para partir para a montanha, quero dizer

atravessar a fronteira.

Repentinamente ouvi tocar a rebate; as tropas dispunham-se a marchar em

minha perseguição.

Mas os habitantes que me tinham votado amisade decidida, sublevaram-se

em meu favor, e ameaçaram se se não calasse o tambor, de se armarem e

fazer barricadas.

Livre d'este cuidado dei á minha gente ordem de se pôr em marcha;

estavamos no fim de outubro, o norte soprava e promettia-nos nova noite

de tempestade.

Marchámos toda a noite contra o vento, com o rosto açoutado pela neve.

Vindo o dia, marchámos sem parar durante o seu curso; era preciso

atravessar o cimo cuberto de neve do Jorio; o inverno tinha tornado

impraticaveis as passagens; entretanto atravessamol-o com neve quasi

sempre até ao joelho, muitas vezes até aos sovacos dos braços.

Depois de trabalhos infinitos, chegámos, emfim, ao cume; mas ali um

inimigo mais terrivel do que todos os que tinhamos vencido até então nos

esperava: a tormenta.

N'um instante ficámos completamente cegos, e não distinguiamos nada a

dez passos de distancia.

Disse então aos meus bravos de se apertarem uns contra os outros,

marchar n'uma só fila e seguir-me avançando com a maior rapidez. Tres

ficaram para traz, cahindo para não mais se levantarem, escondidos em a

neve, dormindo ou velando talvez no cume do Jorio.

Marchei primeiro, sem seguir nenhuma estrada real, sem saber onde ia,

fiando em a nossa boa fortuna, quando repentinamente parei; o rochedo me

faltava debaixo dos pés; um passo mais e cabia no precipicio!

Fiz alto, ordenando que cada um ficasse no logar em que estava até

nascer o dia.

Então só com um guia procurei um caminho toda a noite; a cada instante a

terra, ou antes a neve faltava debaixo de nós, ou os pés nos

escorregavam. Era por milagre que um de nós não ficava escondido, ou

morto na queda.

Emfim ao raiar do dia, chegámos perto de algumas cabanas abandonadas.

Entretanto como offereciam um abrigo, quiz voltar para os meus homens.

Mas então as forças abandonaram-me, e cahi quebrado de fadiga e transido

de frio.

Memorias de José Garibaldi, volume 2 Traduzidas do manuscripto original por Alexandre Dumas · 第 3 / 10 段