eminentes, e alem d'outros Fanti, Guerazzi, e Beluomini filho do
general, tinha a morada de Guerazzi, escondido proximo a Pistoia.
Ajudado d'estes poderosos auxiliares, devia organisar a insurreição, de
modo que quando Garibaldi desembarcasse em Via Reggio, a achasse
prompta, e então apoderar-nos-ia-mos de Lucques, e marchariamos para
onde houvesse esperança.
Atravessei París, depois da revolta de 15 de Maio, passei á Italia, e ao
cabo de um mez, tinha 300 homens, promptos para marchar para onde
quizesse, até para o inferno se fôra necessario; foi então que sube que
Garibaldi tinha desembarcado em Nice.
A minha primeira impressão, foi o sentimento que elle se tivesse
esquecido do que entre nós tinhamos convencionado.
Logo depois sube que Garibaldi tinha sahido de Nice, e ahi tinha deixado
Anzani a morrer.
Gostava muito de Anzani, todos gostavam d'elle.
Corri a Nice, Anzani estava ainda vivo. Fil-o transportar para Genova,
onde recebeu hospitalidade no palacio do marquez Gavotto, no quarto que
occupava o pintor Gallino.
Estabeleci-me á sua cabeceira, e não o abandonei mais, estava affectado
mais do que merecia, com a minha preocupação contra Garibaldi, muitas
vezes me fallava d'elle, e um dia agarrando-me uma mão, e com um ar
prophetico, disse-me—Medici, não sejas severo com Garibaldi, é um homem
que recebeu do ceo tal felicidade, que faz bem de se seguir. O futuro da
Italia depende d'elle, é um predestinado; algumas vezes me zanguei com
elle, porém convencido da sua missão, sempre fui o primeiro a fazer as
pazes.
Estas palavras chocaram-me, como as ultimas de um moribundo, e muitas
vezes depois me tem vindo á memoria.
Anzani era philosopho, e praticava pouco os deveres materiaes da
religião; comtudo na hora da morte, perguntando-se-lhe se queria um
padre, disse que lhe levassem um, e como eu me admirasse d'este acto que
chamava fraqueza, disse-me:
—Meu amigo, a Italia espera muito n'este momento em dois homens, Pio IX
e Garibaldi; pois bem, é preciso que não sejam accusados os companheiros
de Garibaldi, de herejes. E dizendo isto sacramentou-se.
Nessa mesma noute, ás tres horas da madrugada, morreu nos meus braços,
sem perder um momento os sentidos, nem ter tido um momento de delirio.
As suas ultimas palavras foram:
—Não te esqueças da minha recommendação, a respeito do Garibaldi.
E deu o ultimo suspiro.
O corpo, e os papeis de Anzani foram entregues a seu irmão, homem
inteiramente dedicado ao partido austriaco.
O corpo foi levado para Alzate, patria de Anzani, e o cadaver do homem,
que seis mezes antes, não tinha achado em toda a Italia, uma pedra em
que descançasse a cabeça, teve uma marcha triumphal.
Quando se soube a sua morte em Montevideo, houve lucto geral na legião,
cantaram-lhe um requien, e o doutor Bartholomeu Udicine, medico e
cirurgião, recitou um discurso funebre.
Pelo que diz respeito a Garibaldi, fez quanto poude reviver a sua
lembrança, e quando organisou os batalhões lombardos, chamou ao
primeiro, batalhão de Anzani.
Depois da morte de Anzani parti para Turim.
Um dia passeando debaixo das arcadas, achei-me por acaso cara a cara com
Garibaldi; vendo-o, a recommendação de Anzani; veio-me á memoria, é
verdade que era secundada do profundo respeito e amisade que tinha a
Garibaldi.
Cahimos nos braços um do outro. Depois de nos termos ternamente
abraçado, a lembrança da patria, veiu-nos á memoria ao mesmo tempo.
—Que faremos, dissemos nós um ao outro.
—Então, perguntei-lhe, se não chegava de Robervella de offerecer a sua
espada a Carlos Alberto?
Sorriu desdenhosamente.
—Essa gente me disse elle, não é digna que corações como os nossos se
lhes submettam. Não tratemos de homens, caro Medici, só da patria, e
nada mais!
Como não parecia disposto, a contar-me a sua entrevista com Carlos
Alberto, cessei de interrogal-o.
Depois sube, que o rei Carlos Alberto, o tinha recebido friamente;
mandando-o para Turim, esperar as ordens do seu ministro da guerra, mr.
Ricci.
Mr. Ricci dignou-se lembrar que Garibaldi esperava ordens suas, mandou-o
chamar e disse-lhe:
—Aconselho-vos, que partaes para Veneza, e ahi tomando o commando de
alguns pequenos navios, podereis como corsario, ser muito util aos
venezianos, julgo que o vosso logar é ahi, e em mais parte alguma.
Garibaldi não respondeu a Mr. Ricci, só em logar de ir para Veneza ficou
em Turim.
Eis a razão porque o encontrei nas arcadas.
—Que faremos pois, dissemos nós em seguida.
Com os homens da tempera de Garibaldi as resoluções são repentinamente
tomadas.
Resolvemos ir para Milão, e partimos essa mesma noute.
A occasião era boa, acabava-se de receber a noticia dos primeiros
revezes, soffridos pelo exercito piemontez.
O governo provisorio deu a Garibaldi o titulo de general, e authorisou-o
para organisar batalhões de voluntarios lombardos.
Garibaldi e eu, debaixo das suas ordens, tratamos logo d'isso.
Principiamos por um batalhão de voluntarios de Vicencia, que nos chegou
organisado de Pavia.
Garibaldi creava o batalhão Anzani, que bem depressa completou.
Eu tinha a meu cargo disciplinar toda essa mocidade das barricadas, que
durante cinco dias, com 300 espingardas e 400 ou 500 homens, affastou de
Milão Radetzki e os seus vinte mil soldados.
Porem nós luctavamos com as mesmas dificuldades, com que Garibaldi
luctou em 1859.
Os corpos dos voluntarios, que representam o espirito da revolução
assustam sempre os governos, uma só palavra bastará para dar idéa dos
nossos.
Era Mazzini o porta-bandeira, e uma companhia denominava-se Medici.
Por esta razão, commeçaram a recusar-nos armas; e um homem d'oculos, que
occupava um logar importante no ministerio, dizia em voz alta que eram
armas perdidas, por que Garibaldi era um espadachim, e mais nada.
Nós diziamos, que nos forneceriamos d'armas, porém que ao menos nos
dessem uniformes, responderam-nos, que não havia uniformes, mas abriram
armazens onde existiam uniformes austriacos, hungaros e croatas.
Eram os proprios, para gente que pedia para morrer combatendo croatas,
hungaros e austriacos, e todos os nossos soldados, mancebos pertencentes
ás primeiras familias de Milão, de que algumas eram millionarias,
recusaram com indignação.
Mas como era necessario tomar uma resolução, porque não podiamos
combater uns de fraque outros de sobrecasaca, acceitamos os fatos dos
soldados chamados _ritters_, e fizemos delles uma especie de _bluses_.
Era irrisorio pois pareciamos um regimento de cosinheiros, e era preciso
ter boa vista para reconhecer debaixo d'aquelle panno grosseiro a flor
da mocidade milaneza.
Em quanto que se affeiçoavam os fatos á medida de cada um, procuravam-se
armas e munições por todos os meios possiveis, e emfim depois de armados
e vestidos, marchamos para Bergamo, cantando hymnos patrioticos.
Pelo que me diz respeito tinha debaixo das minhas ordens, cerca de 180
jovens, quasi todos, como disse, das primeiras familias de Milão.
Chegamos a Bergamo, e nos juntamos a Mazzini, que vinha tomar o seu
logar nas nossas filas, e foi recebido com acclamações.
Ahi um regimento de linha regular piemontez se nos juntou, trazendo
comsigo duas peças pertencentes á guarda nacional.
Apenas chegamos, recebemos uma ordem da «comité» de Milão, que se
compunha de Fanti, Maestri e Resteli, para voltarmos a marchas forçadas
para Milão; obedecemos e começamos a nossa contramarcha para Milão.
Porém chegando a Monza, soubemos que Milão tinha capitulado e que um
corpo de cavallaria austriaca tinha sido mandado em nossa perseguição.
Garibaldi ordenou então uma retirada sobre Como, a nossa estrategia era
approximar-nos quanto nos fosse possivel da fronteira suissa. Garibaldi
mandou-me para a retaguarda para sustentar a retirada.
Estavamos já muito cançados da marcha forçada que acabavamos de fazer,
não tinhamos tido tempo para comer em Monza, cahiamos de fome e
cançasso, e a nossa gente retirava-se em desordem e completamente
desmoralisada.
O resultado d'esta desmoralisação foi que quando chegamos a Como
começaram-nos a desertar soldados, de modo que sobre cinco mil homens
que tinha Garibaldi, quatro mil e duzentos passaram para a Suissa,
ficando apenas com oitocentos.
Garibaldi como se tivesse ainda os seus cinco mil homens, com o seu
sangue frio habitual, collocou-se em Camerlata, ponto de juncção de
diversas estradas, diante de Como. Ahi estabeleceu uma bateria com as
duas peças de artilheria, e expediu correios a Manara, Griffini, e a
Durando e Apice, e aos chefes dos corpos de voluntarios da alta
Lombardia, convidando-os a concordarem entre si, o tomarem posições
fortes, e sustentaveis até á ultima, apoiados na fronteira suissa.
O convite não teve resultado.
Então Garibaldi retirou de Camerlata para San Fermo, onde em 1859,
batemos completamente os austriacos. Porém antes de nos collocarmos na
Praça de São Fermo, reuniu-nos e fez-nos uma falla.—Os discursos de
Garibaldi, vivos e pittorescos, tem a verdadeira eloquencia do soldado.
Disse-nos que era preciso continuar a guerra em guerrilha, que esta
guerra era a mais segura e a menos perigosa, que bastava confiar no
chefe, e ajudarem-se os camaradas.
Apesar d'esta energica allocução houveram novas deserções durante a
noute, e de madrugada a nossa gente achava-se reduzida a quatrocentos ou
quinhentos homens.
Garibaldi, com grande desgosto, decidiu-se a entrar no Piemonte, porém
na occasião em que atravessava a fronteira, envergonhou-se de retirar
sem combate, demora-se em Castelletto sobre o Tecinio, ordena-me que
percorra os arredores e que lhe traga o maior numero de desertores
possivel. Fui até Lugano e trouxe trezentos homens, contamos-nos, eramos
setecentos e cincoenta. Garibaldi acha-se em força sufficiente para
marchar contra os austriacos.
No dia 12 d'agosto, fez a sua famosa proclamação, na qual declara que
Carlos Alberto é um traidor, que os italianos, nem se podem nem se devem
fiar n'elle, e que todo o patriota deve ter como um dever, o fazer a
guerra por sua conta.
Feita esta proclamação, no momento em que de todos os lados se tocava á
retirada, nós unicos marchavamos adiante, e Garibaldi com setecentos e
cincoenta homens, fez um movimento offensivo contra o exercito
austriaco.
Marchámos sobre Arona, apoderamos-nos de dois navios a vapôr, e de
outras pequenas embarcações. Começámos o embarque, que durou até á
noite, e no dia seguinte de madrugada chegámos a Luino.
Garibaldi estava doente, tinha uma febre intermitente contra os accessos
da qual tentava em vão luctar.
Com um d'estes accessos, entrou na estalagem da _Galinhola_, casa
isolada á entrada de Luino, e separada da vinha por um riacho, sobre o
qual está lançada uma ponte. Mandou-me chamar e disse-me:
—Medici, necessito por força de duas horas de descanço, toma o meu
logar, e vigia por nós.
A estalagem da _Galinhola_ era mal escolhida para quem queria socegar,
era a sentinella avançada de Luino, a primeira casa que devia ser
atacada pelo inimigo, suppondo-o nas circumvisinhanças.
Nada sabiamos dos movimentos dos austriacos, ignorando se estavamos a
dez legoas d'elles ou a um kilometro; comtudo disse a Garibaldi que
dormisse tranquilamente, asseverando-lhe que tomaria todas as precauções
para que o seu somno não soffresse interrupção. Feita esta promessa,
sahi; as armas estavam ensarilhadas do outro lado da ponte, e a gente
acampada entre ella e Luino.
Colloquei sentinellas á estalagem da _Galinhola_, e mandei uns lapões
explorar as proximidades.
Passada meia hora, os meus vigias voltaram todos assustados gritando:
—Os austriacos! Os austriacos!
Corri ao quarto de Garibaldi, dando o mesmo grito:
—Os austriacos!
Garibaldi estava na maior força da febre, saltou do leito, e
ordenando-me que mandasse tocar a reunir, da janella poz-se a descobrir
campo dizendo que não tardaria em nos alcançar.
Com effeito d'ahi a dez minutos estava no meio de nós.
Dividiu a nossa pouca gente em duas columnas; uma obstruindo o caminho,
foi destinada a fazer frente aos austriacos, a outra tomando uma posição
de flanco, impedia que nos voltassemos, e podia tambem atacar.
Os austriacos em breve appareceram na estrada, seriam mil e duzentos
homens, e apoderaram-se immediatamente da _Galinhola_.
Garibaldi deu ordem logo á columna que obstruia a estrada de atacar;
esta columna compunha-se de quatro centos homens, atacando resolutamente
mil e duzentos.
É o costume de Garibaldi, nunca conta os inimigos nem os seus, o inimigo
está na frente, logo deve ser atacado. É forçoso confessar que quasi
sempre esta tactica lhe deu bom resultado.
Comtudo os austriacos faziam resistencia, e por isso Garibaldi julgando
que seria necessario engajar todas as forças, chamou a columna do flanco
e renovou o ataque.
Tinha diante de mim um muro que escalei com a minha companhia,
achando-me n'um jardim. Os austriacos faziam fogo por todas as aberturas
do albergue.
Apesar d'isso lançámo-nos no meio das ballas, atacámos á bayoneta,
entrando por essas mesmas aberturas que um instante antes vomitavam
fogo.
Os austriacos retiraram-se em completa desordem.
Garibaldi havia dirigido o ataque a cavallo, no meio da ponte, sendo um
verdadeiro milagre que exposto ao fogo do inimigo não fosse ferido.
Quando viu fugir os austriacos disse-me que os seguisse com a minha
companhia.
A deserção havia-a reduzido a cem homens, e com elles persegui mil e
cem. Comtudo n'esta acção não houve grande merito, porque os austriacos
tomados por um verdadeiro panico, fugiam abandonando as espingardas e
patronas, não parando senão em Veneza.
Deixaram na _Galinhola_ uns cem mortos e feridos, e oitenta
prisioneiros.
Devo dizer que os austriacos tinham parado em Germiniada; voltei ahi,
mas já elles tinham partido. Segui então as suas pisadas, mas apesar de
correr bem, não os pude alcançar.
Durante a noite soubemos que uma força austriaca, mais consideravel que
a primeira, se dirigia para nós. Garibaldi ordenou-me que ficasse na
Germiniada, mandando eu logo fazer barricadas.
Tinhamos um tal habito d'estas fortificações que nos era só necessaria
uma hora para pôr a ultima em estado de sustentar um circo.
A noticia era falsa.
Garibaldi enviou duas ou tres companhias em differentes direcções, e
quando voltaram, mandou reunir todo o nosso exercito, dando-lhe ordem
para marchar sobre Guerla, e de lá para Varese, onde foi recebido em
triumpho.
Dirigiamo-nos directamente sobre Radetzki.
Em Varese occupámos Duimodi-Sopra, logar que domina Varese, e que nos
assegurava a retirada.
Ahi Garibaldi mandou fusillar um espião austriaco, que devia dar
esclarecimentos a tres columnas de austriacos que se dirigiam contra
nós.
Uma marchava sobre Como, outra sobre Varese, e a terceira separando-se
d'estas, dirigia-se sobre Luino.
Era evidente que o plano dos austriacos era de se collocarem entre
Garibaldi e Luzano, cortando-lhe a retirada fosse para o Piemonte ou
para a Suissa.
Partimos então de Buimo para Arcisate.
De Arcisate, Garibaldi mandou-me com a minha companhia que ia sempre de
vanguarda, para Viggia.
Chegando ahi com os meus cem homens, recebi ordem de me dirigir
immediatamente contra os austriacos.
A primeira divisão de que eu tive conhecimento foi a de Aspre, forte de
cinco mil homens.
Foi este mesmo general que ordenou depois os massacres de Livourne.
Em consequencia da ordem recebida, preparei-me para o combate, e para o
dar na melhor ordem possivel apoderei-me de tres pequenas villas que
formavam um triangulo—Catzone, Ligurno, e Rodero.
Estas tres villas guardavam todas as estradas que vinham de Como.
Por detraz d'estas villas achava-se uma forte posição, S. Maffeo,
rochedo inexpugnavel, e pelo qual não tinha senão deixar-me escorregar
para me achar na Suissa.
Havia dividido os meus cem homens em tres destacamentos, occupando cada
um d'elles uma villa.
Eu estava em Ligurno.
Tinha chegado durante a noite com os meus quarenta homens e havia-me
fortificado o melhor que tinha podido.
Ao romper do dia fui atacado pelos austriacos.
Tinham-se primeiramente apoderado de Rodero, que haviam encontrado
abandonado, porque durante a noite a guarnição havia-se retirado para a
Suissa. Fiquei com os meus sessenta e oito homens.
Chamei os trinta homens que estavam em Catzone e dirigi-me para S.
Maffeo aonde podia resistir.
Apenas ahi tinha chegado fui logo atacado. De Rodero os canhões
austriacos nos enviaram foguetes á congreve.
Lancei os olhos em roda de mim, a montanha estava rodeada de cavallaria,
mas apezar d'isso resolvi-me defender-nos em quanto podessemos.
Os austriacos começaram o assalto. Infelizmente cada um de nós só tinha
vinte cartuxos, e as nossas espingardas não eram das melhores.
Ao estrondo da fuzillaria as montanhas da Suissa, visinhas de S. Maffeo,
cobriram-se de curiosos, e cinco ou seis d'estes não se podendo conter
vieram unir-se comnosco tomando parte no combate.
Sustentei o combate até que os meus homens tivessem queimado os ultimos
cartuxos.
Esperei sempre que Garibaldi ouvindo o estrondo do combate viria
coadjuvar-me, mas Garibaldi tinha mais que fazer, porque tendo os
austriacos marchado sobre Luino, Garibaldi ia-lhe ao encontro.
Tendo queimado até ao meu ultimo cartuxo, pensei que era tempo de cuidar
na retirada. Guiados pelos nossos suissos tomámos atravez os rochedos um
caminho sómente conhecido dos habitantes do paiz.
Uma hora depois estavamos na Suissa.
Retirei-me com os meus homens para um pequeno bosque, emprestando-nos os
habitantes caixas para esconder-mos as espingardas, afim de as
encontrarmos quando nos fosse necessarias.
Durante mais de quatro horas, sessenta e oito homens tinham feito frente
a cinco mil.
O general d'Aspre mandou annunciar em todos os jornaes que tinha
sustentado um combate encarniçado contra o exercito de Garibaldi
havendo-o posto em completa derrota. Só os austriacos são capazes de
dizer d'estas petas.
XIII
CONTINUAÇÃO DA CAMPANHA DA LOMBARDIA
Garibaldi marchava como já disse sobre Luino; mas antes d'ahi chegar,
recebera noticia de que Luino estava já occupado pelos austriacos, ao
mesmo tempo que a columna d'Aspres, depois da sua grande victoria sobre
nós se apoderava d'Arcisate.
A retirada de Garibaldi sobre a Suissa tornava-se desde então
difficultosa. Decidiu-se pois a marchar direito a Morazzone, posição
muito forte e por consequencia muito vantajosa.
Além d'isso, o ruido do canhão que tinha ouvido lhe tinha feito crescer
agua na bocca.
Apenas tinha acampado viu-se completamente rodeado por cinco mil
austriacos.
Comsigo tinha quinhentos homens.
Durante um dia com seus quinhentos homens sustentou o ataque dos cinco
mil austriacos. Vindo a noite, formou os seus em columna cerrada, e
lançou-se sobre o inimigo á bayoneta.
Favorecido pela obscuridade fez uma sanguinolenta passagem, e achou-se
em campo raso.
A uma legua de Morazzone licenciou seus voluntarios, dando-lhes ponto de
reunião em Lugano, e a pé com um guia, desfarçado em paisano seguiu para
a Suissa.
Uma manhã soube em Lugano que Garibaldi, que todos criam morto, ou pelo
menos prisioneiro em Morazzone, tinha chegado a uma aldêa visinha.
Então vieram-me á memoria as palavras propheticas de Anzani.
Corri a Garibaldi, achei-o na cama, quebrado, moido, e apenas podendo
fallar. Acabava de fazer uma marcha de seis horas, e só por milagre
havia escapado aos austriacos.
A sua primeira pergunta ao ver-me foi:
—Tens a tua companhia prompta?
—Tenho, lhe respondi.
—Pois bem, deixa-me dormir esta noite, e ámanhã prepararemos a nossa
gente e recomeçaremos.
Não pude deixar de me rir: era evidente que no dia seguinte estaria
tolhido a ponto de não poder mover uma perna.
No dia immediato, com grande admiração minha, Garibaldi estava a pé; a
alma e o corpo n'este homem são eguaes, ambos de bronze.
Mas nada havia a fazer; a campanha de Garibaldi na Lombardia estava
finda.
Garibaldi então entrou no Piemonte e volveu a Genova.
Ali recebeu propostas que lhe trazia uma deputação siciliana.
Estas propostas eram de embarcar para a Sicilia, afim d'ahi sustentar a
causa da revolução.
Acceitou-as e partiu com trezentos homens para Livourne; mas ahi sabendo
o que se passava em Roma, abandonou a idéa da sua expedição á Sicilia e
partiu para Roma.
É ali que prestes o encontraremos.
Quanto a mim fiquei em Lugano com a minha companhia, a que tendo reunido
alguns desertores se achava com o numero de oitenta homens, e foi-me
permittido conservar-me com elles n'um deposito.
As nossas armas estavam sempre occultas, mas debaixo de mão.
Durante este momento de repouso organisámos, para não perder tempo, uma
insurreição na Lombardia.
O governo da Suissa foi prevenido d'isto, e fez occupar o cantão de
Tessino pelos contingentes federaes.
Resolveu-se então de me internar.
Fui com duzentos homens, a maior parte dos quaes haviam servido com
Garibaldi, e outros comigo, enviado para Bellinzona, onde nos guardaram
n'um quartel, como perigosos e capazes de violar a fronteira.
O projecto não deixou de marchar.
Os generaes Ascioni e d'Aspice deviam partir de Lugano e dirigir-se
sobre Como pelo valle de Intelvi.
Quanto a mim devia partir de Bellinzona, atravessar a passagem do Jorio,
uma das mais elevadas e difficeis da fronteira, descer sobre o lago de
Como, e chamar os habitantes ás armas. Depois do que, com a minha gente,
iria reunir-me aos dois generaes.
Como eramos guardados á vista, a cousa era difficil de executar.
Sobre uma altura que dominava Bellinzona estão as ruinas de um velho
castello que out'rora pertenceu aos Visconti.
É ali que tinha feito guardar as nossas armas e as munições que depois
podera obter.
Ao todo tinha duzentos e cincoenta homens. Dividi-os em oito ou dez
bandos, que deviam por muitas estradas, evitando a vigilancia das
tropas, reunir-se no castello.
Contra toda a esperança o projecto realisou-se completamente.
Cada um se encontrou no ponto de reunião sem encontrar impedimento;
armei todos e estava prompto para partir para a montanha, quero dizer
atravessar a fronteira.
Repentinamente ouvi tocar a rebate; as tropas dispunham-se a marchar em
minha perseguição.
Mas os habitantes que me tinham votado amisade decidida, sublevaram-se
em meu favor, e ameaçaram se se não calasse o tambor, de se armarem e
fazer barricadas.
Livre d'este cuidado dei á minha gente ordem de se pôr em marcha;
estavamos no fim de outubro, o norte soprava e promettia-nos nova noite
de tempestade.
Marchámos toda a noite contra o vento, com o rosto açoutado pela neve.
Vindo o dia, marchámos sem parar durante o seu curso; era preciso
atravessar o cimo cuberto de neve do Jorio; o inverno tinha tornado
impraticaveis as passagens; entretanto atravessamol-o com neve quasi
sempre até ao joelho, muitas vezes até aos sovacos dos braços.
Depois de trabalhos infinitos, chegámos, emfim, ao cume; mas ali um
inimigo mais terrivel do que todos os que tinhamos vencido até então nos
esperava: a tormenta.
N'um instante ficámos completamente cegos, e não distinguiamos nada a
dez passos de distancia.
Disse então aos meus bravos de se apertarem uns contra os outros,
marchar n'uma só fila e seguir-me avançando com a maior rapidez. Tres
ficaram para traz, cahindo para não mais se levantarem, escondidos em a
neve, dormindo ou velando talvez no cume do Jorio.
Marchei primeiro, sem seguir nenhuma estrada real, sem saber onde ia,
fiando em a nossa boa fortuna, quando repentinamente parei; o rochedo me
faltava debaixo dos pés; um passo mais e cabia no precipicio!
Fiz alto, ordenando que cada um ficasse no logar em que estava até
nascer o dia.
Então só com um guia procurei um caminho toda a noite; a cada instante a
terra, ou antes a neve faltava debaixo de nós, ou os pés nos
escorregavam. Era por milagre que um de nós não ficava escondido, ou
morto na queda.
Emfim ao raiar do dia, chegámos perto de algumas cabanas abandonadas.
Entretanto como offereciam um abrigo, quiz voltar para os meus homens.
Mas então as forças abandonaram-me, e cahi quebrado de fadiga e transido
de frio.