Aquelles que acreditavam n'uma opposição systematica da minha parte ao

papado, verão, pela carta que se segue que nada d'isso havia; a minha

dedicação era á causa da liberdade em geral, em qualquer ponto do globo

que ella brotasse.

Comprehender-se-ha entretanto que eu désse preferencia ao meu paiz, e

que estivesse prompto a servir sob a direcção d'aquelle que parecia

destinado a ser o Messias politico da Italia.

Julgamos Anzani e eu que este papel sublime era reservado a Pio IX, e

escrevemos ao nuncio do papa a carta seguinte, pedindo-lhe para

transmittir a sua santidade os nossos votos e os de nossos illustres

legionarios:

«Muito illustre e respeitavel senhor.

«Desde o momento em que nos chegaram as primeiras noticias da

exaltação do soberano pontifice Pio IX e da amnistia que elle

concedia aos pobres proscriptos, temos com uma attenção e

interesse recrescentes contado os passos que o chefe supremo

da egreja tem dado sobre a estrada da gloria e da liberdade.

Os louvores, cujo echo nos chega aos ouvidos de além dos

mares, o arruido com que a Italia acolhe a convocação dos

deputados e a applaude, as sabias concessões feitas á

imprensa, a instituição da guarda civica, o impulso dado á

instrucção popular e á industria, sem contar tantos cuidados,

todos dirigidos para o aperfeiçoamento e bem estar das classes

pobres, e para a formação de uma administração nova, tudo,

emfim, nos convenceu que acabava finalmente de sair do seio da

nossa patria, o homem que comprehendendo as necessidades do

seu seculo, tinha sabido, segundo os preceitos da nossa

augusta religião, sempre novos, sempre immortaes, e sem

derrogar sua auctoridade, cingir-se todavia ás exigencias dos

tempos; e nós ainda que todos estes progressos não tivessem

influencia sobre nós mesmos, temol-os entretanto seguido de

largo, e acompanhado com nossos applausos e nossas vozes o

concerto universal da Italia e de toda a christandade; mas

quando ha alguns dias soubemos do attentado sacrilego, no meio

do qual uma facção sustida pelo estrangeiro,—não estando ainda

fatigada, depois de tão longo espaço de despedaçar a nossa

pobre patria—se propunha a destruir a ordem das cousas

existentes, pareceu-nos que a admiração e enthusiasmo pelo

soberano pontifice era uma fraca cousa, e que nos estava

imposto um grande dever.

«Os que escrevemos, illustrissimo e respeitabilissimo senhor,

somos os que, sempre animados d'este mesmo espirito que nos fez

supportar o exilio, tomamos as armas em Montevideo por uma causa

que nos parecia justa e que reunimos algumas centenas de homens

nossos compatriotas que para aqui tinham vindo esperando

encontrar dias menos tormentosos que os que soffriamos em a

nossa patria.

«Ora, ha cinco annos que durante o cerco que rodeava os muros

d'esta cidade, cada um de nós se propõe a dar provas de

resignação e de coragem; e graças á Providencia e a este antigo

espirito que inflamma ainda nosso sangue italiano, a nossa

legião teve occasião de se distinguir, e cada vez que esta

occasião se ha apresentado ella não a tem deixado escapar; tão

bem que—creio que é permittido dizel-o sem vaidade—ella tem no

caminho da honra excedido todos os outros corpos que eram seus

emulos.

«Pois se hoje os braços que tem algum uso das armas, forem

acceites por Sua Santidade, inutil é dizer que bem mais

voluntariamente que nunca, nós os consagramos ao serviço

d'aquelle que fez tanto pela patria e pela egreja.

«Nós nos julgaremos pois felizes se podermos vir em ajuda da

obra redemptora de Pio IX, nós e nossos companheiros em nome dos

quaes fallamos, e não julgaremos pagal-a cara com todo o nosso

sangue.

«Se vossa illustre e respeitavel senhoria pensa que a nossa

offerta possa ser agradavel ao soberano pontifice, deponha-a aos

pés de seu throno.

«Não é a pueril pretenção de que o nosso braço seja necessario

que vol-o faz offerecer; sabemos muito bem que o throno do Santo

Padre pousa sobre bases que nem podem abalal-as ou assegural-as

soccorros humanos, e que além d'isso a nova ordem de cousas

conta numerosos defensores que saberão vigorosamente repellir as

injustas aggressões de seus inimigos; mas como a obra deve ser

repartida entre os bons, e o duro trabalho dado aos fortes,

fazer-nos a honra de nos contar entre esses.

«Esperando, agradecemos á Providencia de ter preservado Sua

Santidade das machinações _Dei tristi_, e fazemos ardentes votos

para que ella lhe conceda numerosos annos para felicidade da

christandade e da Italia.

«Não nos resta agora senão pedir a vossa illustre e veneravel

senhoria de nos perdoar o tempo que lhe roubamos e de acceitar

os sentimentos da nossa perfeita estima e profundo respeito com

o qual somos de sua illustre e respeitabilissima senhoria os

mais dedicados servidores.

_J. Garibaldi._

_F. Anzani._

«Montevideo, 12 de outubro de 1847.»

Esperámos em vão; não nos veiu nenhuma resposta do nuncio nem de Sua

Santidade. Foi então que tomámos a resolução de ir a Italia com uma

parte da nossa legião.

A nossa intenção era de ahi secundar a revolução onde ella já estava em

armas, e suscital-a onde ella ainda dormisse, nos Abruzos, por exemplo.

A unica difficuldade que se oppunha a isto era que nenhum de nós tinha

um só soldo para a viagem.

X

VOLTO Á EUROPA—MORTE DE ANZANI

Recorri a um meio que colhe sempre com os corações generosos: abri uma

subscripção entre os meus compatriotas.

Começava esta a desenvolver-se, quando alguns espiritos iniquos

começaram a sublevar entre os meus legionarios um partido contra mim,

intimidando os que estavam dispostos a seguir-me. Insinuava-se a esta

pobre gente que eu os conduzia a um perigo certo, que a empresa que eu

sonhava era impossivel, e que uma sorte egual á dos irmãos Bandiera lhes

estava reservada. Resultou d'isto que os mais timidos se retiraram, e

que fiquei com oitenta e cinco, abandonando-me ainda d'estes vinte e

nove depois de embarcados.

Por felicidade os que ficaram comigo eram os mais valentes, que haviam

quasi todos sobrevivido ao ataque de Santo Antonio. Além d'isso eu tinha

alguns orientaes confiados na minha fortuna e entre elles o meu pobre

negro Aguyar que foi morto no cerco de Roma.

Disse que havia sollicitado entre os italianos uma subscripção para

ajudar a nossa partida. A maior parte d'esta subscripção fôra fornecida

por Etienne Antonini, genovez estabelecido em Montevideo.

O governo da sua parte offereceu de nos ajudar com todas as suas posses;

mas eu conhecia tanto o seu critico estado financeiro que não quiz

acceitar d'elle senão duas peças e oitocentas espingardas, que fiz

transportar em o nosso brigue.

No momento da partida aconteceu-nos com o commandante do

_Biponte-Gazolo_ de Nervi, a mesma cousa que aconteceu aos francezes,

quando foi a cruzada de Bandouin com os venezianos, que estes lhe tinham

promettido de os transportar á terra santa; a sua exigencia foi tamanha

que houvemos mister de vender tudo, até nossas camisas para a

satisfazer, de tal fórma que durante a travessia alguns ficaram deitados

por falta de fatos para se vestir.

Estavamos já a trezentas leguas da costa, pouco mais ou menos nas

alturas das bocas do Orenoque, e divertia-me com Orrigoni no gurupés a

pescar marzopas, quando de repente ouvi o grito de «Fogo, fogo!»

Saltar do gurupés á prôa, da prôa á ponte e deixar-me correr pelo bordo

foi obra de um segundo.

Fazendo a distribuição de viveres, o distribuidor tinha tido a

imprudencia de tirar a agua-ardente de um barril com uma luz na mão; a

agua-ardente havia-se incendiado, e o que a tirava atarantara-se, e em

vez de tornar a fechar o barril, tinha deixado correr a golphadas o

liquido; sendo o aposento dos viveres um lago de fogo scintillante.

Foi ali que vi quanto os homens mais bravos são accessiveis ao terror,

quando o perigo se lhes apresenta sob um aspecto differente d'aquelle a

que são habituados.

Todos estes homens que eram heroes no campo de batalha se compelliam,

corriam, perdiam a cabeça, tremulos e transidos como creanças.

No fim de dez minutos ajudado de Anzani, que havia deixado seu leito ao

primeiro grito de alarma, tinhamos extinguido o fogo.

O pobre Anzani, com effeito estava de cama, não por estar inteiramente

nú, mas porque se achava já violentamente tomado da doença de que devia

morrer chegando a Genova, quero dizer de uma phtisica pulmonar.

Este homem admiravel ao qual o seu mais mortal inimigo, se acaso podia

ter algum, não poderia achar um só defeito, depois de ter consagrado sua

vida á causa da liberdade, queria que seus ultimos momentos fossem ainda

uteis a seus companheiros de armas; todos os dias ajudavam-no a subir á

ponte; quando não poude mais subir, fez-se para ahi transportar, e

deitado sobre um colxão dava lições de estrategia aos legionarios,

reunidos em redor d'elle.

Era um verdadeiro diccionario de sciencias o pobre Anzani; ser-me-ia tão

difficil enumerar as cousas que elle sabia, como encontrar uma que não

soubesse.

Em Palo, quasi a cinco milhas de Alicante, saltámos em terra para

comprar uma cabra e laranjas para elle.

Foi lá que soubemos pelo vice-consul sardo parte dos successos que se

passavam na Italia.

Soubemos que a constituição piemonteza tinha sido proclamada e que os

cinco gloriosos de Milão se tinham passado, cousas que não podiamos

saber á nossa sahida de Montevideo, isto é a 27 de março de 1848.

Disse-nos o vice-consul que vira passar navios italianos com bandeira

tricolor. Não era preciso mas para me decidir a arvorar o estandarte da

independencia. Arriei o pavilhão de Montevideo sob o qual navegavamos,

icei immediatamente na verga do navio a bandeira sarda, improvisada com

metade de um lençol, um casaco vermelho e o resto dos ornatos verdes do

nosso uniforme de bordo.

Recordam-se que o nosso uniforme era a blouse vermelha adornada de verde

com debruns brancos.

A 24 de junho, dia de S. João, chegámos á vista de Nice. Muitos

entendiam que não deviamos desembarcar sem mais amplas informações.

Arriscava-me a muito, pois estava ainda condemnado á morte.

Todavia não hesitei, ou antes não teria hesitado, porque reconhecido

pelos tripulantes de um navio, o meu nome espalhar-se-hia bem depressa,

e apenas meu nome estivesse espalhado, Nice em peso correria para o

porto, e seria preciso no meio das acclamações, acceitar as festas que

nos eram offerecidas de todos os lados. Mal se soubesse que eu estava em

Nice, e que tinha atravessado o Occeano para vir em auxilio da liberdade

italiana, os voluntarios correriam de todos os lados. Mas n'esse momento

eu tinha melhores projectos.

Da mesma fórma que acreditara no papa Pio IX, cria no rei Carlos

Alberto; em vez de nos preoccupar de Medici que tinha expedido como

disse a Via Reggio para ahi organisar a insurreição, encontrando a

insurreição organisada e o rei do Piemonte á sua frente, julguei que o

que tinha de melhor a fazer era offerecer-lhe os meus serviços.

Disse adeus ao meu pobre Anzani, adeus tanto mais doloroso por ambos

sabermos que não nos tornariamos a ver, e embarquei para Genova, aonde

cheguei ao quartel general de Carlos Alberto.

O resultado da minha entrevista com elle, provou-me que me havia

enganado. Separamo-nos, pois, descontentes um com o outro, e volvi a

Turim onde soube da morte de Anzani.

Perdia metade do coração.

A Italia perdia um dos seus mais distinctos filhos.

Oh! Italia! Italia! mãe infortunada! que lucto para ti no dia em que

este bravo entre os bravos, este leal entre os leaes cerrou os olhos

para sempre á luz do teu bello sol!

A morte de um homem como Anzani, eu t'o digo, ó Italia! deve arrancar do

intimo seio da nação que lhe deu o nascimento um grito de dôr, e se ella

não chora, se não se lamenta como Rachel na Roma, esta nação não é digna

de sympathia ou piedade, porque não tem tido sympathia ou piedade pelos

seus mais generosos martyres.

Oh! martyr, cem vezes martyr foi o nosso charo Anzani, e a mais cruel

tortura soffrida por este valente foi de tocar a terra natal, pobre

moribundo, e não acabar como viveu combatendo por ella, por sua honra,

por sua regeneração.

Oh Anzani! se um genio egual ao teu tivesse presidido aos combates da

Lombardia, á batalha de Novara, ao cerco de Roma, o estrangeiro não

sulcaria a terra natal, e não pisaria os ossos de nossos avoengos!

A legião italiana, viram-no, tinha feito pouco, antes da chegada de

Anzani; vindo elle, sob seus auspicios, percorreu uma carreira de gloria

que tornára ciosas as nações mais engrandecidas.

Entre todos os militares, os soldados, os combatentes, entre todos os

homens que trazem espada ou espingarda emfim que tenho conhecido, não vi

um que podesse egualar Anzani nos dons naturaes, nas inspirações de

coragem, nas applicações scientificas. Tinha o valor ardente de Massena,

o sangue frio de Davesio, a severidade, bravura e temperamento de

Manara![1]

[1] O leitor não conhece ainda estes tres outros martyres da

liberdade italiana, mas bem depressa tomará conhecimento com

elles. Garibaldi que não escrevia as suas memorias para serem

impressas, falla d'alguma sorte mais comigo do que com os

leitores.

A. D.

Os conhecimentos militares de Anzani, sua sciencia generica, ninguem os

igualava. Dotado de uma memoria rara, fallava com uma precisão admiravel

das cousas passadas, embora estas remontassem á antiguidade.

Nos ultimos annos da sua vida, o seu caracter estava sensivelmente

alterado; tinha-se tornado acre, irascivel, intolerante, e, pobre

Anzani, não era sem motivo esta mudança. Atormentado quasi

incessantemente por dôres resultadas de numerosas feridas e da vida

tempestuosa que tinha soffrido durante tantos annos, arrastava uma

intoleravel existencia, uma existencia de martyr.

Deixo a uma mão mais habil que a minha o cuidado de traçar a vida

militar de Anzani, digna de occupar as vigilias de um escriptor

eminente. Na Italia, Grecia, Portugal, Hespanha e America

encontrar-se-hão, seguindo-lhe a traça, documentos da vida do nosso

heroe.

O jornal da legião italiana de Montevideo sustentado por Anzani, não é

senão um episodio da sua vida. Elle foi a alma d'esta legião, dirigida,

conduzida, administrada por elle, e com a qual se havia identificado.

Oh! Italia! quando o Todo-Poderoso tiver marcado o termo a taes

desgraças, elle te dará Anzanis para guiar teus filhos ao exterminio

d'aquelles que te vilipendiaram e tyrannisaram!

_G. G._

XI

AINDA MONTEVIDEO

Antes de começar a narração da campanha da Lombardia executada por

Garibaldi em 1848, diremos a proposito de Montevideo, tudo o que elle na

sua modestia, não quiz dizer.

⁂

Devem lembrar-se do combate de 24 d'abril, da perigosa passagem da

Boyada, e da maneira porque ahi se conduziram os legionarios italianos.

O official que contava estes acontecimentos ao general Paz disse

unicamente referindo-se aos italianos:

—Bateram-se como tigres.

—Não admira, respondeu Paz, pois são commandados por um leão.

⁂

Depois da batalha de Santo Antonio, o almirante Lainé que então

commandava a estação da Plata, admirado d'esta façanha, escreveu a

Garibaldi a carta seguinte, cujo autografo existe em poder de G. B.

Cuneo, amigo de Garibaldi. O almirante Lainé apparelhava então a fragata

Africana.

«Felicito-vos, meu caro general, por terdes tão poderosamente

contribuido, pelo vosso intelligente e intrepido proceder, para

o alcance de uma victoria de que se ufanariam os soldados do

grande exercito, que por momentos dominou a Europa.

«Felicito-vos egualmente pela simplicidade e modestia, que

tornam mais preciosa a leitura, da relação dos numerosos

detalhes que déstes, de uma victoria, de que sem receio, se vos

póde attribuir toda a honra.

«De resto, esta modestia, trouxe-vos as sympathias de pessoas

aptas para apreciar convenientemente o que tendes feito e

alcançado em seis mezes, pessoas entre as quaes devo enumerar em

primeiro logar, o nosso ministro plenipotenciario, o honrado

barão Deffaudis, que honra o vosso caracter e n'elle tendes um

caloroso defensor, sobretudo, quando se trata de escrever para

Paris, no intento de destruir impressões desfavoraveis que podem

nascer de certos artigos dos jornaes, redigidos por homens pouco

habituados a fallar verdade, mesmo quando contam factos

acontecidos á propria vista.

«Recebei pois o testemunho da minha estima etc.

«_Lainé._»

Não se contentou só o almirante Lainé com o escrever a Garibaldi,

quiz-lhe fazer os seus cumprimentos pessoalmente. Desembarcou em

Montevideo, dirigiu-se á rua _Portona_, onde morava Garibaldi. Esta

habitação, tão pobre como a do ultimo legionario, nunca se fechava, e

dia e noite estava aberta para todos, e _particularmente para o vento e

chuva_, como dizia Garibaldi, contando esta anedocta.

Era noite: o almirante Lainé empurrou a porta, e como a casa estivesse

ás escuras tropeçou n'uma cadeira.

—Eia, disse elle, é necessario quebrar a cabeça para vêr Garibaldi?

—Oh mulher, exclamou Garibaldi, não reconhecendo a voz do almirante, tu

não ouves, que vem ahi alguem? Allumia.

—Com que queres tu que eu allumie! respondeu Annita, não sabes que não

ha com que se compre uma vella?

—É verdade, respondeu philosophicamente Garibaldi.

E levantando-se, abrio a porta do quarto em que estava.

—Por aqui, por aqui, disse elle, para que a voz á falta da luz guiasse a

visita.

O almirante Lainé entrou, a escuridão era tal que viu-se obrigado a

dizer quem era, para que Garibaldi soubesse com quem tinha que tratar.

—Almirante, lhe disse elle, desculpae, porém quando fiz o meu tratado

com a republica de Montevideo, esqueceu-me entre as rações que me são

devidas, especificar uma de vellas, ora como vos disse Annita, não

possuindo o necessario para comprar uma vella, permanecemos na

obscuridade; por felicidade supponho que vindes aqui para conversar

comigo, e não para me verdes.

O almirante com effeito conversou com Garibaldi, porém não o viu.

Sahindo de casa d'elle, foi á do general Pacheco y Obes, ministro da

guerra, e contou-lhe o que lhe tinha acontecido.

O ministro da guerra que acabava de fazer o decreto que se vae lêr,

pegou em cem patacões e mandou-os a Garibaldi.

Garibaldi não quiz offender o seu amigo Pacheco, recusando-lhes, porém

no dia seguinte, de manhã, pegou nos cem patacões, e distribui-os pelas

viuvas e filhos dos soldados mortos no Salto de Santo Antonio, não

guardando para si, senão o que lhe bastou para comprar um arratel de

vellas, recommendando a sua mulher as poupasse, para servirem no caso do

almirante Lainé o ir visitar outra vez.

Eis o decreto que redigia Pacheco y Obes, quando o almirante Lainé lhe

foi fazer um appello á sua munificencia.

ORDEM GERAL

«Para dar aos nossos companheiros d'armas, que se immortalisaram nos

campos de Santo Antonio, uma alta prova da estima em que os tem o

exercito que illustraram neste memoravel combate:

«O ministro da guerra ordena:

«1.° No dia 15 do corrente, designado para a entrega á legião

italiana de uma copia d'este decreto, formará em grande parada a

guarnição, na rua do Mercado, até á praça do mesmo nome, na

ordem que indicará o estado maior.

«2.° A legião italiana, formará na Praça da Constituição, com

a retaguarda para a Cathedral, e ahi receberá a sobredita copia,

que lhe será entregue, por uma deputação presidida pelo coronel

Francisco Tages, e composta d'um commandante, d'um official,

d'um sargento e soldado de cada corpo.

«3.° A deputação regressando aos seus respectivos corpos, se

dirigirá com elles á praça indicada, e passando em continencia

pela frente da legião italiana, os commandantes dos corpos,

darão vivas—_á Patria, ao general Garibaldi e aos seus valentes

companheiros!_

«4.° Os regimentos deverão estar formados ás dez horas da

manhã.

«5.° Será dada copia authentica desta ordem do dia á legião

italiana e ao general Garibaldi.

PACHECO Y OBES.

O decreto ordenava:

1.° Que as palavras seguintes seriam inscriptas em letras

d'ouro na bandeira da legião italiana:

_Acção de 8 de Fevereiro de 1846 da legião italiana

commandada por Garibaldi._

2.° Que a legião italiana teria a vanguarda em todasas

paradas.

3.° Que os nomes dos mortos n'esta acção serão inscriptos em

um quadro, collocado na sala do governo.

4.° Que todos os legionarios trarão para signal distincto, no

braço esquerdo um escudo sobre o qual uma corôa guarneceria a

seguinte inscripção:

_Invincibili combaterono, 8 febraio 1846._

Além d'isso Garibaldi querendo dar uma prova da sua sympathia e

reconhecimento aos legionarios que haviam perecido a seu lado no dia 8

de fevereiro, fez elevar no campo de batalha uma grande cruz que tinha

d'um lado:

_Aos 36 Italianos mortos em 8 de Fevereiro de 1846._

E do outro lado:

_154 Italianos no Campo de Santo Antonio._

⁂

Apesar da pobreza a que Garibaldi se achava reduzido, achou um dia um

legionario mais pobre do que elle. Este legionario não tinha camiza.

Garibaldi levou-o a um canto, tirou a sua camiza e deu-lh'a. Indo para

casa pediu outra a Annita, porém ella sacudindo a cabeça disse-lhe:

—Sabias muito bem que não tinhas senão uma, deste-a, agora peor para ti!

E foi Garibaldi que ficou sem camiza, até que Anzani lhe deu uma.

Porém Garibaldi era incorregivel, um dia tendo aprisionado um navio

inimigo, repartiu a preza com os companheiros, e tendo dividido os

quinhões, chamou os seus homens um a um, e interrogou-os sobre o estado

das suas familias, dando aos mais desgraçados, do seu proprio quinhão,

dizendo-lhe:

—Tomae isto para vossos filhos.

Havia além do mais uma quantia grande de dinheiro a bordo, que Garibaldi

mandou para o thesouro de Montevideo, não tirando um unico centimo.

Algum tempo depois d'esta preza, não tinha senão tres sous em caza, tal

tinha sido a repartição.

Isto deu motivo a uma anedocta que me contou o proprio Garibaldi.

Um dia, ouviu chorar a sua filha Therezita, adorava esta filha, e correu

a ver o que lhe tinha acontecido. A creança havia cahido pela escada, e

tinha a cara ensaguentada.

Garibaldi não sabendo como a havia de consolar, pegou nos tres sous que

era toda a sua fortuna, e que reservava para uma grande occasião, e

sahiu para ir comprar um brinquedo para consolar a creança.

Á sahida encontrou-se com um emissario do Presidente, Joaquim Soares,

que o procurava da parte do seu amo para uma communicação importante.

Garibaldi dirigiu-se immediatamente a casa do Presidente, esquecido já

do motivo que o tinha feito sahir, tendo machinalmente na mão o

dinheiro. A conferencia durou duas horas, tratava-se com effeito de

cousas importantes.

Garibaldi quando acabou a conferencia voltou para casa; a creança já

estava socegada, porém Annita estava muito inquieta.

—Roubaram-nos, lhe disse ella assim que o viu.

Garibaldi lembrou-se então do dinheiro que tinha ainda na mão.

Era elle o ladrão.

XII

CAMPANHA DA LOMBARDIA

Agora vamos, com o auxilio de um amigo de Garibaldi, o valente coronel

Medici, ligar a nossa narração onde Garibaldi a interrompeu.

A sua partida para a Secilia forçar-nos-hia a finalisar aqui as suas

memorias, se Medici não se encarregasse de as continuar. E confessamos,

este modo de fallar de Garibaldi, agrada-me mais do que fazendo-o pelas

suas proprias palavras; porque com effeito quando Garibaldi conta,

esquece-se sempre da parte que tomou nas acções, para exaltar o que

fizeram os seus companheiros; ora como é especialmente d'elle que nos

queremos occupar, melhor é que seja collocado por outro no logar que

merece.

Vamos pois deixar contar ao coronel Medicis a campanha da Lombardia de

1848.

⁂

Parti de Londres para Montevideo no meado do anno de 1846.

Nenhum motivo politico nem commercial me chamava á America do Sul, ia

por motivo de saude.

Os medicos julgavam-me atacado de tysica pulmonar, as minhas opiniões

liberaes me tinham desterrado da Italia, decidi-me pois a atravessar o

Oceano.

Cheguei a Montevideo, sete ou oito mezes depois da acção do Salto de

Santo Antonio, a reputação da legião italiana, estava então no seu

apogeo. Garibaldi era o homem da epoca. Fiz conhecimento com elle,

pedi-lhe se me recebia na sua legião, e elle consentiu.

No dia seguinte, já tinha vestido a blouse encarnada com divisas verdes,

e dizia com orgulho:

—Sou soldado de Garibaldi!

Depressa tomei intimidade com elle, tomou-me affeição, depois confiança,

e quando tudo se determinou para a sua partida, um mez antes que elle

deixasse Montevideo, parti eu para o Havre em um paquete.

Tinha as suas instrucções claras e precisas, como todas as que dá

Garibaldi.

Memorias de José Garibaldi, volume 2 Traduzidas do manuscripto original por Alexandre Dumas · 第 2 / 10 段