O feliz resultado d'esta tentativa fez com que propozesse ou

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MEMORIAS DE GARIBALDI

TRADUZIDAS DO MANUSCRIPTO ORIGINAL

POR

ALEXANDRE DUMAS

TYPOGRAPHIA DE JOAQUIM GERMANO DE SOUSA NEVES—Rua do Caldeira, 17

[Ilustração: CAVOUR]

MEMORIAS

DE

JOSÉ GARIBALDI

TRADUZIDAS DO MANUSCRIPTO ORIGINAL

POR

ALEXANDRE DUMAS

VOLUME II.—SEGUNDA EDIÇÃO

LISBOA—1860

EDICTOR A. P. C.

CHIADO, 83-85

I

TUDO PERDIDO, SALVO A HONRA

O verdadeiro motivo da expedição não era levar soccorros aos habitantes

de Corrientes e rehabilital-os, mas sim de se desembaraçarem de mim.

Como é que sendo tão insignificante tinha tantos inimigos? Eis um

segredo que nunca pude profundar.

Quando entrei o rio, o exercito oriental achava-se em S. José de Uruguay

e o d'Oribe em Boyada, capital da provincia d'Entre-rios. Ambos se

preparavam para a luta e o exercito de Corrientes pela sua parte

dispunha-se a unir-se ao exercito oriental.

Tinha a meu cuidado vigiar desde o Parana até Corrientes, isto é, uma

distancia de seiscentas milhas entre as duas margens inimigas, e ainda

mais, perseguido por uma esquadra, quatro vezes superior á minha.

Durante esta passagem não podia causar medo senão ás ilhas ou costas

desertas.

Quando deixei Montevideo havia cem a apostar contra um que nunca mais lá

voltaria.

Logo á sahida de Montevideo sustentei um primeiro combate, contra a

bateria de Martinho Garcia, ilha situada ao pé da confluencia dos dous

grandes rios, Uruguay e Paraná, perto da qual é absolutamente necessario

passar, visto que um só canal existe a alcance de tiro, para os navios

de uma certa tonelagem.

Tive alguns mortos e entre elles Pacarobba, valente official italiano;

levou-lhe a cabeça uma balla de artilheria, e além disso tive oito ou

dez feridos.

A tres milhas da ilha de Martinho Garcia a _Constituição_, deu n'um

baixo, e desgraçadamente isto aconteceu na baixa mar. Tivemos grande

trabalho para a pôr a nado, mas pela coragem dos nossos marinheiros a

pequena flotilha ainda se salvou n'esta occasião. Em quanto nos

occupavamos a transportar para a goletta todos os objectos pesados,

vimos que se aproximava de nós em bella ordem a esquadra inimiga.

Estava em má situação. Para alliviar a _Constituição_, tinha mandado

transportar toda a sua artilheria para a goletta _Procida_ aonde estava

amontoada e por consequencia inutilisada para nós. Restava-nos o

bergantim _Theresa_, de que o animoso commandante estava ao meu lado,

com a maior parte da guarnição, ajudando-nos a trabalhar.

No emtanto o inimigo crescia sobre nós, vistoso entre as acclamações da

tropa da ilha, seguro da victoria e com sete navios de guerra. Apesar do

eminente perigo que me ameaçava não desesperei. Não, pois Deus faz-me o

favor de me conservar sempre grande sangue frio nas occasiões supremas;

deixo pensar aos outros, sobretudo aos maritimos, qual seria a minha

situação. Não se tratava só da vida, que eu renunciaria n'um tal

momento, porém da honra. Quanto mais os homens que me tinham levado ali,

pensavam que eu perderia a minha reputação, mais eu estava decidido a

livral-a d'este perigo, ensanguentada, mas pura.

Não se podia evitar o combate, porém era necessario recebel-o na melhor

situação, por consequencia como os meus navios eram mais pequenos que os

do inimigo, e por isso nadavam em menos agua, aproximei-os quanto pude

da costa, que em perda total no rio me offerecia tambem um meio de

salvação, desembarcando. Desembaracei o mais possivel o convez da

goletta afim que algumas peças podessem servir, e dispostas as cousas

d'esta maneira, esperei.

A esquadra que me ia atacar, era commandada pelo almirante Brown. Sabia

pois que tinha a tractar com um dos mais habeis marinheiros do mundo.

O combate durou tres dias, sem que o inimigo se atrevesse a vir á

abordagem. Na manhã do terceiro dia tinha ainda polvora, mas faltavam-me

projectis. Mandei partir as correntes dos navios, reuni os pregos, os

martellos e tudo quanto de cobre ou ferro podesse substituir as ballas e

a metralha, e lancei-os ao inimigo, ajudando-nos isto a passar o dia.

No fim do terceiro dia não possuindo um unico projectil, e tendo já

perdido metade dos meus homens, lancei fogo aos tres navios em quanto

que, debaixo do fogo inimigo, ganhavamos a terra, levando as nossas

espingardas e alguma polvora.

Os feridos que ainda davam alguma esperança foram tambem transportados.

Em quanto aos outros já disse o que se fazia em eguaes circumstancias.

Estavamos pois a cento e cincoenta ou duzentas milhas de Montevideo, e

em terreno inimigo. A guarnição da ilha de Martim Garcia foi a primeira

que nos tentou fazer mal, mas cheios de orgulho pelo nosso combate com o

almirante Brown, foram recebidos de tal maneira que não nos tornaram a

apparecer.

Pozemo-nos a caminho atravez o deserto, vivendo de algumas provisões que

tinhamos levado, e do que podiamos alcançar pelo caminho.

Os orientaes acabavam de perder a batalha de Arroyo Grande. Reunimo-nos

aos fugitivos, e depois de cinco ou seis dias de luctas, combates, e

privações de que ninguem póde formar idéa, entrámos em Montevideo,

levando intactos o que eu tinha julgado perderiamos.

A honra!!

Este combate e muitos outros que sustentei contra elle, deixaram de mim

uma boa lembrança ao almirante Brown, que tendo abandonado o serviço de

Rosas antes da guerra concluir, veiu a Montevideo e antes de procurar os

seus parentes quiz abraçar-me primeiro. Correu á minha casa da Portona,

e abraçou-me muitas vezes com tal extremo que parecia meu pae.

Depois voltou-se para Annita e disse-lhe:

—Senhora, combati muito tempo contra seu marido, sem obter victoria

alguma. O meu maior prazer era derrotal-o e fazel-o meu prisioneiro, mas

Garibaldi sempre conseguiu escapar-se. Se eu tivesse a felicidade de o

aprisionar, ficaria conhecendo o apreço em que o tenho.

Conto esta anedocta, porque faz mais honra ao almirante Brown do que a

mim mesmo.

II

FORMAM-SE LEGIÕES

Depois da victoria de Arroyo Grande, Oribe marchou sobre Montevideo,

declarando que não fazia graça a pessoa alguma, nem mesmo aos

estrangeiros. E para ir dando cumprimento á sua palavra tudo o que

encontrava no caminho era fuzilado.

Então como em Montevideo havia um grande numero de italianos, que ahi

tinham vindo, uns por negocios e outros porque estavam proscriptos, fiz

uma proclamação aos meus compatriotas convidando-os a tomar as armas,

formando uma legião, para combatermos até á morte por aquelles que nos

haviam dado a hospitalidade.

Rivera durante este tempo reunia os restos do seu exercito.

Do seu lado os francezes e hespanhoes formaram tambem duas legiões.

Quatro mezes depois da sua formação a legião hespanhola composta na sua

maioria de carlistas, passou-se para o inimigo, tornando-se o alvo dos

nossos ataques.

A legião italiana não recebia paga, tendo unicamente ração de pão,

vinho, sal, azeite, etc., etc., devendo receber comtudo, finda a guerra,

terrenos e bois os que escapassem e as viuvas e filhas dos fallecidos.

A legião compunha-se primeiramente de quatrocentos a quinhentos homens

elevando-se depois a oitocentos, por causa de muitos proscriptos que

todos os navios conduziam.

A legião foi primeiramente dividida em tres batalhões, um commandado por

Danuzio, outro por Ramella, e o terceiro por Mancini.

Oribe não ignorava todos estes preparativos de defeza, mas ligava-lhe

pouca importancia. Marchou, como já disse sobre Montevideo, e acampou no

Cerrito. Póde ser que no estado de desordem em que se achava a cidade,

elle ahi podesse ter entrado immediatamente, mas julgando ter ali

bastantes partidarios esperava uma demonstração da sua parte; mas esta

demonstração nunca appareceu e Oribe deu tempo a que em Montevideo se

organisasse a defeza.

Ficou pois a uma hora de marcha de Montevideo com doze a quatorze mil

homens.

Montevideo podia apresentar nove mil homens, de que cinco mil eram

negros, aos quaes se havia dado a liberdade, tornando-se excellentes

soldados.

Quando Oribe perdeu a esperança de entrar amigavelmente em Montevideo,

fortificou-se no Cerrito e desde logo começaram as escaramuças.

Do seu lado Montevideo fortificava-se o melhor que podia, sendo o nosso

engenheiro o coronel Echevarrio.

A organisação geral das tropas pertencia ao general Paz.

Joaquim Soares era presidente, Pacheco y Obes ministro da guerra.

Paz partiu de Montevideo para Corrientes e Entre-Rios a fim de

revolucionar estas provincias.

A primeira vez que sahiu das linhas, não sei se foi dos soldados ou dos

officiaes, a legião italiana tomou tal medo que entrou para as

fortificações sem haver disparado um tiro.

Obriguei um dos tres commandantes a pedir a sua demissão, dirigi uma

proclamação aos italianos, escrevendo pela segunda vez a Anzani, que

estava no Uruguay, empregado n'uma casa de commercio, convidando-o a vir

para a minha companhia.

Este excellente amigo chegou no mez de julho.

Com elle tudo ganhou força e vida. A legião que se achava horrivelmente

administrada mereceu todos os seus cuidados.

Durante este tempo tinha-se organisado, sabe Deus como, uma pequena

flotilha, de que me confiaram o commando.

Mancini tomou o meu logar na legião.

A flotilha communicava pelo rio com o Cerro, fortaleza que tinha ficado

em nosso poder, ainda que estivesse a tres ou quatro leguas, na margem

do Prata, mais distante que o Cerrito que tinha cahido no poder de

Oribe.

O Cerro era-nos mui necessario porque nos servia de ponto de apoio, para

mandar gente para as planicies e receber os fugitivos.

Antes de organisar a defeza, a esquadra do almirante Brown tinha feito

uma tentativa sobre o Cerro e sobre a ilha dos Ratos. Durante tres dias

defendi a ilha e a fortaleza. Na ilha havia peças de 18 e de 36,

obrigando o almirante a retirar-se com grandes perdas.

Já disse que á entrada de Anzani as concussões tinham acabado; porque

este honrado homem em tudo tinha cuidado, e por isso se formou uma

conspiração que tinha por fim assassinal-o e a mim, entregando a legião

italiana ao inimigo.

Anzani foi prevenido.

Os conspiradores viram que não tinham nada a fazer por este lado, e uma

manhã vinte officiaes e cincoenta soldados passaram para o inimigo.

Os soldados, é necessario fazer-lhe esta justiça, voltaram a pouco e

pouco.

A legião livre dos traidores, ficou composta de homens valentes e

honradissimos. Anzani reuniu-a e disse-lhe:

—Se eu tivesse que fazer uma escolha entre os bons e os maus, não teria

escolhido melhor, como o acaso vem de fazer.

O general Pacheco e eu tambem fizemos os nossos discursos á tropa.

Alguns dias depois do primeiro combate onde a legião italiana tinha dado

de si tão má idéa, propoz uma expedição, com o fim de a rehabilitar, que

foi acceita. Tratava-se de atacar as tropas de Oribe que estavam diante

do Cerro. Embarquei a legião italiana na nossa pequena esquadra e

desembarcámos no Cerro, e tomando com Pacheco o commando da legião

atacámos o inimigo ás duas horas da tarde, tendo-o posto na mais

completa derrota ás cinco.

A legião composta de quatrocentos homens atacou um batalhão de

seiscentos. Pacheco combatia a cavallo, e eu ora a pé, ora a cavallo,

conforme era necessario. O inimigo teve cento e cincoenta mortos e

duzentos prisioneiros, e nós apenas cinco ou seis mortos, e doze

feridos, entre os quaes figurou um official chamado Ferrucci ao qual foi

necessario cortar uma perna.

No dia seguinte voltamos em triumpho a Montevideo. Pacheco mandou reunir

a legião, elogiou-a muito, e deu uma espingarda de honra ao sargento

Loreto.

O combate tinha tido logar no dia 28 de março de 1843.

Já me achava tranquillo, os meus soldados haviam recebido o baptismo do

fogo.

No mez de maio teve logar a benção da bandeira.

Era de seda preta com o Vesuvio pintado. Era o emblema da Italia, e das

revoluções que em si encerrava. Foi confiada a Sacchi mancebo de vinte

annos que se tinha conduzido admiravelmente no combate do Cerro.

É o mesmo que combateu mais tarde comigo em Roma, e que hoje é coronel.

III

O CORONEL NEGRA

A 17 de novembro do mesmo anno, a legião italiana achava-se de serviço

nas linhas e eu tambem ahi estava.

Depois do almoço o coronel Negra, natural de Montevideo, montou a

cavallo e percorreu a linha acompanhado por alguns homens.

O inimigo dirigiu-lhe alguns tiros, e com tanta felicidade que o feriram

mortalmente.

Vendo-o cahir, o inimigo avançou e apoderou-se do corpo.

Apenas soube este acontecimento e não querendo deixar o corpo de um tão

bravo official exposto aos insultos do inimigo, reuni uns cem homens e

ataquei com elles.

Momentos depois o corpo do coronel estava em meu poder.

Então os soldados de Oribe encheram-se de furor, e tendo recebido

consideraveis reforços achei-me cercado por todos os lados. Os nossos

soldados vendo isto voaram em meu soccorro, tomando parte no combate

toda a legião.

Exaltados pela minha voz, avançaram contra o inimigo e com tanta

felicidade que n'um momento estava na mais completa derrota, tendo-lhe

tomado uma bateria e occupado as suas posições.

Mas bem depressa voltando em massa nos atacaram.

Todas as forças da guarnição sahiram, e o combate tornou-se geral,

durando oito horas.

Fomos obrigados a abandonar as posições que haviamos tomado, mas Oribe

suffreu grandes perdas, e entramos em Montevideo vencedores na realidade

e convencidos da nossa superioridade sobre o inimigo.

Tivemos sessenta homens feridos ou mortos.

Tinha tomado parte no combate como um simples soldado, por isso não

tinha observado o que se passou em volta de mim. Entretanto no meio da

confusão havia visto Anzani combatendo com o seu socego habitual, e

sabia que dominando a lucta nenhum detalhe lhe havia escapado.

N'essa mesma tarde pedi-lhe uma nota de todos os que se haviam

distinguido.

No dia seguinte reuni a legião, louvando-a e agradecendo-lhe em nome da

Italia, e promovi alguns d'estes bravos a officiaes e a sargentos.

Depois d'estes dois combates a legião italiana tinha tomado tal

influencia sobre o inimigo que quando elle a via marchar de bayoneta

callada fugia, ou se acceitava o combate era sempre derrotado.

Durante estes acontecimentos Rivera tinha conseguido reunir um pequeno

exercito composto de cinco ou seis mil homens, com o qual fazia frente a

Urquiza, hoje presidente da republica argentina. De tempos a tempos

Rivera enviava pelo Cerro mantimentos a Montevideo.

Oribe mandou uma parte do seu exercito a Urquiza, ordenando-lhe que

tratasse de destruir Rivera.

IV

PASSAGEM DA BOYADA

Soubemos em Montevideo da partida dos soldados de Oribe, resolvendo

então o general Paz a aproveitar-se do enfraquecimento do exercito

inimigo.

Além do Cerrito, estavam quasi mil e oitocentos homens observando o

Cerro.

Partimos a 23 de abril de 1844 ás 10 horas da noite.

Eis qual era o nosso plano:

Atacar o corpo de observação do Cerro, porque sabendo d'este ataque,

Oribe devia enviar-lhe soccorros enfraquecendo-se ainda mais, e então

sahiria toda a nossa gente a atacal-o.

Seguimos as margens do mar, passando o Arroyo Secco, que apesar do seu

nome nos obrigou a encher d'agua até ao pescoço.

Tendo passado o rio, dirigimo-nos pela planicie rodeando o acampamento.

Marchavamos com taes precauções que chegamos á vista do corpo

d'observação sem ter causado a mais pequena suspeita.

A guarnição do Cerro devia sahir coadjuvando o nosso movimento. Uma

discussão se elevou entre os dous officiaes que a commandavam porque

ambos queriam tomar o commando. Estando em fuga os mil e outocentos

homens deviamos voltar sobre Oribe, collocando-o entre o fogo da nossa

gente e o da cidade. A discussão entre os dous officiaes fez falhar o

nosso plano, porque a guarnição sahiu, mas senhor de todas as forças

Oribe repelliu-a, e foi elle que por sua vez marchou sobre nós,

executando o plano de batalha que haviamos formado contra elle.

Fomos pois attacados ao mesmo tempo pelo exercito de Oribe e pelo corpo

de observação, sendo obrigados a retirar-mo-nos para o Cerro,

causando-lhe n'essa retirada os maiores prejuisos que podemos.

Tomei o commando da tropa que hia na rectaguarda afim de sustentar esta

retirada o mais vigorosamente que fosse possivel.

Havia entre nós e o Cerro uma especie de riacho que se chamava a Boyada.

Era necessario atravessal-o com lama até ao ventre.

Afim de estabelecer desordem na passagem o inimigo havia estabelecido

n'um monticulo uma bateria de quatro peças que abriram o fogo quando

começamos a passagem. Mas a legião italiana cada vez mais aguerrida

despresou essa chuva de metralha como se fosse chuva ordinaria.

Foi então que tive occasião de observar que os nossos negros eram tambem

valentes soldados. Faziam-se matar, esperando o inimigo com um joelho em

terra. Estava no meio d'elles por isso podia ver como elles se

conduziam. O combate durou seis horas.

Ao serviço de Montevideo estava um inglez, que tinha carta branca de

Pacheco para fazer tudo quanto julgasse util a favor da nossa causa.

Havia reunido quarenta ou cincoenta homens. Chamavam-lhe Samuel; não sei

se tinha outro nome.

Nunca conheci homem tão bravo como elle.

Depois da passagem da Boyada vi-o chegar só com a sua ordenança.

—Samuel, lhe disse eu, onde está a teu regimento?

—Regimento, gritou elle, sentido!

Ninguem appareceu, ninguem respondeu. Todos haviam perecido no combate

Em uma ordem do dia do general Paz, fizeram-se grandes elogios á legião

italiana, setenta homens haviam ficado fóra do combate.

Entramos em Montevideo pelo Cerro.

Samuel commeçou immediatamente a reformar o seu regimento.

V

A LEGIÃO ITALIANA RECUSA AS TERRAS

QUE LHE SÃO OFFERECIDAS

A 30 de janeiro de 1845, o general Rivera maravilhado pela conducta da

legião italiana no combate de Cerro e na passagem da Boyada escreveu-me

a seguinte carta:

«Senhor:

«Quando, no anno passado, dei á legião franceza uma certa

quantidade de terras, esperava que o acaso conduzisse ao meu

quartel general algum official da legião italiana, dando-me

assim occasião de satisfazer um ardente desejo do meu coração,

mostrando á legião italiana a estima que lhe consagro pelos

importantes serviços prestados á republica na guerra que

sustentamos contra o exercito invasor de Buenos Ayres.

«Para não demorar por mais tempo o que considero como o

comprimento de um dever sagrado, incluo n'esta, um acto de

doação que faço á illustre e valorosa legião italiana, como uma

prova sincera do meu reconhecimento pessoal pelos eminentes

serviços prestados ao meu paiz.

«A offerta não é egual aos serviços, nem aos meus desejos, e

comtudo ouso esperar que não recusareis offerecel-a em meu nome

aos vossos camaradas, informando-os da minha boa vontade e do

meu reconhecimento.

«Aproveito esta occasião, coronel, para vos assegurar a minha

perfeita consideração e profunda estima.

«FRUCTUOSO RIVERA.»

O que ha de mais importante n'esta carta é que este excellente patriota

nos fazia este presente da sua propria fortuna, porque as terras que nos

offerecia eram do seu patrimonio.

A 23 de maio seguinte, epocha em que me foi entregue a sua carta,

dirigi-lhe a seguinte resposta:

«Excellentissimo senhor:

«O coronel Parrodi, me entregou deante de todos os officiaes da

legião italiana, segundo o vosso desejo, a carta que tiveste a

bondade de me escrever com data de 30 de janeiro, e juntamente

com ella um acto pelo qual fazieis espontanea doação á legião

italiana d'uma porção de terreno, das vossas propriedades,

existentes entre o Arroyo das Avenas e o Arroyo Grande, ao norte

do Rio Negro, e d'uma manada de bois, e de todas as fazendas

alli existentes.

«Dizeis na vossa carta que este presente nos é feito como

remuneração dos nossos serviços á republica.

«Os officiaes italianos depois de terem tomado conhecimento da

vossa carta declararam unanimemente, em nome da legião italiana

que elles offerecendo os seus serviços á republica não queriam

receber senão a honra de partilhar os perigos que correm os

naturaes do paiz que lhe deram hospitalidade. Obrando d'este

modo obedecem á sua consciencia. Tendo satisfeito ao que elles

olham como o simples comprimento d'um dever, continuarão, tanto

quanto as necessidades do cerco o exigirem, a partilhar os

perigos dos nobres Montevidianos, não acceitando outra

recompensa do seu trabalho.

«Tenho pois a honra de lhe communicar a resposta da legião, com

a qual os meus principios e sentimentos concordam completamente.

Por isso vos envio o original da doação.

«Deus vos dê muitos annos de vida.

«GIUSEPPE GARIBALDI.»

Os italianos continuaram a servir sem retribuição alguma, e o meio que

tinham para alcançar algum dinheiro quando tinham necessidade de renovar

alguma parte do vestuario, era o de ir servir algum negociante francez,

que pagava aos substitutos quasi dous francos.

Sempre será bom dizer que, se entretanto havia algum combate o

substituto battia-se como um leão, fazendo-se muitas vezes matar pelo

proprietario do logar.

VI

EXILIO DE RIVERA

Já disse qual era o plano do general Paz quando sahimos de noite de

Montevideo.

Este plano se vingasse mudava a face dos negocios e fazia segundo todas

as probabilidades levantar o cerco a Oribe, mas tendo falhado

completamente este plano, voltamos a occupar o nosso posto ordinario,

isto é aos postos avançados que de um e outro lado, se fortificavam cada

vez mais, até que nós tivessemos do nosso lado uma linha de bateria que

correspondesse ás baterias do inimigo.

Foi por esta occasião que o general Paz partiu, para dirigir a

insurreição da provincia de Corrientes, coadjuvando assim a causa

nacional, e dividindo as forças do general Urquiza que então fazia

frente ao general Rivera.

Infelizmente todos estes projectos não tiveram o exito que se esperava

por causa da impaciencia do general Rivera, que sem se importar com as

ordens do governo, que lhe prohibiam o acceitar uma batalha decisiva,

acceitou essa batalha, perdendo-a nos campos da India Morta.

O nosso exercito foi batido. Dois mil prisioneiros, e talvez mais, foram

estrangulados, contra todas as leis da humanidade e da guerra.

Muitos ficaram no campo da batalha, outros foram dispersos pelas

immensas planicies. O general Rivera com alguns dos seus alcançou a

fronteira do Brazil e foi como causa d'este immenso desastre exilado

pelo governo.

Perdida a batalha da India Morta, Montevideo ficou entregue aos seus

proprios recursos. O coronel Corrêa tomou o commando da guarnição.

Comtudo o cuidado particular da defeza ficou incumbido a Pacheco e a

mim. Alguns dos nossos chefes depois d'esta deploravel batalha

conseguiram reunir diversos destacamentos dos soldados dispersos e

fizeram com elles a guerra de guerrilhas onde o terreno a isso se

prestava.

O general Llanos reuniu duzentos homens e preferindo juntar-se aos

defensores de Montevideo, lançou-se sobre o inimigo que vigiava o Cerro

e abrindo caminho alcançou o forte.

Pacheco recebendo este pequeno reforço teve a idéa de dar um golpe de

mão.

A 27 de maio de 1845 embarcámos em Montevideo, durante a noite, a legião

italiana e algumas outras forças tiradas do Cerro, e com este pequeno

corpo fomo-nos embuscar n'um velho paiol que se achava abandonado.

Na manhã de 28 a cavallaria do general Llanos sahiu, protegida pela

infanteria, e attrahiu o inimigo do lado do paiol e quando elle se

achava a pequena distancia, os nossos soldados sahiram com a legião

italiana á frente e carregando á bayoneta cobriram o terreno de

cadaveres.

Então toda a divisão em observação no Cerro se apresentou no campo, e

travou-se um mortifero combate que se decidiu em nosso favor.

O inimigo foi posto em completa derrota e perseguido á bayoneta, sendo

necessario que viesse repentinamente uma horrivel tempestade para

finalisar esta carnificina.

As perdas do inimigo foram consideraveis.

Teve grande numero de feridos e mortos e entre os ultimos figura o

general Nunz, um dos melhores e mais bravos generaes inimigos, que foi

morto por uma bala dos nossos legionarios.

Tambem apanhámos grande numero de bois, de modo que entrámos em

Montevideo com a alegria e esperança no coração.

O feliz resultado d'esta tentativa fez com que propozesse outra ao

governo. Tratava-se de embarcar na flotilha a legião italiana, subir o

rio, occultando os meus homens o melhor possivel, até Buenos-Ayres, e

chegados ahi desembarcarmos de noite, dirigindo-nos á casa de Rosas e

fazendo-o prisioneiro, conduzil-o a Montevideo.

Tendo bom exito esta expedição terminava a guerra de um só golpe, mas o

governo recusou.

Nos intervalos de repouso concedidos ao nosso exercito, dirigia-me á

pequena flotilha e não obstante o bloqueio de que eu enganava a

vigilancia, tomava o largo e ia apanhar algum navio mercante, que

conduzia prisioneiro até ao porto com grande raiva do almirante Brown.

Outras vezes por manobras bem combinadas, attrahindo sobre mim todas as

forças do bloqueio franqueava o porto a navios mercantes que conduziam

provisões á cidade sitiada.

Muitas vezes tambem embarcava-me de noite com cem dos meus legionarios

os mais resolutos e tentava atacar os navios inimigos, que não podia

atacar de dia por causa da grossa artilheria, mas era sempre inutilmente

porque o inimigo desconfiando das minhas surprezas não ficava de noite

debaixo de ancora, transportando-se para algum sitio distante d'aquelle

onde eu o julgava.

Finalmente, um dia sahi com tres pequenos navios, os melhores da

esquadra, e resolvi ir atacar o inimigo na bahia de Montevideo.

A esquadra de Rosas compunha-se de tres navios: _O 25 de março_, _O

general Echague_, e _O Maypu_.

Estes tres navios tinham quarenta e quatro peças montadas.

Eu tinha unicamente oito peças de pequeno calibre, mas conhecia os meus

homens, e estava convencido de que se chegassemos á abordagem o inimigo

estava perdido.

Avancei para a esquadra em linha de batalha.

Estavamos quasi a tiro de peça, julgando já todos o combate inevitavel.

Os terraços de Montevideo estavam cheios de curiosos; os mastros dos

navios de todas as nações estacionados no porto estavam tambem cheios de

espectadores.

Todos esperavam com anciedade o resultado do combate que se julgava

inevitavel.

Mas o commandante da esquadra argentina não quiz correr o risco d'este

combate, e tomou o mar, entrando nós no porto no meio das acclamações

geraes.

VII

INTERVENÇÃO ANGLO-FRANCEZA

Os negocios de Montevideo n'esta conjunctura iam o peior possivel,

quando a intervenção anglo-franceza veiu pôr um veto ao bloqueio; as

duas potencias alliadas apoderaram-se da frota inimiga e dividiram-na.

Resolveu-se então nova expedição sobre o Uruguay.

O fim d'esta expedição era de se apoderar da ilha de Martim-Garcia, da

cidade de Colonia e de alguns outros pontos, e principalmente do Salto,

pelo qual se poderiam abrir communicações com o Brazil, ao mesmo tempo

que se formaria um pé de exercito de terra destinado a substituir o que

fôra destruido.

Embarquei duzentos voluntarios na minha pequena frota, e dirigi-me sobre

o forte Martim-Garcia. Encontramo-lo abandonado pelo inimigo e

occupamo-lo.

A cidade de Colonia da mesma fórma estava abandonada, quando ante ella

se apresentaram a esquadra anglo-franceza, e a minha pequena frota.

A legião italiana desceu, combateu e repelliu o general Montero, que com

forças superiores se achava do outro lado da cidade.

Durante este tempo as esquadras, não sei dizer com que fim, abriram um

vivissimo fogo sobre a cidade abandonada; pozeram as tropas em terra, e

estas tropas formaram a nossa reserva contra o general Montero.

Pelas duas horas da tarde fizemos a nossa entrada na cidade.

A legião italiana foi aquartellada n'uma egreja; dei as mais severas

ordens para que se respeitassem as menores cousas pertencentes aos

habitantes forçados a abandonar suas casas.

Inutil é dizer que os legionarios obedeceram religiosamente ás minhas

ordens.

A cidade foi guardada e fortificada pelos nossos, que a guarneceram. As

frotas ingleza e franceza entraram no Parana e destruiram, n'um combate

que durou tres dias, as baterias que guardavam o curso do rio.

A resistencia do inimigo foi heroica.

Continuei então com a minha pequena frota, composta de um brigue, de uma

escuna e outros muitos pequenos vasos, a subir o rio.

Durante todo o tempo que haviamos marchado de conserva o almirante

francez e o commodoro inglez me tinham testemunhado a mais viva

sympathia, sympathia de que o almirante Lariné particularmente me

conservou provas.

Bastantes vezes um e outro vieram assentar-se em nosso _bivac_, provando

da carne que fazia o nosso unico sustento. Anzani, que nos acompanhava

em a nossa expedição, partilhou esta honrosa sympathia. Era um d'estes

que bastava vel-os para os amar e estimar. Em quanto que a nossa frota

subia o Uruguay, vimos reunir-se a nós alguns homens de cavallaria

commandados pelo capitão da Cruz, verdadeiro heroe, quero dizer, homem

do mais bello caracter e da maior coragem.

Estes poucos homens seguiram a frota costeando o Uruguay, e serviram-nos

de muito, a principio como exploradores, depois como fornecedores de

viveres.

Occuparam elles differentes paizes, as Vacas, Mercês, etc.

Por toda a parte onde se encontrava o inimigo era batido.

Paysanda, fortaleza da Praça do Uruguay, experimentou se nos esmagava

debaixo da sua artilheria; mas, todavia, não nos fez grande mal.

Acima de Paysanda, tomamos posição n'uma estancia chamada o Hervidero

onde estivemos muitos dias.

O general Lavalleja tentou sobre nós um ataque de noite com infanteria,

cavallaria e artilheria; mas foi repellido com consideraveis perdas

pelos nossos legionarios.

De Hervedero escrevi ao governador por intervenção do capitão Montaldi,

que voltava a Montevideo n'um navio mercante; mas o navio foi atacado ao

passar diante do Paysarda, rodeado pelas embarcações inimigas e tomado

depois de uma rigorosa resistencia do capitão Montaldi, que abandonado,

só, sobre a ponte foi aprisionado.

Uma multidão de barcos navegando com a bandeira inimiga cahia todos os

dias em nosso poder. Deixei á maior parte d'aquelles que os tripulavam a

liberdade de voltar para os seus.

Gualeguaychu, cidade situada na margem direita do Uruguay e sobre o

Gualeguay, no Entre-rios, cahiu por surpresa em nossas mãos.

Foi ali que eu aprisionei D. Leonardo Millão o mesmo que tendo-me

antigamente preso me tinha feito dar o supplicio das cordas.

Soltei-o, sem lhe fazer mal algum, e deixando-lhe como unica punição o

medo que havia tido ao reconhecer-me.

Gualeguaychu foi abandonada; não era posição sustentavel; mas pagou uma

boa contribuição em dinheiro, roupas e armas.

Emfim depois de uma multidão de combates e aventuras chegámos com a

esquadra ao logar chamado de Salto, porque o Uruguay fórma n'este logar

uma cataracta, e acima d'esta não é navegavel senão por pequenos barcos.

O general Lavalleja que occupava o paiz abandonou-o desde a nossa

chegada, forçando todos os habitantes a seguil-o.

De resto o paiz era perfeitamente apropriado á expedição, não se achando

longe da fronteira.

Resolvi que ahi nos estabelecessemos.

Por consequencia a minha primeira operação foi marchar contra Lavalleja

acampado sobre o Zapevi, affluente do Uruguay.

Durante a noite puz a caminho a nossa infanteria e alguns homens de

cavallaria commandados por de la Cruz.

Ao raiar d'alva estavamos perto do campo que achámos defendido de um

lado pelos carros, de outro pelo Uruguay, e voltado para o Zapevi.

Formei os meus homens em duas pequenas columnas e com a cavallaria ao

meu lado marchei ao encontro do inimigo.

Depois de um combate de alguns minutos, estavamos senhores do campo,

passando o inimigo o Zapevi na mais completa desordem.

O resultado d'esta operação foi logo o regresso ao Salto de todas as

familias que violentamente haviam sido arrancadas de suas casas.

Fizemos quasi cem prisioneiros ao inimigo, tomando-lhe muitos cavallos,

bois, munições, e uma peça de artilheria, a mesma que tinha attirado

sobre nós no ataque de Hervidero; era de fundição italiana e tinha no

bronze o nome do fundidor, Cosimo Cenni, anno de 1492.

Esta expedição fez a maior honra á legião e teve grandes consequencias.

Perto de tres mil habitantes reentraram em seus lares.

Dirigidos por Anzani, os meus legionarios se occuparam logo em elevar

uma bateria sobre a praça da cidade, posição que dominava os arredores.

Enviei correios ao Brasil, para me pôr em communicação com os

refugiados, e graças a elles, começou a reorganisação de um exercito de

campanha.

Em pouco tempo, a bateria foi construida e armada de dois canhões, tão

bem, que na noite de 5 de dezembro de 1845, ella se achou prompta para

responder aos ataques do general Urquiza, que se apresentou, na manhã de

6 com tres mil quinhentos homens de cavallaria, oitocentos de infanteria

e uma bateria de campanha.

As minhas disposições foram aquellas que se tomam quando se quer

centuplicar as forças materiaes pela influencia moral.

Ordenei á esquadra que se retirasse e não deixasse uma só barca ao nosso

alcance. Espalhei os meus homens pelas ruas, fazendo-lh'as embarricar, e

não deixando abertas senão as ruas principaes. Publiquei uma energica

ordem do dia, e esperei Urquiza, que confiando na sua força, tinha

declarado a seus soldados que os homens que estavam ante si tinham

_corações de gallinha_.

Pelas nove horas da manhã por todos os pontos nos atacou;

respondemos-lhe por fogo de atirador sahindo de todas as ruas e pelo

fogo das nossas duas pequenas peças.

Chegado o momento, e quando o vi admirado da nossa resistencia, fil-o

carregar por duas companhias de reserva, e retirou-se vergonhosamente

deixando bom numero de mortos e feridos nas casas de que elle tinha

começado a apoderar-se, não ganhando no seu ataque mais que levar-nos

algumas alimarias, e isto ainda por falta do piquete de uma embarcação

de guerra ingleza, que unida a um navio francez nos tinha seguido até ao

Salto.

Estas duas embarcações tinham-se offerecido para nos ajudar a defender o

paiz; o piquete inglez mudou em forte uma casa que defendia o curral,

onde estavam fechadas perto de seiscentas alimarias. O inimigo enviou um

destacamento da sua infanteria sobre este ponto; os soldados inglezes

foram tomados de um terror panico, de sorte que uns fugiram pelas

janellas, outros pelas portas, e deixaram toda a facilidade aos soldados

de Urquiza de levar os animaes.

Durante vinte tres dias o inimigo renovou os seus ataques sem obter

resultado algum. Vinda a noite, nós com elles; não lhe deixavamos um

momento de descanço. Faltou-nos carne, mas comemos os nossos cavallos.

Emfim convencido da inutilidade de seus esforços. Urquiza tomou o

partido de se retirar, confessando que tinha nos seus diversos ataques

contra nós, perdido mais gente que na batalha da India-Morta.

O inimigo retirando-se tentou apoderar-se das minhas embarcações para

passar ao Uruguay; mas graças á minha vigilancia o seu projecto foi

frustrado, e foi obrigado a atravessar o rio doze leguas acima; depois

do que voltou a acampar-se nos campos de Camardia em frente do Salto.

Em quanto que Urquiza sustentava este acampamento fiz em pleno dia,

passar o rio a alguns homens de cavallaria, protegidos pelas nossas

embarcações e infanteria.

Este pequeno troço atacou os homens que guardavam um immenso rebanho de

cavallos que pastavam nos pampanos, e, repellindo uma centena de

cavallos ante si para substítuir os que nós tinhamos comido, lhes fez

passar o rio e m'os conduziu antes que o inimigo désse pela surpreza e

tentasse impedil-a.

VIII

SUCCESSO DO SALTO SANTO ANTONIO

Entretanto o coronel Baez, vindo do Brazil, tinha-se reunido a nós com

perto de duzentos homens de cavallaria.

O general Medina reunia as suas forças, e nós esperavamol-o de dia para

dia. Com effeito, a 7 de fevereiro de 1846, recebi uma mensagem d'elle

que, me avisava que no dia seguinte se acharia sobre as alturas de

Zapevi com quinhentos cavalleiros.

Pedia noticias do inimigo, e um soccorro em caso de ataque.

O seu mensageiro levou o aviso de que a 8 eu estaria com forças

suficientes, para proteger sua entrada no paiz, nas alturas do Zapevi.

Em virtude d'isto pelas nove horas parti com cento cincoenta homens da

legião e duzentos cavalleiros, costeando o Uruguay.

Dirigimo-nos ás Laperas, a tres leguas pouco mais ou menos do Salto,

flanqueados por quatrocentos inimigos pertencentes ao corpo do general

Servando Gomes, unicas forças, que n'aquelle momento se achavam em

observação no Salto.

A nossa infanteria tomou posição sob um _zapère_—um zapère é um tecto de

palha suspenso por quatro paus—o qual não nos offerecia outra vantagem

senão de nos livrar dos abrasadores raios do sol.

A cavallaria, commandada pelo coronel Baez e o major Carvalho,

estendia-se até ao Zapevi.

Anzani tinha ficado em defeza do Salto, doente de uma perna, e com elle

doentes tambem trinta ou quarenta soldados.

Alem d'isto uma duzia de homens estavam de guarda á bateria.

Eram perto das onze horas da manhã; vi avançar, das planicies do Zapevi

para as alturas onde eu me achava um consideravel numero de inimigos a

cavallo; quasi ao mesmo tempo apercebi-me de que cada cavalleiro trazia

um soldado de infanteria na garupa. E com effeito a pouca distancia das

alturas em que me achava, os cavalleiros se alargaram e pozeram em terra

seus companheiros os quaes logo se prepararam a marchar sobre nós.

A nossa cavallaria abriu fogo contra o inimigo; mas, como a sua

superioridade de numero era muita foi posta promptamente em fuga.

Fugindo a nossa cavallaria, se dirigiu para o _zapère_ ao qual já

chegavam as ballas inimigas.

Então, comprehendendo que a verdadeira resistencia era com os meus

bravos legionarios, e que onde elles estivessem estaria a victoria,

corri em sua direcção; mas, quando chegava ás primeiras fileiras no meio

do fogo inimigo, senti repentinamente que o meu cavallo me faltava

debaixo do corpo, e cahindo me arrastava comsigo.

Minha primeira idea foi que vendo-me cahir, a minha gente ia julgar-me

morto e que esta supposição poderia pôl-os em desordem. Quando cahi

tive, pois, a presença de espirito de tirar uma pistolla dos coldres, e

alevantando-me logo, desfechei-a para o ar, afim de que se visse que

estava são e salvo.

Defeito, haveria apenas tempo de me vêr em terra quando já estava

levantado e cercado dos meus.

Entretanto o inimigo avançava sempre, com mil e duzentos homens de

cavallaria e trezentos de infanteria.

Abandonados pela nossa cavallaria, tinhamos ficado ao todo cento e

oitenta e dois. Eu não tinha tempo de fazer um longo discurso; além de

que tambem não era esse o meu forte. Elevei a voz e não disse senão

estas palavras:

—Os inimigos são numerosos; nós somos poucos; tanto melhor! quanto menos

somos tanto mais glorioso será o combate. Socego e não façamos fogo

senão no fim e carreguemos á bayoneta.

Estas palavras eram ditas a homens sobre os quaes cada uma d'ellas fazia

o effeito de uma faisca electrica.

Além disso, qualquer outra determinação teria sido funesta. A perto de

uma milha sobre a direita tinhamos o Uruguay com alguns pequenos

bosques; mas uma retirada em tal crise, teria sido o signal da perda de

todos; tinha-o já comprehendido por isso não pensei em tal.

Chegada quasi a sessenta passos de nós a columna inimiga fez uma

descarga que nos causou grande damno; mas os nossos lhe responderam por

uma fuzilaria muito mais mortifera, tanto mais que as nossas espingardas

eram carregadas não só de ballas, mas ainda de outros projectis.

O commandante da infanteria cahiu mortalmente ferido; as filas

abriram-se, e, á frente dos meus bravos com uma espingarda na mão eu os

metti n'uma carga pronunciada.

Era tempo: a cavallaria estava já sobre os flancos, e na rectaguarda.

A refrega foi terrivel.

Alguns homens da infanteria inimiga deveram sua salvação a uma fuga

rapida. Isto deu-me tempo de fazer frente á cavallaria.

A nossa gente rodou como se cada um houvesse recebido ordem de executar

esta manobra.

Todos combateram, officiaes e soldados, como gigantes.

Uma vintena de cavalleiros então, conduzidos por um bravo official

chamado Vega, tendo vergonha da fuga de Baez e da sua gente, que nos

deixavam sós, voltaram a toda brida, estimando mais partilhar a nossa

sorte que continuar uma retirada vergonhosa.

Vimol-os repentinamente atravessar pelo meio do inimigo e collocar-se a

nosso lado.

Havia, eu vol-o affirmo coragem n'esta resolução.

Alem d'isto a carga que elles executaram juntando-se a nós, serviu-nos

muito n'este critico momento porque separou e fez cahir o inimigo do

qual uma parte se tinha posto em perseguição dos fugitivos.

Tambem na nossa segunda descarga a cavallaria vendo a sua infanteria

destruida e vinte cinco ou trinta homens dos seus cahir debaixo do nosso

fogo, fez um passo de retirada e poz em terra perto de seiscentos homens

que armando-se de caravinas nos rodearam de todos os lados.

Tinhamos ao redor de nós um espaço de terreno coberto de cadaveres de

cavallos e homens assim nossos como inimigos.

Poderia contar innumeraveis actos de bravura individual.

Todos combateram como os nossos antigos heroes do Tasso e de Ariosto;

muitos estavam cobertos de feridas de toda a sorte, ballas, golpes de

sabre, e pontadas de lança.

Um joven clarim de quinze annos que nós chamavamos o vermelho, e que nos

animava durante o combate com o seu clarim, foi ferido com uma lançada.

Largar o clarim, tomar o sabre e lançar-se sobre o cavalleiro que o

tinha ferido, foi obra de um instante.

Só depois de o ferir, é que expirou.

Depois do combate os dois cadaveres foram encontrados agarrados um ao

outro. O mancebo estava coberto de feridas; o cavalleiro tinha na coxa

da perna o signal de uma profunda mordedura que lhe havia dado o seu

inimigo.

Do lado dos nossos adversarios houve tambem actos de prodigiosa

temeridade. Um d'elles vendo que a especie de curro ao redor do qual

estavamos agrupados, se não era uma fortaleza contra as ballas, era pelo

menos um abrigo contra o sol, tomou um tissão inflammado, correu a

cavallo a toda a brida, e passando lançou como um relampago o tissão

sobre o tecto de palha.

O tissão cahiu por terra sem preencher o fim do cavalleiro; mas o que

tinha ali deitado tinha executado uma acção temeraria.

Os nossos iam atirar sobre elle; e eu impedi-os bradando:

—É preciso conservar os bravos; são da nossa raça.

Ninguem lhe fez fogo.

Era para ver-se como todos estes bravos me escutavam.

Uma palavra minha dava força aos feridos, coragem aos hesitantes, e

redobrava o ardor dos fortes.

Quando vi o inimigo dizimado pelo nosso fogo, cançado da nossa

resistencia, então sómente fallei de retirada, dizendo apenas:

_Retiremo-nos!_ mas:

—Retirando-nos não deixaremos um só ferido no campo de batalha.

—Não! não! gritaram todas as vozes.

Feridos eramos nós quasi todos.

Quando vi todos silenciosos e firmes, dei tranquillamente ordem de

retirar combatendo.

Por felicidade não tinha uma beliscadura, o que me permittia de estar em

toda a parte, e quando um inimigo se aproximava de nós temerariamente

fazia-o arrepender da sua temeridade.

Os poucos homens sãos que havia entre nós cantavam hymnos patrioticos

aos quaes os feridos respondiam em côro.

O inimigo nada d'isto comprehendia. O que nós mais soffriamos era falta

de agua.

Uns arrancavam raizes e mastigavam-n'as; outros sugavam nas ballas;

alguns beberam a propria ourina.

Emfim veiu a noite e com ella algum frescor.

Serrei os meus homens em columna, e colloquei os feridos no meio.

Sómente dois que era impossivel transportar deixei no campo de batalha.

Recommendei muito á minha gente de não se dispersar, e de retirar na

direcção de um pequeno bosque.

O inimigo tinha-se apoderado d'elle antes de nós, mas foi repellido

d'ahi vigorosamente.

Enviei então exploradores, que voltaram a dizer-me que o inimigo tinha

quasi toda a sua gente em terra, e os cavallos andavam pastando. Sem

duvida havia-se elle persuadido que a causa da nossa paragem era a fome

e falta de munições; mas fome não a sentiamos; quanto a munições,

tinhamos encontrado nos nossos adversarios mortos o que nos faltava.

Todavia o mais difficil ainda não estava feito.

O inimigo estava acampado entre nós e o Salto: depois de um descanço de

uma hora, que lhe fez julgar que ficariamos toda a noite onde estavamos,

ordenei á minha gente de se formar em columna, e a marche-marche

lançámo-n'os impetuosos sobre elles.

Os clarins inimigos soaram dando o signal de pôr a postos; mas antes que

cada homem se fixasse na sella e tomasse as rédeas, nós tinhamos já

passado.

Dirigimo-nos de novo para uma especie de bosque. Uma vez abrigado entre

as arvores dei ordem a todos os meus de se deitarem com o ventre para

terra. O inimigo dirigia-se para nós, sem nos ver, tocando á carga.

Deixei-o approximar a cincoenta passos do bosque e então sómente gritei

«Fogo» dando eu o exemplo.

Vinte e cinco ou trinta homens e outros tantos cavallos cairam; o

inimigo voltou á brida, e reentrou no seu acampamento. Então disse aos

meus:

—Vamos, meus filhos, julgo que chegou o momento de ir beber.

E costeando sempre o nosso pequeno bosque, levando nossos feridos, tendo

a distancia os nossos mais implacaveis inimigos, que não queriam

abandonar-nos, ganhamos a margem do rio. Á entrada da aldeia

esperava-nos uma grande emoção: Anzani estava ali chorando de alegria.

Abraçou-me primeiramente e quiz abraçar todos os outros depois de mim.

Anzani tambem tinha tido seu combate: tinha sido com alguns homens

atacado pelo inimigo, que antes do combate lhe tinha intimado de se

render, dizendo-lhe que eramos todos mortos ou prisioneiros.

Mas Anzani havia respondido:

—Os italianos não se rendem; descampae todos ou então esmago-vos com os

meus esquadrões. Em quanto eu tiver comigo um dos meus companheiros,

combateremos juntos, e quando estiver só, então porei fogo á polvora e

me farei saltar comvosco pelos ares.

O inimigo não quiz saber mais nada, e retirou-se. A minha gente que se

achava no Salto encontrando tudo em abundancia dizia dirigindo-se a mim:

—Tu nos salvaste a primeira vez; mas Anzani nos salvou segunda!

No seguinte dia escrevi esta carta á commissão da legião em Montevideo:

«Irmãos.

«Antes de hontem tivemos nos campos de Santo Antonio, a legua e

meia da cidade, o mais terrivel e mais glorioso de nossos

combates. As quatro companhias da nossa legião e vinte homens de

cavallaria, refugiados sob a nossa protecção, não sómente se

defenderam contra mil e duzentos homens de Servando Gomes, mas

destruiram inteiramente a infanteria inimiga que os tinha

assaltado no numero de trezentos homens. O fogo começou ao meio

dia e acabou á meia noite.

«Nem o numero dos inimigos, nem suas cargas repetidas, nem sua

massa de cavallaria, nem os ataques de espingardeiros a pé,

poderam nada contra nós; ainda e que não tivessemos outro abrigo

mais que um curro arruinado sustido por quatro pilares, os

legionarios repelliram constantemente os assaltos dos inimigos

furiosos; todos os officiaes se transformaram em soldados n'este

dia; Anzani que tinha ficado no Salto e ao qual o inimigo

intimou ordem de se render, respondeu com o morrão na mão e o pé

na bateria, ainda que o inimigo lhe havia assegurado que nós

eramos todos mortos ou prisioneiros.

«Tivemos trinta mortos e cincoenta feridos; todos os officiaes

foram feridos levemente, excepto Scarone, Saccarello mais velho

e Traversi.

«Hoje não dou o meu nome de legionario italiano por um mundo de

ouro.

«Á meia noite pozemo-nos em retirada sobre o Salto; ficámos

pouco mais de cem legionarios sãos e salvos. Os que só haviam

sido levemente feridos marchavam á frente para cortar o inimigo

quando elle se adiantasse muito.

«Ah! é um combate o qual merece ser gravado em bronze!

«Adeus! D'outra vez serei mais extenso. Vosso,

_José Garibaldi_.

«P. S. Os officiaes feridos são Casana, Marochetti, Beruti,

Remorini, Saccarello mais novo, Sacchi, Grafigna e Rodi.»

Foi esta a nossa ultima refrega importante em Montevideo.

IX

ESCREVO AO PAPA

Foi por este tempo que soube em Montevideo a exaltação ao pontificado de

Pio IX.

Sabe-se quaes foram os principios d'este reinado.

Como muitos outros acreditei n'uma epocha de liberdade para a Italia.

Resolvi logo para ajudar o santo padre nas generosas resoluções de que

estava animado, de lhe offerecer o meu braço e os de meus companheiros

d'armas.

Memorias de José Garibaldi, volume 2 Traduzidas do manuscripto original por Alexandre Dumas · 第 1 / 10 段