Apesar do catholicismo, podemos, pois, dizer que não havia no dominio da

India uma religião capaz de moralisar o imperio, embora houvesse

exemplos de uma santidade heroica como a de Antonio Galvão, o apostolo

das Molucas. Mas taes exemplos eram excepções, e faltando o primeiro

elemento de ordem, quando os motivos sociaes não se tinham definido

ainda de um modo sufficiente, o individualismo naturalista do tempo

arrastava os homens a todas as desordens, precipitava-os em todos os

crimes; e umas e outros cresciam tanto mais, quanto maior era a força

intima, o arrojo, a temeridade dos guerreiros. Sobre isto, a influencia

dissolvente do clima, do luxo, da sensualidade oriental, veiu lançar a

sua semente de corrupção; e o individuo, desarmado, sem crenças nem

leis, vivendo ao bel-prazer dos seus instinctos e paixões, caíu n'um

poço de ignominias, perdendo inteiramente a noção do proprio brio, da

força, e tornando-se, de um pirata, em um chatim.

A estas causas geraes é necessario addicionar as causas particulares,

provenientes da incapacidade fortuita dos governos em Lisboa; e

porventura, se a India se tivesse descoberto meio seculo mais cedo, o

genio politico de D. João II teria desde o começo evitado graves

transtornos. D. Manoel e os seus conselheiros tinham para a India um

plano só: exploral-a, e arrastar a Lisboa, por quaesquer meios, as

riquezas do Oriente. Systema e programma de governo foram cousas

desconhecidas; e assim vemos que a occupação muda de caracter com os

successivos governadores, e ao sabor das idéas ou das inclinações de

cada um d'elles. A India soffre de todos os inconvenientes dos governos

electivos e temporarios, sem gozar das vantagens dos governos

hereditarios; e é n'isso que se fundará sempre a accusação de

incapacidade que a historia formula contra o nosso dominio.

Porém essa incapacidade trazia raizes de mais fundo. Explorar o Oriente

commercialmente á hollandeza, era cousa para que o nosso genio nos não

chamava. Nos estadistas não houve a perspicacia bastante para medirem as

differenças que distinguiam Portugal de Veneza, e as condições do

commercio anterior do Oriente das condições em que elle ia achar-se,

desde que nós chegámos por mar, armados, á India. A geographia dera aos

arabes o dominio indisputado dos mares das Indias; e era ella tambem que

fazia dos venezianos os alliados do Turco, e de Veneza o emporio do

commercio oriental. Para nos substituirmos na India aos arabes, na

Europa a Veneza, tinhamos contra nós, não só a geographia, mas ainda e

principalmente outra circumstancia. Indo despojar os arabes da sua

preza, deviamos commerciar de armas na mão, manter poderosas esquadras

n'esses mares longinquos outr'ora avassallados pacificamente por visinhos.

Estas causas naturaes, alliadas ás causas egualmente naturaes da falta

de tirocinio commercial, produziram um genero de exploração, até certo

ponto novo na historia; porque não é propriamente uma _razzia_, como as

conquistas dos antigos persas ou assyrios, pois pretende ser um

commercio; mas, como o commercio só póde fazer-se á sombra da fortaleza

ou á vista da esquadra, as transacções andam sempre misturadas com

pilhagens e mortes, com roubos e violencias. Isto dá aos nossos capitães

da India uma phisionomia original na sua dualidade. Vê-se de um lado um

mercador, como foram outr'ora os carthaginezes ou phenicios; mas vê-se

no mesmo homem um soldado, como os de Cyro, ou Assurbanipal.[112]

Uma tal confusão de cousas, um tão grande cahos de elementos oppostos e

idéas contradictorias, bastavam para arruinar breve e necessariamente o

imperio; ainda quando, por sobre tudo isto, o caracter do portuguez,

pouco vivo na sua audacia, bronco, cheio de orgulho ingenuo, mais

temerario ainda que valente, presumpçoso e fanfarrão, não viesse

accrescentar difficuldades; ainda quando o ar inebriante, os venenos

adormentadores, as seducções perigosas, os vicios extenuantes do

encantado Oriente, não viessem entorpecer os braços e perverter o

espirito dos occupadores.

* * * * *

O padre Manuel Godinho, que estava na India pelo meiado do XVII seculo,

dividia em quatro epochas a historia do nosso dominio oriental. A

primeira eram os 24 annos do reinado de D. Manuel; a segunda os 35 do de

D. João III; a terceira vinha do 1557 a 1600; e a quarta, finalmente,

até á epocha em que elle viajava no Oriente.

Logo na primeira, o dominio portuguez conseguira alargar-se por todas as

costas e ilhas, desde Sofala até Malaka; isto é, pela Africa Oriental,

pela Persia, por todo o Hindustan, do Indo ao Ganges, e pela Indo-China.

Algumas, poucas, cidades propriamente portuguezas, feitorias e

fortalezas espalhadas por toda a parte, e a vassallagem dos soberanos em

cujos Estados assentavam: eis ahi a fórma do nosso dominio. Goa e Malaka

eram nossas; e tributarios da corôa portugueza os soberanos

(independentes ou subalternos, porque o regime politico indigena era

feodal)--o de Hormuz, na Persia; o de Tidore, nas Molucas;[113]

o de Simhala; o das ilhas Malajas; o de Batukala (Batecalá),

no Kanará; o de Kollan, em Karnataka, na extremidade austral da

peninsula da India; e na costa de Africa, os de Malinda e de Quilua.

Além d'estas suzeranias, algumas dellas consignadas apenas nos tratados,

varias fortalezas garantiam a vassallagem de outros territorios. A de

Sofala era a primeira, para quem vinha do reino pelo Cabo; depois a de

Sokotra na ilha d'esse nome, junto ao Jar-Hafun, dominando a embocadura

do mar Vermelho; d'ahi Hormuz, na garganta do golpho persico; depois, na

costa occidental da India, descendo para o sul, Chala, Anjediva,

fronteira a Goa; Kananor, Kalikodu, onde Vasco da Gama primeiro aportou;

Kadunguluru (Cranganor); Katchi, theatro das façanhas de Duarte Pacheco;

e Kollam (Coulão), proximo do cabo Kumâri. Sobre as ilhas do oceano

indico havia a fortaleza de Malaia (Maldiva), e a de Kola-ambu (Colombo)

em Ceylão; e finalmente, lá para os confins orientaes, Persaim (Pacem)

no Pégu,[114] e Ternate nas Molucas.

Os annos do segundo periodo viram consolidar-se estes dilatados dominios

por meio de numerosas fortalezas que, completando o systema esboçado

pelas antigas, bordavam de feitorias todas as costas. Na oriental da

peninsula hindustanica, ou de Cholamandalam (Coromandel), levantaram-se

os presidios de Nagapatan e de Mahabalipurum (Meliapor, S. Thomé).

Completou-se a occupação da ilha de Ceylão por meio de fortalezas e

colonias-feitorias[115] de Jafanapatan, de Negombo, de Kalitura

(Calaturé) e de Galla, na costa occidental; e de Pattikalo (Baticaloa) e

Trinkonomali (Triquimalé), na oriental. Bassaim, Daman e Diu, além de

outros pontos fortificados, asseguraram a costa de Kambai. Incessantes

guerras, bem succedidas, abateram as revoltas, consolidaram dominios

antigos, ou alargaram o imperio portuguez. Assim, a derrota final do

Samudri de Kalikodu, do sultão de Kambai, do Shah de Vijajapur

(Hidalcão), do Nizam de Ahmednagar (Melique, Isamaluco, Nisamaluco, ou

Nisamoxá), garantiram a posse pacifica de toda a costa occidental da

India, no Gujerât, em Kontana, no Kanará. As guerras da Indo-China

firmaram o poder portuguez em Jadithani (Ujantama), no reino de Annam, e

em Johor: em Bintang (Bintão), na ponta extrema da peninsula de Malaka;

em Atchim (Achem), na ilha de Sumatra; e a submissão de todo o

archipelago de Sunda até ás Molucas completou, por oriente, o

imperio colonial portuguez, reproducção do velho typo grego e

liby-phenicio.[116] Por occidente, os resultados eram menos decisivos; e

se as duas costas que levam ao estreito de Bab-el-Mandeb se confessavam

tributarias de Portugal, nem em Aden ao norte, nem ao sul, na costa de

Adal, o nosso dominio era positivo. O musulmano guardava com ciume a

porta do mar santo de Meka; e os mercadores arabes sabiam que, mais ou

menos embaraçados, jámais seriam de todo expulsos do commercio da India,

emquanto possuissem o mar Vermelho, onde os inimigos iam, sim, mas não

conseguiam fixar-se. De arma ao hombro, na sua ilha de Sokotra, e a

bordo das armadas que cruzavam no golpho do mar da Arabia, o portuguez

espiava o armamento das esquadras de rumes e os comboyos das náus de

Meka; mas não faltavam opportunidades para que umas e outras, astuta ou

violentamente, conseguissem atravessar o estreito, entrando ou saíndo

para mercadejar ou combater.

No terceiro periodo conserva-se, não se alarga o dominio da corôa; ainda

que na Africa oriental e na costa do Malabar apparecem novos presidios.

São, no Kanará, Barkuluru (Barcelor), Mangaluru (Mangalor), e Hanavare

(Onor). Na Africa, pela derrota e morte do _rei_ de Laum, a fortaleza de

Patta; mais ao sul a de Mombas, e a da ilha de Pemba; e além do

Zamgebar, já avassallado, Monomotapa, na costa de Moçambique. Afóra

isto, funda-se ainda Sirian, no Pégu; e Hugli (Golim), em Bengala, sobre

o delta do Ganges.

Porém o acontecimento mais grave d'este periodo foi a guerra simultanea

do Adil-Shah contra Goa, do de Ahmednagar contra Chala, do Samudri

contra Kalikodu. Os principes indigenas da India Occidental, collocados

contra o portuguez, foram porém batidos; ao mesmo tempo que o era o de

Atchin (Achem) atacando Malaka; e que um pirata incommodo e celebre nos

mares da India, o _Cunhalle_ (Kunji-Ali-Markar), era degollado em Goa

depois de tomado o seu forte de Pudepatan, d'onde saía ás prezas.

Apesar dos symptomas de decomposição, o imperio commercial portuguez

attingia, no fim do XVI seculo, o seu apogeu. As frotas singravam,

carregadas de preciosidades, até aos mares do Japão e da China, d'onde

traziam a prata e o ouro, sedas e almiscar. Das Molucas vinha o cravo,

de Sunda a massa e a noz, de Bengala toda a sorte de finissimos tecidos,

do Pégu os rubis, de Ceylão a canella, de Mausalipatam os diamantes. Na

pequena ilha de Manaar, junto a Ceylão, carregavam-se as perolas e

aljofares; em Atchin, na Sumatra, o benjoim; das ilhas Malajas trazia-se

o ambar; e Ceylão exportava elephantes, por Jafanapatan. Katchi

contribuia com os angelins, tekas e couramas; toda a costa com a

pimenta, e com o gengibre o Kanará. Nas ilhas de Sunda, Madurá fornecia

o salitre, Solor o pau, e Bornéo dava a camphora. De Kambai vinham o

anil, o lacar, os tecidos; e Chala era celebre pelas suas baetas. Hormuz

vendia os cavallos da Arabia, e as sedas e alcatifas da Persia: e, do

outro lado do mar da India, a Africa dava em Sokotra o azebre, em Sofala

o ouro, em Moçambique o marfim, o ebano e o ambar. Além dos preciosos

carregamentos, além dos lastros de arroz do Kanará para mantimentos, e

de pimenta que era um estanco régio, as náus da corôa levavam, de Diu,

de Hormuz e de Malaka, as grossas quantias de dinheiro que n'esses tres

pontos estrategicos se cobravam, pelos _cartazes_ que ahi compravam os

navios mercantes.

As causas de decadencia, tão antigas como a descoberta, mas avolumadas

todos os dias, precipitaram porém a queda, logo que, pela união a

Castella, Portugal se achou envolvido nas guerras com a Inglaterra e a

Hollanda. Mais tarde ou mais cedo, de um ou de outro lado, é, porém,

fóra de duvida que o dominio portuguez na India, corroido de tão grandes

lepras, cairia, desde que os protestantes, maritimos e mercadores,

seguissem caminho do Oriente, pelo cabo da Boa-Esperança, na esteira das

náus portuguezas. Já por vezes piratas francezes tinham ido por ahi á

India; e se, com o inglez, nem o hollandez lá fôra ainda, era porque

lh'o impediam as condições e embaraços que, a religião para um, para o

outro a independencia, levantavam na Europa. Batida a Hespanha pela

Inglaterra protestante e pelas Provincias-unidas independentes, ambas

estas nações, alliadas, iam batel-a na India, com a facilidade com que

se vence um inimigo doente, mal apercebido, cheio de vicios e molestias.

Os que no meiado do XVII seculo observavam o imperio portuguez, diziam

no estylo pretencioso do tempo: «Está o estado da India tão velho que só

o temos _por estado_. Se foi gigante é pigmeu. Se foi muito, não é já

nada.» Era apenas Goa e Macau, Bassaim, Daman, Diu, Moçambique e Mombas.

Já não havia armadas nos mares; e os hollandezes e inglezes, fomentando

a rebellião dos naturaes, e auxiliando-os, substituiam-nos, como nós

tinhamos substituido os arabes--mas com outra arte e muito juizo.

Uns preferiram a Indo-China, outros as partes occidentaes; e em

cincoenta annos varreram das costas e ilhas os presidios e feitorias

portuguezas. O inglez combateu ao lado do persa em Hormuz para nos

expulsar, e o exito levantou todos os naturaes. O soberano do Arakan

lança-nos fóra do Pégu, o de Bengala despede-nos de Hugli, perdemos

assim Mahabalipurum e na contra-costa, Mangaluru, Barkuru, Hanavare,

Chala, Kalikodu. A perda de Hormuz arrastou comsigo Maskat, com a qual

se foram todos os estabelecimentos no litoral da Arabia até ao mar

Vermelho; e desguarnecida a costa do norte, inutil era conservar Sokotra

e os pontos fronteiros no Adal, que foram abandonados com Quilua em

Africa, as ilhas de Malaja e Anjediva, e Passir (Pacem) em Sumatra.

Os hollandezes herdavam, do nosso imperio do extremo Oriente, tudo o que

não voltava a caír no poder dos naturaes. Outro tanto succedia na India.

Da Africa, Arabia, e Persia, isto é, das fronteiras occidentaes,

ficavam-nos Mombas e Moçambique;[117] das fronteiras orientaes, o ponto

isolado de Macau, já na China, e Solor; do centro, restavam apenas uma

cidade e quatro fortes--memoria, mais do que dominio, em frente d'esses

mares, onde já se não via tremular a bandeira portugueza em poderosas

esquadras como as de outro tempo.

Ambon, Tidor, Ternate nas Molucas, Malaka na sua peninsula, Madura e

toda a Sunda, eram hollandezas; os nossos antigos pontos de

Ceylão--Kola-ambu e Kalitura, Negombo e Battikalo, Trinkonomali, Galla e

Jafnapatan, com a ilha de Manaar visinha--pertenciam-lhe tambem; e nas

duas costas da peninsula hindustanica tinham-nos tomado egualmente

Negapatan de um lado, Kollam, Kadunguluru, Kananor, e Katchi, do outro.

Abertamente se proclamava a queda do imperio portuguez, e até os mais

infimos blasonavam. Um regulo do Arrakan escrevia nos seus estandartes:

«Fatekan, senhor de Sundiva, derramador do sangue dos christãos e

destruidor da nação portugueza!»

Tudo estava perdido, e a viagem terminada. Não havia outra cousa a

fazer, senão voltar a casa: embarcar para o reino, com o producto das

rapinas, dando a pôpa a esse mundo, onde a nossa missão terminára.

Cada capitão que, nos bons tempos, regressava da India, fazia outro

tanto: cerrava as arcas atulhadas de ouro e pedrarias, arrumava a

bagagem no porão, e largava as velas á náu, dizendo adeus para sempre ao

Oriente!

* * * * *

Assim aconteceu em 1589 a D. Paulo de Lima, o que assolára Johor, na

Malasia.[118] Foi em janeiro d'esse anno funesto que embarcou em Goa.

Vinha rico; e a náu gemia com o peso do carregamento, abarrotada com um

lastro de pimenta a granel, o convez atulhado de arcas, fardos e

escravos. O capitão trazia comsigo a esposa e domesticos; e embarcaram

com elle, de passageiros, numerosas pessoas: soldados de retorno,

frades, clerigos e mulheres.

Como na India não havia estaleiros onde os navios podessem vêr o fundo e

passar o calafeto, a náu, já velha e demasiadamente grande, voltava em

mau estado. Ao embarque benziam-se todos e imploravam a protecção dos

frades, lembrando-se dos muitos naufragios que o tamanho e má condição

das náus multipticava todos os dias. Este contava que da esquadra de

Kalikodu, no anno anterior, tinham desapparecido quatro náus com toda a

gente, vindo um mastro com a cordoalha da enxarcia entrar pelo rio de

Daman. Aquelle, que já tres vezes fôra á India, narrava o naufragio

celebre da _Flamenga_, e chamava ás náus sepultura de homens, e vasos de

desastres: e um, persignando-se, contrito, dizia que as náus iam e

vinham tão alastradas de peccados, que nas tormentas se ouviam falar os

demonios claramente. Os religiosos não declaravam que fosse impossivel,

mas recommendavam resignação e esperança no auxilio divino; intercalando

nos seus discursos phrases breves, n'um latim sagrado.[119]

Entretanto a viagem seguia feliz com um mar bonançoso. Todos confiavam

em que Deus não deixaria de proteger um capitão piedoso como era D.

Paulo de Lima. Isto, porém, não impedia que fossem commentando as

tristes cousas do mar; e com tanta maior liberdade, que começavam a

crer-se salvos d'esses perigos, á medida que viam irem-se approximando

do terrivel cabo da Africa. Asseguravam que nem um terço dos que

embarcavam em Lisboa chegavam á India, e isto ninguem impugnava, por ser

verdade reconhecida; e que a volta ao reino acabava os que as doenças da

terra, a miseria e a guerra tinham poupado no Oriente. Era um sorvedouro

de homens, era... De 700 a 800 que cada náu levava, só metade vinha a

servir. Depois, queixavam-se dos calafates que lançavam os navios ao

mar, mal feitos e mal vedados; e referiam os numerosos casos de

agua-aberta, dentro do Tejo, em navios novos. Outros accusavam o modo

deshumano com que se arrumava a bordo muita mais gente do que a lotação

permittia: iam como carneiros, a monte, nas toldas, expostos ao sereno

mortifero das noutes, sem camas nem para os enfermos, respirando o ar

podre das cobertas: por estas causas havia o escrobuto, as febres

podres, as dysenterias... como se não bastassem os perigos do mar e dos

ventos! Na náu em que fôra á India D. Antonio de Noronha iam 900

pessoas: metade morreu na viagem. Além d'isso os capitães--era

sabido--roubavam nos mantimentos, e para poupar, escolhiam generos da

peior especie. Tudo ia avariado e podre, a agua corrompida. N'uma viagem

de seis mezes, como a da India, abasteciam-se para cinco apenas: d'ahi

resultavam fomes.

Estas conversas exaltavam muitas vezes os animos. Como punham nos crimes

o nome dos réus, levantavam-se os partidos; e mais de uma vez houve

rixas tão bravas, que o capitão se viu forçado a leval-os de roldão,

para debaixo do castello de prôa; e os frades, atraz, de crucifixos nas

mãos, prégavam paz e amor, com orações pausadas em latim.

Os fidalgos e religiosos, no chapiteu da pôpa, commentavam as queixas

dos soldados, reconhecendo que, em verdade, tinham razão; e como eram

mais letrados, ligavam os effeitos ás causas.

A abundancia da pimenta e uma economia mal entendida tinham exagerado as

dimensões dos navios, ainda por cima aggravada pelo excesso das cargas.

Era funesta uma cubiça, causa de tantas victimas; mas o mal vinha de

longe, desde o reinado de D. João III. Os navios, mal desenhados, de

muito porão, e, por cima de tudo, abarrotados, não obedeciam ao leme, e

eram ronceiros... Verdade seja dita, os antigos não tinham podido

admirar as monstruosas carracas de sete e oito cobertas, com alojamento

para dois mil homens e porões para mil tonelladas de carga. Cada um

d'esses navios parecia um reino! Armavam peças de vinte tonelladas de

peso e calavam mais de dez braças. O costado media cincoenta palmos

acima do lume de agua á meia náu, e chegava a oitenta nos castellos á

pôpa e á prôa. Os baileus, que os ligavam, tinham dois andares: e nos

cestos de gavea cabiam dez ou doze homens, para manobrar os canhões

pequenos: berços e sacres. Mas as carracas, observavam tambem, eram

pessimas no mar: boiavam, não andavam. E um dos fidalgos velhos contava

como era o _S. João_, o _Botafogo_ em que fôra, em 1535, com a divisão

portugueza, a Tunis, na expedição de Carlos V.

E por fim, esquecidos de males distantes, todos concordavam em admirar a

grandeza de Portugal, onde havia sempre para mais de 400 navios de

alto-bordo, além de perto de 2:000 caravelas e vasos menores... porque o

tempo ia bonança, e o vento fresco levava-os rapidamente, pelo canal de

Moçambique, direito ao Cabo.

Estavam em 26° quando, porém, quasi á vista da ponta austral de S.

Lourenço (Madagascar), deram por uma agua que a náu fazia. Tudo correu

aos porões, clamando contra os calafates, por cuja causa as náus se

perdiam, andando pelo mar a Deus misericordia, por pouparem quatro

cruzados. Afastando a carga, viram que a agua era na prôa, abaixo das

escôas, ás primeiras picas: cuspia as estopas e as pastas de chumbo do

fôrro, jorrando no porão, d'um torno tamanho que por elle cabia um

punho. Mas, como o tempo estava bonança, não se affligiram demasiado,

depois de terem vedado o rombo com saccas de arroz; e foram rumando para

o sul, até 32°, a oitenta leguas da terra do Natal. Já levavam tres

mezes de viagem.

Foi então que o vento rondou a sudoeste, o que os forçou a fazerem-se na

volta do norte. O mar crescia, e com o quebrar das vagas a náu

desconjuntava-se, e o torno da prôa, vedado com arroz, cedeu. Agua

aberta e temporal desfeito: era um dia de juizo! Começaram a ouvir-se os

demonios, e as mulheres a gritar em ais. Cada qual implorava o seu

santo, a sua Nossa-Senhora, com uma fé simples e espontanea, beijando os

relicarios e bentinhos, resando em voz alta, confessando em grita os

seus peccados, arrepellando os cabellos, estorcendo-se nas ancias do

medo da morte e do inferno. Decorriam os expedientes devotos e pediam-se

milagres. O capitão levava a bordo uma cruz de ouro com uma particula do

Santo-Lenho engastada: reliquia, fetiche, em que todos punham as maiores

esperanças. Amarraram-na com um fio de retroz, ataram-na piedosamente a

uma espia, lançaram-na pela pôpa, a vêr se moderavam a sanha do mar. A

náu rolava com as ondas, o Santo-Lenho, seguro na pôpa, com um prégo

para o afundar, seguia os balanços do navio. Milagre! milagre!

exclamaram quando o céu aclarou, amainando o vento, parecendo socegar as

ondas. Os homens--fidalgos, soldados e escravos, brancos, pretos,

mulatos e amarellos, pozeram mãos á obra, confiando ainda na salvação.

Havia seis palmos de agua no porão; mas apesar da ancia, revezando-se

nos aldropes das bombas, não conseguiam vencel-a. Alijaram ao mar toda a

carga do convez, para libertar as escotilhas e alliviar a náu que vinha

abarrotada. Nos porões a carga nadava, e as pranchas de brazil, as pipas

da aguada, e mais volumes, boiando, eram lançados pelos balanços do mar

contra o costado, batido por fôra com violencia pelas ondas. O temporal

recrescia; o Santo-Lenho não queria protegel-os! Era um inferno e um

desespero de estrondos, com o assobiar sinistro do sudoeste na cordoalha

das enxarcias. Como as bombas não vasavam os porões, estabeleceram

forcas nas escotilhas, e por ahi tiravam a agua em barris, como de um

poço. D. Paulo de Lima não fugia ao trabalho, puxando á corda como os

escravos. Nem comer podiam; e os frades iam de uns a outros, com agua e

biscoitos, matando-lhes a fome e a sede, combatendo o cansaço com

exhortações, e recommendando contra a desesperança que confiassem na

providencia de Deus...

Tres dias, desde 12 a 14 de março, conservaram a fé e os brios. Ao

quarto viram que trabalhavam debalde. A agua já inundava a coberta, e só

no convez se podia estar. As bombas não trabalhavam, entupidas com a

pimenta a granel do porão; e só á custa do muito que iam alijando--todo

o fructo das rapinas da India!--conseguiam que o navio não sossobrasse.

Já tinham resolvido varar na terra; mas o temporal crescia sempre, e no

meio da cerração plumbea, não podiam governar-se. Para mais, uma vaga

partiu o leme. O vento sudoeste vinha batido em salseiros rijos, que

despedaçavam o panno. A pobre náu era um destroço, com que as ondas

brincavam na sua furia. Assim estiveram, perdidos e já sem esperança,

duas noites e um dia. De 14 para 16, os transes foram medonhos. Em

montes, estendidos no convez, os homens, ou blasphemavam, ou se

confessavam em voz alta, accusando todos os seus crimes, os roubos, as

violencias, os estupros, as matanças da India, e pedindo em lagrimas,

aos clerigos, que os salvassem das penas do inferno! As mulheres,

pranteando-se, levantavam um choro de resas, lembravam-se dos seus

santos favoritos, as _nossa-senhoras_ particulares da sua devoção,

fazendo votos e promessas. Os frades ouviam as confissões, absolviam,

deixando semi-mortos, na confiança do perdão, os que antes clamavam em

desespero, movidos pelo terror. E por sobre tudo isto os salseiros rijos

do vento assobiavam nas cordas, bradando: morte! morte! «D. Paulo havia

que aquelle castigo era por seus peccados.»

Historia de Portugal: Tomo I · 第 20 / 21 段