de Mello, queixa-se o _rei_, porque o alguazil o ferira e quizera matar
por lhe não dar dinheiro e joias que exigia; pedindo soccorro, pois se
lhe não acudissem, despovoava-se a cidade. E nem só as fortalezas, ao
lado dos soberanos indigenas, eram rendosos meios de rapina: o mar
produzia tambem muito. Ruy Vaz vae por sua conta a Bengala _ás prezas_; e
dois navios, mandados expressamente de Lisboa á India com instrucções e
cartas, para decidir o pleito entre Pero de Mascarenhas e Lopo Vaz,
fogem para Madagascar _ás prezas_, e ahi se perdem. A pirataria dos
portuguezes era tão productiva que excitava os estranhos; e de parceria,
piratas francezes, guiados pelos nossos, dão a volta d'Africa, e vão
explorar a India. Não era tampouco raro vêr nos mares do Oriente navios
de arabes guarnecidos por portuguezes mercenarios; os _mouros_ pagavam
melhor do que o rei. A guarnição da armada com que Lopo Vaz foi ás ilhas
de Sunda incendeia os navios por falta de pagamento do soldo; e os
naturaes assaltam os portuguezes á pedrada, obrigando-os a pedir
capitulação. Effectivamente a sorte dos soldados era tão dura, que se
recusavam a embarcar em Goa, sem primeiro terem sido pagos. Os
governadores eram obrigados a mandal-os caçar pelas ruas e casas,
levando-os algemados ao tronco, e da prisão para a armada.
A vida do soldado da India e a organisação militar eram com effeito
singulares. Desembarcando sem dinheiro em Goa, depois das doenças da
viagem, os que não tinham parentes ou amigos na capital da India,
espalhavam-se pedindo esmola em bandos pelas ruas, dormindo esfarrapados
e semi-nús debaixo dos alpendres das egrejas, ou nas galés e lanchas
varadas na praia. Empenhavam o que traziam: a capa, a espada; ou
preferiam roubar para viver, esperando o arrolamento da armada, que
todos os annos ia varrer as costas do Malabar, inçadas de piratas arabes
cujo rei era o Cutiale (Kuuat-Ali).[105] Chegada a epocha,
lançado o bando, nomeiavam-se os capitães dos navios--logo veremos
porque artes e maneiras o capitão tratava de angariar a sua gente. A
_chusma_ da marinhagem compunha-se de negros captivos, agarrados a laço
pelas ruas. Os soldados recrutavam-se nos bandos já amestrados na rapina
e que, de volta das expedições, se pavoneavam nas ruas de Goa: era uma
tropa de salteadores e adulteros, malsins e alcoviteiros, que enchiam a
cidade de roubos e assassinatos nocturnos, occupando-se a beber nos
lupanares e a matar por officio e dinheiro. Os _reinoes_ bisonhos
entravam só nas faltas, até que tivessem por seu turno aprendido como se
era soldado da India. O capitão dava dez xerafins a cada um dos soldados
para se prepararem e armarem. Cada qual escolhia as armas que bem lhe
agradavam, e muitos preferiam gastar o dinheiro em orgias, indo para
bordo esfarrapados e sem mosquete, nem lança, nem rodella, nem espada:
com as mãos vazias.
A mesma anarchia se usava no ataque; desembarcavam em chusma, e
_davam-lhes de Santiago_, cada um conforme podia e sabia. Dispersavam-se
todos com a mira no que podiam roubar, porque esse era o verdadeiro
soldo; os dez xerafins um preparo apenas. Geralmente a primeira
investida era irresistivel: e logo ao ataque se seguiam o incendio, o
roubo, a matança--muitas vezes tambem a reacção dos inimigos. Dispersos,
deixando as armas ás portas das casas para irem mais leves a roubar, os
soldados eram mortos um a um: como succedera no grande desbarato de
Kalikodu, onde morreu D. Fernando Coutinho; como succedia a cada passo,
por toda a parte. Com tal systema, a guerra protrahia-se
indefinidamente; mas era isso o que convinha a todos, porque d'ella
tiravam o melhor dos seus proventos.
Os soldados roubavam, os capitães roubavam com elles, roubavam-nos a
elles, cerceando-lhes as rações de arroz avariado e podre. E depois da
façanha, em que muitos ficavam, depois de forçados a fugir em debandada,
«os capitães-móres das armadas recolhem-se com os focinhos quebrados e
com alguns navios perdidos. E ao entrar a barra de Goa, é tanta a
bombardada que não ha quem se ouça, e ao sahir em terra tanta pluma e
bisarrice, como se deixaram destruido o mundo.[106]--E não
é bem, accrescenta outra testemunha, a facilidade com que os capitães da
India entram em Gôa triumphando, esbombardeando, cheios de plumas e
pontas de ouro, deixando muitos companheiros descabeçados nas praias de
Calecut.»
Não é bem, decerto; mas não podia ser de outra fórma; e ainda assim a
basofia, apesar de ser enorme, não era a peior das fraquezas dos
capitães da India. Pedro não obedecia a Gonçalo por não ser tão fidalgo
como elle: eram todos _pontinhos e biquinhos de honra_. Em tendo sido
capitães de quatro fustas, não queriam mais saír fóra sem bandeira na
quadra; «e alguns não teem mais noticia da guerra que passear ás damas.»
O peior, o peior de tudo era que uma vergonhosa corrupção apagava todos
os brios. Nuno da Cunha dizia que os homens da India eram como os
doentes de colera, tinham os gostos damnados; e outro accrescentava que
os viso-reis, ao passarem o cabo da Boa-Esperança, perdiam de todo o
temor a Deus e ao rei, como perdem a memoria os que passam o Lethes.
Vimos ha pouco o modo por que se guarnecia uma armada; resta dizer que
as capitanias do mar e as das fortalezas eram compradas por dinheiro aos
viso-reis: um rapaz imberbe pagou uma d'essas por um serviço de mãos e
um saleiro de prata; e duzentos pardaus eram _as ordinarias_, isto é, o
preço usual de uma capitania. Providos no seu lugar, os capitães, que o
tinham comprado, faziam-se mercadores e contrabandistas, conluiando-se
com os empregados fiscaes, e associando-se com os mouros e judeus. Os
capitães de Malaka tinham náus para irem de sua conta, á China, de um
lado; a Diu, Chala, Daman, Bassaim, do outro. Os de Hormuz commerciavam
por mar com Bengala, com os portos da costa occidental da peninsula, e
com o Zamgebar. Como negociantes, á imagem do rei, exigiam tambem em
favor proprio um monopolio; e d'ahi vinham as desordens e violencias
brutaes exercidas sobre os indigenas. «A guarda do _cartaz_
(salvo-conducto que os navios _mouros_ pagavam para navegar no mar da
India) é o credito do nosso Estado», diziam os homens-bons do Oriente;
mas por cima de tudo o mais, os capitães, para fazerem prezas, buscavam
_bicos_ no exame dos passaportes e roubavam os navios e as cargas. Os
lucros do commercio não lhes bastavam, e o roubo vinha engrossar o
rendimento das capitanias. Hormuz era, sobre todas, celebre n'esta
especie. Arrolamentos de guarnições ficticias, matriculas de praças
mortas, para embolsarem o soldo de suppostos soldados, eram casos
ordinarios e communs a todas: só d'esta verba um capitão de Hormuz fazia
30:000 cruzados em tres annos. Com os navios succedia outro tanto:
fundeados, a apodrecer nas aguas, ou varados na praia, custavam ao
thesouro da India o preço de guarnições que só existiam no papel. E
estes roubos eram tão vulgares que não havia pejo em os confessar. Um
capitão de Hormuz declarava alto e bom som, que não perdoaria um real da
somma que se tinha decidido a ganhar--300:000 cruzados.
Um certo Alvaro de Noronha, na mesma praça, accusado, responde que outro
tanto fizera o seu antecessor, «que sendo _apenas um Lima_ levára
140:000 pardaus: elle _como Noronha_, havia de levar mais». O brazão da
sua casa ficaria manchado, seus avós corariam, se gente menos nobre lhe
passasse adiante em qualquer cousa--até no roubo.
E os crimes dos capitães não podiam ser punidos, porque os viso-reis
faziam outro tanto e mais: quando o exemplo vinha de cima, como se havia
de condemnar a copia? O governador Lopo Vaz de Sampaio, que era pobre e
tinha muitos parentes a proteger, foi a Hormuz _para fazer proveito_,
com doze navios, cujos capitães eram todos seus proximos e afilhados.
Diogo de Mello era seu cunhado, e isso o deixou impune dos roubos e
males extraordinarios que tinha commettido. Nas deploraveis intrigas com
que empolgou o governo a Pero de Mascarenhas, Lopo Vaz, para crear
partidarios, usou de todos os meios. Pagaram-se todos os _alcances_ por
meio de folhas de suppostos soldos vencidos; e n'esta _agoa envôlta_
muitos enriqueceram. A um certo Nuno Redondo, eximio em _falsar sinaes_,
deveu o governador o alvará com que espoliou o seu émulo.
As principaes rendas dos governadores provinham de diversas especies de
peculato: as _peitas_, ou luvas que recebiam por todos os empregos; as
heranças jacentes que roubavam; os cabedaes do indio ou judeu queimado
pela Inquisição de Goa; os conluios com os _contadores_, para
extorquirem dinheiro aos funccionarios e litigantes; a falsificação da
moda; o roubo do cofre dos orfãos; o fornecimento de material de guerra;
as matriculas de soldados mortos ou nunca arrolados; a amortisação dos
titulos de divida do governo, comprados no mercado por vil preço, e que
nas contas iam mettidos pelo seu valor nominal.
A turbulencia e devassidão dos soldados provinham dos crimes dos
commandantes, ficando por isso impunes; os roubos dos governadores
authorisavam os dos capitães: mas se o governador fosse punido, não
poderia acaso varrer-se o lodo e moralisar-se o dominio? Poderia; mas os
governadores tinham a favor da sua corrupção argumentos muito valiosos,
e podiam contar com a impunidade. Em Lisboa, salvas momentaneas
excepções, considerava-se a India como uma vasta seara a colher. «Cartas
se liam pelas portas, em ajuntamentos de cadeiras, que era uma vergonha
os descreditos que n'ellas vinham.» Desde o rei até ao mais infimo dos
moços da chusma, todos eram commerciantes; e o commercio, cuja mira é o
lucro apenas, tolera tudo, pactua com todas as devassidões. Contam que
D. Manuel em pessoa achava graça ás manhas e expedientes vis, com que se
explorava a India, quando os que de lá vinham justificavam as artes com
a riqueza, augmentando a opulencia faustuosa da côrte. Bastante dinheiro
e um pedaço de lisonja venciam tudo. Diogo de Mello, de quem já falamos
como heroe, foi condemnado á morte pela Relação de Lisboa; mas _fiqou_
em morte civil para S. Thomé; depois para Africa; e, por fim, com dar
500 cruzados para a Arca-da-Piedade, casando suas filhas com as muitas
riquezas dos roubos que n'este mundo não pagou.
Pagal-os-hia no outro? Não era de crer; porque o jesuitismo tinha
descoberto que a simonia não era peccado, sempre que se seguissem umas
certas regras. O furto deixava de provocar escrupulos de consciencia,
desde que os casuistas tinham averiguado ser licito cobrar por qualquer
modo, o que se não póde haver por demanda, de pessoa poderosa. Ora quem
mais poderoso do que o rei, dono do thesouro da India? Por isso, uma vez
os conegos de Goa fecharam a sua egreja e suspenderam o culto, quando o
viso-rei, distante em Katchi, deixou atrazar-se-lhes as pagas. E além
d'esta justificação de todos os expedientes, os padres confessores da
_Companhia_, defendendo os que recebiam _luvas_, diziam que o nome de
_peita_ se entende só do que se toma da parte antes de a despachar, ou
de concerto que se faça para o negocio[107]. Mas se a parte
fôr despachada, póde muito bem gratificar depois: é um agradecimento, e
não uma peita.
Não deixaria, por certo, de valer para muitos esta boa paz em que se
achavam com o céu; mas é fóra de duvida que os escrupulos religiosos não
incommodavam a maxima parte, senão quando, na volta para o reino, os
assaltavam os temporaes da costa d'Africa. A cumplicidade de Deus era
muito; mas era melhor ainda a cumplicidade das justiças, que na terra
podiam confiscar, prender e matar. Um chronista erudito escrevia: «O
imperio romano não se começou a perder, senão depois que se começaram a
vender os magistrados; e assim eu dou a India por acabada». Não eram só
venaes, eram tambem analphabetos, os juizes: fazia-se um desembargador
com _dois debrums de latim_. As testemunhas custavam em Goa a pardau por
cabeça «e se a um ladrão ou salteador, por conhecido que seja, não
faltam 4 ou 6 testemunhas que o abonem, como faltarão a um viso-rei?»
Além d'isso, de que valeriam rigores contra os «roubos, injurias,
mortes, forças, adulterios com as casadas, viuvas, virgens, orfans... se
dizem que elrey N. S. é tão cheio de misericordia, que por males que lhe
façam, tudo perdoa e quita?» Gaspar Correia achava, entretanto,
indispensavel que se mandasse cortar a cabeça de um viso-rei no caes de
Goa.
A misericordia de S. A. não consentia isso, mas o povo esteve por um
nada a fazel-o. Quando o conde da Vidigueira, ex-governador, partia para
o reino, as turbas derribaram da porta da cidade de Goa a estatua do bis
avô (Vasco da Gama), enforcaram-no em effigie na verga de uma náo, e
envenenaram ao neto o pasto dos animaes que levava de vitualha para a
viagem[108].
Mais graves e decisivos symptomas de desaggregação do ephemero imperio
da India rebentavam constantemente, e por toda a parte. Ferviam as
deserções; e grupos de soldados iam arrolar-se nas tropas indigenas, ou
nos navios arabes, por miseria, por cubiça, por homizio, arrastados pela
fome ou pelas _moraxas_ infieis, espalhando-se em Kambai, no
Balutchistân, no Afghanistân e na Persia, de um lado; em Bengala, do
opposto; alastrando-se pelo Arakan, por Pegú, por Malaka, e Kamboja, até
á China. Os que militavam debaixo das insignias dos reis e principes
infieis eram tantos, «que sem muitas lagrimas não se poderá considerar,
quanto mais escrever... e muitos se põem por soldados em navios de
chatins, onde, posto que o soldo não seja tão honrado como o d'elrey, é
mais proveitoso, por ser melhor pago». Em tempo d'elrey D. Sebastião
havia na India 16:000 portuguezes, e não se poderam mandar 800 homens a
soccorrer Malaka.
Já em Chala, no tempo de D. Francisco de Almeida, logo no começo da
occupação da India, 50 marinheiros da armada do viso-rei, perante o
inimigo, conspiravam para se passar aos _mouros_, que pagavam melhor.
Estes phenomenos, pois, não provinham directamente da decadencia,
manifesta agora; mas tinham causas intimas, e logo evidentes no começo
da empreza.
Além dos que desertavam, outros iam por conta propria estabelecer
feitorias, ninhos de piratas «buscando pão para comer, por não haver
armadas ou fortalezas em que lh'o deem». Assim em Tchitâgan, assim em
Ugoli de Bengala, em Nagapatan na costa oriental da India, em Macau e em
infinitos lugares.[109]
* * * * *
Para engrenar esta roda de miserias, foi do reino enviado D. João de
Castro. O quarto viso-rei da India[110] era, havia muito,
conhecido pela candida nobreza do seu caracter, pela sua experiencia de
navegador e guerreiro, e pela vastidão do seu saber, pelo seu amor ás
boas lettras. Esse amor punha na sombra os dotes ingenuos do seu
espirito; e esse asceta e amante mystico da natureza, qual o descobrimos
nos seus escriptos, vestia a toga dos heroes antigos, para apparecer em
publico na attitude classica do estylo dos seus papeis de Estado e do
cortejo do seu triumpho em Goa. A preoccupação romana do XVI seculo em
Portugal tinha em D. João de Castro um fervoroso sectario; e como o
genio do viso-rei era de uma sinceridade candida, a affectação antiga
tomava para elle as proporções de um culto. As suas phrases e gestos,
copiados dos antigos heroes, não eram decerto uma mascara postiça,
embora a nós se affigurem taes. Affonso de Albuquerque, porém, tinha no
sangue a força de Alexandre; e a D. João de Castro só a imaginação fazia
um Numa, e um Cincinnato. Mas a imaginação governava-o tanto, que lhe
moldou o genio, tornando-o um exemplo vivo do poder que a educação moral
é capaz de exercer sobre o temperamento. Esta construcção artificial do
caracter produzia, comtudo, contradicções necessarias. O amor litterario
da phrase, e o enthusiasmo da copia, arrastavam-no a cousas, senão
ridiculas, extravagantes. Não ter em casa uma gallinha para comer,
enfermo, e confessal-o com orgulho, era de certo misturar á honradez
natural uma ponta de affectação. Quando pediu a Goa trinta mil pardaus
para levantar a fortaleza de Diu, mandou os cabellos das barbas por
penhor; mas, com o symbolo, era forçado a dar tambem uma provisão para o
thesoureiro de Goa, adjudicando ao pagamento do emprestimo o rendimento
dos cavallos. Todos os casos da sua vida sympathica demonstram a nobreza
ingenita de um caracter, cunhado artificialmente pela educação litteraria.
Era este o homem capaz de engrenar a roda da decomposição do imperio
oriental? Não, decerto. A sua propria grandeza na honra valia pouco, por
ser affectada, embora não fosse fingida. Os homens positivos e
corrompidos da India sorriam d'esse espectaculoso heroe; e, vendo ao
mesmo tempo a ingenuidade candida e pura do seu espirito, confiavam
descansados em que não lhes viria d'ahi mal algum para os seus
interesses. A propria affectação _antiga_ do viso-rei demonstrava a
fraqueza do estadista; porque só uma alma ingenua podia ligar tamanho
amor ás fórmas, e a ingenuidade jámais venceu nos governos. Integro,
forte, e piedoso no seu fôro intimo, D. João de Castro era um heroe e um
santo; mas nem essa fórma subjectiva do heroismo, nem a santidade, foram
nunca os meios de travar o movimento de decomposição de uma sociedade,
ou de a impellir no caminho do progresso. Para tanto, exigem-se as almas
duras, os espiritos frios, sem escrupulos, de um João II, ou de um Pombal.
D. João de Castro não tinha em si os dotes de nenhum d'esses; e o seu
governo ficou inutil como uma bella pagina de moral: á maneira do livro
em que lhe escreveram a vida, e que é uma boa pagina de rhetorica.[111]
Ficou, porém, como um sincero protesto: esse é o seu valor
social-historico. Ficou como um exemplo de bravura temeraria, attestada
nos cercos de Diu--quando o sultão da Turquia (Soliman II) mandou de
reforço quatro mil janisaros, ou _rumes_ sob o commando do pacha do
Cairo, em auxilio de Khuajeh Safar (Cogeçofar), o ministro do rei do
Gujerât--mas d'esses exemplos abundavam; ficou, por fim, como um typo,
ao mesmo tempo nobre e interessante, do caracter de um santo e da
influencia da litteratura no genio dos individuos, ou antes nas suas
acções.
Se é que alguem havia em Portugal capaz de governar a India, o governo
de D. João III demonstrou cegueira, escolhendo-o; ainda que, por
distinctos que fossem os dotes de qualquer outro, é tambem facto que a
empreza de levantar da anarchia o imperio do Oriente excedia as forças
humanas, porque os vicios d'elle eram congenitos da sua existencia.
Ao terminar este rapido esboço da vida politica de Portugal no Oriente,
convém mencionar a opinião do quarto viso-rei e as suas observações,
transmittidas para Lisboa, em cartas ao monarcha. «Cá está tudo,
escrevia, em estado que não ha mouro que cuyde haveis de ser de ferro
para o seu ouro, nem christão que o creio.» E passava a enumerar o
estendal das miserias. As armadas ficavam podres, que se desfaziam com
as mãos; e não escapariam ao inverno, sem irem ao fundo. Nenhum dos
soberanos do Oriente confiaria nem uma palha a um portuguez: a tanto
chegára o descredito. Fôra um milagre trazer do reino á India, a
salvamento, a esquadra em que viera. Todos os dias havia em Goa
lançadas, revoltas e desafios, capazes de maravilhar até a propria
Italia. Não havia soldado que não tivesse uma ou mais mancebas. Todos
desobedeciam aos capitães, e cada qual se arvorava em chefe. Por causa
das mancebas dos soldados havia revoltas e desastres em todas as náus.
Nas Molucas, os nossos, depois de saquearem e roubarem as casas de um
certo rei, pozeram-no a ferros e «forçaram suas mulheres com tamanhas
desonestidades, que se não póde dizer a V. A.--Todos são ladrões, todos,
sem excepção, chatins. As cobiças e vicios teem cobrado tamanha posse e
authoridade, que nenhuma cousa já se póde fazer por feia e torpe, que
dos homens seja estranha. E são mais as almas perdidas dos portuguezes
que veem á India, do que se salvam as dos gentios que os prégadores
religiosos convertem á nossa santa fé.»
[104] V. _Hist. da republica romana_, I, pp. 161-2 e 275-6.
[105] V. na _Hist. da repub. romana_, I, pp. 188-95, a descripção
da pirataria mediterranea: causas identicas produzem
resultados eguaes.
[106] V. _Hist. da republica romana_, I, p. 274.
[107] _Hist. da rep. romana_, II, p. 187.
[108] V. _Hist. da rep. romana_, I, p. 356
[109] V. nas _Raças humanas_, a p. LX-I do vol. I, o estado actual
dos restos da colonia portugueza de Malaka; tambem I,
pp. 75 e segg.
[110] 1 D. Francisco d'Almeida 1505 1.º viso-rei
2 Affonso de Albuquerque 1509
3 Lopo Soares de Albergaria 1515
4 Diogo Lopes de Sequeira 1518
5 D. Duarte de Menezes 1521
6 Vasco da Gama 1524 2.º viso-rei
7 D. Henrique de Menezes 1524
8 Lopo Vaz de Sampaio 1526
9 Nuno da Cunha 1529
10 D. Garcia de Noronha 1539 3.º viso-rei
11 D. Estevam da Gama 1540
12 Martim Affonso de Sousa 1542
13 D. João de Castro 1545 4.º viso-rei
14 Garcia de Sá 1548
15 Jorge Cabral 1549
16 D. Affonso de Noronha 1550 5.º viso-rei
17 D. Pedro Mascarenhas 1554 6.º viso-rei
18 Francisco Barreto 1555
19 D. Constantino de Bragança 1558 7.º viso-rei
20 D. Francisco Coutinho 1561 8.º viso-rei
21 João de Mendonça 1564
22 D. Antão de Noronha 1564 9.º viso-rei
23 D. Luiz de Athayde 1569 10.º viso-rei
24 D. Antonio de Noronha 1571 11.º viso-rei
25 Antonio Moniz Barreto 1573
26 D. Diogo de Menezes 1576
27 D. Luiz de Athayde 1578 12.º viso-rei
28 Fernão Telles de Menezes 1581
29 D. Francisco Mascarenhas 1581 13.º viso-rei
30 D. Duarte de Menezes 1584 14.º viso-rei
31 Manuel de Sousa Coutinho 1588
32 Mathias de Albuquerque 1591 15.º viso-rei
33 D. Francisco da Gama 1597 16.º viso-rei
Pela constituição do vice reino da India o mandato dos
governadores durava tres annos, findos os quaes podiam ser
reconduzidos por novo triennio, conforme succedeu a muitos,
e se vê do rol supra. Com a nomeação do vice-rei iam, em
cartas fechadas e numeradas, as dos substitutos; e quando
occorria a morte do governador abria-se a primeira _successão_,
na falta do individuo ahi indicado, a segunda, etc. As datas
acima inscriptas e a ausencia do titulo do viso-rei mostram
quem governou por _successão_. O titulo de vice-rei, excepcional
a principio, tornou-se inherente ao cargo de governador
desde 1550.
[111] J. Freire de Andrade, _Vida de João de Castro_.
* * * * *
IV
Summario da derrota. Volta ao reino
Anarchicamente iniciada, a occupação da India foi, de principio a fim,
uma exploração anarchica. A politica maritima e commercial de D.
Francisco de Almeida, o imperio de Affonso de Albuquerque, o virtuoso
reinado de D. João de Castro, provaram egualmente impotentes para
organisar o dominio portuguez no Oriente, de um modo regular e
duradouro. Nem a arte, nem a força, nem o santo exemplo, poderam
disciplinar a turba dos invasores da India.
Causas intimas, a que de passagem temos alludido, o impediam. A
Renascença, apresentando aos homens um sem numero de idéas e impressões
novas, desorganisando os systemas, as crenças, as instituições e todo o
organismo das sociedades medievaes, abandonou o individuo aos impulsos
desordenados da natureza, pondo ao mesmo tempo nos seus actos uma
energia affirmativa até alli desconhecida. Heroismo pessoal e
naturalista, uma grande explosão de força, a devassidão nos costumes e a
anarchia nas idéas, eis ahi em que se resume, por este lado, a
Renascença. A França, a Italia, a Hespanha, a Inglaterra e a Allemanha,
isto é, a Europa inteira, offerecem ao observador caracteres de
phisionomia bastantes para suppôr que, se a qualquer d'ellas tivesse
cabido o destino de occupar as Indias, o seu imperio não teria sido
melhor nem peior do que foi o nosso.
Porventura, porém, ás nações protestantes que nos succederam com
superior fortuna no Oriente poderia a rigidez fanatica ter cohibido um
tanto, e o genio mercantil ter mostrado mais depressa os meios efficazes
de explorar a India, sem a saquear. A nós faltavam-nos os dois
requisitos. O catholicismo não era então--como o era a religião
protestante--uma fé intima e absorvente: era uma convicção para uns, uma
convenção para outros, uma conveniencia para muitos, e um desvairamento
para os defensores intolerantes da fé. Havia decerto uma affirmação
religiosa unanime e violenta; mas desapparecera a unanimidade ingenua e
espontanea da crença, que radica as religiões. O catholicismo
atravessára uma crise, de que saíra malferido; e a violencia com que se
impunha, estava denunciando que ficára sendo, antes uma expressão de
authoridade, do que uma expansão de sentimento popular. Isto fazia com
que o povo, sem renegar o catholicismo, fosse caíndo n'um relaxamento; e
que, ficando com a religião, deixasse de lhe dar significação ou
importancia moral. Muita devoção e muita devassidão; eis ahi a
concomitancia resultante, e universalmente provada pelos costumes das
nações catholicas depois da Renascença.