levavam, descobriram terra á prôa. A noute de 17 passou-se em afflicções
e esperanças; mas quando amanheceu, e os olhos ávidos não poderam tornar
a vêr a costa, decidiram formalmente deitar o batel ao mar. Logo todos
se precipitaram no barco, ainda suspenso nos apparelhos. A ancia de
viver enlouquecia-os; e D. Paulo em pé sobre o batel, com a espada e a
adaga em punho, defendia-o, acutilando os invasores, como n'uma
abordagem. O seu abatimento, a sua fraqueza, a sua desesperança,
apagavam-se, varridos pela aurora derradeira. Repellidos os homens, o
batel desceu e poisou no mar. Depois veiu remando, pela pôpa da náu,
para receber pela varanda os fidalgos, suas mulheres, e os frades: o
commum dos infelizes tinha a bordo um tumulo feito. Com os balanços da
náu e o impulso da vaga, o batel ameaçava despedaçar-se a cada momento
contra o costado; e as mulheres desciam, penduradas em cordas de lançoes
e pannos, até ao mar, onde as apanhavam.
Os do batel gritavam, desesperados por partir, porque a gente era demais
e o barco afogava-se; os da náu gesticulavam, bradando em furia para que
os salvassem. Uma escrava, com o filho da senhora nos braços, mostrava-o
de bordo á mãe que lh'o pedia, exigindo que a salvassem, se queriam
salvar da morte a creança. E os marinheiros condemnavam, em altos gritos
e phrases insultuosas e obscenas, D. Paulo e os fidalgos, pelos
abandonarem cruamente a uma morte miseravel. Mais difficil fôra o
naufragio da nau _Santiago_, no baixo da India, e tinham-se salvado
todos em jangadas. Não abandonassem os infelizes, lembrando-se apenas de
si, os fidalgos malditos! Havia tempo para formar uma jangada, onde
todos iriam, guiados pelo batel.
N'este desespero infernal e no meio da explosão de egoismo feroz houve
um unico heroe: um frade que não saiu de bordo, sem ter confessado todos
os condemnados. Absolvidos, lançou-se ao mar, e foi a nado agarrar-se ao
batel que se afastava pesadamente: o habito salvou-o, porque os do barco
não ousavam repellir o sacerdote, como repelliam a golpes os mais que
vinham a nado. Na imminencia da morte, escrupulisavam de matar um padre.
Por toda essa noute de angustias, o batel vogou nas aguas da náu: os
remos não podiam vencer a força das ondas, e o vento arrojava-o para o
mar. A carga era demasisada, e reconhecendo isto, deitaram fóra seis
homens; depois mais seis, ficando de 110, em 98, ao todo. A bordo da náu
havia mais de outro tanto.
Condemnados a uma morte inevitavel, já confessados e absolvidos, estavam
resignados. Ainda tinham formado duas jangadas, que o mar logo devorou:
e depois d'isso unanimemente resolveram morrer, a bem com Deus. Os do
batel viam no escuro da noute as luzes das velas accesas ao retabulo da
_nossa-senhora_ do castello da pôpa,[120] diante do qual,
prostradas de rastos, com os cabellos desgrenhados, chorando, as
escravas resavam. Os homens faziam procissões sobre o convez, cantando
ladainhas e hymnos. Pela manhã viram o batel tão perto que chegaram á
fala; e pediam ainda que os salvassem com vozes tão profundas e
piedosas, que mettiam medo e terror.
Finalmente, n'um clamor de gritos e n'uma columna de fumo, espadanando a
agua, a náu sossobrou: no alto do capitel da pôpa a escrava, com a
creança nos braços, mostrava-a á mãe, desolada no batel. A náu
sossobrou, enterrando comsigo os homens, as mulheres e «as cousas da
India, adquiridas pelos meios que Deus sabe».
* * * * *
A viagem da India não terminou aqui. O imperio submergiu-se, mas os
salvados foram arrastando ainda, pela arenosa costa, uma vida de miseria
e perdição...
O batel foi dar á terra em 27°20' sul, na terra dos _fumos_, a que os
cafres chamam Macomata, a Zuluandia. Desembarcaram, os restos da náu da
India; e achou-se que tinham 5 espingardas, 5 espadas e um barril de
polvora. Eram ao todo 98. Dos remos fizeram contos de lanças, e ferros
das verrumas dos carpinteiros. Formaram em columna, seguindo costa em
fóra, em demanda de Lourenço Marques.
Á frente ia um frade com a cruz alçada; depois D. Pedro de Lima com
metade da gente e das armas, na cauda o capitão da náu com o resto; e,
entre ambos, as mulheres, umas de pé, outras em andores levados por
marinheiros e grumetes, e feitos com os remos e velas do batel. Seguiam
a columna bandos de cafres, com quem por vezes tinham de pelejar, e que
fugiam rebolando-se no chão e em gatinhas, como bogios aos saltos.
Dormiam na areia ao relento; comiam alguma cousa que apanhavam,
principalmente os caranguejos da praia; levavam os pés empolados e em
chagas... Em tamanha miseria se tornára o antigo imperio com que tinham
andado pela India, pela Arabia e por Johor, em Malaka!
Na altura de 26°30' depararam com os restos das jangadas da náo
_Santiago_; uma sorte commum esperava, no regresso, todos os que vinham
da India; e esses desastres eram os da nação, que em massa embarcára, e
agora em massa tambem naufragava. «Estas desventuras e outras, diz o
chronista, que cada dia se vêem por esta carreira da India poderam
servir de balizas aos homens, principalmente aos capitães de fortalezas,
para n'ellas se moderarem com o que Deus á boa mente lhes dá, e deixarem
viver os pobres».
Os naufragos, miseraveis e famintos, internaram-se em Manhica, achando
nos cafres a protecção e carinho que negavam no Oriente aos naturaes.
Dispersaram-se em varias direcções, indo uns por mar a Inhambane; e na
ilha de Inhaca, D. Paulo «caío em cama, ou para melhor dizer, no chão»,
e morreu...
Não eram, porém, sómente as ondas que, punindo a desordem e a avidez,
tragavam os navios podres e abarrotados; eram tambem os nossos inimigos,
cruzando nos mares da India, que apresavam as náus portuguezas, como
outr'ora nós tinhamos apresado as dos arabes e egypcios.
Cornelio Honteman, perseguido pela Inquisição de Portugal, fôra para
Amsterdam, e publicára o que sabia das viagens da India, incitando os
hollandezes com as perspectivas de grossos lucros. Em 1595 partiu de
Texel a primeira frota hollandeza que dobrou o cabo da Boa-Esperança; e
já em 1591 os inglezes tinham feito uma viagem á India. Em 1602
fundou-se a companhia hollandeza das Indias orientaes: foi no primeiro
quartel do XVII seculo que o imperio portuguez caíu.
Tudo se desmoronava de um modo simples e rapido. As esquadras perdiam-se
inteiras; e tantas desgraças abatiam os animos antigos, a ponto de
tornarem a covardia tão vulgar, como eram de antes a audacia e a
bravura. Entre outros casos, conta-se o de um philippebote hollandez
tomando um galeão que montava dobrada artilheria e guarnição. Em 1591 e
92, de 22 navios de alto bordo saídos da India, só duas náus chegaram ao
Tejo, porque vinham vasias por velhas. Quer á ida, quer á volta, os
cruzeiros inimigos caçavam as nossas frotas; e a destruição do poder
maritimo portuguez garantiu para todo o sempre a destruição consummada
do imperio do Oriente.
Essa louca viagem, sem pilotos habeis, terminava por um breve naufragio;
e os mares que, no seculo XV nós vencemos com tamanha audacia,
vingavam-se, no XVI, do nosso atrevimento. Rasgáramos as nuvens do Mar
Tenebroso; mas, para além dos seus confins, fomos perder-nos no seio dos
nevoeiros prognosticados pelos geographos arabes, no meio das trevas da
nossa perversidade. A natureza offendida punia-nos com a morte; e o
destino implacavel retribuia-nos todos os males com que tinhamos
flagellado o proximo.
[112] V. _Raças humanas_, II, pp. 185-91, e _Taboas de Chronol._,
pp. 45-9.
[113] V. ácerca dos costumes dos indigenas. _Quadro das instit.
primit._, pp. 14-5, 158, 160-1, 174; e _Regime das riquezas_,
pp. 56, 65, 85, 109.
[114] V. _Regime das riquezas_, p. 109.
[115] V. _O Brazil e as col. port._, L. IV, 3.
[116] V. _Hist. da rep. romana_, I, pp. 183-91.
[117] V. _O Brazil e as colon. Port._ (2.ª ed.), p. 36.
[118] V. _Hist. da republica romana_, II, p. 185.
[119] V. a estatistica dos naufragios no _Brazil e as colonias
port._ (2.ª ed.), p. 34, _nota_.
[120] V. _Hist. da republ. romana_, I. pag. 194.
FIM DO TOMO PRIMEIRO
* * * * *
INDICE
DO
TOMO PRIMEIRO
ADVERTENCIA
LIVRO PRIMEIRO
Descripção de Portugal
I. Os lusitanos
II. Fundamentos da nacionalidade
III. Geographia portugueza
IV. A terra e o homem
V. A historia nacional
LIVRO SEGUNDO
HISTORIA DA INDEPENDENCIA
(DYNASTIA DE BORGONHA: 1109-1385)
I. A separação de Portugal
II. A conquista do Al-Gharb
III. A monarchia e a justiça
IV. A crise
LIVRO TERCEIRO
A conquista do Mar Tenebroso
(DYNASTIA DE AVIZ: 1385-1500)
I. O Infante D. Henrique
II. Portugal em Africa
III. O principe perfeito
IV. Em demanda do Preste-Joham das Indias
LIVRO QUARTO
A viagem da India
(1500-1640)
I. D. Francisco d'Almeida
II. Affonso de Albuquerque
III. D. João de Castro
IV. Summario da derrota. Volta ao reino