No dia 16 o tempo clareou um pouco: e no rumo de nor-nordeste que

levavam, descobriram terra á prôa. A noute de 17 passou-se em afflicções

e esperanças; mas quando amanheceu, e os olhos ávidos não poderam tornar

a vêr a costa, decidiram formalmente deitar o batel ao mar. Logo todos

se precipitaram no barco, ainda suspenso nos apparelhos. A ancia de

viver enlouquecia-os; e D. Paulo em pé sobre o batel, com a espada e a

adaga em punho, defendia-o, acutilando os invasores, como n'uma

abordagem. O seu abatimento, a sua fraqueza, a sua desesperança,

apagavam-se, varridos pela aurora derradeira. Repellidos os homens, o

batel desceu e poisou no mar. Depois veiu remando, pela pôpa da náu,

para receber pela varanda os fidalgos, suas mulheres, e os frades: o

commum dos infelizes tinha a bordo um tumulo feito. Com os balanços da

náu e o impulso da vaga, o batel ameaçava despedaçar-se a cada momento

contra o costado; e as mulheres desciam, penduradas em cordas de lançoes

e pannos, até ao mar, onde as apanhavam.

Os do batel gritavam, desesperados por partir, porque a gente era demais

e o barco afogava-se; os da náu gesticulavam, bradando em furia para que

os salvassem. Uma escrava, com o filho da senhora nos braços, mostrava-o

de bordo á mãe que lh'o pedia, exigindo que a salvassem, se queriam

salvar da morte a creança. E os marinheiros condemnavam, em altos gritos

e phrases insultuosas e obscenas, D. Paulo e os fidalgos, pelos

abandonarem cruamente a uma morte miseravel. Mais difficil fôra o

naufragio da nau _Santiago_, no baixo da India, e tinham-se salvado

todos em jangadas. Não abandonassem os infelizes, lembrando-se apenas de

si, os fidalgos malditos! Havia tempo para formar uma jangada, onde

todos iriam, guiados pelo batel.

N'este desespero infernal e no meio da explosão de egoismo feroz houve

um unico heroe: um frade que não saiu de bordo, sem ter confessado todos

os condemnados. Absolvidos, lançou-se ao mar, e foi a nado agarrar-se ao

batel que se afastava pesadamente: o habito salvou-o, porque os do barco

não ousavam repellir o sacerdote, como repelliam a golpes os mais que

vinham a nado. Na imminencia da morte, escrupulisavam de matar um padre.

Por toda essa noute de angustias, o batel vogou nas aguas da náu: os

remos não podiam vencer a força das ondas, e o vento arrojava-o para o

mar. A carga era demasisada, e reconhecendo isto, deitaram fóra seis

homens; depois mais seis, ficando de 110, em 98, ao todo. A bordo da náu

havia mais de outro tanto.

Condemnados a uma morte inevitavel, já confessados e absolvidos, estavam

resignados. Ainda tinham formado duas jangadas, que o mar logo devorou:

e depois d'isso unanimemente resolveram morrer, a bem com Deus. Os do

batel viam no escuro da noute as luzes das velas accesas ao retabulo da

_nossa-senhora_ do castello da pôpa,[120] diante do qual,

prostradas de rastos, com os cabellos desgrenhados, chorando, as

escravas resavam. Os homens faziam procissões sobre o convez, cantando

ladainhas e hymnos. Pela manhã viram o batel tão perto que chegaram á

fala; e pediam ainda que os salvassem com vozes tão profundas e

piedosas, que mettiam medo e terror.

Finalmente, n'um clamor de gritos e n'uma columna de fumo, espadanando a

agua, a náu sossobrou: no alto do capitel da pôpa a escrava, com a

creança nos braços, mostrava-a á mãe, desolada no batel. A náu

sossobrou, enterrando comsigo os homens, as mulheres e «as cousas da

India, adquiridas pelos meios que Deus sabe».

* * * * *

A viagem da India não terminou aqui. O imperio submergiu-se, mas os

salvados foram arrastando ainda, pela arenosa costa, uma vida de miseria

e perdição...

O batel foi dar á terra em 27°20' sul, na terra dos _fumos_, a que os

cafres chamam Macomata, a Zuluandia. Desembarcaram, os restos da náu da

India; e achou-se que tinham 5 espingardas, 5 espadas e um barril de

polvora. Eram ao todo 98. Dos remos fizeram contos de lanças, e ferros

das verrumas dos carpinteiros. Formaram em columna, seguindo costa em

fóra, em demanda de Lourenço Marques.

Á frente ia um frade com a cruz alçada; depois D. Pedro de Lima com

metade da gente e das armas, na cauda o capitão da náu com o resto; e,

entre ambos, as mulheres, umas de pé, outras em andores levados por

marinheiros e grumetes, e feitos com os remos e velas do batel. Seguiam

a columna bandos de cafres, com quem por vezes tinham de pelejar, e que

fugiam rebolando-se no chão e em gatinhas, como bogios aos saltos.

Dormiam na areia ao relento; comiam alguma cousa que apanhavam,

principalmente os caranguejos da praia; levavam os pés empolados e em

chagas... Em tamanha miseria se tornára o antigo imperio com que tinham

andado pela India, pela Arabia e por Johor, em Malaka!

Na altura de 26°30' depararam com os restos das jangadas da náo

_Santiago_; uma sorte commum esperava, no regresso, todos os que vinham

da India; e esses desastres eram os da nação, que em massa embarcára, e

agora em massa tambem naufragava. «Estas desventuras e outras, diz o

chronista, que cada dia se vêem por esta carreira da India poderam

servir de balizas aos homens, principalmente aos capitães de fortalezas,

para n'ellas se moderarem com o que Deus á boa mente lhes dá, e deixarem

viver os pobres».

Os naufragos, miseraveis e famintos, internaram-se em Manhica, achando

nos cafres a protecção e carinho que negavam no Oriente aos naturaes.

Dispersaram-se em varias direcções, indo uns por mar a Inhambane; e na

ilha de Inhaca, D. Paulo «caío em cama, ou para melhor dizer, no chão»,

e morreu...

Não eram, porém, sómente as ondas que, punindo a desordem e a avidez,

tragavam os navios podres e abarrotados; eram tambem os nossos inimigos,

cruzando nos mares da India, que apresavam as náus portuguezas, como

outr'ora nós tinhamos apresado as dos arabes e egypcios.

Cornelio Honteman, perseguido pela Inquisição de Portugal, fôra para

Amsterdam, e publicára o que sabia das viagens da India, incitando os

hollandezes com as perspectivas de grossos lucros. Em 1595 partiu de

Texel a primeira frota hollandeza que dobrou o cabo da Boa-Esperança; e

já em 1591 os inglezes tinham feito uma viagem á India. Em 1602

fundou-se a companhia hollandeza das Indias orientaes: foi no primeiro

quartel do XVII seculo que o imperio portuguez caíu.

Tudo se desmoronava de um modo simples e rapido. As esquadras perdiam-se

inteiras; e tantas desgraças abatiam os animos antigos, a ponto de

tornarem a covardia tão vulgar, como eram de antes a audacia e a

bravura. Entre outros casos, conta-se o de um philippebote hollandez

tomando um galeão que montava dobrada artilheria e guarnição. Em 1591 e

92, de 22 navios de alto bordo saídos da India, só duas náus chegaram ao

Tejo, porque vinham vasias por velhas. Quer á ida, quer á volta, os

cruzeiros inimigos caçavam as nossas frotas; e a destruição do poder

maritimo portuguez garantiu para todo o sempre a destruição consummada

do imperio do Oriente.

Essa louca viagem, sem pilotos habeis, terminava por um breve naufragio;

e os mares que, no seculo XV nós vencemos com tamanha audacia,

vingavam-se, no XVI, do nosso atrevimento. Rasgáramos as nuvens do Mar

Tenebroso; mas, para além dos seus confins, fomos perder-nos no seio dos

nevoeiros prognosticados pelos geographos arabes, no meio das trevas da

nossa perversidade. A natureza offendida punia-nos com a morte; e o

destino implacavel retribuia-nos todos os males com que tinhamos

flagellado o proximo.

[112] V. _Raças humanas_, II, pp. 185-91, e _Taboas de Chronol._,

pp. 45-9.

[113] V. ácerca dos costumes dos indigenas. _Quadro das instit.

primit._, pp. 14-5, 158, 160-1, 174; e _Regime das riquezas_,

pp. 56, 65, 85, 109.

[114] V. _Regime das riquezas_, p. 109.

[115] V. _O Brazil e as col. port._, L. IV, 3.

[116] V. _Hist. da rep. romana_, I, pp. 183-91.

[117] V. _O Brazil e as colon. Port._ (2.ª ed.), p. 36.

[118] V. _Hist. da republica romana_, II, p. 185.

[119] V. a estatistica dos naufragios no _Brazil e as colonias

port._ (2.ª ed.), p. 34, _nota_.

[120] V. _Hist. da republ. romana_, I. pag. 194.

FIM DO TOMO PRIMEIRO

* * * * *

INDICE

DO

TOMO PRIMEIRO

ADVERTENCIA

LIVRO PRIMEIRO

Descripção de Portugal

I. Os lusitanos

II. Fundamentos da nacionalidade

III. Geographia portugueza

IV. A terra e o homem

V. A historia nacional

LIVRO SEGUNDO

HISTORIA DA INDEPENDENCIA

(DYNASTIA DE BORGONHA: 1109-1385)

I. A separação de Portugal

II. A conquista do Al-Gharb

III. A monarchia e a justiça

IV. A crise

LIVRO TERCEIRO

A conquista do Mar Tenebroso

(DYNASTIA DE AVIZ: 1385-1500)

I. O Infante D. Henrique

II. Portugal em Africa

III. O principe perfeito

IV. Em demanda do Preste-Joham das Indias

LIVRO QUARTO

A viagem da India

(1500-1640)

I. D. Francisco d'Almeida

II. Affonso de Albuquerque

III. D. João de Castro

IV. Summario da derrota. Volta ao reino

Historia de Portugal: Tomo I · 第 21 / 21 段