Hormuz, Goa, Malaka, os tres pontos cardeaes do imperio fundado por

Albuquerque no breve periodo de cinco annos (1507-11), valiam o dominio

em todo o mar das Indias e a vassallagem de todas as costas, desde

Sofala, em Africa, ao cabo de Jar-Hafun; desde Khor-Fakhan, na Arabia,

até ao golpho Persico; desde o Indo até ao cabo Kumari (Comorim); d'ahi

ás boccas do Ganges, e descendo pelo Arakan e pelo Pégu, até Malaka--com

as ilhas dispersas de Madagascar e Sokotra, Anjediva, os archipelagos de

Lakkha (Laquedivas) e de Malaja (Maldivas), Sinhala (Ceylão),[102] e

Sumatra e Java, Bornéo e as Molucas, até aos pontos extremos de Banda e

Ambon. Com effeito, depois de Malaka e da viagem temerosa mas esteril de

513 a Aden, todo o Oriente pasmava e tremia de Albuquerque, o

_terribil_. A Goa vinham de toda a parte embaixadas e tributos; todos os

principes queriam a amisade do portuguez, e a seus pés arrastavam a

corôa os rajahs de Ahmednagar e de Kambai, de Vijajapur e de

Narsinga,[103] o shah da Persia e os sultões de Sião, do Pégu, do

Arakan; e até o proprio _Hidalcão_, o adil-shah do Kanará, consentindo a

fortaleza de Kalikodu, comprada com tanto sangue, seguia o exemplo do

Gujerât, do Konkana, do Karnataka e de Bengala. Desde o Indo até ao

Ganges, pelo Cabo Kumari, desde Kambai até Golkonda, o litoral da

peninsula estava inteiramente submettido ao jugo portuguez.

Entretanto este imperio não podia dizer-se ainda construido: era um

esboço apenas. Como depois de uma victoria brilhante os timidos se

curvam todos perante o vencedor, assim acontecia no Oriente. Lançado na

politica de conquistas, o imperio portuguez ganhava a primeira batalha;

mas não podia decerto ensarilhar as armas, emquanto a costa da Arabia e

as margens do mar Vermelho se conservassem em poder dos inimigos. Os

naturaes da India, avassallados por uma corrupção antiga, acceitavam o

dominio de qualquer vencedor; mas era necessario, para o manter, que a

victoria fosse decisiva. Ora o inimigo, o _mouro_, fôra batido, mas não

fôra expulso. Como n'uma doença, tinham-se debellado muitos symptomas,

mas não se destruira o principio morbido. Aden continuava a ser o

emporio do dominio commercial maritimo dos arabes e egypcios no Oriente;

o mar Vermelho, o Suês, no extremo fundo d'esse estreito corredor, as

boccas sempre abertas, para vasar sobre a India navios, artilheria e

soldados. O dominio, que os portuguezes se propunham substituir,

continuava; e do caracter dual ou mixto que a occupação da India

apresentava, resultaria um estado de guerra permanente com os _mouros_ e

com os naturaes, que ora os preferiam a elles, ora a nós. Ninguem, nação

alguma seria capaz de resistir a um seculo inteiro de similhante vida. O

destino do imperio portuguez no Oriente dependia do exclusivo do

dominio, desde que era impossivel pactuar ou dividir a presa entre os

dois caçadores rivaes.

O genio de Affonso de Albuquerque adivinhava isto com toda a lucidez:

Aden, Meka, o mar Vermelho, eram a sua preoccupação: «Tres cousas, diz o

filho e commentador, ha na India que são escapolas de todo o commercio

das mercadorias d'aquellas partes, e chaves principaes d'ella. A

primeira é Malaka, que está em tres graus na entrada e sahida do

estreito de Singapura; a segunda Aden, que está em vinte e um graus de

altura e na entrada e saída do mar Rôxo; a terceira é Hormuz, a qual

está em quinze graus e na entrada e saída do estreito do mar da Persia.

Este Hormuz, a meu vêr, é a principal de todas. E se el-rey de Portugal

tivera senhoreado Aden podera chamar-se senhor de todo o mundo.» Dar um

golpe mortal no islamismo era, além de retribuir em Meka a affronta

humilhante de Jerusalem, mostrar aos musulmanos do Oriente que Jesus

podia mais do que Mafoma. Mas se o genio excepcional de Albuquerque não

bastou para levar a empreza ao fim, como poderiam bastar para isso os

pigmeus que lhe succederam? Valentes muitos ou quasi todos, incansaveis

no mar e na terra, os governadores da India foram extenuando em um

seculo de guerra permanente as limitadas forças da nação, sem pensamento

politico, sem plano definido, á tôa e á mercê d'um capricho, ou d'uma

idéa a que o ciume imbecil da côrte limitava constantemente os vôos. A

primeira politica, a maritima, fôra abandonada com a queda de Francisco

de Almeida; a segunda politica, a imperial, condemnada com a deposição e

morte de Albuquerque. Faltava assim a condição essencial de um dominio

estavel e seguro: uma tradição.

Esta falta, comtudo, provinha de causas mais intimas, umas nacionaes,

outras chronologicas. O absurdo espirito da politica de Lisboa, e a já

provada incapacidade dominadora dos portuguezes, estão na primeira

categoria: na segunda estão os costumes e idéas de tempos relativamente

barbaros. Os portuguezes, ao pôr pé na India, faziam o mesmo que os

povos germanicos, ao descer dos Alpes sobre a Lombardia: cevavam-se. A

historia de Affonso de Albuquerque em Hormuz (1507) demonstra bem quanto

era impossivel impôr disciplina e ordem em campanhas que tinham no saque

o exclusivo motivo.

Fomos ao rio de Meca,

Pelejámos e roubámos

E muito risco passámos.

Estas palavras de Gil-Vicente resumem a historia da India; e com taes

elementos era possivel saqueal-a, era impossivel dominal-a.

Por isso, n'esse seculo de 500 que a historia da India abrange, o

conjuncto dos caracteres da occupação portugueza fórma dois systemas: o

da rapina, contra o qual protesta e reage em vão a espada militar de

Albuquerque; e depois o da simonia, contra o qual, em vão tambem, reage

a vara justiceira de D. João de Castro.

Estudemos agora o primeiro, a seu tempo estudaremos o segundo. Todos os

soldados de Antonio da Silveira, um capitão que andava pela costa, entre

Chala e Daman, trouxeram fato, escravos e dinheiro, com que foram

contentes; e assolaram tudo «em tanta maneira que se despovoaram todolos

logares da fralda do mar, que pela terra dentro dez leguas não havia

gente». Em Barava, destruida por Tristão da Cunha, os barbaros cortaram

as mãos e as orelhas ás mulheres para furtarem as manilhas e brincos de

ouro. A tomada de Mangaluru ficou celebre: «Foi entrada com muito valor,

e dentro d'ella fizeram os nossos espantosas cruezas, não perdoando a

sexo nem a idade, nem ainda ás alimarias». D. Paulo de Lima «deu na

cidade de Johore (Jor)--escreve á esposa--e assolou-a _com o favor

divino_». N'outro logar os combatentes, empilhados contra os muros,

pedem aos da frente que, _por amor de Deus_, lhes deixem matar um

_mouro_. Á approximação dos portuguezes, despovoam-se as cidades e fogem

todos com terror: assim aconteceu em Bintang. Albuquerque sustentou por

tres annos, no mar da Arabia, a sua armada com as presas das náus de

Meka. Quando os portuguezes occuparam as terras de Bardez «fizeram mui

grandes males de roubos, tyrannias, tirando as mulheres e filhas

formosas a seus maridos, e outras corrompiam, e as furtavam e tornavam a

vender». O de Hormuz queixava-se de que, em paz, lhe tiravam, a elle e

aos seus, «parentas de que (os nossos) faziam uso, tornando-as christans

a seu pesar». O roubo e a luxuria, alliados aos inimigos, davam lugar a

interminaveis guerras: assim os capitães de Malaka originaram as de

Johore e do Atchim (Achem); e nas Molucas a cidade de Bachian,

despovoada e vasia, foi incendiada, indo-se os barbaros ás sepulturas

dos reis furtar os ossos, na esperança de receber por elles, mais tarde,

um grosso resgate. Roubando e pirateando á solta, o genio aventuroso dos

portuguezes larga as azas, e os exploradores vão até aos confins do

mundo, fiados no seu atrevimento. Dois heroes das _Peregrinações_ teem

uma historia extravagante. Um, Antonio de Faria, vae á China roubar os

sepulcros dos imperadores; outro, Diogo Soares de Albergaria, obtém o

titulo de irmão do rei de Pégu, com duzentos mil cruzados de renda e o

commando do exercito: é o rei, mas morre assassinado, por ter furtado

uma rapariga. Nem se julgue que só pelos confins do mundo oriental

portuguez, em Hormuz ou em Malaka, ou só pelas costas, nos seus navios,

a furia dos portuguezes se desmanda em ferocidades anarchicas. Na

propria Gôa, capital, a vida é um combate. Pelas ruas ha batalhas e

cadaveres insepultos. Um governador prende certos salteadores

portuguezes, manda-os ferrar no rosto, junto á picota, e degredar para o

Brazil: logo um pelotão de amigos se amotina em armas para os libertar,

e, não podendo conseguil-o, vae a bandear-se para os mouros inimigos: o

governador manda-os desorelhar e amarrar aos bancos das galés; fogem e

fortificam-se, e é necessario tomar á força o reducto; prisioneiros,

são, afinal, amarrados vivos a elephantes, e esquartejados. É conhecida

a tragedia em que a amante de D. Paulo de Lima, precipitando-se das

janellas do seu palacio de Pangin, morreu, e o seductor, de espada e

rodella, abriu caminho por entre a gente armada que acudia com o marido.

Até dentro das proprias egrejas havia rixas, a tiros: viam-se homens

caír assassinados no confessionario, e nos degraus dos altares, á meza

da communhão; e uma vez foi morto com um tiro o bispo quando levava a

hostia, em procissão, pelas ruas.

Era uma anarchia barbara; e decerto os naturaes lamentavam a má-sorte

que os condemnava a supportar tantas crueldades ferozes. Antes o mouro

indolente e molle, e o antigo tempo que placidamente corria no seio de

uma orgia podre mas calma, nos braços do luxo, da opulencia e dos

prazeres! Como demonios vomitando fogo, negros nas suas armaduras, esses

portuguezes eram enviados para os desgraçar, para os punir talvez! E

levas esfarrapadas de fugitivos, n'um côro unisono de lagrimas e

afflicções, acompanhavam por toda a parte a visita dos terriveis

forasteiros, que não sabiam fazer-se amar do indio, tão submisso, tão

bem disposto para obedecer e servir.

Os _fumos_ da India (como Albuquerque dizia) embriagavam os pobres

portuguezes, limitados na Europa á porção congrua do bragal e do aço,

sujeitos a uma forçada sobriedade e a costumes mais presos. Na India o

_fumo_ desenfreava o animal, que se retouçava delirante nas sedas e nos

perfumes, nas fructas e nas mulheres, coberto de diamantes, abarrotado

de pardaus de oiro. Breve, porém, esse _fumo_ se dispersou no ar; e a

desolação universal trouxe a miseria, o luxo trouxe a fraqueza; e á

violencia de barbaros, os portuguezes juntaram a mesquinhez de chatins.

[93] «Ao que se achou presente Tristão Alvares, que era feitor do

capitão-mór, que não consentiu que ninguem tomasse nada e com

João Rodrigues Pereira que o ajudou levaram tudo ao capitão-mór,

o qual logo tudo mandou qubrar e ameaçar e deu ao capitão e

aos fidalgos da repartição primeira a cada um um quintal de

prata e a Affonso de Albuquerque tres, porque nunca estes

capitães e fidalgos se apartaram para ir roubar.»

G. Correia, _Lendas_, I, 677.

[94] O xerafin (as hrafi) = 12 rupia = 1 cruzado. Duarte Barbosa

da-lhe a equivalencia de 300 reis.

[95] V. _Raças humanas_, I, pp. LX-I.

[96] Não consentia o governador A. de A. que os portuguezes tratassem

(negociassem), dizendo que onde tratassem haviam de querer ser

poderosos e valorosos e não ser humildes como mercadores, do

que se recreceriam males de os matarem e perderem suas

fazendas... e tambem que, se os mouros vissem que lhes

tomavamos seus tratos nos teriam mór odio, e mais, que os

homens, andando tratando, andavam fóra do serviço de Deus e

d'Elrey, de que elle daria muitas contas a Deus: pela qual

razão não consentia que nenhum homem andasse fóra do serviço

d'Elrey. Com esta pragmatica os portuguezes eram muito temidos

por cavalleiros e não mercadores, e tão temidos e obedecidos

que ainda que um só portuguez fosse em uma almadia, se o

topassem naus de mouros, todas amainavam e lhe iam obedecer,

mostrando-lhe seus cartazes que tinham para navegar, que todos

eram assignados por A. de A.»--Gaspar Correia, _Lendas_, I, 518.

[97] V. _Systema dos mythos relig._, p. 331.

[98] V. _Hist. da civil. iberica_ (3.ª ed.) p. 243.

[99] V. _As raças humanas_, I, pp. 106-10.

[100] V. _Syst. dos mythos relig._, p. 331.

[101] Ainda hoje os indios chamam _Affonso d'Albuquerque_ a um

certo peixe, do tamanho da corvina, e cujo nome zoologico

não podemos apurar. Diz a lenda que o Leão do Mar não morreu:

afundou-se, e revive n'esses animaes marinhos. A maxilla

inferior do peixe, descarnada, tem o aspecto aproximado das

figuras portuguezas do seculo XVI: o barrete, as barbas

ponteagudas e longas, etc. Os indios pintam esses ossos,

dando-lhes phisionomia humana e guardam os _Affonsos de

Albuquerques_ como fetiches.

[102] V. _Inst. primit._, p. 3.

[103] V. _Ibid._, pag. 163.

* * * * *

III

D. João de Castro

Morto Albuquerque, as cousas da India voltam ao estado anterior; e

abandonada a politica imperial, torna-se á politica maritima; ou antes o

dominio fluctua ao acaso, indeciso entre os dois planos. Lopo Soares

proseguiu ainda as guerras de conquista, acabando de avassallar Ceylão e

as Molucas. Vasco da Gama voltou pela terceira vez á India, como

vice-rei, para vêr se podia pôr cobro ás desordens e á corrupção interna

das colonias: foi com elle que se inaugurou o systema das successões,

mandadas de Lisboa em cartas, que só se abririam por ordem numerica, na

falta de cada vice-rei, para prevenir as frequentes desordens, a que

dava lugar a transmissão do governo. O almirante morreu tres mezes

depois de chegado, succedendo-lhe D. Henrique de Menezes; a este, Pero

Mascarenhas, e o usurpador Lopo Vaz de Sampaio, tão celebre pelas suas

perfidias.

Nuno da Cunha tomou posse do governo em 1528 em condições difficeis. As

torpezas dos governos anteriores tinham sublevado contra nós os

monarchas do Hindustan. O de Kambai, ao norte, com o de Kalikodu,

inimigo antigo, ao sul, estavam desde tempo em guerra aberta comnosco,

de mãos dadas com os _mouros_, nossos rivaes. O governador, em quem os

dotes de guerreiro primavam, decidiu reunir todas as suas forças para ir

tomar Diu, na costa do Gujerât, castigando por um modo ruidoso a

insubordinação do de Kambai.

Quem via a esquadra com que Nuno da Cunha se foi a Diu, podia avaliar a

transformação que trinta annos apenas, ou menos ainda, tinham produzido

no caracter dos portuguezes. Ninguem os tomaria já pelos descendentes de

Pedralvares Cabral, envergonhados da sua pobreza em Kalikodu; nem sequer

pelos piratas domesticados com a disciplina de Albuquerque: pareciam já

mouros, na opulencia e nos costumes. A esquadra era das maiores, senão a

maior de todas as que se tinham reunido na India: constava de

quatrocentas velas, entre as quaes mais de quarenta vasos maiores, e

multidão de bergantins, galeaças, fustas e catures. Apoz ella vinham os

juncos malaios com mantimentos, e um cardume de zambucos e cotias de

taverneiros, gente da terra, vendendo comestiveis e vinho. Capitães e

soldados tinham-se preparado como para uma funcção, luxuosamente

vestidos, carregados de pedras preciosas e ricas armas tauxiadas. As

mulheres enxameavam a bordo, esposas e amantes da gente da guarnição; e

além das mulheres os escravos eram numerosos. O governador tinha

promettido premios de 1:000, 500 e 300 pardaus aos primeiros que

successivamente subissem ás muralhas. Era uma expedição mercenaria, e

não uma aventura de bandidos. Isto exprimia a transformação que já se

tinha operado; e o governador, apesar dos seus meritos, nada podia

contra ella.

Seguindo as boas tradições, a esquadra foi ao longo da costa deixando o

seu rasto de carnificinas e investidas covardes, contra os pontos

indefesos; e quando chegou em frente de Diu, rompeu o bombardeio. Dentro

da cidade era grande o susto. Os commerciantes mouros agitavam-se,

escondendo os seus thesouros e preparando-se para a fuga. Os fakirs

immundos, nús, e de rastos, estrebuxavam, e, erguendo-se como doidos,

acutilavam os braços e as pernas, ou batiam com calhaus grossos na

ossatura do peito, como a quererem matar-se n'um delirio de visões

santas. E o brahmine, com os seus longos cabellos enlaçados em turbante

no alto da cabeça coroada de flôres, perfumado de aloes e de agua de

rosas, untado de sandalo branco e açafrão, lançava-lhes uma esmola e

palavras de paz, para não juntar á desgraça da guerra novas desgraças de

suicidios! Os senhores de Diu, ricos do Gujerât, principes de Kambai,

attonitos, vagueavam nas ruas com as mulheres, a procurar refugio contra

as bombardas que estalavam por toda a parte. Com as caras rapadas á

navalha e os longos bigodes negros caídos, arrastavam pressurosos as

compridas camisas de algodão e de seda, calçados nos seus sapatos

bicudos de cordovão lavrado: e os longos brincos de ouro cravejados de

pedras balouçavam e tilintavam nas orelhas, em quanto corriam

desafivelando, cansados, os cintos de ouro rutilantes de esmeraldas.

Atraz d'elles as mulheres, de uma raça delicada e formosa, com o rosto

de um branco de leite, meio encoberto em mantos de seda com que vestiam

o tronco nú, corriam descalças, mostrando nos dedos dos pés os ricos

anneis, nas pernas as manilhas de ouro e prata, os braços nús carregados

de pulseiras, as mãos rutilantes de pedras preciosas. Era um terror e

uma agitação por toda a cidade, ao ouvirem o ribombar da artilheria, e

ao verem no ar a trajectoria de fogo das bombardas, que vinham sem

piedade rebentar em estilhas no meio da gente, crivando de lascas o

corpo côr de perola das mulheres, e as carnes côr de barro dos fakires

tisnados pelo sol, cobertos de uma camada de lodo secco e de immundicies

das estrebarias dos elephantes.

As tropas de Kambai, nos seus postos das muralhas, esperavam o assalto,

para então se medirem com esses homens que, abrigados por detraz das

suas peças, distribuiam assim impunemente a devastação e a morte.

Tremiam comtudo; e os mouros, por entre os batalhões, lamentavam-se da

falta dos artilheiros venezianos e das esquadras dos rumes. Esperavam,

porém, muito da tropa de elephantes, que eram quinhentos com as prezas

limadas e o pé triturador, com que haviam de fazer em pastas humidas de

sangue a phalange portugueza.[104] As balas dos mosquetes

nada podiam contra a couraça da sua pelle, e esmagando com o peso,

despedaçando com as prezas, acabariam a obra começada pelos besteiros e

fundibularios de cima das torres. Mudos e immoveis, os quinhentos

elephantes de Kambai estavam na planicie, como ancora da salvação de

Diu; e os soldados olhavam para elles com amor. Além dos elephantes,

tambem a cavallaria se achava formada, montando á bastarda os leves

cavallos da Persia, embraçados os seus escudos pequenos e redondos

forrados de seda, ao cinto duas espadas e uma adaga, ao hombro as settas

e o arco. Uns vinham defendidos com armaduras e cotas de malha de aço,

outros com laudeis, que eram mantos de algodão acolchoado, onde todos os

golpes morriam perdidos. Os cavallos traziam testeiras de aço. Porém,

apesar de toda a força reunida, a artilheria dos navios aterrorisava-os;

e já por mais de uma vez alguma bomba, caíndo no meio dos elephantes,

dispersára as montanhas de carne, a correr em rugidos, com a tromba

erguida, como um mastro, entre as prezas de marfim. Na cidade havia

tambem artilheria e mosquetes, mas que nada podiam contra os navios

distantes: os pelouros disparados recochetavam na agua.

Parou afinal o bombardeio, e todos olhavam com ancia, porque esperavam

assistir ao desembarque e contavam com a peleja. Viram, porém, com

surpreza que as náus emmastreavam e as galés mudavam a prôa ao mar,

afastando-se ao impulso dos remos. Fôra medo? fôra fraqueza? Decerto; e

a esquadra, atulhada de escravos e mulheres, não tinha forças para uma

batalha: apenas se arriscava a um canhoneio sem perigos. Já era fóra de

duvida que os deixava. As velas desfraldadas impelliam os navios na

volta do mar. A alegria e a assuada substituiram então o pavor e o

silencio. Todos pulavam contentes, desde o fakir immundo, até ao grave e

perfumado brahmine; desde os velhos e as creanças, até ás mulheres,

envolvidas nos seus mantos de seda, com os braços e as pernas núas, a

correr, agitando os longos brincos, preciosos, tão pesados que lhes

rasgavam as orelhas. Os commerciantes mouros abriam os bazares e

desenterravam os cofres; e todos vinham á praia vêr a armada que se

afastava, despedindo-se d'ella com vaias e gritos de zombaria, tangendo

musicas, disparando tiros de espingardas para o ar, e mandando, por

cortezia, pelouros, a arranhar a superficie azul das ondas. Diu estava

salva das ameaças do portuguez.

Porém quatro annos depois, intervindo nas questões internas dos sultões

e rajahs da peninsula, Nuno da Cunha obteve a permissão de construir a

fortaleza de Diu, celebre depois pelo heroismo dos seus cercos. A

politica do governador não desdenhava, comtudo, o assassinato; e o pobre

sultão de Kambai, convidado a uma entrevista, foi trucidado, á maneira

do que já succedera antes em Hormuz. D'ahi proveiu a guerra e o primeiro

cerco de Diu, sobre-humanamente defendido por Antonio da Silveira.

As chronicas chamam a Nuno da Cunha vencedor de Kambai, heroe de

Bassaim, de Kalikodu, e fundador de Diu. Basta esta enumeração dos

lugares para demonstrar que o dominio portuguez na India inclinava já,

com trinta annos de vida apenas, á decadencia. Os erros politicos

originavam guerras permanentes; e o poder dos invasores, que n'um

relampago se alargára por todo o Oriente, não se consolidava: agitava-se

desordenadamente, no meio de questões sempre renascentes, extenuando as

forças defensivas, e corrompendo-se intimamente. Se Nuno da Cunha merece

dos coevos o nome de heroe, não é pelo valor ou alcance dos meritos

proprios, é pela absoluta incapacidade dos seus predecessores e dos que

lhe succederam. D. Garcia de Noronha, que veio apoz elle, era um fidalgo

pobre, sem merecimentos, além do da pobreza e das sympathias do rei, que

o mandou á India enriquecer. «Honra, eu a tenho: não venho mais que a

levar dinheiro», dizia mais de um governador. D. Estevam da Gama foi

ninguem; e Martim Affonso de Souza prégou com o exemplo, francamente

cynico, a abjecção em que a administração da India se tornára--agora que

terminára o saque de todas as costas, e as náus de Meka, mais raras e já

artilhadas e preparadas para rudos combates, não davam com que

satisfazer a cubiça dos occupantes.

A segunda epocha da historia da India, a da podridão, apparecia já

desenvolvida e accentuada por tal fórma, que o governo de Lisboa

reconheceu a necessidade de pôr cobro a tamanha desordem, e nomeou

viso-rei D. João de Castro, leitor assiduo de Plutarcho e decidido, por

opinião, a ser um modelo de virtude, e um typo de nobreza á antiga,--ou

pelo menos á moda do que então se julgava terem sido certos dos antigos

heroes.

* * * * *

Effectivamente o estado das cousas exigia remedios energicos. Martim

Affonso de Souza deve abrir o rol, porque ninguem melhor e mais

ingenuamente vivia no seio da podridão e o confessava, nas cartas que

enviava para Lisboa, ao rei. A successão do governo de Vijajapur era

debatida entre dois principes indigenas; e o governador «tardou em se

determinar, porque estava esperando quem levava a melhor». Afinal

decidiu-se pelo _Hidalcão_, que parecia ter mais justiça e era _mais

firme_, «ainda que vos certifico que da outra (parte) havia tantas

razões e contrarios que foi necessario _soccorrer-me a missas e

devoções_». Além das devoções, o vencedor deu-lhe 70:000 pardaus para

el-rey, 20:000 para elle proprio governador, e uma joia para sua esposa.

Deus, porém, não se contentando com ajudar o modo por que o governador

vendia o seu apoio, matou o rival vencido. Tudo corria para o melhor,

quando, para coroar o caso, vem um privado de Assud-Khan propôr-lhe a

divisão do thesouro do fallecido: 500:000 pardaus: «Mando 300 a el-rey,

mas d'estes tomei 30:000 para mi, que é o dizimo que lá mando a minha

mulher: que em razão está que tenha alguma parte d'isso, pois o podera

ter todo, que eu podera ter tomado este dinheiro sem o ninguem saber».

Esta pratica de vender o auxilio nas contendas indigenas não era,

todavia, privilegio de Martim Affonso. Em Hormuz, sob a tutela dos

portuguezes, D. Duarte de Menezes substitue a um governo amigo dos

nossos, um outro que preferia o mouro, porque este lhe deu «cem mil

pardaus em xerafins novos, e em conta ricas perolas e joias e aljofar».

Gaspar Correia diz do governador, que gostava de «boas peças e dadivas e

alvitres de apanhar dinheiro, e banquetes e prazeres, e com mulheres

solteiras com que ia folgar no tanque de Tinoja, e em tudo era mui

devasso».

Historia de Portugal: Tomo I · 第 18 / 21 段