Em Makât (Mascate), já na entrada do golpho, e quasi fronteiro a Hormuz,

tinham vindo acudir a curar-se, chorando, os fugitivos de Karayât e

Khor-Fakhan, atroando os ares com a fama do poder terrivel d'esse heroe

que se approximava. Tremiam todos de susto; mas quando a esquadrilha

appareceu diante da poderosa cidade, ainda houve quem pensasse em

resistir, por vêr que os navios eram tão poucos. Ignoravam, porém, que

cada um d'elles, com os seus canhões escondidos por detraz das amuradas,

era um vulcão prompto a rebentar em lava, um inimigo perfido cuja força

latente não podia medir-se. Maskât foi bombardeada. A mesquita onde os

infelizes se tinham refugiado caíu a machado, e os captivos, mutilados,

foram fugindo, chorando, reunir-se á gente da cidade escondida nas

serras. Havia cadaveres em todas as ruas e o fogo posto começava a

crepitar lavrando nos armazens cheios de azeite e de melaço. As

labaredas subiam, zumbia ao longe o clamor dos desgraçados, e á maneira

que o terribil heroe se alongava na praia com os seus para regressar aos

navios, os _mouros_ vinham anciosos e cheios de medo vêr se podiam ainda

salvar algumas migalhas da sua cidade, pasto das chammas vivas. Era em

vão. Como uma tromba devastadora, Albuquerque proseguiu deixando um

rasto de sangue e cinzas. Hormuz estava proximo, e cumpria que a onda do

terror, que fôra crescendo, estoirasse agora de um modo pavoroso.

Hormuz era então a joia mais preciosa da corôa da Persia. Chamavam-lhe

_a pedra do annel_ das Indias. Era a Londres oriental, onde todos os

productos do Oriente vinham desembarcar; d'onde saíam nas longas

caravanas que se dirigiam a Bagdad e ao Cairo, para a Tartaria e o

Turquestan, por toda a Asia do norte. Os armadores levavam por mar a

Hormuz a pimenta, o cravo das Molucas, o gengibre, o cardamomo, os paus

de sandalo e brazil, os tamarinhos, o açafrão, a cera, o ferro, as

cargas do arroz de Dekkan, os côcos, as pedrarias, as porcellanas, o

benjoim, os pannos de Kambai, de Chala, de Deval, e os cinabasos de

Bengala. Ahi vinham, de Aden, no estreito de Bab-el-Mandeb, o cobre, o

azougue, os brocados, os chamalotes, e tudo quanto Veneza mandava da

Europa, pelo caminho de Alexandria, a Suês, via do mar Vermelho. Toda a

Persia se abastecia em Hormuz dos generos de fóra; por Hormuz toda ella

mandava importar os productos indigenas. Os navios carregavam ahi a seda

e o almiscar, rhuibarbo de Babylonia, e as récuas de cavallos da Arabia,

tão queridos no Dekkan, em Kambai e nos Estados da contra-costa de

Cholomandalam (Coromandel) até Bengala, na foz do Ganges. Contra o arroz

e os pannos que levavam, os commerciantes traziam de Hormuz as tamaras,

o sal das suas collinas coloridas, as passas, o enxofre e o aljofar

grosso, muito procurado em Narsinga.

A cidade era em si pequena, mas um brinco. Era uma terra de luxo e

prazer, uma côrte de mercadores. As casas, recheiadas de cousas

preciosas, eram thesoiros ou museus, com paredes forradas de marmores,

columnatas, eirados, pateos ajardinados e fontes preciosas. A vida

custava ahi carissimo, porque o luxo absorvia todos os recursos

naturaes. A terra, uma salina, era esteril de si: tudo vinha da Persia,

da Arabia, da India: mas os mercadores tinham defronte, além, na costa

firme, as quintas e hortas, onde iam com frequencia. Ahi o platano

magestoso do Oriente, o álamo esguio e esbelto, o negro cypreste

meditativo, destacavam-se no meio das hortas viçosas, das quintas e

jardins de rosas, povoados de rouxinoes, abrigando nas encostas á sua

sombra as vinhas ferteis. Os pomares regados estavam coalhados de

laranjeiras, de fructos de ouro e flôres de neve perfumada; de

macieiras, pecegos, albaquorques; de figueiras de fórmas extravagantes e

amplas folhas; de granadas, com os fructos rebentados a sorrir nos seus

grãos côr de rubi. No chão serpeavam as redes de hastes dos meloaes,

louros e perfumados; e das latadas e parreiras caíam com peso os cachos

de uvas preciosas de todas as côres. Por entre os bastos pomares e do

seio dos jardins de rosas, levantava-se orgulhosa e nobre a palmeira,

com o seu turbante de folhas agudas, carregada de tamaras.

Nas ruas da formosa cidade, em frente dos bazares, sob os toldos que a

defendiam da luz e do calor do sol, formigava uma população de varias

raças, de côres diversas, occupada em comprar, em vender; mais occupada

ainda em gozar a vida no seio de uma devassidão torpe. O calor e os

perfumes inebriavam os sentidos, e acordavam todos os instinctos

sensuaes. Vinham ali vender neve, de trinta leguas do interior da

Persia. Amar era o primeiro de todos os commercios de Hormuz; e o persa,

alto, elegante e formoso, entregava-se a todos os desvairamentos da

pederastia. Por isso as mulheres valiam pouco, eram até aborrecidas em

Hormuz. Os pobres escravos, moços e mutilados, enchiam os harens dos

ricos, e os bordeis para o commum dos mercadores. Era uma devassidão

abjecta, e um luxo desenfreado. Os personagens, nos seus passeios, iam

sempre seguidos por pagens, com toalhas e jarras de prata e bacias com

agua. Havia musicas e festas por toda a parte e as bandas e orchestras

andavam constantemente nas ruas onde os mercadores expunham á venda o

aljofar em colchas purpurinas. Os trajos eram dos mais preciosos

estofos, e sobre as camisas brancas de algodão finissimo vestiam-se

tunicas de chamalote ou gran, cingidas por almejares com grandes adagas

ornadas de ouro e prata e pedras preciosas. Os broqueis eram redondos,

forrados de seda; os arcos acharoados, ou de corno de bufalo com cordas

de seda. Usavam, além do arco e da frecha, do escudo e da adaga,

machadinhas e maças de ferro, todas preciosamente lavradas e tauxiadas

de ouro e prata. Os mouros diziam que o mundo era um annel e a pedra

Hormuz. Só a alfandega rendia meio milhão de xerafins.[94]

As noticias de Maskât, os mutilados de Karayat e Khor-Fakhan encheram de

terror essa população embriagada na orgia de uma vida de delicias. No

porto havia, com effeito, uma poderosa armada que escondia as aguas:

eram centenas de náus e galeões, uma infinidade de terradas. Tinham-se

arrestado os navios dos mercadores e do seio da frota estava a náu de

Cambaya, a _Meri_, de mil toneis, com gente basta e numerosa artilharia.

Havia o melhor de duzentos galeões de remo com arrombadas de saccas de

algodão tão altas que escondiam os remeiros. O persa que vestia os

laudeis, em vez de corpos de aço, couraçava tambem de algodão os navios.

As terradas alastravam o mar, carregadas de gente armada, com

estandartes garridos «que era cousa fermosa para ver». Na terra, ao

longo da praia, havia de quinze a vinte mil homens formados com as suas

musicas de trombetas e anafis. «As gaitas do mar e terra eram tantas que

parecia que se fundia o mundo!» Mas os fugitivos abanavam a cabeça

desesperados, contando como os seis, seis navios apenas portuguezes!

traziam no ventre uns monstros de fogo destruidores! E o soldão persa,

afflicto, não sabia de que modo receber a visita de Albuquerque e dos

seus navios, que já estavam, terriveis mas quietos como um volcão em

paz, fundeados no meio do porto, entre os galeões de Hormuz. Albuquerque

exigia-lhe que abandonasse o persa, e se declarasse vassallo do

portuguez; e o infeliz estava decidido a abandonar tudo, para que

deixassem em paz--quando o capitão, enfadado com as delongas e

subtilezas, rompeu inopinadamente o fogo. Começou a varejar em torno o

estendal de barcos, reduzindo-os a uma massa de destroços, de naufragios

e cadaveres que era horroroso de vêr. Estava como um lobo no meio de um

rebanho de ovelhas. Não era uma batalha, era uma carnagem. Os fugidos

nadavam n'um mar rubro de sangue, perseguidos pelas almadias em que os

soldados matavam n'elles ás lançadas e cutiladas. Da amurada das náus os

grumetes e pagens rasgavam-lhes o ventre com os croques, pondo pastas de

visceras fluctuantes no mar de sangue. Houve grumete que matou assim

oitenta _mouros_. E emquanto a armada de Hormuz e as tropas do sultão

eram chacinadas, desmanchava-se o lançol de barcos como uma teia cujas

malhas se soltam. Havia correrias sobre as ondas, e de espaço a espaço o

mar sorvia uma atalaia com a gente e as armas. Outras, já ardendo, iam

fugindo em chammas, como trombas de fogo correndo, vogando á mercê do

vento «que era um grande espectaculo para vêr». Ainda oito dias depois

do sanguinario caso havia cadaveres boiando no mar, e os portuguezes em

lanchas occupavam-se n'essa particular especie de pesca. A colheita era

abundante, os cadaveres aos centos, os trajos ricos, e muitos os anneis

e alfinetes, as adagas e punhaes tauxiados de ouro e prata com joias

engastadas. Denudados, vinham a bordo as familias reconhecer os

cadaveres e leval-os piedosamente, em lagrimas, aos seus sepulcros. A

façanha fôra tão grande, que parecia milagre: pois não se viam nos

corpos mortos as chagas das frechas, não havendo similhante arma entre

os nossos? Milagre! diziam os soldados e os capitães, perante esse caso

tristemente revelador da confusão do combate com o novo Alexandre da India.

O pobre sultão de Hormuz, afflicto, immediatamente accedeu a tudo:

consentiu que Albuquerque levantasse uma fortaleza e pagou-lhe vinte mil

xerafins de tributo. E d'este concerto se fizeram duas cartas, uma em

folha de ouro, a modo de livro, escripta em arabico com letras abertas a

buril e suas brochas de ouro com tres sellos de ouro dependurados por

cadeias; a outra em parsi, que era a linguagem commum da terra, e em

papel com letras de ouro. E ambas estas cartas mandou Affonso

d'Albuquerque a el-rei D. Manuel.

* * * * *

Hormuz escapara, rendendo-se, aos horrores de um saque: mas isto mesmo

desesperava os capitães e soldados da esquadrilha, que murmuravam,

cubiçosos de tamanha riqueza desenrolada diante de seus olhos. Não

comprehendia para que se haviam de demorar alli, a construir uma

fortaleza; quando, a não saquearem a cidade, mais valia partirem para o

rendoso corso das náos de Meka, na bocca do Estreito. A intriga

insinuava-se, dizendo que o capitão-mór queria construir a fortaleza

para si, e fazer-se rei de Hormuz, levantando-se contra o de Portugal:

na India não havia ainda mais tradição do que a do saque maritimo, e o

pensamento imperial de Albuquerque chegava a não ser comprehendido. Nem

em tres annos, diziam, voltariam á India, perdendo occasião de carregar

as quintaladas que tinham de ordenado. A cubiça de mãos dadas com a

violencia e a cegueira agitavam perigosamente as guarnições.

Albuquerque, impassivel, proseguia. De uma vez que lhe levaram um

requerimento quando vigiava pessoalmente a obra da fortaleza, tomou-o

assim dobrado como lh'o deram, e sem o ler metteu-o debaixo de uma pedra

do portal da torre que se estava erguendo. O baluarte ficava cimentado

com as queixas. Mas as lages não pesavam bastante para as abafar, e

recrudesceram. Além do mais, os queixosos reclamavam a metade dos 20:000

xerafins pagos pelo de Hormuz, que, esperançado n'estas desordens,

confiado em promessas de sedição, e nos auxilios que o persa lhe

enviava, ousou romper as hostilidades. Viera com effeito o cheik Yar

(Xaquear) trazendo comsigo quatro mil arabes. Albuquerque estava n'um

serio perigo, e outro qualquer perder-se-hia. Os capitães recusavam ir

ao combate; mas elle, arrancando as barbas, aos punhados, ao capitão

Nova, levou diante de si os soldados, sósinho, ás cutiladas. Dos seis

navios, porém, fugiram-lhe tres, que vieram para a India contar ao

vice-rei as loucuras e barbaridades do conquistador: não podiam resistir

ao seu mando _terribil_, só lhes era dado fugir! Albuquerque retirou

tambem de Hormuz, quando viu a impossibilidade de levar por diante a

empreza, abandonado por metade das suas forças. Levantou ferro, voltou a

Sokotra aprisionar as náus de Meka, e mais um navio o abandonou ahi:

nenhum podia supportar o ferreo mando do heroe.

Em novembro de 508, depois de ter voltado ainda outra vez a Hormuz,

estava de regresso á India, em Kananor, onde abriu a carta de Lisboa,

que lhe confiava o governo do Oriente. N'esse momento a violencia do seu

genio furioso arrebatou-o: queria castigar os capitães insubordinados,

queria sobretudo terminar rapidamente o plano das suas conquistas; e

foram necessarios os rogos de D. Francisco de Almeida, a quem o filho

acabava de morrer, para consentir na expedição naval de Diu. Só quando,

mezes depois, chegou á India a fidalga armada de D. Fernando Coutinho,

poderam terminar as deploraveis contendas, entre o vice-rei e o seu

successor. Coutinho levava de Lisboa ordem expressa de tomar Kalikodu;

e, cheio de basofias, lançou-se na empreza em que achou a morte.

Engolfados na matança e no saque, no meio de parte da cidade incendiada,

os portuguezes foram por sua vez trucidados, quando os inimigos os

colheram dispersos e sem armas.

Só e livre, absoluto senhor do imperio nascente, Albuquerque entregou-se

com franqueza e decisão ao seu projecto. A primeira condição d'elle era

a fundação de uma cidade, uma capital portugueza--cousa que até então

não existira. Katchi, cujo rajah desde o principio se abraçára aos novos

invasores, era uma cidade India, onde possuiamos apenas uma fortaleza,

abrigo da feitoria e guarda de um porto amigo. Albuquerque elegeu Goa

para capital. Collocada a meia altura da costa Occidental da peninsula,

bom porto, a cidade reunia as condições desejaveis. Fazia elle então

parte do reino de Vijajapur (Bijapor) fracção que no fim do XV seculo se

separára do de Dekkan, declarando-se o seu khan independente, sob o

titulo de adil-shah (Adil-Khan, Hidalcão); e o adil-shah do Vijajapur,

ao tempo de Albuquerque, tinha por nome Yusuf. Por este governava em Goa

Sipahdar, a quem os nossos chamaram Sabaio. Em fevereiro de 510

Albuquerque tomou Goa por surpreza; e pela primeira vez houve no Oriente

um Estado portuguez. Até então, depois de uma batalha, a tomada de um

logar significava apenas a substituição da suzerania indigena pela

nossa; e o estabelecimento de feitorias e a construcção de fortalezas,

tinham sómente em vista assegurar o commercio e a cobrança das páreas ou

tributos de vassallagem, segundo o plano do primeiro vice-rei.

Albuquerque iniciava um systema differente; creava uma cidade

propriamente portugueza; e com o novo governador, o nosso dominio

desembarcava dos navios para a terra firme. A um systema de colonias,

como fôra em volta do Mediterraneo o dos phenicios ou o dos gregos,

substituia-se um imperio, como Annibal o sonhára na Italia, e Alexandre

o fundou na Asia. Albuquerque, porém, não pensava em fazer de Goa uma

cidade portugueza, no sentido de ser exclusivamente habitada por

europeus: seria chimerico. Faltava-lhe gente, e para obviar a isto

fomentou os cruzamentos de portuguezes com mulheres indigenas, creando,

tanto em Goa como depois em Malaka[95], uma população de mestiços, que

mais tarde se tornou um dos elementos de dissolução do nosso imperio.

Sob o dominio portuguez, os naturaes viveriam livremente na sua

religião, com as propriedades garantidas, mas sujeitos ao imperio

protector e soberano de Portugal.[96] Era um plano correspondente ao que

mais tarde os inglezes pozeram em pratica, sem todavia cruzarem com os

indigenas: da mesma fórma que os hollandezes preferiram os planos

maritimo-commerciaes de D. Francisco d'Almeida.

Goa occupou ao governador todo o anno de 510; porque o _Sabaio_, tomado

por surpreza em fevereiro, voltou no verão; e os soldados de Albuquerque

não quizeram resistir-lhe. Apesar do desespero e das maldições, da furia

e das ameaças do governador, abandonaram a cidade e embarcaram. Os

planos de Albuquerque pareciam loucuras aos bandidos e piratas da India,

que além de lhes não comprehenderem o alcance, se viam privados de

saques, apenas fartos de guerra. Goa perdeu-se em agosto; mas logo

tornou para o dominio portuguez, ganha por assalto em novembro. Os

soldados obedeciam, porque o commando do governador era _terribil_,

desapiedada a sua crueldade genial, fervorosa a sua fé catholica.

Alexandre cria-se um deus, Albuquerque _viu_ mais de uma vez os milagres

do céu nas horas do combate. Em Goa viu Santiago: um cavalleiro de armas

brancas, no manto uma cruz vermelha, pelejando contra os

_mouros_[97]--conforme a tradição historica portugueza. Nas cidades da

costa da Arabia, viajando para Hormuz, as suas crueldades tinham sido

barbaras: em Goa não o foram menos. Além queria impôr pelo medo; aqui

destruia como politico. Todos os _mouros_ de ambos os sexos, de todas as

edades, mais de seis mil, foram mortos; e queimados vivos os que se

tinham refugiado na mesquita, sendo a terra assim «despejada», porque

para socego d'ella só devia conter gentios. Era o logar escolhido para

capital do imperio dos novos gregos pelo moderno Alexandre.

Consolidada a posse da capital, no coração da India, Albuquerque

voltou-se rapido para as duas emprezas que rematariam o seu imperio:

Malaka e Hormuz. Embarcou, logo no principio de 511, e tocando em

Ceylão, a terra encantada das pedras preciosas, delicias do mundo,

patria da canella e das perolas, achamol-o, já em maio, em frente de

Malaka, no extremo Oriente.

Malaka, na ponta da peninsula da Indo-China, sobre o estreito a que dá o

nome, era para esta região, como Hormuz, a norte-leste, para a outra.

Assim como além se permutavam os generos da India com os da Arabia e da

Persia, e em Adem com os do Egypto; assim em Malaka se faziam todas as

trocas dos productos occidentaes da China e das Molucas, e de todo o

extremo Oriente. De Malaka iam as náus a Ternate e a Tidor, a Banda e a

Ambon, em procura do precioso cravo; e o estreito andava coalhado de

_juncos_ de Java, conduzindo á cidade o arroz, as carnes, a caça e os

_crizes_ tauxiados de fino aço, em troca dos damascos e brocados, que

levavam de retorno para as ilhas do archipelago. Amphibios, os malaios

viviam no mar em permanencia, com a casa e a familia a bordo; e os seus

_juncos_, com enxarcias de verga, iam buscar a Malaka os pannos de

Paleakat e de Mahabalipurum (Meliapor), na costa de Coromandel, e as

drogarias de Kambai.

Do saque de Malaka, o governador reservou para si apenas seis leões de

bronze, destinados ao seu tumulo. Sem se demorar, avassalou todo o

archipelago malaio, levantando fortalezas e deixando guarnições; e,

segura a porta oriental da India, voltou-se a Goa, de caminho para

Hormuz e Aden, a consolidar o imperio pelo occidente. Em fevereiro de

513 sáe com uma armada para Aden, que não consegue tomar; viaja em torno

do Mar Vermelho, incendiando e bombardeando as costas; mas não sente

forças para levar a cabo o seu plano de conquistar a Arabia, indo a Meka

despedaçar a santa Kaaba. A campanha de 513 não tem portanto resultado

positivo, desde que Aden consegue resistir ás investidas do governador.

Adiou pois para outra vez esses planos, que eram a cupula do seu

edificio e a chave do imperio que vinha construindo. Conquistada Aden,

as duas emprezas que meditava eram relativamente faceis na sua

simplicidade temeraria. Levaria quatrocentos homens de cavallo em

taforeas ou caravellas e iria desembarcar em Liumbo, partindo n'um

galope até Meka, logar santo mal guardado por gente prostrada em

adorações. Roubaria o thesouro sagrado e o proprio corpo do propheta:

com ambos se resgataria o Santo-Sepulcro de Jerusalem, captivo.

Consumar-se-hia a obra mallograda das Cruzadas, tradição piedosa que na

Renascença passara das nações do norte para a Italia e para a Hespanha,

arrastando mais tarde Portugal a Alcacerquibir. Ao mesmo tempo, e por

outro lado, a grande empreza do mar Vermelho descarregaria um golpe

mortal no Egypto, que era a joia do imperio dos turcos e o arsenal de

onde vinham as armadas á India. O seu plano consistia em «cortar uma

serra muy pequena que corre ao longo do rio Nilo, na terra do Preste

Joham, para lançar as correntes d'elle por outro cabo que não fossem

regar as terras do Cairo».[98] Desviando o Nilo seccaria o Egypto.[99]

Já pedira a D. Manuel que lhe mandasse officiaes da Madeira, onde os

havia mestres no córte das serras para formar as levadas de rega dos

canaveaes. Tudo isto continha a empreza de Aden, cujo mallogro cortou os

vôos ás ambições grandiosas do heroe.

Embora no céu, lá para os lados das terras do Preste abexim, tivesse

fulgurado aos olhos do mystico e terrivel heroe uma cruz vermelha,

Christo abandonara-o na empreza. Quando o famoso milagre surgiu,

Albuquerque e todos, ingenuamente, crentes na missão divina em que

andavam, caíram de rastos adorando a cruz.[100] E o capitão, para

corresponder ao céu, mandou tanger os córos de trombetas, responder com

artilheria aos cumprimentos de Jesus. Lavrou-se um _estromento_

assignado pelas guarnições, que veiu para D. Manuel, com a carga de

pimenta, afervorar a piedade mystica da côrte carthagineza.

Como, porém, apesar do milagre, nada se fez, Albuquerque em 514 volta-se

para Hormuz, cujo dominio não estava seguro. Outro Alexandre em

Persepolis, o heroe condemnou-se em Hormuz: a grandeza das suas façanhas

tinha-lhe feito nascer um orgulho, que já não distinguia o bem do mal.

Orientalisado como o imperador, cujos exemplos seguia, não lhe bastavam

já a crueldade, nem a força: appellava para a perfidia; e

intromettendo-se nas miseraveis politicas dos persas, chamou á sua tenda

para uma festa o ministro que então governava o principe idiota de

Hormuz, e assassinou-o covarde e friamente, substituindo-se-lhe. Estava

proximo da cova: e a sorte não queria que á historia d'este heroe

faltasse o epilogo frequente da historia dos heroes: uma abjecção.

Tampouco a verdade consente que se esconda um fraco de vaidade e

fraqueza commum. Alexandre mimoseava os litteratos de Athenas para que o

exaltassem: Albuquerque mandava anneis de pedras preciosas ao chronista

Ruy de Pina «para escrever com melhor vontade os memoraveis feitos da

India».

De volta de Hormuz a Goa morreu na viagem: a morte salvava-o, como

fizera a D. Francisco de Almeida, dos ferros que tinham servido a Duarte

Pacheco. A côrte de Lisboa já o mandára substituir no governo por Lopo

Soares de Albergaria, que, chegando, começou por condemnar o seu

predecessor, exaltando todos os que lhe eram inimigos. Antes de acabar,

Albuquerque pegou da penna e dirigiu uma carta ao rei--«quando esta

escrevo a V. A. estou com um soluço que é signal de morte!» E pedia-lhe

que lhe honrasse a memoria e protegesse o filho: o que o rei fez, honra

lhe seja. Agonisando, via-se incomprehendido pela tacanha côrte de

Lisboa, e acceitava de bom grado a morte: «Mal com os homens por amor

d'elrey, mal com elrey por amor dos homens, bom é acabar». E acabou, á

vista de Goa. Era homem de mean estatura, rosto comprido e corado. Era

avisado latino e de grandes ditos: falava e escrevia muito bem; mui

facil na conversação, muito grave no mandar, muito manhoso no negociar

com os mouros, muito temido e amado de todos. Nascera filho segundo de

uma familia de sangue nobre, e educara-se na côrte militar de Affonso V,

viveiro da geração dos capitães da India amestrados nas guerras de

Africa. Fôra em 1480 na esquadra mandada a Napoles em auxilio do rei

Fernando contra os turcos, e nove annos depois partira para Africa a

defender a fortaleza da Graciosa, em Larache, contra os mouros. Era

estribeiro-mór de D. João II e já um grande fidalgo quando, em 1503, D.

Manuel o mandou á India pela primeira vez. Foi, voltou com bons

creditos, mas sem nada ter feito de singular; provavelmente observou e

aprendeu muito, levando já um plano formado quando o rei o mandou como

capitão na esquadra de Tristão da Cunha. D'essa ida começa a historia

que narrámos e que termina agora com a sua morte.

Os soldados, a bordo, amortalharam-no no habito de Santiago com

borzeguins e esporas, espada á cinta, na cabeça uma carapuça de velludo

e aos hombros uma beca tambem de velludo. O enterro subiu em lanchas, e

era tamanho em todos o choro e pranto, que parecia fundir-se o rio de

Goa. Ao desembarcar, foi levado aos hombros dos soldados, sob o pallio,

pelas ruas da cidade que conquistara; e os gentios, vendo-o com os olhos

meio abertos, a longa barba atada até á cinta, fluctuando, não o criam

morto: Deus o chamara para alguma façanha no céu! Voltaria breve. E por

muito tempo houve romarias ao sepulchro do heroe, vindo os naturaes

pedir-lhe justiça contra os desmandos e perfidias dos portuguezes,

offerecendo-lhe boninas e azeite para a sua lampada. Do extremo Oriente,

desde o Pégu até á China, ficaram-lhe chamando o Leão-do-mar.[101]

* * * * *

Historia de Portugal: Tomo I · 第 17 / 21 段