esquadra, dispozera que picassem as amarras os navios assim que fossem
abalroados, dando á costa, e arrastando comsigo os portuguezes, sobre os
quaes as lanchas e fustas dos indios cairiam então desapiedadamente. Mas
o viso-rei, percebendo o ardil, mandou preparar as ancoras á pôpa, e os
navios inimigos foram sosinhos varar na praia. Era 3 de fevereiro (1509)
festa de S. Braz, pelo meio dia. A viração do mar soprava fresca pela
pôpa dos navios portuguezes, quando a _capitaina_ desfraldou o guião
azul á prôa e, toda empavezada, no meio dos gritos de «Senhor Deus;
misericordia! Santiago!» ao som das charangas de trombetas, soltou a
primeira banda de artilheria. Um clamor immenso de vozes, de trompas, de
tiros lhe respondeu, e a batalha generalisou-se com artilheria e arma
branca, á abordagem. A confusão de gentes que alli combatiam era
inextricavel; e os pavilhões da Cruz e do Crescente, erguidos nos
mastros dos navios, abrigavam os sentimentos mais extravagantes, as
crenças mais disparatadas. É que não se combatia, nem pela fé, nem pela
patria: disputava-se com furor o saque da India; e a cubiça torna irmãos
os homens de todas as fés, os filhos de todas as raças. Havia allemães e
francezes por bombardeiros a bordo das náus portuguezas; havia indios,
brahmanes e até _mouros_. Havia, do lado opposto, na confusão dos
navios, desde o nubio até ao arabe, desde o ethiope até ao afghan; havia
musulmanos de toda a casta, persas, e _rumes_ do Egypto--mercenarios de
todas as partes, a que se dava este nome generico; havia ao lado da
multidão dos infieis, o veneziano, renegado ou catholico, mas sobretudo
mercador, que por ordem da sua republica vinha como artilheiro defender,
no mar da India, os interesses solidarios dos seus socios no commercio
oriental. Em volta da população confusa da esquadra dos _rumes_,
apinhava-se em seus juncos a massa obscura dos indios, de Diu no
Gujerât, de Kalikodu no Kanará.
Os navios portuguezes eram poucos, mas solidos, e ainda bem construidos
e artilhados; as suas guarnições não excediam mil homens. Eram náus
principalmente; mas tambem galés, _bastardas_ e _subtis_, e _fustas_--os
_avisos_ d'essas antigas esquadras. As náus vomitavam fogo das amuradas.
Nos castellos de pôpa e prôa fusilava a artilharia menor, baptisada com
os nomes da monteria feodal, _aguias_, _sacres_ e _falcões_, _leões_ e
_serpes_, _pedreiras_ que arrojavam balas de granito, _berços_,
_camellos_, _colubrinas_ e _esperas_. Nos bailéos, de pôpa á prôa, os
mosqueteiros despediam continuas surriadas de balas; e as xaretas de
corda, presas nas amuradas, defendiam as náus das abordagens dos juncos
e galeotas dos indios. A bordo das galés, o capitão sobre o
chapiteu--Jesus! S. Thomé! Ave-Maria!--excitava os soldados que, de
espada e rodella, se juntavam á prôa para a abordagem dos navios
inimigos, ou da pôpa, a tiros, caçavam mouros. As enxarcias appareciam
crivadas de settas. Da prôa tambem, o castello das galés vomitava fogo;
e o ligeiro navio, caíndo perpendicularmente sobre o contrario,
rasgava-lhe o ventre com o esporão, despedaçava-lhe os remos, crivava-o
de balas. Sentados os forçados, nús e negros, acorrentados aos bancos,
remavam agil e poderosamente; obedecendo aos gritos do comitre que, de
espada em punho, corria na coxia, entre as platéas dos bancos,
distribuindo cutiladas. Sob a coberta, junto ao paiol defendido por
colchas e cobertores escorrendo agua, o capitão-do-fogo distribuia a
polvora, tirando-a ás gamellas dos caldeirões. E os bombardeiros, com os
murrões e bota-fogos a bom resguardo, obedeciam á ordem de atirar. Os
bailéus, d'onde a taifa dos soldados se lançava ás abordagens, defendiam
com a mosqueteria os remeiros; e as velas estavam carregadas nos
mastros, por causa dos incendios. O fogo punha um elemento novo n'este
antigo modo de batalhar no mar.[88] No meio do enxame das galés e
caravelas,[89] correndo á caça dos paráos fugitivos, os navios de vela,
de typos novos, náus e galeões, urcas e carracas, eram como fortalezas
fluctuantes, vomitando lume, estrondos, fumo, naufragios e morte.
Tingiram-se mais uma vez de vermelho as aguas do mar das Indias;
morreram innumeros; boiavam feridos, pedindo misericordia e recebendo
tiros: e por fim, depois de todos os episodios e scenas proprias d'estas
tragedias, a victoria foi pelo vice-rei que destruiu rumes e indios.
Esta batalha naval tinha uma importancia superior ainda á das victorias
de Duarte Pacheco em Katchi: porque os indios, meditando e observando,
reconheciam que a phalange portugueza não era só invencivel para elles:
era-o tambem para os rumes do Egypto, e para a artilharia de Veneza...
O de Diu, que estivera sempre indeciso, ao vêr o resultado da batalha,
veiu pressuroso, desculpar-se, entregar logo os prisioneiros da empreza
anterior. Guardára-os para os salvar das garras ferozes dos rumes, a
quem desejava todo o mal, sem lhes ter podido resistir. Mandava-os
carregados de presentes e parabens, por tão grande victoria, que o
libertava da odiosa tyrannia dos rumes.
No chapiteu da sua náu, o almirante e vice-rei contemplava a scena de
carnagem, agora muda, e os destroços que boiavam com os cadaveres no mar
tinto em sangue; e estava glorioso e contente no meio dos seus, que
contavam com verbosidade os episodios, o que tinham feito, como se
tinham saído, cada qual de seu lance... quando chegaram á borda, n'uma
almadia, os prisioneiros forros, gritando alegres, a pedir que os
recebessem. O vice-rei lembrou-se então que lhe faltava o filho, e «se
foi assentar na tolda com um lenço na mão, que não podia estancar as
lagrimas que lhe corriam!» Acudiram todos a consolal-o; e elle,
tomando-lhe os animos, ergueu-se, e disse-lhes enxugando os olhos, e
tratando-os por filhos, que isso já passára e traspassára a sua alma,
que se alegrassem todos agora com a boa vingança que Nosso Senhor por
sua misericordia lhes dava!
E regressando, conformado com a sua sorte, ao passar em frente de
Kananor, salvou á terra para celebrar a victoria; mas, para acabar de
vingar a morte do filho, mandou amarrar prisioneiros ás boccas das
bombardas, e as cabeças e membros despedaçados dos infelizes iam cair na
cidade como pelouros... A morte do filho transtornára o seu lucido
espirito, mudando as suas opiniões antigas de estadista n'um furor
carniceiro, attestado pela devastação da costa do Gujerât. Cedêra tambem
ás intrigas e maledicencias dos capitães que tinham vindo de Hormuz,
fugindo ao mando terrivel de Albuquerque, atemorisados pela loucura das
suas emprezas tytanicas. Bulhavam, o governador que acabava o praso do
governo, e Albuquerque já nomeado de Lisboa para lhe succeder; e á côrte
haviam chegado noticias perfidas de excessos commettidos pelo sabio
vice-rei. Em paga dos seus trabalhos esperava-o a masmorra de Duarte
Pacheco; porém, na viagem para o reino, deu á costa da Cafraria, o foi
morto pelos negros ás pedradas e zagunchadas.
* * * * *
O seu plano de governo, por ser sabio, era chimerico, pois que a India
era uma loucura. Só homens de genio, como Albuquerque, poderiam tornar
grande uma empreza condemnada; só, como Castro, um santo podia resalvar
o brio portuguez da nodoa de uma ignominia formal.
Para que o nosso dominio fosse maritimo e mercantil apenas, era
necessario que essas tradições estivessem na alma portugueza, como
tinham estado, n'outras edades, na alma de Carthago, e como agora
estavam na de Veneza. Em Portugal, o espirito patrio fôra formado pela
religião e pela cavallaria; e exigir dos soldados d'Africa que não
desembarcassem dos navios, convencel-os de que o verdadeiro modo de
conquistar fosse prescindir do governo, era querer uma cousa impossivel.
Alargar, ao contrario, os dominios portuguezes, avassallar territorios,
fazer conquistas, e crear um imperio á antiga, como o de Alexandre e o
dos romanos, era o pensamento commum--naturalmente deduzido dos
antecedentes militares da nação, e agora fomentado de um modo especial
pela cultura classica, enlevo de todos os bons espiritos da Europa. A
idéa de que Portugal era uma Roma preoccupava os reis e os escriptores,
que se fatigavam a procurar origens e a indicar analogias, de certo
verdadeiras. Albuquerque fez vivo em si um tal pensamento, e viu-se o
Scipião d'essa Roma[90], ou antes o Alexandre da nova Grecia.
Além dos motivos intimos que tornavam inacceitavel a politica commercial
e maritima do primeiro vice-rei da India, havia motivos mais praticos.
Uma das suas justas exigencias era a da prohibição do commercio aos
soldados, magistrados e capitães do Oriente. Com effeito, o dominio, tal
como elle o concebia, não era um saque: era uma protecção armada a um
commercio, franco por um lado, monopolio do Estado, ou apanagio da
corôa, pelo outro. Os capitães e governadores seriam simultaneamente
agentes commerciaes de S. A., excelso mercador da Pimenta. Isto exigia
uma fleugma de que só os hollandezes foram capazes, e ainda assim á
custa de salarios que supprimem as tentações.
Desde que o rei era o primeiro negociante, porque não seria o vice-rei o
segundo, os capitães das fortalezas e das armadas os terceiros, os
soldados os derradeiros? Só isto era, evidentemente, logico; e, apesar
de todas as confusões, quem bem observa, descobre sempre que a historia
obedece á logica. Ninguem distinguia bem, na era de 500, entre a pessoa
individual do rei e a pessoa abstracta ou symbolica do monarcha. Não se
separavam Rei e Estado; e só com esta perspicacia moderna poderia
convencer-se o rude soldado da India de que o commercio, bom para o rei,
era mau para elle; de que uma virtude podia ser um vicio, por mudarem as
condições. Além d'isto, os portuguezes lançavam-se, famintos, ao
banquete do Oriente, como seculos antes os povos do norte, ao banquete
da Gallia, da India, da Hespanha[91]. Ninguem seria capaz
de lhes arrancar dos dentes essas carnes palpitantes, que devoravam com
ancia; e eram inevitaveis as consequencias funestas, que D. Francisco
d'Almeida previa sabiamente.
Fleugmatico e pontual no cumprimento dos seus deveres duplos de capitão
e caixeiro, o vice-rei, ao mesmo tempo que expunha para Lisboa os seus
planos de governo, mandava os seus relatorios commerciaes, como um
correspondente ao seu patrão de Genova ou de Veneza. O vice-rei estudára
como geographo o Oriente; e para fundamentar o seu plano de imperio
maritimo dizia, com Barros, que a India «tem entradas e saídas de que
seu commercio vive, e que são como o corpo animado, que, se lhe tiram a
entrada e saída das cousas que o sustentam, não tem mais vida.» O
principal estado consiste na navegação, escrevia o vice-rei; só com ella
se governará no mar Vermelho e no golpho persico, essas duas correntes
da exportação da India; só com ella na peninsula de Malaka, que é a
transição da India para o extremo Oriente; só com ella manteremos o
privilegio da passagem do cabo da Boa-Esperança, caminho que descobrimos
para a Europa. Albuquerque em Hormuz, em Goa, em Malaka, assentou na
terra firme os limites do imperio que para o seu antecessor devia vogar
fluctuante sobre as ondas.
Estadista e geographo, D. Francisco d'Almeida era ao mesmo tempo um
mercador cuidadoso e até habil. Dava ao rei minuciosas informações dos
generos, preços e pezos. «E o lacre que V. A. diz lhe mande, será
maravilha haver-se, porque estas náus (portadoras de cartas) partem
cedo, e as náus que o trazem do Pegú e Martamão (Martaban) veem tarde.
Espero por uma boa somma d'elle, porque o tenho mandado trazer... E assi
V. A. me manda que a pimenta vá limpa e secca, e que o pezo se faça com
nossas balanças e pezos... e dá-se tal aviamento que, com duas balanças,
té vespora pesaram mil quintaes. Se os navios não chegassem tão
avariados, em vinte dias carregariam e partiriam. O baar de Cochim
(Katchi) tem tres quintaes e trinta arrateis de pezo velho, e custa o
quintal mil e quinhentos réis e meio.--Mandei noticiar com pregões que
todos trouxessem pimenta, e que logo se lhes pagaria á vista: é o meio
de bater os mouros, que são regatões e compram fiado. Acodem os gentios
com pimenta, e levam o cobre muito alegres.--Quanto á pimenta e drogas
que vão ao Levante, são de Malaca, Sumatra e Diu, onde nasce muita
pimenta longa e redonda, e muito bem sei por onde passa e em que tempo:
falta-me o principal.--O aljofar e perolas que me manda que lhe envie
não os posso haver, que os ha em Ceylão e Carle (?); os sinabafos,
porcellanas e mais cousas de jaez são de mais longe. As escravas que
quer, tomam-se depressa: que as gentias d'esta terra são pretas e
mancebas do mundo, como chegam a dez annos.--Tem cobre aqui para cinco
annos, vermelhão sem numero, chumbo e azougue, pannos de lan a
apodrecer, escarlatas, espelhos, oculos, chapéus, e sellas ginetas, que
é mui certa mercadoria para cá.» E continúa assim, misturando toda a
especie de mercadoria, desde as escravas mancebas do mundo, até ás
perolas e aljofar.--Porque não manda S. A. papel? Seria um excellente
negocio.»
Eis ahi o motivo intimo, o principio fundamental, o cuidado superior do
rei e dos seus governadores na India.[92] D. Manuel perdoava tudo, os
crimes e os roubos, as carnificinas e as brutalidades, os incendios e as
piratarias, com tanto que lhe mandassem o que elle sobretudo
ambicionava: curiosidades, primores e riquezas para encher os seus paços
de Lisboa, e deslumbrar o papa em Roma com a sua magnifica embaixada.
«Manda pimenta e deita-te a dormir», dizia mais tarde, da côrte para a
India, Tristão da Cunha, ao filho Nuno, governador. O saque do
Oriente--este é o nome que melhor convém ao nosso dominio--ia ordenado
de Lisboa.
[82] V. _Quadro das instit. primit._, pp. 264-7.
[83] «Então mandou aos bateis que fossem roubar os pageres (barcos)
que eram dezeseis e as duas náos, em que todos acharam arroz e
muitas jarras de manteiga e muitos fardos de roupa. Então tudo
isto recolheram aos navios e a gente toda das náos grandes, e
mandou que recolhessem o arroz que quizessem, que tomaram quatro
pageres, que vasaram, que não quizeram mais. Então o Capitão-mór
mandou a toda a gente cortar as mãos e orelhas e narizes e tudo
isto metter em um pager, em o qual mandou metter o frade tambem
sem orelhas, nem narizes, nem mãos, que lhas mandou atar ao
pescoço com uma ola (folha, carta) para el-rey em que lhe dizia
que mandasse fazer caril para comer do que lhe levava o
seu _frade_.
E a todos os negros, assim justiçados, mandou atar os pés,
porque não tinham mãos para se desatarem, e porque se não
desatassem com os dentes com páos lhes mandou dar n'elles
que nas bocas lh'os metteram por dentro, e foram assim
carregados uns sobre os outros embrulhados no sangue que d'elles
corria e mandou sobre elles deitar esteiras e ola secca e lhe
mandou dar as vélas para terra com o fogo posto, que eram mais
de 800 mouros, e o pager do _frade_ com todas as mãos e orelhas
tambem á véla para terra sem fogo, com que foram logo ter a
terra, onde acudiu muita gente a apagar o fogo e tirar os que
acharam vivos com que fizeram seus grandes prantos.»
Gaspar Correia, _Lendas_, I, p. 302.
[84] «... em que no mar tomaram náos de Cambaya e Calecut que iam
para Meka, a que roubaram o melhor que acharam de que se
carregaram os navios e caravellas quanto poderam e mormente
roupas de muito preço e muitos mantimentos e mouros para dar
ás bombas, e não se occuparam em carregar os navios de pimenta
e drogas que levavam as náos de Calecut que a todas, umas e
outras, poseram fogo e queimaram com toda a gente sem a nenhum
darem vida, mas Vicente Sodré mandou que os Mouros que tinham
tomado para a bomba todos os tornaram com os outros e todos
forão mortos.» Gaspar Correia, _Lendas_, I, pp. 365-6.
[85] V. _Hist. da republica romana_, I, pp. 215-80.
[86] V. _Hist. da republica romana_, I, pp. 211 e segg.
[87] «O Viso rey estava assentado em uma janella que vinha sobre
a praya com o Capitão e com outros fidalgos, e vendo o geito
da caravella e o capitão d'ella d'arte que desembarcava, se
tirou da janella e se assentou dentro em uma cadeira e poz
o braço na cadeira e sobre a mão encostou a face direita e disse:
--Esta caravella me traz a nova que eu tenho no coração; pois
que as náos de Cochim vieram sem meu filho, é que elle é morto.
Ao que o Camacho entrou com grande tristeza no rosto, o qual
antes que fallasse, o Viso rey lhe fallou dizendo:
--Camacho, ainda que meu filho seja morto, porque não salvaste
esta fortaleza: pois não é do pae do morto? Que meu filho não
era mais que um só homem... Nem me fica outro.
O Camacho não lhe respondeu, mas poz os joelhos no chão e com
muitas lagrimas disse:
--Senhor, Nossa Senhora perdeu a seu bento filho posto na Cruz
entre dois ladrões, e vós perdestes o vosso filho pelejando com
os turcos do Soldão.
O Viso rey com o rosto muy seguro lhe disse:
--Ora vos ide a descançar e mandae á caravella que faça sua
costumada salva e eu mandarei na Egreja fazer signal pelo
defunto e acodirá gente e lhe dirão paternosters pela alma,
porque quem o frangão comeu hade comer o galo ou pagal-o.
Com o que se recolheu para uma ante-camara, onde assentado, o
Capitão e fidalgos moveram pratica de sustancias consolatorias
para abrandar tamanha dor como sentiam que o pae devia ter com
a morte de tal filho. Ao que o Viso rey lhes foi á mão, dizendo:
--Eu não me posso escusar da dor que a carne me dá, como pae,
de força da natureza, mas espero em Nosso Senhor que me ajudará
por sua misericordia, e com a ajuda de meus amigos ma dará
alegria n'esta dor que ora tenho, em que acabando a vida será
para mim o mór descanço. Vão-se Vossas Mercês embora, que as
palavras de conforto são das mulheres para suas amigas, quando
pranteam seus filhos mortos em acontecimentos como ora foi
d'este meu.
E lhes fazendo sua cortesia se recolheu á sua camara.»
Gaspar Correia, _Lendas_, I, 775.
[88] V. quadros das batalhas navaes dos antigos, _Hist. da republ.
romana_, I, pp. 193-8.
[89] «Não tém cestos de gavea (as caravelas) nem as vergas fazem
angulos rectos com os mastros, mas pendem obliquas d'uma alça
que é triangular, roça quasi pelas amuradas. As vergas que se
amuram aos costados do navio são pela parte de baixo grossas
como mastareus, e adelgaçam até ao cimo da vela. De vasos
d'esta feição se servem na guerra maritima os portuguezes,
pelo muito ligeiros que elles são, sendo-lhes mui maneiro
apontar á prôa ou á pôpa o conto d'estas vergas, e ainda a
meio costado do navio passalas da direita para a esquerda
segundo lhes faz feição, ferrar o panno ou disferillo das
vergas, a que o atam pelo cepo da entenna, com quem as velas
abrem a base do angulo: e qual lhes sopra o vento, tal lhe
apresentam o bojo da vela não tardios. Todo o vento lhe fas
geito, de modo que com vento de ilharga bolinam em direitura,
como se foram arrazadas em pôpa, e para ir o mesmo navio em
senso contrario não tem mais que mudar o velame, o que muy
prestes se prefaz.» Osorio, _Vida e feitos d'el-rey D. Manuel_
(tr. F. M. do Nascimento) I, p. 193.
[90] V. _Hist. da republ. romana_, I, pp. 292 e segg.
[91] V. _As raças humanas_, I, pag. 358 e segg. e _Hist. da
civilisação iberica_ (3.ª ed.), pag. 34 e segg.
[92] _V. Regime das riquezas_, p. 90 e segg.
* * * * *
II
Affonso de Albuquerque
«As cousas da India fazem grandes fumos!» costumava dizer o novo
governador. Mas que _fumos_ eram esses? Eram a vaidade e os erros de
tantos pigmeus que o gigante via formigar activamente, encelleirar, e,
depois de gordos e ricos, pavonearem-se na côrte, allegando serviços,
com a basofia de quem tudo sabia das cousas do Oriente. Fumos, com
effeito, eram todos esses para o governador, que aprendera nas suas
primeiras viagens, e agora levava já bem definido o seu plano. Levava
sem o saber os seus _fumos_ tambem: porque em fumo se havia de tornar o
imperio ephemero que construia na mente...
Quando em 1506 partira de Lisboa, o rei tinha-o mandado como subalterno,
na armada de Tristão da Cunha; mas o genio do guerreiro não se reprimia
com isso, nem estava decidido a esperar que o tempo lhe desse o mando
absoluto, para pôr em pratica o seu plano gigantesco. Elle sabia demais
que, no cháos da India, cada qual trabalhava por sua conta e risco; e
que, n'esse vasto campo de batalha, as manobras não obedeciam ao mando
de um general; iam ao acaso, segundo a audacia e o genio dos capitães.
De Lisboa a Zamgebar uma armada era um exercito; no mar da India o
exercito fraccionava-se em batalhões independentes, e cada capitão era
senhor de proseguir, conforme o seu plano, na vasta empreza de saquear o
Oriente. O plano de Albuquerque não era o de um saque, era o de um imperio.
A esquadra de Tristão da Cunha foi de caminho, como introducção,
arrasando, queimando e saqueando Juba (Oja) e Barava (Brava),[93]
na costa, acima de Zamgebar, dirigindo-se a Sokotra--essa
ilha que, junto á ponta extrema da Africa, pelo norte, o cabo de
Jar-Hafun (Guardafui), era a vedeta sobre a entrada do mar Vermelho, e a
estação onde os navios de corso ás náus de Meka se deviam abastecer e
refrescar. Os arabes defenderam a sua ilha em vão; e Cunha matou-os
todos, sem ficar um só, e construiu a fortaleza, deixando-a guarnecida.
Feito isto, dirigiu-se á India, destacando Albuquerque (impaciente quasi
até á rebeldia, durante a delonga da construcção do forte) com seis
navios e quinhentos homens, para a caça das náus, no Estreito.
Afinal, o capitão commandava! Afinal dispunha de uma phalange sua! e
resolveu não perder um só dia. Logo que as velas de Tristão da Cunha
desappareceram, na sua viagem para a India, Albuquerque largou de
Sokotra para a costa da Arabia, ao longo da qual foi subindo
vagarosamente, assolando tudo. Formára o plano de começar por Hormuz as
suas conquistas, marcando primeiro o limite por norte e occidente, para
mais tarde ir ao oriente, pôr em Malaka o extremo do seu imperio.
Hormuz, Sofala e Malaka são tres quinas de um triangulo, cuja base mede
70 graus em longitude, cuja altura, até ao vertice de Hormuz, conta 50
em latitude.
Foi a 10 de agosto do anno de 507 que Affonso de Albuquerque largou de
Sokotra, em direcção do golpho Persico. A sua esquadrilha compunha-se de
seis navios apenas, e não contava mais de quinhentos homens; mas a
poderosa unidade que o mando do atrevido capitão imprimia, a confiança
que todos tinham no seu genio e na sua sabedoria, e tambem nos mosquetes
e artilharia das náus, tornavam poderosa como um ariête esta pequena
divisão. Para nos servirmos da expressão de Francisco d'Almeida,
tratava-se apenas de combater _com bestas_; e não havia ainda que temer
em Hormuz a artilharia dos rumes, nem os bombardeiros venezianos. A
novidade de um engenho de guerra e a audacia de um guerreiro á antiga,
iam levar a cabo uma empreza, de facto espantosa, como as de Alexandre
ou de Cyro.
Seguindo os exemplos d'esses famosos, cuja sombra Albuquerque tinha na
mente, punha em pratica os antigos meios orientaes. Avançava no meio de
um côro de afflições e mortes, precedido por uma columna de incendios,
para que, ao chegar, a vanguarda do terror precipitasse os animos na
abjecção. Assim ia ao longo da costa da Arabia assolando e devastando
todos os logares vassallos do suzerano de Hormuz. Primeiro arrazou
Kalhât (Calayate) «que é feito de casas de pedra, terradas e muitas
cobertas de palha, casas espalhadas e mal armadas e fóra do logar á mão
direita um palmar de palmeiras de tamaras, onde estavam uns poços de
agua de que bebiam. O logar assenta ao longo d'agua, e por detrás ha
grandes serranias de pedra viva, e no mar alguns zambucos e náus que vem
aqui carregar cavallos e tamaras e peixe salgado.» (G. C., _Lendas_).
Em Karayât (Curiate), que lhe resistiu, cortou as orelhas e o nariz a
todos os prisioneiros, soltando-os para irem, lavados em sangue e
mutilados, annunciar por toda a parte a fama do seu poder. Em
Khor-Fakhan (Orfacate) reduziu tudo a cinzas; e como em Karayât, mutilou
todos os prisioneiros. Entre elles, porém, estava um velho letrado
persa, de longas barbas brancas, que vivia de admirar Alexandre, cujo
livro possuia. O velho applaudia o portuguez, commentando o livro com as
façanhas do novo heroe; e applaudia-se a si por ter ainda em vida
assistido á resurreição do filho de Olympias. Acclamava o portuguez, ou
o grego, confundindo a realidade com a historia; e de joelhos,
adorando-o, deu o seu livro a Albuquerque. O novo Alexandre perdoou-lhe.