Em toda a volta e prolongando-se na cauda da procissão, charangas de

musicos atroavam o ar com os seus tambores, com os tam-tams de prata e

de ouro, suspensos por cordeis em bambus altos, com as trombetas

enormes, umas rectas, outras curvas, levantadas para o ar, e que davam

aos musicos o aspecto de elephantes com trombas douradas, cujos

pavilhões se viam cravejados de rubis e esmeraldas. Vinha uma grande

trompa de ouro levada por dois homens a cavallo! Os musicos, negros, iam

nús, com manilhas nos braços e nas pernas, e á cinta um panno cobrindo

as vergonhas. Nús iam os nayres e mais tropas do rajah, esgrimindo aos

saltos em pyrrhicas singulares, parecendo atacados de furia, com as suas

armas variadas: alfanges curvos para os golpes de cutilada, espadas

largas e ponteagudas para as estocadas, espadas triangulares com o

vertice nos copos e na ponta a base espalmada, arcos e molhos de frechas

de bambu delgados, lanças com anneis tilintantes e guizos, correndo,

saltando e gritando em brados: «Cucuya!» como na hora das batalhas. Mais

ao largo, o povo mudo, n'uma impassibilidade de orientaes, olhava.

A recepção do embaixador fez-se no _çarame_ do rajah, á beira-mar,

pavilhão de fórma oitavada erguido sobre esteios, todo rendado de

varandas e lavores, marchetado de marfim, chapeado de prata e ouro em

folhas, com pinaculos e corucheos que se desenhavam levemente no fundo

azul do ceu--tão azul como o do mar onde fundeava a esquadra de Pedro

Alvares Cabral. Na longa praia apinhavam-se as choças dos pescadores e

galeotes e por entre ellas a multidão negra, espantada. Para o interior

avistava-se a cidade, com os palacios e jardins do rei, dos nobres e dos

ricos, docemente abrigados contra o sol inclemente pela sombra dos

palmares e dos bosques de arvores aromaticas. No meio de um turbilhão de

gritos de guerra, de sons de trombetas, o cortejo encaminhou-se para o

palacio do rajah.

Ahi o Çamorim estava sentado sobre o véllo preto, insignia da realeza,

no seu throno de prata com braços de ouro e as espaldas cravejadas de

rubis, diamantes e esmeraldas, no meio da sua côrte, recostado em macias

almofadas de seda, sobre fôfos tapetes da Persia, somnolento e immovel.

Negro, nú, um véo de linho branco descia-lhe em pregas desde o umbigo

até aos joelhos, com a ponta caída e n'ella enfiados anneis de ouro e

rubis. Da extremidade pendia uma perola enorme. Os dedos, braços,

estavam cobertos de anneis e manilhas. Das orelhas caíam arrecadas de

ouro cravejadas: á cintura trazia um cinto de ouro. Ao pescoço collares

roliços, de ouro tambem; e duas voltas de um fio de perolas, grandes

como avellans, que desciam até ao umbigo, suspendiam um enorme coração

de ouro encastoando a mais bella, a maior esmeralda. Nos cabellos

compridos e apanhados em nó no alto da cabeça havia perolas e pingentes,

e a corôa era um deslumbramento. O thesouro inteiro de Kalikodu saíra á

luz. Ao lado do rajah, em pé, viam-se os pagens nús com pannos de

purpura, apresentando as espadas e adagas de copos de ouro cravejados, e

junto ao soberano o da copa de ouro com a toalha a tiracollo, e o da

boceta cravejada de brilhantes, com o sal delido em agua de rosas, onde

molhava as folhas de betele, antes de as dar ao brahmane-mór, que detraz

das espaldas do throno as passava religiosamente ao rajah, para mascar.

Outros pagens tinham as toalhas, perfumadas de almiscar, com que nas

occasiões devidas esfregavam os braços e as pernas núas do soberano

reluzentes de manilhas cravejadas de rubis. Em torno havia castellos de

alfaias: vasos e urnas de bronze, de prata, de ouro, e os lampadarios de

metal amarello sempre accesos, segundo os ritos ordenavam. Os escrivães,

de pé, tinham debaixo do braço as longas folhas de palmeira, seccas,

onde se registravam as leis e tratados, em sulcos abertos pelos

estyletes de ferro, que balouçavam entre os dedos. Em frente de Pedro

Alvares Cabral, que, sentado, lia a carta de D. Manoel em arabigo,

estava a credencia com os presentes que trazia: uma taça e duas massas

de prata, quatro almofadas de brocado e dois pannos de Arraz, de um

desenho primoroso. A côrte, de pé, escutava em torno. Mais longe

agrupavam-se as mulheres do rajah, untadas de sandalo, e núas da cintura

para cima, com as cabeças coroadas de flôres, e collares de contas de

ouro, e pedraria, manilhas grossas nas pernas, braceletes, e anneis

fulgurantes. O rajah tinha mais de mil, entre amantes e varredeiras,

escravas e embostadoras. Para além das columnatas de alabastro, nos

pateos inundados de sol, viam-se os elephantes submissos, com os seus

collares de campainhas e guizos, cobertos por xaireis de seda recamada

de ouro; viam-se os pallios e leques do cortejo do soberano; os truões e

os fakires, rebolando-se no chão, desgrenhados, a uivar gritos. Depois

formavam alas, ou esgrimiam com tregeitos e cutiladas, os nayres,

bucellarios do rajah, casta singular e polyandra de quem disse o poeta:

«geraes são as mulheres porém sómente para os da geração de seus

maridos.»[82] Mas o que sobretudo enchia de espanto e cubiça os

portuguezes, envergonhados da sua pobreza, eram os rios luminosos da

pedraria que, destacando-se do fundo acobreado das pelles indigenas, os

cegavam: «As chammas que d'elles saíam impediam a vista!» Sobre o ouro

de Sofala, eram os rubis do Pegú, os diamantes do Dekkan e de Narsinga,

as saphiras de Simhala (Ceylão) e os seus topazios e turquezas,

jacinthos e amethistas. Eram as bellas esmeraldas de Babylonia!

De parte a parte, comtudo, passada a recepção solemne, não se entendiam

bem; e os escrivães em balde mostravam as longas folhas de palmeira

escriptas, agitando os estyletes de ferro, a indicar as passagens das

leis que julgavam oppôr-se ao que pensavam serem os pedidos dos

portuguezes. Estes, em tregeitos, esforçavam-se por lhes fazer perceber

que queriam pôr alli feitorias, para trazerem por mar, para a Europa, as

preciosidades da India; e não cessavam de affirmar quante el-rey de

Portugal era poderoso e forte. Apesar de não ter tantos ouros nem

pedrarias tinha o bronze das suas peças e o ferro das suas granadas!

accrescentavam com decidida importancia. Os escrivães iam

comprehendendo, desconfiados: e os portuguezes desconfiavam tambem dos

sorrisos do rajah. Apesar d'isto, porém, foi concedido o que pediam; e

Cabral fundou a primeira feitoria portugueza na India, em Kalikodu.

Logo os mouros vieram reclamar contra os intrusos que os despojavam: e

favorecidos pelo indigena, caíram sobre a feitoria, trucidando os

portuguezes que lá havia: cincoenta ao todo. Começava a historia da

India. Seguiram-se logo as terriveis represalias do almirante. Tomou dez

náus de mercadores arabes, passou á espada mais de 500 homens

tripulantes, e, bombardeando a cidade, poz-lhe fogo. O incendio de

Kalikodu, em 16 de dezembro do anno 1500, era a funebre aurora da

historia oriental. Se as pedrarias tinham cegado os olhos dos

portuguezes, agora as chammas cegavam os olhos afflictos do rajah,

n'essa noute de cruel memoria.

Incendiada Kalikodu, o almirante foi com a esquadra entrar em Katchi

(Cochim) um pouco ao sul, na mesma costa de Malabar, mas já para além

dos dominios do rajah perfido de Kalikodu. O terror da recente façanha

abriu-lhe os braços do pequeno soberano de Katchi; e fundou-se ahi, em

boa paz e amizade, uma feitoria, tomando o almirante, entretanto,

refens, para segurança. Triumphára; o brahmane rajah de Katchi,

revoltára-se abertamente contra o Çamorim seu suzerano. No meiado de

janeiro (1501) partiu Cabral para Kananor: ahi carregou as suas náus de

pimenta e canella, e regressou ao reino. Dos treze navios com que

partira um anno antes, apenas tres o acompanhavam: cinco, desgarrados,

voltaram por diversas vias, e outros cinco foram tragados pelo Mar

Tenebroso. Esse inimigo terrivel, embora vencido, não estava domado, e a

primeira expedição da India, este primeiro acto da tragedia de mais de

um seculo, esboçava já todos os elementos da acção: assassinatos e

incendios, morticinios e naufragios; a espada e a pimenta; as armas do

guerreiro em uma das mãos, as balanças do mercador na outra; uma

Carthago moderna--e, no fundo, a voragem aberta do mar, prompto a

devorar homens, navios e riquezas; a fonte perenne do vicio, entornando

caudaes de torpezas!

* * * * *

Da curta historia anterior da India resultavam dois factos: a inimisade

perfida do rajah de Kalikodu, e a feitoria de Katchi. Castigar

terrivelmente o primeiro e consolidar, fortificando-a, a ultima, foi o

principal motivo da segunda armada, que em 1502 (fevereiro) partiu de

Lisboa para o Oriente, sob o commando de Vasco da Gama, o capitão

desapiedado, o fidalgo offendido nos brios pelo miseravel _Çamorim_.

A historia da viagem é um horror; e a desforra do capitão uma prova

d'essa frieza sanguinaria, impassivel e cruel, que effectivamente existe

no temperamento, quasi africano, do portuguez. Obliterada na sujeição ou

na paz, rebentou sempre com o dominio e com a victoria, na guerra. Se

taes sentimentos, vivos na alma do Gama, inspiram os seus actos, a sua

campanha não obedece a um plano, nem no seu rude espirito cabem as

largas vistas do estadista. Se algumas levava, reduziam-se a espantar a

India com a crueldade das suas façanhas, e a dominal-a com o terror dos

seus morticinios. Grande sobre as ondas, em lucta com os temporaes, é a

imagem da nação, cuja grandeza está na coragem e na teima com que soube

vencer o Mar Tenebroso. Um terramoto agitou o mar da India quando o Gama

pela segunda vez o trilhava; e o almirante, imagem da bravura épica do

povo portuguez, acreditou e disse que até as proprias ondas tremiam com

medo nosso--com medo d'elle!

Navegando porém no mar das Indias, com toda a artilheria carregada de

metralha, para arrasar Kalikodu, encontra o Gama uma náu de mercadores

arabes que ia para Meka ou voltava, nas romarias constantes á santa

Kaaba. Além da tripulação, o navio trazia duzentos e quarenta homens

passageiros, com suas mulheres e filhos. Era isto no dia 1 de outubro de

1502, «de que me lembrarei toda a minha vida!» escreve o piloto ainda

horrorisado, ao recordar como a náu foi cobardemente incendiada, com

todos os que continha, e que morreram desesperados no fogo ou no mar. Ia

a bordo um flamengo, que assim refere a occorrencia: «Tomámos uma náu de

Meka, onde iam a bordo 300 passageiros, entre elles mulheres e creanças;

e depois do sacarmos mais de 12:000 ducados de dinheiro e pelo menos

10:000 de fazenda, fizemol-a saltar com os passageiros que continha, por

meio de polvora, no 1.º de outubro.» Satisfeito de si, o capitão rumou

para Kalikodu. Mandou intimar ao rajah a expulsão de todos os mouros,

que eram cinco mil familias, das mais ricas da cidade: dizendo-lhe que

qualquer creado d'el-rey D. Manuel valia mais do que elle, _Çamorim_; e

que seu amo tinha poder para fazer de cada palmeira um rei!--Como era de

vêr, o rajah recusou; e o capitão que, ao fundear, apresára um numero

consideravel de mercadores no porto, mandou cortar-lhes as orelhas e as

mãos, e amontoados n'um barco, foram com a maré varar na praia, levando

a resposta do Gama á recusa do afflicto principe.[83] Começou logo o

bombardeio (2 de novembro). A cidade ardia outra vez; e á população em

choros, respondiam as risadas ferozmente cynicas dos marinheiros,

abrigados detraz das amuradas dos navios, junto ás peças que vomitavam

fogo. Era uma inepcia, uma barbaridade e uma covardia; porque as curtas

lanças e as settas dos indigenas não podiam medir-se com as granadas,

despedidas de longe, de bordo das náus. O Gama, cada vez mais satisfeito

de si, foi-se a visitar o porto amigo de Katchi; e decidiu regressar ao

reino por Quilua, d'onde trouxe o ouro com que o rei D. Manuel fez uma

custodia para o seu templo dos Jeronymos. Vinha contente da brava

desforra que tomára: o _Çamorim_ estava punido!

Deixára o Gama na India uma parte da sua armada sob o commando de

Vicente Sodré, personagem tão eminentemente celebre como o proprio

almirante, cujo tio era. Fidalgo, este amava as façanhas brutaes e

estrondosas; o outro queria mais á pirataria e ao roubo. Com effeito,

assim que o Gama partiu da costa do Malabar, o de Kalikodu, invocando

porventura direitos de suzerano sobre o visinho de Katchi, exigiu d'elle

a expulsão dos portuguezes da feitoria. Mas os ataques repetidos ao

poderoso rajah do Canará ensoberbeciam os seus vassallos, e fomentavam a

decomposição do systema politico de Hindustan. O de Katchi resistiu,

implorando o auxilio do Sodré, que pouco se lhe dava da feitoria, e a

abandonou para ir ao corso das náus de Meka: era trabalho de mais

proveito e menor risco piratear de parceria com a corôa portugueza nas

costas de Adal e da Arabia, á embocadura do mar Vermelho.[84]

O producto das náus de Meka pertencia, metade ao rei de

Portugal, metade ás tripulações: cabendo aos soldados uma parte, aos

marinheiros duas, outras duas aos bombardeiros, quatro aos pilotos e

outro tanto ao mestre. Pilhavam todos, de braço dado com a Corôa.

Vicente Sodré andava n'isto, ao mesmo tempo que Ruy Lourenço, por sua

conta e risco, varria a costa de Zamgebar, caçava navios e cobrava

tributos aos sultões.

O dominio portuguez adquiria logo de começo o caracter duplo que jámais

perdeu, apesar de todas as tentativas posteriores de regularisação e de

ordem. Era no mar uma anarchia de roubos, na terra uma serie de

depredações sanguinarias. Vasco da Gama ensinára o modo de imperar com o

fogo e o sangue; Sodré indicava o modo de ceifar no mar, pela abordagem,

as náus de Meka. A pirataria e o saque foram os dois fundamentos do

dominio portuguez, cujo nervo eram os canhões, cuja alma era a Pimenta.

Na artilheria, effectivamente, estava o segredo do poder dos invasores

da India. Ao tempo em que o Gama voltava da sua segunda viagem, partia

de Lisboa uma terceira esquadra (1503, abril) com Affonso de Albuquerque

e Duarte Pacheco a bordo. Foram a Katchi acudir ao rajah, na sua guerra

com o de Kalikodu, e construiram a primeira fortaleza na India.

Albuquerque voltou ao reino; Pacheco ficou em Katchi com as tropas e

navios preparados para o ataque. O heroe--porque este bateu-se como uma

féra, no seu covil de Kambalaan, nobre, desinteressada e

bravamente--desde logo disse que _toda a festa havia de ser de

artilheria_. De que serviam com effeito as armas brancas e de arremeço,

principal equipamento dos indigenas, que mal sabiam usar dos mosquetes e

bombardas, perante o vomitar distante da metralha? Isto explica a

possibilidade da resistencia dos setenta homens de Pacheco, brandamente

auxiliados pelos naturaes, contra os cincoenta mil que se dão ao

exercito do Samudri-rajah de Kalikodu. As surriadas da mosquetaria

auxiliavam decerto, mas a defeza decisiva consistia nas ondas de

metralha, que n'um instante varriam as jangadas cobertas de gente que

vinham por mar, e as columnas cerradas dos nayres armados de settas e

lanças investindo por terra. Mas nem por si só a artilheria seria capaz

de resistir á onda massiça das columnas inimigas, se a coragem, a

rapidez fulminante das marchas, a ubiquidade--póde dizer-se assim--do

primeiro heroe soldado do Oriente não animasse os poderosos meios de

defeza. Quatro mezes durou o assedio de Katchi, que terminou pela

derrota do Samudri-rajah.

A esquadra de Lopo Soares de Albergaria trouxe para o reino (1505)

Duarte Pacheco: um homem simples que, por voltar carregado de feridas,

mas leve de dinheiro e diamantes, foi parar á capitania de S. Jorge da

Mina, para de lá vir em ferros por _capitulos_ que d'elle deram; para

jazer no carcere por muito tempo, e acabar esquecido e pobre. A sorte

d'este heroe, diz Goes, «foi de calidade que se pode d'elle tirar

exemplo para os homens se guardarem dos revezes dos reis e principes e

da pouca lembrança que muitas vezes tem d'aquelles a que são em

obrigação.» Pacheco voltou, pois, do Oriente, e na India ficou, por

capitão do mar, Telles Barreto com a missão de _correr as náus de Meca_.

A armada trazia para o reino, a bordo, Pacheco--um infeliz!--e uma carga

abundante de especiarias e cousas ricas. A côrte, o rei, em Lisboa,

quizeram muito mais ás segundas, do que ao primeiro.

Entretanto a este devia D. Manuel a consolidação do seu imperio

oriental, incipiente ainda. Pacheco demonstrára aos naturaes e aos

arabes que os portuguezes não eram apenas piratas; e podiam fazer mais

do que bombardear impunemente uma cidade desarmada, ou tomar náus de

indefesos mercadores e romeiros. A façanha de Katchi fôra o baptismo de

sangue do novo imperio; e o baluarte, de pé, atestava a força dos novos

dominadores.

Mas já do principio, tambem, surgia a ultima das pragas da India: a

inveja, a sizania, os odios, a maledicencia, com que, uns aos outros, os

homens do ultramar se abocanhavam na côrte; e a inepcia do governo do

rei, incapaz de pesar o valor das palavras, de medir o alcance das

accusações, e de ser justo e sabio. A lisonja reinava, e sobre ella o

favoritismo.

Cinco annos tinham decorrido depois da viagem de Cabral; havia já uma

fortaleza em Katchi; estava batido o de Kalikodu; os navios portuguezes

pirateavam em liberdade no mar da India; e numerosas náus de Meka iam

sendo apresadas. Esboçava-se o futuro imperio, anarchicamente, mas já

por fórma tão decisiva, que era mistér organisal-o, dar-lhe uma lei e

uma direcção.

* * * * *

D. Francisco de Almeida foi o homem escolhido para governador da India,

constituida em vice-reino. Das tres successivas phisionomias que o

imperio portuguez no Oriente apresenta, é elle quem lhe imprime a

primeira; dos tres vice-reis mais notaveis, é elle o primeiro tambem.

Sem o heroismo antigo de Albuquerque, um Annibal;[85] sem a

sympathica pureza ingenua de um Castro, imitador fiel dos typos de

Plutarcho; Francisco de Almeida, valente como soldado, habil como

almirante, é sobretudo um estadista.

Pondo de parte o merecimento absoluto d'essa politica commercial,

fecundo systema de explorar uma região inteira, fielmente executado mais

tarde e com tamanho exito pelos hollandezes, o facto é que, para

conseguir o fim desejado de roubar aos arabes o imperio, e a venezianos

e arabes o commercio do Oriente, a politica de Francisco de Almeida, sem

grandeza, é lucida, perspicaz e forte. O governo da India formou tres

grandes homens: Castro, que se póde dizer um santo; Albuquerque, a quem

melhor cabe o nome de heroe: Almeida, que é um sabio administrador, um

feitor intelligente.

No seu caminho para a India, o primeiro viso-rei foi ajustar as contas

antigas com o sultão de Mombas, e arrazou-lhe a cidade (1505, agosto

14.) Levava tambem ordens para construir fortalezas em Quilua, Kananor,

Anjediva, além da de Katchi, que seria augmentada e reparada, depois dos

damnos soffridos no anno anterior. Não iam então as ambições do governo,

no reino, mais além d'esse pedaço da costa oriental da Africa, com as

estações fronteiras na costa do Malabar. Entretanto no pensamento do

viso-rei, maduro pela observação local e pela prova de uma primeira

guerra maritima com que o impenitente rajah de Kalikodu o recebera,

formulava-se já todo o seu plano de dominio. Não duvidou expol-o a D.

Manuel na carta que lhe escreveu, e que é um dos documentos mais

importantes da historia portugueza no Oriente.

Toda a nossa força seja no mar, dizia; desistamos de nos apropriar da

terra. As tradições antigas de conquista, o imperio sobre reinos tão

distantes, não convém.[86] Destruamos estas gentes novas

(os arabes, afghans, ethiopes, turkomanos) e assentemos as velhas e

naturaes d'esta terra e costa: depois iremos mais longe. Com as nossas

esquadras teremos seguro o mar e protegidos os indigenas, em cujo nome

reinaremos de facto sobre a India; e se o que queremos são os productos

d'ella, o nosso imperio maritimo assegurará o monopolio portuguez,

contra o turco e o veneziano. Imponhamos pesados tributos, exageremos o

preço das licenças (_cartazes_) para as náus dos mouros navegarem nos

mares da India e isso as expulsará: as nossas armadas darão corso aos

contrabandos. Não é mal decerto que tenhamos algumas fortalezas ao longo

das costas, mas sómente para proteger as feitorias de um golpe de mão;

porque a verdadeira segurança d'ellas estará na amisade dos rajahs

indigenas, por nós collocados nos seus thronos, por nossas armadas

apoiados e defendidos. Substituamo-nos, pura e simplesmente, ao turco; e

abandonemos a idéa de conquistas, para não padecermos das molestias de

Alexandre. O que até agora se tem feito é uma anarchia e um esboço

apenas; um systema de matanças, de piratarias e desordens, a que é

mistér pôr cobro.--A primeira condição de um imperio seguro é um

pensamento definido, e tal era o do viso-rei.

As difficuldades appareciam-lhe tanto mais fortes, quanto «as guerras

passadas eram com bestas, agora as temos com venezianos e turcos do

Soldão». Com effeito, a antiga impunidade, de que os nossos gosavam á

sombra da artilheria, desapparecia, desde que o veneziano e o do Egypto,

vendo em perigo o seu poder no Oriente, tinham lançado ao mar Vermelho

uma esquadra poderosa, e tão bem artilhada como as nossas. A guerra

tomava um caracter novo; e os portuguezes já não se encontravam apenas a

braços com as armas brancas do indigena. Apparecera a polvora do lado

dos inimigos; e a esta grave e nova phase das cousas veiu juntar-se, no

animo do viso-rei, o resultado cruel da temeridade do filho, que em

Tchala (Chaul) morrera batido pela esquadra egypcia: a armada de

_Mirocem, capitão-mór do Soldão do Gram Cairo e de Babylonia_--como se

dizia no tempo.

Confirmando a doutrina com o exemplo, esporeado pelo desejo de vingar a

morte do filho,[87] e pela necessidade de destruir essa

armada que ameaçava matar á nascença o dominio portuguez na India.

... vem o pae com animo estupendo,

Trazendo furia e magoa por antolhos.

Descendo pelo Mar Vermelho, a esquadra egypcia viera deitar ferro em

Diu, na costa do Gujerât (Guzarate), impondo ao indio a obrigação de ser

defendido. Entre _mouros_ e portuguezes, que uns a outros disputavam a

presa do commercio do Oriente, os rajahs, perseguidos pela protecção de

ambos, não sabiam as mais das vezes por quem se decidir, incertos do

lado para onde a victoria final penderia. Os vencedores foram sempre os

fieis alliados de todos os fracos. Tal era a situação do indio de Diu.

Não teve remedio senão acompanhar os rumes, e aprisionar os portuguezes

da esquadra batida de Lourenço d'Almeida, guardando-os como penhor, e

base de argumentos e desculpas para com o viso-rei--caso este vencesse

com a nova armada em que vinha.

Effectivamente D. Francisco d'Almeida subia ao longo da costa, deixando

apoz si o rasto de cinzas e sangue, que por toda a parte annunciava a

passagem dos portuguezes. As faulhas do incendio de Deval (Dabul) e os

lamentos da população dispersa chegavam até á ria onde fundeavam as

esquadras do egypcio e do de Diu, já engrossadas com as trezentas fustas

que o de Kalikodu enviára tambem, para vêr se conseguia exterminar por

uma vez os incommodos visitantes.

Historia de Portugal: Tomo I · 第 15 / 21 段