portuguez, se o Preste-Joham continuava a ser um mytho, o facto é que
mais valiosos resultados se tinham obtido. A Covilhan cabe a honra de
ter marcado o itinerario da navegação da India, affirmando que pelo sul
da Africa se chegaria ao Oriente. Nas cartas que enviou do Cairo, dizia
que os navios que navegassem ao longo da costa da Guiné, chegariam,
proseguindo, ao extremo sul do continente africano: e que, aproando ahi
para leste, em direcção da ilha da Lua, por Sofala, se encontrariam no
caminho da India.
D'estas e das mais informações recebidas se compoz o programma da
atrevida expedição do anno de 1497, cujo destino marcado era desde logo
Kalikodu, ou Calecut, como cá lhe chamavam, e onde Covilhan estivera.
Vasco da Gama foi escolhido por D. Manuel (já a esse tempo D. João II
tinha tres annos de fallecido) para commandar a expedição. Era um homem
ousado mas prudente, e reunia ás qualidades militares as de marinheiro,
cousa então commum, e depois ainda. Succedeu o mesmo a Affonso
D'Albuquerque, a D. João de Castro, e a muitos outros; e a esta
circumstancia deve dar-se um merecido alcance. A separação das aptidões
não vinha embaraçar os planos; e havia uma unidade no mando, porque o
capitão era tambem o piloto.
O maior juizo e prudencia dirigiam os preparos da expedição. Pesavam-se
e debatiam-se todas as noticias do Covilhan, commentando-as com os
conhecimentos anteriores. Examinavam-se os roteiros e cartas; e
Bartholomeu Dias de viva voz contava tudo o que lhe succedera, os
embaraços com que havia a luctar, as difficuldades a vencer. Com a sua
larga experiencia dirigia a construcção dos navios, banindo os exageros
nas dimensões, recommendando a solidez dos cavernames. O descobridor do
Cabo devia acompanhar a expedição até S. Jorge da Mina, e ficar ahi no
_resgate_ do ouro. Eram quatro náus pequenas, para poderem entrar em
todos os portos, visitar todas as angras, passar os baixios, ao longo
das costas. A sua construcção ia aprimorada e forte, como jámais se
vira: madeiras escolhidas, sans, e de exagerada grossura, pregadura bem
atacada, demorado e cuidadoso calafeto. As attenções não eram menores
com o equipamento: levavam tres _esquipações_ de velas armadas e mais
apparelhos, cordoalha tres vezes dobrada, e mantimentos, armaria e
bombardas em abastança. Levavam seis padrões de pedra lioz com o brazão
portuguez e a esphera armillar, que o rei adoptara por emblema,
esculpidos. Um havia de ser collocado na bahia de S. Braz, outro na foz
do Zambeze, outro em Moçambique, outro em Melinde, outro em Calecut,
outro na ilha de Santa Maria. Iam dois capellães a bordo de cada navio;
iam linguas ou interpretes negros, cafres e arabes; iam dez condemnados
para qualquer sacrificio necessario, e finalmente iam cento e quarenta e
oito soldados. Tinham-se escolhido os melhores pilotos, e o rei não
consentia que se poupasse em cousa alguma. Vinha em pessoa examinar o
estaleiro, e demorava-se a conversar com os mestres, ouvindo as
observações de Bartholomeu, de Pedro Dias, e Vasco da Gama, que lhe
mostrava o novo astrolabio de Behaim, tosco triangulo de madeira, mas
muito efficaz. Pelo modelo tinham-se mandado fazer outros, mais
pequenos, de latão.
Tres dos navios levavam os nomes dos tres archanjos: _S. Gabriel_,
capitanea, de 120 toneis, _S. Miguel_ (antigamente _Berrio_) e _S.
Raphael_ de 100 toneis. O nome do quarto, de 200 toneis, desconhece-se.
No fim de junho estavam todos concluidos, promptos e fundeados no mar,
em frente da egreja de Restello, onde os capitães velaram a noute de 7
de julho. No dia seguinte, depois da missa, acompanhados pelo rei e por
todo o povo da cidade, seguiram em procissão para a praia, cantando, com
tochas nas mãos, e embarcaram.
Diz Camões que, n'este momento,
... hum velho d'aspeito venerando,
Que ficava nas praias entre a gente,
.....................................
C'hum saber só d'experiencias feito,
Taes palavras tirou do experto peito:
......................................
Oh maldito o primeiro que no mundo
Nas ondas vela poz em sêcco lenho!
No peito de muitos havia, com effeito, uma condemnação formal por essa
teima persistente dos monarchas em sacrificar dinheiro e gente á chimera
das navegações.[76] A prudencia de experiencias feita, ronceira e fria,
não acreditava no exito, depois de tantas tentativas falhadas. O
resultado havia de votar contra ella; mas as palavras do poeta
prophetisavam as consequencias funebres d'um imperio, que todos porém,
os audazes e os prudentes, acclamaram quando Vasco da Gama voltou.
Camões, assistindo já ao declinar do sol, pôde contar as fomes soffridas
no mar, os temporaes e os naufragios, as peregrinações nos reinos
adustos do terrivel Adamastor, e o collar de esqueletos brancos
estendidos ao longo dos areaes das duas Africas--um rosario de tragedias
funebres! Pôde tambem contar as ondas de protervia e crimes, d'esse mar
da India, que se estirou até á Europa para afogar Portugal em vasa.
* * * * *
Com sete dias de viagem, a 15 (julho), chegam ás Canarias, onde um
nevoeiro dispersa a pequena frota, que, entre 23 e 27, se reunia outra
vez em Cabo-Verde, para d'ahi partir em 3 de agosto. Tres mezes gastaram
para descer até Santa Helena (nov. 7), onde refrescaram, porque tinham
seguido ao largo, sem se internarem no golpho da Guiné. Desembarcaram
tambem para reconhecer a altura, com o astrolabio, porque a bordo não
lh'o consentiam os balanços dos navios; tiveram algumas escaramuças com
os indigenas, e partiram afinal no dia 16 de novembro. A 19 estavam á
vista do cabo Tormentoso ou da Boa-esperança, dois nomes que egualmente
justificou d'esta vez. Tres dias alli andaram, batidos pelos temporaes.
O vento e o mar eram tantos, que os navios mettiam as postiças debaixo
de agua, e difficilmente se diria se andavam sobre as ondas, ou de
envolta com ellas. No alto dos castellos, á pôpa, levavam as náus
retabulos pintados, com a imagem dos santos do seu nome; e quando o mar
lançava com estrepito os paineis, sobre o tendal, toda a tripulação das
náus empallidecia de susto. Era um triste prognostico, e parecia que o
favor divino os queria desamparar. Mares crueis e espantosos vinham pela
pôpa arrebatando os bateis, arremeçando-os contra os costados das náus,
avariando os lemes. Amainavam as velas, cortavam os tendaes, começavam a
alijar carga ao mar... Por fim o tempo abonançou: «Nosso Senhor seja
louvado, que nas maiores fortunas soccorre com a sua infinita
misericordia!»
Dobrado o cabo a 22, no dia 25 fundeavam na bahia de S. Braz, onde as
calmarias os forçaram a demorar-se até 7 do mez seguinte. Navegando uma
semana ao longo da costa austral d'Africa chegam a 15 aos ilheus-Chãos,
derradeiro termo da viagem de Bartholomeu Dias. Começavam agora a seguir
as instrucções do Covilhan, o piloto ausente pelas terras do
Preste-Joham, a quem demandavam. Queriam seguir ao longo da costa, mas
as correntes, a que haviam grande medo, lançavam-nos para o pélago do
sul, vasto e perdido. Os marinheiros revoltam-se inutilmente: Vasco da
Gama, como um destino, inexoravel e prudente na sua audacia, venceu as
revoltas e as correntes.
Saíam por fim do Mar Tenebroso, e só agora se podia considerar vencido o
temivel cabo. As tempestades e as correntes amansaram. De dia a calma e
o céu de azul puro: á noute, por duas ou tres vezes, no topo dos
mastros, brilhava a luz de S. Fr. Pedro Gonçalves, o Sant'Elmo de
Lisboa. Tudo eram promessas de bonança. Subiam aos mastros a vêr os
signaes do milagre, e traziam, com devoção, os pingos de cera verde que
o santo lá deixára. Ás vezes chegavam a brigar contra algum incredulo, e
mais de um d'esses pagou _por ello_. Os marinheiros recordavam-se
piamente do seu santo, que ficára em Lisboa, e de Xabregas, onde cada
anno o levavam em procissão, vestindo o melhor que tinham, pondo os seus
ouros, coroados de coentros e flores, com bailes, musicas, folias e
merendas, pelas hortas do arrabalde. O bom santo protegia-os: já se não
rebellavam, e alegres proseguiam, confiados tambem na pericia e valor do
capitão, que os domava com intrepidez.
A 10 de janeiro tomavam terra em Inhambane, communicando com os cafres:
a 22 tinham subido até Quilimane, onde veem visital-os a bordo
_fidalgos_, com toucas de seda lavradas na cabeça. Pela primeira vez
chegavam _á India_. Viam gentes diversas, e signaes d'essa civilização
distante, demandada com tanto ardor. Emergiam do mar d'Africa e da
obscura sombra do continente negro. Esses _fidalgos_, para quem olhavam,
porém, quasi com amor, como irmãos, seriam os seus mais crueis inimigos.
Ficam um mez em Quilimane, para reparar os navios e restaurar a saude,
porque o escrobuto começára a lavrar com força nas tripulações; e,
partidos, chegam em 2 de março a Moçambique. Os symptomas anteriores
augmentam: veem mais, muitos _fidalgos_: estão, decididamente, ás portas
da India! vão afinal chegar ao imperio do Preste!
O que observavam augmentava-lhes o desejo, avivando-lhes a curiosidade.
Tudo era novo para elles, mas tudo avigorava as esperanças de virem a
encher-se com o saque dessas cousas brilhantes, marfins e sedas, ouros e
pedras, que luziam nos toucados e vestidos dos _fidalgos_ de Moçambique.
Em volta da esquadrilha fundeada vogavam os navios da terra, sem coberta
nem pregaria: as taboas cosidas a couro, e velas de esteiras de
palma.[77] Os mouros vinham mercadejar com elles. O proprio
sultão em pessoa quiz cumprimentar Vasco da Gama, que o recebeu a bordo.
Pediu-lhe pilotos que o guiassem á India, á terra do Preste-Joham;
pediu-lhe informações ácerca do famigerado imperador. O mouro disse-lhe
que o Preste era um poderoso principe, com muitas cidades n'aquella
costa, grandes navios e muita copia de mercadores: foi, pelo menos, isso
o que Vasco da Gama percebeu, e taes novas encheram-no de alegria.
Mostrou-se depois o sultão perfido, e a esquadrilha, sem os pilotos, foi
seguindo, costeiramente até Mombas (8 de abril), onde um acaso a salvou
da traição que _os mouros_ lhe preparavam. Elles tinham descortinado já
perigosos concorrentes n'esses homens vindos por mar ás regiões que,
desde a Arabia, o Egypto e a Nubia, eram até ahi imperio seu e
indisputado. Salvo por um milagre, Vasco da Gama seguiu a Malinda (15),
onde o _sultão_ o acolheu bem; mas não confiando mais n'esses _fidalgos_
do Zamgebar, aproveitou de um mouro que se deixára ficar a bordo em
Moçambique, e que succedeu conhecer a rota para Kalikodu. Fizeram-se ao
mar, e em vinte e seis dias (24 de abril a 19 de maio) estavam na India.
Durára a viagem dez mezes e onze dias.
Foi então que o seu espanto chegou ao auge. Tudo o que já tinham visto
não dava uma idéa, nem distante, do que viam agora, desembarcados. O
esplendor e o fausto natural do Oriente enchiam-nos de admiração e
cubiça; e na sua ignorancia religiosa viam por toda a parte os christãos
do Preste. Os indigenas adoravam a Virgem Maria; e os nossos
prostravam-se tambem deante de Nossa Senhora na pessoa de Gauri, a deusa
branca, Sakti de Shiva, o destruidor. Esta confusão, augmentada ainda
por não se entenderem no que diziam, dava logar a scenas ingenuamente
comicas. Alguns, duvidosos, observavam que, se os idolos eram diabos, a
sua reza era só para Deus; e com esta reserva mental ficavam quietos na
consciencia. Para augmentar o espanto, veiu ter com elles um _mouro_ a
falar portuguez: «Boa ventura! boa ventura! muitos rubis! muitas
esmeraldas!»
E nada d'isto era um sonho, eram «sem mentir, puras verdades.» Os
indigenas abraçavam-nos, e os broncos alemtejanos, os beirões, os
marinheiros do Tejo, ingenuos e ignorantes, abraçavam-nos tambem, na
effusão de um instincto humano, como patricios. Dir-se-ia que se
conheciam de muito, e que pouco ou nada os distinguia: de Lisboa á India
era uma curta distancia, porque o sentimento não tem bitolas. Eram todos
christãos, tambem tinham reis! o mundo era um só, e o homem o mesmo em
toda a parte! A naturalidade ingenua com que se praticavam as maiores
cousas, é a grande prova da força heroica dos homens da Renascença.
Por esse tempo, na India--e com este nome designamos todas as costas e
ilhas incluidas entre os meridianos de Suês e de Tidor, e entre 20° de
latitude S. e 30° N., theatro das campanhas portuguezas--na India,
dizemos, raças estranhas impunham uma especie de dominio em tudo
similhante ao que foi depois o dos portuguezes: um monopolio
commercial-maritimo, e como consequencia d'elle, feitorias, colonias e
Estados. Os povos que nós iamos despojar d'esse dominio eram os arabes e
os ethiopes, os persas, os turkomanos e os afghans, que, descendo do mar
Vermelho e do mar da Arabia, confundidos na onda religiosa do islamismo,
tinham avassalado a peninsula do Indo ao Ganges, e a Africa oriental
desde Adal até Monomotapa. Estendendo-se para o extremo Oriente iam,
como nós fomos, até Kambodja e Tidor nas Molucas, atravez do Arakan e do
Pegu, da peninsula de Malaka e de Birma e Shan (Sião) no continente,
atravez de Sumatra e Borneo e pelo meio do archipelago de Sunda. A todas
essas gentes chamaram os portuguezes _mouros_,[78] expressão generica já
usada na Europa para designar os sectarios do Islam, e por isso tambem
adoptada agora que, tão longe e atravez de tantos mares, iamos
encontrar-nos de novo, frente a frente, com o _turco_, antagonista do
_christão_ em todo o mundo.
«Al diablo que te doy! Quien te trouxe acá?» assim um mouro de Tunis, em
Kalikodu, cumprimentava o portuguez; e como em Moçambique e em Mombas,
os _mouros_ (usaremos d'ora ávante d'esta expressão generica, já
explicada) induzem ou obrigam o Samudri-rajah (Çamorim), rei ou conde--a
India vivia n'um regime simili-feodal--de Kalikodu, a exterminar os
portuguezes. Kalikodu era o emporio commercial da costa do Malabar, e os
dominios do seu rajah formavam o chamado reino de Kanará.
Facil seria, sem duvida, convencer o principe de que Vasco da Gama era
um pirata, o seu rei uma burla; e sem o pensarem, decerto, os mouros de
Kalikodu definiam antecipadamente o dominio portuguez, que só veiu a
differençar-se d'uma pirataria commum, em ser uma rapina organisada por
um Estado politico. Convencido ou violentado, o rajah manda perseguir os
navegantes, que embarcam e se defendem (agosto 30.) Depois de uma
estação, de alguns mezes na ilha de Anjediva, sobre a costa, Vasco da
Gama decide voltar; e faz-se de vela para Portugal em 10 de julho de 98.
Um anno depois, no mesmo dia, chegava a Lisboa. Na viagem, separou-se da
frota Nicolau Coelho em Cabo Verde, e Vasco da Gama veiu pela Terceira,
sepultar ahi o irmão que morrera no mar.
O enthusiasmo foi grande em Lisboa, á chegada de Vasco da Gama: tambem
D. Manuel tinha as suas Indias, e Portugal o seu Colombo! E o
Preste-Joham, que noticias? E de Covilhan? Nada. O navegador conseguira
vencer o Cabo e achar a India, mas não conseguira decifrar o enigma, que
a este tempo já contava tres seculos de successivas indagações.
Pouco viriam essas a importar para a historia. O essencial era a
decifração do outro enigma, ainda maior--o do Mar Tenebroso. Pouco
faltava já; e em vinte annos mais, não haveria, na rotunda superficie do
globo, um canto de terra incognita, nem um palmo por explorar na vasta
amplidão dos mares. «Debaixo das bravas ondas, por saber os segredos da
terra e os mysterios e enganos do oceano», os portuguezes, com uma
curiosidade heroica, tomaram em suas mãos o futuro da Europa, e do
mundo. No anno seguinte ao da descoberta da India, Pedro Alvares Cabral,
que para lá fôra mandado com uma imponente esquadra, não resiste á
tentação da curiosidade. Descendo no Atlantico, em direcção de leste,
uma pergunta incessante o persegue: que haverá para o poente? Para esse
lado descobriu Colombo umas Indias no hemispherio norte: acaso haverá
mais Indias no hemispherio do sul? Amarou para oeste, a indagar, a
vêr... Mais uns mezes, na longa viagem do Oriente, que importavam? Com
effeito, descobriu o Brazil;[79] a terra de oeste vinha, desde o extremo
norte até ao extremo sul, estendendo-se ao longo, nos dois hemispherios.
Só então a America se pôde dizer inteiramente descoberta.
A noticia das novas terras encontradas impressionou pouco Lisboa; na
côrte ardia o desejo de descobrir o Preste, o encantado Preste-Joham; de
fazer com elle um bom tratado, para chamar a Portugal um pouco, ao
menos, das tantas cousas boas que Vasco da Gama vira por seus olhos, e,
contadas, enchiam de cubiça o espirito de toda a gente. Cabral fôra
mandado a isso, e não a descobrir terras: já eram demais as Cruzes, e os
nomes do repertorio escasseavam já para denominar ilhas e cabos, portos
e bahias, costas e continentes. Desejava-se outra cousa, ferviam outras
esperanças:
«Boa ventura! boa ventura! muitos rubis! muitas esmeraldas!»
* * * * *
Tomarem-no por um pirata enchera de colera Vasco da Gama. Além da
necessidade de mostrar ao Çamorim perfido o poder do rei de Portugal,
era indispensavel desaggravar os brios do fidalgo offendido. Não podia
ir d'esta vez, mas para outra seria a sua vingança.
Logo que Vasco da Gama chegou, decidiu-se, pois, enviar uma grande
armada á India; porque agora, sabido o caminho, não havia mais receios,
nem motivos, para reduzir o numero, nem a lotação dos navios. Pedro
Alvares Cabral fôra nomeado almirante da frota, que contava treze náus,
e levava mil e duzentos homens.
A construcção dos navios tinha progredido com a frequencia e extenção
das viagens. Naus e galés, embarcações de vela e remo, tinham-se
preparado melhor, augmentando em dimensões. No primeiro quartel do XVI
seculo, porém, quando a avidez commercial não pervertia ainda a
prudencia, a lotação ordinaria não excedia 400 toneladas.[80]
A náu navegava á vela, jogando dos costados a artilheria, no
convez ou sob a coberta. Á pôpa e prôa, nos castellos, luxuosamente
ornados de lavores e douraduras, assentavam tambem canhões; e nos cestos
de gavea havia pequenas colubrinas. De um a outro castello corria um
baileu ou varanda volante, d'onde, nos combates, atiravam os
mosqueteiros, e se passava á abordagem dos navios inimigos. Muitas náus
andavam munidas de rostos ou esporões de aço nas prôas, para a
investida. As galés, navios de remo, dividiam-se em _bastardas_ e
_subtis_: as primeiras de 27 bancos a tres remeiros e 7 peças grossas;
as segundas de 25 bancos e 5 peças apenas. A artilheria grossa jogava
sómente á prôa, nos costados: entre os remeiros, collocavam-se, porém,
umas peças menores, a que se chamava _berços_. Havia, além d'isto, as
_fustas_, galés pequenas de 16 ou 20 bancos de dois remos, com duas
peças grossas. As galés, comtudo, tambem velejavam: e para isso tinham
dois mastros, onde levavam latinos; as fustas um só. Havia, porém, galés
que, por se approximarem mais da armação das náus, se diziam
_bastardas_: armavam dois mastros, mas no do traquete tinham duas velas
redondas, e cestos de gavea, como as náus.
A esquadra de Pedro Alvares Cabral levantou ferro do Tejo no dia 9 de
março do anno de 1500. Os gritos da marinhagem, para alar a um tempo os
viradores nos cabrestantes, melopêa triste e funebre como o mar; o surdo
roçar das amarras nos escovens; o apito dos mestres, dirigindo as
manobras; as bandeiras multicolores soltas ao vento; e as velas meio
desdobradas nos mastros, formavam o vivo quadro da nação que tambem
partia, no anno de 500, já confessada e bem disposta, para essa longa
viagem de pouco mais de um seculo, cheia de escrobutos e naufragios, ao
cabo da qual a esperava um tumulo, vasto como é o mar, mudo como elle é
nas calmas funebres dos tropicos.
Não havia protestos agora, senão esperanças, cubiças, ambições. Não
partiam á aventura; partiam á conquista do que tinham descoberto, e
queriam trazer para Portugal, para casa. Ninguem duvidava do exito, e o
capitão levava cartas solemnes do rei para o Çamorim. Em troca d'ellas,
da sua alliança, dos presentes que lhe mandavam, viriam os rubis e as
esmeraldas, a pimenta e a canella, monopolisada pelo turco, inimigo de
Deus!
Já na praia começava a levantar-se a basilica, monumento ingenuo d'essa
religião do commercio, erguido a Jesus e á Pimenta--os dois deuses que
viviam no céu portuguez (ou carthaginez): dois deuses piamente adorados,
mas servidos ambos de um modo egualmente barbaro.
O almirante acaso pensava, já no Tejo, n'esse rumo de Oeste, o de
Colombo, que o levaria á America; e porventura acreditava pouco na
existencia do lendario Preste-Joham, por cuja causa tantas viagens se
tinham feito. Não o mandavam descobrir, mandavam-no conquistar; mas elle
queria tambem inscrever o seu nome na lista dos que, durante o seculo
anterior, tinham pouco a pouco rasgado as trevas do mar mysterioso. A
sua viagem, além de iniciar o dominio portuguez na India, teve, com
effeito, as duas consequencias desejadas. Varreu as duas lendas, a do
Preste e a do Mar Tenebroso: descobriu o Brazil, e veiu dizer a D.
Manuel que o supposto imperador do Oriente era um miseravel rei preto,
infiel, acantonado nas montanhas invias da Abyssinia.
Atraz de uma lenda, attrahido por uma voragem, Portugal descobrira os
continentes e ilhas do Atlantico e chegára á India. Por uma illusão,
consummára a realidade que espantava o mundo inteiro. O mundo é uma
miragem, e os homens sombras levadas pelos sabios ventos do destino...
Reconhecidas as terras, sulcados os mares, por occidente e por oriente,
faltava porém ainda reunir essas duas metades do mundo conhecido, e
dar-lhe a volta, para se saber que cabia todo, inteiro, nas mãos do
homem: eis ahi o valor da viagem de Magalhães, vinte annos mais tarde.
Não ha mais trevas no mar; consummou-se a grande conquista. Mas uma nova
empreza se desenha agora: devorar o descoberto, digerir o mundo.
Portugal inteiro embarca para a India na esquadra de Cabral[81].
[75] V. _Regime das riquezas_, p. 109.
[76] V. _Hist. da repub. romana_, p. I, XIX, _intr._
[77] V. _Regime das riquezas_, pp. 85-6.
[78] V. nas _Raças humanas_, a ethnographia do Oriente a
pp. 70-85, 90-105 e 122-41 do vol. I.
[79] V. no _Brazil e as colon. port._ p. 3 (2.ª ed.) a descoberta
das costas brazileiras.
[80] V. no _Brazil e as colonias port._ (2.ª ed.) a composição
typo de uma nau da India, a p. 34 _nota_.
[81] _Hist. da republ. romana_, I, pp. 217-8.
* * * * *
LIVRO QUARTO
A VIAGEM DA INDIA
Dês o primeiro dia que com a vista a experiencia propria me acabei
de desenganar do grande erro que até alli me trazia a fama das
cousas da India... me nasceu logo um desejo ardentissimo de fazer
por esta via um grande e extraordinario serviço.
RODRIGUES DA SILVEIRA, _Reformação da milicia e governo do Estado da
India oriental._
* * * * *
I
D. Francisco d'Almeida
Em 13 de Setembro do anno de 500 chegou Cabral a Kalikodu. Não ia, como
Vasco da Gama fôra--como descobridor; ia como embaixador, á frente de
uma poderosa armada, para não ser tomado por pirata, mas sim pelo
emissario, que era, do nobre monarcha portuguez, portador das suas
cartas e propostas de alliança para o rajah de Kalikodu. Como tal foi
effectivamente recebido, n'uma audiencia solemne. Os portuguezes,
vestindo as suas melhores roupas, as suas armas mais bellas e polidas,
pensavam impôr de ricos ao monarcha do Oriente; mas os representantes da
pobre e forte Europa iam ficar deslumbrados com as magnificencias da
India opulenta. O brilho das armaduras era offuscado pelo rutilar da
pedraria «cujas chammas impediam a vista». O rajah vinha em um palanquim
ou andor trazido aos hombros pelos nobres, recostado sobre almofadas de
seda, entre colchas lavradas de fio de ouro caíndo em pregas franjadas
com borlas cravejadas de pedras preciosas, e pannos de carbaso de linho
finissimo, cuja alvura sorria ao lado da vermelhidão sanguinea das sedas
e brocados. Corria a compasso o andor coberto por um pallio de seda
franjado de ouro, e dentro d'este duplo sacrario via-se o rajah negro
rutilante de pedras preciosas. Cegava olhal-o. Aos lados do pallio iam
pagens com leques de pennas de pavão agitando o ar, e á beira do
palanquim os que levavam as insignias da soberania: a espada e a adaga,
e estoque de ouro, a flor de liz symbolica, o gomil de agua, e
finalmente a copa onde o rei cuspia o betele, cujo mascar faz os dentes
côr de rosa e dá «muito bom bafo».