Este era effectivamente o caso em 1479. Dizia o principe que tempos

havia para usar de coruja, tempos para voar como falcão. Não traduzia,

porventura, com uma concisão mais eloquente, as palavras do

italiano?--«O principe deverá imitar bem os brutos (porque ha duas

maneiras de combater: com as leis e com a força; a primeira dos homens,

a segunda dos brutos) e saber empregar as artes da raposa e do leão;

pois o leão não se defende dos laços, nem a raposa dos lobos: é portanto

mistér ser raposa para conhecer as redes, e leão para assustar os

lobos.»--D. João II, menos classico ainda, recorria aos exemplos

venatorios da Edade-media; tempos havia para usar de coruja, tempos para

voar como falcão!

Os filhos de D. João I, abrindo as portas da nação á cultura da

Renascença, chamando sabios, viajando, formando bibliothecas, tinham

lançado á terra dura do velho Portugal as sementes italianas. Affonso V

rebentára do solo como um cardo antigo, rijo e bravo, cheio de espinhos.

Fôra um aborto, ou um anachronismo medieval. D. João II nascia

italianisado, com todos os vicios e virtudes da cultura da Renascença. A

sua côrte era um retrato das pequenas côrtes de Italia; e o principe

como um italiano, cheio de perfidias e ambições, de lucidez e de manha,

de instinctos sanguinarios e fortes decisões politicas.

Os tempos de coruja tinham acabado, porque não carecia mais de pactuar

com as tontices do pae; rei agora (1481), seria o falcão. Mas para ser

verdadeiramente rei, teria de vestir ainda muitas vezes o habito da ave

nocturna, até vêr por terra o poder d'essa fidalguia que os erros do pae

tinham ensoberbado. Isto, porém, não satisfazia ainda as suas largas

ambições. O _homem_, como Isabel de Castella o designava com espanto,

mirava mais longe. A possibilidade de vir a sentar-se, elle ou os seus

herdeiros, no throno de uma Hespanha unida, affagára-lhe o espirito em

moço, e chegou a esperar (antes de Toro) realisal-a. Depois, rechaçado,

mas não desesperado, fez de coruja em 1479; contando voar de falcão no

momento opportuno. Nem paravam ahi as suas ambições: lembrava-se do

fallecido infante D. Henrique, e dos vastos planos, abandonados, que

tinham fervido n'aquelle cerebro. A sua monarchia dilatava-se da

Hespanha á India: e com a Peninsula na Europa, com a Africa, a India, o

encantado reino do Preste-Joham, sonhou a monarchia de Philippe II...

* * * * *

N'uma só cousa o portuguez primava ao italiano: era sobrio, severo,

detestava o luxo--que prohibiu. A sua côrte apresentava o quer que é de

funebre e austero, sempre agradavel a portuguezes. A sua figura, tambem,

nada tinha de imponente, nem de graciosa. Os habitos de coruja davam-lhe

mais caracter do que os de falcão: ás duas aves, porém, pedia a côr que

punha em tudo, o negro. De maravilhoso engenho, subida agudeza, e

_mixtico pera todalas cousas_, de memoria viva e esperta, faltavam-lhe

porém os dotes exteriores. Não tinha elegancia, nem no corpo, nem no

dizer: arrastava as palavras, falava a custo e com uma voz fanhosa. Era

alvo, mas com umas veias de sangue que o faziam «com menencoria ser muy

temido». Inspirava medo sem infundir amor. Aos 37 annos já tinha cans na

barba o nos cabellos; só n'essa edade deixou de ser abstemio. A força

muscular, dote necessario aos principes dos bons tempos, tornava-o

celebre: cortava com um golpe de espada tres e quatro tochas de cera

reunidas. «Muy grande astucioso e acquiridor, sem deixar de ser inteiro

e dadivoso, era muy manhoso em todalas boas manhas que um principe deve

ter.» A natureza não o ajudava, decerto; e tambem, na sua educação de

principe, deixava de obedecer á regra de Machiavel: «Não é necessario

ser-se dotado de todas as qualidades, mas é indispensavel

affectal-as;--possuil-as e servir-se d'ellas póde chegar a ser perigoso:

fingil-as é sempre util;--seja-se fiel, clemente, humano, religioso e

integro; mas de modo que, senhor de si, se possa e saiba fazer todo o

contrario, quando a isso o caso obrigue.»--D. João não era, nem

clemente, nem humano, e não julgava necessario ao seu papel fingil-o:

isso fazia com que muitos o detestassem, o que era um mal: fazendo com

que, se a maior parte o temia, ninguem o amasse, o que se tornava peior

ainda. A perspicacia e authoridade não eram n'elle bastantes para que

soubesse envolvel-as n'uma simulada bonhomia, porque doçura ou

humanidade não as havia na sua alma. Não hesitava perante o assassinato,

á italiana, mas tinha a fraqueza portugueza de confessar como isso se

praticava. Lopo Vaz, a quem Affonso V fizera conde, levantou-se em Moura

defendendo o titulo revogado ou não confirmado, e o rei «por não fiar já

d'elle... determinou de o mandar matar... por certos cavalleiros que

manhosamente lá mandou e o mataram á traição, aos quaes o principe fez

boas mercês». Mas o cardeal D. Jorge da Costa, o _alpedrinha_, vendo-se

ameaçado, temeu e fugiu para Roma: o rei expozera-lhe um modo facil do

acabar com elle--mandal-o tomar por quatro moços de esporas, afogal-o em

um rio e dizer que caira e se afogára por desastre.

Assim que o pae morreu, D. João II convocou côrtes (1482) e mostrou quem

era. Mandou examinar as jurisdições dos donatarios da corôa,

prescrevendo que os corregedores entrassem nas terras de doação no

cumprimento dos mandados regios, abolindo o direito de asylo dos

criminosos usurpado por muitos terrenos não coutados; e ao mesmo tempo

que assim coarctava as regalias historicas da nobreza, punha cobro ás

invasões anarchicas dos fidalgos no fôro dos concelhos, prohibindo o

lançamento de _pedidos_, o intrometterem-se na jurisdição do crime e nas

eleições e officios municipaes. O rei, inspirado pelas novas idéas

ácerca da authoridade soberana, começava por investir com a nobreza:

seria o successor, D. Manoel, que, reformando os foraes, atrophiaria a

outra face do systema duplo de instituições, cujo equilibrio mais ou

menos estavel formára a vida politica da Edade-media[71].

Mas D. João II via-se tambem forçado a emendar os erros do pae, como o

segundo Affonso tivera tambem de fazer á morte de Sancho I. O moço rei

decidira formalmente revogar as doações do antecessor, reivindicar para

a corôa o que os fidalgos tinham pilhado ao pobre, gordo, Affonso V. De

todos esses fidalgos, o chefe era o poderoso duque de Bragança, cujos

dominios contavam cincoenta villas, cidades e castellos, além de

propriedades sem numero; cuja mesnada subia a 3:000 de cavallo e mais de

10:000 infantes; um rei no reino, do qual possuia, pelo menos, a terça

parte. Costumado a considerar o rei como egual, da linhagem de reis, e

herdeiro do famoso condestavel, o duque sincera e ingenuamente

acreditava na justiça da sua rebeldia. «Deservia muito grandemente o

rei, fazendo-lhe guerra calada,» e carteava-se com o conde de Athouguia,

seu tio, então em Castella, homem prudente, que buscava dissuadil-o,

respondendo-lhe em enygmas ao gosto da epocha: «Tal não deveis cuidar,

quanto mais commetter... quereis abrir uma fonte para matar vossa

sede... achareis a agua tão quente que vos hão de lá ficar as unhas...

_tradiderunt quos deligebam_.» Com effeito, era atraiçoado, e o rei

tinha os seus espiões por toda a parte. Um certo Figueiredo vinha a

escusas referir tudo a D. João II, que lhe respondia, com a sua voz

demorada, baixa e fanhosa: «Guarda-te o melhor que puderes, e depois te

farei mercê».--O espião ia e tornava, e quando, afinal, o duque foi

preso por surpresa e executado, o rei deu a mão a beijar ao Figueiredo:

«Até agora fiz que te não conhecia, d'ora avante olharei por ti. Pede o

que quizeres: ha tempos de coruja e tempos de falcão...»

O duque foi degollado publicamente no rocio de Evora (1483), depois de

um simulacro de processo. Effectivamente, em taes causas os processos

são apenas formulas. A força impera á solta nas demandas politicas, por

isso mesmo que ellas põem em questão os fundamentos organicos da

sociedade, e portanto a lei civil. O duque e o rei eram inimigos velhos;

e aos odios antigos vinham juntar-se agora as intenções, rebeldes em um,

tyrannicas no outro. Entretanto, o caracter desnaturado da politica dos

reis na Renascença levava D. João II a representar um papel repugnante,

dando ao vencido uma palma como que de martyr; ao passo que a

sobranceria do fidalgo, quasi-rei, lhe mantinha a dignidade altiva até

sobre o cadafalso. Recusa prestar-se a responder no tribunal, a tomar

parte na comedia que o indigna; e quando os carrascos, afflictos, lhe

vestem o derradeiro trajo, uma loba roçagante, capello e carapuça de dó,

com os pollegares atados por uma fita ao cinto, elle observa

serenamente: «Soffrerei tudo, e mais um baraço ao pescoço, se S. A.

mandar!»

A morte, tão digna, do duque de Bragança excitou ambições de vingança na

nobreza, e positivamente começou a tramar-se o assassinato do rei, que o

sabia. Os seus espiões andavam por toda a parte; e a politica dependia

das intrigas de alcova e dos serviços dos miseraveis. O rei usava de

todos os instrumentos, e o _sancta sanctis_ da razão-d'Estado absolvia-o

de todos os crimes. Havia um Tinoco, privado do bispo d'Evora, o qual

tinha por manceba uma irmã d'elle, e que por isso lhe queria muito. O

rei descobriu o caso, e comprou-o. Tinoco veiu, disfarçado em frade, a

Setubal, contar a conspiração em que o prelado estava, e de que o duque

de Vizeu era chefe; e recebeu cinco mil cruzados em ouro e um beneficio

de seiscentos mil réis, porque D. João II não regateava o preço dos bons

serviços. Estava compilada e tratada «a segunda e desleal desaventura de

que se causou a triste morte do duque de Vizeu». O rei chamou-o a

Setubal, e matou-o por suas mãos ás punhaladas. Prescindiu de processo,

mas não de um auto posthumo, com o fim de justificar o seu crime, e a

perseguição dos mais conjurados. O bispo de Evora foi mettido no fundo

de uma cisterna, em Palmella, onde com peçonha acabou a vida; os outros

foram assassinados ou justiçados, onde quer que os encontraram os

algozes do rei; e um, que conseguira fugir para França, nem por isso

escapou com vida, porque o rei mandou lá um sicario matal-o.

O principe _perfeito_ mostrava-se consummado na arte de reinar, e

ninguem ousava já resistir-lhe. A primeira metade do seu programma

estava realisada--agora o falcão ia alargar os seus vôos amplos!

Ninguem lhe resistia, mas no fundo da consciencia alguma cousa o

denunciava como assassino. Uma noute, em Santarem, acorda em sobresalto,

ouvindo alguem chamal-o. Quem era? Ninguem. Illusões! dizia-lhe a rainha

no leito: era _cousa má_ que andava pelos vãos dos telhados.[72]

O rei não socegava, porém, e levantou-se, vestiu um roupão,

tomou a espada e a rodela, na mão esquerda uma tocha, e viu que uma

sombra o guiava. Quem era? Abria as portas diante do rei, e mostrava-lhe

o caminho. Foram assim até aos vãos dos telhados, a sombra e o rei. Aos

gritos da rainha acudiram todos, e acharam-no no sotão, despejado,

alegre e seguro, diz o chronista mentindo palacianamente. A coruja

noctivaga perseguia o ambicioso falcão: a educação do principe não

conseguira apagar de todo a consciencia do homem.

* * * * *

Fernando e Isabel, de Castella, que lhe haviam tomado o pulso, ainda em

tempo do pae, admiravam-lhe muito as qualidades e tinham-no em grande

conta. Elle, nem por ter tratado as pazes de 1479, desistira dos seus

grandiosos planos. Os reis castelhanos tinham uma filha, D. João II um

filho: o casamento de ambos seria talvez um meio, mais simples e mais

rapido do que uma guerra, para dar ao herdeiro um grande throno.

Tratou-se, ajustou-se e fez-se o casamento (1490); e n'esse dia de

grandes esperanças, o rei sombrio e fanhoso quiz mostrar que tambem

sabia ser magnifico. As bodas de Evora ficaram celebres, e

principalmente o banquete, uma _kermesse_ formidanda. Na sala do jantar,

onde os noivos, o rei, e toda a côrte se achavam, appareceu uma vasta

machina: era um estrado com rodas, tendo em cima um carro com dois bois,

á canga. Os bois estavam assados inteiros, com as pontas e as patas

doiradas; e o carro carregado de carneiros tambem assados, tambem

inteiros, com as armas doiradas. Vinha um fidalgo, de aguilhada ao

hombro a dirigir o carro, e moços empurrando a machina. Deram a volta da

sala, cumprimentando o castelhano, que gabou muito a idéa; e entre os

applausos de todos, o carro saiu, e bois e carneiros foram dados ao

povo, pasmado fóra. Terminado o idyllio culinario, foram-se todos á

comida, a côrte e o povo. Nos velhos tempos do rei D. Pedro essas festas

eram uma só: o rei comia na rua entre os seus, e bailava, ao som das

_longas_, com as raparigas da rua.

Á noute houve _mômos_, que ficaram celebres.

Entrou (el-rei) pelas portas da sala com nove bateis grandes, em

cada um seu mantedor, e os bateis mettidos em ondas do mar feitas de

panno de linho e pintadas de maneira que parecia agua. Com grande

estrondo de artilheria, que troava, e trombetas, atabales, e

menistres altas, que tangiam, e com muitas gritas e alvoroços de

muitos apitos de mestres, contramestres e marinheiros, vestidos de

brocados e sedas, com trajos de allemães, em bateis cheios de tochas

e muitas velas doiradas accesas, com toldos de brocado e muitas e

ricas bandeiras.

E assim vinha uma nau á vela, cousa espantosa, com muitos homens

dentro e muitas bombardas, sem ninguem vêr o artificio como andava,

que era cousa maravilhosa.

O toldo de brocado e as velas de tafetá branco e roxo, a cordoada de

ouro e seda, e as ancoras doiradas. E assi a nau, como os bateis,

com muitas velas de cêra douradas todas accesas, e as bandeiras e

estandartes eram das armas d'el-rey e da princeza, todas de damasco

e doiradas, e vinha diante do batel d'el-rey, que era o primeiro

sobre as ondas, um muito grande e formoso cysne com as pennas

brancas e doiradas, e apoz d'elle vinha na prôa do batel o seu

cavalleiro em pé, armado de ricas armas, e guiado d'elle, e em nome

d'el-rey saíu com sua falla e em joelhos deu á princesa um breve,

conforme sua tenção, que era querel-a servir nas festas do seu

casamento; e sobre conclusão de amores desafiou para justa de armas,

com oito mantedores, a todos os que o contrario quizessem combater.

E por rei de armas, trombetas e officiaes para isso ordenados, se

publicou em alta voz o breve e desafio, com as condições das justas

e grados d'ellas, assi para o que mais galante viesse á teia como

para quem melhor justasse. E acabado, os bateis botaram pranchas

fóra, e saiu el-rey com seus requissimos mômos, e a náu e bateis,

que enchiam toda a sala, se saíram com grandes gritos e estrondo de

artilharia, trombetas, atabales, charamellas e sacabuxas, que

parecia que a sala tremia e queria caír em terra.

El-Rey dançou com a princeza, e os seus mantedores com damas que

tomaram, e logo veio o duque com fidalgos da sua casa, com outros

requissimos mômos. E veio outro entremez muito grande, em que vinham

muitos mômos mettidos em uma fortaleza, entre uma rocha e mata de

muitas verdes arvores e dois grandes selvagens á porta, com os quaes

um homem de armas pelejou e desbaratou, e cortou umas cadeas e

cadeados que tinham cerradas as portas do castello, que logo foram

abertas, e por uma ponte levadiça sairam muitos e mui ricos mômos; e

em se abrindo as portas, saíram de dentro tantas perdizes vivas e

outras aves, que toda a sala foi posta em revolta e cheia de aves

que andavam voando por ella até que as tomavam. E saído este grande

e custoso entremez, veiu outro em que vinham vinte fidalgos, todos

em trajos de peregrinos, com bordões dourados nas mãos, e grandes

ramaes de contas douradas ao pescoço, e seus chapeus com muitas

imagens, todos com manteos que os cobriam até ao joelho, de brocados

e por cima com remendos de veludo e setim... E assi vieram muitos e

ricos mômos que não digo... e dançaram todos até antemanhan; e foi

tamanha festa que, se não fôra vista de muitos, que ao presente são

vivos, eu a não ousara escrever.

O principe _perfeito_ sabia tambem ser magnifico, e qual um Medicis, no

momento opportuno. De facto, o casamento affagava-lhe as esperanças e

ambições, abrindo horizontes de novas grandezas.

Ainda Colombo não descobrira a America, mas o futuro imperio do principe

Affonso alargava-se já por ignotas regiões. D. João II queria dar, em

troca de Castella, um bom dote ao herdeiro; queria-o, além de imperador

da Hespanha inteira, e da Italia hespanhola, imperador dos Estados

orientaes do Preste-Joham. As propostas de Colombo, apesar de recusadas,

excitavam-no; e por terra e mar enviava expedições em busca do lendario

principe. A empreza iniciada pelo infante D. Henrique proseguia nas mãos

do rei, que tomára a peito descobrir os mundos remotos. O seu poder

naval era já tão grande, que o Tejo via com pasmo o famoso galeão de mil

tonneis, monstro boiando n'agua, erriçado de canhões. Nunca os

estaleiros tinham produzido navio tão grande; nunca até ahi surgira a

idéa que o rei teve de artilhar as caravelas, dando um alcance e uma

mobilidade desconhecida aos trons do mar. No seu pensamento havia um

proposito firme de o subjugar, desvendando-o até aos seus ultimos

confins, dissipando inteiramente as trevas e mysterios das ondas. Mandou

aperfeiçoar as bussolas, desenhar cartas maritimas para orientação das

rotas; commettendo esses estudos a uma Junta em que entraram os seus

phisicos, mestre José e mestre Rodrigo, ambos judeus, com o famoso

allemão Behaim, discipulo de João Monte-Regio, que em Vienna estudára

astronomia com o celebre Purbach. Foi essa junta que inventou as taboas

da declinação do sol, permittindo aos navios alongarem-se das costas,

rumando seguros em alto mar. Traçavam-se como que estradas sobre as

ondas, estradas tão mysteriosas como as regiões da Mina, cuja navegação

costeira a astucia do rei envolvia em descripções terriveis para

afugentar rivaes--á maneira do que os phenicios tinham feito, quando os

romanos pretendiam seguil-os nas suas viagens mediterraneas.[73]

A posse dos segredos das costas e dos segredos das rotas

enchia de confiança o animo do rei no futuro grandioso do seu imperio. O

cabo da extrema Africa, limite por tanto tempo invencivel, tinha já

recebido o nome de Boa-Esperança! (1486).

Aladas esperanças eram todas essas que o rei afagava, olhando a cabeça

do filho. N'este momento, a que podemos e devemos chamar revelador, D.

João II teve a consciencia do famoso destino que se preparava á

Hespanha: do seu imperio universal, da extraordinaria vastidão do seu

poder politico, e da sua influencia moral. Symbolisava tudo isso na

cabeça do filho amado; porque a cegueira dos homens careceu sempre das

lunetas de um symbolo para vêr de certo modo a realidade das cousas. Os

symbolos passam, as cousas ficam; e da mesma fórma os homens morrem e as

idéas vivem eternamente. E, na sua fraqueza, o espirito humano amortece,

desespera e cáe quando vê apagado ou destruido o symbolo em que para

elle estava, mesquinhamente, a realidade inteira.

O funesto acaso da queda de um cavallo, matando o principe Affonso

(1491), foi para D. João II como o tiro do caçador, quando n'um instante

precipita, ás voltas, o passaro que de azas pandas vogava, inebriado, no

oceano do ar e da luz. O largo vôo do falcão estacou, e todas as

illusões se apagaram deante do cadaver gelado do principe, casado de um

anno. Essa vida que se finára, levava comsigo todos os sonhos doirados,

todas as esperanças, todas as chimeras!

Foi um choro universal. «El-rey por tamanha perda, tamanho nojo e

sentimento, se trosquiou. E elle e a rainha se vestiram de muito baixo

panno negro. E a princeza trosquiou os seus bellos cabellos e se vestiu

de almafega e cabeça coberta de negro vaso.» Nas exequias, os homens, as

mulheres, até as creanças, tomados de vertigem, arrancavam as barbas e

os cabellos, davam bofetadas nas faces, batiam com as cabeças nas quinas

da eça funeraria, e arranhavam o rosto a fazer sangue. O luto era geral

e desvairado. Á imitação do rei e da princeza viuva, toda a gente andava

tosquiada; o os que não podiam, por pobres, comprar o burel, que

encarecera excessivamente, adoptaram trajos extravagantes: as mulheres

vestiam as saias do avêsso, e os homens punham em cima de si os saccos

de forragens e os xaireis ou cobertas das bestas de carga.

Este incidente imprevisto da morte do principe é um dos que obrigam a

meditar sobre o valor do acaso na historia. Tivesse-se consummado a

união dynastica de Portugal ao resto da Hespanha já unificado, e a

historia da Peninsula, a historia da Europa, seriam diversas.[74]

Que papel teria tido no mundo um imperio exclusivamente

senhor de todas as regiões descobertas? Que teria succedido, se Carlos V

e a dynastia austriaca não viessem reinar em Hespanha, pondo nas mãos de

um homem o imperio da Allemanha, da Italia e da Peninsula iberica? Acaso

a união, realisada no periodo ascencional da Hespanha, se tivesse

consolidado abafando o cristallisar da alma portugueza na éra classica e

abastardando a semente que nos deu Camões. Unido então, Portugal ficaria

como se nunca tivesse existido, por isso que não chegára ainda a

formular o seu pensamento historico, nem a consummar a sua empreza...

D. João II, humilhado, abatido, e rapado por dó, voltou a envergar o

habito da coruja, para morrer (1495). Agonisante, mal podendo articular

já as palavras, com uma voz arrastada e fanhosa que a proximidade da

morte fazia satanica, dizia, encostando a cabeça felina sobre a mão

descamada: «Persigam-me sem dó os filhos do Bragança!»

[71] V. _Hist. da civil. iberica_ (3.ª ed.) p. 137-49.

[72] _V. Systema dos mythos relig._, p. 291.

[73] V. _As raças humanas_, liv. IV, 3.

[74] V. _Theoria da hist. universal_, nas _Taboas de chronol._,

pp. XXXII-III.

* * * * *

IV

Em demanda do Preste-Joham das Indias

No verão de 1486 tinha Bartholomeu Dias partido de Lisboa, para dobrar o

Cabo da Boa Esperança; o que de facto conseguiu, não podendo porém ir

mais ávante, porque lh'o não consentiram as tripulações assustadas. No

mesmo anno mandára o rei, por terra, para o Oriente, Antonio de Lisboa e

Pero Montaroyo, que não passaram de Jerusalem, por só ahi reconhecerem

que, não sabendo falar o arabe, não podiam intentar a viagem.

No anno seguinte, portanto, escolhem-se dois homens que sabem arabe,

para ir por terra descobrir o Preste-Joham. A viagem por mar, ou se

abandonava por parecer impossivel, ou aprazava-se para mais tarde:

quando houvesse informações mais cabaes, colhidas nas expedições por

terra. Affonso de Payva e Pero da Covilhan partiram de Lisboa, via

Napoles, com cartas de credito sobre o principe banqueiro, Cosme de

Medicis. D'ahi os viajantes embarcam para Rhodes, depois para

Alexandria, d'onde seguiram pelo Cairo para Tur, (Tor) na praia do mar

Vermelho ao sopé do Sinai, como mercadores, acompanhando as caravanas.

De Tur foram a Aden, onde se separaram: Covilhan para a India, Payva

para Suâkin (Suaquem) na costa da Abyssinia; aprazando o encontro, á

volta, no Cairo.

Covilhan, em Aden, embarcou para Kananor, no Malabar, e d'ahi foi a

Kalikodu (Calecut) e a Gôa. Atravessou, depois, o oceano indico, indo

parar a Sofala, onde colheu noticias sobre a costa oriental da Africa, e

sobre a ilha da Lua (Madagascar). Voltou logo ao Cairo, pressuroso de

enviar a Lisboa as importantes informações obtidas, e ahi soube da

prematura morte de Payva. Recebidas em Lisboa as cartas do viajante, D.

João II recambiou logo os arabes seus emissarios, com ordem de visitarem

Hormuz e a costa da Persia. Executada essa missão, Covilhan, cujo

primeiro dever era obter noticias do Preste-Joham, partiu para a

Abyssinia. Já por esta epocha o encantado principe que, segundo Marco

Paolo, habitava a Asia central, fôra transferido para a Nubia: e a lenda

personalisava no obscuro Negus o extravagante monarcha, tão falado e

admirado em tempos anteriores. Covilhan, de quem não houve outras

cartas, por largos annos aprendêra no Oriente a verdade; mas não podia

transmittil-a para Portugal. Preso, sem ser maltratado, favorecido e

rico pelo contrario, viveu por trinta e tres annos na Ethiopia,[75]

onde acabou.

Historia de Portugal: Tomo I · 第 13 / 21 段