Fernando. Os cuidados do rei em favor da marinha mercante abraçavam
tambem a marinha de guerra. A armada que foi bloquear Sevilha (1372)
era, no dizer do chronista, _formosa campanha de ver_. Mice Lançarote
Peçanha, da linhagem do genovez, ia de almirante; e o cosmopolitismo da
nova patria portugueza vê-se bem no nome dos capitães: um João Focin
castelhano, um Badasal de Spinola, um Brancaleon. Como Roma, Lisboa
recebia no seu seio e nacionalisava gentes de toda a parte; e d'este
agglomerado de caracteres, naturalmente inorganico, sairá, no momento
culminante do XVI seculo, um espirito superior ao espirito
nacional-natural e a noção de uma patria moral ou ideal, como foi a
patria de Virgilio.
A esquadra de Sevilha contava trinta e duas galés, trinta náus redondas,
afóra as que vieram _per ella da costa do mar_. Vinte e tres mezes teve
bloqueado o Guadalquivir, e retirou com a paz. Outra frota, quasi tão
poderosa como esta, foi ainda ao Mediterraneo, na seguinte guerra de
Castella, para soffrer o desastre de Saltes (1381) consequencia da
temeridade do fanfarrão Affonso Tello.
Agora, fundeada no Tejo, a armada, espera o rei e os principes para ir
conquistar Ceuta, em Africa.
[58] V. _As raças humanas_, I, pp. 96-9.
[59] V. _Hist. da civil. iberica_ (3.ª ed.) pp. VII-VIII e
_Elem. de Anthropol._ (3.ª ed.) pp. 126-7 e 215-17.
[60] V. _As raças humanas_, liv. IV, 2.
[61] _Ibid._, pp. 111-18.
[62] Seguiremos em geral a orthographia de Kiepert nos seus Atlas,
com referencia aos nomes geographicos do Oriente, traduzidos
nas nossas chronicas pelo ouvido dos soldados da India.
[63] V. _As raças humanas_, I, pp, 94-6 e _O Brazil e as colon.
port._, (2.ª ed.), pp. 244-8.
[64] V. _As raças humanas_, I, p. 184.
[65] V. A chronologia particular das viagens de descoberta no
_Brazil e as colonias portuguezas_ (2.ª ed.) pp. 2-3.
[66] V. _As raças humanas_, I, pp. 116-7.
[67] V. _O Brazil e as colon. port._, (2.ª ed.), pp. 14-5.
[68] V. no _Regimen das riquezas_, pp. 81-8, a evolução dos
vehiculos maritimos.
[69] A dobra continha 4 libras e 2 soldos; 50 dobras compunha o
marco de ouro cojo valor moderno é de 120$000 rs; a dobra
equivaleria pois a 2$400 rs.; e o rendimento da Alfandega a de
84 a 96 contos. Havendo no porto, como diz o chronista,
«400 a 500 navios de carregação» e em Sacavem e no Montijo,
a carga do vinho e do sal, 60 ou 70 em cada logar, suppondo
que esses navios se substituissem quatro vezes, fazendo quatro
viagens n'um anno, e sabendo nós que a sua lotação média
regularia por 100 toneladas--vemos que o movimento do porto
attingia mais de 200:000 toneladas de generos diversos.
Comparando-a com o rendimento da alfandega, faremos idéa
do grau de franquia do porto.
* * * * *
II
Portugal em Africa
Todos estavam impacientes por partir; mas o vento norte fresco, o vento
de monção, assobiava contra as paredes do quarto onde jazia moribunda,
com a peste, a rainha D. Philippa. Ninguem pozera na empreza melhor amor
do que ella: mandára fazer tres espadas cravadas de pedraria para os
filhos, que em Ceuta haviam de ser armados cavalleiros; mas o destino
não lhe consentiu vêr terminada a façanha. Morreu; e ainda não se tinham
acabado de arrancar das paredes do convento de Odivellas os pannos de dó
do enterro, quando a armada partia. Morrera a 20; são hoje 25 do mez de
julho de 1415.
As pazes celebradas com Castella no anno anterior tinham dado o socego a
uma côrte onde fervia o desejo de praticar grandes cousas. Diz-se que o
rei pensára em abrir em Lisboa um torneio de um anno, onde viriam os
mais celebres cavalleiros da Europa medir-se com os portuguezes; mas
esse plano extravagante foi substituido pelo projecto mais sensato de ir
a Ceuta. Para não prevenir os inimigos, conservára-se um segredo
absoluto sobre o destino da grossa frota que se reunia em Lisboa. Todos
temiam: o aragonez, e principalmente o mouro de Granada. Vinham de
varias partes soldados e navios. D. Duarte apparelhára em Lisboa oito
galeões, e D. Henrique tinha chegado do Porto com uma divisão de
cincoenta e dois navios de toda a classe. Havia inglezes, francezes e
allemães na armada, que, depois de inteiramente reunida, contava 33
galeões grandes, 27 menores, de tres bancos de remeiros, 32 galeras e
120 fustas, transportes, e outros vasos secundarios. Iam embarcados
cincoenta mil homens.
Ao passarem á vista do cabo de S. Vicente os navios baixaram as velas
_por razam das reliquias que ali havia_. Ainda em Sagres não existia ao
tempo a eschola do infante, mas o preito dado ao logar sagrado para
muitos parecerá symbolico. Era esta a primeira grande empreza maritima
de Portugal; ou antes e melhor, era a primeira vez que as esquadras
portuguezas saíam de Lisboa com o fito de alargar o reino para além do
mar. Inexperientes ainda os pilotos, as correntes do estreito dispersam
a poderosa armada, parte da qual é arrastada até Malaga, indo o resto
fundear em Ceuta.
Não nos permittem as proporções d'esta obra narrar todas as batalhas e
cercos, nem isso importa; pois que, salvas excepções que temos tomado em
conta, todos se parecem entre si. Nenhum caracter novo, nem particular,
apresentou a tomada da cidade que, colhida de improviso, não pôde
resistir. Os moradores abandonaram-na depois de um combate em que
obtiveram a prova da inutilidade da defeza; e os christãos saquearam a
cidade deserta, arrancando as columnas de alabastro, os marmores das
portas e janellas, os tectos lavrados em paineis dourados, dos palacios
da opulenta Ceuta. Emquanto a turba dos soldados se espalhava pelos
meandros das ruas e pelas casas da cidade abandonada, os fugitivos, de
longe, sobre as collinas, bradavam desesperados e miseraveis n'um triste
clamor de perdidos. Ficavam-lhes além, dentro dos muros da cidade
tomada, afóra tudo o que possuiam, os cadaveres insepultos dos muitos
que na vespera tinham morrido no combate.
Ceuta era portugueza; e uns sinos, antigamente tomados em Lagos, serviam
desde logo para solemnisar a sagração da mesquita dos infieis. O infante
D. Henrique, principal author, denodado executor da empreza, recebeu o
titulo de duque, novo então em Portugal. Todos os tres irmãos foram
armados cavalleiros.
Que se faria porém de Ceuta? Muitos opinavam pelo abandono, recolhido,
como estava, o saque: eram os que ignoravam os vastos designios do
infante, ou os não approvavam.
Ceuta guardou-se como principio de mais dilatadas emprezas.
* * * * *
Vinte annos decorridos--em que o infante se déra principalmente aos seus
trabalhos de Sagres,--e vendo acaso que as descobertas das ilhas do
Atlantico não valiam assaz perante os sonhos da sua ambição, e que ao
longo de Africa pouco se adiantou por mar, torna a preoccupal-o a idea
das conquistas marroquinas, desde tempo postas de parte. A Atlantida
mysteriosa teimava em não apparecer; ou reduzia-se afinal á Madeira, ou
ao archipelago açoriano, onde não havia, nem encantos, nem muralhas
d'ouro, nem estranhas gentes: só desertos cerrados de florestas, bravios
de abrir, e pouco remuneradores. O reino encantado do Preste-Joham
fugiria deante dos navios aventureiros, como uma miragem enganadora?
Já D. João I morrera a este tempo, e governava o reino o bom, infeliz D.
Duarte. O ambicioso irmão levou-o a emprehender a conquista de Tanger,
depois de ter convencido a que o acompanhasse o infante D. Fernando. O
rei, ou approvou, ou não teve energia bastante para se oppôr á temeraria
empreza. No conselho em que ella se debateu, porém, o outro irmão, D.
Pedro--cuja sensatez parece tel-o já a esta epocha afastado de uma
côrte, onde a irrequieta ambição de D. Henrique governava--observa que
tudo falta, para esperar um bom exito. Não havia dinheiro para custear o
exercito, e, sem grande cargo de sua consciencia, o rei não o podia
tomar aos povos. Mudar a moeda (enfraquecel-a) em proveito proprio, não
o devia: fallece-vos o principal cimento da passagem! Posto que Tanger
se tomasse, e Arzilla, e Azamor, que se lhes faria? Do reino, despovoado
e mingoado, era loucura enviar gente a guarnecel-as: seria trocar boa
capa por mau capello, perder Portugal sem por isso ganhar a Africa. O
exemplo dos castelhanos não colhia, porque dispunham de mais vastos
recursos.--O infante vira muito mundo, e aprendera a medir pelo seu
justo peso a importancia limitada da nação. A ignorancia, mãe de todas
as temeridades e audacias, não o cegava.
D. Henrique, pertinaz, decidido e, por sobre isso, violento e sem
carinho, não perdoou decerto a sabia prudencia com que o irmão se
oppunha aos seus designios. As relações de ambos, já frias, azedaram-se
talvez; e porventura aqui esteja o motivo da indifferença com que D.
Henrique ouviu os rogos do irmão, quando mais tarde lhe pedia que o
servisse perante o sobrinho, Affonso V--indifferença que decerto
concorreu para a morte de D. Pedro em Alfarrobeira, se porventura a não
causou.
As advertencias do principe no conselho eram tanto mais graves, quanto
os seus argumentos eram absolutamente fundados, positivos; e grandes os
creditos da sua opinião, merecido o respeito que todos tributavam ao seu
caracter. Por isso, apesar da nenhuma brecha que os argumentos, por via
de regra, fazem nas teimas, o rei (ou D. Henrique) julgou necessario
escudar-se com o parecer do papa. Consultou-se, pois, Roma; e a
resposta, que de lá veiu honra o nome do que a deu: «Se as terras foram
christans e ha templos convertidos em mesquitas, a guerra é santa; se o
não foram, deve distinguir-se: são visinhos incommodos e põem em perigo
os christãos? admoestem-se, ameacem-se e só em ultimo caso se recorra ás
armas. Não é este, porém, o caso? então, deixem-nos em paz, porque a
terra e a abundancia d'ella é do Senhor, que faz nascer o sol sobre os
bons e os maus, e dá de comer a todas as aves do céu.»
Esta ultima das tres hypotheses indicadas pelo papa era a verdadeira, o
que não impediu o infante de proseguir na sua teima. «A gente do reino
havia esta ida por tão pesada, que a mais d'ella preferia pagar as
multas (impostas aos refractarios ao alistamento) a arriscar as vidas.»
Nem as multas, nem o dinheiro do rei, nem os emprestimos, bastavam,
porém, para supprir o orçamento da armada; e por isso lançou-se mão dos
bens dos orfãos. Porém, apesar de tudo, dos 14:000 homens com que se
contava para a ida, apenas 6:000 se conseguiu reunir.
Partiram, afinal, os dois irmãos; mas logo um mau agoiro entristeceu os
soldados: o vento despedaçou a bandeira do infante, quando a
desfraldava. Essa bandeira, sobre que o mouro havia de cuspir affrontas,
ia já rota de Portugal...
O resultado correspondeu ás previsões geraes: depois de batida, a
expedição portugueza teve de capitular sob os muros do Tanger (1437),
deixando D. Fernando em refens de Ceuta, que era o preço da liberdade do
exercito. Tristes lagrimas de desespero orvalharam então as areias da
costa africana: não seriam as ultimas, nem as mais copiosas. D. Henrique
voltava com as reliquias da sua expedição, deixando o irmão preso. «Que
el-rey se lembre de mim... roguem por minha alma, que é a ultima vez que
nos veremos!» dizia o infeliz ao despedir-se, em lagrimas. D'alli os
mouros levaram-no a Fez. Ia como Isaac para o altar, ou como Jesus para
o Calvario. Conduziram-no montado n'um sendeiro mui magro, desferrado,
tendo por freio umas tamiças, a sella esfarrapada, os arções
despregados. Deram-lhe tambem uma canna, para guiar a azemola. Atraz
d'elle iam os outros prisioneiros amarrados sobre as bestas de carga. A
gente acudia ao caminho de Fez, chamada pelo pregão: «Venham vêr o rei
dos christãos!» E os apupos, as pedradas, os escarros, caíam sobre os
infelizes, chouteando, na sua paixão, esmagados por um sol abrazador.
Uns, com os apupos, remordiam-se colericos; o infante, submisso e
conformado, lembrava-se de que outro tanto, e mais ainda, soffrera Jesus
por elle. Antes, porém, ser de uma vez crucificado, do que acabar
lentamente nas lobregas estrebarias de Fez, varrendo as immundicies,
comido de bichos, devorado de febres, porque nem a lentidão do martyrio
lhe poupou o cadaver aos insultos da turba. Pendurado nú, pelos pés, nas
ameias da cidade, foi a sorte que lhe deram. Antes, pregado na cruz,
tivesse expirado como Christo. O pobre infante é o primeiro martyr da
nossa epopêa; e se nos honramos do muito que fizemos, é agora o momento
de deixar aqui uma lagrima de saudade e pena por esse infeliz precursor
do nosso imperio!
* * * * *
De volta ao reino, e salvo, D. Henrique oppoz-se decididamente á entrega
de Ceuta. O rei, lavado em lagrimas pela sorte do irmão, morreu logo no
anno seguinte, triste e taciturno. Com a deshumanidade de um apostolo,
D. Henrique sacrificava tudo e todos á sua fé. Por cousa nenhuma
consentiria que se entregasse Ceuta: e os reinos do Preste-Johan? e o
imperio do Oriente? Homens, familia, palavra, tudo era vão, diante
d'essa miragem que, desde tantos annos, lhe punha a cabeça em delirio.
Com o seu braço conquistára Ceuta: arrastára a Tanger o irmão; deixára-o
lá perdido, nas mãos féras dos inimigos: tudo isto eram holocaustos no
altar da sua idéa. Quem sabe se elle mesmo não choraria a sós a
crueldade do seu destino, e a desgraça do irmão que levára ao cepo do
sacrificio? Não é, comtudo, provavel. Pelo menos, a impressão que o
leitor d'estas historias recebe da narração dos seus actos consecutivos,
é a de que no caracter do infante não primava a humanidade.
Voltou a encerrar-se em Sagres, com os seus livros, os seus mappas, os
seus cosmographos e mareantes: voltou a olhar para o mar--pois que, por
largos annos, para sempre talvez! estava perdida metade da sua empreza.
Os seus navegadores iam vogando e _resgatando_[70] ao longo
da costa da Africa: e as ilhas dos Açores iam successivamente saindo dos
arcanos do Mar Tenebroso. O papa (Nicolau V) dava-lhe o senhorio e
dominio sobre todas as descobertas na Africa (1454): e o infante, no
meio das contrariedades, não desanimava na sua fé.
Entretanto o reino passára, das mãos da rainha viuva, para as do infante
D. Pedro (1438) e d'estas, finalmente, para as de Affonso V (1446);
entretanto miseraveis intrigas, a que D. Henrique não quiz oppor-se para
salvar o irmão que lh'o pedia, tinham levado á desgraça de Alfarrobeira
(1449); e o infante, com a influencia que exercia no curto espirito do
sobrinho, facilmente o decide a lançar-se nas aventuras africanas: já
morrera D. Pedro, para vir repetir o que dissera nas vesperas de Tanger.
Quando, em 1460, morreu D. Henrique, esse principe tão funesto aos seus,
mas tão proveitoso para o reino, já Affonso V tinha conseguido tomar
Alcacer-Seguer (1458). Dez annos depois, a conquista de Arzilla importa
a rendição de Tanger. O dominio portuguez na costa de Marrocos chegava
ao apogeu; mas qual era o resultado d'essas emprezas? Vinha por ahi a
Portugal o commercio das Indias, como D. Henrique pensára? Não.
Monopolisado pelos arabes no Oriente, logo que Ceuta foi para elles
perdida, desviou-se para outros portos do Mediterraneo. Varrida essa
illusão, que restava? Uma serie de praças fortes, eschola de soldados,
fonte de permanentes conflictos, esteril em proventos, pasto para a van
necessidade batalhadora da nação: precipicio aberto, que ia tragando,
improficua e ingloriamente, muitas forças vivas do paiz. A opinião do
sabio principe D. Pedro era absolutamente verdadeira: nós não tinhamos
recursos, no reino pequeno e pobre de gente, para povoar Marrocos; e
mudar parte de uma população escassa, de Portugal para a Africa, era
trocar «uma boa capa, por um mau capello». Á conquista de Ceuta movera
ainda uma illusão: mas agora, varrida ella, as campanhas de Africa eram
uma serie de emprezas quixotescas, que viriam a terminar pela doidice
varrida de D. Sebastião.
Contra uma opinião muito acceite, nós pensamos, pois, que a decisão de
D. João III, abandonando as praças africanas, só peccou por serodia; e
que Portugal nada tinha a esperar do seu dominio na Barberia--desde que
o destino o levava para o Oriente, e desde que era manifestamente
provado não poder chegar-se lá por via de Marrocos. Incidente na nossa
vida nacional, o dominio portuguez das praças do litoral d'Africa é
apenas um episodio da grande historia das descobertas e conquistas
ultramarinas; e o seu melhor merecimento foi de servir de eschola para
os guerreiros da India, de posto de acclimação--como hoje Malta ou
Gibraltar, para os inglezes. Para padrão das façanhas de Affonso V e das
lançadas de Lopo Barriga, não valia a pena que custou, ainda quando não
fosse a causa da final catastrophe de D. Sebastião.
[70] _Regime das Riquezas_, pp. 92 e 107-9.
* * * * *
III
O principe perfeito
Perfeito não quer dizer sem nodoa, mas sim acabado, completo; não tem
aqui uma significação moral, tem um valor politico. D. João II é um
exemplar _perfeito_ do genero dos principes da Renascença, para quem
Machiavel escreveu (um pouco depois) o cathecismo: é um mestre da
moderna arte de reinar.
O exemplo mesquinho da pessoa do antecessor e pae, Affonso V, as
desordens do reino e a fraqueza do rei, tinham educado o espirito agudo
e observador do moço principe.
A tragedia de Alfarrobeira (1449) começára com um crime o espectaculoso
mas triste reinado do _africano_; e o epitheto dado ao rei ajudou a
formar a tradição de um homem cheio de valor e tenacidade, coisa que o
pobre Affonso V jámais foi. Combater com denodo, n'um momento de furia,
era uma qualidade commum que lhe não faltava; mas d'ahi ao valor
consummado vae uma distancia enorme. O grande defeito da sua mocidade
fôra a facilidade com que se deixava lisongear. Tutelado na sua
menoridade, pela mãe primeiro, pelo tio e sogro depois, o pobre rei
soffreu as consequencias communs a quasi todos os principes, como elle
acclamados em creanças. Em volta do rei, pupillo de futuro imperante,
formou-se um partido de adversarios da regencia, ambiciosos a quem não
satisfazia o juizo do infante D. Pedro, cheios de esperanças na
liberalidade e no caracter desegual do moço rei. Exploravam-lhe as
fraquezas, açulando-lhe os odios nos momentos de colera, distrahindo-o
com facecias e ditos nas horas de abatimento, gabando-lhe tudo: os
arremeços e as cobardias, a brandura e a colera, como aduladores de
officio. Da insensatez do rei esperavam colher uma farta ração de
beneficios e presentes. Apesar de o infante já ter feito entrega da
regencia, temiam-no ainda sobremaneira, e não cessavam de o malquistar
no animo do sobrinho e genro. D. Pedro em vão instava com o irmão, D.
Henrique, para que desmanchasse essas perfidias. Aborrecido de viver,
desejoso de deixar o mundo, o ex-regente via que tudo se conspirava para
o perder. «Era grande principe, de grande conselho, prudente, de viva
memoria, bem latinado, e assaz mixtico em sciencias e doutrinas de
letras, e dado muito ao estudo.» Era um dos poucos, a quem a sabedoria
tornára realmente bons.
Os seus brios offendidos, a perfidia dos validos, o tonto desvairamento
do rei, levaram ao encontro de Alfarrobeira, quando o principe vinha á
côrte justificar-se das calumnias: e vinha armado, por saber que no
caminho o esperavam para o matar. Effectivamente o mataram, a elle, e ao
seu fiel Achates, o nobre conde de Avranches, typo de lealdade
cavalheiresca, sempre rara, e agora de todo ausente em côrtes
italianisadas. Morto o seu principe, o conde prepara-se para morrer
tambem, vingando-se: «Ó corpo! já sinto que não podes mais; tu, minha
alma, já tardas!» E com furia, defendia-se e matava. Quando por fim o
derrubaram, ferido, cruzou os braços, dizendo: «Fartar, rapazes! vingar,
vilanagem!» E morreu, trespassado de lanças.
Livre do importuno conselheiro, Affonso V e os fidalgos da sua roda, tão
simples e estouvados como o rei, puderam abandonar-se á vontade ao
capricho das suas loucuras e batalhas. Fatigando o povo com impostos,
desbaratando com prodigalidades o patrimonio da corôa, o rei, levado
pela sua mania, sacrifica tudo ás correrias africanas, que a
decomposição interna do imperio marroquino já tornava possiveis.
Mais de vinte annos consumiu em taes emprezas que o envelheceram. Era
corpulento, e com os annos tornára-se gordo, a ponto de não poder já
usar senão vestiduras soltas. Tinha a barba espessa, e era calvo; os
cabellos ennegreciam-lhe as mãos, as orelhas, o nariz, accusando a
vulgaridade e a violencia bravia do seu temperamento. Apesar de bem
proporcionado, era tão commum no aspecto como no espirito. Brutal e
vingativo, obtuso mas teimoso, e até cruel, a sua phisionomia reproduzia
a do commum dos homens d'armas; e imprimiu o cunho a esses guerreiros de
Africa, broncos, sem o menor requinte de perversidade fina, nem ponta de
elevação distincta: como touros que marram ás cegas e qualquer destro
bandarilheiro dóma.
Foi isto mesmo que succedeu a Affonso V em França, onde Luiz XI se
fartou de rir do simples, illudindo-o com promessas, fatigando-o com
viagens, picando-o com ironias perdidas, carregando-lhe a nuca de
lisonjas, cumprimentos e attenções, como o bandarilheiro faz ao touro,
quando o carrega de vistosas farpas, bem aguçadas.
Affonso V fôra a França pedir auxilio, porque o castelhano batera-o. Em
1474, Henrique IV de Castella ao morrer, deixava por herdeira D. Joanna,
a _beltraneja_ (assim os adulterios da mãe tinham denominado a filha)
confiando o governo do reino ao visinho de Portugal, e pedindo-lhe que
casasse com a sobrinha. Affonso V julgou que o reino de Castella era a
nova Africa da sua velhice, e poz-se em campo para conquistar a corôa
testada; conquistar, dizemos, porque os castelhanos invocavam contra a
_beltraneja_ os mesmos argumentos que, um seculo antes, nós invocavamos
contra a mulher de João I, D. Beatriz. Castella offerecia o throno a
Isabel, como nós o tinhamos dado ao Mestre de Aviz.
Affonso V poz-se em campo. Já ao seu lado se via a reservada figura do
filho. Receioso das loucuras do velho, arrancára da sua fraqueza um
titulo secreto, pelo qual o rei annullava todas as doações superiores a
dez mil réis de renda que fizesse durante a guerra. O pae dava e não
dava, o filho dobrava cuidadosamente o papel, guardando-o para o futuro...
A batalha de Toro (1476) não foi propriamente uma derrota militar,
mas foi uma derrota para o rei e para as suas ambições. O pobre
velho, gordo, estafado, sem poder comsigo, foi correndo abrigar-se
em Castro-Nuño, e deitou-se logo a dormir. Avendaño, o fidalgo do
lugar, declarára-se por elle: mas a mulher, castelhana esperta,
apontava-lhe o volume de carnes, para alli deitado a resonar
ruidosamente, como os gordos, e dizia ao marido:--«Olha lá por quem te
perdeste!»--Effectivamente o rei não valia para cousa alguma. Os
castelhanos rebeldes desde logo reconheceram o seu erro, e Affonso V
tomou a resolução de ir pedir a Luiz XI que lhe valesse.
O principe herdeiro aprendia muito, porque observava tudo, com o seu
olhar profundo e sagaz. Deixou ir o pae, e ficando a reger o reino,
continuou, por amor da honra, mas sem calor, uma guerra que elle decerto
via não conduzir ao fim desejado. Emquanto o pae andava por fóra,
acclamaram-no, ou acclamou-se rei: diz-se que de França lhe viera uma
abdicação. Porém Affonso V, desilludido afinal, decidiu-se a voltar; e o
principe entregou-lhe immediatamente a corôa. Guardal-a, para que? Se
elle, de facto, continuava a reinar em nome do pae, desfeiteado,
vencido, quasi moribundo? Todas as maximas que Machiavel escreveu no seu
livro do _Principe_, tinha-as antecipadamente D. João II na memoria:--É
melhor ser louvado do que aborrecido, mas só quando isso não prejudica;
o bem é preferivel ao mal, quando se póde escolher entre ambos para se
conseguir um fim.--Por isso, como sabio principe, decidia-se a reinar
sob o nome do pae, já inteiramente docil e subjugado por tantas
miserias, esperando o momento proximo de outra vez tomar o nome de
rei--méra formalidade.
No decorrer de dois annos (1479-81) a paz, negociada pelo principe
_perfeito_, fazia da _beltraneja_, encerrada n'um convento, a
_excellente-senhora_, e do rei um cadaver, afogado n'uma agonia de
afflicções pungentes.
O filho não tinha nada dos loucos desvarios do pae, e desde logo vira o
absurdo da guerra de Castella. Seria mais nobre e cavalleiroso proseguir
valentemente na defeza dos direitos da corôa, da honra do velho, e da
vida e sorte da infeliz princeza confiada á guarda de Portugal? Seria.
Mas D. João II pensava (Machiavel) que o principe não deve preoccupar-se
com a infamia dos seus actos, quando sejam necessarios á conservação do
Estado; e que, depois de tudo bem pesado, praticar uma certa virtude
póde muitas vezes trazer a ruina, quando a infamia traria comsigo a
segurança e a fortuna.